scieee Science in your language
[po] (orig)

Caso Alcindo Monteiro. Etnografia audiovisual de uma noite longa

Abstract

“Gang Killing explodes myth of racial tolerance” (The Independent, 16/06/1995) é a manchete garrafal utilizada pelo jornal britânico na sequência do caso Alcindo Monteiro. E, de facto, há alguma sumptuosidade nessa afirmação que supera o sensacionalismo jornalístico. A 10 de Junho de 1995, sob o pretexto múltiplo de celebrar o Dia da Raça e a vitória do Sporting para a Taça de Portugal, um grupo volumoso de nacionalistas portugueses saem às ruas do Bairro Alto com o objetivo de espancar todas as pessoas negras que encontrassem pelo caminho. O resultado oficial do evento foram 11 vítimas, uma destas mortal, Alcindo, cuja trágica morte na Rua Garret atribui o nome ao processo de tribunal - o caso Alcindo Monteiro. O evento foi extensamente trabalhado pela imprensa nacional, introduzindo um debate sobre racismo organizado na sociedade portuguesa e politizando certos setores da população negra de Portugal. A sua dimensão vulcânica expressa-se, antes de mais, como uma extrusão simbólica das problematizações conjunturais, que irá reconfigurar as práticas e discursos contemporâneos sobre racismo. O objetivo desta etnografia é realizar esta incisão etno-histórica neste evento crítico, e observar como performances do presente o reconstroem, com o objetivo de empreender um estudo situacional desta memória.

Read accessible full text

Caso Alcindo Monteiro. Etnografia audiovisual de uma noite longa

Author: Dores, Miguel Fonseca
Year: 2021
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/135939/1/ALCINDO%20-%20Trabalho%20de%20projeto%20%28Miguel%20Dores%29.pdf
ALCINDO
E nog a ia audio isual de uma noi e longa
Miguel Fonseca Do es
T abalho de p oje o de mes ado em An opologia – Cul u as Visuais
O ien ado as: Ca a ina Al es Cos a e Bela Feldman-Bianco
Julho 2021
TRABALHO DE PROJETO APRESENTADO PARA CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS
À OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM ANTROPOLOGIA – CULTURAS VISUAIS REALIZADO SOB
A ORIENTAÇÃO CIENTÍFICA DAS PROFESSORAS CATARINA ALVES COSTA E BELA FELDMAN-
BIANCO
1
AGRADECIMENTOS
O abalho de p oje o que enho a a és des a disse ação ap esen a é ei o de
múl iplas con ibuições indispensá eis à sua ealização, sendo a minha apenas uma
des as, como compilado de in e locuções, obse ações e a qui os. A endendo ao de ca iz
absolu amen e di e so das con ibu os a sua se iação po o dem de impo ância é
po encialmen e equi ocada. Po isso, ap esen a ei uma o dem que pode ia se acilmen e
se is a e e is a, p oposi adamen e inconclusa:
À Bea iz Ca alho e ao Filipe Casimi o, meus g andes amigos, e p imei as duas
pessoas a ac edi a nes e p oje o, pa icipando de o ma olun á ia e dedicada em odas
as ins âncias da in es igação e ealização documen al, aquele ag adecimen o que não cabe
em pala as, e cuja e ibuição espe o ex ingui ao longo de oda a minha ida.
Um ag adecimen o especial à Bia, minha companhei a nes a caminhada, po e
cho ado e ga galhado comigo cada obs áculo e i ó ia des e p oje o, o nando-se
indispensá el não apenas pelo apoio mo al e a e i o, mas po e sal ado pa a a linha da
en e di e sas ezes, azendo e lexões e «mão-de-ob a» essenciais à cons ução do
documen á io.
À Luísa e Joana, i mãs de Alcindo, bem como a oda a amília, um gigan e
ag adecimen o pelos ensinamen os, as con e sas, as ca acoladas e as cachupas, bem como
pela co agem com que olham o p esen e e nos pe mi i am obse a es e passado amilia
insonda elmen e dolo oso, ao qual p es amos a nossa homenagem, o nosso apoio e a
nossa solida iedade.
À Bela Feldman-Bianco e à Ca a ina Al es Cos a, um enca ecido ag adecimen o
pela expe iência e acu ilância com que não só me guia am nas ques ões eó icas e
me odológicas mais impo an es da in es igação, mas ambém supo a am as pon uais
angús ias que ma ca am a cons ução des e p oje o – um p oje o que, de alguma o ma,
pode se desc i o como megalómano.
Ao Ped o San a ém, da F en e An i acis a, e ao Mamadou Ba e José Falcão, da
SOS Racismo, um ag adecimen o sen ido pelas e lexões, os encon os, os con ac os, pela
p odução de bas ido es que ealiza am, bem como uma decla ação de comp omisso
pessoal nosso com a lu a que, de o ma ão consis en e e con inuada, desen ol em.
2
A odos os demais in e locu o es que não se encon am sup amencionados -
Ma cus Veiga, Gene al D, Jakilson Pe ei a, Lúcia Fu ado, Rui Es ela, João Cha neca,
Miguel, João Nabais, Má io Al es, Luís Ra us, Raúl Skalgés -, mui o ob igado pela
ap oximação ão di e si icada ao ema e memó ia em deba e.
Um ag adecimen o à Maus da Fi a pela paciência com que me a u a am du an e
cinco meses a edi a no esc i ó io, pela p odução e pelo emp és imo de equipamen os
necessá ios à ealização do documen á io.
Aos meus pais, Cecília e Edua do, o mais expandido ag adecimen o não somen e
pela gigan esca, a i a e e o osa pa e nidade, que se exp essa num apoio mo al cons an e
a odos os meus p oje os de ida, mas ambém po se em os pa ei os p imo diais das
minhas noções de mundo.
Ao meu cama ada Jakilson Pe ei a, que em sido - mesmo sem sabe -, o
o ien ado ocul o da minha in es igação e que nas nossas con e sas me em acul ado os
ins umen os eó icos mais aliosos pa a a comp eensão da his ó ia da lu a an i acis a e
an icolonial em Po ugal e no Mundo, um g ande ag adecimen o. Es amos jun os.
Dedico es a disse ação ao meu a ô, A mando My e Do es, que nos deixou em
2021. Dedico-a não somen e po se meu a ô, mas po que os ensinamen os que conse o
dele são o e men o an o do meu oco académico como da p á ica e nog á ica. Mili an e
do PCP desde 1955, o meu a ô oi o mais in épido e solidá io an i ascis a que eu conheci,
pa icipando a i amen e dos p ocessos de esis ência ao Es ado No o e do mo imen o
comunis a in e nacional, bem como dos mo imen os que desde Lisboa, e mais
conc e amen e da Casa dos Es udan es do Impé io, pa icipa am do de ube do
colonialismo po uguês. Com es e cu ículo, não deixou em nenhum momen o de se a
pessoa mais a en a e a e na com os seus in e locu o es, ganhando a alcunha amilia de
«e e no ou in e», dada a sua capacidade ex ema em a icula uma posição ideológica
sólida e um p o undo in e esse e espei o po di e en es ma izes de sabe e expe iência.
Não conheço melho compe ência académica que se possa exigi a um an opólogo.
3
ALCINDO
E nog a ia audio isual de uma noi e longa
RESUMO
“Gang Killing explodes my h o acial ole ance” (The Independen , 16/06/1995) é
a manche e ga a al u ilizada pelo jo nal b i ânico na sequência do caso Alcindo
Mon ei o. E, de ac o, há alguma sump uosidade nessa a i mação que supe a o
sensacionalismo jo nalís ico. A 10 de Junho de 1995, sob o p e ex o múl iplo de celeb a
o Dia da Raça e a i ó ia do Spo ing pa a a Taça de Po ugal, um g upo olumoso de
nacionalis as po ugueses saem às uas do Bai o Al o com o obje i o de espanca odas
as pessoas neg as que encon assem pelo caminho. O esul ado o icial do e en o o am
11 í imas, uma des as mo al, Alcindo, cuja ágica mo e na Rua Ga e a ibui o nome
ao p ocesso de ibunal - o caso Alcindo Mon ei o. O e en o oi ex ensamen e abalhado
pela imp ensa nacional, in oduzindo um deba e sob e acismo o ganizado na sociedade
po uguesa e poli izando ce os se o es da população neg a de Po ugal. A sua dimensão
ulcânica exp essa-se, an es de mais, como uma ex usão simbólica das p oblema izações
conjun u ais, que i á econ igu a as p á icas e discu sos con empo âneos sob e acismo.
O obje i o des a e nog a ia é ealiza es a incisão e no-his ó ica nes e e en o c í ico, e
obse a como pe o mances do p esen e o econs oem, com o obje i o de emp eende
um es udo si uacional des a memó ia.
Pala as-Cha e: Caso Alcindo Mon ei o; Racismo; Violência; Memó ia; Mo imen o
social.

4
ABSTRACT
“Gang Killing explodes my h o acial ole ance” (The Independen , 16/06/1995)
is he headline used by he B i ish newspape in he wake o he Alcindo Mon ei o case.
And, in ac , he e is some sump uousness in ha s a emen ha su passes jou nalis ic
sensa ionalism. On June 10, 1995, unde he mul iple p e ex s o celeb a ing Race Day
and Spo ing's ic o y in he Cup o Po ugal, a la ge g oup o Po uguese na ionalis s
wen ou o he s ee s o Bai o Al o o lynch all he black people hey ound along he
way. The o icial esul o he e en was 11 ic ims, one o hem deadly, Alcindo, whose
agic dea h in Rua Ga e gi es name o he cou p ocess - he Alcindo Mon ei o’s case.
The e en was ex ensi ely wo ked on by he na ional p ess, in oducing a deba e on
o ganized acism in Po uguese socie y and poli icizing ce ain sec o s o Po ugal's black
popula ion. I s olcanic dimension exp esses i sel , abo e all, as a symbolic ex usion o
conjunc u al p oblema iza ions, which will econ igu e con empo a y p ac ices and
discou ses on acism. The goal o his e hnog aphy is o pe o m a e hno-his o ical
incision in his c i ical e en , and obse e how p esen -day pe o mances econs uc i ,
wi h he aim o unde aking a si ua ional s udy o his memo y.
Key wo ds: Alcindo Mon ei o case; Racism; Violence; Memo y; Social mo emen .
5
ÍNDICE
P ólogo-------------------------------------------------------------------------------6
Capí ulo 1. Po ugal aos po ugueses-----------------------------------------10
1.1) In odução-------------------------------------------------------------------13
1.2) Teo ias e Mé odos----------------------------------------------------------20
Capí ulo 2. Po ukkkal é um e o - pe spe i as de um d ama social-----31
2.1) 10 de Junho de 1995--------------------------------------------------------31
2.2) 11 de Junho de 1995--------------------------------------------------------41
Capí ulo 3. Ma du é Lobus - do lu o à ação cole i a------------------------58
2.1) Fune al-----------------------------------------------------------------------58
2.2) Mani es ação e P ocesso Judicial----------------------------------------66
Capí ulo 4. #sayhisname - memó ia es au ada e p esen e e nog á ico---75
Re e ências Bibliog á icas------------------------------------------------------88
6
P ólogo
C escido na Amado a, a minha o mação polí ica enquan o sujei o nasce da
pa icipação em associações de es udan es em escolas de bai os pob es da cidade,
la gamen e ma cados pela p esença de es udan es neg os. As minhas memó ias de en a
ju en ude es ão associadas a p oximidades aciais con li uan es. Amizades ei as de
desconhecimen o e de g andes pe gun as; es as de kizomba, às quais ia apenas po que
e a o que mobilizam os jo ens da zona; iolências en e colegas; adolescen es neg os aos
quais a escola não passa a ca ão -o e dadei o diálogo educa i o e a ealizado en e
p o esso es e alunos b ancos-, e que pa a se dis ancia daquela subal e nidade ou do miam
a ses a na pa e de ás das salas, ou necessi a am de demons a duplamen e o seu es o ço
e a sua des inculação com os compo amen os des ian es dos colegas; e, sem dú ida, o
p i ilégio diá io de não e ome, e uma amília es u u ada, com empo pa a me
acompanha enquan o sujei o em cons ução, com uma casa em condições de salub idade,
num con ex o em que es as células mínimas da dignidade amilia não abunda am.
Lemb o-me que pa icipa a nas gue as a icidas pa a se o locu o de ádio do
in e alo na escola – que ia que escu assem o que eu escu a a -, e enquan o os ou os
passa am DJ Znobia, eu passa a Rage Agains he Machine, se me essem Sand o G, eu
espondia com Sys em o a Down. Hoje ejo o sen ido dessa pa icipação – acha a eu, na
al u a e sem g ande elabo ação, que os meus gos os musicais apon a am mais cla amen e
pa a os caminhos da supe ação cole i a, e que os dos ou os pe enciam ao eino
desinspi ado da p odução musical alienada. A é que um dia apa eceu o “Ya” dos Bu aka
Som Sis ema. Tan os os que, como eu, e am da ockalhada, como os que semp e o am
do ap, do kizomba e do kudu o, sen i am naquele e ão monossilábico a exp essão
sin é ica de uma cole i idade subu bana que não e a mais “sim”, e a “ya”, uma p odução
ankens einiana de um Po ugal que nunca oi ao ado, e que ali às po as da cidade se
azia de con ágios e acadas. Fui cons uindo assim uma g amá ica pa a a minha
iden idade social pa a a qual nem as escolas nem a minha amília me p epa a am, po
al a de ins umen os eó ico-p á icos pa a en ende em que sen ido es a cole i idade
municipal se locomo ia.
O que eu não comp eendia, na al u a, é que o meu con ex o me compelia a
seman iza -me enquan o sujei o social pa a além das len es é nicas do nacionalismo
me odológico, al ez a uma escala inédi a em Po ugal, is o pe ence ao concelho com
maio pe cen agem de população a odiaspó ica do país e ao momen o (os anos 90) em
7
que os subú bios de Lisboa se ans o mam num e lexo e iden e da ans o mação do
saldo mig a ó io po uguês. Vi ia, à época, o co ação dos e luxos do impé io – onde a
ideia de di e ença se esbo oa a com mais acilidade do que condição de desigualdade.
No mais das ezes, uma escola pública ma cada pelos p oje os da mul icul u alidade e da
in eg ação à imagem e semelhança das polí icas eu opeias compac ua a com um ensino
de con eúdos le i os p ó-coloniais e com o acismo ec ea i o de p o esso es,
uncioná ios e alunos. O mul icul u alismo e a alé gico a discu i acismo es u u al e a
celeb ação das “comunidades” mino i á ias silencia a ealidades de pode e
despossessão.
Lemb o-me do B yan. Um jo em angolano que en ou pa a a minha u ma 7º ano,
e que desde o p imei o dia se o nou num amigo. Tinha acabado de chega de Angola,
en iado pelos pais pa a aze o ensino público po uguês, e mo a a na casa de uma ia
com oi o p imos. Chegou cheio de ce ezas, e a simpá ico, aplicado e ex emamen e
alado . Numa dessas sessões de con e sa que nos dominou, e que aciden almen e
acon eceu du an e uma aula, omos ambos expulsos. Quando saímos olhámos pa a o
ec eio e B yan queixou-se da quan idade de neg os que al a am às aulas e que es a am
po ali jogados du an e ho á io le i o em a aze es ou os. Rogou p agas àqueles
adolescen es a icanos que não que iam nada com a ida, com aquela eemência que só
se ia nos ecém-chegados, naqueles que êm com uma missão a cump i . Em dois anos
i o B yan descons ui essa missão. En e episódios de expulsão da sala após e chamado
a p o esso a de acis a, comen á ios sob e a condição de ida di ícil dos oi o p imos,
desen endimen os á ios com alunos e p o esso es, e consequen e deg adação das suas
no as, B yan oi icando azedo, aci u no, a é que um dia começou a al a às aulas. Após
ica e ido no 8º ano os pais decidi am een iá-lo pa a Angola e a pe da daquele amigo
o nou-se pa a mim, um jo em de 14 anos a en a en ende o con ex o em que i ia, a
soma ização de que algo ali es a a e ado. Pe gun ei-lhe o mo i o an es de ele i embo a,
e ele disse en ai ecido que e a po que “os ugas e am bué acis as”.
Aos 15 anos, quando le ado pelo meu i mão pela p imei a ez ao Bai o Al o com
um g upo de amigos ( odos eles mais elhos que eu, de o mação an i ascis a e mui os
deles mili an es da JCP), oi-me con ada a his ó ia de Alcindo Mon ei o, in loco, com o
dedo indicado apon ado às esquinas onde oco e am os espancamen os e aos locais do
bai o nos quais não de e ia passa sozinho, pa a o caso de es a em po lá g upos
14
Em 1989 é assassinado José Ca alho, um mili an e an i acis a do PSR, po
skinheads neonazis. En e es e ano e 1995, ano do caso Alcindo Mon ei o, ce ca de seis
dezenas de casos de ag essão ísica acializada são pe pe ados po nacionalis as em
Po ugal, segundo os dados ecolhidos pela o ganização SOS Racismo (O Independen e,
16/06/1995), e con abilizam–se 8 assassínios acializados (Público, 12/06/1995)
ma cados pela ambiguidade e desconhecimen o da iden idade dos ag esso es e das azões.
Mas é o caso Alcindo Mon ei o, pela sua p opo ção ca na alesca, que euni á condições
públicas pa a uma condenação gene alizada do acismo em Po ugal.
A noi e longa de 10 de Junho de 1995 é um momen o ca egado de símbolos e
discu sos. A sua dimensão ulcânica exp essa–se, an es de udo, como uma ex usão
simbólica das p oblema izações conjun u ais. Se o Dia de Po ugal é ees abelecido em
1977 como uma e emé ide pós–colonial, es e não deixa á de es a associado a um sis ema
de e isi ação sola do colonialismo, a a és da hípe –iden i icação linguís ica – ia
luso onia (ALMEIDA, 2000) – e da ideia gené ica da ocação ecuménica de Po ugal, a
pa i de en ão associada à alo ização da diáspo a po uguesa pelo mundo (FELDMAN–
BIANCO, 1993). Apesa da ex ema-di ei a pós– e olucioná ia (MDLP/ ELP/ MIRN/
PDC) se inse i ideologicamen e no espec o da assimilação colonial, o e nonacionalismo
iolen o dos anos 80, em que se inse em es es g upos neonazis, i á p omo e um co e
epis émico com a ideologia do mul i acialismo luso– opical (HONÓRIO, 2019,
MARCHI, 2010).
Os g upos neonazis ganham exp essão em Po ugal no inal dos anos 80, sob e udo
nas pe i e ias de Lisboa e Po o, com des aque pa a Almada, Ba ei o, Amado a,
Ma osinhos, San o Ti so, Gaia e Gondoma (KUMAR, 2011). O E nonacionalismo
bandi is a, no qual se enquad am ideologicamen e os assassinos de Alcindo Mon ei o,
encon a sob e udo as suas es e as sociais de ec u amen o em claques de u ebol e em
o ças de segu ança (FALCÃO, 2019). Cons i uído em o no de pequenas publicações
como Comba e B anco, Ven o do No e, Vangua da Nacional, Acção, e sob o espaldo
do MAN (Mo imen o de Acção Nacional), es es g upos ão p omo e um co e
dou iná io com a ex ema–di ei a an ecesso a e eicula ideias abe amen e an i
imig a ó ias (MARCHI, 2010, p.47–66).
É impo an e no a que a inculação mili an e des es g upos e nonacionalis as ao
MAN é apenas pa cial, mas pa imos da p emissa que a o mação g upuscula ,
mul inucleada e ideologicamen e di usa des es g upos, à semelhança de ou os países

15
eu opeus, se a a de uma es u u ação izomá ica do ascismo no pós–gue a, sob no as
condições his ó icas (GRIFFIN, 2002, p.27–50). À semelhança de ou os países eu opeus,
o MAN assume apenas uma ace ins i ucional de uma mi íade de o ganizações e núcleos,
com os quais dialoga, no plano das ideias e das ações polí icas. No ge al, es es núcleos
de endem o nacionalismo popula e o acialismo, assim como es e pa ido. Nes as
cons uções ideológicas undem–se equen emen e o saudosismo ascis a e o elogio
colonial e mili a . Mas es a econs ução dissol e alguns dos an agonismos ideológicos
essenciais do ascismo da 2º Gue a Mundial, que deco em do mapa polí ico da p imei a
me ade do século, assumindo p og essi amen e como a sua p imo dial ad e sidade
polí ica as imig ações de eixo sul–no e da segunda me ade do séc. XX.
A a és da suas publicações e posicionamen os en endemos que es es g upos
p esc e em uma c í ica ampla e imp ecisa a enómenos ão ab angen es quan o a
despenalização do abo o, a homossexualidade, o abandono de animais domés icos e das
pessoas de e cei a idade, a solidão u bana, a mis u a acial, a deg adação das adições e
ícones nacionais, a SIDA, o desemp ego, mobilizando poli icamen e os sen imen os de
medo e desampa o en e ao choque de ci ilizações (HUNTINGTON, 1996) e à
mode nidade líquida (BAUMAN, 2001) do capi alismo global. Ainda assim es es g upos,
na Eu opa, passa am nes e momen o iden i ica a imig ação como a p incipal esponsá el
pela co osão social causada pela globalização.
De o ma ge al, ao desconec a o acismo de um sis ema de pode his o icamen e
de e minado elegam–no pa a a p oli e ação de di e en es gue as cul u ais en e “endo–
g upos” e “exo–g upos”, omadas como ine en es à pe u bação de con inuidades é nico–
aciais. Mis u am–se, nes as eses, p oposições do acismo clássico, biológico e
eugenis a, com no as exp essões sup emacis as – às quais se o am a ibuindo
nomencla u as como neo acismo (BARKER, 1981, SOLOMOS, 1989), acismo
di e encialis a (TAGUIEFF, 2007) e di e encialismo cul u al (BALIBAR, 1993). Apesa
dos su ixos e p e ixos que as ciências sociais o am a ibuindo a es es enómenos ge ados
na segunda me ade do séc. XX, podemos assumi de o ma gené ica que se a a de
acismo, na sua con o mação o ganizada e ideológica.
Em Po ugal, á ios enómenos sociais es ão associados a es e gi o ideológico: a
acele ação da desindus ialização (KUMAR, 2012), um ce o esgo amen o das ese as
no me cado labo al (PIRES, 2002) e o c escimen o dos luxos mig a ó ios o iundos dos
PALOP e B asil, cons i uindo–se um eixo de mobilidade labo al ex–colónias/ex–
16
me ópole (MACHADO, 1997). Es es ocupam maio i a iamen e os se o es mais
depaupe ados dos ope a iado, cons ução ci il e se iços (PIRES, 2002).
No plano polí ico, es es enómenos sociais dos anos 90 são ma cados po algumas
de e minações: Dias Lou ei o é o minis o esponsá el pela cons ução de polí icas de
con enção e c iminalização das mig ações, co esponden e à adesão aos aco dos de
Schengen (1991); um ela ó io do SIS – Se iços de In o mação e Segu ança (1993)
es abelece como p io idade o con ole do gangs e ismo de jo ens neg os; a c iação da
SIC e da TVI ma ca ão uma i agem na media ização – o escandalismo maniqueís a –
em que a associação en e c ime e mig ação se o nam um ema de al a en abilidade
(CUNHA, 2004). Expandem–se as he e o opias de ma gem sob e os “bai os
p oblemá icos” (AGIER, 2015), onde e nicidade e exceção se en elaçam, e le am à
de inição de co pos abje os à comunidade polí ica (BATAIILE, 1970). A pa i des e
momen o ge a–se um sen imen o acen uado de ameaça g upal, no o iamen e a iculado
com o ec u amen o pa a a ex ema–di ei a de classes mais baixas da população
po uguesa (KUMAR, 2012).
O caso Alcindo Mon ei o o na–se assim uma i upção, em domus me opoli ana,
da ca na alização da iolência colonial – e do es ado de exceção nec opolí ico que a
ca ac e iza (MBEMBE, 2017) – de sinal con á io à au o–amnis ia (RICOEUR, 2000) e
ao es ado de negação pós–colonial de Po ugal (MAESO, 2019), a que es a a associado
o Dia de Po ugal. Toda ia, é ambém um e en o que imp ime um co e epis emológico
na his ó ia do mo imen o an i acis a po uguês, is o que é nes e momen o que pa ece
nasce na con empo aneidade um epe ó io an i acis a pa a a ação cole i a de con on o
(TARROW, 2009 [1994]).
Apesa da sua impo ância, é necessá io en ende que os luxos mig a ó ios
a icanos começa am nos anos 60 e 70 (MACHADO, 1997), ha endo à época uma g ande
es u u a associa i a – 184 associações imig an es, 75% e e en es a comunidades
PALOP (ALBUQUERQUE, 2004, p.375) –, que e le e a exis ência de uma ede ex ensa
de en eajudas comuni á ias e p oduções cul u ais. Mas enquan o megaope ação de
iolência ci il es e e en o ge a uma incisão na his ó ia dos mo imen os sociais, que a
pa i des e passam a e um acen uado oco associa i o an i acis a (O Público,
23/12/2019), inculado à c iação de o ganizações como a SOS Racismo, da F en e An i–
Racis a, e mais a de da Pla a o ma Ghe o.
17
O mais de alhado e comple o a igo jo nalís ico sob e o caso Alcindo Mon ei o le a
o í ulo A í ima pe ei a
2
. A si uação de “pe eição” da í ima é de e minada, no a igo,
pela ideia de que o caso deco e de uma escalada de jus içamen os e nonacionalis as,
anco ada no su gimen o de uma a e são pública à mig ação que se inha es abelecendo
no ecido social. Segundo o a igo a si uação de homem comum e neg o de Alcindo
de e mina de o ma excecional a banalidade sumá ia do seu assassina o, numa elação de
pode e desampa o ins i ucional que acili a a o exe cício des a iolência. Es a a i mação
apa en a se co e a num ce o g au de análise: o que ca ac e iza, pa a es es jo ens
nacionalis as, a possibilidade de ansg essão da p oibição de ma a . Não obs an e, endo
em con a os caminhos des a in es igação, é jus amen e nas “impe eições” des a
i imação que eside a na u eza ulcânica do caso Alcindo Mon ei o pa a as ensões e
poli izações das quais deco e/conco e. Analisemos, como um exe cício de explo ação
in odu ó ia, algumas des as “impe eições”.
Num p imei o momen o uma das discussões públicas em o no da mo e de Alcindo
Mon ei o oi a da sua nacionalidade. Obse a–se, nos jo nais da época, a ca ac e ização
de Alcindo o a como cabo– e diano, o a como po uguês. As edações dedicam–se a
in es iga es a in o mação e, passado alguns dias, su gem as p o as de que e ia ob ido a
nacionalidade em 1991 e que i ia em Po ugal desde que e a c iança. O esg imi desses
deba es públicos pode se analisado a é hoje, em á ias peças jo nalís icas
3
. À época João
Cha neca, o pa ão de Alcindo, asse e a que “há p e os e p e os” e que Alcindo e a um
p e o que socializa a quase exclusi amen e com “po ugueses”. Ped o San a ém, amigo
de Alcindo da F en e An i–Racis a, a i ma no seu discu so público no une al: “Alcindo
nasceu em Cabo Ve de, mas o seu co ação esidia em Po ugal”. Es e pa ece se o e eno
de uma ce a pe plexidade pública, incapaci ada da ealização de um deba e sob e es e
caso à luz de e ó icas secu i is as, que ob iga as igu as maio es do Es ado – Ca aco
Sil a e Má io Soa es – a p es a homenagem a Alcindo como um “concidadão po uguês”.
O que des es diálogos públicos se dep eende é que não oi possí el a ec iação o al de
uma na a i a da in asão mig a ó ia no con ex o do caso Alcindo Mon ei o – que
coloca ia Alcindo, bem como as ou as í imas des a noi e, nos an ípodas da pá ia. Es e
pa ece se o seu p imei o signo de “impe eição”.
2
Consul a em: h ps://obse ado .p /especiais/alcindo-mon ei o/
3
Exemplos: h ps://www.publico.p /2020/06/10/opiniao/opiniao/alcindo-a is ides-impo am-1920105
e //obse ado .p /especiais/alcindo-mon ei o/
18
Em 1993 o SIS (Sis ema de In o mações de Segu ança) emi e um ela ó io em que
assume a o mação de bandos de neg os como azão pa a o aumen o da c iminalidade. O
ela ó io, que ca ece de in o mação quan i a i a, co obo a a a agenda mediá ica que
obse a a o c escimen o de uma ju en ude neg a com as len es demonológicas do c ime.
Es e p ocesso, no mais das ezes, não di e iu daquele ap esen ado po Mike Da is pa a
analisa a e nicização do gangs e ismo em Los Angeles: “ he social pe cep ion o h ea
becomes a unc ion o he secu i y mobiliza on i sel , no c ime a es” (DAVIS, 2006,
p.224). Mas se canais ele isi os e Minis é io da Adminis ação In e na p omo iam uma
abo dagem das mig ações ma cada nas polissemias en e c ime/ á ico, as in es igações
sob e a ida de Alcindo Mon ei o desde cedo p onunciam o des acamen o des e sujei o
do imaginá io da sociedade de esquina (WHYTE, 2005). To na–se pública a ideia de
que Alcindo e a um sujei o disc e o, a á el, amilia , que p o inha de um espaço social
bas an e di e en e de um gue o é nico, com elações de abalho es á eis numa o icina de
mecânica no Ba ei o. A sua subje i idade não pôde se esumida à opacidade da
di e ença cul u al e da e nicidade, is a como possí el a enuan e mo al de discu sos
pe secu ó ios. Pon uo, assim, como segunda g ande “impe eição”, o a o de que Es ado
e comunicação social enham colocado o caso Alcindo Mon ei o na es e a pública como
um ema nacional – uma iolência acis a, não uma ixa in e é nica.
Po im, a úl ima das “impe eições” que aqui in oduzo é a u ilização da e emé ide
do Dia de Po ugal pa a a ealização do linchamen o. A his ó ia do nacionalismo
po uguês do séc. XX é dema cada pela c ia u a ideológica e cul u al do salaza ismo
(TRINDADE, 2019). A unção do Dia de Po ugal, ges ado du an e o ascismo como Dia
da Raça, é ci ada jus amen e em eedições comemo a i as do luso– opicalismo
enquan o ca ego ia ideológica colonial. De ac o, o luso– opicalismo é uma ideologia
impo ada pelo Es ado No o a Gilbe o F ey e não apenas como de e minan e simbólico
da his ó ia das elações coloniais po uguesas, mas como ma e ialidade discu si a em que
se ope am as con inuidades coloniais a dias de Po ugal (CASTELO, 2011). Enquan o
ideologia de Es ado, o luso– opicalismo somen e pode se en endido a a és do
des asamen o que p oduz en e p á ica e discu so colonial, sob e udo no con ex o das
elações impe iais com Á ica (ALMEIDA, 2007). A pa i de 25 de No emb o de 1995,
em que se inicia o pe íodo con a e olucioná io po uguês, obse a–se uma e i alização
de alguns des es “ opos” coloniais. Lide anças dos pa idos de ex ema-di ei a
po uguesa pós– e olução (MDLP/ELP/MIRN/PDC), en e as quais se encon am
19
mili a es coloniais como An ónio Spínola, Kaúlza de A iaga e Alpoim Cal ão, espelham
jus amen e es a conceção en ópica e uni e salis a de impé io.
O acialismo do Mo imen o de Acção Nacional o na–se assim uma an í ese
discu si a des e “p oje o de con inuidade colonial” (FELDMAN–BIANCO, 2001),
con igu ando–se como um pa ulhamen o iden i á io pe igoso às econs uções
palacianas dos mi os impe iais. Sob es e p isma, a escolha do dia em que se celeb a es e
p oje o impôs à sociedade ci il e ao Es ado uma mobilização acen uada con a o
enómeno do neonazismo, não como um enómeno necessa iamen e nacional, mas como
uma in il ação ideológica es angei a e hooligan. José Ca los de Vasconcelos, um dos
ideólogos do pa ido nacionalis a PDR, desc e e es e episódio pa a a e is a Visão como
“a noi e de Po ugal no Dia de Po ugal” (Visão, 14/06/1995). Mas se o Dia de Po ugal
já não es i esse colocado num sis ema de e isi ação sola da colonialidade, como pode ia
um linchamen o acial se a sua an í ese obscu a?
Ob iamen e nenhuma des as e lexões, que pa em das “impe eições” que
supos amen e dão o igem ao caso Alcindo Mon ei o, são le an adas no con ex o da
in es igação pa a comp eende uma alidade “pe ei a” pa a es a iolência, nem en ende
azões de o dem á ica que jus i iquem p á icas genocidas. Se em, pelo con á io, pa a
analisa a o ma como a espessu a da cul u alização e da e nicização, o binómio do
nacional/es angei o, os egimes de e dade e as o mas conc e as de classi icação social
são ma cado es de e minan es pa a o pa ocínio ins i ucional de pad ões desiguais de
di ei o e alo ação da exis ência. Se alguma pe ceção da “ ulga idade” de Alcindo
Mon ei o, enquan o jo em neg o e abalhado , legi ima a banalidade da sua execução,
ou as ci cuns âncias conc e as des a iolência joga am a a o da poli ização e
memo ialização des e caso.
A in e seção de classe, aça e nacionalidade, em Alcindo Mon ei o, pela o ma
como ope a nos e o es de desumanização, é inaliená el. Apesa disso, é no ó io que as
o mas de classi icação social não são ope adas no sen ido da maximização da
imo alidade, mas como ma cas e signos de um pad ão de pe pe uação das elações sociais
desiguais a pa i de um sen ido de jus iça e mo alidade. Pa a a ep odução des e pad ão,
a p á ica genocida u ilizada no Bai o Al o oi obse ada no seio da sociedade po uguesa
como iminen emen e pe igosa e desp opo cional. Com is o p e endo a i ma que apesa
de en ende a necessidade, pa a a comp eensão do enómeno genocida, de eco e à
eo ia da in e seccionalidade (MCCALL, 2005), não a ejo como uma medição do que

20
“ em p imei o” nos enómenos de mul idimensionais da op essão, nem como uma eleição
me odológica de pa ições sociais enc ip adas dos exe cícios de pode . A in e secção é
an es de mais uma condição da o alidade das elações sociais de pode e explo ação, que
se exp essam numa in inidade de condições empí icas pa icula es, e onde aça, géne o,
classe ou nacionalidade são ca ego ias po encialmen e ambíguas. A his ó ia des as
classi icações sociais não é uma his ó ia me amen e mo al e iconog á ica, mas sim uma
que inco po e a o ma como es as classi icações são cons uídas na sua in e dependência
com a es abilização e maximização de pad ões de acumulação de capi al.
O ulcão social que o caso Alcindo Mon ei o ep esen a é necessa iamen e uma
si uação e elado a do descompasso e da ins abilidade do pode , que não podem se
obse ados sem o mo imen o his ó ico de conjun o. En ende–lo é obse a a “malha de
elações sociais de explo ação/dominação/con li o a iculadas, basicamen e, em unção e
em o no da dispu a pelo con olo dos seguin es meios de exis ência social: 1) o abalho
e os seus p odu os; 2) dependen e do an e io , a ‘na u eza’ e os seus ecu sos de p odução;
3) o sexo, os seus p odu os e a ep odução da espécie; 4) a subje i idade e os seus
p odu os, ma e iais e in e subje i os, incluindo o conhecimen o; 5) a au o idade e os seus
ins umen os, de coe ção em pa icula , pa a assegu a a ep odução desse pad ão de
elações sociais e egula as suas mudanças” (QUIJANO, 2009, p.76).
1.1 Teo ias e Mé odos
Alcindo é uma e nog a ia de uma noi e longa. Uma noi e que imp imiu uma queb a
no quo idiano lisboe a, econ igu ando as noções e p á icas polí icas con empo âneas.
Es a e nog a ia obse a como as agencialidades se mobiliza am nas ases p elimina es e
póslimina es des a noi e pa a desenha o aje o des a econ igu ação – não apenas nesse
pe íodo, mas ambém nas poli izações do p esen e. A ci cunsc ição a um e en o, e às
dispu as a es e associadas an o no plano da memo ialização como da poli ização, a i ma–
se po isso como base e undamen o da in es igação, seguindo as pos ulações
expe imen ais de Veena Das sob e “e en os c í icos” (DAS, 1995).
A me odologia de Veena Das é ca ac e izada, na minha opinião, po um conjun o
de log os que p e endemos ao longo da in es igação sublinha . Em p imei o luga ,
des aca–se como abo dagem in eg ada da o alidade das elações sociais con li uan es a
pa i de um a o social. Es e oco desna u aliza, po um lado, as icções de
21
localidade/comunidade enquan o es u u as au ossu icien es e, po ou o, as elabo ações
em o no da homogeneidade nacional, cons uindo–se essencialmen e como uma pesquisa
explo a ó ia de dispu as na es e a pública po di e en es agen es sociais. Assim, es a
pe spe i a de análise é de e minada pela incisão c í ica num a o social que compo a algo
essencialmen e no o – uma i upção iolen a das con inuidades sociais –, a pa i das suas
í imas e poli izações di e as, e não de uma obse ação dis anciada dos p ocessos sociais
de longo empo.
Es a incisão pe mi e, julgo, obse a a his ó ia no seu p ocesso de aze –se,
a endendo simul aneamen e pa a as “dimensões áspe as da ida social” da an opologia
c í ica (ORTNER, 2016) – o so imen o, a iolência, o lu o, a dep essão – associadas ao
pode e dominação, e localiza o campo e nog á ico no espaço dos desa ios da polí ica
ei indica i a (TARROW, 2009) – as esis ências, os an agonismos, os mo imen os
sociais, as edes de solida iedade.
“The e ains on which hese e en s we e loca ed c issc ossed se e al
ins i u ions, mo ing ac oss, amily, communi y, bu eauc acy, cou s o law,
he medical p o ession, he s a e, and mul ina ional co po a ions. A
desc ip ion o hese c i ical e en s helps o m an e hnog aphy which makes
an incision upon all hese ins i u ions oge he , so ha hei mu ual
implica ions in he e en s a e o eg ounded du ing he analysis.” (DAS, p.6,
1997)
No decu so da in es igação o complexo eó ico–me odológico dos e en os c í icos
expandiu–se de o ma acen uada sob e ou as dimensões da e nog a ia. Po um lado, pelo
ecu so a on es como discu sos polí icos, imp ensa audio isual, jo nais imp essos,
pan le os polí icos, iconog a ia, abaixo–assinados, audio isual amado , documen os
judiciais, pa a uma abo dagem es u u ada ao e en o his ó ico e suas de e minações. Po
ou o, a ap oximação a en a às na a i as amilia es, às í imas e aos agen es sociais que
mobilizam/mobiliza am ações de memó ia e solida iedade no espaço público. O espec o
a pa i do qual p e endemos obse a a memó ia social do caso Alcindo Mon ei o oi
jus amen e o de uma ap oximação à diac onia do p esen e e à sinc onia do passado que
se u a concomi an emen e à abs ação eó ica o alizan e ou à me a ísica agmen á ia
das “ e ó icas de lu o” (DAS, 2012).
22
Es as pos ulações conduzi am a uma ap oximação, no decu so da in es igação, a
algumas ideias seminais da Escola de Manches e . Nomeadamen e, a análise si uacional
dos e en os, ou “ex ended case me hod” (GLUCKMAN, 1958 VAN VELSEN, 1987),
en endida como uma me odologia e nog á ica a en a aos p ocessos de mudança e de
con li o na análise de elacionamen os es u u ais: “uma análise de um p ocesso social,
ou seja, a manei a pela qual os indi íduos ealmen e lidam com os seus elacionamen os
es u u ais e explo am o elemen o de escolha en e no mas al e na i as de aco do com as
exigências de qualque si uação.” (VAN VELSEN, p.365, 1987). Po a ibui a enção
simul ânea às agencialidades, às ans o mações e aos p ocessos, es as p á icas de
in es igação des acam–se po uma abo dagem socio–his ó ica das si uações sociais:
“uma análise sinc ónica dos p incípios es u u ais ge ais que es á in imamen e ligada com
uma análise diac ónica da ope ação des es p incípios po a o es especí icos em si uações
especí icas.” (idem, p.372).
Es a pe spe i a, desde logo assen e no es abelecimen o de um campo de es udo
sob e memó ia social do caso Alcindo Mon ei o como a ins i uição de uma mi op áxis
nec opolí ica – ou seja, uma açanha p edica i a de uma eno ada consciência social de
que o acismo é mo al –, des aca–se jus amen e pela neu alização de um an agonismo
eó ico en e e en o e es u u a. A in es igação ag ega–se, assim, a pa i do
es u u alismo his ó ico de Sahlins, à c í ica de uma adição es u u alis a das ciências
sociais que se dedica à oposição co olá ia en e his ó ia e es u u a, mi o e azão,
es abilidade e mudança, na u eza e cul u a.
“A p á ica, ob iamen e, já oi além das di e enças eó icas que supos amen e
sepa am a an opologia e a his ó ia. Os an opólogos ele am–se da es u u a
abs a a pa a a explicação do e en o conc e o. His o iado es des alo izam o
e en o único em a o das eco en es es u u as subjacen es. E ambém
pa adoxalmen e, os an opólogos êm sido ão diac ônicos em pon os de is a
quan o os his o iado es êm sido sinc ônicos. (…) O p oblema ago a
pe inen e é o de explodi o concei o de his ó ia pela expe iência
an opológica da cul u a.” (SAHLINS, p.93–94, 1985)
Le ado às úl imas consequências, o desa io de comp eensão des as pe spe i as a
pa i de um plano eó ico conduziu–me ambém ao necessá io imb icamen o en e as
con inuidades e as su u as, as es u u as e os e en os, na de inição des as expe iências
quo idianas. Es a comp eensão compo a, necessa iamen e, uma c í ica ao an agonismo,
23
ambém co olá io, en e o acismo es u u al e o acismo como enómeno indi idual,
quo idiano ou en endido como compo amen o p econcei uoso. A ó ica do acismo
enquan o enómeno es u u al (ALMEIDA, 2018), que in e cep a polí ica, economia,
jus iça, ciência, e c, de ende a ideia de que es e é uma ca ego ia cons i uin e das undações
da sociedade. Não se ia ajus ado em qualque ciência social econhece a essa análise
qualque in alidade, pois ala –se–ia con a a e idência ac ual e es a ís ica das
desigualdades undan es. O que aqui se suge e é um po encial es aziamen o, na análise
es u u al, de como es e é agenciado e expe imen ado a a és de his ó ias, mi ologias,
d amas sociais quo idianos, e suas aplicações p á icas nos aje os de ida. Po ou o lado,
a análise agmen á ia, a–his ó ica e compo amen al do acismo não pe mi e pe cebe as
incisões es u u ais e a qui e u ais das expe iências conc e as, a ibuindo mui as ezes
es e enómeno a uma espécie de pa ologia de cunho indi idual e/ou g upal (ALMEIDA,
2018), desconec ando–o de um sis ema de pode his o icamen e de e minado.
Pelo expos o, nes e es udo p e endi aze con e sa es u u alidade, his ó ia e
agência na análise da p odução de p á icas quo idianas. En endo que es a pe spe i a
pe mi e en ende os p ocessos sociais não apenas como mecanismos, mas ambém
enquan o biog a ias (JASPER, 2018), que en a izam a impo ância pa a uma eo ia da
ação de “ aces o ou pas expe iences, pas in e ac ions, along wi h us, in he o m o
memo ies, unde s andings, disposi ions, a ec i e con ic ions, mo al in ui ions, and
mo e.” (JASPERS, p.162, 2018). Pa a além disso, pa a si ua a in es igação no campo da
expe iência do social e do polí ico, eco i ambém aos concei os de Tu ne sob e
an opologia e pe o mance: es u u a e an i–es u u a, communi as e limina idade
(TURNER, 1974); d ama social e compo amen o es au ado (TURNER, 1982, 1985).
Du an e os anos 90 e os anos 2000 á ios sociólogos e an opólogos se dedica am
a es uda os desa ios das segundas ge ações de a icanos (sob e udo de o igem guineense,
cabo– e diana e angolana) em Po ugal: o sen ido das suas mobilizações cul u ais, as
o mas de exe cício da disc iminação, a pa i de cons uções de
nacionalidade/ aça/classe/cul u a (MACHADO, 1993, 1997, 1999, PIRES, 1999, 2003,
2006, VALA, 1999, 2003, CABECINHAS, 2007, ROSALES e all, 2009). O que es es
ex os epo am, maio i a iamen e, é que, independen emen e das es a égias de inse ção
social des es jo ens, exis e uma cen alidade da ques ão c omá ica na de inição da
sociabilidade, sob e udo quan o sob epos a à classe social: “p econcei o de que es e g upo
30
uma expe iência a oz, algo de sob ena u al, que ul apassa a imaginação ou
a comp eensão. (MBEMBE, 2017, p.127)
A a és de uma análise si uacional do caso Alcindo Mon ei o p e endo obse a o
es abelecimen o no Po ugal pós–colonial de um mi o nec opolí ico, mobilizando
di e en es escalas sociais a epensa a e e i o ialização do con li o colonial. Es a noi e
o na–se num e en o que, po um lado, einsc e e a neg i ude à “mo e social”
(PATTERSON, 1985) e, po ou o, ab e o passo à poli ização an i acis a con empo ânea.
O ca ác e iolen o do acismo con empo âneo deco e jus amen e da desumanização
colonial da ida social. Mas, se a coisi icação/ desumanização acial é uma deco ência –
um de i neg o – e não uma eco ência, é a pa i de no as mi ologias e d amas sociais
que a colonialidade do pode se ea i a, in oduzindo–se como ca ego ia polí ica undan e
do p esen e. Es a in es igação ca ac e iza–se, me odologicamen e, po uma análise
explo a ó ia e es endida de apenas um des es mi os.

31
2. Po ukkkal é um e o – pe spe i as de um d ama social
Após a in odução e o enquad amen o das linhas ge ais de análise que no ea am a
in es igação, obse a ei de o ma mais a en a os ma e iais cole ados. Realiza ei nos
p óximos dois capí ulos a exposição das in e locuções, obse ações e documen os,
conjun amen e com a sis ema ização das análises ei a em campo. Es es dois capí ulos
man e ão a es u u a diac ónica do ilme Alcindo, a pa i de qua o subcapí ulos.
Es e p imei o capí ulo de análise de campo, Po ukkkal é um e o, é es u u ado a
pa i dos subcapí ulos 2.1) 10 de Junho de 1995, no qual analiso as aízes genealógicas
des e e en o a pa i de documen os his ó icos da ex ema–di ei a po uguesa; (2.2) 11 de
Junho de 1995, dedicado à o ma como es e e en o impac a, no imedia o, as o ganizações
an i acis as e as aje ó ias de ida dos in e locu o es neg os da in es igação. Ambos os
subcapí ulos se ão dedicados às p oblema izações mais imedia as do caso Alcindo
Mon ei o, e de como es as se em de caixa de essonância de uma conjun u a social que
an ecede es a noi e.
No capí ulo an e io deba i as cons uções sociais de desigualdade e di e ença
ine en es ao p ocesso his ó ico da mig ação em Po ugal no pe íodo pós– e olução. A
pa i des as cons uções podemos en e e uma dimensão de a iculação en e
colonialidade, ideologia e iolência na elação com as populações a icanas e
a odescenden es em Po ugal. O pe cu so que desenhámos nes e capí ulo isa, no ge al,
uma comp eensão sócio–his ó ica dos caminhos que de e mina am a de inição de um
signo do sen imen o de ameaça g upal po uguesa que ganha, ao longo da década de 1990,
o signi ican e co po neg o, do qual deco em as c enças sob e odos os ou os signi icados
abo dados (es angei ia, c iminalidade, e nicidade, degene ação, in asão). Comecemos
en ão po en ende como es e se cons ói a pa i das poli izações dos mo imen os de
ex ema–di ei a em Po ugal, açando, pa a o e ei o, uma pequena his ó ia da
econs ução dos disposi i os e discu sos coloniais a pa i do pe íodo
con a e olucioná io.
2.1. 10 de junho de 1995
As comemo ações dia 10 de junho são ein oduzidas em democ acia no ano de
1977, pelo gene al e en ão p esiden e da epública Ramalho Eanes, após a sua in e upção,
32
en e 1974 e 1977, po es a ma cadamen e associado ao egime ascis a. Se du an e a
Gue a Colonial es e dia es e e associado jus amen e a comemo ações de ca ác e é nico–
his ó ico po uguês – onde a semân ica de um e i ó io in e –con inen al en ópico e de
uma mo al ci ilizacional e a acompanhada po condeco ações a mili a es exempla es na
ope acionalidade da gue a –, é jus amen e en e al as pa en es mili a es do ul ama ,
como Ramalho Eanes, An ónio de Spínola, Kaúlza de A iaga, Alpoim Cal ão e
Ma celino da Ma a que es e dia se á e i alizado e poli izado após a democ a ização. A
his ó ia da e olução e da con a e olução po uguesa é mui o ampla pa a se con ada
em um ou dois pa ág a os mas é impo an e des aca que es as al as pa en es mili a es –
ainda que de o ma di e sa en e eles – ão es a na cha nei a de golpes
con a e olucioná ios, an agonismos com MFA, c iação de pa idos de di ei a e di ei a
adical (MDLP, MIRN, PDR), a en ados bombis as a sedes de pa idos de esque da. Ao
mesmo empo, supo a ão de o ma di e sa as econs uções democ á ico–libe ais, apesa
de odos es es se opo em de o ma pa cial ou o al à descolonização, ou à o ma súbi a
como es a oi ope acionalizada a pa i do 25 de Ab il.
São es es mesmos que ão ein oduzi , em o no de uma econs ução
democ á ica con a e olucioná ia na qual o Pa ido Socialis a assume uma ex ema
impo ância, um no o ideá io pa a o Dia de Camões, de Po ugal e da Raça, a pa i de
1977 designado de Dia de Camões, de Po ugal e das Comunidades Po uguesas. A pa i
des a da a, apesa de se sub ai a es a e emé ide o seu léxico é nico– acial, es e dia não
deixa á de se aduzi num p oje o mís ico de uni e salidade, mo alidade e i mandade
plu i–con inen al (FELDMAN–BIANCO, 1993, ALMEIDA, 2000) his o icamen e
associado ao e aseamen o polí ico do mi o do impé io. E assim o espelha Ramalho
Eanes no seu p imei o discu so do Dia de Po ugal:
“O que dis ingue o po uguês dos ou os homens é a excecional capacidade
de aze do mundo in ei o a sua e a, e de qualque se humano seu i mão,
sem nunca pe de os aços da aiz lusíada. Hoje, como on em, a nossa
g andeza es á na dimensão uni e sal do nosso po o (…). A saudação que
nes a da a di ijo a odos os compa io as é, po isso mesmo, sob e udo o o o
de que a a e nidade dos po ugueses, en e si e com os ou os po os,
33
con inue a se o p incipal es emunho da ocação ecuménica de Po ugal.”
(EANES, RTP, 1977
4
)
Es a conceção de país de ocação uni e salis a, en ópica e mes iça – inculada
ao p oje o colonial – g assa a pelas eli es de di ei a pós– e olucioná ia, inclusi e pela
di ei a adical e pelos al os escalões mili a es. Nos casos de mili a es como Spínola,
Kaulza de A iaga e Alpoim Cal ão, opõem–se ambém à e i ada de Po ugal de Á ica
e ao plano de descolonização do MFA. Mas os anos 80 ão se ma cados pela
ei indicação con a–hegemónica do E nonacionalismo, ma cadamen e popula e
subu bano, que i á opo –se às eses impe iais da ex ema-di ei a adicional (HONÓRIO,
2019, p.54–55), nomeadamen e a pa i da c iação do MAN (Mo imen o de Acção
Nacional). Sob e es a i agem discu si a as on es di e as dos pe iódicos Acção e
Vangua da Popula , onde a ex ema-di ei a associada à g upusculização skinhead se nu e
ideologicamen e, são de ex ema cla i idência:
"Falando cla o: – ui in eg acionis a, a mais não pode se ! E al qual me
man e ia ainda hoje, se o g ande espaço lusíada não i esse le ado o
is íssimo des ino que en e an o le ou. Den o do egaço do Impé io, só a
in eg ação inha sen ido; desin eg ado que oi o mesmo impé io já nada disso
ago a em sen ido algum... O mundo que o po uguês c iou, an i–po ugueses
o a asa am (...). A i mamos que a Raça é udo o que impede que o Po o
decaia, degene e e se deg ade numa massa dis o me, desga ada e caó ica."
(EMÍLIO, Acção, 1988, n.4, p.3)
Repescando des e modo o papel da Raça na cons ução do impé io po uguês, es es
nacionalis as ing essam num no o pa adigma ideológico da ex ema-di ei a eu opeia dos
anos 90, que iden i ica o Ociden e somen e com as nações e populações b ancas,
o nando–se agen es polí icos con a a ameaça ex acon inen al à Eu opa (BARNES,
2000, p.57–73). Des acando–se acen uadamen e con a o mul i acialismo o a dos
pa âme os do pode colonial – is o que sem es a o ma de domínio a sup emacia b anca
es a ia ameaçada –, es es nacionalis as de inem o seu ad e sá io polí ico: o imig an e
não–b anco ou, po ou as pala as, o ex–colonizado cuja in il ação nas es u u as do
país co ói “o co po biológico da Nação po uguesa”:
4
Disponí el em: h ps://a qui os. p.p /con eudos/mensagem-de- amalho-eanes-sob e-o-dia-de-
camoes/
34
"Conclui–se en ão, que a mes içagem é a maio inimiga dum po o (e da sua
cul u a) po que ep esen a o im i e e sí el e de ini i o desse mesmo po o
e de odas as uas aízes na u ais. (...) De endemos e lu amos pelo
epa iamen o dos neg os, indianos e ou os de o igem não eu opeia, endo
plena consciência que isso ai incomoda a mui os senho es da al a–baixa
polí ica; e que é a única hipó ese pa a a sob e i ência da Nação, da cul u a e
da iden idade do nosso po o: um po o b anco e eu opeu. Isso signi ica man e
pu o o co po biológico da Nação po uguesa." (TAVEIRA, Acção, 1986, n.2,
p.1)
Nes e aspe o, o acialismo, ou E nonacionalismo, é uma assimilação eó ica de
ca ego ias aciais es adunidenses no con ex o eu opeu, ou em ge al da adição colonial
anglo–saxónica (MARCHI, 2015, p. 424). Po o a, es e subs i ui o p oje o de domínio
ci ilizacional do sup emacismo acial po um discu so sumá io de ex inção e
epa iamen o, em de esa da es abilidade e p ospe idade das “sociedades b ancas”.
Mis u a–se nes es p oje os uma c í ica da mode nidade líquida (BAUMAN, 2001) onde
se conside a “a democ acia com um caldo insupo á el de SIDA, po nog a ia e mis u a
acial” (SANTOS, 2019, p.230), com uma conceção pseudocien í ica da sociobiologia,
como uma ciência que se supõe es uda a desigualdade acial: "A Sociobiologia econhece
a desigualdade na u al dos homens, o papel da he edi a iedade nessa desigualdade, a base
biológica do p econcei o acial, en im, quase udo a que cons i ui as linhas de dou ina
nacionalis a– e olucioná ia" (TAVEIRA, Acção,1989, n.5, p.1).
Assim se edi ica pa a es es nacionalis as o ideá io do acialismo – que nem mesmo
se pode ia conside a um acismo di e encialis a, ou cul u alis a –, an es mais uma
ge ingonça ideológica e igida com o obje i o de e i a a judicialização dos seus
de enso es enquan o acis as e ascis as (SANTOS, 2019, p.230). Mas nos seus ex os
dou iná ios, em publicações como Vangua da Nacional, Comba e B anco ou Ven o do
No e, as ma izes do acismo biológico, bem como o au o i a ismo ascis a – amplamen e
an icons i ucional e an idemoc á ico –, es ão su icien emen e sus en adas:
"O Mo imen o de Acção Nacional é uma o ganização ca ac e izada po uma
Te cei a A i ude que se coloca em o al oposição ao Capi alismo e aos
"Socialismos" de esque da. (...) Um nacionalismo popula , po que assen e
num Po o in ei o e não numa pa cela ou numa classe ou na u ópica igualdade.
Um nacionalismo e olucioná io, po que indissolú el do manda o e da
35
con inuidade his ó icos e não dependen e de maio ias momen âneas, de
mino ias desen aizadas, de o os ins á eis, de indi idualismos in e essei os,
de pa icula ismos desinse idos." (HENRIQUES, Acção, 1986, n.2, p.2)
Como an e io men e abo dado, as eses do MAN dema cam–se pelo diálogo
di e o com a ju en ude dos cin u ões indus iais do país, cuja ealidade social e a ma cada
pela desindus ialização, po e o nos coloniais alidos nas pós–independências a icanas
e pelas al as axas de desemp ego. T a a–se de uma p opos a de um “nacionalismo
popula ”, que p ocu a dissocia –se dos p oje os de ex ema–di ei a associados às al as
pa en es mili a es do MIRN e MDLP. Pa a isso, i ão dialoga com os discu sos mediá icos
que le a am es a ju en ude a c e num cená io de esgo amen o do me cado labo al, e
apon a como inimigo p incipal o c escimen o de comunidades mig an es que habi a am
espaços con íguos aos seus. Es e diálogo e a no mais das ezes associado ao ec u amen o
de “soldados polí icos” pa a engajamen o numa gue a con a es e inimigo. O mili a ismo
polí ico de inia–se pa a os ideólogos des es nes es e mos: “A missão é ocupa a men e e
a on ade das popu1ações na mão do inimigo, e a ‘gue a–mili a ’ é só uma a ma mais
da ‘gue a– o al’”, pelo que gue a mili a de e adequa –se 'as exigências da poli ica e
con e e –se em gue a de gue ilhas, em écnicas de sub e são, e c.” (CORREIA,
Vangua da Nacional, 1987, n.4, p.8–9).
Se podemos dep eende daqui o ecu so a uma o ma ex ema de polí ica enquan o
“gue a– o al”, onde odas as o mas á icas de sub e são hegemónica são possí eis,
podemos en ende ambém como es as se a iculam com a ei indicação da Pá ia
enquan o unidade é nica– acial – o inimigo é, de o ma la a, o “an ipo uguês”. Ainda
assim, se es e “an ipo uguês” e a mobilizado pelos mo imen os de ex ema-di ei a
mili a que an ecedem o MAN como um inimigo ideológico – os pa idos e g upos sociais
e olucioná ios e comunis as –, o E nonacionalismo in oduz como an ípoda da pá ia o
sujei o não–b anco, de o ma ap io ís ica e imanen e. Na mesma o dem de ideias, emos
nasce nos seus p óp ios ex os uma agenda p óp ia pa a o Dia de Po ugal, cabendo a
es es “nacionalis as popula es” aze “as a e as comezinhas”:
"Os que quise em es a connosco, nes a ho a de a i mação nacional – longe
das an ochadas o iciais dos que alam do Dia de Po ugal e das
Comunidades, limi ando–se coba de e aleg emen e a es e ec ângulo – e ão
que se ap oxima , e ão de da a ca a, e ão, en im, que se en ol e (...). Cabe–
nos a nós o papel mais incómodo, o de se he óis nas a e as mais comezinhas,

36
naquelas a e as que os ou os julgam dispensá eis e dei am pa a ás, apenas
po que não lhes o e ece acilmen e a ama ou os luga es de ibal a."
(HENRIQUES, 1986, n.3, p.4)
A análise dos ex os undamen ais do MAN pa ece–nos assim aze à ona a o ma
como é ecupe ado, nes e pe íodo, o mili a ismo colonial, e de como es es g upos
nacionalis as a ibuem à democ acia e ao libe alismo a ine icácia ins i ucional em que se
p opaga a decadência nacional. To na–se necessá io agi com as p óp ias mãos, aze “o
papel mais incómodo”. Co pos neg os são lidos como in a o es das disposições coloniais
– degene ado es do espaço iden i á io po uguês. E desenha–se assim um cená io pa a o
qual a "anis ia" do seg edo público da Gue a Colonial – desde logo o cons uc o in e –
subje i o mais ele an e da es au ação luso– opical do pós– e olução –, in en a no os
palcos, eencenado a sua o ma de iolência.
"Aquando do assassina o de José Ca alho em 1989, o en ão minis o da Jus iça,
Fe nando Noguei a, ha ia a i mado que o p oblema se ia ‘co ado pela aiz’ enquan o o
seu colega da Adminis ação In e na, Manuel Pe ei a, apon a a como p io idade ‘impedi
que es es bandos se o ganizem’” (ALMEIDA, 2014, p.212). En e 1989 e 1995, deco e
o julgamen o em ibunal que isa a ex inção do MAN. No im des e julgamen o (1993),
o Mo imen o de Acção Nacional já se encon a a dissol ido, o nando–se desnecessá ia
a sen ença do mesmo. Nes es anos, “ao con á io de en aquece –se, o mo imen o
o aleceu–se. In encionalmen e, du an e es e pe íodo, hou e uma mudança es a égica
no mo imen o, que buscou in e enções mais disc e as, sem g andes concen ações
públicas, subs i uindo–as po jan a es em cidades como Cacilhas, Espinho, Almada, Gaia,
Coimb a, Po o, Fa o, Maia e Lisboa" (ALMEIDA, 2014, p.212). Es es anos são
jus amen e aqueles em que, segundo os in e locu o es da in es igação, os skinheads
iniciam uma sé ie de espancamen os acializados e c escem no seio das claques de
u ebol. Sob o bojo de uma ação es a al que encena a aze alguma coisa pa a impedi o
seu c escimen o a a és da judicialização do MAN –, es es a aques gozam de ex ema
impunidade (FALCÃO, 2019, p.189–207), e jus amen e nes es anos em que se pode
en ende que a adicalização do discu so de mili a ismo polí ico começa a p oduzi
í imas.
A memó ia cole i a po uguesa es á – e es a a ainda mais nos anos 90 –,
sob epujada de na a i as e memó ias de uma gue a colonial de g ande ex ensão, na qual
pa icipou uma pa e mui o signi ica i a da população a i a masculina à época, mas que
37
não encon am, na co ina de e o luso– opicalis a, um espaço público pa a exis i em
enquan o auma, memó ia, de iciência, psicopa ologia e c í ica social (MARTINS,
2016). «[N]es a in isibilização his ó ica da iolência colonial encon amos uma das
exp essões de como o colonialismo como elação social sob e i eu ao colonialismo como
elação polí ica» (SANTOS, 2013, p.10). Mas, como sabemos, uma gue a, ou mesmo
uma no malidade colonial assen e no exe cício da iolência, é ei a de chacinas,
genocídios, c imes iolen os, aids e es es e aé eos, iolações, ope ações a madas,
pa ulhas, coe ções. To na–se assim necessá io en ende es e signo ca na alesco da
iolência acis a neonazi no dia 10 de Junho de 1995, pela o ma como se exp essa e se
a icula discu si amen e, como uma sob e i ência social da polí ica colonial. Mas o na–
se impo an e ambém econhece o papel da não–insc ição da his ó ia da iolência
colonial na ida pós–colonial como coadju an e es u u al das ea i ações de gue a.
Encon amos nes a denegação cole i a e indi idual do acismo um dos ca ac e es
mais impo an es de obse a e en ende pa a uma comp eensão socio–his ó ica da
iolência acializada em Po ugal. Numa ápida lei u a do acó dão de ibunal
conseguimos dep eende que nenhum dos nacionalis as acusados se au oin i ula de
acis a, e sim acialis a – ou seja, de ende–se publicamen e de aco do com as pos ulações
do MAN. Nenhum deles es a ia p epa ado pa a ecebe o “ o éu” de agen e das
ea i ações das polí icas de gue a colonial – an es de mais dizem–se í imas da
pe seguição polí ica. E oi na conside ação mesma des as negações que o T ibunal decidiu
assumi como ac o não p o ado o c ime de genocídio.
T a a–se aqui de um p oblema essencial da poli ização do acismo que não se
ci cunsc e e à pós–colonialidade nem à po ugalidade, mas que assume o papel ex emo
no p oje o his ó ico e ideológico do impe ialismo po uguês: a sua ligação essencial à
psicopa ologia da negação, do inglês denial (KILOMBA, 2019). G ada Kilomba, ao
analisa o papel da másca a/açaime pa a e i a oubos de ecu sos alimen a es em
plan ações coloniais em Memó ias da Plan ação, explica de o ma bas an e sucin a es e
p ocesso:
"No acismo, a negação é u ilizada pa a man e e legi ima as
es u u as iolen as da exclusão social: "Elas/es que em oma o que é nosso,
po isso p ecisam se con oladas/os". A p imei a in o mação, a o iginal ("nós
omamos o que é delas/es"), é negada e p oje ada no "Ou o" ("Elas/es omam
o que é nosso"), que se ans o ma naquilo com que o sujei o b anco não se
38
que elaciona . O sujei o neg o ans o ma–se em inimigo in usi o, que
p ecisa se con olado, ao passo que o sujei o b anco se ans o ma na í ima
passi a, que é ob igada a con ola ." (KILOMBA, 2019, p.32–34).
En ende–se des e modo como es a au o–ilibação da iolência o iginá ia se
con e e numa denegação egó ica e p oje i a que ins au a na eação à iolência o a aque
inaugu al. E se algum discu so ins i ucional pode condensa ão bem esse exe cício de
negação p oje i a é o de An ónio de Oli ei a Salaza , como espos a às c í icas da ONU
à eclosão da Gue a Colonial:
"O mul i acialismo que hoje começa a se ci ado e admi ido pelos que
p a icamen e não o acei a am nunca pode dize –se uma c iação po uguesa.
Ele de i a po um lado do nosso ca á e e po ou o dos p incípios mo ais de
que é amos po ado es. Não o a a clamo osa exempli icação que dessas
sociedades mis as, luso opicais, pode hoje se ap esen ada, al ez mesmo
nos negassem que pa a a sua exis ência his ó ica i éssemos conco ido. O
acismo neg o, que as no as independências a icanas de endem, e a i mam
p e ende implan a naquele con inen e, é nes e pon o a negação das nossas
conceções. Mas não pode á man e –se se não ade indo a elas." (SALAZAR,
RTP, 1963
5
)
É com es as pala as que achamos in e essan e a ap oximação ao p imei o
mo imen o da noi e de 10 de Junho de 1995: após um jan a comemo a i o do Dia de
Po ugal um g upo de ce ca de 60 nacionalis as eúnem–se no ba Minho o. Nem odos
os p esen es nesse jan a inham do jan a comemo a i o, ealizado n’O Ribei o em
Cacilhas, pois uma pa e des es êm di e amen e do jogo do Spo ing pa a a Taça de
Po ugal (nº 71/95.0PALSB, Caso Alcindo, p.17–18). Vêm a mados e ag essi os,
segundo o acó dão. Posicionam–se à po a do ba e iniciam os imp opé ios: "p e o ai– e
embo a", "p e o chei as mal" e "p e o ai oma banho", di igidos a anseun es neg os
(idem, p.18). Após isso começam a a i a ga a as de id o a pessoas no en o no,
mo i ando uma pequena ag emiação de pessoas neg as que p ocu a am i a sa is ações
(idem, p.19). Es e ges o az eclodi uma iolência mul i udinal skinhead que só pa a á no
Cais–do–Sod é, duas ho as depois, em "au o–de esa" a es a p imei a p o ocação. Em
5
Disponí el em: h ps://a qui os. p.p /con eudos/poli ica-ul ama ina/
39
ibunal, es es nacionalis as a i mam pe en o iamen e: o am p o ocados po um gangue
de pessoas neg as e agi am em legí ima de esa.
T a a–se, mais uma ez, des e ga ilho da negação p oje i a a se acionado na
iolência in e subje i a. Toma–se a no ma acis a como a no malidade social. Toma–se
a iolência con a o ou o como uma ação pa ologicamen e ilibada. E oma–se a eação
con a a iolência acis a como o ges o p imo dial de iolência. Assim se encon a na
génese des e con li o, mais uma ez, a negação p oje i a que in e cep a an o a másca a
colonial e e ida po G ada Kilomba, quan o o discu so de gue a de Salaza , quan o a
iolência neonazi no Bai o Al o.
Os de alhes des a noi e pa ecem–nos pe ei amen e explo ados no ilme, mas
in e essa–nos aqui des aca alguns aços essenciais, selecionados nes e subcapí ulo pela
o ma como pe mi em deba e a genealogia do linchamen o. O p imei o é que es e é
ealizado sob e a es u u a de um aid e es e, uma “co e ia”, como apon ado pelo
ad ogado da amília de Alcindo, João Nabais. Es a co e ia deco e du an e uma ho a po
a é ias do Bai o Al o (Rua do Diá io de No ícias, Rua da Rosa e Rua de São Ped o de
Alcân a a), pa a depois desce pa a a Baixa–Chiado (Rua Ga e ) e Cais–do–Sod é (Rua
do A senal).
Os espancamen os são quase odos execu ados da mesma o ma e i imam 11
pessoas (nº 71/95.0PALSB, Caso Alcindo), que são aqueles que dão en ada no Hospi al
de São José. Exis e ainda assim a possibilidade de que es e eco e seja diminu o em
elação à dimensão da ação, is o que o p ocesso de ibunal segue apenas os ilhos a um
g upo de 18 indi íduos. Es es 18 indi íduos ize am um aje o combinado – e que se
ponde a e sido o mais iolen o e o ganizado –, mas con ém lemb a que es a am n’O
Minho o ce ca de 60 nacionalis as. Exis em ela os à época de ou as ag essões
acializadas na mesma noi e, em uas p óximas como a Rua da A alaia, na P aça Luís de
Camões e no Me cado da Ribei a (Co eio da Manhã, 13/06/1995), que não o am
judicializadas ou o am negadas em ibunal po al a de p o as (nº 71/95.0PALSB, Caso
Alcindo, p.51–52). Po o a, nes es 11 espancamen os emos um g ande g au de
simili ude: o ecu so ao ce co, o espancamen o acompanhado de injú ias aciais, a
u ilização de a mas b ancas, e ocalização especí ica no de e imen o de golpes na cabeça
após a p os ação das í imas – que se segue à con inuidade da co e ia em g upo, que az
ao longo des as ho as á ias manob as de sepa ação e eag upamen o (idem, p.15–40).
Ao im de duas ho as es es g upos, mais pul e izados no im, eúnem–se de no o no local
46
a iculando a sua expe iência com o que acon eceu nes a noi e, az ainda ou a e e ência
que nos pa ece essencial:
"O mo imen o hamme não são meninos bu gueses. É apaziada que es udou
em escolas com as comunidades, que acompanha am de pe o. O mo imen o
hamme skin é mui o o e numa cidade ou numa zona em que há á ias
comunidades. Puxando mais pa a o que acon eceu nessa noi e: os gajos
come am em Cacilhas. Ali ao lado no conselho de Almada ens o Mi a ejo,
ens o Mon e da Capa ica, ens a Co a da Piedade, ens o Chegadinho, u es ás
ali odeado da comunidade a icana. Esse oi o combus í el que ce amen e
a anja am po que eles são ilhos do p ole a iado – há um ou ou o que em o
paizinho que a é em alguma in luência –, mas a maio ia pode ia se colega
eu de escola e bebe copos con igo. Também se calha a a essa am algumas
di iculdades e encon a am ali um e úgio. É gangs e ismo. É mal a que ai à
bola e não em mais nada na ida. E pu ga ali os seus ódios, os seus eceios."
(MARCUS, en e is a)
Ou o dos in e locu o es com quem dialoguei oi Jakilson Pe ei a, ambém na
ó ica de uma comp eensão mais de alhada das sociabilidades dos jo ens neg os dos anos
90 pa a uma comp eensão si uacional des e e en o his ó ico. Pa a en ende o depoimen o
des e é necessá io comp eende que, ao con á io de Ma cus, Jakilson em da Co a da
Mou a, e en ualmen e o mais a amado ‘bai o é nico’ cabo– e diano de Lisboa. Po se
amigo de Jakilson, consul ei–o á ias ezes du an e a in es igação, e quando o en e is ei
pela p imei a ez es e ecebeu–me em seu domicílio. Na sua sala, um gigan e g a i i com
igu as como S okely Ca micheal, Amílca Cab al, Pa ice Lumumba, Fidel Cas o,
Angela Da is, Cha ez ou F anz Fanon, consubs ancia a image icamen e o eo das suas
pala as. Jakilson é Mc, abalha na Associação ‘Moinhos da Ju en ude’, é um dos
c iado es da Pla a o ma Gue o e nasceu com o conhecimen o de que a polícia é sua
inimiga. Já pe deu dois amigos em ações policiais – Ângelo Semedo e Kuku –, já
en en ou um p ocesso judicial po desaca o à au o idade – que se comp o ou se u o
de abuso policial e de implan ação de p o as – e já e e cinco amigos o u ados du an e
dois dias na esquad a de Al agide, no amoso Caso de Al agide (2015). Foi, pa a além
disso, í ima de pe seguição e di amação pela o ganização No a O dem Social, hoje
ex in a, c iada po Má io Machado, o mais amoso skinhead en e os ag esso es do caso
Alcindo Mon ei o.

47
Jakilson lemb a que a polícia semp e de endeu, nas in e ações de ua, o
epa iamen o, semp e aplicou duas o mas de jus iça/ iolência di e en es pa a sujei os
b ancos e não–b ancos e semp e e e ligações à ex ema-di ei a. Pa a es e. ala de
e nonacionalismo é ala de secu i ismo, desde os seus mecanismos de es ado. Pa a ele
são menos impo an es as o mações iden i á ias g upuscula es da ex ema-di ei a do que
a sua ins i ucionalização, is o que só a pa i des a é que podem ep imi o seu bai o.
Os neonazis “nem lá põem os pés”. Pa a Jakilson se “os neg os no cen o são uma
mino ia, e os neg os êm di ei o a es a no cen o de Lisboa, os massac es que os neg os
so em são ei os nos subú bios” (JAKILSON, en e is a). Pa a es e pa ece se impo an e
de e a que após o caso Alcindo se cons ói um discu so con a a iolência nacionalis a
que não implicou uma sua ização do acismo o ganizado: “pós–Alcindo hou e iolência
bá ba a! No caso Alcindo e am pequenos g upos o ganizados, mas depois quando as
p óp ias o ganizações se in il am den o das o ças de segu ança, há um modus ope andis
em que esse acismo se aplica a pa i de den o das o ças de segu ança. Es amos a ala
de assassina os de meno es, de uzilamen os!” (JAKILSON, en e is a). Pa a Jakilson, o
e dadei o signi icado da media ização do caso Alcindo só pode se en endido à luz da
si uação de cen alidade do Bai o Al o, bem como a a és do desga amen o des e
linchamen o das no mas acis as de comba e ao c ime, que conduzi am a sociedade
po uguesa uma comoção gene alizada:
“O caso do Alcindo é um ma co his ó ico po que a acaba po cong ega as
pessoas que são de uma comunidade que é í ima de acismo com pessoas de
á ios meios da sociedade po uguesa. To nou–se quase unânime que inha
que se aze alguma coisa po que aquilo já inha chegado ao ex emo. Mas o
que é p eciso en ende é que exis i am semp e mui as iolências.
P incipalmen e, e ainda nos anos 90, po alguns g upos de e o nados que
ainda inham ques ões mal esol idas com as independências. Du an e o
pe íodo do PREC [P ocesso Re olucioná io em Cu so] os ascis as
começa am a ica um bocado assus ados e não se eo ganiza am. Mas depois
mui os des es ascis as e mui as dessas pessoas que inham a sua si uação mal
esol ida e iam os neg os em pe manência sob o pon o de is a colonial,
ap o ei a am essas si uações pa a uma eo ganização den o da es u u a do
Es ado.” (JAKILSON, en e is a)
48
Jakilson conside a assim o caso Alcindo Mon ei o como um caso cong egado , que
“impulsionou que á ias es u u as de comba e ao acismo se jun assem pa a o comba e ”,
mas a sua expe iência es á mais ma cada pela a ibuição de a enção pa a as lógicas de
pode assen es nas elações en e bai os é nicos as exp essões de uma au o idade
colonial:
“Eu c esci no subú bio e o cen o, pa a nós que imos do subú bio (po que
eu enho o gulho do meu bai o!), não sin o que pe demos nada em não i lá.
O bai o, as pessoas com quem con i i e con i o a é hoje, ag adeço a mui os
pela passagem dessa expe iência e pela união. Po isso essa ques ão com o
espaço [o cen o] não é uma ques ão com que eu me iden i ique an o. Mas
ambém acho que os espaços da cidade de em se descolonizados – ou seja,
os espaços em que o co po neg o é is o como uma ameaça e é ep imido
cons an emen e. E digo is o a é po que nós quando íamos pa a o Bai o Al o
a polícia pa a a–nos á ias ezes. Mesmo que saísses com o eeling de e
di e i só das á ias ezes em que é amos ba ados pe dias o eeling. É
lógico que se es i esse no cen o de Lisboa não i ia e alguns p oblemas que
i e no subú bio. Hoje es ou como es ou, enho a minha amília, não ui pa a
à cadeia, não enho p oblemas com a jus iça, mas não que o i a essa página
po que a minha zona nem oi libe ada.” (JAKILSON, en e is a)
O es emunho de Jakilson assume ecos e iden es de p oblema izações e i o iais
que o an ecedem. Desde logo conseguimos quase escu á–lo a i ma , com Ma iá egui, que
“el p oblema del índio es el p oblema de la ie a” (MARIÁTEGUI, 1928) e a icula os
p oblemas do bai o onde i e com o “compa imen ação colonial”, ine en emen e
maniqueís a, de Fanon (FANON, 1961, p.31–91). Vemos ambém como nos seus
depoimen os se eci am as concepções de S okely Ca michael de pode neg o, como
algo que pode apenas se conquis ado a pa i da ei indicação comuni á ia e
o alecimen o e i o ial: “in eg a ion” is a sub e uge o he main enance o whi e
sup emacy (…). The goal is no o ake black child en ou o he black communi y and
expose hem o whi e middle–class alues; he goal is o build and s eng hen he black
communi y.” (TURE, Kwame; HAMILTON, Cha les,1992 [1967], p.54–55).
Sob ou o pon o de is a, Rui Es ela, cabo– e diano ambém in eg an e da
Pla a o ma Gue o, de Mosca ide (Lou es), conside a que o assassínio de Alcindo oi um
pon o–cha e – a agédia de uma sé ie de expe iências a que oi sujei o desde a sua
49
in ância, sob e udo nos anos 90. Rui passou a in ância em Mosca ide, um bai o de
maio ia ope á ia b anca do o ien e de Lisboa, e iu nasce ali pe o, nos Oli ais, um dos
mo imen os popula es nacionalis as mais o es de Lisboa. Após essa aje ó ia passou
alguns anos em Cabo Ve de, em que o seu pe cu so como o aluno do ensino público o
o nou “ ilho da escola de Amílca Cab al”. Quando ol a a Mosca ide assis e e pa icipa
em á ios con li os aciais de bai o, e a i ma que o cu o e o no a Cabo Ve de ez com
que a sua consciência polí ica se agudizasse. A sua elação com a pola ização ex ema-
di ei a/sujei os acializados condensa po isso as expe iências e aje ó ias dis in as de
Ma cus e Jakilson. Fala de um empo de en a ju en ude em que ia conhecidos se em
í imas de espancamen os po neonazis, de momen os de ensão em ambien es escola es,
de passa odos os dias po uma pichação ao i da escola que dizia “um bom p e o é um
p e o mo o”, ao mesmo empo em que seguia na ele isão o caso Rodney King, os
p o es os de Los Angeles, ou ia Public Enemy e p ocu a a pla a o mas pa a uma
mili ância an i acis a. Nessa conjun u a, a mani es ação após o assassínio de Alcindo oi
o p imei o p o es o polí ico em que pa icipou.
“Pá, e a mo e do Alcindo oi o esul ado mais d amá ico de uma sé ie
de a aques que a gen e ia ou indo ao longo do empo. E aquele acabou po
se um pon o–cha e – ‘es e não passa!’ –, lá es á: é p eciso ha e des es
momen os em que se diz ‘OK: a pa i daqui não ai mais se assim! Não ai
se sem espos a.’ E oi ge al.” (RUI, en e is a)
Rui Es ela a en a pa a uma expe iência his ó ica na i agem democ á ica em que
os pais a icanos des es jo ens dos anos 90 são pa ei os polí icos da Re olução dos
C a os e cons u o es da descolonização, mas ao mig a em pa a Po ugal êm ocupa os
espaços mais p eca izados das camadas abalhado as po uguesas. A expe iência
his ó ica da sua ge ação é jus amen e uma lu a con a es a subal e nidade cons uída em
o no acialização e e nicização da geopolí ica u bana, na qual es es jo ens se iam
enclausu ados. A sua análise adica assim na comp eensão de espaço comum, em que se
pa ilham p ocessos his ó icos a pa i do an agonismo, e que a iculam di e en es
e i o ialidades:
“A ge ação an e io ez as independências e o 25 de ab il, mas depois
começamos a e que há de e minado ipo de bai o em que só ica am os
neg os. Eu acho que a pa i daí uma ge ação que já consegue e uma isão
di e en e, em uma expe iência di e en e, não é educada no empo do egime
50
[salaza is a], não é educada com o e bo ‘obedece ’, po an o começa a se
educada a pensa , consegue e a expe iência i a dos pais – is o é a g ande
escola da mal a da minha idade –, é e que se eu não queb a o ciclo ou-me
o na numa cas a ou de senho as da limpeza, com oda a dignidade que êm
e que é econhecida, ou de abalhado es da cons ução ci il. Po que é e a
isso que nós es á amos a e : ‘en ão, mas espe a aí: eu ou po esse caminho?
Não ou sai daqui?’” (RUI, en e is a)
Sob e es e gi o ge acional Rui comen a ainda que a sua ge ação, alimen ada po
diálogos cul u ais que iam de Public Enemy a ap an i ascis a ancês, pe cebe que p ecisa
supe a algumas ma izes de ação dos pais e a ós: “nós não íamos ugi disso aqui
ambém, né? Não emos que es a aqui como a ge ação dos nossos a ós e dos nossos pais
– ‘não amos aze ondas’, ‘es amos cá e que emos e uma ida anquila’ –, pá, não
íamos aze essa mesma espos a. Achá amos que não ínhamos que passa po es e
pe cu so de so e ag essões e con e , pe cebes? E não e es o di ei o de explodi
ambém.” (RUI, en e is a).
Rui, al como odos os in e locu o es da in es igação, a ibui ex ema a enção pa a
as elações dos co pos neg os com o e i ó io, pa a explica como a expe iência his ó ica
da sua ge ação oi ma cada po uma ges ão on ei iça – não en endida aqui desde o seu
sen ido adicional –, mas a a és da cons i uição de on ei as enquan o p ocessos
sociais (NEWMAN, 2003, p.22), que o a são c uzadas e negociadas, o a se cons i uem
enquan o in ansponí eis a a és da iolência e da ma ginalização.
E é jus amen e na con inuidade des as e lexões que podemos en ende as pala as
de Gene al D:
“O que acon eceu ao Alcindo Mon ei o naquela al u a oi supe is e. Eu sen i
e ol a, e ol a é a pala a que melho de ine aquilo que eu sen i na al u a.
Todos nós nos sen imen os ex emamen e e ol ados e com on ade de aze
algo. E não é algo de iolen o. Mas ealmen e pô as coisas a mexe e ala
mais sob e isso – e sensibiliza o país in ei o pa a as coisas às quais nós
es á amos expos os. Acabou daquela o ma d amá ica, mas mui as ezes nós
passá amos po coisas mui o pa ecidas. Si uações de iolência ex ema
alguns de nós i e am. E medo. Eu lemb o–me que quando nós es á amos
em Almada, e a que e i pa a Lisboa, pa a o Bai o Al o, ha ia semp e
51
aquele medo de encon a mos os skinheads, e ha ia his ó ias de pessoas
se em dei adas ao io, ou de se em espancadas iolen amen e. Nós i íamos
com isso. Essa e a a nossa ealidade. Quando soubemos que um dos nossos
inha pa ido daquela manei a iolen a nós pensámos que pode ia e sido
qualque um de nós, po que nós odos equen á amos os mesmos luga es.”
(GENERAL D, en e is a)
Mais uma ez, encon amos nes as pala as uma elação p o unda com as on ei as
sociais e o ce ceamen o das a essias geopolí icas dos co pos neg os, no qual Alcindo
Mon ei o su ge como um ma co an asmá ico cole i o. Gene al D – que p e e e que o seu
nome p óp io não seja e elado –, é o símbolo de uma p imei a ge ação de appe s e uma
e e ência pa a odos os in e locu o es an e io men e ap esen ados. C esceu no Mi a ejo
e o seu p imei o ema, Po ukkkal é um e o, oi o pon apé inicial do mo imen o neg o
con empo âneo. Es e ema, de 1994, econhecia o enómeno da egue ização do sujei o
neg o, bem como o pa ulhamen o e ep essão colonial dos ‘bai os p oblemá icos’. Com
o e mo Po ukkkal, Gene al D apon a pa a as a inidades en e a cul u a polí ica do
E nonacionalismo eu opeu e o sup emacismo es adounidense, e elaciona a geog a ia
u bana da cidade de Lisboa com a geopolí ica acial dos Es ados Unidos.
Gene al D ambém nasceu num bai o de maio ia b anca da Á ea Me opoli ana de
Lisboa, o Mi a ejo, e econhece a é e sido amigo de escola de Ped o G ilo, o skinhead
que es aqueou José Ca alho em 89. Po o a, a i agem que o ap ep esen ou pa a a sua
ida ê–lo ap oxima –se dos jo ens neg os dos bai os izinhos ao seu – saindo assim
daquilo a que es e chama “um pe íodo de negação”. Escolhemos encon a –nos no
La adio (Ba ei o), o local onde ha ia g a ado o ideoclip des e ema, pa a a ealização
de uma en e is a. P e endemos, com es a eleição, que es e espaço de locução ajudasse à
econs ução das memó ias desse empo.
“No p incípio dos anos 90 eu es a a en e Almada e o Mi a ejo, e o que
mo i ou mais o am as le as. Na al u a Chuck D, Public Enemy, KRS–One,
Boogie Down P oduc ions, e eu ou i naquelas le as e naquela o ma de es a ,
p incipalmen e aquela o ma de es a , algo que mexeu mui o comigo. Po que
na al u a os neg os i iam mui o amed on ados e com mui o complexo. E oi
a p imei a ez que eu ou i, ou ui expos o a um discu so, ei o po neg os – e
um discu so di e o, incisi o, que ela a a a o ma como os neg os dos Es ados
Unidos i iam – e eu ia mui as semelhanças nisso com o que se es a a a

52
passa em Po ugal. (…) Na al u a e a o Ca aco, e ao pe cebe as polí icas a
que nós es á amos expos os, que são polí icas que nos jogam pa a uma
exclusão social e económica – e essa é a pio pa e do acismo, a exclusão
social e económica –, eu achei que inha que se ala sob e isso. (GENERAL
D, En e is a)
Ao aze um pe cu so pela aje ó ia de ida des es jo ens pe cebemos como es es
in e ce am a iolência sob e neg os no Bai o Al o com a cons ução dos ‘bai os é nicos’.
Nes es ‘bai os é nicos’ a iolência e a exclusão social e am pe mi idas, e ans o madas
em o ma de go e namen alidade. Pa a es es, a iolência de es ado es abelece–se como
mecanismo de con enção de con ágios sociais e cul u ais a a és da compa imen ação
maniqueís a, associada aos imaginá ios do á ico e do c ime. Mas é na a essia des as
on ei as geopolí icas que se encon am as o mas ci is des a iolência. “A necessidade
de egula a dis ância ísica em elação às pessoas neg as e de ini as á eas que elas podem
usa é uma dimensão mui o impo an e do acismo quo idiano, dimensão que se associa
às an asias do con ágio acial” (KILOMBA, p.185).
Pa a es es jo ens o ulcão social que es e e en o ep esen ou na es e a da
ins i ucionalidade po uguesa es á elacionado com o c escimen o des es ce ceamen os
ci is do acesso ec ea i o ao cen o de Lisboa – em que o dilema o iginal eside no ac o
de que a sujei os neg o à época, na e dade, não es a a seque ga an ida uma exis ência
segu a enquan o co po no Bai o Al o, desde um pon o de is a es u u al. As conclusões
des es jo ens sob e o caso Alcindo Mon ei o en am des e modo em p o unda conexão
com as lei u as de S okely Ca michael sob e a eação b anca aos p o es os neg os de 1966
em Ilinois:
“In he summe o 1966, when he p o es ma ches in o Cice o, Illinois,
began, he black people knew hey we e no allowed o li e in Cice o and he
whi e people knew i . When blacks began o demand he igh o li e in homes
in ha own, he whi es simply eminded hem o he s a us quo. Some people
called his “backlash.” I was, in ac , acism de ending i sel . In he black
communi y, his is called “Whi e olks showing hei colo .” (TURE, Kwame;
HAMILTON, Cha les 1992 [1967], p.56)
Na p esen e in es igação p ocu ei en ende de o ma apu ada as bases no ma i as
do di ei o a p oibi a ida e a sua ep odução – e consequen emen e do di ei o à suspensão
53
da p oibição da mo e –, na o ma como es e es á in e conec ado com iccionalização de
inimigo público enquan o in aso . A ideia essencial que des as iccionalizações deco e
é a de que a de esa da sociedade incumbe a mesma da manu enção de p edicados es á eis
de uma nação enquan o na ação (BHABHA, 1990). Em O Local da Cul u a, Bhabha
u iliza o concei o de discu so de Foucaul pa a e idencia “as es a égias complexas de
iden i icação cul u al e de in e pelação discu si a que uncionam em nome “do po o” ou
“da nação” e os sujei os imanen es e obje os de uma sé ie de na a i as sociais e li e á ias”
(BHABHA, 2007, p.201). Mas o pode simbólico da Nação sob e uma comunidade
polí ica, como o mesmo Bhabha e e e, não pode se analisado sem o seu e e so – a
co elação de o ças en e o pode cen alizado do Es ado e a poli ização das ma gens e
das zonas de a u a da expe iência cole i a. Po al, a de esa de on ei as enquan o
e o es geopolí icos da exclusão social pa ece–nos essencial pa a análise de um a o
sup amencionado: os espancamen os do dia 10 de Junho de 1990 êm luga no Bai o
Al o, o epicen o da boémia po uguesa pós– e olução, mui o embo a an o as í imas
quan o os ag esso es en ol idos sejam socialmen e e geog a icamen e pe i é icos.
Du an e a p epa ação da p esen e in es igação e nog á ica dediquei algum empo
ao es udo de uma á ea de in es igação em Sociologia denominada es udos de ameaça
g upal (QUILLIAN, 1995; BLUMER, 1958; BLALOCK, HUBERT, 1967). Focalizados
na cole a de dados quan i a i os sob e p econcei os aciais a ní el nacional, es es es udos
pa em de dois p essupos os gene alizan es comp o ados po odas as in es igações
ealizadas na á ea: quan o maio a concen ação de enda, menos os sujei os mani es am
p econcei os aciais; quan o maio a mino ia polí ica, mais e iden e o p econcei o acial
po pa e da maio ia (QUILLIAN, 1995, p.592). Apesa de co obo a em uma ce a
ap eciação dos enómenos sociais que nes a e nog a ia ap esen amos, es es es udos
pa ecem se ó imos exemplos de como o mé odo e a escala u ilizados podem se i pa a
pa alogiza os enómenos que se p e ende es uda , con ibuindo pa a uma comp eensão
mecanicis a das ealidades sociais in es igadas. O acismo, bem como os neo– ascismos,
são enómenos sociais complexos que não podem se deci ados numa análise simples de
ideologias de b ancos excluídos, ou de ideologias sup emacis as de classes abas adas.
De endemos, com Abu Lughod, que esses p ocessos gene alizan es se insc e em em
análises sociais que o alecem o p ocesso de al e ização e cul u alização dos sujei os
sociais (ABU–LUGHOD, 1991, p.473).
54
To na–se e iden e como a escala que u ilizam es es es udos con ibui pa a uma
análise asa das con adições sociais, não en endendo como os cen os de concen ação
de capi al são ambém luga es onde as engenha ias da seg egação social assumem
con o nos mais es á eis, como p opos o Bauman (2006 [2005]), e os e i ó ios de a u a
social, os “en e–luga es” ou “luga es in e s íciais”, equen emen e os mais
paupe izados, são luga es em que as écnicas coesão social são acas ou inconclusas, com
odas as dimensões (inclusi e ne álgicas) de con li ualidade e de encon o que al
implica: “Neighbo hoods as social o ma ions ep esen anxie ies o na ion–s a e, as
hey usually con ain la ge o esidual spaces whe e he echniques o na ionhood (...) a e
likely o be ei he weak o con es ed. Fo he P ojec o he na ion–s a e, neighbo hoods
ep esen a pe ennial sou ce o en opy and slippage. They need o be policed almos as
ho oughly as bo de s. (APPADURAI, 1996, p.190). A a i mação iolen a da exclusão
p o agonizada po es es jo ens nacionalis as no Bai o Al o pa ece–nos elacionada,
acima de udo e sob es e p isma, com as conside ações que Tocque ille az da sua iagem
a Saginaw, a úl ima “ on ie ” dos Es ados Unidos da Amé ica an es do e i ó io
indígena, e das p o ações a que es e sujei o on ei iço es a a subme ido:
“P oud o his Eu opean o igin, he despises he wilde ness, and ye he
lo es he sa age eedom which eigns he e; he admi es ci iliza ion and is
unable o submi himsel comple ely o i s empi e. His as es a e in
con adic ion wi h his ideas, his opinions wi h his ways. No knowing how o
guide himsel by he doub ul ligh which illumines him, his soul s uggles
pain ully in he web o uni e sal doub ” (TOCQUEVILLE, 1831, p.97).
Ca ac e izando a iolência e a ince eza especí ica das idas des es sujei os
on ei iços, o au o e ela a sua unção limina na a qui e u a do pode es adunidense,
no qual a ins abilidade emocional e a dú ida eside numa p oblemá ica pe ença dupla:
às classes des a o ecidas, esquecidas e pe i é icas do pode impe ial – que se
ans o mam num quo idiano ma cado pelo diálogo com o Ou o –, e à iden idade
hegemónica da cons ução nacional – que os coloca sob a ne algia diá ia de ódio e do
medo. “Emp y space, no man’s land, he in e s i ial is a mo ing bo de in he cou se o
nego ia ion, a momen o con lic as much as a space o encoun e .” (AGIER, 2013, p.28).
Podemos assim dep eende como es e locus da limina idade p econiza uma elação
angus iada com a o alidade social – a um empo i encia–se o luga onde a
es u u alidade e mina e exis e–se em unção da manu enção da es u u a. É sob a égide
55
des as conside ações que podemos le as conside ações de Helena Rose a uns dias após a
mo e de Alcindo, no a igo Geog a ia do Medo:
“Fomos a é aos anos cinquen a um país u al, alheado do mundo. Os
choques da emig ação, da democ acia, da descolonização, da adesão eu opeia
e da e olução mediá ica caí am–nos em cima, po assim dize , sem a iso
p é io. (…) O país subu baniza–se e desiden i ica–se a i mo acele ado.
Vi e–se em sí ios em que as uas não êm nome, os p édios não êm núme o,
as p ace as não êm á o es. O semá o o ou o hipe me cado podem se a única
e e ência de luga es onde habi am milha es de pessoas, em lo eamen os
clandes inos ou legais cons uídos ao sabo das dimensões do e eno que deu
o igem ao negócio.” (ROSETA, Visão, 14/06/1995)
T a a–se nes e a igo do econhecimen o agónico de uma pe da de iden idade
ci ada numa neolibe alização ap essada e inconclusa onde os subú bios, os luga es onde
es u u alidade e mina, se o nam e eno é il pa a a p o agonização de mi ologias
pe secu ó ias. Conside amos que são jus amen e es as na a i as de es aziamen o
iden i á io, quando a ibuídas à di e ença, que possuem o pode de mobilizações iolen as
con a o di e en e (GIRARD, 1982). Pa a René Gi a d a iden i icação de um “bode
expia ó io” não pode se dema cada es u u almen e a a és das na a i as de
econhecimen o da di e ença, mas apenas a a és das na a i as de sup essão da
iden idade. Pensamos que, numa pe spe i a de análise do discu so, só à luz da agonia
iden i á ia podemos le es as abs ações mís icas da aça encon adas nas e is as
nacionalis as do MAN:
“An e io , supe io e pos e io a udo, e a é a eles [o solo e o sangue], a Raça
é ob a desses dois elemen os: a ob a–p ima e p imo dial, assim do Sangue
como do Solo; o seu p odu o químico e ambém alquímico; e o esul ado
ísico e me a ísico da sua osmose, combus ão e sublimação. O que signi ica
que o Solo e Sangue são os agen es e ambém os supo es do espí i o da Raça
(…). A Raça é o co o das aízes. Semp e que os a canos e a qué ipos de um
Po o pe du am in ac os no empo e no espaço, en ão a Raça subsis e como
al e ascende à dignidade de ideal he edi á io. A i mamos que a Raça é udo
o que impede que o po o decaía, degene e e se deg ade uma massa dis o me,
desga ada e caó ica.” (EMÍLIO, 1988, n.4, p.3)
62
a um empo mi i ica e poli iza . En endo que as mi ologias c iadas pela amília –
p esságios, abus e con aminações –, não adicam necessa iamen e numa consciência
animis a, ou mul ina u alis a (CASTRO, 2002, p.345–399). An es de mais e elam uma
i ualidade “dinâmica”, “nega i a” e “de con ágio” (GENNEP, p.8, 2012) ei a à medida
da elabo ação amilia sob e uma mo e ágica como um con eúdo in e di o, insaná el,
que ma ca uma incapacidade de ansição des e en e–que ido ao mundo dos mo os. Sob e
es a ques ão – a imp esc i ibilidade –, Joana diz, no cemi é io da Vila Chã: “a nossa mãe,
o nosso pai, a gen e sabe que eles mo e am de doença. Mas ao nosso i mão co a am a
ida dele. Eles é que i a am.” (JOANA, en e is a). Pa ece ha e assim uma
desigualdade mo al en e es as mo es, que a ibui uma g ande di iculdade à sepa ação de
Alcindo:
“Eu não sei explica . Ele desapa eceu, mas ainda es á cá. Fisicamen e
desapa eceu, mas con inua aqui. Ele e a meu ilho, se calha a é mais que meu
ilho po que eu o i p imei o que o meu ilho. Eu coloca ia igual ao meu ilho.
E a espe acula aquele meu i mão. Eu a é lhe dizia semp e ‘ u não de es se
des e mundo”. É aquela coisa que a gen e ala ingenuamen e sem sabe o que
pode i a acon ece . E acon eceu. Po que aquele apaz não ha ia nenhum
igual. E a o nosso i mão caçula que, não sei, deixou–nos assim um bocado…
Tal ez um pedacinho de nós. Aquele bu aquinho icou ali e não é apado com
nada. Nunca ai se apado, a é eu i e nunca ai se apado.” (LUÍSA,
en e is a)
T abalhei assim es es depoimen os como p ojeções mi ológicas do lu o, sem
g ande p ecisão sob e o que signi icam e como se de e minam, que “con ado ninguém
ac edi a, mas acon ece am, oda a amília sabe” (LUÍSA, en e is a). São na ações que
nos e elam uma insondá el di iculdade em dige i es a mo e, como se osse um
con eúdo que não pode se “ apado” nem “des apado”. É jus amen e es a elação com a
memó ia que pos e ga a limina idade do lu o, ma cada po uma dialé ica en e supe ação
e ea i ação obs inada da injus iça/imo alidade associada ao momen o da sua mo e. Es a
dialé ica es á pe ei amen e exp essa num diálogo en e Joana e Luísa no cemi é io:
“ emos a e ol a mas não podemos es a com isso a ida oda! Po que az–nos mal a nós.”
diz Luísa, ao que a Joana esponde p on amen e: “mas aqueles que ize am o mal es ão
i inhos! Os pais es ão a e eles, os i mãos es ão a e eles. As mulhe es, as p imas,
odos. E nós?”. A impu eza do seu des ino o na–se en ão um p olongamen o

63
imp esc i í el da lemb ança de Alcindo como alguém que não oi en e ado – algo al ez
p óximo à ideia de alma penada –, apesa da sump uosidade dos seus i os úneb es:
“O Fune al oi na Vila Chá, cá o am e e a missa e e e mui o empo a se
elado. Com mui a gen e, aliás a é hou e aqueles ap o ei amen os de pessoas
a que e me e a mão no caixão. Mui o cho o, mui a do . O cemi é io da Vilã
Chã es a a comple amen e apinhado, den o do cemi é io e o a do cemi é io.
Hou e um g upo que oi lá oca , como é adição em Cabo Ve de, e os jo ens
es a am comple amen e e ol ados. Se não osse uma in e enção, acalma
os jo ens, naquele dia inha ha ido p oblemas mesmo. Po que a quan idade
de gen e que es a a na Vila Chã, a quan idade de jo ens que es a am na Vila
Chã… Nós dizemos que os jo ens são maus mas eu es i e com eles,
e ol ados, alei com eles, acalmei–os, e aí iquei sa is ei o po que da ai a
que eles inham, da on ade de ingança que eles inham (e am um ma de
miúdos!), e conseguiu–se con encê–los que o melho e a acalma em–se e
deixa que aquilo se esol esse pela jus iça. Po que mais um pouquinho e e a
um desas e. Ali naquele cemi é io es a am odos concen ados, odos
pesa osos, odos a cho a , e com a consciência de que inha mo ido um amigo
e que inham que aze a ingança.” (Ped o San a ém, en e is a)
Não se ia demais e e i que as discussões em o no do concei o de limina idade
ocupam uma pa e essencial des a in es igação. A limina idade é desde o p incípio uma
ma ca essencial dos i os une á ios, is o que são ce imónias que isam: a passagem dos
de un os ao mundo dos mo os, a sepa ação do ínculo i encial en e os i os e o mo o
e a ag egação da sociedade dos i os em o no do ibu o aos an epassados (GENNEP,
2012). Mas o une al de Alcindo oi ei o de ou as o mações limina es, a es adas pelos
depoimen os cole ados e pelas imagens de a qui o, desde logo dependen es do seu
ca ác e de ma gem en e o público e o p i ado, o ci il e o ins i ucional. Da agonia
amilia às pessoas desconhecidas dispos as a queb a as p osc ições i uais – ocando no
caixão. De p esiden es da Câma a e da República, Jo ge Sampaio e Má io Soa es, a um
“ma de miúdos” do Ba ei o e ol ados e com sede de ingança. Da izinhança da
amília Mon ei o a sace do es, sindica os, mo imen os sociais e pa idos (dimensão que
le a inclusi e João Cha neca a desc edibiliza es e e en o: “ago a… o une al oi polí ica,
a é bandei as inha!”). De condu as cul u ais e i os habi uais às p á icas úneb es
64
po uguesas – a aza, o cho o, o se mão úneb e e a oblação –, a p á icas úneb es cabo–
e dianas/a icanas – a banda musical, o chô o, o spi i ual e a comensalidade ala gada.
Pa ece–me que o e dadei o signi icado des a ges ão limina , associada a con li os
sociais e cul u ais, é a da a i mação nes e momen o mul i udinal de homenagem a Alcindo
como uma espécie de ances al cole i o. Julgo que es e une al signi ica, com g ande
ampli ude social, aquilo que em O P ocesso Ri ual Tu ne denomina do es abelecimen o
de uma communi as (TURNER, 1974). É impo an e no a que o concei o de communi as
em Tu ne dis ancia–se do concei o de comunidade. T a a–se, an es de mais, de um empo
an i–es u u al es abelecido pela i ualidade, que i ompe a solidez do empo es u u al
pa a d ama iza uma c ise na o dem social e eelabo a emocionalmen e os con li os e as
mudanças. É “um es ado de ‘ eg essão’ cole i a no qual os indi íduos pe dem sua
consciência de compa imen alização, au onomia e in e io idade, pa a se ans o ma em
em ma é ia–p ima a se moldada de aco do com ce os alo es sociais.” (DAMATTA, p–
15–16, 2000).
“O que exis e de in e essan e com elação aos enómenos limina es no
que diz espei o aos nossos obje i os a uais é que eles o e ecem uma mis u a
de submissão e san idade, de homogeneidade e cama adagem. Assis imos, em
ais i os, a um "momen o si uado den o e o a do empo", den o e o a da
es u u a social p o ana, que e ela, embo a e eme amen e, ce o
econhecimen o (no símbolo, quando não mesmo na linguagem) de um
ínculo social gene alizado que deixou de exis i , e con udo simul aneamen e
em de se agmen ado em uma mul iplicidade de laços es u u ais.
(TURNER, p.118)
É en ão a a és des e p ocesso i ual que se negociam os con li os e as
di e gências p esen es nes e une al, com uma ep esen ação mui o plu al de es a os,
g upos e o ganizações sociais, impe ando um sen ido cole i o de “mui o cho o, mui a
do ” que azia com que naquele cemi é io es i essem “ odos concen ados, odos
pesa osos”. Es e p essupos o in e conec a–se, na nossa comp eensão des e i o úneb e,
com a ideia de que es a p esença massi a e não–compa imen ada só se ia possí el se
a en a mos a p io i à e icácia simbólica des a i ualidade – uma p á ica de passagem de
um a o isiológico (a mo e de um sujei o social) pa a uma ins i uição mi ológica
cole i a, a a és da capacidade de suges ão e sedução signi ican e pa a os signi icados
mobilizados (LEVI–STRAUSS, 1963. Nas imagens de a qui o do une al, emos o pad e
65
que p eside a ce imónia es abelece uma compa ação en e a mo e de Alcindo e de C is o,
enquan o apon a pa a o caixão a sepul a : “a sua en ega à Te a é ambém a en ega dele
mesmo a Deus. E se o seu co po desapa ece pa a depois essusci a , a lemb ança dele, nas
nossas men es, nas men es dos nossos ilhos, ica á como sinal daquilo que não podemos
aze , que não que emos que acon eça mais.” (RTP, Ma ginalidades
6
). Mas ambém um
can o neg o can a um poema que in oduz os ecos en e es a enda emocional, pela qual
se es abelece o “es ado de ma gem” cole i o, com o “es ado de ma gem” his ó ico da
iolência colonial: “Neg o geme po que apanha/ apanha pa a não geme / gemido de neg o
é cho o, gemido de neg o é poema/ geme na minha alma/ a alma do Congo, do Níge , da
Guiné.” (RTP, Ma ginalidades
7
).
Penso necessá io ealiza a pa i des e pon o uma e lexão: o signi icado
mul i udinal e simbólico do une al de Alcindo pa ece es a na concomi ância en e dois
i os de passagem. A ag egação de Alcindo ao mundo dos mo os e a ag egação
pe o ma i a do neg o ao mundo dos i os, a a és da denúncia da sua “mo e social”
(PATTERSON, 1985). A e ocação sac i icial do sace do e que p eside a ce imónia
assume–se, quan o a es a concomi ância, como um indício ele an e. Nem o sac i ício de
C is o pode se en endido sem o pa icídio p imo dial (FREUD, p. 23, 2009 [1915]), nem
a mo e de Alcindo pode se lida sem o signi icado social da neg i ude pa a a “pós–
colonialidade” po uguesa. Em Sla e y and Social Dea h, supo ando–se das eses de Van
Gennep e Tu ne sob e i os de passagem, O lando Pa e son e idencia como a
colonização p essupõe não somen e a dominação da o ça de abalho, mas um p ocesso
simbólico de desap op iação da ida social do colonizado, a a és de i os de in usão e
ex usão da sua subje i idade e mundo social (PATTERSON, p.35–76, 1985). “On he
cogni i e o my hic le el, one dominan heme eme ges, which lends an unusually loaded
meaning o he ac o na al aliena ion: his is he social dea h o he sla e. On he i ual
le el, he ensla emen p ocess is exp essed in e ms o well–de ined i es o passage.”
(idem, p.38, 1985). Es a análise pe mi e uma comp eensão apu ada dos p ocessos que
codi icam o de i in a–humano da neg i ude (MBEMBE, p.140, 2017) como
consequência de uma alienação on ológica. Alcindo Mon ei o o na–se assim num mi o
úneb e que ope a jus amen e na bi u cação des es dois egimes de signi icação: a
ea i mação genocida do de i neg o do mundo enquan o “ a apo humano” (idem, 2017)
6
Disponí el em: h ps://a qui os. p.p /con eudos/ acismo-em-po ugal-pa e-i/
7
Disponí el em: h ps://a qui os. p.p /con eudos/ acismo-em-po ugal-pa e-i/
66
e, a pa i do ícone suges i o da “noi e longa” de 10 de junho de 1995, a lu a po sai da
g ande noi e (MBEMBE, 2013), cujas poli izações abo da emos seguidamen e.
3.2. Poli izações: mani es ação e p ocesso judicial
No início dos anos 70 alguns au o es, en e os quais sinalizamos Alain Tou aine,
começam a discu i os desa ios pa a o ociden e da eme gência de uma e a pós–indus ial
e e cei izada. Segundo es es, des aca am dois deslocamen os polí icos essenciais: (i) o
eclipsa da classe capi alis a e da classe ope á ia como an agonis as polí icos que c uzam
de o ma ans e sal o espaço das poli izações, e (ii) a p oli e ação de agências polí icas
sus en adas no “es a u o ansmi ido” e não mais no “es a u o adqui ido” dos a o es
sociais em dispu a com um apa elho es a al cen alizado (TOURAINE, p.11, 1996
[1984]).
“Do pe íodo da indus ialização he damos a imagem de dois
ad e sá ios, a classe capi alis a e a classe ope á ia, en e a en e numa a ena
e com a mas que são na e dade escolhidas pela classe di igen e, mas que não
impedem que o con on o seja di e o. A imagem que se impõe a ualmen e, ao
con á io, é a de um apa elho cen al e impessoal e in eg ado , que man ém
sob seu con ole, além de uma “classe de se iço”, uma maio ia silenciosa
que p oje a à sua ol a um ce o núme o de mino ias excluídas, echadas,
subp i iligiadas ou a é mesmo negadas.” (idem, p.14, 1989)
Es a lei u a sem dú ida pa ece–nos ainda assim ma cada, de um lado, po um
a unilamen o geog á ico dos p ocessos sociais da época – desc e endo es a pós–
indus ialização apenas pequenos núcleos de concen ação de capi al –, e de ou o lado
ma cada po uma comp eensão um an o es é il, ainda que he e odoxa, da his ó ia
enquan o luxo unilinea . A p o a disso é que na década em que se começa a a a es es
aspe os es u u ais da con empo aneidade ociden al, Po ugal – um país al ez
modes amen e ociden al –, con inua a iminen emen e ag á io e me gulhado numa gue a
pela con inuidade da acumulação espolia i a – ou assim chamada acumulação p imi i a
– em á ios países de Á ica. De a o, e seguindo as pos ulações de Da id Ha ey, pa ece–
nos que independen emen e de o p ocesso de p ole a ização se um enómeno mundial, o
esul ado des e nunca oi a c iação de um p ole a iado homogéneo (HARVEY, p.147,
2005).
67
Es a econ igu ação social, mais co e amen e desc i a como capi alismo inancei o
e in o macional, é ca ac e izada po uma g ande a iedade de acumulações pela p edação,
aude e oubo, in eg adas num sis ema–mundo – como o ma de manu enção in e –
impe ialis a de mais– alia, num deslocamen o semp e no o e dialé ico en e a
acumulação espolia i a e a p odução de no os exé ci os de ese a do p ole a iado
(HARVEY, 2005). Julgamos assim necessá ia es a lei u a ma e ial, que en ende a
necessidade ine en e ao capi al de canibalização de algo que é “ex e no” pa a sua p óp ia
es abilização – seja es a ex e nalidade compos a po egiões, ecu sos ou pessoas –, pa a
en ende como ao capi alismo é necessá ia a c iação da igu a de um Ou o enquan o
“es a u o ansmi ido”.
Po o a, não deixa de se impo an e sinaliza que nos anos 90 po ugueses, após
um pe íodo de indus ialização inconclusa – e pos e io desindus ialização –, se
in oduza a poli ização do “es a u o ansmi ido” do a icano e b asilei o em Po ugal, que
inham essencialmen e cump indo as ezes de um exé ci o de ese a do ope a iado nos
espaços subu banos po ugueses – sob o selo da cons ução de um mo imen o an i acis a
po uguês con empo âneo. Numa análise socio–his ó ica dos mo imen os sociais, a
mani es ação de 16 de Junho 1995 – em p o es o con a o linchamen o no Bai o Al o –,
é o seu p imei o g ande ma co mul i udinal,
Se ia excessi o apon a es a a iculação polí ica como um mo imen o social no o
a Lisboa, ou em Po ugal, já que podemos no mínimo his o iog a a hoje di e en es ases
do mo imen o neg o po uguês. Sinalizam–se aqui pelo menos ês pe iodizações: a
p imei a necessa iamen e ligada aos mo imen os cul u ais e eligiosos que po oam a
capi al desde a segunda me ade do séc. XV (TINHORÃO, 2019). A segunda a uma g ande
e e escência polí ica pan–a icanis a do início do séc. XX, na qual su gem as
o ganizações Associação dos Es udan es Neg os (1911); Jun a de De esa dos Di ei os
D’A ica (1912); Liga A icana (1920); Pa ido Nacional A icano (1921); Liga das
Mulhe es A icanas (1929); G émio “Ké–A likana” dos A icanos (1929); Mo imen o
Nacionalis a A icano (1931), e p oli e am–se jo nais como O Neg o (1911); A Voz
D’A ica (1912–1913 e 1926–1930); T ibuna D’A ica (1913 e 1931–1932); O Eco
D’A ica (1914–1915); Po ugal No o (1915); A No a Pá ia (1916–1918) –
poli izações que gozam ainda de um g ande silenciamen o his o iog á ico (VARELA,
PEREIRA, 2020). E a e cei a é, sem dú ida, ligada à impo ância polí ica da Casa dos
Es udan es do Impé io (1944), que i ia du an e os anos 50 e 60 a cong ega á ios

68
es udan es abas ados das ex–colónias po uguesas, en e os quais Agos inho Ne o,
Amílca Cab al, Lúcio La a, Pepe ela, Joaquim Chissano, F ancisco José Ten ei o, Má io
Pin o de And ade, cuja cen alidade nas a iculações polí icas e olucioná ias que
de uba am o colonialismo po uguês é sobejamen e es udada, e que deixa g andes
ma cas na cidade, como a c iação do Cen o de Es udo A icanos da Uni e sidade de
Lisboa.
Mas é a pa i dos anos 90, en e a c iação de mo imen os cul u ais subu banos
onde o hiphop assume uma ex ema cen alidade, e as emb ioná ias o ganizações
an i acis as SOS Racismo e F en e An i–Racis a – pa ida iamen e a iculadas com o
PSR (Pa ido Socialis a Re olucioná io) e o PCP (Pa ido Comunis a Po uguês) –, que o
mo imen o neg o assumi á uma no a agenda pública e polí ica an i acis a, com uma
ampliada capacidade de ação social. Após um pequeno ensaio em 93 – nomeadamen e os
p o es os do caso Vu u –, ealiza –se–á es e g ande p o es o con a a iolência no Bai o
Al o no dia 16 de Junho de 1995 (com uma la ga adesão de sujei os acializados, mas
ambém de o ganizações sindicais, eligiosas, cul u ais e de di ei os humanos), e á ias
ou as pequenas mani es ações de epúdio du an e o p ocesso judicial no T ibunal de
Monsan o que pa ecem se a an ecâma a de um no o ôlego an i acis a (FALCÃO,
p.391, 2002).
Es a p imei a g ande mani es ação espalhou–se pelas uas da cidade, sendo
inicialmen e con ocada pela CGTP – a maio cen al sindical do país –, e assinada po
in a o ganizações de p a icamen e odo o espec o polí ico p og essis a po uguês
(FENPROF, Casa de Moçambique, Associação de Cabo– e dianos, SOS Racismo,
Associação Olho Vi o, F en e An i–Racis a, Associação 25 de Ab il, Ob a Ca ólica das
Mig ações, Oikos, PSR, PCP, Ju en ude Socialis a, TSD, G upo Ana quis a Ped o
K opo kine, e c). O p o es o e aze pe oma icamen e o aje o ealizado pelos skinheads
no dia 10 de Junho, iniciando no Mi adou o de São Ped o de Alcân a a e culminando no
Te ei o do Paço, pa a en ega uma ca a de enúncia ao minis o Dias Lou ei o pela
coni ência e polí icas an i–imig a ó ias. Nes a ca a esc e e–se: “Não podemos deixa de
nos indigna com o discu so o icial, de lai os acis as, discu so de quem oi incapaz de
ga an i a segu ança dos cidadãos e p ocu a aze dos imig an es o bode expia ó io dos
ac uais males da sociedade po uguesa.” (Diá io de No ícias, 17/06/1995). T a a–se aqui
de uma ób ia poli ização da lu a an i acis a em que um caso de acismo lag an e,
69
abalhado no une al como um má i , se o na a ago a um ins umen o da expansão de
uma agenda con a a es u u alidade do acismo sub il.
Apesa de não a ibui mos g ande c édi o a es a di isão en e o mas de exp essão
do acismo ( lag an e e sub il), u ilizamos aqui o concei o de acismo sub il no sen ido
ap esen ado pelo Jo ge Vala, como algo cons uído “a pa i dos indicado es das escalas
de negação de emoções posi i as, alo es adicionais, e acen uação das di e enças
cul u ais.” (VALA, 1999, p.155). Es a di isão pe mi e ilus a uma segunda dimensão das
poli izações le adas a cabo no escaldo do caso Alcindo Mon ei o, mui o bem
exp essadas nes a conclusão de Jo ge Vala a pa i des e es udo quan i a i o de exp essões
do acismo em Po ugal, em que apesa das na a i as luso– opicais se em hegemónicos,
não se encon am di e gências en e Po ugal e os ou os países eu opeus: “em Po ugal,
al como nos es an es países eu opeus, a no ma an i acis a incide sob e o acismo
lag an e, mas não sob e o acismo sub il.” (idem, p.171). É sob es a no ma que amos
encon a a g ande maio ia dos posicionamen os do a co go e na i o:
O PSD imi e um comunicado em que conside a que es es a os “o endem a
in eligência, a sensibilidade, a adição po uguesa e o di ei o à libe dade.” (Diá io de
No ícias, 13/06/1995). Dias Lou ei o condena “ eemen emen e es e ac o, que é
lamen abilíssimo, e que nos en e gonha como nação humanis a e ole an e” (idem). O
P imei o–Minis o Ca aco Sil a ac escen a que dada a “especí ica e adicional ocação
po uguesa” pa a con ac a com po os e cul u as di e en es “is o a nós choca–nos
especialmen e” (Jo nal de No ícias, 14/06/1995). Já desde o PS, que condena em
comunicado “o a o ascis a”, o depu ado Manuel Aleg e diz que o acon eceu no Bai o
Al o é “um a en ado a uma ce a imagem de nós p óp ios” (Público, 15/06/1995). E o
P esiden e da República Má io Soa es em a ce eza de que “ oi um a o esloucado”,
asse e a que “Po ugal hon a–se de e an os a icanos a i e aqui. São nossos i mãos e
são espei ados pela esmagado a maio ia do po o po uguês.” (idem), pelo que lhe es a
comunica que a “comunidade a icana não pode eagi iolen amen e”, e “ em que
man e a calma” (idem). Nou o comunicado, o mesmo Má io Soa es quali ica es e a o
como “uma impo ação” de a i udes acis as e i icadas nou os países, e que apesa da
“psicose de mui a insegu ança p o ocada pela oxicodependência, assal os e ac os de
ep essão”, o bandi ismo nacionalis a “é uma moda sem ep esen a i idade em Po ugal”
(Diá io de No ícias, 15/06/1995).
70
Tomados em conjun o es es depoimen os o mam uma isão holís ica des a “no ma
an i acis a” po uguesa, agenciada no sen ido de pe cebe o acismo como enómeno
casual, pa ológico, assis emá ico, inclusi e impo ado e, po an o, eximindo o acismo de
oda a es e a de p á icas, discu sos e polí icas que consubs anciam a iolência acial. No
mais, de emos ambém en ende que es es p onunciamen os não cons i uem nenhuma
espécie de de esa de Alcindo, ou das comunidades a icanas: an es de udo con igu am–
se como uma de esa iden i á ia de Po ugal. A ca ego ia sub il o na –se–ia assim um
eu emismo, po que alamos essencialmen e de uma sé ie de p á icas e discu sos que
in isibilizam a na u alização da acialidade como cons uc o sis emá ico e in e subje i o,
legi imando, po isso mesmo, a sup aci ada negação p oje i a. Se algum a o his ó ico
explici a es e pad ão de a uação é o des echo da mani es ação de 16 de junho de 1990: a
delegação enca egada de en ega o pedido de enúncia a Dias Lou ei o não é ecebida
pelo Minis é io da Adminis ação In e na e a ca a é en egue sem qualque espos a
es a al. Es a a uação que le a ia Gene al D a subi ao palco, no Te ei o do Paço, pa a
dize : “os skins são apenas a pon a de um icebe g que é o acismo em Po ugal” (Diá io
de No ícias, 17/06/1995).
É ambém e iden e que, nos an ípodas da abo dagem, ou as o mas de poli ização
se ges am a pa i des e momen o, absolu amen e bem cap adas no depoimen o de Rui
Es ela, na al u a um adolescen e cabo– e diano que não inha ido ainda a nenhum
p o es o:
“Nessa mani es ação o que eu pe cebi oi que há uma quan idade de
pessoas que pensa como eu. E esse é o impac o de uma mani es ação. Po isso
é que eu acho que é impo an e as pessoas i em pa a as mani es ações. Po que
aí ão e pessoas ca a a ca a – e es amos a ala de um empo mui o an es de
edes sociais, de compu ado es. O Alcindo Mon ei o oi mesmo aquele caso
que ez mui a gen e al ez i pa a a ua dize ‘chega!’, pe cebes? Um ‘chega’
e dadei o e au ên ico. (…) essa mani es ação oi mui o impo an e pa a mim.
Há uma coisa nas mani es ações que é que quando u chegas lá é um mis o de
e ol a e ao mesmo empo uma espécie de desca ga emocional, em que pa ece
que não és só u que es ás a ca ega aquele peso sozinho. E essa oi a p imei a
ez que eu i e essa sensação.” (RUI, en e is a)
Desin e essado po uma pe spe i a de análise undada no an agonismo en e
p o opolí ica e polí ica, o meu a gumen o é que es e pa ece se um momen o em que a
71
esis ência pessoal coo denada e a a i mação cole i a de no os alo es assume os desa ios
da ação social e indica i a (TARROW, 1994) pa a o an i acismo em Po ugal, como
ca ac e ís ica ma can e dos mo imen os sociais. “I is only by sus aining collec i e ac ion
agains an agonis s ha a con en ious episode becomes a social mo emen . Common
pu poses, collec i e iden i ies, and iden i iable challenges help mo emen s o do his”
(TARROW, 1994). Numa p imei a ins ância es a a iculação isa a esponde no
imedia o ao linchamen o acis a no Bai o Al o, e após isso acompanha a judicialização
do caso, mas ao longo da in es igação omos encon ando di e en es e no os desa ios
con enciosos a iculados com a mobilização solidá ia pa a com as í imas des e
linchamen o.
Des acamos os seguin es: (i) a c iação dos Ul as Con a o Racismo po jo ens de
se o es comunis as e ana quis as po ugueses, cuja p imei a aixa se e gue nes a
mani es ação, que isa a da espos a ao c escimen o de uma e são acis a e ascis a que
inha nas claques de u ebol o seu luga de ec u amen o; (ii) o início do mo imen o Sha p
(Skinheads Agains Racial P ejudice) e Redskin em Po ugal, que segundo Miguel
Pauli os, o mais elho skinhead an i ascis a po uguês que en e is ei du an e a pesquisa,
oi um mili an ismo c iado em Almada, após di e sos con li os, mas que só oma o ma
após o caso Alcindo Mon ei o; (iii) a mobilização de di e sos jo ens neg os em o no do
cole i o de base sec e o Zulu, com um pendo de ação di e a e au o–de esa an i acis a,
cujos os memb os e es e as de ação não consegui iden i ica mas que é e e ido po alguns
in e locu o es da in es igação como Rui Es ela, Ma cus Veiga e Gene al D como uma
o ganização que se o alece no escaldo do caso Alcindo Mon ei o; (i ) o o alecimen o
da ação das associações F en e An i–Racis a – que logo em julho de 1995 ealiza um
es i al an i acis a no Ba ei o – e a SOS Racismo – que no ano seguin e ealiza, no dia
10 de julho, uma g ande es a an i acis a pa a assinala es a da a; ( ) no mesmo ano,
1995, en am em egime de subs i uição pa a a Assembleia da República o cabo- e diano
Manuel Co eia (PCP) e o guineense Fe nando Ka (PS), os p imei os depu ados neg os
com uma agenda an i acis a e ep esen a i a dos in e esses dos imig an es; ( i) é
ap esen ada em 96 – e es abelecida em 99 –, a p imei a lei con a a disc iminação acial
e é nica no exe cício de di ei os (Lei nº 134/99).
Os anos a segui ao caso Alcindo Mon ei o são desde modo desc i os pelo di igen e
José Falcão: “Assim, enquan o uns an os di igen es ia en e ando as suas associações e
de inhando nos co edo es minis e iais, em con e sas com comissá ios e depu ados, ou o
78
No início de 2019 pa ecia es a em cu so uma ce a higienização de uma ex ema–
di ei a, associado ao ocaso do espec o polí ico da di ei a adicional – i egene á el
pe an e a “ge ingonça” de esque da que ence as eleições em 2015. O ano inicia–se com
a ex ensa epo agem da TVI “P ecisamos de um no o Salaza ?” sob e Má io Machado
– um dos ag esso es do caso Alcindo Mon ei o –, que ab ia de no o espaço pa a a
media ização do e nonacionalismo iolen o com uma p oposição messiânica em o no
des a igu a
11
. Ce ca de meia cen ena de mili an es da ex ema–di ei a azem a 1 de
e e ei o de 2019 uma mani es ação em homenagem a Salaza na Assembleia da
República. Simul aneamen e acon ece uma con amani es ação an i ascis a com ce ca de
mil pessoas, que empunham uma aixa com a ca a de Alcindo Mon ei o, acompanhada
da ase “Não esquecemos, nem pe doamos”. Ao aze o aje o da Rua Ga e em es e
oi assassinado g i am “Alcindo Mon ei o, não esquecemos”
12
.
Sem uma a iculação com um con ex o his ó ico eu opeu de c iminalização das
mig ações e de ascensão de p oje os polí icos nacionalis as (inclusi e o p imei o g ande
esul ado elei o al de Le Pen dá-se jus amen e no dia a segui ao assassina o de Alcindo),
o linchamen o do Bai o Al o o na–se inin eligí el. Da mesma o ma, es e pe íodo não
pode se comp eendido se um cená io ame icano e eu opeu de ascensão de polí icas de
ex ema–di ei a, exp esso an o nos go e nos T ump e Bolsona o, como nos iun os
nacionalis as em países eu opeus como Uc ânia, Hung ia, I ália, Áus ia e República
Checa.
Nas eleições legisla i as de 2019, ma cadas pela ascensão de no os pa idos, é
elei o o depu ado And é Ven u a pelo ecém–c iado pa ido Chega, de que é idealizado ,
e ês depu adas neg as com p oje o an i acis a: Joacine Ka a Mo ei a (Li e), Bea iz
Dias (Bloco de Esque da) e Romualda Fe nandes (PS). A pa i des a eleição o espaço
polí ico po uguês se á inundado po polémicas acis as e xenó obas de o ma cons an e,
que e elam os “ enómenos mó bidos” (GRAMSCI, 2012 [1949], p.82) de um elho que
ainda não mo eu e de um no o que pôde nasce .
O Chega inicia um p ocesso de oposição em elação ao mo imen o an i acis a
a a és da campanha “Po ugal não é acis a”, p o undamen e media izada em o no do
p o agonismo de And é Ven u a. T a a–se de um pa ido “pós–polí ico” (ZIZEK, 1999)
11
Consul a em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =V8QlLkuD LU
12
Consul a em: h ps://epheme ajpp.com/2019/02/01/pa l-mani es acao-con a-o- ascismo-lisboa-1-
de- e e ei o-de-2019/

79
e “pós– ascis a” (TRAVERSO, 2019), na medida em que se equilib a nes e a
despoli ização ecnoc a a/me i oc a a, as polí icas neolibe ais do “Es ado mínimo”, o
masca amen o an i–sis émico e a mobilização dos a e os polí icos do medo e do
desampa o em elação à hegemonia pa a um e cei o excluído. Com obje i os
amplamen e secu i is as, es e p omo e uma sín ese das eses clássicas da assimilação
luso– opical (nunca discu si amen e mul icul u alis as) e do adicalismo
e nonacionalis a (não necessa iamen e g upuscula e mili a is a) a a és da p oposição de
uma sup emacia é nica “con ibuin e”. Es a o na–se pa e de um complexo ideológico
que se ma e ializa de o ma ampla na gue a à “co upção” e à “ oubalhei a”, em que o
secu i ismo é anglo iado. Só assim pode se lida a sua g ande pala a de o dem exp essa
nas mani es ações do Chega: “Vi a a polícia! Po ugal não é acis a!”. And é Ven u a,
po sua ez, o ien a o seu p oje o polí ico pa a o u u o com a pos ulação da “4ª
República”, mas com es a se decla a abe amen e inimigo do 25 de Ab il.
No bojo des e eno ado p oje o polí ico, acon ece nes e ano a pe seguição
poli ico–mediá ica à depu ada Joacine Ka a , que o Chega media iza desde a sua eleição
como uma depu ada que de e ia se depo ada pa a a Guiné, apesa de se po uguesa. E
acon ece ambém o caso do Bai o da Jamaica, em que após um espancamen o policial de
uma amília nes e bai o social da AML ce ca de uma cen ena de jo ens neg os ealiza
um p o es o espon âneo na A enida da Libe dade. Es e p o es o é ep imido com ecu so
a bala de bo acha e p isões. Mamadou Ba, ao esc e e na sua ede social “bos a da bó ia”
no con ex o des a ope ação, começa a se insis en emen e pe seguido e ameaçado de
mo e pelos no os mo imen os sociais de di ei a, naquilo que es e desc e e como a
“bos aga e”.
O im des e ano se á ambém ma cado pela ealização de um encon o nacionalis a
eu opeu
13
, con ocado po o ganizações onde pa icipam assassinos de Alcindo Mon ei o
– odos eles em libe dade, hoje em dia, e á ios deles inclusi amen e com p ocessos
judiciais po ou os c imes de ódio. Es e e en o se á ma cado ambém pela ealização de
uma con amani es ação an i ascis a, ambém na Rua Ga e , con a a legalidade des e
encon o, onde a imp esc i ibilidade do c ime do Bai o Al o no seio da polí ica nacional
é elemb ada com ca azes alusi os e pala as de o dem
14
. Mas é no início de 2020,
13
Mais in o mação em: h ps://www.cmjo nal.p /po ugal/de alhe/encon o-de-ex ema-di ei a-em-
lisboa-es a-a-se -acompanhado-mui o-de-pe o
14
Consul a em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =G7ZxGs4mRp0& =40s
80
quando iniciamos a p odução do documen á io, que es e p ocesso ascizan e começa a
c ia suas anco agens nec opolí icas.
Luís Gio ani, um es udan e cabo– e diano, é assassinado numa disco eca em
B agança a 31 de dezemb o de 2019 e a polícia, an es mesmo de qualque in es igação,
assegu a que não se a a de um c ime acial
15
. Es a mo e ge a uma nume osa
concen ação de lu o em Lisboa – nunca is a desde o caso Alcindo Mon ei o –, que a
o ganização p oponen e que ia como silenciosa e calma, mas um no o a i ismo az
i ompe des a concen ação uma g ande mani es ação espon ânea. Es a mani es ação
desenha o pe cu so da A enida da Libe dade pe co ido pelo p o es o ep imido do caso
do Bai o da Jamaica.
Uma semana após es a ma cha, a angolana Claúdia Simões é espancada e p esa
pela polícia na Amado a, po se e esquecido do passe social da sua ilha ao apanha o
au oca o. Em odos es es casos ecen es, os usos audio isuais do elemó el e das edes
sociais pa a di usão de con eúdos mos a–se como um ins umen o di e encial em elação
às décadas an e io es. E na mani es ação con a es e abuso policial alguns mani es an es
elemb am mo es acializadas, e e indo de no o ao assassina o de Alcindo Mon ei o.
Em ma ço de 2020, já du an e a pandemia do Co id–19, o uc aniano Iho
Homeniuk é assassinado após espancamen os con inuados de o iciais no Cen o de
Ins alação Tempo á ia do SEF (Se iço de Es angei os e F on ei as) no Ae opo o de
Lisboa. To na–se assim a p imei a í ima mo al de p á icas ins i ucionalizadas du an e
décadas pela ins i uição, num p ocesso que le a á à ex inção do SEF no início de 2021.
No início de junho de 2020 i ompem pelo mundo in ei o os p o es os iniciados
pelo Black Li es Ma e con a a mo e de Geo ge Floyd. Se em 2018 o assassínio de
Ma ielle F anco já ha ia e o çado uma agenda an i acis a de solida iedade
in e nacional, es e caso ma ca á a maio mani es ação an i acis a ealizada em Lisboa –
apesa da pandemia –, ob iamen e a iculada com uma c escen e indignação endógena
com a acele ação do neopopulismo na i is a. Po es a mesma azão, o P esiden e da
Câma a de Lisboa Fe nando Medina ealiza a 10 de junho uma homenagem a Alcindo
Mon ei o pa a assinala os 25 anos da sua mo e, com a colocação de uma placa memo ial,
na Rua Ga e . Se es a ce imónia oi ealizada de o ma bas an e p i ada e in imis a, dois
15
Consul a em: h ps://www.cmjo nal.p /po ugal/de alhe/mo e-de-gio ani-causada-po -mo i os-
u eis-de-uma-desa enca-de idos-indiciados-po -homicidio-quali icado
81
dias depois um acon ecimen o his ó ico não goza da mesma disc ição: a es á ua do Pad e
An ónio Viei a, inaugu ada pelo p óp io Fe nando Medina em 2017, é pichada com a
pala a “descoloniza”. Es e acon ecimen o, obus ecido pelo man o luso– opical que
po oa o imaginá io po uguês sob e es e pad e, i á ge a uma g ande indignação nacional
con a as dep edações decoloniais do pa imónio. O Chega ealiza nes e con ex o uma
mani es ação “Po ugal não é acis a”, e anuncia que a pa i de ago a semp e que a
esque da sai à ua, a di ei a sai á em dob o.
Em julho, o a o de ascendência guineense B uno Candé é assassinado a i o em
Mosca ide pelo oc ogená io E a is o Ma inho, um ex–soldado colonial, que exp essa
an es do assassínio o seu ódio acial, ma cando o passo a uma g ande mani es ação
an i acis a e uma no a con amani es ação “Po ugal não é acis a”, con ocada pelo
Chega. A pa i daqui o cená io polí ico se á ma cado po uma cons an e poluição de
discu sos acis as, que acompanham um pe cu so de poli ização ma cado pela ascensão
do Chega, e se exp essam em ameaças eco en es de mo e a mili an es an i acis as e
an i ascis as
16
, dep edação da sede do SOS Racismo em pa ada de inspi ação KKK
17
, o
es ei amen o do ce co policial aos bai os “p oblemá icos” em empos de pandemia
18
, a
pichação em cadeia de ases acis as e xenó obas em p édios públicos
19
, a e i alização
memo ializan e de o cioná ios da Gue a Colonial como Ma celino da Ma a
20
.
Na conjun u a des es dois úl imos anos singula izam–se ainda alguns momen os
que se o na am polémicos, associados à cli agem da memó ia social de Alcindo. Nuno
Cláudio Ce ejei a, o an i ião do jan a de 10 de junho de 1995 em Cacilhas, é en e is ado
pa a a ele isão pública
21
, como um pai de igémeos ca enciado, naquilo que oi
conside ado uma higienização des a igu a. Descob em–se iliações acen uadas en e
al os ca gos do Chega e assassinos de Alcindo Mon ei o
22
. Alguns acusados do caso
16
Mais in o mação em: h ps://exp esso.p /sociedade/2020-08-29-Ameacas-de-mo e.-A i is as-
an i ascis as- as ea am-email-a e-a-Bulga ia
17
Mais in o mação em: h ps://www.jn.p /jus ica/sos- acismo-ap esen a-queixa-ao-minis e io-publico-
po -pa ada-ku-klux-klan-12512470.h ml
18
Mais in o mação em: h ps://www.publico.p /2020/05/12/opiniao/no icia/an iciganismo-con ex o-
pandemia-1916051
19
Consul a em: h ps://g1.globo.com/mundo/no icia/2020/10/30/escolas-e-uni e sidades-em-
po ugal-sao-pichadas-com-mensagens-con a-b asilei os-neg os-e-ciganos.gh ml
20
Mais in o mação em: h ps://sol.sapo.p /a igo/725372/ o o-de-p o undo-pesa -de-ma celino-da-
ma a- oi-ap o ado-com-poucos- o os-pela-assembleia-
21
Ve em: h ps://www.dn.p /pais/hamme skin-pai-de- igemeos- em-nazi-esc i o-na- es a-
11483388.h ml
22
Consul a em: h ps://polig a o.sapo.p / ac -check/and e- en u a-p omo e-nazis-a-di igen es-do-
chega
82
Má io Machado, Jaime Hélde e Nuno Cláudio Ce ejei a ol am a se inc iminados po
c ime de ódio
23
. João Ma ins, skinhead a quem oi encon ado cabelo de Alcindo nas
bo as, ealiza um discu so público de eo nacionalis a na comemo ação do 10 de Junho
ma cada pelo PNR. Es e discu so é ealizado mesma ho a e dia em que a Câma a de
Lisboa p es a homenagem a Alcindo na Rua Ga e . Na P aça Camões, com a amília de
alguns a 100 me os de dis ância, es e assassino de Alcindo Mon ei o decla a–se “uma
espada apon ada ao co ação daqueles que p e endem dissol e o nosso po o e a nossa
e a”
24
. E Má io Machado publica uma o og a ia do jan a em Cacilhas de 10 de junho
de 1995 em jei o de eco dação dos bons momen os de ju en ude, ge ando uma onda de
indignação.
Sendo o obje i o des a e nog a ia en ende como a memó ia do caso Alcindo
Mon ei o es á c i ada nas poli izações do p esen e, é impo an e en ende que a análise
diac ónica da mesma a a és de múl iplas on es, no con ex o da in es igação, é a iculada
com uma obse ação sinc ónica a en a do p esen e, seguindo p eposições me odológicas
da análise si uacional. Nes a obse ação encon amos a saliência de uma sé ie de
p oblema izações que econs oem es a memó ia do passado como uma con a–memó ia,
p ese ada po g upos especí icos que isam ga an i a na u eza imp esc i í el des e
c ime. Desde logo, a u ilização da mnemónica de lu a “Alcindo Mon ei o, não
esquecemos nem pe doamos” – 25 anos depois –, em di e sas ma chas e ações
an i acis as e an i ascis as, cons ói–se de o ma o al sob e a ques ão da
imp esc i ibilidade enunciada po Paul Ricoeu (2007 [2000], p.476–483).
Apesa do acompanhamen o mediá ico ex ensi o do caso Alcindo Mon ei o
du an e os ês anos do p ocesso (1995 a 1998), há um dis anciamen o en e o
esquecimen o ins i ucional des e caso após a sen ença, po um lado, e a econ e são des a
noi e numa memó ia social de lu a, po ou o. Es e dis anciamen o ci a–se numa a asia
en e a p esc ição empo al do di ei o ci il – omada como uma o ma “i e e sí el” e
“libe a ó ia” do di ei o penal, is o que “ela libe a de uma ob igação, de uma dí ida,
ex inguindo–a” (idem, 2007 [2000], p.477) –, e a imp esc i ibilidade dos c imes con a a
humanidade, como o c ime de genocídio. Os signi icados des a di e ença apon am pa a,
no p imei o caso, a singula ização penal des e c ime como uma ação de coau o ia limi ada
23
Consul a em: h ps://exp esso.p /sociedade/2020-06-14-Quem-sao-os-condenados-no-caso-Alcindo-
Mon ei o-que- ol am-a-se -acusados-de-c imes-de-odio
24
Consul a : h p://www.pa idoe gue- e.p /2019/06/discu so-de-joao-ma ins-no-dia-10-de-junho/
83
e culpabilidade p i ada que se p opõe, a p azo, ex in a. No segundo caso, as poli izações
do caso Alcindo Mon ei o e elam a impossibilidade de in ocação do p incípio da
p esc ição, is o a eno midade do c ime “ ompe o p incípio da p opo ção que ege as
elações en e a escala dos deli os e dos c imes e a dos cas igos.” (idem, 2007 [2000],
p.479).
À imp esc ição é adicionada ambém uma escala de con inuidade, is o que o
g upo é einciden e em casos de iolência acial e ideológica. Sob e es a ques ão, a
u ilização da memó ia de Alcindo em di e sos pan le os, ações de ua e a igos
jo nalís icos, se e jus amen e pa a e a e icamen e ce os núcleos polí icos cons i uídos
po es es agen es sociais genocidas ou nas suas p oximidades, mo endo sob e es es a
imp esc i ibilidade penal cole i a. Jus i ica –se–ia assim a impe doabilidade de a o,
en e à impossibilidade de um cas igo ap op iado a um c ime desp opo cional e,
po an o, a necessidade de adição de dimensões cole i as de culpabilidade mo al e
esponsabilização polí ica, a iculadas com polí icas de epa ação e compensação (idem,
2007 [2000], p.476–483).
Se ia ainda assim impensá el obse a a mobilização da imp esc i ibilidade des e
c ime sem en ende como es e se cons i ui enquan o uma de esa e ea ualização de um
p oje o colonial de iolência que e minou, em Po ugal, com as Gue as de Libe ação.
No pe íodo colonial ecen e, o exé ci o po uguês é esponsá el po inúme os c imes de
gue a e de genocídio – os massac es de Ma acuene (1895), Pi djigui i (1959), Mueda
(1960) Mocumbu a (1971), Wi iamu (1972), Inhaminga (1973–1974), ou as ope ações
Esme alda (1960) Vi ia o (1961) e Ma Ve de (1970). Es a gale ia in e miná el de
iolências não oi penalmen e a i ada em T ibunal de Haia, cons i uindo–se assim uma
impunidade his ó ica acen uada en e a c imes con a a humanidade
25
. Diga–se que es e,
em la ga medida, pa ece se o g ande osso his ó ico em que o caso Alcindo Mon ei o se
cons i ui como o único caso de genocídio alguma ez julgado em Po ugal. A a asia en e
a es as e idências, cujos agen es his ó icos habi am em la ga medida a e i o ialidade
po uguesa con empo ânea, não jus i ica ia a concomi an e omissão pública en e a um
p esen e colonial (PUREZA, 2020), associado à iolência do “neopopulismo na i is a” e
25
Mais in o mação em: h ps://obse ado .p /especiais/o-po ugal-da-gue a-colonial-es e e-mesmo-
o gulhosamen e/

84
do “ acismo di e encialis a”, como disposi i os ideológicos “pós–impe iais” de
pa ulhamen o iden i á io (TAGUIEFF, 2007).
Desde logo a memo ialização ins i ucional de Alcindo, como uma í ima com um
signi icado cole i o, cons i ui ia um dos p imei os passos des a polí ica de epa ação –
algo que apenas é conseguido em 2020. Em 2019 o Dia de Po ugal, Camões e das
Comunidades Po uguesas é celeb ado em Cabo Ve de, e Alcindo Mon ei o não é em
nenhum momen o ci ado. A homenagem pública a Alcindo e e que espe a po ou o
momen o: o assassínio de Geo ge Floyd, que ge a um con ex o mundial de lu as uns dias
an es de 10 de junho de 2020. A ausência des a memo ialização ins i ucional é o que
jus i ica a in e ogação de Mamadou Ba: “Po ugal é um país em p o unda negação do
acismo. Faz es e ano 25 anos da mo e de Alcindo Mon ei o. Como é que é possí el que
a ex ema–di ei a po uguesa ma e um neg o exclusi amen e po se neg o (não há ou a
azão!) e o país demo e 25 anos pa a lhe aze uma homenagem ímida?” (Mamadou Ba,
en e is a).
Assim, a memó ia social de Alcindo pa ece o na –se genealógica, ou seja:
embo a seja uma mo e indi idual, o na–se um mi o de o igem que pa ece ea ualiza a
es u u alidade da mo e social (PATTERSON, 1982) do sujei o neg o em e i ó io
po uguês. A sua in ocação indi idualizada isa assim in eg a –se numa poli ização
supe ado a de idas subo dinadas à u gência de e i a a mo e, con a iamen e ao egime
de e dade ins i ucional – que p ocu a singula iza e p esc e e es e c ime. Es a
lemb ança é azida pa a o p esen e como um signo mnemónico capaz de explici a a
submissão de sociabilidades à ameaça cons an e da mo e, de cuja ma e ialidade é c ia u a
e c iado . T a a–se aqui não mais de uma abo dagem da memó ia cole i a is a sob o
pa adigma da c is alização de alo es e aceções p edominan es no co po social – a
solidi icação do consenso mo al (HALBWACHS, 1950) –, mas enquan o “ma e ialidade
discu si a” (FOUCAULT, 1970, p.15), associada à con es ação de egimes de e dade e
de pode . Es es egimes de e dade dominan es exp essam–se de o ma ampla sob o
es ado de negação que, numa a azia anes ésica, p ocu a insis i no concei o de aça como
uma an asia social do passado, sem alidade es u u al e cien í ica, segundo o qual a
p óp ia ecolha de dados é nico– aciais se cons i ui ia enquan o p econcei o (MAESO,
2019).
A memó ia popula do caso Alcindo oi ansmi ida po uma mul iplicidade de
sujei os sociais e em, a ualmen e, ganhando no as o mas de dispu a des a hegemonia
85
ideológica. Sob es e p isma, a memó ia des e caso (que pode se amplamen e ep esen ada
pela mnemónica “Alcindo Mon ei o, não esquecemos”) assemelha–se bas an e às
o mulações mnemónicas “Cadé o Ama ildo?” ou “Quem mandou ma a Ma ielle?” ou o
hash ag #sayhisname, popula izado pelo Black Li es Ma e no con ex o do assassínio de
Geo ge Floyd. A ideia essencial que a icula odas es as mnemónicas de lu a
con empo ânea é a da in ocação de um subs an i o singula – associado a uma memó ia
social aumá ica que se p e ende ulga iza a a és da o alidade –, como uma o u a com
o egime de e dade dominan e. Es a pos ulação i al da o alidade como con a–memó ia
p ocu a ompe as ama as da domes icação e es abilização da memó ia cole i a da
go e namen alidade ociden al, desen ol ida a pa i da submissão p og essi a da esc i a
aos mecanismos do pode memo ial, segundo a eo ia da memó ia de Le Go (1990,
p.366/410). Assim, a o ça da in ocação indi idual supe a o signi icado p á ico de
demons a uma pe da po mo e ou desapa ecimen o, e o na–se an es de mais um signo
de egene ação cole i a a a és da esis ência ao esquecimen o. A communi as subjacen e
a es a in ocação é uma biopolí ica da esis ência, em que a supe ação do i o de con ágio
nega i o de in oca um mo o ou desapa ecido (GENNEP, 2012 [1909]) se e os
p opósi os da eag egação social do mundo dos i os.
T a am–se desde modo de uma espécie de encan amen os, não omados desde uma
pe spe i a li ú gica, mas de uma p agmá ica da e icácia simbólica, em que as p á icas do
p esen e se subme em ao esc u ínio e e isi ação de um e en o iniciá ico. Obse amos
en ão a ex ema ele ância de uma comp eensão i a dos i os enquan o ep oduções
es e eo ipadas que eelabo am as si uações do p esen e a a és de p o ó ipos, no caso,
a a és da uma in encionalidade mi op á ica (SAHLINS, 1990) que ememo a os iscos
empí icos da nec opolí ica.
A in ocação e bal, exp essi a e subs an i a, p ocu a des e modo
pe o ma a / es au a a memó ia inaugu al de um p ocesso social implíci o do p esen e,
que encon a a sua explici ude no d ama social o iginal (TURNER, 1982, p.72–74). Nes e
sen ido, quando aludo nes e capí ulo à eelabo ação do caso Alcindo Mon ei o como uma
“memó ia es au ada”, e e encio–me di e amen e às eses de Tu ne e Schechne sob e
an opologia e pe o mance, segundo as quais oda a d ama ização de expe ienciais
sociais é um compo amen o es au ado que eme ge da icção en e endas do passado
e con eúdos implíci os p esen es (TURNER, 1985). É a pa i des as memó ias que se
econs oem no p esen e “ econhecimen os de cisma i epa á el” e no as o mas de
86
“ag egação” polí ica e iden i á ia (idem, p.293). O concei o de mi op áxis de Sahlins e as
eses de Tu ne /Schechne sob e d ama social pa ecem–me assumi , quan o ao ema, uma
con luência: a ideia de que es u u a e e en o é uma di isão co olá ia que pa alogiza os
con li os sociais e suas de e minações implíci as.
Julgo, po an o, que a obse ação dos enómenos de longo empo de e se
acompanhada do en edo dos d amas sociais que os a a essam, ma cando as suas
múl iplas poli izações, eal ualizações e cli agens. Sem es e en edo é–nos obli e ada uma
eo ia da ação e da expe iência humana. É jus amen e a pa i do exe cício de econs ução
si uacional des es d amas sociais, e das u u as e cismas polí icas que p oduzem no seio
das sociabilidades, que julgo possí el supe a a um empo as len es analí icas do impé io
como con inuidade (FELDMAN–BIANCO, 2001) e do nacionalismo me odológico
(ÇAGLAR, SCHILLLER, 2018).
Em jei o de conclusão des a e lexão, escolho um echo de Neg o D ama de
Racionais Mc’s, ap op iado po a icula a a és do signo “d ama” es u u alidades e
agências conc e as. Nes e d ama, a cul u a acis a é sublinhada a pa i de um discu so
si uado p o undamen e na ama polí ica do “eu” e do “ u”, não em abs ações de espaço–
empo:
Nego d ama
Eu sei quem ama e quem á comigo
O auma que eu ca ego
P a não se mais um p e o odido
O d ama da cadeia e a ela
Túmulo, sangue, si ene, cho os e elas
Passagei o do B asil, São Paulo, agonia
Que sob e i em em meio às hon as e co a dias
Pe i e ias, ielas, co iços
Você de e á pensando
O que ocê em a e com isso?
Desde o início, po ou o e p a a
Olha quem mo e, en ão
Veja ocê quem ma a
87
Recebe o mé i o a a da que p a ica o mal
Me e pob e, p eso ou mo o já é cul u al
His ó ias, egis os e esc i os
Não é con o nem ábula, lenda ou mi o
Não oi semp e di o que p e o não em ez?
En ão olha o cas elo e não
Foi ocê quem ez, cuzão?
94
MARTINS, B uno Sena (2016), “Co pos–memó ias da Gue a Colonial: os De icien es
das Fo ças A madas e o ' es olha de asas no elhado'”. Em An ónio Sousa Ribei o;
Ma ga ida Cala a e Ribei o (o g.), Geome ias da Memó ia: Con igu ações Pós–
Coloniais. Po o: A on amen o, 305–325
MAUSS, Ma cel (1950 [2003]). An opologia e Sociologia. Cosacnai y.
MBEMBE, A. (2017 [2013]). C í ica da Razão Neg a. Lisboa: An ígona.
MBEMBE, Achille, (2017 [2016]). Polí icas da Inimizade. Lisboa: An ígona.
MCCALL, Leslie (2005). “The Complexi y o In e sec ionali y”. Signs, 30, 1771–1800.
NEUMAYER, E ic (2006). “Unequal access o o eign spaces: how s a es use isa
es ic ions o egula e mobili y in a globalised wo ld”. T ansac ions o he B i ish
Ins i u e o Geog aphe s 31 (1), pp. 72–84
NEWMAN, Da id (2003). “On Bo de s and Powe : A Theo e ical F amewo k”.
Jou nal o Bo de lands S udies Volume 18 (nº1).
NICHOLS, Bill (1997). Rep esen ando la ealidad – cues iones e concep os sob e el
Documen al. Ediciones Paidós Ibé ica: Ba celona.
ORTNER, She y B., (2016) . “Da k an h opology and i s o he s Theo y since he
eigh ies”. Hau: Jou nal o E hnog aphic Theo y 6 (1): 47–73.
PATTERSON, O lando (1982). Sla e y and social dea h: A compa a i e s udy. EUA:
Ha a d College.
PIRES, Rui Pena (2006). “In eg ação sociop o issional dos imig an es: con ex o e
desa ios”. Con e ência In e nacional Me opolis. 10/2006: Lisboa.
PUREZA, J.M. (2018). “Mig ações como ameaça: Neopopulismo e a qui ec u a global
do populismo”. O Espec o dos Populismos. Lisboa: Tin a da China.
QUIJANO, Aníbal (2009). “Colonialidade do pode e classi icação social”.
Epis emologias do sul, San os, Boa en u a de Sou a, Meneses, Ma ia Paula (o gs.).
Lisboa: Almedina.
QUILLIAN, L. (1995). “P ejudice as a Response o Pe cei ed G oup Th ea : Popula ion
Composi ion and An i–Immig an and Racial P ejudice in Eu ope”. Ame ican
Sociological Re iew, 60, 586–611.

95
RAPOSO, O á io (2005), “Sociabilidades ju enis em con ex o u bano. Um olha sob e
alguns jo ens do Bai o Al o da Co a da Mou a”, Fó um Sociológico, 13/14(2), 151 –
170.
RAPOSO, O á io, VARELA, Ped o, ALVES, Ana, ROLDÃO, C is ina (2019) “Neg o
d ama. Racismo, seg egação e iolência policial nas pe i e ias de Lisboa”. Re is a
C í ica de Ciências Sociais, 119, se emb o 2019: 5‐28.
RAPOSO, O á io; CASTELHANO, Ca los (2018), “P odução cul u al e engajamen o
polí ico na a o –Lisboa”, in Lígia H. Luchmann; B i a Baumga en (o gs.),
Modalidades e aje ó ias de pa icipação polí ica no B asil e em Po ugal.
Flo ianópolis: Insula , 199 –226.
RAPOSO, O á io; VARELA, Ped o (2017) “Faces do acismo nas pe i e ias de Lisboa.
Uma e lexão sob e a seg egação e a iolência policial na Co a da Mou a”. A as do IX
Cong esso Po uguês de Sociologia. Lisboa: Associação Po uguesa de Sociologia, 1 –
14.
RICOUER, Paul (2007 [2000]). A memó ia, a his ó ia, o esquecimen o. T adução de
Alain F ançois {e . al.}. Campinas, SP: Edi o a da UNICAMP.
ROSALES, M. e al. (2009). C esce o a de gua?: Exp essi idades, posicionamen os
e negociaes iden i  ias de jo ens de o igem a icana na egio me opoli ana de
Lisboa. Es udos e Documen os do Obse a ó io da Imig ação, 37. Lisboa: Al o
Comissa iado pa a a Imig ação e Diálogo In e cul u al.
SAHLINS, Ma shall (1990). Ilhas de His ó ia. Rio de Janei o: Zaha edi o .
SAHLINS, Ma shall (2003). Cul u a e Razão P á ica. Rio de Janei o: Zaha edi o .
SANTOS, Boa en u a de Sousa (1994). “Onze eses po ocasião de mais uma
descobe a de Po ugal”. Em Pela Mão de Alice…, pp. 49–68.
SANTOS, Boa en u a de Sousa (2013). “P e ácio”. Em As gue as de libe ação e os
sonhos coloniais: alianças sec e as, mapas imaginados, Ma ia Paula Meneses; B uno
Sena Ma ins (ed.). Coimb a: Almedina.
SANTOS, Ped o Ma a (2019). “A ex ema–di ei a em Po ugal (dos anos 1970 a
meados dos anos 1990)”. Comba es con a a ex ema–di ei a. Lisboa: edições Comba e.
SARTRE, Jean–Paul (2004 [1948]). O que é a li e a u a?. São Paulo: Á ica.
96
SAYAD, Abdelmalek (1998 [1992]). Imig ação ou os pa adoxos da al e idade. São
Paulo: Edusp.
SCHILLHER, Nina Glick, BASCH, L., BLANC–SZANTON, C (1992). Towa ds a
T ansna ional Pe spec i e on Mig a ion, Schille , Nina Glick (ed.). EUA: New Yo k
Academy o Science.
SINHORETTO, Jacqueline (2009). “Linchamen os: Segu ança e Re ol a Popula ”.
Re is a B asilei a de Segu ança Pública 3 (4).
SINHORETTO, Jacqueline. “Os jus içado es e sua jus iça. Linchamen os, cos ume e
con li o”. São Paulo: IBCCRIM, 2002.
SOLOMOS, J. (1989). Race and Racism in B i ain, Macmillan, London.
SPIVAK, Gaya i C (1985). In e iew wi h Angela McRobbie. Block (10), pp.5–9.
TAGUIEFF, And e Pie e (2007). L’ilusion populis e. Pa is: Flamma ion.
TAGUIEFF, Pie e and e (1997). Le acisme. Un exposé pou comp end e. Un essai
pou é léchi . Pa is: Flamma ion.
TARROW, Sidney (2009 [1994]). Pode em mo imen o: mo imen os sociais e
con on o polí ico. Pe ópolis: Vozes.
TINHORÃO, José Ramos (1997). Os Neg os em Po ugal: Uma P esença Silenciosa.
Lisboa: Caminho.
TOCQUEVILLE, Alexis de (1831). “Fo nigh in he wilde ness”, in Geo ge Wilson
Pie son, Tocque ille in Ame ica. Bal imo e: John Hopkins Uni e si y P ess, 1996.
TOURAINE, Alain (1996 [1984]). O e o no do ac o . Ensaio sob e sociologia. Lisboa:
Ins i u o Piage .
TRAVERSO, Enzo (2019). “Os no os “sonâmbulos” en e ao pós– ascismo”.
Comba es con a a ex ema–di ei a. Lisboa: edições Comba e.
TRINDADE, Luís (2019). “C í ica da Cul u a Polí ica do Salaza ismo”. O Espec o dos
Populismos. Lisboa: Tin a da China.
TURE, Kwame; HAMILTON, Cha les (1992 [1967]), Black Powe : The Poli ics o
Libe a ion in Ame ica. New Yo k: Vin age Books.
97
TURNER, V. (1974). O p ocesso i ual: Es u u a e an i–es u u a. Pe ópolis: Vozes.
TURNER, Vic o (1982). F om i ual o hea e: he human se iousness o play. No a
Yo k: PAJ Publica ions.
TURNER, Vic o (1985). On he edge o he bush: An h opology as expe ience.
Tucson: A izona Uni e si y P ess.
VALA, Jo ge, e al. (1999), “O acismo lag an e e o acismo sub il em Po ugal”.
No os acismos: pe spe i as compa a i as, Jo ge Vala (o g.). Oei as: Cel a Edi o a, 31
–59.
VALA, Jo ge, e al., (1999). Exp essões dos Racismos em Po ugal. Lisboa, ICS.
VALA, Jo ge, FERREIRA, Vi o Sé gio; EUGÉNIO LIMA, Ma cus e LOPES, Diniz
(2003). Sime ias e Iden idades. Jo ens Neg os em Po ugal. Oei as: Cel a.
VAN GENNEP, A nold (2012 [1909]). Os i os de passagem. Pe ópolis: Vozes.
VAN VELSEN, Jaap (1987). “A análise si uacional e o mé odo de es udo de caso
de alhado”. A An opologia das sociedades con empo ânea, FELDMAN–BIANCO,
Bela (o g.). São Paulo: Global.
VARELA, Ped o, PEREIRA, José (2018). “As o igens do mo imen o neg o e da lu a
an i acis a em Po ugal no século XX: a ge ação de 1911–1933”. Buala.
Em: h p://www.buala.o g/p /mukanda/as–o igens–do–mo imen o–neg o–e–da–lu a–
an i acis a–em–po ugal–no–seculo–xx–a–ge acao–de–1
VARELA, Ped o, PEREIRA, José (2020). “As o igens do mo imen o neg o em
Po ugal (1911–1933): uma ge ação pan–a icanis a e an i acis a”. Re is a de His ó ia
n.179.
ZIZEK, Sla oj (2000). The Ticklish Subjec : The Absen Cen e o Poli ical On ology.
London: Ve so.
WHYTE, William Foo e (2005). Sociedade de esquina: a es u u a social de uma á ea
u bana pob e e deg adada. T adução de Ma ia Lucia de Oli ei a. Rio de Janei o, Jo ge
Zaha .
WIEVIORKA, Michel (2001). A Di e ença. Lisboa: Fenda.
98
WOLF, E ic R. (1999). En isioning powe : ideologies o dominance and c isis.
Be keley, Los Angeles, London: Uni e si y o Cali o nia P ess.
MARCUS, Geo ge E (1995). E hnog aphy in/o he Wo ld Sys em: The Eme gence o
Mul i–Si ed E hnog aphy. A nnual Re iew o An h opology, Vol. 24, pp. 95–117.
BURCH, Noel (1969). P axis du cinéma, Pa is: Gallima d.
REVISTAS E DOSSIÊS
CORREIA, Ped o Miguel (1987). “A lu a polí ica”. Vangua da Nacional, 1987, n.4.
Disponí el em: h ps://epheme ajpp.com/2012/08/01/ angua da–nacional/
EMÍLIO, Rod igo (1988). “Elogio da aça”. Acção, n.4. Disponí el em:
h ps://epheme ajpp.com/2012/08/07/accao/
FRENTE ANTI–RACISTA (1997). Violência acis a em Po ugal: o p ocesso Alcindo
Mon ei o. Nº1
HENRIQUES, Luis Paulo (1886). “Um ano depois: a lu a con inua”. Acção, n.2.
Disponí el em: h ps://epheme ajpp.com/2012/08/07/accao/
HENRIQUES, Luís Paulo (1986). “Sociobiologia”. Acção, n.2. Disponí el em:
h ps://epheme ajpp.com/2012/08/07/accao/
SOS RACISMO. Dossiê de p ocesso: Alcindo Mon ei o. Vº1
SOS RACISMO. Dossiê de p ocesso: Alcindo Mon ei o. Vº2
TAVEIRA, Jo ge Manuel (1986). “Imig ação: o p incípio do im”. Acção, n2.
Disponí el em: h ps://epheme ajpp.com/2012/08/07/accao/
TAVEIRA, Jo ge Manuel (1989). “Sociobiologia”. Acção, n.5. Disponí el em:
h ps://epheme ajpp.com/2012/08/07/accao/
99