En e a Filoso ia e a Psicologia: A P odução da Vida como Ob a de A e
Júlia Es e es Bicalho de Almeida
Agos o 2021
Disse ação de Mes ado em Filoso ia Ge al
Júlia Es e es Bicalho de Almeida
En e a Filoso ia e a Psicologia: A P odução
da Vida como Ob a de A e, 2021.
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios
à ob enção do g au de Mes e em Filoso ia Ge al, ealizada sob a
o ien ação cien í ica da D ª Ma a So ia Fe ei a Faus ino.
2
Ag adecimen os:
Ag adeço, p imei amen e, à Ma a, po acolhe a p esen e p opos a em oda sua
complexidade, pela o ien ação semp e a en a aos concei os, pela con iança que
deposi ou em mim e em meu modo de abalha . Pela amizade, pela pa ce ia, pelas
chamadas de a enção necessá ias. Po con e i a esse abalho o con o no necessá io ao
igo ilosó ico, possibili ando assim que esses sabe es enham passagem na
Academia.
Ao A hu , pela amizade, pelas a des nos ja dins do Gulbenkian, po sus en a jun o o
desa io de se es angei o, pelo cuidado em momen os de c ise, pelas i ências
compa ilhadas em e as po uguesas.
Aos colegas po ugueses que me ecebe am ão bem, azendo com que eu me sen isse
acolhida e acompanhada du an e odo esse p ocesso de mes ado: Ma ga ida, Flo a,
João Ba os, João Mou ão, Ca a ina, Dani Canha, Rod igo e, em especial à Sa a To a.
Po ans o ma em Po ugal num luga que eu pude chama de “la ”, lhes dedico:
Semp e é possí el encon a con empo âneos em qualque
luga do empo e compa io as em qualque luga do
mundo. E semp e que isso acon ece, e enquan o isso du a, a
gen e em a so e de sen i que é algo mais na in ini a
solidão do uni e so. (Edua do Galeano)
Aos Loa ing He oes, em especial ao Ba holomew Ryan e à Giulia Gallina, po
ecebe em ão bem essa ã apaixonada, pelo ca inho que i e am comigo, pelas
canções que o nam minha ida mais boni a.
Ao Gian anco Fe a o, pelos jan a es, pela ecepção calo osa, pelas con e sas
ilosó icas, pela amizade.
Aos p o esso es An ónio Caei o e Paulo Lima, pelas o ien ações e e lexões é icas que
me p opo ciona am no deco e do mes ado, con e indo no as e amen as pa a
pensa minha p á ica p o issional.
Aos amigos e pa cei os de p o issão: Renan Pon é e Rica do Leonel. Po a i ma em
jun o a po ência desses sabe es que aqui se encon am desc i os, pelas con e sas de
ba que oma am co po a a és dos nossos abalhos.
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Aos amigos do B asil, que me acompanha am du an e odo o p ocesso de ida pa a
Po ugal: Elisa, Roana, Tammy, Ge aldo, Helena, Noemi, Di ceu, B uno Gomes,
B una Viana. Pela in ensidade e aleg ia dos encon os.
À Vi gínia e ao Clebe son, que me ajuda am desde o momen o da insc ição no
mes ado a é o momen o da en ega da ese. Ob igada po e em sido a luz que
iluminaos caminhos o uosos da bu oc acia.
À Maia a Isabelle, po desb a a alguns dos seg edos de Lisboa jun o comigo.
À Ma i Baldi, pela companhia nos meus p imei os dias em Lisboa.
À Bia, minha mad as a, pela é que em em mim, pela delicadeza em á ios momen os
da minha ida.
À Leni a, minha mãe, po e possibili ado meus es udos desde a in ância, pela
p eocupação em me da semp e o melho no que diz espei o à educação, po me
pe mi i encon a na escola e nos li os um luga de e úgio. Po se uma mãe ão
dedicada, po me pe mi i cons ui uma ida da qual eu enha o gulho, po não sai do
meu lado mesmo quando disco damos.
À Ma ília Muylae , po se uma inspi ação ão g ande na minha ida, po me aze
pe cebe que é possí el exis i no mundo, na Academia e em qualque espaço que eu
quei a, sendo quem eu sou e endo o gulho disso. Pela in luência que se az p esen e a
cada linha desse abalho, po se amiga, p o esso a, supe iso a, companhei a de casa.
Pelo Osca , nosso ga inho po uguês da OLX que ago a es á se o nando cada ez mais
b asilei o. Pela elação que se a ualiza e expande, nos acompanhando em cada ase da
ida.
Ao Osca , o ga inho po uguês, a única companhia nos meses de con inamen o em
Po ugal.
À Ciça Cas o, minha mes a do cuidado, pela hon a da companhia, po a i ma o
desejo jun o comigo, seja lá pa a onde ele apon e. Po me ap oxima de mim mesma,
de odas de mim.
Ao Lucas, pela e nu a que imp ime nos meus dias, po cuida bem de mim du an e o
p ocesso de esc i a dessa ese, pela doçu a inigualá el em cada ges o. Você é um
p esen e da ida.
4
Dedico esse abalho ao meu pai,
Ma cio Bicalho de Almeida (in memo ian).
Te ei o do pensamen o uma po ência nômade. E mesmo se
a iagem o imó el, mesmo se o ei a num mesmo luga ,
impe cep í el, inespe ada, sub e ânea, de emos nos
pe gun a : quais são nossos nômades de hoje?
– Deleuze, A Ilha Dese a, Pensamen o Nômade.
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En e a Filoso ia e a Psicologia: A P odução da Vida como Ob a de A e
Júlia Es e es Bicalho de Almeida
Resumo:
O p esen e abalho busca p omo e uma con e sa ansdisciplina en e a
Filoso ia e a Psicologia a a és de uma Ca og a ia dos concei os in e cesso es, que
uncionam como e amen as pa a a p á ica Clínica, encon ados no pe íodo
helenís ico omano e e omados po Michel Foucaul em A he menêu ica do sujei o. A
escolha po ealiza essa pesquisa de concei os a pa i desse pe íodo especí ico se dá
pela ele ância da Filoso ia como p á ica e apêu ica nessa época denominada como
“a idade de ou o do cuidado de si”. O p incípio do cuidado de si, do modo como é
agenciado po Foucaul , in e essa à Psicologia uma ez que é indispensá el pa a o
es abelecimen o de uma elação do si consigo mesmo que o pe mi a cons ui uma
ida bela – ida como ob a de a e – noção abalhada po Foucaul que in e essa
igualmen e à Psicologia po pe mi i a essa á ea do sabe pensa a ida de ou o modo
que não a pa i do de e minismo psíquico e dos diagnós icos pa ologizan es. Pa a
an o, pe co emos nes e es udo algumas das linhas cons i u i as do p incípio do
cuidado de si que nos pe mi em pensa a p á ica Clínica sob essa ou a óp ica, den e
elas, a noção de conhecimen o elacional, o concei o de si mesmo pensado pelos
helenis as e sua ideia de subje i idade, as noções de s ul i ia e pa esía enquan o
concei os in e cesso es que nos ajudam a pensa a elação en e e apeu a e sujei o que
busca a Clínica e as noções de p á icas de si e sua po ência de le a o indi íduo a uma
au o- ans o mação. Esse pe cu so é o ien ado pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico,
que unciona como uma ca a de p incípios que o ien a o abalho do psico e apeu a.
Pala as-cha e: T ansdisciplina idade, Cuidado de si, Clínica, Pa adigma é ico-
es é ico-polí ico.
7
Be ween Philosophy and Psychology: he p oduc ion o li e as a wo k o a
Júlia Es e es Bicalho de Almeida
Abs ac :
The p esen s udy aims o p omo e a ansdisciplina y dialogue be ween
Philosophy and Psychology h ough a Ca og aphy o in e cesso y concep s, which
wo k as ools o Clinical p ac ice, ound in he Roman Hellenis ic pe iod and aken up
by Michel Foucaul in his s udy en i led The He meneu ics o he Subjec . The choice
o ca y ou his esea ch o concep s om his speci ic pe iod is due o he ele ance
o Philosophy as a he apeu ic p ac ice du ing such ime, called “ he golden age o
sel -ca e”. The p inciple o sel -ca e, as b oke ed by Foucaul , ma e s o Psychology,
since i is pa amoun o he es ablishmen o a ela ionship be ween he sel and
himsel which will enable one o build a beau i ul li e - li e as a wo k o a - a concep
de eloped by Foucaul ha appeals o Psychology since i allows o hink o li e in
some o he way, di e en om psychic a alism and pa hologizing diagnoses. In his
s udy we co e ed some o he cons i u i e lines o he concep o sel -ca e which
allow us o see Clinical p ac ice h ough di e en lenses. Among hese di e en lenses
we ha e he no ion o ela ional knowledge, he concep o he sel hough by he
Hellenis s and hei idea o subjec i i y, he concep s o s ul i ia and pa esía as
in e cesso y concep s suppo ing new hough s abou he ela ionship be ween
he apis and he subjec who seeks he Clinic and he p ac ices o he sel and i s
po ency o lead he subjec owa ds sel - ans o ma ion. This esea ch ajec o y is led
by he e hico-aes he ic-poli ical pa adigm, which wo ks as a cha e o p inciples
guiding he psycho he apis 's wo k.
Key-wo ds: T ansdisciplina i y, sel -ca e, Clinic, e hico-aes he ic-poli ical pa adigm.
En e a Filoso ia e a Psicologia: A P odução da Vida como Ob a de A e
Sumá io
1. In odução ............................................................................................................................. 1
2. O cuidado de si .................................................................................................................... 17
3.Noção de conhecimen o elacional ..................................................................................... 28
4. A noção de si mesmo ........................................................................................................... 43
5. A s ul i ia e a necessidade de um mes e do cuidado ....................................................... 55
6. Tipo de discu so (pa esía) ................................................................................................. 66
7. As p á icas de si ................................................................................................................. 73
8. Conclusão ............................................................................................................................ 81
9. Bibliog a ia .......................................................................................................................... 86
7
deslocamen o do sujei o em seu p óp io campo a e i o, o que con e e uma expansão
ao campo da Clínica.
Já pa a a Filoso ia in e essa a in e e ência da Psicologia uma ez que ela
a ibui conc e ude aos concei os p opos os pelos ilóso os, con e indo ao campo
ilosó ico uma expansão a a és da qual os es udiosos desse domínio do sabe passam
a expe imen a os mo imen os dos concei os na ida, bem como a o ça que eles êm
de p oduzi e ei os conc e os no mundo. E ei os esses que ão além da o mulação
eó ica dos concei os. Re e imo-nos a e ei os sensí eis a pa i dos quais os concei os
passam a da nome a enômenos e mo imen os ca ac e ís icos do humano, bem como
da capacidade desses concei os em p oduzi modos de exis i no mundo.
Po an o, os concei os in e cesso es, enquan o e amen as de abalho, nos
in e essam especi icamen e po seu mo imen o de c iação p ocessual, pois o que se
oca na ansdisciplina idade não são in o mações ou comandos. A a és dela
in enciona-se aze a ia ce o domínio po in e e ência de ou o.
23
O a, segundo
Deleuze, do que se mo e a ualmen e não é de in e e ências, mas de p oposições que
não êm o meno in e esse.
24
Ou seja, a in e e ência mú ua en e Psicologia e
Filoso ia não aca e a um descaso pa a com o igo ilosó ico nem pe das concei uais
pa a nenhuma das duas á eas. T a a-se, po ém, de um igo de ou a o dem – não um
igo de p o undidade, mas um igo de in e cesso .
25
.
Claudio Ulpiano explica essa ques ão com maes ia quando, em uma aula sob e
Pensamen o e Libe dade em Espinosa, diz que ai eco e a au o es “espinosis as”
pa a pensa Espinosa.
26
Essa ação, segundo ele, não aca e a em pe das concei uais,
p oduzindo no pensamen o o mesmo e ei o que e íamos se ôssemos di e amen e à
ob a de Espinosa, uma ez que es e pode se ca ac e izado como um ilóso o do de i ,
um pensado do p ocesso. Des e modo, o pensamen o de Espinosa não exis e, de modo
algum, enquan o simplesmen e uma ob a do Espinosa: o que exis e, são os p ocessos
espinosis as.
23
PASSOS, E; BARROS, R. B. de, A cons ução do plano da clínica e o concei o de
ansdisciplina idade, p. 77.
24
DELEUZE, G., Con e sações, p. 162.
25
Ou seja, pa a um e apeu a o que impo a ex ai de um concei o ilosó ico é aquilo que esse concei o,
na p á ica, coloca pa a unciona – se ele unciona como in e cesso .
26
ULPIANO, Claudio, “Claudio Ulpiano – Pensamen o e Libe dade em Spinoza”, You ube. Disponí el
em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =oBDEZSx6xVs&lc=Ugj DBlYZKRNXXgCoAEC
8
Po an o o que in e essa, segundo Ulpiano, é o pensamen o espinosis a e os
pensado es que se a icula am com ele pe mi indo que a ob a de Espinosa enha
passagem e se expanda. O a, o que in e essa à ansdisciplina idade é p ecisamen e o
mo imen o dos concei os, os seus p ocessos de c iação e a ualização. En ão,
equen emen e se ão u ilizados no p esen e abalho concei os de de e minados
ilóso os sendo abalhados e ci ados po ou os como, po exemplo, os concei os
an e io men e e e idos do pe íodo helenís ico omano con o me agenciados po
Foucaul , além de ci a mos – na ansposição da Filoso ia pa a a Clínica – Espinosa e
Nie zsche pensados po Deleuze, den e ou os.
Po se a a de uma ese em Filoso ia, a emos o es o ço de delimi a ao
máximo as ap oximações e di e enças dos concei os aqui agenciados da pe spec i a da
Clínica, en e an o, de ido ao p óp io mo imen o da ansdisciplina idade, isso só é
possí el a é ce o pon o a pa i do qual os au o es e disciplinas en ol idas passam a
se compo mu uamen e dando o igem a ou o pensamen o, comple amen e no o, onde
já não há a possibilidade de delimi a o que pe ence a cada um, a inal, as on ei as
encon am-se deses abilizadas. Quando isso oco e , é p eciso que o lei o enha em
men e que se a a da p opos a da ansdisciplina idade se e e i ando no ex o.
Po im, Ba os e Passos assumem que po con a da dissolução das on ei as
disciplina es, equen emen e pai a sob e a ansdisciplina idade a ameaça de
ela i ismo, como se não exis isse c i é io algum nesse modo de p odução do sabe .
Segundo esses au o es, é p ecisamen e essa ameaça que de emos expu ga :
Pois quando abandonamos as ga an ias do undamen o o pensamen o co e o isco
de se pe de na indi e ença e no ela i ismo, como se udo ou nada alesse. É em
eação a es a ameaça que de emos a i ma nossas escolhas concei uais e de ini
nossas posições c í icas.
27
Po an o, com o in ui o de a i ma nossas escolhas concei uais nos de e emos a
explica b e emen e o pa adigma é ico-es é ico-polí ico que unciona como uma ca a
de p incípios que o ien a o abalho do psico e apeu a. É a pa i desses p incípios e do
igo é ico-es é ico-polí ico que desen ol emos nossas posições c í icas, a pa i das
quais selecionamos e agenciamos os concei os que se ão u ilizados no p esen e
27
PASSOS, E; BARROS, R. B. de, A cons ução do plano da clínica e o concei o de
ansdisciplina idade, p. 77.
9
abalho nessa con e sa quali icada en e a Filoso ia e a Psicologia que p opomos
aqui.
O pa adigma é ico-es é ico-polí ico
A Clínica o ien ada pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico consis e numa
b icolagem de eo ias ilosó icas que i ão compo uma ca a de p incípios que o ien a
o abalho do psico e apeu a. Sua p o eniência se dá no no o pa adigma es é ico
p opos o po Gua a i em Caosmose. Esse pa adigma oi pensando conside ando que o
pa adigma adicional das ciências – um pa adigma disjun i o, que sepa a e
hie a quiza: homem e na u eza, co po e men e, azão e emoção, e c. – po unciona a
pa i de elações de causalidade e de exclusão de opos os, não aba ca a complexidade
da ida. Pa a pensá-la em sua complexidade é necessá io que o açamos a pa i de um
pa adigma que se ap oxima do pa adigma da a e. Gua a i, po ém, essal a que ao se
e e i à “es é ica” e a um pa adigma a ís ico não es á a e e i -se à a e como a
en endemos de o ma ins i ucionalizada, mas:
[...] a uma dimensão de c iação em es ado nascen e, pe pe uamen e acima de si
mesma, po ência de eme gência subsumindo pe manen emen e a con ingência e as
icissi udes de passagem a se dos uni e sos ma e iais.
28
.
Ou seja, segundo Gua a i, o que impo a a esse pa adigma é o p ocesso de
ans o mação do sujei o e de passagem de um es ado ma e ial a ou o. O a, esses
p ocessos são p ecisamen e aquilo que a Clínica é con ocada a acompanha po quem
a p ocu a e que, em momen os an e io es ao seu su gimen o, cabia à Filoso ia in e i .
São p ocessos que acon ecem em momen os de c ises de alo es, nos quais aquilo que
é alo – aquilo que impo a ao indi íduo – é colocado em ques ão.
En amos aqui na dimensão é ica do pa adigma. É ica enquan o os alo es que
cada co po sus en a. O pa adigma é ico-es é ico-polí ico é um odo a iculado,
po an o, a dimensão é ica a a essa as ou as dimensões e é po elas a a essada. Os
alo es que cada indi íduo po a se exp essam no mundo a pa i do modo de ida do
sujei o. Nes e pon o, a es é ica in ade a é ica, pois quando nos e e imos a “exp essão”
28
GUATTARI, F., Caosmose: um no o pa adigma es é ico, T adução: Ana Lúcia de Oli ei a e Lúcia
Claudia Leão, São Paulo, Edi o a34, 1992, p. 131.
10
e “modo de ida” e e imo-nos a essa dimensão es é ica como sendo aquilo que dá
o ma à é ica.
Os modos de exis i , po sua ez, p oduzem polí icas. A es é ica de exis ência
capi alis a, po exemplo, é cons uída na pe spec i a de neu alização da al e idade e
da p ocessualidade; udo é um p odu o p on o. Logo, ao abalha mos po um
pa adigma que busca a al e idade e ope a com p ocessos, es amos a assumi uma
posição polí ica. Ou seja, o modo como abalhamos, nos elacionamos e exis imos
semp e esponde á a um de e minado posicionamen o polí ico pe an e a ida. A
es é ica do nosso abalho é polí ica, a es é ica das nossas elações são polí icas, a
es é ica da nossa exis ência é polí ica.
A pa i do modo como o sujei o i e é possí el pe cebe quais são seus
alo es e quais polí icas de exis i eles p oduzem no mundo. Aqui já emos algumas
pis as da o ma como o e apeu a o ien ado pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico
de e á abalha : sua p imei a ação, ao se depa a com uma p oblemá ica azida à
Clínica, de e se de ab i um campo de p oblema ização, a im de a alia quais
elações sus en am cada elo da p oblemá ica azida, quais alo es cons i uem o
sujei o, quais deles se encon am em c ise, qual alo no o su giu naquele co po que
o nou incômodo um modo de ida an es con o á el e quais ou os agenciamen os
possí eis pa a a expansão daquela ida podem se pensados den o desse campo.
O a, as c ises de alo es que impulsionam o sujei o a busca a Clínica, se dão
em momen os em que o plano hegemônico de ce o e e ado, de bem e mal, em julga
e cons ange aquele modo de ida que nos ala. Pa indo desse p incípio emos que
odas as p oblemá icas azidas pa a a Clínica são semp e de o dem mo al. A mo al
apenas julga, nunca a alia. Po isso az pa e da é ica do a endimen o e apêu ico ab i
um campo de p oblema ização a pa i do qual se á possí el, de ac o, a alia o que se
passa.
Tomemos po exemplo uma c iança le ada pelos pais à e apia po que es á
ap esen ando baixo endimen o na escola (segundo o que é conside ado bom ou mau
pelo es a u o escola ). Imaginemos ainda que ela em acompanhada de um diagnós ico
de TDAH (T ans o no do Dé ici de A enção e Hipe a i idade). Não oi abe o um
campo de p oblema ização pa a que esse diagnós ico osse con e ido, não hou e uma
explo ação dos campos a e i os da c iança pa a pe cebe quais elações es ão
11
sus en ando seu baixo endimen o escola , ampouco o am explo adas suas
po encialidades. Hou e apenas uma análise dos “sin omas” a pa i da qual oi dado
um nome pa a aquilo que a escola, os pais e c., julga am como um p oblema.
Sob a óp ica do pa adigma é ico-es é ico-polí ico o diagnós ico é um a o de
pouco in e esse po aquela ida que nos ala, sendo o diagnós ico das o ças em ação
no campo desc i o e dos p ocessos em andamen o o único possí el de se ealiza sob
essa es a égia de abalho. Den e as “ o ças” em ação que de em se a aliadas es á
udo o que compõe o indi íduo enquan o al, os u os de sen idos his ó icos-sociais,
gené icos, a e i os, den e ou os que o a a essam. O obje i o do a endimen o
psico e ápico não é diagnos ica , no sen ido es ei o da pala a, mas se elaciona , pois
o igo é ico de cada a endimen o se á de e minado pelos alo es cons uídos na
elação en e o e apeu a e o ou o. Assim sendo, emos mais um pon o que dis ingue
mo al e é ica: a é ica não é semp e do mesmo modo em odas as elações, pois ela
depende de se conside a a po ência de cada co po. Como nos diz Rocha:
Nes a pe spec i a, a escolha é ica não es á mais inculada a uma pos u a
anscenden e, con ida num código legal ou espaldada no ampa o di ino. Aqui, o
mo imen o de c iação p ocessual é a o igem da enunciação.
29
.
O a, in e essa à Clínica o ien ada pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico uma
pos u a imanen e, pa indo do p incípio de que a ida necessi a se a aliada apenas
pela p óp ia ida e na p óp ia ida.
30
Essa necessidade é colocada de ido ao ac o de
que:
O alo anscenden e, po sua ez, coloca-se como inamo í el, endo semp e
es ado e ai de endo pe manece pa a semp e. Face a al alo , a subje i idade ica
pe pe uamen e em al a, culpada a p io i ou, na melho das hipó eses, em es ado de
“conco da a ilimi ada”. [...] Assim a subje i idade modula não em mais o
con ole sob e a dimensão de eme gência dos alo es, que se encon a neu alizada
sob o peso das abelas de códigos, de eg as e de leis dec e adas pelo enunciado
anscenden e.
31
.
29
ROCHA, M. L., “Do pa adigma cien í ico ao pa adigma é ico, es é ico e polí ico: a a e como
pe spec i a nas soluções educacionais”, in Cade nos de Subje i idade, Núcleo de Es udos e Pesquisa da
Subje i idade do P og ama de Es udos Pós-G aduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, .1, n.2, São
Paulo, pp. 235-239, 1993, p. 235.
30
T echo e i ado do si e “Razão Inadequada” onde o au o abalha o concei o nie zscheano de
“ i ência”, desde onde agenciamos pa a a Clínica esse p incípio de ida a aliando ida. TRINDADE,
R., “Nie zsche – Vi ência”, 2017. Disponí el em: h ps:// azaoinadequada.com/2017/03/22/nie zsche-
i encia/ Acesso em: 10/08/2021.
31
GUATTARI, F., Caosmose: um no o pa adigma es é ico, p. 133.
12
Os alo es anscenden es, ad indos de a o es que se localizam o a do
con ex o daquela ida que nos ala – alo es colocados pela eligião ou pelo sabe
cien í ico posi i is a, pelos códigos de é ica pau ados na bu oc acia ou pelos
idealismos que pe meiam a ealidade – não são ú eis ao p ocesso de ansmu ação do
sujei o, de ac o, como nos diz Nie zsche:
A men i a do ideal oi a é ago a a maldição sob e a ealidade, a a és dela a
humanidade mesma o nou-se mendaz e alsa a é seus ins in os mais básicos – a
pon o de ado a os alo es in e sos aos únicos que lhe ga an i iam o
lo escimen o, o u u o, o ele ado di ei o ao u u o.
32
.
Nes e pon o, cabe essal a que há di e enças en e o que a p opos a da Clínica
o ien ada pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico nos az em elação àquilo que é
colocado pela iloso ia helenis a: enquan o pa a a Clínica não há um modelo de ida
especí ico conside ado como ideal – sendo os idealismos uma ameaça aos p ocessos
de ans o mação do sujei o – no pe íodo helenís ico omano ha ia uma noção de ida
ideal que se de e ia segui pa a alcança a elicidade plena. T abalha emos essa
di e ença mais de alhadamen e no deco e do abalho, mas po ho a, é possí el
pe cebe melho a azão da escolha em se abalha os helenis as a pa i de Foucaul ,
pensado que jun amen e com Nie zsche, Deleuze, Gua a i, Espinosa, en e ou os, az
pa e dos au o es da Filoso ia da Di e ença que ins umen alizam nossa p á ica
Clínica.
O igo na escolha dos concei os e no modo de se abalha na Clínica sob essa
pe spec i a se dá, en ão, da seguin e o ma:
O igo aqui é mais da o dem de uma posição on ológica do que me odológica,
in elec ual ou e udi a: é um igo é ico/es é ico/polí ico. É ico po que não se a a
do igo de um conjun o de eg as omadas como um alo em si (um mé odo),
nem de um sis ema de e dades omadas como alo em si (um campo de sabe ):
ambos são de o dem mo al. O que es ou de inindo como é ico é o igo com que
escu amos as di e enças que se azem em nós e a i mamos o de i a pa i dessas
di e enças. [...] Es é ico po que es e não é o igo do domínio de um campo já dado
(campo de sabe ), mas sim o da c iação de um campo, [...] como numa ob a de
32
NIETZSCHE, F, Ecce Homo, como alguém se o na o que é, T adução de Paulo Césa de Souza, São
Paulo, Max Limonad, 1985, p. 40.
13
a e. Polí ico po que es e igo é o de uma lu a con a as o ças em nós que
obs uem as nascen es do de i .
33
.
Essa ên ase na noção de uma c iação p ocessual do si e a i mação do de i
ad inda do pa adigma é ico-es é ico-polí ico, con e sa di e amen e com os concei os
de es é ica da exis ência e ida como ob a de a e p opos os po Foucaul . O‟Lea y
a i ma que Foucaul usa o e mo “es é ica” pelo ac o de que esse abalho en ol e,
an o quan o as p á icas a ís icas, o a o de “da o ma” à nossa exis ência como
a íamos com uma ob a de a e.
34
Além disso, de aco do com Figuei edo:
A es é ica da exis ência é o desdob amen o de duas noções: a de modos de ida
[...] e de a e de i e . [...] A a e de i e e modos de ida são dois concei os que
se em de en en amen o a ipos de idas eguladas po ecnologias cien í icas,
pseudo-cien í icas, como as da “ unção psi”, seja ela psicológica ou psicanalí ica,
seja eudiana ou lacaniana. [...] A e ou écnica que da ia a ida, não a sua azão,
seu sen ido, ou a sua e dade mais essencial; ao con á io, mos a que o a des e
bu aco sem undo, há múl iplas, a iadas e di e en es o mas e elações possí eis
en e os indi íduos.
35
.
Pensa a Clínica a pa i desses p incípios con e e à Psicologia uma expansão à
medida que nos impulsiona a pensa a ida pa a além dessas es a égias ci adas no
agmen o an e io e que po am uma isão do sujei o já cons i uído e de e minado po
es u u as psíquicas. De ac o, Foucaul des aca em uma en e is a que a a e de i e ,
que pensa a ida e o sujei o como algo em cons an e p ocesso de c iação, é a “mo e
da Psicologia”, con o me podemos con e i no agmen o abaixo:
O p oblema é c ia jus amen e qualque coisa que se passa en e as ideias e o qual
é necessá io aze algo que seja impossí el da um nome, e, po an o, a cada
ins an e expe imen a da a ela uma colo ação, uma o ma e uma in ensidade que
não diga jamais is o que ela é. Is o é a a e de i e . A a e de i e é ma a a
psicologia, c ia consigo mesmo e com os ou os indi idualidades, se es, elações,
qualidades que sejam inominadas. Se não se pude chega a aze isso na sua ida,
ela não me ece se i ida. Eu não aço di e ença en e as pessoas que azem da sua
exis ência uma ob a de a e e aquelas que azem uma ob a na sua exis ência. Uma
33
ROLNIK, S., “Pensamen o, co po e de i . Uma pe spec i a é ico/es é ico/polí ica no abalho
acadêmico”, in Cade nos de Subje i idade, Núcleo de Es udos e Pesquisa da Subje i idade do P og ama
de Es udos Pós-G aduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, .1, n.2, São Paulo, pp. 241-251, 1993, p.
245.
34
O‟LEARY, T., ci . in, NICA, D., Aes he ics o Exis ence and he Poli ical in La e Foucaul , in V.
VIZUREANU (ed.), Re- hinking he Poli ical in Con empo a y Socie y, P o Uni e si a ia, pp. 39-62,
2015, p. 49.
35
DE FIGUEIREDO, F. P., “A e de i e , modos de ida e es é ica da exis ência em Michel Foucaul ”,
in Í aca, nº 15, Rio de Janei o, pp. 290-299, 2010, p. 295.
14
exis ência pode se uma ob a pe ei a e sublime, e is o os g egos sabiam, en ão que
nós a ínhamos comple amen e esquecida, sob e udo depois da Renascença.
36
.
Ao passa de um es ado ma e ial ao ou o, em p ocesso de de i , o indi íduo
escapa às noções que isam encapsula o sujei o numa só iden idade a im de melho
con olá-lo. Do con á io, quan o mais se ans o ma, mais o sujei o escapa ao pode e
i e uma ida li e. A Psicologia que pensa a pa i das iden idades encon a na a e
de i e uma ameaça de des uição, essa ameaça, po ém, não é de o ma alguma
indesejada a pa i do momen o que podemos busca nesse concei o uma
ul apassagem a essa Psicologia que se cons i ui desse modo ainda educionis a e
de e minis a.
Segundo Daniel Nica, a noção de es é ica da exis ência oucaul iana é
comumen e iden i icada como uma mudança no modo do au o pensa suas
p oblema izações polí icas, em a o de uma ap oximação é ica.
37
Essa mudança se
deu a pa i de suas e lexões ace ca do cuidado de si, a elada à sua busca po no as
o mas de subje i idade, apoiando-se em pensado es que aziam a noção de ida
como ob a de a e.
O a, uma ez que o cuidado de si passa a se coex ensi o à ida
38
no pe íodo
helenís ico omano, “[...] comp eendendo odas aquelas iloso ias cínica, epicu is a,
es oica, que se ap esen a am como a es de i e ”
39
; semp e a a essadas de algum
modo po esse p incípio que é nosso p incipal aliado concei ual pa a as e lexões que
p e endemos desen ol e sob e essa ques ão que in e essa an o à Filoso ia quan o à
Psicologia: aze da ida uma ob a de a e.
Me odologia e es u u a da ese
[...] o ca óg a o “papa” ma é ias de qualque p ocedência. Não em o meno
acismo de equência, linguagem ou es ilo. Tudo o que a o ece a ida é pa a ele
bem indo. Todas as en adas são boas, desde que as saídas sejam múl iplas. Po
isso, o ca óg a o se e-se das on es mais a iadas. Inclusi e não só esc i as e
36
FOUCAULT, M., “Con e sa ion a ec We ne Sch oe e ”, ci . in DE FIGUEIREDO, F. P., “A e de
i e , modos de ida e es é ica da exis ência em Michel Foucaul ”, p. 295.
37
C . NICA, D., Aes he ics o Exis ence and he Poli ical in La e Foucaul , pp. 39-40: O úl imo pe íodo
do abalho de Foucaul é equen emen e e e ido como “uma i ada é ica”. O a, a ap oximação que
Foucaul az en e polí ica, é ica e es é ica con e sa di e amen e com as p oposições do pa adigma ao
qual nos e e imos nesse abalho.
38
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 79.
39
FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 76.
15
nem só eó icas. Seus ope ado es concei uais podem an o su gi de um ilme,
quan o de uma con e sa ou de um a ado de Filoso ia.
40
.
P e endemos desen ol e o p esen e abalho a pa i do mé odo ca og á ico
ou “Ca og a ia”. T a a-se de um mé odo que se desloca da lógica ca esiana na qual o
pesquisado se dis ancia do obje o pa a conhecê-lo, man endo uma supos a
neu alidade na pesquisa. A Ca og a ia, ao con á io, é um mé odo de pesquisa-
in e enção que assume não ha e neu alidade no conhecimen o, uma ez que
comp eende que “[...] oda pesquisa in e ém sob e a ealidade mais do que apenas a
ep esen a ou cons a a em um discu so cioso das e idências.”
41
. Sob e essa
me odologia de pesquisa Ba os e Passos dizem:
A Ca og a ia como mé odo de pesquisa-in e enção p essupõe uma o ien ação do
abalho do pesquisado que não se az de modo p esc i i o, po eg as já p on as
nem com obje i os p e iamen e es abelecidos. No en an o, não se a a de uma
ação sem di eção, já que a ca og a ia e e e o sen ido adicional de mé odo sem
ab i mão da o ien ação do pe cu so da pesquisa.
42
.
Essa e e são ci ada no echo acima se dá pelo p imado do caminha que aça
suas me as de pesquisa no p óp io pe cu so à medida que in e ém sob e o campo
pesquisado. De ende que oda pesquisa é in e en i a exige do pesquisado um
me gulho no plano da expe iência onde “conhece ” e “ aze ” são insepa á eis, pois
não há conhecimen o p é io à en ada em elação com aquilo que se p e ende
conhece – o conhecimen o é cons uído no pe cu so que é açado a pa i de:
[...] pis as me odológicas e a di eção é ico-polí ica que a alia os e ei os da
expe iência (do conhece , do pesquisa , do clinica e c.) pa a daí ex ai os des ios
necessá ios ao p ocesso de c iação. Tal p ocesso se dá po uma dinâmica de
p opagação da o ça po encial que ce os agmen os da ealidade azem consigo.
P opaga é amplia a o ça desses ge mens po enciais numa deses abilização do
pad ão. Nesse sen ido, conhece a ealidade é acompanha seu p ocesso de
cons i uição, o que não pode se ealiza sem uma ime são no plano da expe iência.
Conhece o caminho de cons i uição de dado obje o equi ale a caminha com esse
40
ROLNIK, S. B., ci . in VIEIRA, R. A. K., Os modos con empo âneos de ges ão do espaço u bano e a
in enção de si, Disse ação de mes ado, Uni e sidade Es adual Paulis a, Faculdade de Ciências e
Le as de Assis, 2009, p. 145. Disponí el em: h p://hdl.handle.ne /11449/97553.
41
BARROS, R. B; PASSOS, E., “A Ca og a ia como mé odo de pesquisa-in e enção”, in:
ESCÓSSIA, L; KASTRUP, V; PASSOS (o g.), Pis as do mé odo da ca og a ia: pesquisa-in e enção
e p odução de subje i idade, Po o Aleg e, E. Sulina, 2010, p. 20.
42
BARROS, R. B; PASSOS, E., “A Ca og a ia como mé odo de pesquisa-in e enção”, p. 17.
16
obje o, cons i ui esse p óp io caminho, cons i ui -se no caminho. Esse é o
caminho da pesquisa-in e enção.
43
.
En ão, o p esen e abalho bem como os concei os que o compõem diz espei o
ao caminho pe co ido pela au o a enquan o psico e apeu a e mes anda em Filoso ia,
o ien ada em sua p á ica psicológica pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico que
unciona como uma bússola que o ien a o abalho do ca óg a o
44
e desde onde
pode emos ex ai as pis as necessá ias pa a se pensa esse caminho. Todo o concei o é
p oduzido a pa i de um de e minado egime de o ças, assim como cada
acon ecimen o que se passa na Clínica. Logo, p e endemos abalha com as linhas
cons i u i as dos concei os que melho componham com de e minado acon ecimen o
de modo a desloca o sujei o de um pad ão icioso de compo amen o.
Sob e a Ca og a ia, cabe essal a ainda que:
[...] o caminho do ca óg a o se az no deco e do p óp io caminha , com suas
memó ias e sua his ó ia e, não ha endo nada a explica ou e ela , seu abalho
consis e em da exp essão às in ensidades que o pe co em enquan o ele aça um
caminho.
45
.
Assim sendo, uma ez que a Ca og a ia se a a de um mé odo que se az no
p óp io caminha da pesquisa, consequen emen e ela é “[...] um mé odo em p ocesso
pe manen e de cons ução e p odução e desc ição de “uma paisagem”, enquan o
enômeno e mo imen o”
46
, con o me essal ado po G eggio e Dellas a. Ainda
segundo esses au o es, ci ando Klebe Filho e Te i isso signi ica que:
[...] não se a a aqui de uma me odologia como p oposição de eg as ou
p o ocolos de pesquisa, mas, sim, como es a égia lexí el de análise c í ica e ação
polí ica, que acompanha e desc e e elações, aje ó ias, o mações izomá icas,
composições de disposi i os, apon ando linhas de uga, up u a e esis ência.
47
.
O a, uma ez que conhece a ealidade é acompanha os p ocessos de
cons i uição do obje o a que se p e ende conhece , acompanha emos a segui alguns
dos p ocessos de cons i uição de concei os cujas ques ões são p opedêu icas pa a o que
43
BARROS, R. B; PASSOS, E., “A Ca og a ia como mé odo de pesquisa-in e enção”, p. 30.
44
VIEIRA, R. A. K., Os modos con empo âneos de ges ão do espaço u bano e a in enção de si , p. 6.
45
VIEIRA, R. A. K., Os modos con empo âneos de ges ão do espaço u bano e a in enção de si , p. 17.
46
GREGGIO, E; DELLASTA, H. G., “Possí eis con ibuições da ca og a ia ao pa adigma é ico-
es é ico-polí ico”, in Re is a de Psicologia da UNESP, pp. 124-134, 2020, 19.1, p. 123.
47
KLEBER FILHO, P., TETI, M. M., ci . in GREGGIO, E; DELLASTA, H. G., Possí eis
con ibuições da ca og a ia ao pa adigma é ico-es é ico-polí ico, p. 124.
23
época de da con a de ques ões humanas que hoje dizem espei o, especialmen e, à
Psicologia, sendo a p incipal delas aze com que o sujei o que p ocu a angus iado po
ajuda olhe pa a si mesmo, ol e-se pa a si, ocupe-se consigo mesmo. Ou o pon o
impo an e é que, apesa de o cuidado de si não se mais uma ob igação de uma única
ase da ida, há ce a ên ase que apon a pa a a elhice, momen o da ida que, apesa
de se hon oso na cul u a g ega adicional, não e a desejá el. O a, não só na cul u a
g ega, mas de modo ge al, à pa ida ninguém deseja se elho. Os helenis as, po ém e,
sob e udo os es oicos, ans o mam es a alo ação, o nando a elhice um ideal a se
cump ido mesmo na ju en ude.
O cuidado de si, po an o, de e se p a icado du an e oda a ida, mas ele
assume odos seus e ei os e dimensões na elhice do indi íduo, pe íodo no qual é
possí el encon a a mais al a o ma do cuidado de si como o esul ado de oda uma
ida de cuidados e cuja ecompensa apa ece na úl ima ase da exis ência humana. O
idoso é is o como aquele que após décadas de cuidado (caso esses cuidados enham
sido de idamen e e e uados) é sobe ano de si mesmo e que, sendo senho de si, pode
en im e p aze consigo e deposi a em si oda aleg ia e sa is ação sem depende do
ex e io , pois a elação dele pa a consigo mesmo chegou a al pon o que já se sabe
exa amen e udo aquilo que lhe ap az e como lhe ap az. Des e modo, de e-se inclusi e
ap essa -se umo à elhice, de e-se ende pa a a elhice, pois é es e o luga que mais
o e ece um ab igo segu o das coisas do mundo.
O a, mais do que li e almen e ap essa -se em di eção à elhice, esse
pensamen o inaugu a uma no a é ica do i e a qual nos ob iga a nos coloca mos em
elação à ida de al modo como se já a i éssemos consumado e nos cons i ui mos
pe an e a exis ência como se já ôssemos elhos, ou como nos diz Epicu o no echo
acima ci ado po Foucaul , de e-se iloso a e cuida de si enquan o jo em com o
in ui o de se ão i me quan o um idoso pe an e o u u o ainda que seja jo em e,
quando se é idoso, de e-se azê-lo pa a lemb a os dias passados nos quais o exe cício
de ocupa -se consigo lhe con e iu os sabe es sob e si que se em na elhice. A esse
espei o, Foucaul nos diz ainda que:
No undo, é p eciso que, a cada momen o, mesmo sendo jo ens, mesmo na idade
adul a, mesmo se es i e mos ainda em plena a i idade, enhamos, pa a com udo
que azemos e somos, a a i ude, o compo amen o, o desapego e a comple ude de
alguém que já i esse chegado à elhice e comple ado sua ida. De emos i e
nada mais espe ando da ida e, assim como o idoso é aquele que nada mais espe a
24
da ida, de emos, mesmo quando jo ens, nada espe a . De emos consuma a ida
an es da mo e. [...] De e-se consuma a ida an es da mo e, de e-se comple a a
ida an es da mo e, de e-se comple a a ida an es que chegue o momen o da
mo e, de e-se a ingi a saciedade pe ei a de si.
61
.
T a a-se de uma é ica que nos impulsiona a i e a ida como se cada dia osse
o de adei o dia. Tendo isso em is a é possí el en ende o mo i o pelo qual o cen o
de g a idade do cuidado de si nos helenis as encon a-se ol ado pa a a elhice a
despei o dessa se uma p á ica pa a oda a exis ência e, mais do que isso, pode-se
pe cebe o modo como esse pon o de g a idade apon a pa a a elhice – na o ma de
uma é ica de ida – como um eino que de e se ei o du an e oda a ida: eina -se
pa a se elho mesmo aos 20, 30 ou 40 anos.
Ou a ca ac e ís ica impo an e é que, mais do que uma a e a pa a oda a ida,
o cuidado de si passa a se ambém uma a e a de oda ida ( emos aqui esumidas as
duas dimensões do p ocesso de gene alização do cuidado de si na paisagem helenís ica
omana). Ou seja, se no pe íodo pla ônico o cuidado de si des ina a-se apenas a
pessoas de ce o s a us social, no pe íodo helenis a ele passou a se como que um
mo imen o cul u al de massa, la gamen e disseminado no in e io dessa sociedade.
De e-se essal a que isso não que dize que o cuidado de si enha, em qualque
momen o, an o da sociedade g ega quan o omana, se a i mado como uma lei
uni e sal álida pa a odo indi íduo, qualque que osse o modo de ida ado ado.
62
Tal
exe cício exigia, ob iamen e, que se le asse ce o modo de ida o qual se á
conside ado condição eal pa a o cuidado de si.
En e an o, não se de e pensa que cuida de si mesmo e a um p i ilégio
apenas da al a a is oc acia omana, pois mesmo em comunidades pe encen es às
classes mais baixas e menos p i ilegiadas – incluindo a é mesmo os esc a os – e a
possí el encon a pessoas com p á icas o emen e ligadas à exis ência. O a, a é
mesmo Epic e o, impo an e pensado es oico, oi um esc a o. O cuidado de si possuía
odo um ca á e i ual e cul u al, o que azia se menos necessá io que hou esse
o mas mui o so is icadas e e udi as de cul u a pessoal. Ha ia um mo imen o e e en e
ao cuidado de si o qual e a mui o amplo, ab angen e e disseminado na época.
61
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 100.
62
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 102.
25
Po an o, o que impo a pe cebe aqui é que a condição eal necessá ia pa a o
exe cício do cuidado de si deixa de se o s a us social e passa a se um ipo de elação
que se em consigo e da qual, a p incípio, odos são capazes dependendo de seu
es o ço indi idual. Apesa disso, o chamado pa a o cuidado de si não e a a endido po
odos, inclusi e, e a po con a disso que al p incípio de e ia se la gamen e
disseminado: po que, no im das con as, poucos acabam sendo capazes de
e e i amen e ocupa em-se consigo mesmos. Foucaul nos explica al ques ão da
melho o ma que alguém pode ia:
[...] a inal, um esc a o pode se mais li e que um homem li e se es e não i e se
libe ado de odos os ícios, paixões, dependências, e c., em cujo in e io es i esse
p eso. Po conseguin e, não ha endo di e ença de s a us, pode-se dize que odos
os indi íduos, em ge al, são “capazes”: capazes de e a p á ica de si p óp ios,
capazes de exe ce essa p á ica. Não há desquali icação a p io i de de e minado
indi íduo po mo i o de nascimen o ou de s a us. Po ou o lado, po ém, se odos,
em p incípio, são capazes de acede à p á ica de si, ambém é a o que, no ge al,
poucos são e e i amen e capazes de ocupa -se consigo. Fal a de co agem, al a de
o ça, al a de esis ência – incapazes de ape cebe -se da impo ância dessa a e a,
incapazes de execu á-la: es e, com e ei o, é o des ino da maio ia. O p incípio de
ocupa -se consigo (ob igação de epiméles hai heau oû) pode á se epe ido em
oda pa e e pa a odos. A escu a, a in eligência, a e e i ação dessa p á ica, de odo
modo, se á aca.
63
.
Encon amos, po an o, uma di isão da sociedade en e os que exe cem e os
que não exe cem o cuidado de si, mas al pa ilha não é mais hie á quica, não é mais
uma pa ilha con e ida a p io i po ques ão de s a us. T a a-se de uma pa ilha
ope a ó ia, en e os que são capazes e os que não são capazes de cuida de si, sendo
que o que os di ide não é o pe encimen o ou não a uma eli e, mas sim a elação que
se em consigo; a modalidade e o ipo dessa elação e a manei a como o si mesmo se á
elabo ado enquan o obje o de seus p óp ios cuidados. É nes e pon o em que se dá a
pa ilha en e a maio ia e os menos nume osos que cuidam de si mesmos. Em suma:
hou e uma gene alização do cuidado de si como um apelo uni e sal, que apesa de só
se a endido po alguns, já nos az uma con apa ida impo an e em elação ao
pla onismo no qual o chamado pa a cuida de si des ina a-se apenas a poucos
indi íduos e em azão de um s a us social que em como consequência o exe cício do
pode polí ico.
63
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 107.
26
Em deco ência dis o, pode-se a i ma ambém que o cuidado de si pe de o
aspec o in ei amen e o mado no sen ido do sabe -conhecimen o que inha no
pensamen o pla ônico e que se de ia a uma insu iciência da pedagogia da época.
A inal, como oi is o an e io men e, hou e uma gene alização do cuidado de si
enquan o p incípio, não impo ando o ní el de ins ução do indi íduo. Embo a ainda
haja aqui uma c í ica à o mação pedagógica – especialmen e do ensino p imá io –
de e-se essal a que mesmo uma educação su icien emen e boa não libe a alguém da
ob igação de ocupa -se consigo mesmo. Assim sendo, o cuidado de si passa a e
mui o mais um aspec o de co eção-libe ação do que de o mação. O que isso que
dize ? O a, segundo Cíce o nas Tusculanas, ci ado po Foucaul , quando nascemos e
somos admi idos no seio amilia en amos num ambien e alseado, no qual a
pe e são dos julgamen os é o al. É como se, segundo ele, sugássemos o e o
jun amen e com o lei e.
Há, po an o, uma ejeição à ideologia amilia e àquilo que nos oi impos o
como alo , sendo uma das a e as do cuidado de si co igi e e e e os alo es
amilia es, ansmi idos pela educação. Ainda endo em conside ação esse aspec o
co e i o do cuidado de si, que em pa a co igi os e os e ícios que ap endemos,
podemos aze à ona a ca a de Sêneca a Lucílio na qual ele diz: “Não de es, oda ia,
limi a as uas ambições aos o os que os eus pais aziam pa a i em pequeno.”
64
.
Mais adian e, em ou a ca a, ele diz ainda:
Es ou is e, es ou zangado, es ou u ioso con igo! En ão u con inuas a o mula
pa a i os mesmos o os que a ua ama, o eu pedagogo ou a ua mãe?! Ainda não
pe cebes e odo o mal que eles e deseja am? Oh, como são con á ios ao nosso
bem os o os dos nossos amilia es, e an o mais con á ios quan o mais bem
sucedidos se e i ica am na ealidade! Já não me espan a que os nossos de ei os
nos acompanhem desde a p imei a in ância: pois se c escemos en e as maldições
dos p óp ios pais!
65
Toda ia, isso não que dize que o mal é algo impos o a nós a pa i do
ex e io . A inal, o aspec o co e i o do cuidado de si só se ap esen a des e modo pelo
ac o de que aquilo que de e se co igido es á em nós mesmos, no nosso in e io . Os
julgamen os pe e idos chegam a é nós a pa i do ex e io , mas cabe a nós nos
ocupa mos conosco de modo a e e ê-los e co igi-los, pois se chega a um pon o da
64
SÊNECA, L. A. Ca as a Lucílio. T adução e no as de J. A. Segu ado e Campos. Lisboa: Calous e
Gulbenkian, 2004, p. 118, 31:5.
65
SÊNECA, L. A., Ca as a Lucílio, p. 216, 60:1.
27
exis ência em que não é mais a amília ou a escola que nos le a ao e o, mas nós
mesmos que con inuamos a segui aquele pad ão icioso. Po an o: “a p á ica de si
de e co igi , não o ma , ou não apenas o ma : de e ambém, e p incipalmen e,
co igi , co igi um mal que já es á lá.”
66
.
Po im, ou a ca ac e ís ica ex emamen e impo an e e mui o pa icula do
cuidado de si no pe íodo helenis a – an o em elação ao pe íodo pla ônico quan o em
momen os pos e io es aos séculos I e II nos quais os helenis as es i e am na a i a – é
que nessa época o cuidado de si ansbo da a a i idade de conhecimen o e passa a se
e e i a oda uma p á ica de si. Há uma ansmu ação do cuidado de si em uma p á ica
au ônoma, au o inalizada e plu al nas suas o mas,
67
ou seja, o conhecimen o deixa de
se a única e p incipal mani es ação do cuidado de si, passando a in eg a odo um
conjun o de p á icas das quais ala emos em secções pos e io es.
Po ho a, cabe dize que é nes e con ex o, nes a paisagem social e des e modo
como oi desc i o que o cuidado de si o na-se coex ensi o à ida, compondo o eixo
p incipal da a e de i e . Pa a a Clínica, in e essa o p incípio do cuidado de si uma
ez que ele é indispensá el pa a se pensa a c iação da exis ência como algo da o dem
da ob a de a e – noção que an o se ap oxima do pa adigma é ico-es é ico-polí ico –
uma ez que isso só se e e ua no mundo a pa i do es abelecimen o de ce o modo de
se elaciona consigo mesmo que só pode se con e ido a a és do exe cício do
cuidado de si.
Da pe spec i a Clínica, o humano já possui em si essa capacidade de cuida -se,
en e an o, o indi íduo que busca a e apia, na maio ia das ezes, encon a-se dis an e
de si mesmo, sob g ande in luência de alo es e juízos ad indos do o a. A pa i do
p incípio do cuidado de si, po an o, a Clínica p e ende in e i , le ando o indi íduo a
olha pa a si e pe cebe -se enquan o sujei o. Mas esse olha pa a si não diz espei o a
um olha egoís a, do si isolado do mundo, ampouco se e e e a um olha que se de ém
sob e e idas e aumas. Também a unção de co eção-libe ação ca ac e ís ica do
cuidado de si no pe íodo helenís ico omano se ap oxima daquilo que a Clínica
66
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 86.
67
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 79.
28
in enciona alcança : “T a a-se semp e de libe a a ida lá onde ela é p isionei a, ou de
en a azê-lo num comba e ince o.”
68
.
Po an o, ei a essa con ex ualização ge al do p incípio do cuidado de si,
pa i emos ago a pa a algumas noções mais especí icas que comp eendem esse
concei o na paisagem helenís ica. T abalha emos, a segui , a noção de “conhecimen o
elacional”, que nos pe mi e algumas conside ações bas an e pe inen es no que diz
espei o ao modo que de emos conhece o mundo e o “si” do qual de emos cuida .
3. Noção de conhecimen o elacional
Foucaul nos explica que a condição necessá ia pa a o exe cício do cuidado de si no
pe íodo helenís ico omano dizia espei o a uma ce a manei a de i e que se ia, an es
de qualque coisa, uma exp essão do modo de se elaciona consigo mesmo e,
consequen emen e, com o mundo à sua ol a. Tal modo na u almen e se expande pa a
a manei a como, segundo os helenis as, de íamos conhece o mundo. Sêneca, nas
Ques ões Na u ais, e oca o cínico Deme ius pa a ala sob e a ques ão do sabe
elacional, pon o que se á e omado po Foucaul na He menêu ica do Sujei o.
Foucaul apon a que Deme ius sepa ou o conhecimen o en e “conhecimen os
ú eis” e “conhecimen os inú eis”
69
. Sendo assim, há um c i é io de u ilidade no
conhecimen o da o ma como oi pensado po Deme ius. Esse c i é io pode se
pensado a pa i da imagem do a le a. O bom a le a, segundo ele, não é aquele que
ap endeu odos os mo imen os de lu a exis en es de que se pode e en ualmen e
p ecisa ou que se é capaz de execu a . O bom a le a, ao con á io, é aquele que
conhece ão somen e os ges os que são e e i amen e e com mais equência u ilizados
na lu a. Além disso, esses ges os de em se elemen a es o su icien e a pon o de
pode em se adap ados pa a qualque si uação que se ap esen e em comba e. Esse
conhecimen o é, de ac o, um conhecimen o ú il.
Ou seja, qualque ou o mo imen o de cunho mui o especí ico que se ap enda
pa a além desses, se á ap endido me amen e como algo deco a i o, que al ez
con ibua pa a a aidade do a le a po se sabe capaz de execu a a é mesmo
68
DELEUZE, G. e GUATTARI, F. "Pe cep o, a ec o e concei o". In O que é a iloso ia? T adução
Ben o P ado J . e Albe o Alonso Muñoz, São Paulo, Ed. 34, 1992, p. 222.
69
FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, pp. 206-207.
29
mo imen os a os, po ém, algo inú il aos comba es eais. O mesmo c i é io de
u ilidade de e se a ibuído aos conhecimen os ace ca da ida. O conhecimen o é ú il
quando angencia di e amen e a exis ência humana. Já os conhecimen os do mundo
ex e io po si só – coisas que se descob em e que só em po u o a p óp ia
descobe a – são inú eis.
Nas Ca as a Lucílio, mais especi icamen e na ca a 117, Sêneca ambém az
essa p oblema ização a espei o dos conhecimen os inú eis quando con e sa com
Lucílio ace ca de seus ques ionamen os a espei o da di e ença en e a “sabedo ia” e o
“se sábio”. Ele diz que, a despei o de ques ões como essa anda em as ol as da
sabedo ia, elas não consis em em seu ce ne, com o qual de emos de ac o nos
p eocupa . Em seguida ele diz:
Repa ai bem: é jus o despe diça a a enção que de e íamos da aos assun os mais
impo an es e sublimes com es as ques ões, não di ei alsas, mas, sem dú ida
alguma, inú eis? O que ganho eu em sabe se “sabedo ia” e “se sábio” são ou não
duas coisas dis in as? Que me adian a sabe que a p imei a é um bem, mas a
segunda não o é? Façamos uma loucu a, i emos as duas coisas à so e: u ica ás
com a “sabedo ia”, a mim cabe -me-á “se sábio”. Resul ado: um empa e! Mais
ú il se á en ão indica -me a ia pela qual a injo um ou ou o obje i o. Diz-me o
que eu de o e i a , o que de o p ocu a , quais es udos da ão o ças às debilidades
do meu espí i o, de que modo pode ei epeli pa a longe os impulsos que se me
a a essam na en e e en am a as a -me, de que modo pode ei aze en e a
an os males, de que modo pode ei ob ia às desg aças que se aba e em sob e
mim, ou àquelas que eu p óp io me deixei cai .
70
.
O a, o que Sêneca apon a como conhecimen os e dadei amen e ú eis são
aqueles que dizem espei o di e amen e aos “mo imen os” necessá ios de se ap ende
pa a os comba es da ida: como aze en e aos males e epa a as desg aças que,
ine i a elmen e, se aba em sob e o si. En e an o, os males ou impulsos que
a a essam o indi íduo no deco e de sua ida podem se dos mais a iados. Po an o,
os conhecimen os a esse espei o de em, assim como os mo imen os do a le a, se em
elemen a es o su icien e pa a que possam se adap ados pa a oda e qualque
in e co ência que nos acome a.
A pa i disso, Sêneca e mina a ca a 117 da seguin e o ma:
70
SÊNECA, L. A., Ca as a Lucílio, p. 654, 117:20-21.
30
Diz-me: quando ica a sabe a dis inção en e “sabedo ia” e “se sábio”, passa ei
a se sábio? Po quê en ão en eda -me en e os e mos da sabedo ia de p e e ência
aos seus ac os? Faz com que eu seja mais o e, mais segu o, coloca-me à al u a do
des ino, ou acima dele: Pode ei es a acima do des ino se encaminha pa a esse im
odos os meus es udos.
71
.
O a, do pon o de is a dos helenis as, bem como da Clínica, es a à al u a do
des ino ou à al u a do acon ecimen o, implica se capaz de agi sob e o que nos
acon ece. Mas, pa a an o, é necessá io que es ejamos de posse de conhecimen os
e dadei amen e ú eis que nos le em à ação. Assim como o a le a não pode p e e
quais mo imen os o ad e sá io i á usa , nós não podemos p e e quais acon ecimen os
nos acome e ão du an e a ida. En e an o, quando o a le a encon a-se de posse de
conhecimen os ú eis ace ca do comba e ele é capaz de agi sob e o que acon ece seja
qual o o mo imen o u ilizado pelo ad e sá io. O mesmo oco e na ida se es i e mos
de posse desses conhecimen os.
Pa a melho pe cebe mos essa ques ão, e o nemos a Deme ius, da o ma
como Foucaul nos ap esen a. Segundo ele, o cínico lis a pa a nós alguns
conhecimen os que podem se conside ados inú eis: a causa dos ma emo os, a causa
do i mo dos se e anos que supos amen e cadencia iam a ida humana, a causa das
ilusões de óp ica, a causa de ha e gêmeos e a causa de pessoas nascidas no mesmo
momen o possuí em um des ino ão di e so.
72
. A ca ac e ís ica comum desses
conhecimen os conside ados inú eis é que eles são um conhecimen o das causas.
Mas po qual azão o conhecimen o dessas causas é conside ado um
conhecimen o inú il a despei o dos e ei os de ais ques ões se e e i em mui o de pe o
à exis ência humana? O a, “pois são essas causas jus amen e que, azendo mui o
embo a a ua seus e ei os, a na u eza ocul ou.”
73
Ao con á io, Deme ius nos diz que
odo o conhecimen o que nos pode aze se es humanos melho es e mais elizes, a
na u eza pôs sob os nossos olhos e ao nosso alcance e, po an o, odo o conhecimen o
inú il, nos oi ocul ado po ela.
De e-se essal a que o ac o desses conhecimen os se em conside ados inú eis
não que dize que eles nos são p oibidos, podemos que e conhecê-los, mas ao azê-lo
de emos e em is a que se a a de conhecimen os não mais do que o namen ais,
71
SÊNECA, L. A. Ca as a Lucílio, p. 658, 117:33.
72
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 208.
73
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 209.
31
assim como o conhecimen o do a le a ace ca de mo imen os de lu a que não
necessa iamen e se ão u ilizados em comba e. Po an o, ao oma mos conhecimen o da
causa dos ma emo os, do mo i o de ha e gêmeos, den e an os ou os conhecimen os
causais ob emos nada mais do que algo suplemen a pa a o qual pode emos ende a
í ulo de dis ação e pelo simples p aze da descobe a.
“É o conhecimen o pela causa como conhecimen o de cul u a, como
conhecimen o o namen al que assim se á denunciado, c i icado, ejei ado po
Deme ius”
74
, a inal, é um ipo de conhecimen o que se e mui o mais pa a
o namen a o espí i o do que pa a o alecê-lo. Ainda na ca a 117 Sêneca c i ica
o emen e aqueles que azem uso da iloso ia enquan o uma dis ação e o namen o
quando ela é, em e dade, e apêu ica.
75
.
Nes e pon o, en e an o, nos cabe ques iona : a inal, qual ipo de conhecimen o
pode, en ão, se conside ado um conhecimen o ú il? Segundo Deme ius, não se a a
de exclui um sabe e subs i uí-lo pelo ou o. O que Deme ius nos az enquan o um
conhecimen o ú il se e e e, na ealidade, a ou a modalidade de sabe . Foucaul
explica:
C eio que pode íamos chamá-lo, mui o simplesmen e, de um modo de sabe
elacional, po quan o o que ago a há que se e em con a quando conside amos os
deuses, os ou os homens, o kósmos, o mundo, e c., é a elação en e, po um lado,
os deuses, os homens, o mundo, as coisas do mundo, e, po ou o, nós. Fazendo de
nós mesmos o e mo eco en e e cons an e de odas essas elações, é que
de e emos conduzi nosso olha pa a as coisas do mundo, pa a os deuses e pa a os
homens. É nes e campo de elação en e odas as coisas e nós mesmos que o sabe
pode á e de e á desen ol e -se. Sabe elacional: es a me pa ece se a p imei a
ca ac e ís ica do conhecimen o que é alidado po Deme ius.
76
.
O conhecimen o ú il, po an o, é o conhecimen o das coisas em elação, sendo
nós mesmos a cons an e de odas essas elações. Sob o olha da Clínica, encon amos
em Espinosa um concei o semelhan e e igualmen e ele an e pa a se pensa essa
ques ão do conhecimen o de aco do com o que impo a à p á ica psicológica. Rica do
Teixei a
77
se e e e à Espinosa enquan o um ilóso o das elações, essal ando que a
74
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 209.
75
SÊNECA, L. A., Ca as a Lucílio, p. 658, 117:33.
76
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 210.
77
TEIXEIRA, R. Redes de con e sações: A e i idade e Se iços de Saúde - Rica do Teixei a. You ube,
2007. Disponí el em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =BNAly9LzPsI& =1710s Acesso em
07/08/2021
32
noção de azão – do la im, a io – em sua o igem designa a jus amen e “ elação”. O a,
quando cons uímos um conhecimen o em elação, emos o que Espinosa chamou de
um conhecimen o de segundo gêne o ou um conhecimen o adequado.
78
.
Conhece adequadamen e, des e pon o de is a, implica em conhece as
elações. Qualque conhecimen o p é io a nossa en ada em elação com aquilo que
desejamos conhece , con igu a um conhecimen o inadequado, ao que – sob o olha da
ansdisciplina idade – podemos come e a ousadia de aze um pa alelo com os
conhecimen os inú eis e pu amen e o namen ais apon ados po Deme ius.
79
.
Sob a óp ica do pa adigma é ico-es é ico-polí ico não há nenhum conhecimen o
p é io possí el po pa e do e apeu a a espei o do ou o. Esse conhecimen o, bem
como aquilo que impo a ao ou o que nos ala e qual o so imen o que o acome e, só
pode se cons uído ao se en a em elação. Qualque conhecimen o an e io a isso –
incluindo os diagnós icos do sabe médico, o código de é ica do psicólogo, den e
ou os conhecimen o que, assim como es es, são pu amen e o namen ais – é um
conhecimen o inú il sem o ça alguma pa a desloca o indi íduo em seu campo a e i o
de modo a p oduzi uma mudança em seu compo amen o que o pe mi a p oduzi
saídas daquele es ado de coisas do qual ele se queixa.
Chegamos aqui a uma das ca ac e ís icas mais impo an es e e en es ao
conhecimen o elacional da o ma como e a abalhado pelos ilóso os do pe íodo
helenís ico omano e que in e essa di e amen e à Clínica: Segundo esses pensado es,
quando o conhecimen o é cons uído dessa o ma, a pa i do conhecimen o do si em
elação, ele p o oca uma mudança no modo de ida do sujei o, uma mudança no
ê hos.
80
Nes e pon o, é possí el essal a duas ques ões: p imei amen e, como os
concei os de sabe elacional dos helenis as, bem como o concei o de conhecimen o de
segundo gêne o espinosiano con e sam di e amen e en e si e com a noção de
ansdisciplina idade aqui p opos a.
78
DELEUZE, G. Espinosa. Filoso ia p á ica. T adução: Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. São Paulo.
Escu a. 2002, p. 55.
79
En e an o, há uma di e ença de denominação que de e se essal ada: enquan o Foucaul en a iza
que, pa a Deme ius, os conhecimen os inú eis são os conhecimen os das causas, pa a Espinosa,
conhece adequadamen e implica em conhece as causas, enquan o o conhecimen o inadequado é
conside ado um conhecimen o apenas dos e ei os. Po ém, isso não in alida as ap oximações que
azemos, uma ez que se a a de uma ap oximação que se e e e ao sen ido que Foucaul nos ap esen a
a ibuído os conhecimen os pu amen e o namen ais. C . DELEUZE, G. Espinosa. Filoso ia p á ica, p.
83-85.
80
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 211-212.
39
cons ui um modo de exis i no mundo, a a és desses sabe es p oduzidos em elação
– com os sujei os e com os in e cesso es no ge al. A pa i do momen o, po ém, que o
e apeu a encon a-se bem equipado po esses sabe es e à medida que ele i encia a
expe iência de se e apeu a a pa askeué ai sendo cons uída, de o ma que suas
e amen as ão sendo colocadas em ação con o me a necessidade.
Os discu sos que le am à ação e que compõem a pa askeué na Clínica, pa a o
e apeu a e pa a o ou o, são, na u almen e, discu sos cons i uídos pelo sabe
elacional, p oduzidos de modo ansdisciplina . O sabe que modi ica o ê hos ao qual
ambém oi chamado pelos helenis as de o sabe da physiología (ou, simplesmen e,
isiologia). O concei o de “ isiologia” é um an o quan o complexo. Pa a os helenis as
o conhecimen o da isiologia é opos o ao conhecimen o pu amen e da cul u a que
se e apenas pa a o namen a o espí i o, mas não pa a o alecê-lo. O conhecimen o da
isiologia, po an o, sob essa óp ica da iloso ia an iga nada mais é do que o
conhecimen o da na u eza enquan o um conhecimen o de como as coisas uncionam
em elação, sendo o si p óp io como cons an e de odas as elações
91
.
O conhecimen o o namen al, po an o, não p epa a o indi íduo como con ém
pa a que ele possa supo a as pe u bações do mundo ex e io . Tal ipo de
conhecimen o, ao con á io da physiología, não pa askeuázei. Não p epa a, não
o alece, não do a o si mesmo da pa askeué – da a madu a, do equipamen o
necessá io ao indi íduo pa a seu comba e. Ainda sob e a physiología, Foucaul diz:
A physiología do a o indi íduo de uma ousadia, de uma co agem, de uma espécie
de in epidez que lhe pe mi e a on a não apenas as múl iplas c enças que se
p e endeu impingi -lhe, como igualmen e os pe igos da ida e a au o idade dos que
p e endem de e mina sua lei. Ausência de medo, ousadia, uma espécie de
insubmissão, ogosidade se quise mos: é isso o que a physiología a ibui á aos
indi íduos que a ap ende em.
92
.
Pode-se dize que essa ausência de medo que a physiología p opo ciona ao
indi íduo es á di e amen e elacionada com o ac o de que, sendo um conhecimen o
ú il, o conhecimen o da physiología con e e ao sujei o uma a madu a que o p o ege
an o quan o possí el das pe u bações ex e io es. O a, con o me ob emos
conhecimen os ú eis – sob e nós mesmos em elação a udo o que nos ce ca – isso nos
con e e uma melho habilidade em sepa a ambém aquilo que depende do que não
91
FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 211.
92
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 214-215.
40
depende de nós. Qual o nosso luga no mundo e sob e o que emos ou não o pode de
agi .
Ao e le i sob e de e minadas ases de sua ida – mais especi icamen e sua
in ância e ju en ude – em que as coisas não co iam bem, Nie zsche em Ecce Homo
a ibui isso à sua al a de conhecimen o da isiologia. Ele diz:
Se não enho seque uma lemb ança ag adá el de oda minha in ância e ju en ude,
se ia olice ap esen a pa a is o causas di as “mo ais” – como a indiscu í el al a de
companhia adequada: pois es a al a exis e hoje como semp e exis iu, sem que me
impedisse de se b a o e con en e. A igno ância in physiologicis [em ques ões de
isiologia] – o maldi o “idealismo” – é a e dadei a a alidade em minha ida, o
es úpido e supé luo nela, algo de que nada bom esul ou, pa a o qual não há
compensação ou con apa ida. [...] Fal a a um su il “cuidado de si”, a u ela de
um ins in o impe ioso, e a um ni ela -se a qualque um, “uma ausência de si”, um
esquecimen o da dis ância p óp ia.
93
.
An es de segui mos com esse pensamen o, po ém, é impo an e essal a
algumas di e enças no modo como o ilóso o alemão enca a a ques ão da isiologia em
elação ao olha helenis a. Segundo Junio , em Além do bem e do mal, Nie zsche ala
sob e uma “psico isiologia”, cuja p opos a se ia supe a o que ele chama de uma
psicologia me a ísica que se de ém apenas na in es igação da alma e suas aculdades,
ou seja, que possui um olha ol ado apenas pa a o si, desconside ando o
conhecimen o daquele co po em elação.
94
. Ao ala sob e isso, é possí el no a a
ap oximação de Nie zsche com o concei o de isiologia p opos o pelos helenis as.
En e an o, a “psico isiologia” p opos a po Nie zsche é uma mo ologia da on ade de
po ência.
Apesa das di e enças signi ica i as en e os con ex os de Nie zsche e dos
helenis as, bem como o seu en endimen o especí ico da noção de isiologia, há no
echo acima ci ado um pon o de conexão mui o impo an e en e essa noção do modo
como é abo dada po ambos, o que o o na p ecioso pa a o que es amos aqui a discu i .
É possí el no a que Nie zsche ala sob e a ausência de medo ca ac e ís ica de quem
em uma boa pa askeué. Diz ele que a al a de uma companhia adequada nunca o
impediu de se b a o e con en e (eis aqui a co agem), exce o quando lhe al ou o
93
NIETZSCHE, F. Ecce Homo, como alguém se o na o que é, p. 65.
94
JUNIOR, W. A. F. Nie zsche e Théodule Ribo : Psicologia e Supe ação da Me a ísica. Na . hum.,
São Paulo, . 12, n. 2, pp. 1-28, 2010. Disponí el em
h p://pepsic.b salud.o g/scielo.php?sc ip =sci_a ex &pid=S1517-
24302010000200007&lng=p &n m=iso acessos em 19 ago. 2021, p. 12.
41
conhecimen o da isiologia, po con a dos idealismos que ocupa am o luga desse
conhecimen o. O a, os idealismos podem pe ei amen e se em colocados como os
conhecimen os inú eis ao qual Deme ius se e e ia. Ainda segundo Nie zsche, udo de
supé luo – conhecimen o pu amen e o namen al – em sua ida oi causado,
jus amen e, po ende pa a os idealismos.
Pensa os idealismos assim de e se is o, de aco do com o que p e endemos,
como uma a ualização do concei o de isiologia do modo como e a pensado pelos
an igos, uma ez que pa a eles ha ia um ideal e um g au de pe eição a se alcançado
a a és do exe cício do cuidado de si. O que impo a à Clínica e ao p esen e abalho,
en e an o, é o mo imen o p ocessual de c iação do indi íduo po ele p óp io que o
cuidado de si con e e ao sujei o.
Fal a a cuidado de si, diz o ilóso o alemão. E a consequência disso “e a um
despe dício sem sen ido de o ças ex ao diná ias.”
95
. Ao ap op ia -se do sabe da
isiologia, en e an o, Nie zsche se ê b a o e con en e po con a de algo que ele
iden i ica se independen e de a o es ex e nos (como a al a de uma companhia
adequada). Cuida de si implica esse pensa em si mesmo em elação, a o que nos
con e e a ausência de medo, a ousadia, a insubmissão e a ogosidade a ibuídas pelo
sabe da isiologia.
Po ou o lado, quando endemos pa a os idealismos – e, po an o, pa a os
conhecimen os inú eis – en en amos uma ausência de nós mesmos, a inal, os
idealismos nos le am a pensa de aco do não com os nossos p óp ios alo es, mas a
pa i de alo es impos os a nós de o a pa a den o, nos o nando insegu os e
med osos. “Fal a a a u ela de um ins in o impe ioso”, diz Nie zsche. Esse ins in o
impe ioso é, jus amen e, os discu sos ad indos do sabe da isiologia e que se
insc e em no sujei o como ma izes de ação, le ando-o ao a o.
Esses discu sos são ambém soco o (boe hós) pa a os momen os di íceis.
Sob e isso, Foucaul diz:
Uma ez que o logos ale, no momen o em que o acon ecimen o se p oduz, uma
ez que o logos – que cons i ui a pa askeué – se o mule pa a anuncia seu
95
Quando Nie zsche ala sob e “ o ças” nesse echo ele já es á a inse i seu olha sob e o concei o de
isiologia a pa i da noção de Von ade de Po ência – um p ocesso impulsional de c escimen o de
po ência a pa i do qual as o ças que nos cons i uem e nos a a essam buscam se a i ma no mundo.
C . NIETZSCHE, F., ci . in VIANA, N. Nie zsche, Von ade de Po ência e I acionalismo. Re is a
F agmen os de Cul u a-Re is a In e disciplina de Ciências Humanas, pp. 569-589, 2010, pp. 575-576.
42
soco o, o soco o já es á p esen e, dizendo-nos o que é p eciso aze , ou melho ,
azendo-nos aze e e i amen e o que de emos aze .
96
.
Po an o, a segu ança que nos p opo ciona a ce eza desse soco o ad indo da
boa pa askeué, le a a um es ado de elicidade chamado maka ió es. Felicidade es a
que consis e na segu ança de es a ão p o egido quan o possí el das pe u bações do
mundo, pois oi bem p epa ado pa a o que que que enha a acon ece . Quando
Nie zsche ala sob e sua igno ância do sabe da isiologia, em con apa ida a
momen os em que há esse sabe , ele expe imen a de p óp io co po o e ei o conc e o
desses concei os pensados pelos an igos que es amos aqui a desen ol e e é po con a
disso que o echo de Ecce Homo que e omamos nos in e essa an o, pois é esse ipo
de e ei o que buscamos em uma con e sa ansdisciplina en e Psicologia e Filoso ia.
No caso acima ci ado, do esc i o que ganha o ça na elação com a e apeu a,
ambém é expe imen ado os e ei os desses concei os na conc e ude da ida. Vemos
ni idamen e o aumen o da po ência do sujei o uma ez que ele passa, de ac o, a agi
mais no mundo a a és da esc i a, e e i ando a o ça que ele em em si pa a esc e e .
Nes e pon o, é in e essan e e oma a seguin e conside ação de Deleuze a espei o da
esc i a:
Não se esc e e com as p óp ias neu oses. A neu ose, a psicose não são
passagens de ida, mas es ados em que se cai quando o p ocesso é
in e ompido, impedido, colma ado. A doença não é p ocesso, mas pa ada do
p ocesso, como no "caso Nie zsche". Po isso o esc i o , enquan o al, não é
doen e, mas an es médico de si p óp io e do mundo.
97
.
Ao le a isso em conside ação, é possí el no a o deslocamen o do sujei o em
seu campo a e i o a pa i do encon o clínico no qual a e apeu a o es imula e se
pensa em elação. A di e ença do es ado de neu ose que lhe p o oca ansiedade po
con a da esc i a e o es ado de maka ió es no qual ele se ê exe ci ando jus amen e
aquilo que lhe p o oca a insegu ança quando, assim como Nie zsche, lhe al a a a
u ela de um ins in o impe ioso. Ao azê-lo, no a o da esc i a, ele sai do campo das
neu oses, luga a e i o que a a os p ocessos da ida. O conhecimen o da isiologia,
po ém, pe mi e que a ida passe, que o p ocesso ol e a lui e o le a à esc i a –
exp essão conc e a no mundo de seu deslocamen o in e no do luga da neu ose pa a
um luga de p odução de Vida. O a, o esc i o é médico de si p óp io e do mundo, pois
96
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 289.
97
DELEUZE, G. C í ica e clínica. T adução Pe e Pál Pelba , São Paulo: Edi o a 34, 1997, p. 13-14.
43
a esc i a pa a ele é ambém soco o, ela em cuida das neu oses p oduzidas no dia a
dia.
Ao conside a mos um modo de pensa o si mesmo semp e em elação – e esse
se o ipo de conhecimen o ú il pa a o que se p e ende ealiza na Clínica – é possí el
no a uma di e ença de p incípio da abo dagem da Psicologia que es amos a p opo em
elação a abo dagens cujas linhas cons i u i as endem pa a o de e minismo e pa a a
descobe a de uma essência que nos le a à e dade sob e si. En e an o, cabe essal a
que pensa es e modo de conhece a si mesmo implica, necessa iamen e, que
pensemos ou o ipo de sujei o. Logo, na secção seguin e, nos de e emos no concei o
de “si mesmo” con o me pensado pelos helenis as e como um concei o in e cesso no
abalho Clínico.
4. A noção de si mesmo
En amos aqui em ou a noção do pe íodo helenís ico omano que nos ajuda a
pensa o cuidado de si: o si mesmo do qual p ecisamos cuida . Do que se a a esse
elemen o que é o mesmo que e e ua e que so e a ação? O a, ele é conhecido e oi
mui as ezes ci ado nos diálogos soc á ico-pla ônicos: Sóc a es a i ma a que e a seu
de e inci a odos aqueles com quem se encon a a a cuida em da p óp ia alma –
psykhé – pa a que ela se o ne a melho possí el. De ac o, ao in e pela seus
concidadãos, de aco do com Foucaul , Sóc a es dizia:
Meu ca o, u, um a eniense, da cidade mais impo an e e mais epu ada po sua
cul u a e pode io, não e en e gonhas de cuida es (epimeleîs hai) de adqui i o
máximo de iquezas, ama e hon a ias, e não e impo a es nem cogi a es (epimelê,
ph on ízeis) da azão, da e dade e de melho a quan o mais a ua alma?
98
O impe a i o “é p eciso ocupa -se com a p óp ia alma
99
” – psykhês
epimele éon – apa ece di e sas ezes na ob a pla ônica, nos azendo no amen e a
alma como esse elemen o com o qual é p eciso ocupa -se. Foucaul essal a que
ambém no Fed o de Pla ão encon amos a a i mação de que se a alma é imo al, en ão
ela p ecisa que dela nos ocupemos, ela p ecisa de zelo e de cuidados.
100
E, po im, no
p óp io diálogo com Alcibíades, quando o jo em chega à ques ão do que é o eu com o
98
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 7.
99
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 50.
100
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 50.
44
qual ele de e se ocupa , Sóc a es esponde que é a alma. Essa e e ência do si mesmo
enquan o a alma da qual Alcibíades de e ia cuida pa a pode go e na
ap op iadamen e, ambém con e sa di e amen e com o que emos na República: “se
que emos sabe o que é a jus iça na alma do indi íduo, ejamos o que ela é na cidade.”
101
.
Mesmo se ol a mos o olha pa a o pe íodo helenís ico omano, encon a emos
a alma como de inição desse elemen o do qual p ecisamos cuida . Em Epicu o, ci ado
po Foucaul , encon amos a seguin e ó mula, equen emen e epe ida: “ odo homem,
noi e e dia, e ao longo de oda sua ida, de e ocupa -se com a p óp ia alma.”
102
. Além
disso, segundo o pensado ancês, Epic e o concebia sua p óp ia escola de Filoso ia
enquan o um dispensá io da alma; um luga pa a onde se ai po um empo, a im de
cuida das paixões e dos males que se so e.
Apesa desse pon o de conco dância, a o ma como a alma é ca ac e izada nos
pe íodos pla ônico e helenís ico omano é di e en e. Em algumas ob as de Pla ão,
emos uma alma p isionei a do co po e isso se mani es a, po exemplo, na pe cepção
de alma enquan o um a elamen o de ca alos alados que p ecisamos conduzi em uma
boa di eção, como encon amos no Fed o.
103
Caso consigamos e e i amen e doma
nossos ca alos, azendo-os en a em aco do, eles nos le a ão pa a cima, onde
pode emos islumb a o eino dos deuses e, consequen emen e, a e dade que
pe mi i á o bem go e na . Pa indo desse pensamen o, po an o, emos o cuidado de si
enquan o condição de acesso à e dade e não apenas à e dade da p óp ia alma, mas à
e dade em ge al.
Nes e pon o é possí el pe cebe de o ma ainda mais ap o undada po qual
azão Foucaul coloca o conhece- e a i mesmo como ó mula undado a das elações
en e sujei o e e dade. O a, quem busca a e dade, ia de eg a, busca po uma
essência. A p á ica de si p esen e em algumas ob as pla ônicas – ol ada pa a “doma
nossos ca alos” – em algo de uma elação com o di ino. De e-se olha pa a a p óp ia
alma com o in ui o de olha pa a o di ino em si, pois isso az com que se descub a a
essência da sabedo ia. Do mesmo modo, é possí el aze o caminho in e so: olha
pa a a essência da sabedo ia, islumb a a pa i dela o elemen o di ino e, po im
101
PLATÃO., A República, ci . in FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, pp. 50–51.
102
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 10.
103
PLATÃO, Fed o ou Da Beleza. T adução e no as de Pinha anda Gomes, 6ª Ed. Guima ães Edi o es,
Lisboa, 2000, p. 56: 246b.
45
pode econhece -se nesse di ino, conquis ando um conhecimen o su icien emen e
sa is a ó io sob e si e sob e o mundo.
Uma ez indicada a isão de alma no in e io desse pensamen o pla ônico
especí ico e, po an o, a isão do si mesmo do qual p ecisamos cuida de aco do com
as linhas cons i u i as desse pensamen o, nos de enhamos ago a sob e a alma e o si
mesmo no pensamen o helenís ico omano. No que esse concei o di e e em elação ao
concei o de alma que encon amos no Fed o e na A República, bem como o po quê
essa di e ença é in e essan e pa a o que p e endemos abalha aqui, enquan o concei o
e amen a pa a p o oca deslocamen os no campo a e i o que in e essa à Psicologia.
Inicialmen e, de e-se sabe que a alma no con ex o dos séculos I e II de nossa época,
segundo Foucaul :
[...] nada em a e , po exemplo, com a alma p isionei a do co po e que se ia
p eciso libe a , como no Fédon; nada em a e com a alma como a elamen o de
ca alos alados que se ia p eciso conduzi na boa di eção, como no Fed o; ambém
não é a alma a qui e u ada segundo uma hie a quia de ins âncias que se ia possí el
ha moniza , como na República. É a alma unicamen e enquan o sujei o da ação, a
alma enquan o se se e [do] co po, dos ó gãos [do] co po, de seus ins umen os,
e c.
104
.
Ao nos e e i mos à alma enquan o sujei o da ação que se se e do co po
es amos a nos e e i não apenas sob e se se i , no sen ido ins umen al de se i -se
de algo como se se e de um u ensílio ou de uma e amen a, es amos a ala ambém
sob e uma a i ude, um compo amen o. Pa a exempli ica isso, Foucaul u iliza a
exp essão hyb is ikôs kh ês hai,
105
que que dize se i -se de iolência; usa de
iolência. Logo, compo a -se de modo iolen o. Ou seja, essa noção de uma alma que
se se e do co po, designa qualque coisa como um ipo de compo amen o e,
consequen emen e, de elação que se em consigo mesmo e com o mundo. Quando eu
me si o do meu co po enquan o um ins umen o e o enca o dessa o ma, eu me
coloco no mundo de um modo dis in o de quando eu ejo o co po enquan o uma
p isão da alma.
Sob e essa noção de alma sujei o que se se e do p óp io co po e se compo a
de ce o modo dis in o pe an e o mundo g aças a essa pa icula idade na elação
consigo, Foucaul diz:
104
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 52.
105
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 52.
46
Se á pa icula men e impo an e nos es oicos. Es a á no cen o, c eio, de oda a
eo ia e p á ica do cuidado de si em Epic e o: ocupa -se consigo mesmo se á
ocupa -se consigo enquan o se é “sujei o de”, em ce as si uações, ais como
sujei o de ação ins umen al, sujei o de elações com o ou o, sujei o de
compo amen os e de a i udes em ge al, sujei o ambém da elação consigo
mesmo. É sendo sujei o, esse sujei o que se se e, que em essa a i ude, esse ipo
de elações, que se de e es a a en o a si mesmo.
106
.
Po an o, e omando o exemplo an e io , o indi íduo que se compo a de modo
iolen o – que se se e de iolência – só é iden i icado enquan o sujei o iolen o,
p imei amen e: em seus a os, em suas ações. E, em segundo luga : ele só pode se
iden i icado enquan o al quando es i e em elação. Isso nos le a a algumas
conside ações: p imei o que o si mesmo só eme ge no a o. Mais do que isso, o si é o
a o em si mesmo. Dize que o si mesmo não só eme ge no a o, mas que ele é o a o – é
aquilo que ele az – em como implicação que o si mesmo não es á, nem jamais es a á
inalizado.
Ou seja, se o indi íduo iolen o pa a de agi com iolência e passa a se i -se
de gen ileza, po exemplo, ele não se á mais ca ac e izado como um sujei o iolen o,
ele em a possibilidade de cons ui -se de ou o jei o a pa i daquilo que ele se se e.
Do mesmo modo, ele pode pa a de agi com iolência, passando a se uma pessoa
ex emamen e gen il, e depois agi com iolência no amen e. Não há des e pon o de
is a, um momen o em que olha emos pa a o si mesmo e o e emos como ele es a á de
uma ez po odas, pa a semp e, como um abalho e minado.
Também da óp ica da Clínica o si mesmo do qual de emos cuida es á semp e
mudando, es á semp e em p ocesso. Essa isão implica dize ambém que o p ocesso
de subje i ação nunca es á acabado, es amos semp e nos subje i ando e o azemos a
cada a o, a cada ação nossa no mundo. Daí o luga de ex ema impo ância das p á icas
de si, a inal, nos subje i amos a a és dessas p á icas que p o ocam uma mudança no
ê hos (como, po exemplo, a p á ica de se pensa em elação con o me exempli icado
na secção an e io ), e le indo nas ações do indi íduo e em sua a i ude pa a consigo
mesmo, com os ou os e pe an e o mundo de modo ge al.
106
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 53.
47
Pensa o si mesmo dessa o ma, segundo Daniel Nica, implica dize que o
sujei o é o p óp io p ocesso de subje i ação.
107
Além disso, nos le a à ques ão de que
a única essência possí el de se pensa sob essa óp ica de sujei o é a po ência de cada
um de a e a e se a e ado a pa i dos encon os que az no mundo. Assim sendo, não
há nada dado a p io i, nenhuma es u u a psíquica que de e mine o sujei o. Na
ansposição pa a a Clínica o ien ada pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico, udo o
que há são o ças que nos a a essam a cada encon o que azemos no mundo e que
i ão en a em composição ou decomposição com as o ças que es ão em ação em
nosso co po a cada momen o especí ico.
O a, essa ideia de o ças já oi in oduzida no início do p esen e abalho,
enquan o luxos de sen ido que a a essam o sujei o o empo odo e, con o me o
azem, c iam um jogo de o ças. Depa amo-nos aqui com a necessidade de se pensa ,
na ansposição pa a a Clínica, o concei o de “ o ças”, de aco do com o modo que a
Clínica o ien ada pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico abalha e que p e endemos
agencia di e amen e com a ideia de sujei o ou si p óp io p opos a pelos helenis as. A
Clínica en ende o indi íduo enquan o “[...] um campo de o ças, um meio p o edo
dispu ado po uma plu alidade de o ças.”
108
.
O que de ine o sujei o, po an o, é uma elação en e o ças dominan es e
o ças dominadas e a ealidade nada mais é do que quan idades de o ça “em elação
de ensão” umas com as ou as. Des e modo, como desc e e Deleuze,
Toda elação de o ças cons i ui um co po: químico, biológico, social, polí ico.
Duas o ças quaisque , sendo desiguais, cons i uem um co po desde que en em
em elação; po isso o co po é semp e u o do acaso, no sen ido nie zschiano, e
apa ece como a coisa mais “su p eenden e”, mui o mais su p eenden e na e dade
do que a consciência e o espí i o. Mas o acaso, elação da o ça com a o ça, é
ambém a essência da o ça; não se pe gun a á en ão como nasce um co po i o,
pos o que odo co po é i o como p odu o “a bi á io” das o ças que o compõem.
O co po é enômeno múl iplo. Sendo compos o po uma plu alidade de o ças
i edu í eis; sua unidade é a de um enômeno múl iplo, “unidade de dominação”.
Em um co po, as o ças supe io es ou dominan es são di as a i as, as o ças
in e io es ou dominadas são di as ea i as. A i o e ea i o são p ecisamen e as
qualidades o iginais que exp imem a elação da o ça com a o ça. As o ças que
107
NICA, D., Aes he ics o Exis ence and he Poli ical in La e Foucaul , p. 49.
108
DELEUZE, G. Nie zsche e a iloso ia. T adução Ru h Jo ily Dias e Edmundo Fe nandes Dias, Rio
de Janei o: Edi o a Rio, 1976, p. 32.
48
en am em elação não êm uma quan idade sem que, ao mesmo empo, cada uma
enha a qualidade que co esponde à sua di e ença de quan idade como al.
109
.
Em empo, o co po é um campo de o ças compos o po ce a quan idade de
o ças a i as e ea i as. As o ças a i as são ambém as o ças dionisíacas, as o ças de
c iação e a i mação da ida, enquan o as o ças ea i as são as o ças apolíneas,
esponsá eis po da o ma ao co po e po limi a a ação quando encon adas em um
sujei o cujo es ado é de saúde. As o ças ea i as, po an o, dizem espei o ao que já
es á ins i uído. Pa a se pe cebe melho essa dinâmica podemos usa o seguin e
exemplo: um escul o es á cheio de ideias pa a sua no a escul u a. As o ças a i as
dão-lhe a c ia i idade necessá ia pa a seu abalho, en e an o, o que a á com que a
escul u a ganhe ma e ialidade, o que ans o ma á a ped a onde as o ças a i as – as
o ças do de i – pe cebem que há uma escul u a, se ão as o ças ea i as.
Pa indo dessa óp ica de sujei o con o me agenciado pela Clínica, um no o
sen ido pode se a ibuído ao p ecei o “conhece- e a i mesmo”: não mais o de se
conhece uma essência, uma e dade ocul a sob e o si mesmo dada a p io i
110
, mas de
conhece as o ças em ação no campo. Tal pensamen o inaugu a ou a elação en e
sujei o e e dade, pois não se a a mais de ob e acesso à e dade do eino dos deuses,
mas de conhece a e dade das o ças. O a, isso é p ecisamen e o que a é ica nos
pe mi e aze : ques iona o alo do alo .
Nossos alo es são dados pelas o ças que nos cons i uem a cada momen o e o
modo que i emos – a es é ica da nossa exis ência – é p ecisamen e a exp essão
dessas o ças no mundo. Como ambém já oi essal ado an e io men e, o modo que
i emos diz espei o a um posicionamen o polí ico pe an e a ida. A ideia de que há
um ideal, uma e dade a se islumb ada ambém é um modo de pensa que ins i ui
jei os e polí icas especí icas do i e que dizem espei o a uma posição polí ica
dis in a daquela que assumimos na Clínica, o que nos le a a a i ma aqui essa
di e ença adical no modo como a Clínica enca a a ques ão da e dade em elação às
escolas helenis as.
109
DELEUZE, G. Nie zsche e a iloso ia, p. 33.
110
De e-se essal a que não há, nos an igos, es a ideia exa a de chega a uma “essência”. Há
simplesmen e a ideia de nos econhece mos como se es humanos e i e mos a melho ida passí el de
se i ida po um se humano. En e an o, há um modelo de “ ida boa” a se seguido, que apesa de
a ia de aco do com cada escola, ainda assim, es á em causa a discussão de eg as dadas a pa i de
modelos que não in e essa à p á ica Clínica.
55
in e p e ação spinozana, a icula “ o ças que êm de den o” na p odução de uma
ida bela.
118
.
No echo acima podemos pe cebe uma a iculação en e Foucaul , a iloso ia
helenis a, à iloso ia espinosana (que apa ece aqui quando alamos de “encon os
119
”)
e o concei o de “ o ças”, a pa i do qual o pa adigma é ico-es é ico-polí ico pensa a
subje i idade e o co po como luga de sus en ação do polemus. O a, Tes a explica que
Ulpiano ala a da es é ica da exis ência como uma espécie de espinosismo aplicado,
mos ando que as a iculações que azemos no p esen e es udo já são de algum modo
conhecidas e possí eis.
Des e modo, discu i emos mais a undo na secção seguin e sob e a o ma
como o e apeu a o ien ado pelo pa adigma é ico-es é ico-polí ico i á abalha com a
po ência dos encon os azida po essa noção de si mesmo a pa i da e lexão a
espei o do es ado da s ul i ia, o papel do “mes e do cuidado” na in e enção da
cons i uição do si mesmo enquan o sujei o e como essa igu a ão impo an e na
paisagem helenís ica- omana do cuidado de si pode ajuda a pensa o papel do
e apeu a.
5. A s ul i ia e a necessidade de um mes e do cuidado
O indi íduo de e ende pa a um s a us de sujei o que ele jamais conheceu em
momen o algum de sua exis ência. Há que subs i ui o não sujei o pelo s a us de
sujei o, de inido pela pleni ude da elação de si pa a consigo. Há que cons i ui -se
como sujei o e é nisso que o ou o de e in e i .
120
.
F equen emen e a e apia é p ocu ada nos momen os em que o indi íduo se
encon a em um es ado de “não sujei o”. Não sujei o no sen ido que imos
an e io men e de não cons ui a si mesmo enquan o sujei o de suas ações. O que não
que dize que ele não seja alguém com p ocessos, i udes e desejos p óp ios, po ém,
ele não conhece os p óp ios p ocessos e, po não conhecê-los, deixa a ida co e e
não oma posse deles como o au o da p óp ia exis ência.
118
TESTA (PUCRS), F. Michel Foucaul e o helenismo: subje i ação e cuidado de si. In ui io, 4(1), 15-
28. Recupe ado de h ps:// e is asele onicas.puc s.b /ojs/index.php/in ui io/a icle/ iew/8617, 2011, p.
18.
119
C . DELEUZE, G., Espinosa. Filoso ia p á ica, p. 70.
120
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 117.
56
O a, o indi íduo que se encon a nesse es ado não conhece a si mesmo, pois
não se ocupou de si. Todo e qualque se humano, ez ou ou a se encon a á nessa
si uação. Sêneca diz, na ca a 52 a Lucílio, que ninguém es á su icien emen e em boa
saúde pa a sai sozinho de um es ado de s ul i ia.
121
Pa a que possamos sai da
s ul i ia, é p eciso que alguém nos es enda a mão e nos puxe pa a o a. Temos aqui a
impo ância da igu a do mes e do cuidado que, no p esen e abalho, u iliza emos
pa a pensa o papel do e apeu a.
An es de pa i mos pa a ais e lexões é necessá io que nos de enhamos um
pouco no concei o de s ul i ia. Tal noção é eco en e no es oicismo e sua desc ição é
encon ada, po exemplo, em Sêneca con o me é possí el obse a ambém na Ca a
52 a Lucílio. Nessa ca a o es oico esc e e que há um es ado de agi ação do
pensamen o, de i esolução, o qual é chamado s ul i ia. Esse es ado de agi ação do
pensamen o é igualmen e mani es o na inquie ude do co po, mo i o pelo qual a
pos u a de escu a nas escolas de Filoso ia da época incluía um g au de imobilidade
ísica a im de mos a que e e i amen e se em cuidados consigo mesmo
122
.
Sêneca diz ainda que a s ul i ia é o pio es ado em que alguém pode se
encon a e, o s ul us, po nunca e se ocupado de si como de e, p ecisa lida ambém
com as seguin es consequências. Ao e oma essas ques ões, Foucaul nos diz:
[...] o s ul us é, an es do mais, aquele que es á à me cê de odos os en os, abe o
ao mundo ex e io , ou seja, aquele que deixa en a no seu espí i o odas as
ep esen ações que o mundo ex e io lhe pode o e ece . Ele acei a essas
ep esen ações sem as examina , sem sabe analisa o que elas ep esen am. O
s ul us es á abe o ao mundo ex e io na medida em que deixa essas ep esen ações
de ce o modo mis u a -se no in e io de seu p óp io espí i o – com suas paixões,
seus desejos, sua ambição, seus hábi os de pensamen o, suas ilusões, e c.
123
.
O a, uma ez que o s ul us não se ocupou consigo, ele não sabe quais o ças o
compõem, ele se encon a em um es ado de igno ância sob e si mesmo em que os
p óp ios alo es e os alo es indos de o a – impos os ou compa ilhados po ou os –
se mis u am em seu se de modo que ele age no mundo sem consegui de ac o e e ua
121
Ele diz: “Po si só, ninguém consegui á sai do emoinho; é necessá io alguém que es enda a mão e
ajude a pisa e a i me.” SÊNECA, L. A., Ca as a Lucílio, p. 176, 52:2.
122
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 46.
123
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 118.
57
sua po ência, a inal, ele não sabe o que pode, nem qual a o ça que ele em de p oduzi
e ei os conc e os no mundo.
Foucaul ca ac e iza o s ul us como alguém que a nada se ixa e em nada se
ap az. É como um ba co deixado à me cê das ma és, sem que ninguém o conduza. Na
ala do s ul us udo o que lhe acon ece é po acaso, ele é semp e obje o dos
acon ecimen os e nunca sujei o, de modo que udo em sua ida es á como es á
simplesmen e po que “ oi assim que acon eceu”. Pa a ele, oda sua si uação p esen e,
po exemplo, se deu simplesmen e po uma sucessão de á ios acasos que o
acome e am du an e a ida sob e os quais ele não em possibilidade de agi .
Esse es ado de ausência de cuidados pa a consigo é acilmen e iden i icado no
encon o clínico a a és dos mais di e sos exemplos, en e eles, o indi íduo que
a i ma que e mui o um elacionamen o ha monioso, além de ela a um o e desejo
de se pai. En e an o seu casamen o ai mal po que “a esposa é ciumen a”, o que c ia
um cená io de cons an es b igas e discussões nada a o á eis pa a da conc e ude ao
desejo pela pa e nidade.
Po ém, no a-se que o sujei o não pensou em si mesmo den o dessa elação de
o ma a pode a alia algo em sua pos u a que mo i e as b igas e os ciúmes. Ao ela a
pa a a e apeu a a his ó ia do elacionamen o em ques ão, po ém, ele con a que ao
conhece a a ual esposa ele ainda es a a em uma elação com ou a pessoa. O
elacionamen o, po an o, e e início com a a ual mulhe no luga de uma elação
ex aconjugal.
O a, é p ecisamen e nesse pon o que a e apeu a in e ém lançando a seguin e
p o ocação: se osse ocê que i esse en ado nessa elação como um caso
ex aconjugal, ocê ambém ica ia insegu o. A pa i dessa a i mação o ou o ol a o
olha pa a si, se pensa em elação e no a que, de ac o, no deco e de sua ida ele
ma cou encon os e buscou po casos ex aconjugais di e sas ezes em que seus
elacionamen os – an e io es e a ual – co iam mal. Além disso, ele pe cebe es a
cons an emen e ameaçando a esposa a e mina o elacionamen o.
São iniciadas p oblema izações a esse espei o e, incen i ado pela e apeu a,
passa-se a ques iona pa a que se e esse mo imen o de p ecisa deixa o ou o semp e
com medo de pe dê-lo. Ao que a e apeu a p o oca no amen e: e alguém semp e
com medo de nos pe de az a gen e sen i que em um alo mui o g ande, ão g ande
58
que não pode se pe dido. O a, chegamos ao pon o do qual alá amos an e io men e
sob e o s ul us, que nunca se ocupou consigo e, po an o, não se conhece. E po não se
conhece , não sabe do p óp io alo . Assim sendo, o alo p óp io de e se
de e minado po algo ex e io , po ep esen ações ex e nas como, po exemplo, o olha
do ou o.
Logo, pa a esse sujei o, é de ex ema impo ância que a esposa sin a medo de
pe dê-lo o empo odo, pois do con á io ele não enxe ga o p óp io alo . O mesmo
acon ece do lado da esposa: ela du ida do p óp io alo , po an o, e ao seu lado
alguém ão desejá el a pon o dela es a o empo odo com medo de pe dê-lo ou com
medo de que ele á subs i uí-la – ou seja, alguém que pode es a com ou as, mas es á
com ela – pa indo dessa lógica, diz algo sob e o seu alo p óp io. No amen e, seu
alo de e se de e minado po algo ex e io .
Relação é eng enagem e esses dois jun os são a eng enagem pe ei a em pleno
uncionamen o, no maio es ilo Penélope e Ulisses como desc i o po Suely Rolnik:
ele sai pa a ba alhas e a en u as enquan o ela o espe a, ecendo e ma cando o empo
a é ele e o na .
124
Po que ele semp e e o na. Ele sai, ai pa a suas a en u as e se
en ol e com ou as mulhe es, mas é pa a ela que ele ol a. E ela semp e es á
espe ando po ele.
Cabe pe cebe , po ém, que chegado es e pon o do p ocesso e apêu ico acima
desc i o, o sujei o já não se encon a em um es ado de o al ausência de cuidados
consigo que é a s ul i ia. Acompanhado da e apeu a ele passou a conhece mais sob e
si, sob e o modo como ele unciona e a que o ças se em es e modo – quais alo es
essa es é ica do elacionamen o exp essam. Não se a a a, po an o, de não possui
p ocessos p óp ios, mas de nunca e olhado pa a eles. A e apeu a in e iu sob e esse
p ocesso, se indo como o pon o de e lexão onde a o ça exp essa é cap ada e
de ol ida ao ou o de modo que ele não em escolha a não se ol a -se pa a si
mesmo.
Assim como o alo do s ul us é de e minado po a o es ex e io es a ele,
ambém o é a sua on ade. Foucaul diz:
124
ROLNIK, S. Amo : o impossí el...e uma no a sua idade. Disponí el em
h ps:// e i o iosde iloso ia.wo dp ess.com/2014/06/07/amo -o-impossi el-e-uma-no a-sua idade-
suely- olnik/ Acesso em 28/08/2021.
59
A on ade do s ul us é uma on ade que não é li e. É uma on ade que não é
on ade absolu a. É uma on ade que não que semp e. E o que signi ica que e
li emen e? Signi ica que se que sem que aquilo que se que enha sido
de e minado po al ou qual acon ecimen o, po al ou qual ep esen ação, po al
ou qual inclinação. Que e li emen e é que e sem nenhuma de e minação,
enquan o o s ul us é de e minado, ao mesmo empo, pelo que em do ex e io e
pelo que em do in e io .
125
.
A on ade do s ul us é, po conseguin e, ex emamen e cambian e, de ido ao
ac o de se semp e de e minada pelos acon ecimen os do mundo – é uma on ade que
muda con o me os acon ecimen os se dão. O a, imos na p imei a secção, a espei o
do cuidado de si, a ques ão de que de emos obje i a se elho, mas enquan o uma
é ica de ida. Des e pon o de is a, po an o, obje i a a elhice enquan o momen o de
maio pleni ude na elação consigo mesmo implica obje i a o eu, ende pa a si,
a inal, o único obje o que se pode que e semp e, sem que nada de o a o de e mine, é
o si mesmo. En e an o, isso é jus amen e o que o s ul us não que , con o me nos
explica Foucaul :
Essencialmen e, o s ul us é aquele que não que , não que a si mesmo, não que o
eu, aquele cuja on ade não es á di igida pa a o único obje o que se pode que e
li emen e, absolu amen e e semp e, o p óp io eu. En e a on ade e o eu há uma
desconexão, uma não conexão, um não pe encimen o que é ca ac e ís ico da
s ul i ia, ao mesmo empo seu e ei o mais mani es o e sua aíz mais p o unda. Sai
da s ul i ia se á jus amen e aze com que se possa que e o eu, que e a si mesmo,
ende pa a si como o único obje o que se pode que e li emen e, absolu amen e,
semp e. O a, emos que a s ul i ia não pode que e esse obje o, pois a inal ela se
ca ac e iza p ecisamen e po não o que e .
126
.
Mas o que le a uma pessoa a não que e o p óp io eu, mesmo com odas as
consequências de não que e a si mesmo? O a, segundo Foucaul , “A aje ó ia em
di eção a si e á semp e alguma coisa de odisseico.”
127
; en e an o, não é odo mundo
que es á dispos o a sai numa odisseia, mesmo que ela seja em di eção a si. A inal,
nesse aje o somos cons an emen e con on ados, com iscos e imp e is os que podem
nos a apalha ou a é mesmo nos ex a ia do caminho – mo i o pelo qual p ecisamos
de um sabe , uma écnica, uma a e especí ica pa a pe co ê-lo. A p odução da ida
125
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 119.
126
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 120.
127
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 222.
60
como ob a de a e é, p ecisamen e a écnica que a Clínica o ien ada pelo pa adigma
é ico-es é ico-polí ico encon a como p opos a pa a an o.
Toda ia, há di e enças no que diz espei o ao modo como a Filoso ia in e ém
sob e esse es ado de igno ância que é a s ul i ia, em compa ação ao modo como a
Clínica o az. A o ma como a Filoso ia p e ende in e i e cu a a s ul i ia,
conduzindo o sujei o em di eção a si mesmo, é subs i uindo a igno ância e os e os de
juízo po um conhecimen o co e o, bem undamen ado e baseado na e dade que, po
consequência, p opo ciona á ao se humano a ida boa – nos depa amos no amen e
com a dimensão dogmá ica das escolas helenis as que não é encon ada na Clínica.
Pa a pe cebe mos melho essa ques ão, po ém, cabe desen ol e mos mais essa noção
de obje i a a si mesmo.
O que es á implicado nesse e mo é a noção de con e são a si que con e e um
con eúdo no o ao impe a i o do cuidado de si no pe íodo helenís ico omano. Ela
in e e que é p eciso que o sujei o ol e-se in ei amen e pa a si e consag e a si mesmo.
Quando dizemos “ ol a a si”, “ e o na a si”, “ aze um e o no sob e si” emos, an o
em g ego quan o em la im, uma sé ie de exp essões ais quais eph’heau òn
epis éphein, eis heau òn anakho eîn, ad se edi e, ad se ecu e e, den e ou as, cuja
implicação é a ideia de um mo imen o eal do sujei o em elação a si mesmo
128
. Ou
seja, o que es á em jogo no cuidado de si ago a não é simplesmen e uma ideia de
p es a a enção em si, e a si mesmo semp e sob os olhos e c. A con e são a si se
e e e, de ac o, a um deslocamen o do indi íduo em elação a si mesmo.
A pa i da óp ica da Clínica esse deslocamen o é sensí el no co po e nos
e ei os que esse co po e e be a no mundo. O a, discu imos an e io men e a ques ão
dos alo es exp essos nos mais di e sos modos de ida e como esses alo es podem se
modi ica a pa i das o ças que nos compõem a cada ins an e dando luga es a ou os
alo es e azendo coexis i , num mesmo indi íduo, alo es dis in os. Apon amos
ambém sob e como, po ezes, os alo es mudam, mas o si con inua encapsulado
num mesmo modo de exis i que não compo a, não exp essa os alo es do indi íduo.
O a, nes e pon o é possí el no a de o ma mais acen uada a di e ença en e a
écnica da Filoso ia e da Psicologia: na Filoso ia há uma subs i uição de alo es, mas
não nes e sen ido da manu enção de alo es con adi ó ios. Há os alo es que de ac o
128
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, pp. 221-222.
61
são co e os, que pe mi em a ida de aco do com o Bem, e conduzem à pleni ude e à
elicidade e os inco e os, que conduzem ao Mal, ao so imen o e à in elicidade, e po
isso de em se abandonados. Esses alo es são uni e sais e iguais pa a odos os
indi íduos. Na Clínica, além da a i mação dos alo es con adi ó ios comp eende-se
que há a necessidade de se con e sa com esses alo es opos os como um de e é ico
pa a com o ou o.
Isso que dize que, pa a a Clínica, obje i a a si mesmo, deseja a si mesmo,
inclui deseja udo aquilo que compõe o si enquan o al. Ou seja, pa a se chega a é si
de e-se da oz a udo que cons i ui esse si, ainda que haja a con adição. Ao con á io
do que se pensa, po ém, isso não az com que a on ade do sujei o seja cambian e –
ca ac e ís ica da s ul i ia – mas con e e ao indi íduo a possibilidade de jogo en e seus
alo es pa a que ele possa alcança aquilo que sua on ade de ac o deseja.
129
.
O ac o das elações de o ças se em dadas ao acaso dos encon os ambém não
az com que, na Clínica, seja in iá el essa ap oximação com o concei o de s ul i ia na
iloso ia helenís ica omana. Pelo con á io, essa noção é uma e amen a a mais pa a
nos ajuda a abalha em p ol daquele desejo que o sujei o encon a em si ao obje i a
a si mesmo – aquele desejo que é inde e minado pelas o ças ex e io es e que só o é
po quê lhe oi con e ida a possibilidade de jogo dian e das o ças indas de o a e dos
acon ecimen os que desencadeiam momen os de c ise.
No caso acima exempli icado o sujei o que busca a Clínica se encon a num
momen o de c ise, pois su giu em sua ida con o me o passa dos anos o desejo de se
pai. Se pai passou a impo a pa a ele, passou a cons i uí-lo como um alo . O modo
de ida que ele ela a, po ém, não é a o á el pa a a conc e ização desse desejo. As
cons an es b igas com a esposa, as p o ocações, esse modo ap endido an e io men e –
a pa i da amília, a pa i de alo es da sociedade sob e papeis de gêne o, den e
ou os – já não compo a esse no o alo que o sujei o possui em si. E é p ecisamen e
nesse momen o que ele decide, en ão, ao in és de a anja uma aman e como lhe é de
cos ume, a anja uma e apeu a.
129
Cabe aqui explici a um exemplo pessoal da au o a, enquan o alguém que, além de se e apeu a,
ambém az e apia: Du an e odo meu p ocesso de esc i a do p esen e abalho, o am emp eendidas
po mim e minha e apeu a di e sas con e sas en e aquela em mim que não conseguia e não que ia
esc e e e en e aquela que que e mina o mes ado. Da oz a essas con adições o am essenciais
pa a que eu pudesse cuida daquela que se encon a a impossibili ada de esc e e ao mesmo empo em
que pe manecia iel ao meu desejo de e mina o mes ado.
62
O ou o que o compõe e que deseja se pai pede pa a se ou ido, pois
ap oxima -se de si nesse momen o implica ou i odas as o ças em ação no campo,
implica ap oxima -se ambém desse que que se pai. É nesse pon o que en a o
abalho de p oduzi a p óp ia ida como ob a de a e que consis e em nada menos do
que o abalho de lapida um es ilo, um modo de ida que componha com os alo es
daquele co po a cada momen o.
O su gimen o do alo “se pai”, po ém, não exclui os ou os alo es ali
p esen es e que le am a esse modo de ida icioso. Eis aqui um dos iscos, um dos
obs áculos da jo nada odisseica em di eção a si que o sujei o encon a pelo caminho.
Po conseguin e, con o me esse indi íduo o lapidando esse ou o modo de ida – que
componha com seus alo es – a jo nada em di eção a si ai ganhando o ça e o
deslocamen o a é si é isí el, pois seu modo de ida se modi ica.
Foucaul ale a que o sabe eque ido pa a alcança a si mesmo é um sabe
complexo, an o eó ico quan o p á ico, e que se encon a mui o p óximo da a e da
pilo agem. Sob e o ap endizado desse sabe , Musonius Ru us, es oico ci ado po
Foucaul , diz que “quando se a a de ap ende alguma coisa que é da o dem do
conhecimen o ou das a es ( ékhnai), em-se semp e necessidade de um eino, em-se
semp e necessidade de um mes e.”
130
.
Vimos an e io men e, ambém na secção inicial sob e o cuidado de si, que há
um aspec o co e i o mui o o e no modo como esse p incípio e a abo dado no
pe íodo helenís ico omano, que isa a co igi os julgamen os pe e idos ad indos
da amília e da sociedade de modo ge al. O a, az pa e de ap eende esse sabe
complexo da a e da pilo agem o indi íduo ap ende a e e e esses alo es,
sepa ando o que é de ac o seu e o que em da educação que ecebeu e do modo que
ap endeu a epe i pad ões iciosos de compo amen o no seio amilia .
Em uma das sessões, o sujei o u ilizado como exemplo pa a pensa mos essas
ques ões ela a um pouco sob e a elação dos pais, con i mando jus amen e esse
aspec o “co e i o” que o cuidado de si em na Clínica. Ele começa dizendo que os
pais de iam e se sepa ado há empos, pois desde c iança ele acompanha a as saídas
mis e iosas do pai, p esencia a a mãe ne osa com cada momen o de desapa ecimen o
do ma ido e pa icipa a do caos que se ins au a a a pa i da descobe a de cada
130
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 117.
63
aman e. O a, esse modo icioso que ele segue a é hoje oi, de ac o, ap endido e é
sob e isso que o mes e – ou no caso o e apeu a – de e á in e i .
O mes e do cuidado, po an o, não az um abalho de ins ução ou educação
no sen ido de ansmi i uma habilidade ou um conhecimen o eó ico, mas:
[...] é uma ce a ação, com e ei o, que se á ope ada sob e o indi íduo, indi íduo ao
qual se es ende á a mão e que se a á sai do es ado, do s a us, do modo de ida, do
modo de se no qual es á [...]. É uma espécie de ope ação que incide sob e o modo
de se do p óp io sujei o, não simplesmen e a ansmissão de um sabe que pudesse
ocupa o luga ou se o subs i u o da igno ância.
131
.
A s ul i ia se e e e a um es ado mui o mais icioso do que de igno ância
p op iamen e di a. Segundo o pensamen o helenis a a igno ância não pode se
ope ado a do sabe , ou seja, o sabe que se p e ende adqui i a a és da ocupação
consigo mesmo não é um sabe que en a á no luga de algo que se igno a, mas um
sabe que desloca á o indi íduo pa a um es ado de sujei o nunca an es conhecido po
ele – cada ez mais p óximo do si mesmo. “Do a an e, o mes e é um ope ado na
e o ma do indi íduo e na o mação do indi íduo como sujei o.”
132
Nes e caso, a
ques ão que ica é: como o ou o, como o mes e, há de in e i de modo a se esse
ope ado ? Qual é a ação necessá ia pa a p omo e esse deslocamen o do indi íduo a é
si?
A ação necessá ia que o mes e de e conduzi “consis e em e u a a e dade
em que ele [o sujei o] c ê e mo e seu espí i o pa a o bom lado.”
133
Segundo o
colóquio 26 do li o II de Epic e o, ci ado po Foucaul , quando alguém az o mal es á
a come e uma al a. En e an o, a a-se não de uma al a mo al, mas uma al a
in elec ual come ida po con a do compo amen o icioso que adqui imos; das paixões
ex e nas e in e nas que se mis u am.
O que mo i a a ação é que na alma se es abelece um comba e (uma mákhe),
cujos lados são: p imei amen e, o ac o de que o indi íduo que az o mal age
obje i ando aze algo ú il. O que nos le a à ques ão de que ele não pe cebe que o que
az não só não é ú il, mas que pode se a é noci o. Nós nos inclinamos de aco do com
131
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 121.
132
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 117.
133
Lemb ando que quando alamos de “bom lado” aqui, nos e e imos ao modo como a Clínica enca a
esse bom lado: mais p óximo de si mesmo a pa i daquilo que ele conside a como alo pa a si. C .
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 126.
64
a e dade que somos le ados a econhece e o mes e, aquele que o e dadei amen e
hábil e o e na a e da discussão é:
[...] capaz de mos a , de aze com que o ou o, o que ele di ige, comp eenda em
que consis e essa mákhe, esse comba e en e o que se az sem que e e o que não
se az quando se que .
134
.
Essa mákhe, do pon o de is a da Clínica, consis e em nada menos que o jogo
de o ças que se ap esen a em nós cons an emen e. O abalho do e apeu a consis e
em ca og a a essas o ças em pa ce ia com o ou o e da nomes a elas, de modo que
o sujei o possa pe cebe esse comba e, a aliando as o ças que azem pa e dele e o
o nando ap o a lida com suas ques ões do modo mais lúdico possí el. Essa p á ica é
e apêu ica po si só, pois diz espei o à p odução de um conhecimen o que desloca o
sujei o pa a mais pe o de si uma ez que ele passa a nomea a e os que an es não lhe
e am ão cla os ao pensa como e am no sen i . T a a-se, como diz Fe nando Pessoa no
Li o do Desassossego, da “[...] aleg ia da acuidade das minhas sensações, ainda que
sejam de is eza.”
135
.
Nes e pon o é impo an e essal a que no pe íodo helenís ico omano e a o
ilóso o que ocupa a esse luga de mes e do cuidado. A inal, con o me nos diz o
es oico Musonius Ru us, o ilóso o é o hegemón (o guia) de odos os homens,
136
no
que conce ne às coisas que con êm à sua na u eza. Essa noção daquilo que con ém ou
não à na u eza de alguém, sob a óp ica da Clínica e da T ansdisciplina idade, se
agencia di e amen e com a noção espinosis a de composição ou decomposição do
nosso se a pa i dos encon os que azemos no mundo, azendo a ia o a e o pa a o
pólo da aleg ia – quando en amos em elação de composição com ou o co po – ou
pa a o pólo da is eza – quando en amos em elação de decomposição com um co po
que não nos con ém.
137
.
Na Clínica, po an o, a a-se de explo a aquilo que, pa a cada sujei o, compõe
com aquilo que é alo pa a ele a im de lhe con e i a possibilidade de seleciona seus
encon os no mundo de modo a man e -se iel a si; é mais uma e amen a da qual o
sujei o pode aze uso pa a p o ege -se an o quan o possí el nessa jo nada odisseica
a é si mesmo. Ao Filóso o, no pe íodo helenís ico omano, oi designado o luga de
134
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 126.
135
PESSOA, F. Li o do desassossego. Po o Edi o a. Po o, 2014, p. 350.
136
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 122.
137
DELEUZE, G. Espinosa. Filoso ia p á ica, p. 56.
71
A e dade incômoda do machucado “p oposi al” implica no isco do
ompimen o com esse modo já conhecido, en e an o, con o me nos diz Muylae em
pales a o e ecida no Ins i u o de Filoso ia da No a (IFILNOVA):
Assumi a pa ésia nes as ci cuns âncias implica que se almeje o ní el de
conhecimen o de si, da elação consigo onde, mesmo a e dade a ec i a mais
c í ica ou a iscada, o na-se o mo e desde o qual pode-se e e ua o ago a,
ex aindo dele as o ças em jogo.
145
.
Em cada uma de suas in e enções, po an o, a e apeu a u iliza da pa esia da
isiologia,
146
ou seja, da e dade dos conhecimen os p oduzidos em elação a im de
p omo e o deslocamen o necessá io do indi íduo pa a mais p óximo de si mesmo.
Foucaul diz que, nes e sen ido:
A pa esia é uma qualidade, ou melho , uma écnica u ilizada na elação en e
mes e e discípulo: é aquela libe dade de jogo, se quise mos, que az com que, no
campo dos conhecimen os e dadei os, possamos u iliza aquele que é pe inen e
pa a a ans o mação, a modi icação, a melho ia do sujei o.
147
.
O a, os conhecimen os que le am à ans o mação são p ecisamen e os
conhecimen os p oduzidos em elação – sabe da isiologia, do modo como es a e a
abo dada no pe íodo helenís ico omano. Nes e pon o cabe essal a uma di e ença
impo an e en e a Filoso ia como e apia do modo como e a pensado pelos helenis as
e do modo como a Clínica u iliza esse concei o de ans o mação em sua in e cessão
com a Filoso ia: enquan o, na Clínica, a ans o mação diz espei o a uma a i mação
das o ças do de i e a abe u a ao no o, nos helenis as dizia espei o a uma
au o ans o mação p o ocada pela inco po ação da e dade no sujei o que
e iden emen e nada inha a e com uma abe u a ao de i , podendo inclusi e se
145
Fala da p o esso a D ª Ma ília Apa ecida Muylae : “O Cuidado de si, a dob a do o a, Foucaul e
Deleuze: in e cesso es pa a a é ica-es é ica-polí ica da Psicologia” in In e na ional Con e ence
“GOVERNMENT OF SELF, GOVERNMENT OF OTHERS. E hical and poli ical ques ions in he la e
Foucaul ”. Realizada no dia 08 de ma ço de 2017.
146
Exp essão u ilizada po Foucaul quando es e e oma Epicu o e e indo-se a um ipo de discu so em
que se diz o que é e dadei o (pa esía) ao mesmo empo em que p esc e e o que é p eciso aze ,
le ando o sujei o à ação (ca ac e ís ica já ci ada an e io men e a espei o dos discu sos ad indos do
sabe da isiologia; do si em elação). Po an o, podemos no a nes e pon o um c i é io impo an íssimo
que guia o uso do discu so pa esias a: não se a a de dize udo sem il os, o c i é io de seleção de seu
uso na Clínica eside jus amen e em dize dos sabe es adqui idos em elação e a pa i daquilo que o
ou o az pensando a si mesmo em elação ao que lhe ce ca. C . FOUCAULT, M. A he menêu ica do
sujei o, p. 216.
147
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 216.
72
en endida como uma esis ência ao no o, uma ez que o obje i o e a que o sujei o
pe manecesse impe u bá el en e a qualque acon ecimen o do mundo.
Po an o, do pon o de is a da Clínica nesse mo imen o ansdisciplina que
p opomos aqui, é o sabe da isiologia que ap esen a a capacidade de modi ica o ê hos
– o modo do sujei o de agi no mundo. A cada in e enção é desses sabe es que a
e apeu a se ap op ia. Tais in e enções implicam que a e apeu a aja como
pa esias a, assumindo inclusi e o isco de ha e um ompimen o daquela elação caso
o isco que se assume ul apasse as o ças que a man ém. Po an o, é a im de aze
essa a aliação de isco que a e apeu a e oma o con a o, ques ionando à sua clien e se
aze e apia ainda az sen ido pa a ela. É a im de aze uma a aliação do quan o de
e dade aquela elação supo a.
Ao assumi esse isco de agi como pa esias a, chamando a enção pa a algo
que não se dá ou que não se em em con a e que es á sendo delibe adamen e
esquecido, algo acon ece e, na sessão seguin e, a menina az consigo uma a aliação
pon o a pon o de seus mo imen os no mundo. Quando a pa esia se e e ua é um
acon ecimen o, pois são ins au adas no as e dades. Des e modo, segundo Muylae :
A pa ésia en a en ão como a o de e minan e da possibilidade do co po en a
em a iação à pa i da agonís ica em andamen o. É nes e jogo e mo imen o que o
dob a da o ça pode p oduzi ou a subje i ação.
148
.
A pa i disso, é possí el a i ma que a noção de pa esía quando pensada
desse modo se agencia imedia amen e com a noção de si mesmo que es amos a
abalha e que en ende a subje i ação como algo semp e em p ocesso. Cons ui a
p óp ia ida como ob a de a e implica que se p oduza no as subje i ações, no as
e dades, a pa i das quais é possí el es abelece uma elação mais plena consigo
mesmo. A impo ância do mes e do cuidado apa ece na medida em que não exis e
pa esia soli á ia, o que nos le a ao ac o de que o es abelecimen o de uma elação do
indi íduo consigo mesmo encon a seu pon o de apoio e elemen o de mediação no
ou o. De ac o, as p óp ias p á icas de si em incula -se à p á ica social, de o ma
que a cons i uição de uma elação de si consigo mesmo em a ela -se às elações de si
com o Ou o.
148
Fala da p o esso a D ª Ma ília Apa ecida Muylae : “O Cuidado de si, a dob a do o a, Foucaul e
Deleuze: in e cesso es pa a a é ica-es é ica-polí ica da Psicologia” in In e na ional Con e ence
“GOVERNMENT OF SELF, GOVERNMENT OF OTHERS. E hical and poli ical ques ions in he la e
Foucaul ”. Realizada no dia 08 de ma ço de 2017.
73
7. As p á icas de si
O concei o de cuidado de si – epiméleia heau oû – em sua p óp ia designação
o iginal implica um exe cício. A pala a “epiméleia” é equen emen e u ilizada pa a
se e e i a uma a i idade ou como nos diz Foucaul :
[...] a noção de epiméleia não designa simplesmen e es a a i ude ge al ou essa
o ma de a enção ol ada pa a si. Também designa semp e algumas ações, ações
que são exe cidas de si pa a consigo, ações pelas quais nos assumimos, nos
modi icamos, nos pu i icamos, nos ans o mamos e nos ans igu amos. Daí, uma
sé ie de p á icas que são, na sua maio ia, exe cícios, cujo des ino (na his ó ia da
cul u a, da iloso ia, da mo al, da espi i ualidade ociden ais) se á bem longo. São,
po exemplo, as écnicas de medi ação; as de memo ização do passado; as de
exame de consciência; as de e i icação das ep esen ações na medida em que elas
se ap esen am ao espí i o, e c.
149
.
Logo, epiméleia, além de designa cuidado, designa ambém uma ação. Essas
ações exe cidas pelo si pa a consigo o am chamadas po Pie e Hado
150
de exe cícios
espi i uais – écnicas a a és das quais o indi íduo se ans o ma e se cons ói a si
mesmo. Essas écnicas ambém o am ap eendidas po Foucaul , con o me é possí el
pe cebe a pa i do echo abaixo:
Eu me o nei cada ez mais a en o ao a o de que em odas as sociedades há ou o
ipo de écnica: écnicas que pe mi em os indi íduos e e ua em, pelos seus
p óp ios meios, ce o núme o de ope ações sob e seus p óp ios co pos, almas,
pensamen os e condu as, de modo a ans o ma em a si p óp ios, modi ica em a si
p óp ios e se a e a ce o es ado de pe eição, elicidade e pu eza. [...] Vamos
chama essas écnicas de “ ecnologias do si.”
151
.
Ao que Hado chamou de “exe cícios espi i uais”, po an o, Foucaul chama de
“ ecnologias do si”. Exe cícios de si, p á icas espi i uais, p á icas de si são ou as
denominações e e en es a essa a i idade que, no deco e da his ó ia da Filoso ia,
semp e es e e a elada ao cuidado, con o me p essupos o na noção de epiméleia
heau oû.
149
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 12.
150
HADOT, P., ci . in NUNES, L. A; VERAS, C. A; TREVIZAN, M. B. A comp eensão de „exe cícios
espi i uais‟ em Pie e Hado . Synesis (ISSN 1984-6754), . 10, n. 1, pp. 166-185, 2018, p. 171.
151
FOUCAULT, M. "Abou he Beginning o he He meneu ics o he Sel : Two Lec u es a
Da mou h." Poli ical Theo y 21, no. 2 (1993): 198-227. Accessed Augus 21, 2021
h p://www.js o .o g/s able/191814, p. 203.
74
Mesmo em momen os an e io es a Pla ão e os diálogos soc á icos é possí el
encon a p á icas da o dem dos exe cícios espi i uais como, po exemplo, os i uais de
pu i icação pa a o sono e as écnicas de p o ação a im de habili a o indi íduo pa a
esis i às en ações. Ambas dessas écnicas são encon adas ambém no pi ago ismo,
mo imen o ilosó ico que acaba po in eg a ecnologias de si que, pos e io men e,
se ão e omadas e amplamen e p opagadas em ob as pla ônicas clássicas. No p óp io
Fed o de Pla ão encon amos écnicas de concen ação da alma, essal ando a
necessidade de se aze com que es a e lua sob e si mesma, esida em si mesma an o
quan o possí el, a im de con e i -lhe um modo de exis ência. São as chamadas
p á icas de e i o (anakhó esis), cujo im é a imobilidade do co po e da alma pe an e
as pe u bações ex e nas. Man e a alma em seu p óp io eixo, onde nada pode des iá-
la.
Uma imagem clássica desse ipo de exe cício é a de Sóc a es no banque e, no
qual apesa da ome con as ando com a a u a de alimen os, ele esis e à en ação de
come , demons ando a a és dessa a i ude um g ande domínio sob e si que só pode ia
se adqui ido a a és de p á icas cons an es. Ma co Au élio, impe ado omano e
conhecido es oico, nos az em suas ob as algumas das p á icas disseminadas na época.
O exame de consciência, conhecida p á ica de si es oica, e a comumen e
exe cida po Ma co Au élio. Ha ia dois momen os dessa p á ica: o exame de
consciência ma inal e o exame de consciência da noi e. No exame da manhã de emos
nos p epa a pa a o que emos a aze no dia, azendo uma e isão de como i emos
usa nosso empo e ea i ando os p incípios que de e emos coloca em p á ica pa a
cump i nossas a e as. Pois bem, o exame ma u ino do impe ado Ma co Au élio
seguia-se da seguin e o ma, segundo Foucaul :
A cada manhã – diz ele – quando despe o, lemb o-me do que enho a aze . O
dança ino, pela manhã, lemb a os exe cícios que de e aze pa a se o na um bom
dança ino. O sapa ei o ou o a esão (não me eco do qual exemplo ele usou)
ambém de e lemb a as di e en es coisas que em a aze du an e o dia. Pois bem,
é p eciso que eu ambém p oceda assim, e p oceda an o melho quan o mais
impo an es que a dança ou um o ício de a esão são as coisas que enho a aze .
152
.
Há, ainda, di e sas ou as p á icas de si no pe íodo es oico. Den e elas, mui as
das quais e e en es à esc i a e que cos umei amen e e am exp essas a a és de ca as e
152
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 180-181.
75
diá ios. P á icas como a p emedi ação de males, eino pa a a mo e, medi ação e c, se
aziam igualmen e p esen es. As écnicas de e i o em si (anakhó esis eis heau ón)
ambém apa ecem no pe íodo helenis a ga an indo uma imobilidade a qual nenhuma
agi ação, nem ex e na nem in e na, consegue pe u ba .
153
.
A não pe u bação en e às agi ações ex e nas ga an e a “secu i as” enquan o a
não pe u bação en e às possí eis agi ações in e nas ga an e ao indi íduo a
“ anquilli as”, sendo ambas as de inições ca ac e ís icas do ocabulá io es oico,
eme endo aos exe cícios de si. Assim como nos es oicos em ge al é possí el encon a
uma sé ie de écnicas as quais se e e em, po exemplo, a uma pu i icação das
ep esen ações à medida que es as se ap esen am ao espí i o.
Essa pu i icação, esse “ il o”, segundo o pensamen o es oico, é ine en e ao se
humano (p oálises), po ém de e-se exe ci á-lo po meio de p á icas que nos pe mi am
melho sepa á-las en e pu as e impu as e, consequen emen e, en e quais
ep esen ações de o exclui e quais posso admi i em meu espí i o – o que es á ou não
es á em meu con ole, sendo que aquilo que não es á em meu con ole de e á se
excluído, pois nada posso aze a seu espei o. Tal a i ude pe an e a ida de não nos
abala mos en e àquilo que não es á em nosso con ole, ob iamen e exige um
exe cício. Esse ipo de con ole não é algo que em na u almen e, mas pode nos se
con e ido a a és do cuidado de si e suas p á icas.
Também se de e e em men e que o que dis ingue as p á icas de si exis en es
no pe íodo helenís ico omano em compa ação a ou os pe íodos his ó icos, em
elação di e a com as ca ac e ís icas do cuidado de si da época. Ou seja, assim como o
cuidado de si helenis a passa a e um papel menos o mado e mais de co eção-
libe ação – con o me mencionado em secções an e io es – as p á icas de si ambém
passam a se ca ac e izadas como uma a i idade c í ica em elação a si mesmo. O
elemen o o mado , apesa de ainda exis i , apa ece inculado à c í ica e com um
in ui o um pouco dis in o. Sob e isso Foucaul explica:
Na p á ica de si que emos desen ol e -se no decu so do pe íodo helenís ico e
omano, ao con á io, há um lado o mado que é essencialmen e inculado à
153
No a explica i a: Nes e pon o é possí el pe cebe mais cla amen e que, apesa do indi íduo se
concebido enquan o um se elacional no pe íodo helenís ico omano e o a o e apêu ico acon ece na
elação com o mes e do cuidado, a e apia do modo como e a concebida pelos helenis as não en ol e
de odo um p ocesso dinâmico de a e ação pelo de i , al como oco e na Clínica. Pelo con á io, há
necessidade de um ecolhimen o em si, da c iação de uma sín ese o i icada que se man enha igual a si
mesmo a a és de odos os p ocessos e acon ecimen os.
76
p epa ação do indi íduo, p epa ação po ém não pa a de e minada o ma de
p o issão ou de a i idade social: não se a a, como no Alcibíades, de o ma o
indi íduo pa a o na -se um bom go e nan e; a a-se, independen emen e de
qualque especi icação p o issional, de o má-lo pa a que possa supo a , como
con ém, odos os e en uais aciden es, odos os in o únios possí eis, odas as
desg aças e odos os e eses que possam a ingi-lo.
154
.
Po an o, o aspec o o mado da p á ica de si no pe íodo ci ado se e e e a algo
como que mon a um mecanismo de segu ança, con e i ao indi íduo uma a madu a
p o e o a em elação ao mundo, p o egendo-o de odos os acon ecimen os que possam
se p oduzidos. Ao con á io das p á icas de si no momen o pla ônico, momen o no
qual elas possuíam como im con e i ao indi íduo um sabe , um conhecimen o
écnico que ele não possuía de ido a uma de iciência pedagógica e com o im
exclusi o de bem go e na . A es a a madu a do indi íduo em ace dos
acon ecimen os, Sêneca chamou de ins uc io
155
.
Esse aspec o o mado que encon amos po meio do ins uc io, po ém, é
indissociá el do aspec o de co eção-libe ação das p á icas de si da época, as quais
de e iam impo -se jus amen e sob e os e os e os maus hábi os exis en es em nós e
que se de am a a és da socialização amilia , po exemplo, a a és de julgamen os e
ideias pe e idas que nos são ensinadas. Assim sendo, de emos abalha a a és das
p á icas de si pa a domina e expu ga esse mal que nos é in e io , nos libe a dele,
co igi-lo, nos cu a mos.
Tal aspec o co e i o acaba po des incula o exe cício do cuidado de si da
pedagogia, con e indo-lhe um pa en esco com a medicina. Sob e essa elação mui o
p óxima en e Medicina e Filoso ia na época, Foucaul nos diz:
Mais in e essan e, sem dú ida, é o a o de que a p óp ia p á ica de si, al como a
iloso ia a de ine, designa e p esc e e, é concebida como uma ope ação médica.
No cen o, ce amen e, encon a-se a noção undamen al de he apeúein. Como
sabemos, he apeúein, em g ego, que dize ês coisas. The apeúein ce amen e
signi ica ealiza um a o médico cuja des inação é cu a , cuida -se; he apeúein é
ambém a a i idade do se ido que obedece às o dens e que se e seu mes e;
en im, he apeúein é p es a um cul o. O a, he apeúein heua ón signi ica á, ao
154
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 85-86.
155
SÊNECA, ci . in FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 86.
77
mesmo empo: cuida -se, se seu p óp io se ido e p es a um cul o a si
mesmo.
156
.
Po an o, pa a pensa mos a Clínica, a impo ância das p á icas de si no pe íodo
helenís ico omano pode se di e amen e elacionada com a ques ão do si mesmo que
se subje i a na ação. Assim sendo, além de udo o que já oi mencionado
an e io men e, o e apeu a se de e á em di eciona o ou o pa a p á icas e ações
e e i as no mundo que, no p óp io a o
157
, p omo am essa mudança no e hos do sujei o
que se in enciona alcança a pa i do cuidado de si.
Pode-se ci a como exemplo o caso de um apaz que chega à e apia alegando
semp e se pe cebe agindo no mundo mo i ado po ai a. A ai a, segundo ele, é uma
companhei a quase que cons an e e apa ece a qualque mínima descon iança de que
alguém lhe in enciona aze mal. Ele diz que a descon iança ambém é uma
companhei a equen e. A e apeu a lhe ques iona desde quando ele se sen e assim, ao
que se segue a seguin e his ó ia: o jo em, que à al u a das sessões inha pouco mais de
in e anos, diz que dos onze aos ca o ze anos de idade oi, epe idamen e, í ima de
episódios de bullying na escola. De aco do com ele, os pais e a coo denação escola
en a am in e i , mas de modo pouco e e i o. Con o me os anos se passa am e os
a aques con inua am e sua ai a c escia a é que, cansado daquela si uação, ele
começou a eagi às ag essões de o ma ex emamen e iolen a, apelando a é mesmo
pa a emba es ísicos con a seus ag esso es.
A pa i disso as ag essões con a ele o am diminuindo a é que os episódios de
bullying cessa am de ini i amen e. O apaz ela a, po ém, que a é os dias a uais a ai a
que ele sen ia na época ainda é p esen e e a qualque sinal de con li o ela se mani es a
na mesma in ensidade que an es, de al o ma que ele eage de manei a
desp opo cional a é mesmo aos pequenos con li os co idianos na elação com amigos
e amilia es p óximos. Ele diz ainda se sen i mui o is e, en e gonhado e culpado
oda ez que isso acon ece e que que ia “se li a ” de oda essa ai a.
A e apeu a, en ão, in e ém: Quando ocê e a adolescen e, o único que oi
capaz de esol e aquela si uação do bullying oi esse “ ocê” ai oso. Ninguém mais,
156
FOUCAULT, M. A he menêu ica do sujei o, p. 89.
157
Tan o na Clínica quan o pa a os helenis as os exe cícios não se di eciona am apenas aos a os, mas
p epa a am-no an es do a o em si: a a-se de ans o ma o e hos an ecipadamen e de o ma que a
ans o mação se e e i e no mundo a pa i dos a os. Ou seja, os exe cícios p epa am o sujei o pa a o
momen o em que ele o chamado a agi .
78
além “dele” conseguiu aze isso po ocê. En ão es á na ho a de começa a “ a á-lo”
melho , pois no mínimo é mui a ing a idão pa a com “ele” – po an o, pa a com ocê
mesmo – que e que “ele” simplesmen e se cale e á embo a, pois oi “ele” que
esol eu aquela si uação que e a ão uim p a ocê.
Nessa in e enção podemos no a á ios pon os já ci ados an e io men e: o a o
de joga o p oblema num campo a im de a alia – e não mais julga – a p oblemá ica
azida pa a o encon o clínico de modo que o ou o posso olha pa a si sem culpa ou
e gonha; a noção do si enquan o múl iplo dado à a iedade de o ças que o compõem
e o a a essam o empo odo; a ideia de que nós agimos com os ou os do modo como
agimos na elação conosco e, po im; a ins au ação de uma p á ica de si a a és de
uma a i idade c í ica em elação a si mesmo e à elação que se em consigo.
Essa in e enção ambém se ca ac e iza po se aquele ipo de discu so que
p on amen e le a o sujei o à ação, p o ocando uma mudança no e hos, pois ao p o e i-
lo a e apeu a inaugu a jun o com o ou o uma no a possibilidade dele se elaciona
consigo mesmo a pa i de ou os a e os que não a culpa e a e gonha. A inal, a pa i
dessa no a pe cepção os julgamen os do plano hegemônico de bom ou mau não
ganham o ça, pe mi indo que o sujei o olhe pa a si de o ma c í ica, mas nunca
culpada ou en e gonhada. Olha pa a si de o ma c í ica, nesse caso, é ambém olha
pa a si com ca inho e com acolhimen o.
A pa i da a aliação ei a pela e apeu a é possí el conside a que pa a aquele
co po a única coisa que pa ou de uma ez po odas as ag essões que ele so eu po
anos oi a sua ai a e suas p óp ias ações iolen as, assim sendo, não é de se admi a
esse egis o ão o e insc i o em si de que a única coisa que pode esol e de ac o os
con li os é a ai a e a iolência. Nes e pon o, cabe ambém à e apeu a apon a que
esse egis o é o de um ga o o de ca o ze anos que inha ainda poucos ecu sos pa a
esol e seus emba es. O a, como já imos, alguns au o es apon am a in ância e o
início da adolescência como as pio es ases da ida no que diz espei o à elação
consigo.
É uma ase em que a maio ia ainda não desp endeu cuidados su icien es pa a
consigo, de modo que não se em ainda o conhecimen o necessá io da isiologia – do
si em elação – pa a es a em si plenamen e. A ausência de ecu sos mais elabo ados
pa a esol e seus con li os de ou o modo, pode se conside ada como a al a do
79
ins uc io
158
, da a madu a p o e o a con a as pe u bações do mundo que o cuidado de
si de e o ma . Nes e caso a e apeu a, em seu luga de mes e do cuidado, de e á
acompanha-lo e in e i nesse p ocesso que i á do á-lo do ins uc io.
No campo da Psicologia é amplamen e de endido que “saúde men al” não que
dize nunca e p oblemas e/ou con li os, pois es es são ine en es à ida. Saúde men al,
po an o, signi ica possui os ecu sos e e amen as necessá ias pa a lida com aquilo
que nos acon ece. E é nesse pon o que podemos e uma g ande ap oximação da
psico e apia e da Filoso ia como e apia no pe íodo helenís ico omano – al como os
helenis as, o que se p e ende no p ocesso e apêu ico é do a o indi íduo dessas
e amen as.
A pa i daí o jo em pode á desen ol e ou os modos de exis i em con li o
que não seja com ai a ou iolência. Mas isso não depende á somen e da e apeu a ou
de algum ipo de pe suasão. Pa a que o sujei o possa es abelece ou o ipo de elação
com os ou os ele de e á, po conseguin e, ap ende a se elaciona consigo mesmo de
ou a o ma. Você ambém é bas an e iolen o com ocê quando condena e abomina o
“ ocê” ai oso, lemb a a e apeu a.
O a, assim como emos di iculdade quando decidimos começa a nos exe ci a
depois de um longo pe íodo de seden a ismo, coloca em mo imen o algo que es a a
engessado em um único modo de exis i é igualmen e di ícil e dolo oso. No começo
i á exigi um es o ço eno me, mas com o empo, assim como nos acos umamos aos
exe cícios ísicos, o co po i á se o nando capaz de desempenha com mais
desen ol u a os exe cícios ol ados pa a o si mesmo. Olha pa a si com delicadeza,
po an o, de e á se uma p á ica pa a oda a ida.
Um exe cício in e essan e de se p opo no encon o e apêu ico pa a pensa
essa di iculdade inicial é a seguin e: pedi ao ou o no início da sessão que ama e seu
polega jun o à mão, deixando-o imobilizado numa mesma posição a é o inal do
encon o. Ao im, pede-se ao sujei o que desama e o dedo e en e mo ê-lo. No início
i á doe , mas após alguns segundos mo imen ando-o ai icando con o á el
no amen e. O mesmo ale pa a nossos p ocessos psíquicos. Assim, oda ez que o
apaz es i e a en en a di iculdades em a a a si mesmo de o ma di e en e àquela
há an o empo ins au ada, ele es a á mais o alecido pa a en en a-las, pois e á a
158
C . FOUCAULT, M., A he menêu ica do sujei o, p. 86.
80
companhia dessa expe iência no p óp io co po. Ob iamen e, de modo mui o menos
complexo, po ém ainda assim o e su icien e pa a acompanha-lo du an e esse
p ocesso que ele sabe, po expe iência p óp ia, que melho a com o empo.
Há ainda uma sé ie de p á icas, de exe cícios que o e apeu a pode ensina ao
ou o e que o pe mi a, na pos e io idade, epe i-los au onomamen e, dia iamen e e
quando o necessá io ace aos acon ecimen os da ida. Tendo em is a o caso acima
desc i o, a e apeu a pode indica exe cícios pa a que o ou o p a ique e que ajudem no
con ole da ai a nos momen os em que essa emoção se ap esen a com maio
in ensidade, possibili ando que ela se mani es e no mundo, mas sem p ejudica a si ou
às suas elações.
Pa a esse im emos, po exemplo, um exe cício que consis e em coloca -se de
joelhos de en e pa a um “pu ” ou um so á – p ecisa se uma supe ície macia – e
posiciona o co po de o ma e e a com os b aços es icados pa a cima e as mãos
en elaçadas. Em seguida, de e-se balança o co po como se osse um pêndulo, pa a
en e e pa a ás, ba endo as mãos com o ça nas almo adas do so á a sua en e (daí a
necessidade de uma supe ície macia). De e-se começa de aga e i aumen ando a
in ensidade, epe indo o mo imen o a é es a comple amen e cansado; al u a em que a
ai a e á se dissipado, pe mi indo-o pensa em seus p óximos mo imen os com maio
cau ela.
Po im há uma p á ica, apa en emen e mui o simples, mas que eme e a
algumas das p á icas de e i o em si mesmo e de exame de consciência da an iguidade.
Ela consis e em ala consigo mesmo, mas essa de e se uma con e sa jus a e
di ecionada, na qual o sujei o de e á ol a o olha pa a si e escu a odos os “eu” que
o habi am, inclusi e aqueles que ele não gos a mui o de escu a . Muylae epe e em
á ias de suas pales as que ai “ eabili a o ala sozinho como p á ica de saúde
men al.”. O a, ao ala mos conosco, sem desp eza nada do que encon amos, es amos
a da exp essão à agonís ica que nos ca ac e iza a cada momen o. Olha pa a si des e
modo já con e e um deslocamen o do sujei o em seu campo a e i o uma ez que
implica, na p á ica e a cada ez em que se o ealizá-la, uma pos u a e um olha
especí icos em elação a si mesmo.
Ou a p á ica que pode se aliada a essa é a de olha pa a si e ques iona : “que
his ó ia eu que o que con em de mim?”. Essa p á ica ambém é uma que de emos
87
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