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Altas Árvores de Coração Amargo. Testemunho e Paixão em Fernando Assis Pacheco

Abstract

A seguinte dissertação prende-se, numa primeira parte, com o acto do testemunho e as condições, não só que o possibilitam, como aquelas que são com ele criadas. Para isso, pretendeu-se demonstrar como toda a poesia é em si uma forma de testemunho e como todo o testemunho contém em si algo de irreparavelmente poético, visto assentarem ambos – poema e testemunho – nos mesmos pressupostos de construção, em particular a memória, a linguagem e a tranformação de um Eu em Outro. Tanto um poema como um testemunho só se concretizam quando colocados em lugar de partilha, quando abertos ao padecer e à Paixão de outrem. Numa segunda parte, e para melhor demonstrar esta relação, procede-se à leitura da poesia de Fernando Assis Pacheco, relevando como na sua obra é singular a aproximação entre poesia e testemunho, e como nos seus poemas, ao manterem uma relação íntima com a Morte, conseguimos compreender um testemunho enquanto forma de abertura ao Outro.

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Altas Árvores de Coração Amargo. Testemunho e Paixão em Fernando Assis Pacheco

Author: Monteiro, Guilherme Manuel Mineiro Penteado Pereira
Year: 2018
Source: https://run.unl.pt/bitstream/10362/57717/1/ALTAS%20%c3%81RVORES%20DE%20CORA%c3%87%c3%83O%20AMARGO.pdf
Al as Á o es de Co ação Ama go
Tes emunho e Paixão em Fe nando Assis Pacheco
Guilhe me Manuel Minei o Pen eado Pe ei a Mon ei o
Disse ação de Mes ado em Es udos Po ugueses
Se emb o 2018
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do
g au de Mes e em Es udos Po ugueses, ealizada sob a o ien ação cien í ica do
P o esso Dou o Abel Ba os Bap is a.
ALTAS ÁRVORES DE CORAÇÃO AMARGO
TESTEMUNHO E PAIXÃO EM FERNANDO ASSIS PACHECO
GUILHERME MANUEL MONTEIRO
RESUMO
A seguin e disse ação p ende-se, numa p imei a pa e, com o ac o do es emunho e
as condições, não só que o possibili am, como aquelas que são com ele c iadas. Pa a
isso, p e endeu-se demons a como oda a poesia é em si uma o ma de es emunho
e como odo o es emunho con ém em si algo de i epa a elmen e poé ico, is o
assen a em ambos – poema e es emunho – nos mesmos p essupos os de cons ução,
em pa icula a memó ia, a linguagem e a an o mação de um Eu em Ou o. Tan o um
poema como um es emunho só se conc e izam quando colocados em luga de
pa ilha, quando abe os ao padece e à Paixão de ou em. Numa segunda pa e, e
pa a melho demons a es a elação, p ocede-se à lei u a da poesia de Fe nando Assis
Pacheco, ele ando como na sua ob a é singula a ap oximação en e poesia e
es emunho, e como nos seus poemas, ao man e em uma elação ín ima com a Mo e,
conseguimos comp eende um es emunho enquan o o ma de abe u a ao Ou o.
Pala as-cha e: Fe nando Assis Pacheco, Tes emunho, Paixão, Pa ilha, Mo e.
ALTAS ÁRVORES DE CORAÇÃO AMARGO
TESTEMUNHO E PAIXÃO EM FERNANDO ASSIS PACHECO
GUILHERME MANUEL MONTEIRO
ABSTRACT
The ollowing disse a ion deals, in he i s pa , wi h he ac o es imony, no only
wi h he condi ions ha allow i , bu also hose ha a e c ea ed wi h i . I was o his
in ended o demons a e how all poe y is in i sel a way o es imony and how all
es emonies hold in hemsel es some hing i epa ably poe ic, seen ha hey bo h
s and – poem and es imony – on he same cons uc i e p emises, pa icula ly
memo y, language, and he ans o ma ion o he I in o O he . Bo h poem and
es imony can only happen when pu in a place o sha e, when open o he su e ing
and Passion o o he s. In he second pa , and o be e demons a e his ela ion, we
will p ocede o he eading o Fe nando Assis Pacheco’s poe y, demons a ing how
singula his wo k is when i comes o he p oximi y be ween poe y and es imony, and
how wi h his poems, by keeping a close connec ion wi h Dea h, can we unde s and a
es imony as a way o opening o he O he .
Keywo ds: Fe nando Assis Pacheco, Tes imony, Passion, Sha ing, Dea h
Tes emunhas se ão a in a e pena,
que esc e e am de ão moles a ida
o menos que passei, e o mais que alo.
Camões
A minha ida, a minha ida, o a alo dela como de
algo acabado, o a como de uma b incadei a que ainda du a, e
aço mal, po que ela acabou e con inua simul aneamen e, mas
a a és de que empo e bal de o exp imi is o?
Samuel Becke , Molloy

Índice
(incipi ) .......................................................................................................................................... 1
I ...................................................................................................................................................... 5
In enções................................................................................................................................... 5
o li o é o que é nenhum enleio ................................................................................................ 8
O di e endo g eco-la ino ...................................................................................................... 8
Poé ica e Es é ica, Bu guesia e Au o ................................................................................. 11
A en e is a, a apo ia ......................................................................................................... 15
Assis Pacheco: um p imei o olha ...................................................................................... 18
II ................................................................................................................................................... 23
Linguís ico ............................................................................................................................... 25
E imológico ............................................................................................................................. 27
Ju ídico .................................................................................................................................... 27
Religioso .................................................................................................................................. 29
Li e á io ................................................................................................................................... 30
De ida, Mo ada ..................................................................................................................... 36
O caso de La éguy .................................................................................................................. 41
A lacuna do es emunho: o mu ilado e o muçulmano ........................................................... 45
A Mo e ................................................................................................................................... 49
Blancho – ou o nome sob e o meu ão ágil................................................................... 50
III .................................................................................................................................................. 55
CUIDAR DOS VIVOS...................................................................................................................... 59
Es ada de El as ...................................................................................................................... 59
Elegia, Ap o ei ando Bach ...................................................................................................... 60
CATALABANZA, QUILOLO E VOLTA .............................................................................................. 62
/ - A ba a ................................................................................................................................ 63
Nambuangongo em Maio ................................................................................................... 63
«E Ha ia Ou ono?» ............................................................................................................. 66
(…) – Sinais elíp icos ................................................................................................................ 68
As A es ................................................................................................................................ 68
Monólogo e Explicação ....................................................................................................... 71
O Ou o ................................................................................................................................... 74
As Balas ............................................................................................................................... 75
O Amigo em Vila Pimpa ...................................................................................................... 77
O Ga o e ............................................................................................................................ 79
IV: uma úl ima espi ação ........................................................................................................... 82
Bibliog a ia .................................................................................................................................. 98
1
(incipi )
Du an e mui o empo, ao dei a -me, já depois de apaga as luzes do meu
qua o, o meu pai azia-me epe i odas as noi es a mesma o ação, aquela que ele me
ensina a mui o an es de eu consegui e alguma memó ia de a e ap endido, pedindo
ao meu anjo da gua da, minha luz meu guia, que me p o egesse o sono em que es a a
p es es a en a , mas que o izesse de noi e e de dia, o que signi ica a pelo menos a é à
noi e seguin e, al u a em que os mesmos i uais se epe i iam, e eu a ia no amen e
aquela o ação, no amen e pedindo a mesma coisa. Sucedeu-se is o du an e anos, não
só naqueles em que o meu pai man inha o hábi o de me i dei a , como nos ou os
depois ao longo da minha in ância, em que, já sozinho, sem sabe po que on ade ou
a que mando, con inua a a epe i odas as noi es aquelas ases, ão cu as e ão
simples, e que se o am len amen e o nando numa o ma de man a, algo ão
cons an e e p esen e nas minhas noi es que adqui iam uma espécie de co po alidade,
ão angí el e palpá el como a almo ada em que apoia a a cabeça ou o pijama que
es ia. Só mais a de consegui en ão ealmen e comp eende aquilo que eci a a, e
demo ou-me mui o empo, após deixa de o aze po comple o, a é conside a aquele
i ual de o ma mais p o unda, à luz da dis ância uminan e que os anos ão azendo.
Comecei en ão a en a lemb a -me de odas as ezes que o iz, odos as noi es
sob epos as num único momen o, como se cada ep esen ação pa icula daquela
o ação se conjugasse no seu domínio ideal; não en a a aspi a ao es ado pla ónico
das minhas acções, ampouco de e mina aquilo que unia e que se man inha como
eco en e de odas as ezes que o ha ia ei o – p ocu a a p ecisamen e as suas
di e gências, os po meno es de cada dia, as in lexões de oz e de i mo que po ezes
ensaia a, as a ian es que ao longo dos dias e dos anos con inua a a a isca . E e am
na e dade um isco, já que, se po en u a en a a uma cadência mais acele ada,
quase impe cep í el, um om de oz mais jocoso ou alguma ou a al e ação, algum
des io daquele momen o signi ica i o das nossas o inas, an o minhas como do meu
pai, habili a a-me a se de logo ep eendido, sujei o como pena a e de epe i a
2
o ação após ela se di ada no amen e pelo meu pai, como se ma ensinasse pela
p imei a ez. Fo am á ias as ezes que a ap endi de no o. Mas pa ecia-me semp e
que esse di ado, esul ado da sua ep imenda, não e a um começo, uma e alo ização
e eap endizagem daquilo que a o ação signi ica a, mas pelo con á io um e o no e
um adensa na sua indis inção, na sua indi e ença, no seu sen ido opaco, ocul o po
esse co po que ao longo dos anos inha indo a adqui i . Se ao en a lemb a -me de
odas ezes em que disse a aquela o ação oca a-me nas di e enças que a iam
ma cando e dando o ma, in ei a a-me cada ez mais que e a cons an emen e
ad e ido pa a que a eci asse semp e da mesma manei a, imi ando semp e a ó mula
do dia an e io enquan o exemplo de uma o ação bem cump ida – a inal de con as,
inha passado mais um dia, e lá es á amos nós, mais uma ez, dispos os a cump i-la.
Ten a a po ezes ecombina as suas pala as, pequenas mudanças que al e assem os
seus desígnios; o que aí me in e essa a não e a encon a uma no a cadência, mas
po en u a descob i uma no a p ece, sabe se algo se al e a ia se me a e esse a
muda as pala as e as ases a que já es a a acos umado, como um ei iço que,
quando mal eci ado, se ans o ma no seu con á io, e p oduz no os e inespe ados
esul ados – dizia minha luz meu dia, que me gua dasse de noi e e de guia, mas de
imedia o e a apanhado, e a logo eme ido pa a a jus eza dos dias an e io es, a
amanha co ecção com que semp e p ac ica a ais ac os, pa a que aquilo que
dissesse se ealizasse, as pala as co ec amen e enunciadas em de imen o de
quaisque ou as, como sendo p ecisamen e a única o ma possí el de ala , de dize
alguma coisa, naquele de e minado momen o, sendo aquelas pala as as únicas
ce ezas, adequadas e necessá ias pa a o seu acon ecimen o, pa a que a o ação se
su gisse e i ompesse, um monumen o odos os dias e igido igual, cons an e, en ando
semp e ugi à sua insc ição num empo e num espaço – uma o ação, a inal,
me a ísica. E e a mesmo na sua cadência, no seu dize , que po ezes me en e ia a
escapuli do édio das noi es, acele ando as suas pala as ao pon o da amálgama, sem
espaços ou in e alos de silêncio que ma cassem a solenidade dos e sos que a
comum dicção ins i uía, algo en e a emissão da p ece pa a uma dimensão ín ima e
pessoal, sem p ecisa de mais alguém a ou i-la, e a u gência de um assun o pos e io a
a a que não se ia, a inal de con as, senão a p essa de uma c iança sonolen a. A
ispidez das pala as do meu pai impediam-me na al u a de en a eba e os seus
3
epa os, ou de pelo menos, à al a de alguma azão con incen e pa a a ia a minha
manei a de eza que não osse só mais um ges o in an il, pe gun a qual e a o mal de
o dize daquela o ma, de acele a aquele e so ou enca alga aquela pala a, mas já
naquele empo conseguia pe gun a -me, po en e o meu pai epe i de no o aquele
eci a i o pa a eu de no o o declama co ec amen e, que di e ença a ia al e a as
minhas pala as ou a sua cadência? Pa a quem o azia, e po quê ou como é que o meu
pai lhe espondia ou assesso a a? E no en an o, pe cebi-o anos mais a de, a pe gun a
que me al a a aze não e a “a quem aço es a o ação?”, mas an es “quem es á aqui
pa a ou i-la?”. O meu pai não e a um in e mediá io, mas uma es emunha. A
solenidade daquele i ual não se mani es a a pelo ei iço ou e icácia das pala as que
eu ia dizendo, mas pela somb a que a pa i delas se mani es a a pa a me ou i
p o e i-las e pa a ou i-las se em p o e idas, como se a p óp ia o ação o masse o seu
des ina á io enquan o e a p o e ida, que logo se des anecia após o meu pai me da
um beijo de boa-noi e, a é à noi e seguin e, onde ol a ia no amen e pa a pa icipa e
ecebe aquela o ação. Eu dizia-o pa a alguém, alguém que não es a a ali no qua o,
mas que se o ma a quando eu me di igia a ele, an ecipando-se aos e sos que ia
dizendo, acha a eu que pa a o azio. O meu pai comp o a a assim a p esença da
o ação, con i ma a que quem ali su gia ou ia aquilo pelo qual su gi a. Todas as noi es,
as minhas pala as con inham a c iação e o sac i ício da p esença a quem eu as dizia,
aquelas pala as p ecisas, naquele mesmo i mo monó ono, àquela ho a,
in a ia elmen e cobe o pelas man as e pelos lençóis da minha cama, que aziam no
ins an e em que e am p o e idas um acon ecimen o absolu amen e singula , po que a
cada dia a mínima coisa – e po an o udo – muda a em mim, no meu pai, no meu
qua o, e ao mesmo empo essas pala as pa icipa am de uma ase maio , aquela
que odas as noi es se e oma a quando e a in e ompido o empo e suspenso o
decu so no mal das nossas idas. Quando o a a, azia-o pa a alguém, alguém que não
o meu pai, alguém que b o ando do excesso que as minhas pala as e oca am, e a em
si essas p óp ias pala as, o ins an e em que e am di as, e a p esença que delas assim
emana am. E a essa p esença não pode se negada o seu su gimen o, e isso já o sabia
naquela al u a, embo a não o econhecesse; nunca conside ei, ao longo de odos
aqueles anos, ecusa -me a aze a o ação, decla á-la imp onunciá el, eme e -me a
um silêncio que me o na ia en ão p o ano. En e a coe ção impos a pelo meu pai, não
10
ins au ou. A é po que aquilo que se discu e, não só em Fed o mas ambém na
República, não é já a esc i a enquan o egis o de in o mação ou o ma de cálculo, mas
ambém a esc i a poé ica, a si uação e impo ância da poesia no espaço público e na
educação dos cidadãos. Se a linguagem em na sua o igem um desígnio uncional, a
sua composição, não só g ama ical como semân ica e em úl imo caso p agmá ico, é
pos a em causa quando, sem p e ensões de se que e ansmi i uma in o mação ou
comunica algo a alguém, se con a uma his ó ia, seja com um objec i o lúdico,
pedagógico ou me amen e e ó ico. É nes a inope abilidade da língua, a deslocação do
ca ác e uncional da linguagem pa a ou a coisa, que a li e a u a se o na á possí el,
jun amen e com a hipó ese iccional de qualque discu so; se á, no undo, es a
ques ão que c a a á o cisma, i epa á el pa a Pla ão, en e a Poesia e a Filoso ia. O
p oblema dos poe as, ão u gen e pa a Pla ão, é acima de udo um p oblema de
o dem é ica. Es a elação de o ças en e a esc i a e a ala (ques ão in insecamen e
i ónica, já que é a a és dos seus mui os diálogos esc i os que Pla ão consegue a é
hoje chega a nós, como já A is ó eles ez ques ão de no a , ao e e i os diálogos
pla ónicos como a es mimé icas) só se á e ec i amen e in e ido com Cíce o. Apesa
da cul u a la ina gua da algumas ese as em elação à esc i a, po es a se o alice ce
do conhecimen o helénico (BABO, 1993: 89), ela sob epõe-se à ala, “po que o
imp o iso é in e io ao discu so p epa ado” (PEREIRA, 1990: 136), p ecisamen e
po que pe mi e a p epa ação e uma composição ex ual que, pa a e ei os o a ó ios,
ajudam o seu au o /o ado a a ingi o e ei o p e endido. Assim, não só a esc i a é
alo izada, como a p óp ia a e poé ica, ou as chamadas Belas Le as, adqui em uma
legi imidade que desde Pla ão pa ecia e em al a. Con inuando uma ce a de esa
é ica da poesia, já ambém iniciada po A is ó eles, Cíce o enca a o laze e ludismo que
as Le as nos azem não como dis acções incon enien es à o mação do cidadão,
mas como undamen ais pa a o “ape eiçoamen o espi i ual” e pa a o domínio
daquelas que se iam as “a es maio es”, como ossem a eloquência ou a polí ica. O
e i o pessoal pa a a lei u a e es udo se iam o o ium necessá io a qualque cidadão, e
o neg-o ium, mais do que o seu con á io (o desempenho ac i o de um papel polí ico),
se ia a sua inalidade, do qual o o ium se ia um meio pa a o a ingi .

11
Poé ica e Es é ica, Bu guesia e Au o
Mas é no séc. XVIII que podemos conside a as mais p o undas ans o mações
daquilo que podemos conside a “a condição li e á ia”, no ad en o do Roman ismo
Alemão, com o su gimen o da noção de Li e a u a e, al ez ainda mais impo an e,
com o su gimen o da sua c í ica. É nes a al u a, com a p imei a dis inção en e Poé ica
e Es é ica, p opos a po Baumga en, que à ob a li e á ia se pe mi e a des inculação
de um ca ác e ins umen al, a is o elicamen e impos o. O ca ác e es é ico da a e,
ao in és do po-é ico, ins au a o p imado da ideia de subjec i idade e po isso de au o
enquan o dono da sua ob a (não é coincidência que é ambém nes e pe íodo que
su ge pela p imei a ez o concei o de “di ei os de au o ”). A dis inção ei a po
Pimen a é escla ecedo a:
Poé ica de ine oda uma eo ia ins umen al com a qual se ealiza o comp omisso
en e o desbo da subjec i o do sensí el e a necessidade social de concep ualizá-lo
den o de uma no ma objec i a (…) es é ica é a pu a exp essão do sensí el,
desligada quan o possí el de comp omissos com o concep ual já objec i o
(PIMENTA, 2003: 37)
As mudanças que com is o são azidas não são po meno es, já que é nes a
dis inção (que se á aplicada e oac i amen e, ambém) que se queb a a “p omessa de
um sen ido” (STEINER, 2007: 13) nes e caso uma inalidade implíci a pelo au o ao
es o da sociedade. Deixando a ob a li e á ia de se um ins umen o com is a à
coesão social, como o e a a agédia, es a o na-se num elemen o de undu a e cisão,
já que no abandono de qualque on ade ou objec i o comunicacional, “o a is a nega-
se à ap op iação do indi íduo pela sociedade” (PIMENTA, 2003: 38). Reclama-se e
ins i ui-se, de o ma gene alizada, a igu a do “au o ”, enquan o aquele que é o
ga an e da au o idade daquilo que esc e e, papel an e io men e ese ado às g andes
igu as da An iguidade, ou a Deus, no caso dos ex os sag ados: “Não é au o odo
aquele que esc e e, que p oduz. Au o é o nome que ganha au o idade” (BABO, 1993:
14).
12
Se a posição de Cíce o p ocu a a in e e a elação de o ças en e esc i a e
o alidade assen e po Pla ão, uma ou a in e são su ge a pa i des e pe íodo. Se,
como dissemos acima, pa a Cíce o o laze que ad inha do o ium – e que passa a pela
lei u a e pela esc i a li e á ia – inha como unção a comple ude e o desen ol imen o
do neg-o ium, da ida ci il e do abalho, é a pa i sob e udo do século XVIII que a
ins i uição li e á ia se a i ma ela mesma como um negócio, sujei a às leis do me cado e
à lógica da economia. A igu a do edi o , in e mediá io en e a esc i a e o li o,
unciona como a sepa ação en e a a e e a écnica – não é só a Es é ica que se
dis ingue da Poé ica, mas num ce o sen ido é a p óp ia dis inção, a ibulada já desde
a An iguidade, en e poiesis e echnè que se acla a e de ine. A “democ a ização da
li e a u a”, com a ascensão e hegemonia da classe bu guesa, jun amen e com a
di usão massi a da imp ensa, a a és de li os mas ambém de jo nais, in e ompem
com a lógica de imp essão assen e na encomenda e na o e a, pa a que a p óp ia
o e a de ina a sua p ocu a, e desloca o li o-objec o pa a o a do seu espaço de
lei u a e c iação, o sc ip o um, um espaço ecluso e exclusi o mas mesmo assim
pa ilhado, como osse um con en o ou uma biblio eca, o nando-o num p odu o de
oca, p i a izado e indi idualizado (idem, 19); ans o ma-se assim a ob a li e á ia
num p odu o a se , po um lado, adqui ido po uma ques ão de es a u o, e depois
consumido a pa i de um p incípio de sa is ação imedia a, um laze não cons i u i o
(ao con á io do que Cíce o de endia), uma simples o ma de lida com o édio. A
Li e a u a, a e algum desígnio, se ia o de sa is aze um cap icho de classe, po pa e
do seu lei o , e a con o mação (ou não) do au o em elação a essa unção:
enquan o (…) o p odu o em em is a sob e udo, e cada ez mais abe amen e,
a ingi a o al libe dade de exp essão (…), o público p ocu a na a e li e á ia cada
ez menos a ealização da libe dade, cada ez menos lhe in e essa a ealização de
uma descobe a pessoal de no as elações de conhecimen o, e cada ez mais se
ixa na exigência da sa is ação de emoções ou hábi os p i ados ou de classe.
(idem, 34)
Su ge en ão a noção mode na de “esc i o p o issional”, enquan o aquele que
az da sua esc i a a sua p incipal on e de sus en o, e que pa a isso em de sa is aze as
13
on ades e desejos daquilo que o seu público p e ende. Dumas, Dickens e Dos oié ksi
se ão dos mais amosos, e cá po Po ugal Camilo Cas elo B anco é exempla nesse
aspec o
1
. A Li e a u a adqui e assim uma condição con adi ó ia: É a pa i do
desen ol imen o do seu ca ác e es é ico, ou seja, pu amen e subjec i o e da o dem
do sensí el, em que se unda a dis ância en e aquele que esc e e e a oz que ala no
poema, é a pa i do momen o que a Li e a u a se u a p ecisamen e aos p incípios
da classe bu guesa e de qualque ixação do seu ex o ou do seu de i que, po um
lado, se o na p odu o de me cado, on e de endimen o e de negócio (onde luc am
ambém as edi o as, as li a ias, os jo nais), eduzindo as ob as de a e li e á ias a
mais um ins umen o sujei o às leis económicas do luc o e do p ejuízo, da boa e da má
enda, e po ou o lado, ao mesmo empo, e es e-se de uma g a i as que a o na
num assun o es i o, académico, onde o seu luga de nomeação canónico e de
discussão se iam as Academias ou as Uni e sidades
2
, ou melho , nos espaços
designados das ins i uições li e á ias, cuja unção se ia de des enda o sen ido
ine en e a qualque ex o li e á io, e selecciona aqueles que me ece iam maio
conside ação que os ou os, chegando já de idamen e seleccionados e “mas igados”
ao público ge al.
É cu ioso epa a que é a pa i des es dois pólos que se acen ua a dis ância
en e o au o e o es o da sociedade – o p imei o en a, incessan e, esponde apenas
à sua subjec i idade e às necessidades da ob a; o segundo es o ça-se po ixa os
es o ços daquele e inco po á-lo no espaço comum e endencialmen e homogéneo da
Cul u a. Pe an e es e assomb o cons an e, o medo que o mundo “con amine” a sua
on ade e o seu génio, a esc i a li e á ia de ém a p óp ia ida, o seu p incipal
objec i o, não a ní el p o issional, mas po uma necessidade, digamos, exis encial.
Sabemos do absolu o comp omisso que Ka ka man inha com a sua esc i a, pa a quem
1
Bas a á elemb a mos a di e ença de om en e as suas p imei as ob as, como Ma ia! Não me ma es que
sou ua mãe!, em 1848, e o seu úl imo li o, Vulcões de Lama. O p óp io p e ácio à 8º edição de Amo de
Pe dição é e elado do desajus e dessa ob a à on ade do público, quando o au o con essa já não sabe
se as lág imas das lei o as são de is eza ou de iso.
2
É de 1834 um impo an e ensaio de Alexand e He culano, “Qual é o es ado da nossa li e a u a? Qual é
o ilho que ela hoje em a segui ?”, na qual ele ei indica, na p osecução da e olução libe al em
Po ugal, al como já es a ia a acon ece nou os países eu opeus, como a Alemanha, a c iação de um
“cu so de li e a u a”, con emplando “a poesia e a eloquência”, no qual se p ocede ia ao exame da “pa e
eó ica da li e a u a”, o mulando assim, numa p imei a ins ância, “os p incípios necessá ios e uni e sais
de odas as poé icas”, pa a depois e i ica as suas e oluções e desen ol imen os ao longo das á ias
li e a u as nacionais.
14
udo o es o e a p e ex o ou condição a pa i das quais podia dedica -se a ela
3
. Pessoa
é ambém ci ado como alguém cuja esc i a se sob epunha à ida, ou pelo menos pa a
quem a ida e a um eículo mas ao mesmo empo um es o o à esc i a da sua ob a, o
seu objec i o maio e mais i ealizá el. Assim nos desc e e O élia Quei ós um e a o
de Pessoa em 1929:
Semp e ne oso, i ia obcecado com a sua ob a. Mui as ezes me dizia que inha
medo de não me aze eliz, de ido ao empo que inha de dedica a essa ob a.
(…) Ele não que ia abalha odos os dias, po que que ia dias só pa a si, pa a a
sua ida, que e a a sua ob a. (PESSOA, 2009: 35)
A sua ida, que e a a sua ob a. Aquela que se o nou ins i ucionalmen e a maio
igu a li e á ia po uguesa do úl imo século p ojec ou não só uma eno me somb a de
in luência em g ande pa e dos esc i o es indou os, como de iniu sob emanei a a
igu a do comp omisso do esc i o pa a com o sua ob a, aquele pa a quem nada mais
impo a e pa a quem udo o es o é acessó io. A u gência e uma ce a nob eza a é da
esc i a colocam-na assim algu es en e a ealização a ís ica e a necessidade isiológica;
como Jose ina, a Can o a, que ao can a “é como se oda a sua o ça se i esse
concen ado no can o, é como se udo o que nela não se isse imedia amen e o can o
(…) a i esse abandonado” (KAFKA, 2004: 307-308); mas es a elação en e o esc i o e
a sua ob a, longe de se algo comum ao longo dos séculos, ad ém da ques ão já
le an ada po Pla ão, do poe a e do aedo não se em mais do que eículos de
inspi ação poé ica, ins umen os de possessão a a és dos quais os deuses passa iam
as suas mensagens, a oz de uma on e p imo dial, a o igem de oda a Poesia, se
quise mos, numa pala a, Deus. O poe a é a en ada de acesso ao Inacessí el, à
linguagem dos deuses. A sua exis ência exigi ia a eclusão e isolamen o de um animal
a o ou de e emi a que, isolado do mundo e das pessoas, nos az com as suas pala as
uma qualque ap endizagem ou edenção.
3
Cu iosamen e uma delas, o seu emp ego, e a ao mesmo empo aquela que o impedia de se dedica po
in ei o à sua ocação li e á ia.
15
A en e is a, a apo ia
Tal a i ude pe an e a igu a do poe a é mui as ezes pa en e na o ma de
abo dá-los. A ce a al u a, numa en e is a de F ancisco Bela d a An ónio Ramos Rosa,
publicada na edição do Exp esso a 19/11/88, a p opósi o des e e ganho pouco empo
an es o P émio Pessoa, pe gun a-se: “Disse ecen emen e que es e p émio (com odas
as solici ações dos media dele esul an es) o pe u bou, abalou os seus hábi os.
Consegui á ol a à sua o ina que ambém nós iemos queb a ?” Sublinhamos a
úl ima pa e. Nós, a comunicação social, a sociedade, o público anónimo, comum dos
mo ais, pe u bámos a solidão em o ma de edoma do Poe a que, abalado pelos
assun os mundanos que em nada lhe dizem espei o, necessi a de um ecob o pa a
consegui ol a à sua pu eza ão ca ac e ís ica. O desígnio e o luga do poe a é
cons uído em sua unção, e da mesma o ma que pa ece se nosso de e p ese á-lo
e p o egê-lo – es anha con adição! – somos i emedia elmen e nós a pe u bá-lo,
ele que nos az a sua Pala a, aquela que nos eúne e nos edime. Já Ka ka p essen ia
es e pa adoxo:
Tenho às ezes a imp essão de que o po o em uma elação al com a Jose ina
que ela, aquele se ágil, ulne á el (…) con iada [ao po o] e o po o em po an o
de cuida dela (…) A Jose ina é da opinião con á ia, ela acha que é ela que
p o ege o po o. O seu can o sal a-nos (idem, 310)
Ao longo des e ensaio, depa a -nos-emos com es e ac o, o ca ác e
i emedia elmen e apó é ico da Li e a u a, a sua comple a undação em pa adoxos e
con adições. As mudanças ela i as à sua condição e ao seu luga na sociedade,
jun amen e com a sua (ou não) uncionalidade dis inguem-na como incomple a e
i esolú el, mas sem qualque p e ensão de esolução ou de solução. A u gência da
poesia em não só do ac o de cada poema se único e absolu amen e singula na sua
o ma de dize , mas de es a singula idade lhe não ac escen a nenhum peso ou
missão, mui o pelo con á io. Ao con á io desse mi o omân ico gene alizado,
esc e e não se á uma maldição, ão pouco uma ob igação a que se é incumbido.
Esc e e-se po que, an es de mais, se escolhe esc e e . O se da o dem de uma escolha

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pe mi e-lhe que assim nos su ja, como algo único, que é omado e assumido, sabendo
semp e que podia não e su gido, não e sido esc i o, po al a de empo, po al a de
in a ou po pu a p eguiça. Cada ex o que nos su ge é uma espos a a essa escolha, e
é a on ade que essa escolha pe du e. E essa escolha nunca es á longe do milag e, pois
se cada ez que se esc e e se in en a uma no a o ma de começa , uma espos a e
uma con inuação ao que não se disse de odas as ou as ezes – o que az o poe a
con inua , esquece o acasso an e io , en a de no o, alha melho ? Pode íamos
suge i que o espaço da esc i a é um campo de ba alha, em que não alamos de uma
pe sis ência no acasso, mas numa insis ência pe an e a de o a das pala as que são
aladas; a esc i a como uma i ó ia en e à de o a do momen âneo e do ins an e, à
p esença do nosso co po e da nossa oz, semp e ão alí eis (ZAMBRANO, 2000: 37).
Qualque ambição de i ó ia ou a uma p e ensa gló ia da esc i a se iam en ão a
conquis a da memó ia, a sua e-c iação enquan o expe iência sensí el pa a uma
expe iência linguís ica que supe asse o domínio da pessoalidade ou da sua
ci cuns ância. Ana Ha he ly esumiu es a ques ão de o ma ímpa :
o poe a é um gua dado
(…)
no ince o
gua da a ce eza da oz (HATHERLY, 2001: 264)
Assim sendo, pa a esc e e é necessá ia uma ce a disposição essencial ao
esquecimen o, mas esc e e é em si ugi ao esquecimen o, nega a ugacidade do
momen âneo, daquilo que é di o e que se cala, aquilo que ememo ação alguma pode
sal a . A esc i a eco e a uma “an i-memó ia”, como suge e de Man (MAN, 1990: 95),
uma consciência do acasso pa a que se possa e- acassá-lo, não como um obs áculo,
mas como cons an e de i . Sem um esquecimen o olun a ioso, só sob a ia uído, e
oda a esc i a e lei u a ende -se-iam inú eis. O des anece da pala a e do sen ido
que um poema expõe, a endência pa a aquilo que num poema es á semp e em
excesso, p ecisamen e po que es á em al a, que não é explíci o, essa busca do silêncio
é pa adoxalmen e o comp omisso pa a com a esc i a, com a necessidade de esc e e o
silêncio excessi o que as pala as ca egam, e que pode íamos aqui nomeá-lo algo
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como “ma é ia poé ica”, aquilo que cons i ui um poema – o excesso em al a. Es a
concepção não é no idade, e Manuel F ias Ma ins oi bas an e elucida i o quando
o mulou e desen ol eu a hipó ese de uma “ma é ia neg a” da Li e a u a. Ma ins
comp eende a in ulga idade da Li e a u a na exp essão e ep esen ação de qualque
expe iência, já que es a se p es a, an es de mais, a dize aquilo que nunca consegue:
A li e a u a, essa sim, exis e enquan o al pela na u eza in uída de um alo
sup emo da ep esen ação, o qual cons an emen e se o e ece não pela
o mulação linguís ica mas pelo uni e so de possibilidades pa adoxalmen e
ocul adas po essa o mulação. (MARTINS, 1995: 44)
A necessidade de nos desloca mos de pa adoxo em pa adoxo pa ece po an o
indispensá el. O a, é na possibilidade de escolhe ou não esc e e que a esc i a
adqui e a sua impo ância – po que, con a uma sé ie de ad e sidades, sejam elas
his ó icas, polí icas, socioeconómicas ou me amen e subjec i as, ela exis e, i ompeu
da sua la ência do men e – e ao mesmo empo adqui e a sua le eza. O comp omisso
do au o pa a com a sua ob a é an o maio quan o meno o o seu
desp endimen o.Po que o au o esc e e semp e seguindo um chamamen o,
cump indo uma ocação, impelido a en a esc e e o eco desse chamamen o.
Fala emos semp e de uma ocação, nunca de um a do ou de uma p o issão, uma
posição assala iada. Apesa de semp e e demons ado uma dedicação admi á el e
um comp omisso in ansigen e pa a com a Li e a u a (ou al ez po causa disso),
Mau ice Blancho apon ou algo c ucial pa a a nossa abo dagem nes e ensaio – que
esse chamamen o pe manece semp e dis an e, in o me, não-con a ual:
Não é um manda o, ele não pode assumi-lo, ninguém lho a ibuiu, o que que
dize que em de se o na ninguém pa a o acolhe (…) ninguém, sem idículo,
pode decidi consag a -se à sua ob a, e ainda menos sal agua da -se pa a ela. A
ob a exige mui o mais: que não se p eocupem com ela, que não a busquem como
a um im, que man enham com ela uma elação mais p o unda, de
desp eocupação e de negligência”. (BLANCHOT, 1984: 38)
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Assis Pacheco: um p imei o olha
O a, é p ecisamen e nes a elação com a esc i a que encon amos Fe nando
Assis Pacheco, diame almen e opos o à igu a do au o que i e pa a a sua ob a e que
i e da sua ob a. O seu comp omisso não se esumia na sua abo dagem ao seu o ício,
mas na sua p óp ia mo imen ação edi o ial, dando p e e ência a chancelas mais
pequenas, mui as ezes subjugadas pe an e o pode io económico daquelas maio es.
Es a a i ude, assumida, de publica pelo lado daqueles pa a quem publica um li o é
um e en o de ini i o e de e minan e, de aze dos seus li os “ olumes em papel
copiado , p esos com ag a e a uma ca olina b anca”, é uma a i ude que az pa e da
“lu a cul u al” da qual, segundo Joaquim Manuel Magalhães, Fe nando Assis Pacheco
nunca desisi iu (MAGALHÃES, 1981: 194). Mas é nesse seu des-comp omisso com a
sua poesia que encon amos – se alguma ez podemos aspi a encon a – um pon o
de pa ida pa a as ques ões que do a an e coloca emos. Não a Li e a u a enquan o
o ma de ida, uma ocação al que pede uma en ega absolu a e incondicional, mas
an es um passa empo, um abalho sob e as ho as agas, um o ício ocioso, como
al ez Cíce o suge i ia. É numa dialéc ica pe manen e en e a le eza e a le iandade da
sua poesia, co obo ada pela sua ex ema ap oximação à o alidade na esc i a, e o uso
equen e de uma linguagem comum ou a é do calão, com uma ep esen ação de
si uações mui as ezes banais e quo idianas, en e es a le eza e a cons an e u gência
em ala e em se ou ido que encon amos um dos no elos mais complexos da sua
ob a; seja nos seus li os e e en es à gue a, seja naqueles mais p óximos do im da
sua ida, encon amos equen emen e a consciência de que a u gência da sua poesia
ad ém de uma p esença cons an e e la en e da mo e, esse “ umo que de aga ói e
pe sis e”. Tal como pa a o Malone de Becke , esc e e não é an o uma o ma de
esis i ou ence a mo e, mas uma espos a a essa mesma mo e: a mo e inci a à
esc i a, ao mesmo empo que de ine os seus limi es (a expe iência da mo e-em-si),
limi es esses pa a os quais, como e emos, a poesia ende semp e. Es a elação en e a
ligei eza da sua esc i a e com a mo e que a ci anda é a ada em dois poemas de Assis
Pacheco. O p imei o dá o í ulo ao li o (de apenas oi o poemas) em que se inse e, A
19
P o issão Dominan e, e o segundo é já do seu li o pós umo Respi ação Assis ida, com
o nome “Explicação pa a um Amigo”.
No p imei o poema de emo-nos desde logo no seu í ulo. A “dominância” de
uma p o issão az-nos an es de mais supo que há uma ou a p o issão dominada, ou
melho dizendo, subo dinada à p imei a. Exis e um o ício que lhe ocupa e domina a
maio pa e do empo, e a ou a que se ai conc e izando nos en e an os da p imei a.
Enquan o o jo nalismo, que semanalmen e, num empo ce o e de e minado, na sua
“bolha pon ual”, o impele a esc e e algo de domínio p agmá ico, in o ma i o, o mais
dize seco e uní oco, “a p osa i ada do ecei uá io”, há uma ou a p o issão, mais
p o unda, sub e ânea nos seus uncionamen os, po que não depende das agas das
semanas nem pede ho á ios nem p azos pa a se conc e iza . O con as e aqui p esen e
é en e duas o mas de ida, duas o mas de esc i a, que se á o mesmo que dize que
o con as e p esen e en e as duas p o issões é uma ques ão do empo da esc i a e do
seu i mo: o abalho jo nalís ico e o abalho poé ico. Mas a ques ão não é assim ão
simples. Se ia de espe a , segundo es e esquema de con as e ap esen ado, que se a
esc i a jo nalís ica osse conside ada aquela banal e quo idiana, sujei a às
con ingências económicas e empo ais do me cado e dos jo nais, que a ou a esc i a, a
esc i a li e á ia, osse o seu con á io, aquela que não p es a ia con as a nenhum
desses cons angimen os e osse po isso o a do comum, a essa à o ina e à
banalidade, ex a-o diná ia. Mas não é isso que encon amos no poema, já que
quando se ala sob e esse ou o o ício,
eceio que me chamem ex ao diná io
quando es a é uma p á ica i ial
oçando mesmo o pa asi á io (PACHECO: 2006, 157)
Fugindo ao binómio que se ia expec á el, em que a esc i a li e á ia se ia o al
ex a, aquela que se mo imen a no exceden e dos dias, no empo li e e ugido à
o ina, encon amos uma “p á ica i ial”, que o poema não se coíbe a é de a á-la
po “pa asi á io”. A li e a u a enquan o pa asi a se ia aquela que depende de ou em,
de um ou o sus en o, de uma p o issão dominan e que lhe pe mi a subsis i ; nes e
sen ido, é pa asi á io po que pa a se pode conc e iza , sem e de esponde a nada
26
mas com uma complexidade mais desen ol a, na qual a sua condição singula de se
sujei o – e de sê-lo como mais ninguém o é – assume um ca ác e undamen al.
Somos le ados en ão a in e i ou a coisa: um sujei o, ao ala , não ala
indisc iminadamen e. Já sabemos que em qualque ex o, e já ago a em qualque
discu so, es á con ida a sua p óp ia censu a, mas pensa mos que um sujei o ala não é
a mesma coisa que pensa mos que um sujei o ala po que em alguma coisa pa a
dize . Um es emunho p essupõe an o uma u gência em se ei o, como essa u gência
p essupõe que o es emunho nos chega de um sujei o especí ico, e cuja dimensão de
sujei o a o na en ol ida naquilo que es emunha. Assim, a mensagem que é
ansmi ida só o é em unção do sujei o que a ansmi e; não p ecisa da p esença do
seu au o , na medida em que não p ecisamos da p esença de A is ó eles ao nosso lado
pa a le a Poé ica, mas a sua o ma e o seu con éudo es ão dependen es da elação de
expe iência en e o sujei o e o con ex o a que se e e em. Ao con á io da exposição
mais comum dos ac o es cons i u i os do p ocesso linguís ico, no es emunho o
con ex o não é apenas algo a que se e e e a mensagem, ou que enquad a as suas
ci cuns âncias, mas es á dependen e da p óp ia ap eensão e elação do sujei o (e não
eme en e) desse mesmo con ex o.
Es e comp omisso en e sujei o, con ex o e a sua mensagem não pode assim
esul a numa simples in o mação a um des ina á io, ansmi ida a pa i de uma
unção p agmá ica (comunica i a ou pa a oca de in o mações). Quando alamos em
es emunho, não nos e e imos me amen e à exposição de uma mensagem en e um
pon o e ou o, mas uma elação ín ima en e a mensagem pa ilhada e a expe iência
do seu sujei o. Assim, o es emunho é, acima de udo, uma ques ão de pa ilha com o
Ou o, em que aquilo que é pa ilhado não é só um de e minado assun o, e e en e a
um con ex o, mas esse assun o en ol e di ec amen e a expe iência daquele que a
pa ilha com quem é pa ilhado.

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E imológico
Na e dade, não é possí el sepa a um es emunho da elação de pa ilha que
unda en e odos os seus en ol idos. Na o igem da pala a, encon amos qua o
pis as que, al como os E angelhos, se complemen am ao in és de se anula em.
Robe o Vecchi escla ece-nos es as qua o aízes. Em p imei o luga , emos a
denominação la ina, es is, que “indica aquele que se põe como e cei o ou ocupa a
posição de e cei o (…) num con encioso en e duas pa es” (VECCHI, 2010: 91); emos
depois o supe s es enquan o aquele que “que passou po uma expe iência, ou seja,
a a essou um e en o po in ei o e pode po isso es emunhá-lo” (ibidem); exis e
ainda, já den o do la im a dio, a in e p e ação e imológica a pa i da pala a auc o ,
que “exp essa o que in e ém no ac o de um meno (ou de quem, po qualque azão,
não pode emi i sozinho um ac o ju icamen e álido)” (idem, 94); po im,
encon amos na sua genealogia g ega o e mo ma is, “ou seja, má i , de que oi
de i ado o e mo ma i ium que indica a a mo e dos c is ãos pe seguidos e que
es emunha am assim a sua é” (idem, 91). Qualque es emunho a pa i des as
de inições su ge, an es de mais, como uma o ma de mediação en e duas pa es. Seja
enquan o o e cei o elemen o (numa elação em que pa ece implíci o es a a mais,
su gindo como um suplemen o a essa elação), seja enquan o aquele que adqui e
au o idade pa a ala sob e um de e minado acon ecimen o, po ê-lo expe ienciado,
seja enquan o o que adqui e au o idade pa a ala em nome de ou em na
impossibilidade de ou em pode ala , um es emunho assume-se semp e como a
exposição de alguma coisa mais ou menos ín ima ou p i ada a um Ou o, endo como
ga an ia de alidade daquilo que é es emunhado a p óp ia expe iência da
es emunha.
Ju ídico
O e mo “ es emunha” é aliás mais comummen e u ilizado num con ex o
ju ídico, de onde de i ou a sua impo ância e o seu modo ope a i o mais co en e. Se
já olhámos b e emen e pa a o es emunho a pa i de uma pe spec i a linguís ica, não
se á exage ado a i ma que de emos ao Di ei o dois p incípios que pa ecem se
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undamen ais pa a a au o idade es emunhal. Em p imei o luga , a impo ância de
uma coe ência discu si a e na a ológica, ap oximando a e acidade de um
es emunho com um p incípio de e osimilhança iccional. Tal como num ex o de
icção, o es emunho só se conc e iza a pa i da sua cons ução e bal:
Os es emunhos cons i uem-se como o mas c iado as de discu sos que não
exis iam an es do p óp io es emunho. Daí a sua o al singula idade e a
impossibilidade da aplicação o al do cálculo. Eles implicam um ce o ipo de
iccionalização ligada às o mas e es a égias pa a o dize . Cla o que isso não
e adica a impo ância do ac ual, apenas apon a pa a a impo ância da
cons ução na a ológica pa a a ap esen ação da p óp ia aculdade. (BUESCU,
2010: 177)
Em segundo luga , uma au o idade que de i a não necessa iamen e da
expe iência da pessoa, mas uma expe iência que é au o izada pela pessoa em si – há
es emunhas mais c edí eis do que ou as, seja po azões de classe, seja po ques ões
elacionadas com a idade (um adul o em elação a uma c iança) ou ela i as à sua
condição ísica e men al (o es emunho de uma pessoa sem quaisque p oblemas de
isão con a aquele de uma pessoa cega), seja pela especialização p o issional da
es emunha:
Os p ocessos de ap esen ação discu si a de es emunhos implicam de imedia o o
econhecimen o da impo ância da au o idade legi imado a, dada sob igu as ão
di e sas como os médicos, especialis as, ad ogados, juízes, e c., pa a a a ibuição
de alidade e pa a a selecção de na a i as em oposição a ou as. Há, po assim
dize , es emunhos mais álidos do que ou os e essa alidade é, não a as ezes,
a ibuída median e c i é ios que não olham à e acidade dos discu sos e sim às
o mas de cons ução e exposição dos mesmos. (ibidem)
29
Religioso
Es a in imidade exis en e en e o es emunho e aquele que es emunha é mais
acilmen e comp eensí el a pa i da sua elação com o ma í io. O má i , enquan o
aquele que a pa i das suas pala as e acções pa ilha a sua é e de oção, e po causa
delas é mo o – e aqui a sua mo e insc e e-se no mesmo ges o da sua pa ilha –,
pa icipa e in e media a elação en e a paixão dos homens e a paixão de Deus. Como
diz Tiago Pi es Ma ques, “se «louco po amo de C is o» é, em ce a medida, «se
louco com C is o»” (MARQUES, 2013: 177). A p esença do má i con unde-se com a
sua pala a, de al o ma que, de uma manei a ge al, aquilo que nos chega ele ado da
ida dos má i es não são as suas pala as, mas sim a o ma como mo e am – po
exemplo, S. Es e ão oi aped ejado, S. Ped o oi c uci icado de cabeça pa a baixo e S.
Lou enço oi queimado i o. O que assim se o na in e essan e no caso dos má i es é
que aquilo que pode i a se conside ado como o seu es emunho, como aquilo que é
pa ilhado ou pa ilhá el não são an o os seus ex os ou discu sos, mas o seu co po e
a p esença que es e deixa, numa hagiog a ia que apenas se conc e iza com uma
con ínua ememo ação da p esença da sua mo e, alimen ada pelos séculos de
abalho e a inco iconog á ico. A pala a con unde-se na o alidade da igu a que a
p o e e, exis indo de igual o ma na sua disposição e bal como na sua ine i á el
anscendência, num excesso de expe iência e signi icação:
a pala a é p esen i icação de uma expe iência o iginal, umo desse in e minado
galope, e, ao mesmo empo, es emunha uma expe iência que es á pa a além
dela. O ac o da comunicação bíblica é cons i uído po es a duplicidade inconsú il:
a es a égia do pensamen o iden i ica-se com e, po ém, apenas pa cialmen e é
iden i icá el na es a égia e bal e de discu so. (MENDONÇA, 2008: 13)
Num con ex o eligioso, a elação en e o co po e a sua anscendência é um
ema eco en e e ine i á el, mesmo ao ní el mais elemen a como é o da o ação,
onde, segundo Tolen ino Mendonça, a dimensão co po al pa icipa pa a uma ce a
alidade do p óp io discu so. Sob e a desc ição bíblica da o ação de um publicano, diz:
30
Quando, na o ação, ele [publicano] se iden i ica como «o pecado », isso não se á
um me o a i ício e ó ico, jogo de discu so, mas co esponde á a uma e dade
exis encial que a densidade simbólica do seu p óp io co po ib an emen e
co obo a. (idem, 240)
Olhando pa a es a sé ie de pe spec i as que nos pe mi em aze algum
escla ecimen o concep ual em elação ao ac o do es emunho, não nos a iscámos
ainda a inco po a -lhe qualque ca ác e li e á io na sua de inição. Se, po um lado, já
nos se imos da de inição de Ba is a de es emunho, a pa i de p essupos os
linguís icos, da de inição e espaço do es emunho no domínio do Di ei o e a sua
impo ância no aspec o eligioso, po ou o lado i emos o cuidado de não a lo a a
sua po encial dimensão poé ica, mais p esen e no campo linguís ico e eligioso do que
no ju ídico, p op iamen e. Na e dade, como em odas as ou as ci cuns âncias em
que o é ei o, abo da a supos a li e a iedade de uma ob a esc i a eque e uma
a enção pa icula , uma ce a au onomia que ao mesmo empo não deixa de es a
dependen e de ou as con ingências – semelhan e, assim, àquela au onomia em que
pensamos ao ala de espaço li e á io.
Li e á io
No undo, a di e ença começa com a dis inção, eco en e mas necessá ia,
en e Ficção e His ó ia, ou aquilo que podemos conside a como um discu so
con ingen e ou his o iog á ico e um discu so li e á io. Enquan o no p imei o azemos a
nossa lei u a a pa i de uma ce a alidade e e encial que é au o izada pela p óp ia
na u eza do discu so, os ac os e ci cuns âncias conc e as a que esse ex o se e e e,
no segundo já emos essa ansi i idade anulada e impossibili ada (BATISTA, 2002: 4).
A di e ença con inua ia undada naquela dis inção já ap esen ada po Pla ão e depois
po A is ó eles, nomeadamen e a na u eza mimé ica da icção:
31
o discu so li e á io ca ac e iza -se-ia po um aspec o que o de ini ia sem
equí ocos e que esidi ia no ac o das o ações que o cons i uem não possuí em
uma o ça ilocu i a no mal, mas uma o ça ilocu i a mimé ica. Ou seja: na
li e a u a, não se ealizam, po exemplo, os ac os de a i ma , pe gun a , o dena ,
e c., imi a-se esses ac os. (idem, 5)
Se num es emunho nos epo amos a algo que acon eceu num de e minado
empo e espaço, e nos é econhecida legi imidade pa a ala desse acon ecimen o, seja
em nome de expe iência p óp ia, seja em nome de ou em, um ex o li e á io inope a
essa possibilidade, o nando o ex o já não num meio que epo a a um de e minado
e e en e, mas um im em si, o a de uma necessidade e e encial ac escen ada. Ao
pa i mos pa a uma ap oximação en e um es emunho e um ex o li e á io, emos
an es de mais de pe cebe a dis ância que po o a en e eles es á ins au ada. Se, como
já imos, emos po es emunho uma elação a ês pa es, em que um Eu pa ilha
uma de e minada expe iência com um Ou o, ao ala mos do “li e á io” em qualque
ex o, e e imo-nos:
1. a não- esolução do con li o en e o p agmá ico e o não p agmá ico ( aduzida
consequen emen e na suspensão do sen ido); 2. o desencadea de um
mo imen o do pensamen o sem assun o ou ema p é-de e minado. (LOPES,
2003: 15)
Que is o dize que se quise mos olha pa a um es emunho a pa i de uma
pe spec i a li e á ia, não podemos pa i de um p incípio de e icácia ou de
uncionalidade. Con e i a um es emunho o es a u o de “li e á io” implica que ele não
pa a com uma unção especí ica, um objec i o a se cump ido, en im, que a sua
inalidade não se esgo e na ansmissão de uma mensagem, de uma expe iência ou de
qualque ipo de conhecimen o. É po is o impo an e comp eende mos que um
es emunho não pa icipa do que pode se conside ada como uma “dialéc ica da
comunicação”:

32
O es emunho enquan o expe iência li e á ia não é dialéc ico, escapa aos
mecanismos da discussão que p ocedem po con on o e oposição, e como al
escapa a qualque comp o ação, ce eza ou ga an ia. Po isso ele oco e no jogo
da comunicação mas não az pa e dele, in oduzindo nesse jogo um ipo de
in e upção que não co esponde à in e upção ca ac e izada pelo diálogo, a qual
esul a de um pode que conduz à sín ese, mas sim a uma in e upção que é
pe sis ência do he e ogéneo. (idem, 44)
Somos po is o ins ados a dis ingui o es emunho de uma ou a o ma
qualque de comunicação que se apa en e ap oxima -se da sua na u eza, seja o me o
diálogo ou a epo agem. Podemos aze essa dis inção a pa i do p isma da sua
elação com a pala a que a impele, mas ambém com a expe iência que a sus en a.
No p imei o, é impo an e pe cebe que ipo de comunicação, se é que alguma, oco e
aquando da expe iência li e á ia, a pa i da pala a esc i a. Ao e e i a in e upção
enquan o uma “pe sis ência do he e ogéneo”, ou seja, aquilo que man ém a di e ença
e que po isso esis e à sín ese e à unicidade de pensamen o, Sil ina Rod igues Lopes
pa ece i ao encon o de Blancho , quando es e ala da impo ância da in e upção
enquan o mo o e agen e signi icado da pala a, simul aneamen e o que impossibili a
o diálogo mas que pe mi e à pala a que se a i me e que se de ina, dema cando-se
a a és do silêncio que a p ecede e sucede. A mesma in e upção que nos coloca
pe an e um silêncio e uma solidão in ansponí eis é a mesma que nos pe mi e
pa ilha essa mesma solidão; pa ilhando a solidão des a in e upção, es e cons an e
cessa e ecomeço da ala, Eu e o Ou o nunca deixamos a nossa p óp ia solidão. No
melho dos casos, es a emos jun os, mas ambos sozinhos – ou, como esc e e Rilke,
quando ala do “amo mais humano”, que é “o amo que consis e em duas solidões se
p o ege em uma à ou a” (RILKE, 2016: 87) –, num espaço nunca e dadei amen e
luido, semp e esis en e e oblíquo. Es a esis ência é p ecisamen e essa ecusa da
homogeneidade que a pala a e a sua expe iência li e á ia azem ao es emunho; nas
pala as de Blancho , “a exigência não dialéc ica da pala a: a pausa que pe mi e a
oca; a espe a que mede a dis ância in ini a” (BLANCHOT, 2010: 136). É es a alha que
impede o es emunho de se diálogo, de se comunicação, ao mesmo empo, como
e emos, que é essa mesma alha que sus en a odo o es emunho.
33
Além da sua elação com a pala a, o es emunho conspi a in imamen e com a
expe iência que, no limi e, é o objec o da sua pa ilha. Se des ia mos um pouco a
nossa a enção do es emunho pa a o domínio do poema, pode emos pe cebe melho
es a elação.
A esc i a poé ica man ém uma elação ín ima com a expe iência. Numa
de inição demasiado simplis a do p oblema, um poema se ia a ma e ialização, a a és
de e sos, de uma de e minada expe iência, de pensamen o ou imagina i a,
pe encen e e pa ilhada po um ce o sujei o. Si amo-nos des a de inição pa a que a
possamos des ui – com ela p ossegui emos o nosso pensamen o. Esse ce o sujei o,
não o au o que o esc e e, mas, se quise mos, a oz que ala no poema, que ala
a a és do poema, é ambém em si o poema, já que não exis e an es dele, e não
pa ece con inua a exis i o a do poema, depois do seu im. Assim, es e sujei o,
su gindo a a és da linguagem, é ele em si linguagem, numa p esença que é, ao
mesmo empo, a sua ausência, po se indis inguí el na linguagem da qual se se e
pa a su gi . Não se á aliás seque co ec o a i ma que es e sujei o usa a linguagem, já
que ele é, em si, a linguagem que u iliza. É po ele se encon a em pa e ince a,
dispe so na sua esc i a, que “a ma ca do esc i o não é mais do que a singula idade da
sua ausência” (FOUCAULT: 36). O a, se esse sujei o que ala no poema é um esul ado
da sua p óp ia linguagem, sem qualque e e en e an e io , en ão a sua expe iência
se á ambém, necessa iamen e, uma expe iência de linguagem, e que não pode exis i
o a dela. A expe iência do poema não eme e a nada mais do que ao p óp io poema,
e é na sua linguagem que se conc e iza, ao mesmo empo echando-se e ab indo-se
con inuamen e, num desdob a in ini o:
Toda a poesia é indeci á el, an o quan o o é a expe iência do se único,
insubs i uí el, em elação. Ao dize -se, essa expe iência sela-se como um seg edo,
p ese a-se como p esença do não- e elado, do não-di o. (LOPES, 2003: 24)
O que a linguagem do poema ilumina, ao mesmo empo que encob e – numa
espécie de luz somb ia – é o excesso que em si eside, aquilo que é “não-di o” ou “não-
e elado” e que só assim po es a em al a se consegue mani es a . Qualque
34
expe iência de poema nunca é e dadei amen e ap eensí el, já que é nos in e s ícios
da linguagem que ela se pe de e ao mesmo empo nos ala. É nesses in e s ícios que
ela habi a e se mo imen a, não sendo po isso si uá el na His ó ia. O poema não se
unda na expe iência que exp essa, an es unda essa expe iência no ins an e da sua
exp essão:
a ma é ia com que o poe a se con on a não co esponde a uma expe iência
an e io que a poesia se limi a ia a aduzi ou ans igu a com as pala as que
são p essupos as po uma língua exis en e à pa ida (...) a expe iência que di a a
empo alidade do poema é, en ão, no mais al o g au, uma expe iência de
linguagem (…) E po que essa língua não es á disponí el desde logo, não exis e
senão a a és da expe iência que le a o poe a ao encon o dela, ela é única.
(GUERREIRO, 2000: 32)
É na pa ilha des e excesso incalculá el, nes a expe iência semp e a de i a
cada ins an e, que a poesia se escapa à ap eensão, a qualque o ma de descodi icação
ou de ixação in e p e a i a. O poema não é da o dem da ep esen ação, ampouco do
domínio da comunicação; o poema não nos diz nada, da mesma manei a que ejei a
se seque poema – ou pelo menos, se do domínio do que endemos a chama de
“Li e a u a” ou “Poesia”. É da sua condição a ecusa e a uga àquilo que o an ecede, à
insc ição num espaço ou numa ou a o ma de ag egação, de unicidade. Se indo-se
no amen e de Blancho , Sil ina Rod igues Lopes ala da li e a u a como uma “ egião
neu a”,
um espaço em que a iden idade de quem esc e e desapa ece sob o es emunho
de uma expe iência in es emunhá el. (…) Enquan o expe iência, que nada em de
pessoal, nem de impessoal, a li e a u a igno a os limi es es i os da unicidade do
sujei o e dá à expe iência a na u eza de uma mul iplicidade incon olá el, em
de i . (LOPES, 2003: 26-27)
O es emunho de uma expe iência in es emunhá el. O es emunho con oca-
nos à conju ação daquilo que, no seu excesso, no seu pa a lá de, não pode se di o,
35
não pode se expe ienciado, mas pe manece la en e, is o é, em cons an e imanência,
i adiando do undo das pala as, mas de pala as que não são seque di as, as
pala as pa a as quais aquelas di as, esc i as, isí eis, nos eme em. A expe iência
in es emunhá el mo a naquele limia do es emunho que nunca é di o, que é
expe iência pu a, apenas expe imen ada, e po isso inexpe ienciá el, enquan o
undamen o de odo o mo imen o es emunhal. A ançamos assim com a seguin e
hipó ese - odo o es emunho pa ilha uma expe iência in es emunhá el, na medida
em que odo o es emunho se concebe como a pa ilha do inexpe ienciá el.
O es emunho necessi a an o da expe iência como es a necessi a da sua
pa ilha. Há uma espécie de pa adoxo na solidão do es emunho. A expe iência da
es emunha é inacessí el, inconcebí el na sua o ma, no seu imenso silêncio que é
calado pelas pala as que se escolhem e aquelas que se ocul am. Ninguém o
comp eende, ninguém lhe pode acede já – nem a p óp ia es emunha, in e di a pelo
empo e pela memó ia. E no en an o essa solidão necessi a semp e de um Ou o pa a
se conc e iza , há semp e um ou em que em de su gi no ho izon e pa a que essa
solidão se mani es e. A expe iência, a bem dize , só se o na in es emunhá el a pa i
do momen o em que um sujei o se p opõe a pa ilhá-la. Tal ez enha sido isso que
Bu oughs suge ia, na úl ima en ada do seu diá io, a 30 de julho de 1997, ao esc e e :
“Wha is an expe ience i i is no sha ed? Did i e e happen? I akes ano he pe son
o o m an (…) expe ience” (BURROUGHS, 2001: 251-252).
De o ma a consegui mos segui nes a senda, en a le a es a hipó ese a
algum lado, olha emos ago a mais de alhadamen e pa a dois ex os que nos podem
escla ece – ou, no melho dos casos, complica – es a ques ão. O p imei o é Mo ada,
li o de Jacques De ida, sob e o ex o de Blancho , O Ins an e da Minha Mo e; o
segundo ex o é “Témoigne en póesie”, um ensaio de Ma ion Ca el e Dinah Riba d
sob e a ob a poé ica do soldado e poe a ancês Ma c de La éguy.
42
exac a de um soldado” du an e uma gue a. A admi ação que La éguy demons a e
pa a com um poe a como Lama ine é ao mesmo empo, como Ca el e Riba d o
demons am, uma e aliação con a essa mesma esc i a, sendo que o que os sepa a
undamen almen e é a p óp ia elação do sujei o poé ico como sujei o au o e a sua
pa icipação naquilo a que chama emos o so imen o ou a e dade do poema.
É p ecisamen e a pa i des a ap oximação en e es emunho e e dade que o
ensaio de Ca el e Riba d começa, um binómio que, aliás, se en ec uza com aquele do
indí iduo/colec i o enquan o duas en idades discu si as an o an agónicas como
complemen a es. Num p imei o ní el, o es abelecimen o daquilo que se ia
epis emologicamen e conside ado como “ e dade” pa e de um aco do
con encionado en e uma de e minada comunidade. A Ve dade, po exemplo
exp essa a a és de ac os, em de se algo comum e pa ilhá el en e os memb os
dessa comunidade. O an agonismo aqui su ge-nos quando o es emunho se ap esen a
como uma oposição a essa mesma de inição de e dade, a qualque que seja a
epis eme assen e. A igu a da es emunha pa ece assim se i edu i elmen e con á ia
a qualque colec i o:
La éduc ion de l'au eu e de la sou ce à une seule pe sonne peu semble e à
semblé cons i u i e du émoignage. (CAREL e RIBARD, 2016: 41)
Nes a edução es emunhal ao indí iduo, cada um ala ia única e
exclusi amen e a pa i da sua expe iência, ín ima e i epe í el. Mas é aqui que en a o
in e esse do concei o de es emunho des e ex o. Pa a Ca el e Riba d, o ac o de
es emunha implica ês elemen os undamen ais, que ajudam depois a escla ece o
caso de La éguy. São esses elemen os:
[1] Il s'agi de di e une si ua ion elle qu'elle é ai ; [2] il s'agi de di e une si ua ion
impo an e, impo an e pou un nous, e non seulemen po celui qui émoigne,
si ua ion qu'on cons i ue de la so e en é énemen pa agé, his o ique; [3] e il
s'agi en im de p end e place dans un déba , en appo an une in o ma ion
demandée ou en comba an le mesonge. (idem, 47)

43
Encon amos aqui um quad o concep ual ela i o ao es emunho bas an e
di e en e das pis as que seguimos a é ago a, cujas condições so e ão bas an e po se
epo a em de uma o ma quiçá demasiado especí ica à poesia de La éguy. Seja como
o , o es emunho compo a aqui um comp omisso é ico que lhe é insepa á el, não só
de con a as coisas al como elas são, como esse es emunho e uma impo ância
colec i a, embo a pa a de uma singula idade, e que es as duas ca ac e ís icas
eponham jus iça em qualque coisa que es eja a se ameaçada pela men i a ou pelo
engano. Mas um es emunho não se pode eduzi a um simples conjun o de ac os que
são sob epos os a ou o conjun o de ac os supos amen e não idedignos; num
comba e pela maio p ecisão e ac ualidade, ha e á semp e um ou o ela o a
decla a -se como mais pu o e p óximo do acon ecimen o em si. A ques ão não se
p ende com ac os, e po isso um es emunho não implica simplesmen e ( e)con a um
de e minado episódio. A di e ença essencial p ende-se aqui com a omada da pala a,
com a elação é ica es abelecida com aquilo que é esc i o. Na ausência de ac os
ex e io es pa a i busca a sua legi imidade, o es emunho unda a sua p óp ia
legi imidade, undando o seu p óp io luga – ou, adap ando de De ida, a sua p óp ia
mo ada:
Les éc i s e discou s de émoignage son donc, pou nous, ceux qui disen l’ê e
en p oduisan ce lien, non ceux é i ie aien elle ou elle condi ion éx e ieu e de
alidi é. (idem, 54)
O p ocesso de undação des e luga passa pelo econhecimen o de uma
p esença que se insc e e, dizendo p esen e, ao mesmo empo que dilui a sua
exempla idade. Nes e caso não alamos an o de uma p esença como de uma
“essência”, que é ap esen ada como al e na i a a uma elação es emunhal com ac os
ex e io es. Es a essência consis i ia num “so imen o” que é ao mesmo empo a causa
das suas pala as e a sua ma ca, o seu aço (“ ace”). Pa a especi ica es a essência do
so imen o, são u ilizados dois exemplos. Em p imei o luga , a compa ação en e os
poemas e os ela os que e am ei os pelos soldados du an e a gue a, poemas a maio
pa e das ezes esc i os em plena inchei a, e os poemas sob e essa mesma gue a
esc i os pelos “gens de le es” que apenas sabiam daquilo que se passa a
44
indi ec amen e; o cons as e en e o desespe o e o so imen o nos ex os dos
p imei os é po demais e iden e com o he oísmo e os p ecei os pa ió icos que os
segundos quase semp e des ilam
7
. Em segundo luga , é ele ada aquela admi ação de
La éguy po Lama ine, que ecusa no en an o o seu dis anciamen o lí ico des e
úl imo, pa a assim se ap oxima de o ma sensí el e não in elec ual ao so imen o que
exp ime nos seus poemas. Assim, Lama ine
communique une a gumen a ion du ype PERCEVOIR X DC [donc] DIRE X: la oule
sou e e le poè e, en simple ly e, ansme ce q’uil pe çoi . Lo sque l’au eu
*La éguy+ (…) communiqué je dis ces mo s pa ce que nous sou ons de la ani é
de nos ac i i és gue iè es, il communique um a gumen a ion du ype
SOUFFRANCE DC DIRE SOUFFRANCE, e alo s émoigne. (idem, 51)
A di e ença en e os dois é en ão que Lama ine imagina o so imen o dos
ou os e can a esse so imen o iccionado, enquan o La éguy so e esse so imen o
alheio e can a-o em nome de uma comunidade que em como mo i o de união esse
mesmo so imen o pa ilhado. Des a o ma, ao ala , o poe a ala em nome daqueles
mo os que não o podem aze , po que o so imen o do es emunho in oca
igualmen e o so imen o desses mo os. Assim sendo, um es emunho não pode, ao
con á io do poema, acusa qualque ingimen o; longe de que e se ac ual, um
es emunho em de se semp e e dadei o e nunca cede à men i a, já que es a, na
elação de con iança e de pa ilha de seg edo que o es emunho p essupõe, se ia
p ecisamen e o ompimen o dessa mesma con iança e desse ínculo de en ega en e
a es emunha e aquele que ecebe o es emunho
8
.
Es a elação en e o poe a e a al comunidade da qual az pa e, além desse
so imen o que é pa ilhado, êm igualmen e em comum o luga desse so imen o – as
inchei as, o campo de ba alha. A pa i disso, La éguy es abelece uma elação de
p oximidade en e aquilo que esc e e e aquilo que sen e, complemen a àquela
7
Olhando po exemplo pa a o caso inglês, é mui o cu ioso compa a os poemas esc i os po
soldados como Sieg ied Sassoon ou Rupe B ooke, e os poemas magnânimes, quase
deli an es, de um Rudya d Kipling ou mesmo de Thomas Ha dy.
8
Lemb amo-nos do p e ácio que W. H. Auden esc e e pa a a sua colec ânea de poemas, em
que con essa e excluído dessa edição alguns dos poemas que ha ia publicado ao longo da
ida, já que o sen imen o neles exp esso não e a nenhum que o au o i esse de ac o alguma
ez sen ido – a exp essão po ele u ilizada é a de um “dishones poem” (AUDEN, 1977: 15).
45
esc i a espon ânea que enuncia no p e ácio do seu li o, como o ma de apaga as
dis âncias en e a sua esc i a e aquilo sob e o qual esc e e, numa en a i a de esumi
o so imen o eiculado pela esc i a ao ins an e desse mesmo so imen o. Pa a isso,
La éguy enca ega-se de assina cada poema, não só com a da a mas ambém com o
local da esc i a, pa a que o empo do poema seja semp e o do dize em ez do di o:
C’es pa ce que nous (lec eu s) oyons cons ammen , nous l’a ons di , les mo s
“Fé ie 1916 (Au on )”, que nous ne pou ons pas comp end e au emen que
comme di s pa l’au eu , apposés pa lui pou scelle le lien en e la sou ance de
la sou ce e sa p op e pa ole, que nous sa ons qu’il s’agi là d’un émoignage. La
cop ésence isible de l’au eu e de la sou ce dé e mine ce sa oi de maniè e
su isammen e icace pou que no e comp éhension n’ai pas besoin de condi ions
ex é ieu es au di e lui-même – alo s même que ce di e, en l’occu ence éc i , es à
jamais dé aché du suje pa lan qui a é é à son o igine – pou econnaî e qe ce di e
es un émoignage.” (idem, 47)
Se no ex o de De ida pe cebemos que es emunhamos semp e a um Ou o, a
pa i des e ex o pe cebemos que es emunhamos semp e po um Ou o. A nossa
exempla idade, o pode mos acilmen e se subs i uí eis (só eu é que posso
es emunha aquilo que i, mas se alguém es i esse no meu luga es emunha ia
exac amen e a mesma coisa, es e é o p incípio da singula idade não exempla de
De ida) ad ém da con i ência na nossa solidão com um Ou o, a comunidade de
so imen o pa ilhado. Pa a comp eende melho es a elação en e aquele que
es emunha e esse Ou o a que ele semp e se associa, olha emos de no o pa a o
ensaio de Robe o Vecchi sob e o ópico.
A lacuna do es emunho: o mu ilado e o muçulmano
Robe o Vecchi, no ensaio “O Au o e o Silêncio Ca as ó ico”, deb uça-se sob e
a alidade do es emunho, a pa i da Segunda Gue a Mundial, adap ando-o ao
con ex o da Gue a Colonial. Nes e ex o, Vecchi coloca ques ões impo an es,
nomeadamen e ela i os à au o ia de qualque es emunho.
46
Vecchi ai busca à Segunda Gue a Mundial, mais especi icamen e ao
Holocaus o, o concei o de shoa enquan o o de um “e en o sem es emunhas”
(VECCHI, 2010: 92), pa a se e e i à pa adoxalidade que um e en o des es compo a:
nem as pessoas que mo e am podem es emunha a sua mo e nem aquelas que não
mo e am podem es emunha a mo e que não i e am, ampouco a mo e dos
ou os. Vecchi a gumen a que um e en o sem es emunhas é aquele cuja o alidade se
con i ma pela mo e, e que a pa icipação de alguém nesse e en o mas que se
man enha o a dessa o alidade passa apenas po uma expe iência pa cial e nunca
o almen e ín eg a. À al a do seu es emunho não se o al – já que se es emunha
de um e en o sem es emunhas implica uma assimilação apenas pa cial desse mesmo
e en o – é desen ol ido o que pa ece se o pon o ne álgico do es emunho, a alha
essencial (que é ao mesmo empo uma alha de essência), que condiciona qualque
es emunho, mas que ao mesmo empo o possibili a. Diz Vecchi: “ odos os
es emunhos se undam sob e uma alha (…) É a lacuna da expe iência que impede
que a es emunha possa es emunha udo o que e ec i amen e se deu” (idem, 93).
Tes emunha é desde logo assumi que se ala sob e uma alha, que se ala essa
mesma alha, ao mesmo empo o igem e im de um es emunho. Na impossibilidade
de pode pa ilha qualque coisa que não seja silenciado pela ( al a de) expe iência,
são dis inguidos dois ipos de es emunhas: a es emunha in eg al, aquela que le ou a
expe iência a é ao im, a é à sua o alidade in es emunhá el – e que Vecchi,
adap ando de P imo Le i, apelida de “muçulmano
9
” –, e a es emunha “mu ilada”, cuja
incomple ude da expe iência lhe pe mi e ainda ala , dize a sua insu iciência. É
p óp io da ala se insu icien e, e só quem é insu icien e consegue ala . Quem az a
dis inção es emunhal o iginalmen e é P imo Le i, e lec indo sob e o papel dos
es emunhos e da sua condição de es emunha ace a udo aquilo po que passou.
P imo Le i,
que obse a com lucidez, apesa do seu comp omisso em se es emunha sem
e icências ou de o mações, que o seu não é um es emunho in eg al, mas que
odos os es emunhos se undam sob e uma alha, sob e um oco, uma pe da de
9
O adjec i o suge ido po Le i ad ém de uma dis inção ei a nos campos de concen ação – en e as
á ias e nias e eligiões, e a comum la gos g upos de muçulmanos se em mo os.
47
expe iência que deco e da sua p óp ia condição de es emunha, ou seja, de
sob e i en e, que de algum modo não pôde i e a é às úl imas consequências o
seu des ino. (…) Po an o só quem es e e na expe iência ex ema, naquele limia
en e a ida e a mo e, en e o homem e não homem, é a es emunha in eg al
que pode p eenche a alha do p óp io ac o es emunhal. (idem, 103)
Qualque es emunho é assim uma o ma de es i ui a pala a àquele que
pe deu a hipó ese de ala . Es a o ma de de da a pala a é o comp omisso é ico da
Li e a u a, e in oduz no es emunho o papel impo an e da au o ia. Relemb ando
uma das o igens e imológicas do es emunho em auc o , a es emunha é aquele que
in e ém po ou em quando esse não pode ala . A na u eza des a in e enção é
o iginalmen e ju ídica, é ce o, mas o que nos in e essa aqui é essa omada de pala a
da es emunha, o au o , que é ao mesmo empo da a pala a ao Ou o. No mesmo
ges o em que a es emunha eclama pa a si a possibilidade de dize , ela dá a pala a
àquele que não o pode, pa a que possa assim es abelece a e dade. Em qualque
es emunho, o “mu ilado” e o “muçulmano” são indissociá eis e é nesse mo imen o
dialé ico e simbió ico, de unidade e di e ença, que o es emunho se a icula (ibidem).
Se á p ecisamen e es a é ica, uma é ica da ep esen ação, que concilia es a co-
exis ência de ozes es emunhais numa só. A es emunha, ao es emunha , não ala
pelo Ou o, mas deixa o Ou o ala , is o é, em de es emunha , acima de udo, a
impossibilidade de es emunha , o indizí el do qual é o esquício. O que se coloca em
jogo, na cons ução discu si a de um es emunho, aquilo que é colocado em elação é
a memó ia que não sob ou, a expe iência em excesso, o longínquo e inacessí el. Mais
do que uma icção ou um a i ício mimé ico, o es emunho em de possui a
luminosidade e abe u a de um agmen o:
podemos deixa de conside a que a memó ia não é a o alidade mimé ica do
passado, mas uma sín ese agmen á ia, uma colagem de cacos do oco ido,
ecolocados em seu luga – no meio de lacunas, azios ac éscimos? (…) Há um
p oblema que é o da legi imidade: na consciência que es emunha / ep esen a
pela memó ia exige semp e uma eelabo ação, a é que pon o isso pode oco e ,
a é que pon o o auc o es á “au o izado” pelas es emunhas in eg ais que não
es emunha ão? (idem, 95)

48
Podemos com is o ap oxima a igu a da es emunha da do poe a,
ap oximando assim ambém a do es emunho à poesia. Na medida em que, alando
em nome p óp io, a es emunha em de ala po ou em, pa ilha uma ce a des-
subjec i ação, e quem esc e e é aquela c ia u a dis an e e po ezes mis e iosa que é
o sujei o poé ico. Com es a dis anciação do seu p óp io sujei o, a es emunha ob ém
“a sua au o idade do ac o de pode ala em nome de uma impossibilidade de dize ” e
é a a és do exe cício do li e á io que o luga do impossí el esplandece:
o es emunho deco e essencialmen e de uma impossibilidade de es emunha ,
que ao ealiza -se ade e a p ocessos p óximos ou idên icos aos li e á ios, que o
es emunho é em p imei o luga um ac o da linguagem, jus amen e como a
poesia. (idem, 94-95)
Se o es emunho, segundo Vecchi, é acima udo um ac o de linguagem,
undado nela, al como a poesia, en ão um dos p oblemas cen ais se á o da esc i a, e
da esc i a que se deb uça sob e si mesma, sob e a sua legi imidade, sob e a segu ança
e pe igo das suas pala as. No con ex o da li e a u a es emunhal (Vecchi apon a pa a
aquela i ada pa a a Gue a Colonial) há po isso endência pa a um ex o
me adiscu si o, enquan o a Li e a u a que se ques iona sob e a sua li e a iedade,
nessa des-subjec i ação que, como encon a emos em Fe nando Assis Pacheco, oma
o ma a a és da i onia e de uma implicância au obiog á ica:
o sujei o lí ico ema iza obsessi amen e a sua iden idade e a sua iden i icação. (…)
O co ela i o mais equen e dessa endência é a sua mac o isibilidade quando
oma a o ma do duplo eu (…) o duplo implíci o no discu so au obiog á ico ou
con essional. (idem, 105)
É ambém es e “duplo implíci o” que es abelece a “dialéc ica en e a
pseudo es emunha e a « es emunha in eg al»”, anulando qualque di e ença en e
um es emunho “ac i o” e um es emunho “passi o”; no luga do muçulmano, o
sujei o do es emunho apenas es emunha a sua des-subjec i ação.
49
Vi ando a p oblemá ica do es emunho pa a o da esc i a, o nando-o um
p oblema de esc i a p op iamen e li e á io, aquilo que e a um comp omisso
elacional, ou uma é ica da ep esen ação, pode ambém se conside ado como um
“elemen o es é ico”, “pela p eocupação de p eenche a lacuna da expe iência pa cial
a a és de um ac o de au o ” (idem, 108). Na paixão do es emunho de da a pala a,
de da ao Ou o a pala a pa a ala , mesmo que seja pa a que se ale o mais undo
dos silêncios, o Eu que ala é semp e um Ou o, de ém essa igu a en e limi es, ao
mesmo empo pa a lá de qualque limi e – esse Ou o é, aliás, aquele que ul apassou
odos os limi es, cuja expe iência se conc e izou na o alidade – e é nessa elação
en e o Eu e o Ou o que a poesia é cindida, na dis ância
que su ge da expe iência lacunosa de quem diz que, a a és da sua pala a – que,
no undo, a es a a impossibilidade de ala –, az com que con empo aneamen e
ale o ou o sem pala as da expe iência in eg al: são es as as duas incomple udes
que c iam no seu inde iní el pon o de con ac o o espaço do es emunho. (idem,
106)
Na esc i a e pa ilha de uma alha, um es emunho é uma o ma de melancolia,
p ocu ando semp e p eenche a a és da alibilidade das pala as a mo ada ín ima em
que ele p óp io é alí el. O único ho izon e que a Li e a u a pode pe spec i a é o
acasso, e a sua única aspi ação apenas pode se a de con inua a acassa – mas,
apesa disso, e po causa disso, con inua a acassa . Pa a isso, a Li e a u a ace ca-se
cons an emen e daquilo que é sem nome, do luga in ansi i o onde a pala a já não
habi a, o luga en im onde mo a o silêncio a que a Poesia almeja. Esse luga é o da
Mo e, e é da Mo e enquan o expe iência, ou enquan o limi e da expe iência que do
es emunho se dep eende oda a sua abe u a e po ência.
A Mo e
Uma pa e signi ica i a daquilo que i emos abo da ao longo da poesia de
Fe nando Assis Pacheco – po que in imamen e elacionado com o es emunho – é o
di ei o à Mo e que ad ém da Li e a u a. Ao ala mos sob e a elação que a
50
es emunha ai man endo com a sua expe iência, aquela que pa ilha, e aquela pela
qual az o es emunho (a expe iência in es emunhá el, daquela po que ela ala),
impo a ala sob e a Mo e enquan o limi e que sepa a a o alidade da expe iência de
uma es emunha e a mu ilação da ou a que pode, nessa mu ilação impu a, dize a sua
al a.
Impo a ambém escla ece que quando alamos de Mo e não alamos de
nenhum im nem de nenhuma o ma de des uição; mui o pelo con á io. Quando aqui
alamos em Mo e, alamos dela não enquan o an agónica à ida, mas como a sua
pulsão, como aquilo que es á na Vida e que a alimen a e lhe dá a hipó ese de um
ina ingí el. Falamos da mo e “como mo o pe manen e da acção, como na u eza
iccional, i al, dos e bos, como cons u o a do sen ido (…) mo e como po ência eal
e ac uan e, cola e al à ida” (SENA-LINO, 2005: 131). A mo e, nes e con ex o, não é
omada como algo conc e o, ma e ial, mas uma espécie de ú ia que passa po sob e
as coisas, e que as anspõe pa a lá da sua ma e ialidade. A mo e, enquan o ú ia,
ga an e ao Mundo a sua anscendência, e essa anscendência consegue se
en e is a a a és da poesia. Assim, ao anula os limi es an e io men e au o-impos os
pelo Mundo, a mo e de ém o seu no o limi e e a sua cons an e abe u a e
ma ginalização. Es endendo sem cessa os limi es da sua expe iência a é ao pon o em
que a expe iência já não é possí el, a mo e pe mi e que a Li e a u a apa eça e se
conc e ize semp e nas suas p óp ias ma gens; no o ça dessas ma gens es á “a
supe ação dos limi es do isí el, a comunicação com o in isí el” (idem, 141).
Blancho – ou o nome sob e o meu ão ágil
Um dos au o es mais impo an es no que oca ao pensamen o sob e a elação
en e a Li e a u a e a Mo e é Mau ice Blancho . A sua ob a, cuja ex ensão é apenas
equi alen e à a enção e empenho a que ele semp e lhe dedicou, se á semp e
incon o ná el se quise mos ala da Li e a u a e das suas on ei as em de i .
No seu ensaio “La li é a u e e le d oi à la mo ”, incluído no li o La Pa du
Feu, Blancho pensa a mo e como um e ei o da Li e a u a, ou seja, como algo que
deco e do li e á io, um di ei o que nos é acedido a a és da nossa exis ência no seu
espaço. Pa indo da ideia (como já imos igualmen e em De ida) de que a Li e a u a,
51
na sua essência, não é nada, não em nenhum luga de inido no mundo, nem na
sociedade, nem em qualque cul u a, undando cons an emen e o seu p óp io luga , e
po isso a sua condição é a do pe igo, a de es a semp e p es es a e mina , Blancho
a i ma que o comp omisso do esc i o pa a com a esc i a é a de nunca a abandona , de
nunca se cala ou pa a de esc e e . Na u gência da esc i a, odo esc i o az a iagem
ao im da sua noi e, espe ando depois que ao Ou o enha o dia que ele p epa ou:
Il ne peu pas, en éc i an , sac i ie la pu e nui de ses possibili ies p op es, ca
l’oeu e n’es i an e que si celle nui – e nulle au e – de ien jou , que si ce
qu’il a de plus singulie e de plus éloigné de l’exis ence déjà é élée se é èle
dans l’exis ence commune. (BLANCHOT, 1999: 299)
A a és da me á o a da passagem da noi e in e io , ca egada pelo esc i o ,
que de ém al o ada, Blancho a i a ambém o lei o pa a o p oblema da elação é ica
da esc i a, o nando-se des a o ma uma é ica de lei u a. É na lei u a que a ob a pe de
o peso e p eocupação daquele que a esc e e, adqui indo assim a le eza que a o na
ão ágil, ão pe icli an e, ão em pe igo de se ex e minada
10
; a lei u a es i ui à
esc i a o con olo de si, a au onomia ace a quem a esc e e:
Li e, ce se ai donc, non pas éc i e à no eau le li e, mais ai e que le li e s’éc i e
ou soi éc i – ce e ois sans l’in e médiai e de l’éc i ain, sans pe sonne qui
l’éc i e (…) ou e l’in inie legè e é du lec eu a i me la legè e é nou elle du li e,
de enu un li e sans au eu , sans le sé ieux, le a ail, les lou des angoisses (…)
(BLANCHOT, 1988: 254)
A lei u a de as a a memó ia do au o , po que não ê nada mais pa a além da
supe íce da le a. Quando lemos as ca as de Flaube , em que es e se queixa e
angus ia po demo a cinco dias a esc e e uma única página de Madame Bo a y, é
po que sabe que essa página se á lida numa ques ão de segundos ou poucos minu os
po um lei o que al ez leia simplesmen e pa a passa o empo, enquan o espe a algo
mais in e essan e pa a aze . A sua p esença é apagada, e a ob a ica assim na
10
O pe igo não em do imaginá io em que a li e a u a se mo imen a se ex e io à ealidade,
mas po que esse imaginá io con ém oda essa ealidade, a nossa ealidade “como um odo”.
C . BLANCHOT, 1999: 307.
58
pa i com essa expe iência como e e en e, um es emunho – e aqui alamos já
conc e amen e do es emunho li e á io, do es emunho-poema – unda em si a sua
p óp ia legi imação e eme e a sua expe iência pa a a p óp ia linguagem que a
cons i ui. A expe iência do poema é, an es de udo, uma expe iência de linguagem.
É p ecisamen e po causa des a elação que a expe iência da mo e é ão
ulc al, enquan o aquilo que ex a asa semp e o que são os limi es e os sen idos da
linguagem. Nessa medida, decidimos que, em ez de p ocu a uma ca alogação de
quan os ipos de es emunho exis em na ob a de Fe nando Assis Pacheco, oca -nos-
emos nos seus poemas que uncionam como es emunhos da Mo e, e como é que
es a mo e pode adqui i an as e a iadas e en es, a a és de uma sé ie de e en os
e écnicas pa a as es emunha . O in e esse em es emunha a mo e em po an o
em sabe como é que uma expe iência-limi e a ec a as condições da sua pa ilha, e de
que o ma ela é po enciado a da con ínua abe u a do poema, pa a lá dos seus
supos os limi es in e p e a i os. De o ma a não nos pe de mos na ex ensão da sua
ob a, que apesa da b e e pede mais empo e ôlego pa a se lida, i emos oca -nos na
p imei a pa e da sua p odução esc i a, nomeadamen e no seu segundo li o,
Ca alabanza, Quilolo e Vol a (1972), e alguns poemas do seu p imei o li o, Cuida dos
Vi os (1963), ambos eunidos na sua ob a eunida A Musa I egula . O p imei o que
Assis Pacheco publica, Cuida dos Vi os, seguindo uma adição neo- ealis a e a é
p esencis a que o au o logo depois i ia abandona e oma como epigonal, se i á
sob e udo pa a complemen a a nossa lei u a do ou o li o, Ca alabanza, já esc i o
num con ex o di e en e (com alguns dos poemas esc i os em plena gue a), de o ma a
explici a como o es emunho da mo e não é um aspec o exclusi o de um li o que se
p es a como um es emunho de gue a, mas que é algo que se a igu a como
ans e sal ao es o da sua ob a.

59
CUIDAR DOS VIVOS
Es ada de El as
(p.17)
Um poema sob e uma es ada, ou a é melho dizendo esc i o sob e uma
es ada, enquan o se ai caminhando “ao longo do as al o”. Ao longo da iagem des e
poema, encon amos algumas alusões à memó ia e à sua ou não exis ência. A a essa
a es ada, anda sob e ela, é po um lado uma o ma de des uição, em que se
“esmaga” uma memó ia que é “sem sen ido”. O ca o que a esmaga, não só po que
passa po cima, mas po que se desloca, po que se ai embo a, oge à memó ia; a
es ada de El as, po caminho em Bo ba, me a o iza-se como uma o ma de
esquecimen o.
“Não eco do nada de i”: como pode exis i algo sem lhe exis i memó ia? A
qualque coisa pode se a ibuída a p op iedade da memó ia, desde o mais comum
dos objec os a é àquilo que designamos a “memó ia colec i a” de um país ou de uma
nação; a o mação de qualque pessoa depende la gamen e da sua memó ia – de onde
eio, a sua língua, a sua amília, as suas expe iências. Alguém sem memó ia é oda a
gen e e ao mesmo empo não é ninguém. O que de ce a o ma pe du a em cada
pessoa é a memó ia da sua exis ência, uma pe sis ência quo idiana que acaba po
aze o ma e sen ido às nossas expe iências e emoções. O a, es e acon ecimen o no
poema apa ece nes a dúbia ci cuns ância: ele chega a é nós, com o seu es emunho
a a és de um poema, e no en an o su ge enquan o uma memó ia sem sen ido, da
qual não há nenhuma eco dação. Como se pode en ão es emunha aquilo de que
não há eco dação? Po que, mesmo apesa de não eco da “quase nada”, é esse
“quase” que é eco dado. O poema é assim um es emunho sem memó ia, ou a é um
acon ecimen o sem memó ia, que é econs uído a a és de memó ias ci cuns anciais,
apa en emen e insign ican es: uns homens a abalha , um ciga o umado, um
comen á io sob e Angola, o gelo que se ai acumulando nas es adas. A memó ia do
es emunho é compensada pelas memó ias adjacen es, aquelas que es ão ago a no
luga daquilo que oi esquecido, cujo sen ido oi esmagado, subs i uindo assim esse
60
p imei o acon ecimen o. Aquilo que oi esquecido é ememo ado, subs anciado e ei o
poema. Essa memó ia esquecida acaba po se i apenas como p e ex o pa a es a
no a que é o mada, uma espécie de “memó ia suplemen o”: na sua econs ução
a a és do es emunho, acaba po se dilui e es uma -se:
“Não e eco do já: al ez mo esses
an es de se es memó ia, chu a, e a noi e”
T a a-se aqui de um acon ecimen o que não chegou a ganha memó ia, algo
imp o á el como uma á o e não adqui i somb a. Tes emunha-se aqui uma não-
memó ia, a memó ia de uma ou a que nunca chegou a su gi .
Elegia, Ap o ei ando Bach
(p.18-19)
Nes e poema encon amos uma si uação que se o na mais ou menos
eco en e na ob a de Fe nando Assis Pacheco: a desc ição da mo e, do momen o em
que alguém se encon a com a mo e, chegando a é o poe a a ela a a sua p óp ia.
Fala de qualque mo e é semp e, como já imos, uma impossibilidade: ninguém pode
ala da mo e dos ou os, po que cada uma é absolu amen e ín ima, e ninguém
pode ia ala da sua mo e, já que assim es a ia mo o. A di e ença es á p ecisamen e
nessa dis inção en e a “mo e” e o “mo e ”. Encon amo-nos com a nossa mo e
an es do nosso mo e .
O p e ex o usado pa a o poema é a mo e de um amigo seu, A mindo Boucei o,
lemb ado a a és de uma peça de piano ocada pela i mã, num e ei o semelhan e ao
da madeleine em P ous , sendo que a p incipal di e ença al ez seja que aqui a ligação
en e Bach e a mo e do amigo não é explici ada nem apa en emen e lógica, já que
Bach não ala da mo e nem da elhice, mas
“do Ab il, das es elas, da sageza” .
61
O poema dispõe-se po isso a es emunha a mo e do amigo, uma mo e
in es emunhá el, po es emunha , e es e su ge de o ma a con a ia a memó ia que
se ai desbo ando com os anos, aquela que se ai len amen e o nando muda, a
memó ia que se ai enchendo de uma ausência, uma al a que não cessa de
p eenche , de ocupa um espaço. Compe em aos e sos do poema anspo a em
esses “meses e ol ido” que se o am acumulando, que, nes e pa adoxo de se i em
p eenchendo de uma al a, daquilo que já lá não es á, que se ocupa, delimi adamen e
ausen e, es emunham aquilo de que não são es emunhos – o esquecimen o su ge
assim como ca alisado da p óp ia memó ia, ins umen o mo o do es emunho.
T anspo a uma ausência implica aqui ca egá-la de uma p esença; na ausência de um
es emunho sob e aquela mo e, p eenche-se com uma memó ia ab icada no p óp io
poema.
Nes e es emunho da sua mo e, o elemen o iccional acaba á po se e le i
bas an e em Ca alabanza e com ele uma ca ac e ís ica que nos pa ece da maio
impo ância: o ca ác e cinema og á ico do seu es emunho. Embo a em Ca alabanza
isso á se mais e iden e, já aqui conseguimos no a uma endência pa a desc e e um
de e minado acon ecimen o u ilizando in luências do cinema. Nes e poema,
conseguimos a é comp eende uma ce a o ganização a a és de á ios planos que
nos ão apa ecendo: o ca o a a a essa “a neblina cega”, depois as “mãos sob e o
olan e”, com uma ansição pa a a sua boca, onde se ê um ciga o en e os lábios,
meio a dido. Muda a es o e e emos de seguida o pé no acele ado , o ca o a aze as
“cu as di íceis” das es adas em Loulé, mais um close-up dos seus lábios, des a ez a
so i em, e minando com um plano do ca o, com o ma ao undo, como um ca alo
galopando. O uso de ins umen os e imagens cinema og á icas pe mi em uma ixação
mais e icaz do es emunho – se é que podemos ala na e icácia de um es emunho.
De es o, Ca alabanza se i á como um ma co na i agem es ilís ica na poesia de
Fe nando Assis Pacheco, e al se á em g ande pa e de ido a essa e iden e in luência
da linguagem cinema og á ica na cons ução discu si a dos poemas desses li os.
62
CATALABANZA, QUILOLO E VOLTA
Podemos a i ma que as poucas ezes em que Fe nando Assis Pacheco ai
me ecendo alguma a enção c í ica ou edi o ial (seja em ensaios ou em an ologias
poé icas) se de em em g ande pa e a es e seu segundo li o. Inicialmen e publicado
sob o í ulo Câu Kiên: Um Resumo, a expe iência da sua es adia em Á ica aquando da
Gue a Colonial e a assim dissimuladamen e esc i a como a de um soldado ins alado
algu es no meio do Vie name. Es a másca a não é, aliás, algo exclusi o a es e li o, já
que uma das suas ob as iccionais, Wal , deco e no po o de San Diego, no dia de
emba que umo à Gue a do Vie name. Nessa “no ele a”, como o p óp io a apelidou,
cada pe sonagem é de ac o ame icana, com nomes como Mo on Fake, Pe e
Bel ano ou Joe Louis, o iundos da Ca olina do Sul ou do A kansas, não já sob o
p e ex o da uga à censu a, mas como uma o ma de dis anciamen o, em que é
i onicamen e ela ado o emba que de um na io ame icano, e não po uguês, que ai
comba e uma gue a que não deixa po isso de se incomp eensí el e absu da.
Ca alabanza, Quilolo e Vol a o ganiza-se a a és da enunciação de qua o
pon os, delineando uma iagem de ida e ol a (Lisboa – Dembos – Luanda – Lisboa), e
que ai de e mina um ca ác e ci cula à composição do li o, e consequen emen e à
sua lei u a. A ma cação geog á ica, aliado ao eg esso ao pon o de pa ida, c ia um
mapa e i o ial, e e encial mas ambém empo al no li o, que não deixa de
desenha um pa adoxo: se, po um lado, lhe ac escen a a linea idade quase
c onológica de uma na a i a ao longo do li o, com a o igem e o im a se em
coinciden es, po ou o lado esse mesmo mapa desenha uma ci cula idade que echa o
li o sob e si mesmo – o úl imo poema ala p ecisamen e do dia an es do emba que.
Nessa medida, o li o não em um im, da mesma o ma que não em uma saída, mas
apenas um caminho de de i a mais ou menos deambulan e, dispensando uma o dem
“co ec a” pa a se lido.
A in luência do cinema e das suas possibilidades, num espaço p i ilegiado de
con luência en e sons e imagens, assume-se como uma das a es composicionais da
sua poesia, seja na e e ência a ilmes
12
, seja na p óp ia na a i a e cons ução
12
O poema “Como um elâmpago e de” do li o Va iações em Sousa é uma alusão ao ilme de É ic
Rohme “Le Rayon Ve ”, ambos do mesmo ano de 1986.
63
imagé ica do poema que, como imos em “Elegia, Ap o ei ando Bach”, se o na
bas an e mani es a. Em Ca alabanza emos inclusi e a e e ência a “ lashbacks”, no
poema “As A es”, ou a um “ a elling súbi o” em “Rela o” (p.84), e cu iosamen e o
úl imo poema, in i ulado “Gené ico”, naquele que é o eg esso ao pon o de pa ida, à
cidade Lisboa, ao dia an es do emba que, se quise mos en ão o pon o de pa ida an es
da pa ida, em, no inal, o pai do poe a, com uma câma a, com a qual “ ilmou o Tejo,
as opas” (p.98). Tudo is o ac escen a à dimensão na a i a do li o, e a um maio
leque de possibilidades e ins umen os à composição es emunhal.
Mas não é na dimensão cinema og á ica que encon amos aquilo que mais nos
in e essa nes e li o. Ao longo de Ca alabanza, Fe nando Assis Pacheco eco e a uma
sé ie de i egula idades g á icas, em e mos de pon uação, que ac uam como uma
o ma de dis upção no es emunho que o poema pa ilha. A u ilização de dois
g a ismos em pa icula se i -nos-ão pa a pe cebe os limi es e as condições em que o
poema pode eicula qualque ipo de expe iência ou se um es emunho do que que
que seja, es abelecendo a possibilidade da abe u a e da sua eesc i a, da sua
exis ência pa a lá do esc i o e pa a lá do pa ilhá el. Olha emos p imei o pa a dois
poemas com uma dessas oco ências g á icas, e de seguida olha emos pa a mais dois
com a ou a oco ência.
/ - A ba a
Nambuangongo em Maio
(p.53-54)
Es e poema le an a uma sé ie de ques ões impo an es, não an o elacionadas
com a ques ão da mo e, mas com a elação en e a es emunha e aquele a quem é
p es ado o es emunho, ao mesmo empo que nos pe mi e e lec i sob e um
es emunho em segundo g au, no sen ido daquele que es emunha um es emunho.
Um aço comum na poesia de Fe nando Assis Pacheco é da nossa lei u a
o nada in omissão – mui os dos seus poemas, quando começam a se lidos, dão a
sensação que se en ou neles a meio, como um ilme ou conce o ao qual se chegou

64
a asado. Os inícios des es poemas, uncados ou exigindo e e en es que não são
o necidos, deixam-nos desde logo em dú ida sob e a sua o igem, o seu an es do
p incípio, e que nes e caso se ia qualque ipo de expe iência que es i esse na o igem
do poema.
Es e ca ác e incomple o e abe o do es emunho ele a logo pelo e so inicial,
“En ão cheguei”, suge indo que uma pa e do es emunho oi ocul o, censu ado. O
poema é po isso um esquício, uma sob e i ência, apa en ando se um agmen o de
uma pa e maio , de um odo quiçá mais comple o. E é in e essan e cons a a como a
agmen ação des e poema coincide com uma ce a nudez e agilidade da sua
cons ução, deixando à mos a os aços de um abalho que não de ia, ou pelo menos
assim pensamos, ul apassa os limi es deco osos do wo k in p og ess. A nudez do
poema é e elada a a és das ba as di isó ias, que ma cam a mudança de e so,
mesmo quando ele não se conc e iza – “uma ig eja dese a/ os cães” – ou quando a
sua ma ca já es á e ec i ada:
com ciga os a dendo/
eis-me en ão ce cado
As ba as são en ão disposições g á icas cuja unção é cump ida po
mecanismos que não os seus – no caso da ba a di isó ia, es a é cump ida pela
e si icação – o nando-as edundan es, excessi as, mas não i ele an es, já que essa
unção cump ida, essa si uação de es a a mais colocam-na não na posição de ade eço,
mas no aço e ec i o de uma memó ia, não a memó ia daquilo que é ela ado, da
expe iência a que se p es a o es emunho, mas a memó ia do p óp io poema, a
memó ia que o poema az de si, da sua cons ução, símbolo e ep esen an e daquilo
que não oi di o, que não é e elado, e que, man ido no silêncio e na obscu idade,
pe mi e que a expe iência se conc e ize e de enha es emunho. A ba a ep esen a a
énue linha en e aquilo que su ge à ona da página, na supe ície esc i a, e aquilo que
é obsceno, o a de cena, que não oi ep esen ado, e exp essa o que não oi exp esso,
mas que mesmo assim (ou a é po causa disso) conseguiu pe manece , ainda que
ocul o, no poema. Po isso é que mesmo não es ando ali, o seu p opósi o se ia
cump ido. A ba a não exis e em nome do que lá não es á, mas em nome da po ência
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de dize poé ico, aquilo que pode se di o nos jogos con ínuos de p odução de sen ido
do poema. As uínas do poema, a sua memó ia, podíamos a é conside á-la a p óp ia
expe iência do poema, ma e ializado num simples sinal g á ico.
As ma cas do poema o nam-no assim um es emunho de si mesmo, da sua
p óp ia expe iência e condição de es emunho. Há nes e aço uma p esença
pe o ma i a que não nos een ia pa a nenhum e e en e ci cuns ancial, nenhum
ac o ex e io ao qual o poema é mais ou menos iel, mas que age e pe o ma o seu
p óp io de i – nesse sen ido, es e poema ca ega um es emunho da sua p óp ia
mo e enquan o aquelas uínas que icam indizí eis, semp e po dize , semp e à bei a
de se em di as.
Es a memó ia que é es emunhada o na-se mais complexa na pa e inal do
poema. A pa i do chei o das “la inas ao a / ce cando a ig eja b anca”, o poe a
in oca um e so que, segundo ele, conseguiu “sal a ”, suge indo que o es o do
poema oi pe dido ou des uído. A in ocação des es e sos – “«além nos mon es o
sop o da manhã»” – eme e-nos pa a um ou o poema, po sinal es e já um
es emunho de alguma ou a paixão. O poema que a é aí demons a a uma singula
consciência da sua condição de es emunho, ans o ma aqui es a sua dis ância pa a,
ao in oca um ou o poema pe dido, se o na na memó ia de um es emunho,
memó ia essa que pe manece apenas em di e ido, a a és de ou em. Lemb a-nos os
casos daqueles que são mo os du an e a Gue a ou em campos de concen ação, e
que são lemb ados po aqueles que sob e i e am, onde a única coisa que podem dize
em nome deles é que não podem ala em nome deles, que o luga deles es á semp e
po ocupa , que há uma al a, uma p esença que apenas pode chega a é nós a a és
de uma ce a mu ilação, nes e caso o de se es emunhado po uma ou a pessoa – al
como o poema az pa a si e sos de um ou o poema, de idamen e delimi ados,
a as ados das ou as es o es, com as aspas a delinea em cuidadosamen e os seus
limi es, ga an indo que nenhum dos dois se mis u a, como um e so de azei e num
poema em água.
A complexidade do es emunho nes e poema é pois sedimen á ia. Num
p imei o ní el, o poema es emunha um de e minado acon ecimen o, que é como
imos um meio pa a chega ao es emunho de ou o poema, cuja memó ia ica quase
esquecida. Ao mesmo empo que o poema se es emunha, pa ilha a sua expe iência,
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es e econhece que essa pa ilha se baseia na expe iência de ou o es emunho, de
ou o poema, pe dido. O poema que conheceu a mo e ca ega em si o poema que
mo eu.
«E Ha ia Ou ono?»
(p.49-50)
O p imei o poema do li o acaba po se mais ou menos p og amá ico pa a o
es o da ob a. O í ulo en e aspas p essupõe uma in e ogação, ci ando uma pe gun a
colocada, imaginamos nós, ao poe a. A colocação das aspas se e po isso pa a aze
ao poema um des ina á io, an o especí ico como absolu amen e ago, assumindo o
poema como uma espos a, uma ala in e calada, pe encen e a um diálogo que,
p ecisamen e de ido à dis ância e anonima o que as aspas impõem, ap oxima e a as a
o seu in e locu o . Temos aqui en ão uma espos a a um sujei o que é c iado na
linguagem, com a sua p esença a de i e dissipa -se po en e as aspas que são a única
p o a da sua exis ência. Ao c ia um des ina á io assim, an o p esen e como ausen e,
o poema se e como uma espos a a uma pe gun a especí ica («e ha ia Ou ono?») e
como p e ex o pa a o es emunho de algo que ul apassa a pe gun a (que pede uma
espos a de sim ou não). O mecanismo pa ece não se mui o di e en e daquele
u ilizado em can igas medie ais, em que o uso de um mo e ou de um ecu so
epig á ico se em pa a a cons ução do que é a é nes e caso compos o a a és da
enume ação de uma sé ie de coisas que ha ia, ou melho , coisas que
inespe adamen e ha ia, ao mesmo empo que se epe e uma quad a can ada.
O poema começa igualmen e po aze -nos uma imagem que à p imei a is a
ai de encon o àquela que emos indo a pos ula sob e o es emunho, que é a do
ela o, mais ou menos desc i i o, ap oximando-se de um om seco, o og á ico, quase
objec i o, com e sos como “Ha ia um co o em sangue.”, ou com ela os de e en os
que pe encem a um quo idiano de gue a (que é, se quise mos, a banalização de um
es ado de excepção), como “Aquele que ouxe uma íbia da Qui ilena/ en e nizou-a
depois em silêncio”. Apesa disso, con inuando a le o poema pe cebemos que o
es emunho a que esse p es a não subsis e naquilo que se ia objec i o, que pudesse
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se eduzido à sua ac ualidade ma e ial, naquilo que osse expec á el, mas
p ecisamen e na imp e isibilidade in en a iada, numa exis ência cujo excesso
ul apassa qualque expec a i a. Mesmo aquilo que se pode ia em p incípio assumi
que exis isse, como o a o edo denso no ma o angolano, é aqui desc i o como o que
mesmo assim es á pa a lá de qualque an ecipação ou plausibilidade:
Ha ia o que não espe as: á o es,
al as á o es de co ação ama go .
O inespe ado nes es e sos não é necessa iamen e a exis ência de á o es al as
em Á ica, mas udo aquilo que, mesmo pe an e essa expec a i a, a ul apassa po
comple o e pe manece po dize . Sim, são á o es, sim, são á o es al as, mas, mais do
que isso, e am al as á o es de co ação ama go. Encon amos aqui, se assim
pode mos dizê-lo, um es emunho do espan o daquilo que se iu, daquilo que ica pa a
lá das pala as. O poema, po excelência o luga da pala a, é ao mesmo empo onde a
a asia melho se p opaga. A abe u a do poema conc e iza-se po causa da sua censu a
e omissão. É po demais escla ecedo de udo aquilo que emos indo a pensa a é
aqui os e sos que a ce a al u a dizem:
ah não ou con a - e um décimo
des a libe inagem.
Den o do esquema ge al da ob a, e em cada caso mais pa icula de cada
poema, o que assis imos é a uma solução, uma censu a e uma cons ução da
“libe inagem” que é can ada. E se esses no e décimos em silêncio apa ecem
in es emunhados, o décimo que o é su ge inimaginá el, no limi e do es emunho e da
sua expe iência. Ao ende pa a esse limi e, o poema p opõe-se sub ep iciamen e a
es emunha a mo e. É a mo e que a inal é can ada ao longo do poema, é a mo e
a inal que ai se indo o que ha ia. Ha ia homens can ando “mo e emos dez ezes”
po que ha ia homens a mo e , uma ou mais ezes em cada dia. Cada dia, se
quise mos, uma espécie de mo e. Can a essa mo e que em “dez ezes” é aqui em
p imei o luga um a í icio colec i o que es emunha esses que mo em e icam em
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esses são os es ilhaços que se p ocu am o ganiza , aos quais se p ocu a aze o dem e
sen ido, mas que nes a amálgama de agmen os acabam po esul a numa ou a
coisa, num co po ex ual que apenas pode deixa en e is a essa mi agem de unidade
e signi icação. Ao exis i em sob o umo do es ilhaço, a memó ia ap esen ada nes es
agmen os não nos e ela an o quan o nos deixa po e ela , num comp omisso
en e os passeios de um sábado e a incompo á el angús ia que com eles su giam, e
que o p óp io poe a sabe nunca pode pa ilha po in ei o:
Num sábado ui pa a um mo o à espe a da coluna, se soubesses o que a gen e
imagina, imagina udo, que uma cab a duma bala ou um es ilhaço ou uma
baila ina e depois a gen e is emen e põe-se a uma , mija de manso no
camu lado, g i a coisas que são e sos pa a 1980, ah.
O poema apa ece como uma pla a o ma de ( e)dis ibuição de sen ido, um
p incípio de o denação que coloca um conjun o de p oduções es emunhais sob o
mesmo signo, desde as bombas que explodem, “li e almen e”, nas mesas de
cabecei a, passando pelas e e ências esca ológicas que são enunciadas
equen emen e ao ala da gue a (nos agmen os 2, 3 e 6), ao capim e e ido nos
pa ág a os 5 e 7. Adap ando a e minologia oucaul iana, há uma espécie de unção-
poema no conjun o des es es emunhos que, na al a de um mo i o que os o ien e ou
que os signi ique, pe mi e que a pa i dessa disposição caó ica se consiga p oduzi
uma qualque o alidade. O p incípio ag egado não es a ia p esen e no í ulo do
poema, mas no p óp io ac o de ha e um í ulo que os ag egue e disponha. O
es emunho ac ua em cons an e ensão en e o nunca consegui p oduzi -se enquan o
uma o alidade, se i edu i elmen e pa cela , ao mesmo empo que p ocu a nessa
lacuna a possibilidade da sua conc e ização.
O Ou o
Já aqui dissemos sucessi as ezes que o es emunho pa e de uma al a
undamen al, deco en e da p óp ia expe iência se incomple a. Aqueles que mo em,
seja em plena gue a, seja em campos de concen ação, seja num a aque ulminan e à

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po a de uma li a ia em Lisboa, le a am a expe iência da mo e a é ao im, e po isso
são eme idos ao silêncio e à impossibilidade de a pa ilha . Quem conhece a mo e e
i e pa a a es emunha pa ilha aquilo que se ia in es emunhá el, a sua p óp ia
mo e, e é na medida dessa impossibilidade que a mo e oma o ma de odos os
es emunhos, ao se aquilo que, po pe manece semp e seg edo, ans o ma o
poema em p omessa.
De ida a gumen a em Mo ada que não podemos es emunha a mo e dos
ou os, que cada uma é absolu amen e ín ima e pessoal, e que podemos apenas
conjec u a (e, nesse sen ido, c ia ) a nossa p óp ia. Nes e sen ido, os poemas “As
Balas” e “O Amigo em Vila Pimpa” ap esen am lei u as in e essan es, já que se
conce nem com o es emunho alheio, não só em es emunha o es emunho do
Ou o, como a é en e e a sua mo e.
As Balas
p.71-73
Den o da sua desc ição dos usos e uncionamen os das balas numa gue a, o
poema es abelece uma ligação en e as ma e ialidades bélicas (“São de e o. Ou de
aço?”) e as suas consequências in e io es, ulgo a mo e das pessoas, a “de as ação
das ca nes”. Nes e sen ido, o poe a ela a ( eco endo inclusi e à indicação cénica de
um “ uído onoma opaico”) a inda e des inda da bala que es a ia des inada a ma á-lo:
Ti e uma bala ma cada:
à ul ima da ho a ele onei
a desis i . ‘da-se!
Pio pa a o Soa es que en a
nes es e sos já mo o.
A ma cação da bala, assim colocada como se de uma consul a ou uma eunião
se a asse, assen a a ine i abilidade da chegada da mo e, que assim que ma cada
p ecisa de le a alguém. Na desis ência do poe a, a bala que lhe es a a a ibuída, que
lhe sela a o des ino, oi eencaminhada a um al Soa es, es e sim so endo em plena
76
ex ensão odas as consequências de se baleado. Em poucos poemas é ei a de uma
o ma ão cla a a dis inção en e a Mo e e o Mo e : ao esc e e sob e a p óp ia
mo e, o sujei o poé ico in oca esse e bo de ini i o em que o Soa es
i emedia elmen e habi a.
O poema ac ua como um sub il ins umen o de decan ação: a expe iência da
mo e des e sujei o esul a na não-expe iência da mo e do Soa es, uma mo e
in ansi i a, inexpe ienciá el, es i a e dis an e. Mas é no poema, no es emunho da
mo e do Soa es, que a mo e do sujei o poé ico se conc e iza, no ins an e em que é
in ocado. Conside emo-la enquan o uma pe e sa ques ão de equilíb io: na sepa ação
que há en e o “di idendo” e o “di iso ” (exp essões de idianas), en e a Mo e e o
Mo e , há ambém uma dis ibuição: o sujei o poé ico ica com a expe iência da sua
p óp ia mo e, enquan o a mo e p op iamen e consumada é concedida a ou o,
numa apa en e eleidade do des ino.
Es a dis ibuição das mo es e a sua conc e ização, que se consuma
p ecisamen e no momen o em que é econhecida, suge e uma elação es emunhal
pela qual emos indo a sob e oa , sem nunca nos de e mos de o ma mais p óxima.
Ao ala da mo e do Soa es, e consequen emen e alando da sua p óp ia, su ge-nos a
ques ão: podemos es emunha pelo Ou o? Sabemos que não podemos azê-lo sem
algum Ou o, mesmo que inde e minado, mas consegui emos nós es emunha em
luga de ou em, pa ilha um seg edo que não é nosso, que não nos pe ence?
De ida, nes e aspec o, pa ece deixa cla o a exclusi idade do es emunho de cada um,
da sua mani es ação e pe pé uo seg edo a a és da esc i a – que é ao mesmo empo
uma o ma de exposição e uma o ma de echamen o, de abe u a à in e p e ação e
e o ço do seu inde inido; no en an o, no poema “O Amigo em Vila Pimpa” emos esse
p incípio de exclusi idade desa iado.
77
O Amigo em Vila Pimpa
p.78-80
Todo o poema se ap esen a como uma pa ilha do sujei o poé ico, não da sua
expe iência, mas do ela o do seu amigo em Vila Pimpa. Começando po di igi -se na
e cei a pessoa do singula , o poema pau a-se pela imedia ez do P esen e do
Indica i o, como se o es emunho do seu amigo e o ela o desse es emunho – um
es emunho em si –, acon ecessem ao mesmo empo, esul ando assim na sua
diluição (“Ele es á em Vila Pimpa/e diz que se gas a, diz/que o a se gas a”). A es e
p oblema da con- usão es emunhal ac esce aquele po nós já a ado, e di ec amen e
aqui e e ido: o da alibilidade da memó ia ( “diz (…) que a memó ia se gas a.”).
O incon o ná el ca ác e iccional da esc i a in oduz dois aspec os. Em
p imei o luga , o ela o da expe iência ica dependen e do não-di o, e esse não-di o
o na-se um elemen o cons i uin e do p óp io dize , a sua imanência que não pode e
não é di a, imagem nega i a mas semp e p esen e do poema. Faz assim pa e do
es emunho o seu inacabamen o, esul ando numa imidez de enunciação:
Em Vila Pimpa, diz,
onde a manhã se gas a, e o sol.
Mesmo
sob e o inho, diz ele.
A o ma ab up a com que o segundo e so e mina condiciona a sua lei u a,
mas não a impede, an es ab e as suas possibilidades de lei u a, que são ainda mais
po enciadas com o seu seguimen o “mesmo sob e o inho”: al a-nos uma peça des e
es emunho, mas é nes a peça em al a que o es emunho se baseia. Es a al a da
linguagem é em si uma al a da memó ia, em que o adensa da icção ep esen a a
mo e daquele que a es emunha. Po isso, logo a segui , “Es e amigo desbo oa-se”,
suspende a sua p esença, que é aqui a condição de Ou o, ap oximando e con undindo
os dois ní eis do es emunho p esen es, ao pon o de as p óp ias ozes se in e cala em,
naquilo que pa ece um diálogo, “Digo, di ás alguma coisa?/ Digo- e me da, diz.”, mas
que é um diálogo que ende pa a a indis inção, pa a a ap oximação en e o Eu e o
Ou o, o im da dis ância en e ambos, c iada pela pala a, em al e na i a à iolência, à
78
des uição, numa pala a, e de Blancho , a mo e. A diluição dos dois sujei os unciona
assim como a sua mo e, com a iminência dessa mo e semp e p esen e, semp e em
cheque: “Cuidado com os e sos, diz o amigo.”
Um poema, enquan o es emunho, é semp e um pe igo, uma aca com odos
os gumes, que apon am odos pa a a mo e daquele que o esc e e, que o pa ilha. Cai-
se, so e-se, padece-se do silêncio que é p óp io da sua paixão. Sem qualque pe dão,
sem seque a sua exigência, o poema age na ansg essão, no sai -de-si, no c ime da
mo e de quem esc e e, e cada e so, a en o, cuidadoso, é uma o ma de mo e ,
mani es ações de uma con ínua ausência, que en a semp e insc e e -se no papel,
assina , digamos, a sua ausência no poema, dilui o seu sujei o-au o , an igo cen o
essencial, num as o de lemb anças em que a é es e se eduz a uma possibilidade:
Vou aze o quê.
Faze o quê, diz,
que lemb ança deixo.
(…)
Tudo se gas a, e há,
diz o amigo, um dia
em que a p óp ia noção
de Deus se gas a.
A noção de Deus gas a-se po que a noção de au o delimi ado do es o da sua
con ingência, do poe a que expele a sua ma é ia poé ica, que ai acumulando ao longo
de uma expe iência in e io que é in ocada pelo es o do mundo, essa p óp ia noção
de sujei o gas a-se e desbo oa-se, deixando as on ei as en e aquele que ala, aquele
que ou e, ou aquele que esponde de ol a, odas em suspenso, c iando qualque ala
numa o ma de palimpses o: odo o nosso dize é já uma espos a a ou o, é uma
o ma de esc e e po cima, ala em nome de ou em, po causa de ou em, pa a que
haja mais alguém a ala . No e-se que es a endência pa a a dissolução não signi ica a
sua comple a conc e ização, mas uma gene alidade do mo imen o pa a o qual ele
ende. A con adição nes e sen ido p ende-se en ão com a cons an e iminência da
des uição da p esença, que nunca se e i ica, já que não só é essa mesma p esença
79
que possibili a esse ges o, como esse mesmo é een iado e ga an e a subsis ência
dessa mesma p esença, no ins an e do poema.
É o ins an e do poema, o ins an e da mo e, a possibilidade de dize “sim” e a
p omessa de con inua a dizê-lo que cons i uem assim o nó do es emunho, a ma iz
apo é ica que pe mi e que um qualque es emunho seja não an o dize como da a
dize . Como disse Edua do P ado Coelho, “não pode emos ala em «o luga da
poesia» sem e mos em con a que a poesia é o que dá luga . A poesia é a gló ia de
es a mos aqui” (COELHO, 2004: 35); a Paixão a que já nos omos e e indo não em
pa a P ado Coelho a o ça das emoções, cuja pujança em s acca o a delimi a no seu
p óp io ins an e, an es assume o empo p olongado inde inidamen e suspenso do
Amo – o poema é a unidade de medida do Amo :
“a poesia concen a-se no peso das pala as que conduzem cada coisa ao
seu luga , ao luga onde o peso é o amo do aqui, o seu esplendo . Se há
um luga da poesia, é esse.” (idem, 36)
O Ga o e
(p.63-64)
Esc e e-se sob e a mo e na mesma medida em que se esc e e sob e a ida. Ao
esc e e sob e a mo e, po cima da mo e, esc e emos a ida que lhe en egamos, a
ida que, sem ela, não se ia concebí el. Desde os empos em que concebemos algum
ipo de elação en e nós, mo ais, e os deuses, que o maio desespe o não em da
nossa pa e, da nossa impo ência ace ao seus as os pode es; são os deuses que nos
in ejam, po sabe em que na mo alidade da nossa ida, cada ins an e, ao se aquele
que pode i a se o de adei o, é omado com a le eza de uma b isa, b isa essa que
o na e le a o ins an e pa a lá dele mesmo, du adou o, e e no enquan o o di o
ins an e, enquan o a sua imedia ez o a única e p incipal medida de empo. A poesia é
a conc e ização desse ins an e, da nossa on ade de que e se ins an e. Ao in eja em-
nos a mo e, os deuses in ejam-nos a poesia.
Ao ala mos con inuamen e da mo e que apa ece e c is aliza esse ins an e
pa a o es o de uma ida, co emos o isco de oman iza esse ins an e, de o na

80
con enien e, senão necessá io, pa a um poe a passa po essa expe iência. Numa
pala a, a iscamo-nos a que uma si uação des as pa eça desejá el. De uma o ma
algo e apêu ica, a poesia é a i mada como bálsamo sal ado ao qual o poe a se
en ega, e sem o qual a sua mo e não se ia can ada, p esen e e conc e a. Mas a
poesia não é um bálsamo, ampouco uma e apia, mas é an es a mo e que nos su ge,
que i ompe e que se ai esc e endo sob e a ida, po cima da ida. A sua impo ância
es á em elação com a sua esis ência, e a sua esis ência elaciona-se com a sua
comple a inu ilidade. Como imos nas páginas iniciais, a poesia é semp e uma ocação,
nunca um abalho, uma comodidade, uma o ma p odu i a de u ilidade.
Em “O Ga o e” encon amos, po um lado, o momen o em que a mo e se dá
a conhece , e po ou o lado o poe a que se con on a com a inu ilidade da poesia
que lhe oi deixada como legado dessa mo e. Esse momen o de ensão su ge num
pequeno e so, na segunda es o e, em que du an e os a aques a que e am
na u almen e sujei os, o poe a a ce a al u a a es a: “Es ou p on o, pensei.” O
momen o de econhecimen o e pa a mais a ememo ação desse momen o de
econhecimen o a igu a-se impo an e enquan o o momen o em que a mo e su ge,
em que se dá à Mo e e a Mo e se dá ao e no poe a. Só é possí el es emunha a
mo e se nos p olonga mos pa a além dela, e não o con á io, ou seja, se a mo e se
eduzi apenas a esse seu ins an e, aquele em que ela su ge e po nós é acei e. O que
sob a a pa i daí? Que poe a es a após a sua mo e? Aquilo que es a, que pe deu
algo mas subsis e, é que se cons i ui como es emunho; aquilo que ai semp e en a
es emunha é ão somen e na medida do que pe deu, naquilo que já não é pa ilhá el
com o Ou o. A mo e que cai e i a algo a sob e quem cai, não exac amen e
quali icá el ou quan i icá el, mas exp essá el na suges ão, no agmen o, na pequena
pa e que eme e pa a algo mais, o po meno que é semp e ep esen a i o de alguma
coisa sem ep esen ação. Essa pe da e sepa ação, a queda numa somb a de si, pode
se esumida num simples: “Os meus olhos já o am b ilhan es.”
A insu iciência des e es emunho, a inu ilidade indeco osa da poesia oi já um
assun o la gamen e deba ido no úl imo século, o século da decla ação do im da
poesia e do silêncio poé ico pe an e as a ocidades come idas no Holocaus o. A
pe sis ência do li ismo e a insis ência da linguagem di a poé ica pa a exp imi o que
não e ia exp essão, uma expe iência de al o ma cáus ica que a ia pa e da sua
81
condição in iabiliza qualque es emunho que dela se izesse, pode su gi -nos como
um anac onismo ou um ac o de esis ência. O poe a econhece a sua agilidade, se
quise mos a é a sua i ele ância, quando sucessi amen e ai omando consciência do
alo do que esc e e:
“Sei aze alguns e sos mas nem semp e.
(…)
Sei aze e sos mas doem.
(…)
Vou pa a esc e e e pá o.
Deixei-me disso.
(…)
Sei aze e sos. Ou seja: nada.”
O econhecimen o da pob eza da poesia só pode se ei o no ac o da poesia, no
p óp io dize do poema, que su ge aqui pe o ma i amen e como ese, a gumen o e
exemplo. Pa ece apesa disso con adi ó io: a única o ma do poema mos a a sua
agilidade é expo -se enquan o poema, ab i a sua linguagem, mul iplica -se, o na -
se o mais ico possí el, e desde logo desimpedi qualque unção p agmá ica. As
memó ias que são in ocadas no poema e que lhe dão co po são p ecisamen e aquelas
que p o am a sua sob e i ência e que dão o ma ao seu desalen o: “Vou ica i o
encos ado/ a es a memó ia de ampa.”
82
IV: uma úl ima espi ação
pois o que a gen e busca
nas dob as do amo
é a cu a pa a a mo e
que não em consolo
“R., 1992”
É já sobejamen e conhecido o episódio ela ado po San o Agos inho nas suas
Con issões, ela i o à mo e de um seu amigo p óximo. Diz ele, lamen ando-se, que o
mundo pe de a qualque sen ido com a mo e desse seu amigo, e que em odas as
coisas do mundo ia a mo e. Es e ado amilia e dado adqui ido causa a em San o
Agos inho (como nos causa ambém) indignação e e ol a pa a com a o dem das
coisas, já que com a do e is eza dessa pe da ele pe de a aquilo que conside a se o
seu sen ido de medida, ou seja, a medida de Deus, a jus eza das coisas, o mundo como
ele é.
Des a o ma, a mo e daqueles que nos são que idos indigna-nos po dois
mo i os:
– em p imei o luga , somos con on ados com a ine i abilidade de i e o es o
da nossa ida sem a p esença, as pala as e os a ec os daquela pessoa que nos deixou,
Admi a a-me de que os es an es mo ais i essem, is o que aquele, que eu
ama a como se não hou e a de mo e , inha mo ido, e mais me admi a a que eu
con inuasse a i e depois de ele mo e , is o que eu e a o ou o ele. (…) Po que eu
sen ia que a minha alma e a alma dele e am uma só alma em dois co pos, e po isso a
ida e a pa a mim um ho o , po que eu não que ia i e po me ade, e al ez po isso
emia mo e , pa a que não mo esse o almen e aquele que eu mui o ama a.”
(AGOSTINHO, 2000: 137)
, e emo-nos assim ob igados a i e uma ou a ida, a muda mos as nossas
disposições, não a a és da sup essão ou subs i uição da al a que al pessoa nos az,
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mas em acei a essa al a como ela é, uma al a inapagá el, uma alha cuja undu a
se á an o mais encadean e quan o mais a en a mos encob i ;
- em segundo luga , indignamo-nos po pe cebe que, de ac o, i emos sem
essa pessoa. Não obs an e a do que sin amos, o desgos o que essa mo e nos cause,
não obs an e quão p o unda e malog ada a melancolia em que possamos cai , a ida
con inua, e a nossa ida segue, seguindo, com a mesma ingenuidade, quase desdém,
com que o Sol e a Lua ão e êm:
Eis que inha e ia o dia, e indo e indo semea a em mim ou as espe anças e
ou as memó ias e pouco a pouco me essa cia com os á ios p aze es de ou o a,
aos quais cedia aquela minha do ; mas não ocupa am o seu luga ou as do es,
mas sim ou as causas de ou as do es. (idem, 139)
O que dan es nos pa ecia impossí el, conc e izou-se. E o que sen imos não é
inc edulidade po e mo-lo conseguido (po que só o econhecemos depois de o
consegui mos, quando essa no a o ma de exis i já se ins alou, não nos
su p eendemos com aquilo que em nós é já assen e), mas um sen imen o de dí ida e
de culpa (schuld, a mesma pala a pa a os dois em alemão) pa a com a nossa ida nos
inícios do lu o, em que aquilo que omá amos como impossí el se o nou, en e os ios
e es as do empo, numa no a ealidade.
Da mesma o ma, os momen os em que lidamos com a ida, quando es amos
p es es a mo e , não o ins an e da mo e, mas a an ecâma a, as úl imas pala as, os
úl imos suspi os, os momen os que an ecedem a cla idade desse momen o, são
aqueles que pa ecem despe a -nos o maio mal-es a . E com oda a azão. De al
o ma o é que os lei os de mo e mais amosos endem a se aqueles que, de uma ou
ou a o ma, con a iam o desespe o e o so imen o que a chegada da mo e nos
inspi a. Sóc a es a isou os seus ap endizes pa a o galo que lhes deixa a como dí ida a
Asclépio. Tchékho no ou, segundos an es de mo e , o ac o de aze algum empo
que não bebia champanhe. São Lou enço, após e sido queimado i o du an e la go
empo num o no o u oso, disse aos seus cá ce es, ao inspecciona em o seu es ado,
que o podiam i a , po que um dos seus lados já es a a assado. A o ma com que cada
pessoa enca a a sua p óp ia mo e em implicações na pos e idade de cada um – se
90
deslizas sob e mim a é a cona
no meu ca alho a p umo descansa (p.18)
Ou no p aze da amilia idade do p óp io co po, companhei o cons an e de
suas des en u as:
amigos meus colhões quan o p aze
eio a é mim em ossa companhia
a ho a que i e já de mo e
mo a eliz po an a co esia (p.19)
Es a ele ação poé ica dos p aze es da ida encon a um seu con apon o
i ónico quando esses p aze es são negados, deixando assim a ida numa espécie de
espe a mais ou menos p olongada a é à mo e. Assim o suge e o qua o poema da
sé ie “Des e sos”:
Um comboio pode esconde ou o
e i a os ilmes de e o
deixa o Annapu na em paz
cuidado com o sal e as go du as
não a a esses no ama elo
mo e é mais do que su icien e (p.38)
Mas o can o da ida não se eduz à sua me a celeb ação ou à exal ação dos
p aze es da ca ne. Ao mesmo empo que a mo e é a as ada (sem nunca deixa de
es a p esen e) ao longo des e ilho hedonis a, o poe a az com que a ida se assuma
como uma esis ência con a a mo e, ao c ia ele mesmo uma esis ência ace à ida,
sob a o ma da c í ica, que se á a inal mais uma esis ência ao es ado das coisas,
deco en e de um comp omisso e paixão pela Vida e pelo Mundo.
Es e comp omisso, como a maio ia das coisas que emos is o ao longo des e
li o, é dúplice, eco en e na pe manência de diálogos en e si mesmo, de si pa a si, e
en e o es o das suas ci cuns âncias. O isco da poesia se a úl ima ala , de se a

91
úl ima a pode dize aquilo que só ela o sabe, o na qualque o ma de au o-
e ospec i a num g i o cla o, num edu o de esis ência – ou, como lhe chama á, um
“Úl imo Tesão” (p.43-44). En e a a -se po “bêbedo como um Baco de aldeia” e “um
adolescen e e a dado”, o poe a ala de si mesmo enquan o poe a – ou, pelo menos,
no seu acasso enquan o al:
ez po ou a um li inho
de e sos ez po ou a nada
qualque um do eu empo
es á bas an e melho que u
Pe cebemos depois que o e dadei o objec o de c í ica a que se e e e
não é ele mesmo, mas que ele unciona como um meio pa a a ingi o Ou o. A
in ansigência, descon iança e a é animosidade pa a com aqueles “do seu
empo” uncionam como um subs i u o de odos esses sen imen os em elação à
mo e, cujo desconhecimen o lhe não pe mi e a amilia idade de um pi e e
15
;
assim, i a as cos as à ida é simul aneamen e i a as cos as à mo e:
gua da o úl imo esão
pa a manda es
meia dúzia de canalhas à ábua .
Na e dade, não é só em Respi ação Assis ida, mas ao longo de oda a ob a,
que Assis Pacheco man ém um diálogo c í ico e aguçado sob e as con ingências do dia-
a-dia, ap oximando a é a poesia de uma ou a o ma de jo nalismo ou de epo agem,
ao incidi sob e assun os cuja si uação se pa ece es ingi a um empo mui o
pa icula , à no ícia do dia, ao caso da semana – o poema su ge como uma eacção ao
mundo que lhe acon ece à en e:
Es e minis o é um men i oso
que agonia quando ele discu sa
15
Ao con á io dos seus amigos, a quem se a oga de esboça “o maio pi e e do ano”, no
poema “Consolação, Peniche: Bo le-Neck Blues”. C . PACHECO, 2006: 146
92
e se osse só isso: bale sem jei o
às meias ho as seguidas – é não pá a! (p.36)
O olha a gu o sob e aquilo que se passa en e a espuma dos dias é
con apos a com eg essos ao passado, como po exemplo à gue a em que pa icipa
em Ca alabanza, a a és do qual exe ce um abalho mnemónico sob e a sua
expe iência, não an o a con aminação de um ca ác e iccional naquilo que ai
ela ando como a ce eza de que a memó ia pe du a, de que a expe iência pe du ou,
que o es emunho é ainda po isso u gen e. Alongamo-nos na ci ação, pa a que possa
se pa en e an o es a pe sis ência da memó ia como o el, a ama gu a p esen es nas
suas pala as:
T in a anos depois con inuo e ol adíssmo
V.ª Ex.ª oi de uma g ande al a de chá
nem eu p ecisa a de Angola – nunca!
nem Angola de mim – o que hoje pa ece cla o
V.ª Ex.ª a gumen a a nos co edo es
que e am o dens do d . Salaza
o a adeus mandasse-o mas é a ele
inha bom co po pa a apanha po ada
e mesmo V.ª Ex.ª podia e ei o
uma pe ninha como eu iz em Zala
não sou de anco es nem pouco mais ou menos
mas aquela me da es a a mal pa ada
(…)
a es a ho a já en e a am V.ª Ex.ª
com as compe en es hon as mili a es
mas a e dade é semp e pa a se dize
in a anos passados não me esqueço de nada (p.34-35)
93
É no ó io o om i ónico ao longo des es des e sos, com a apa en e de e ência
pa a com es a al Ex.ª, escusando a é o e náculo no seu a amen o (b ada “o a
adeus” ou a a o en io de opas pa a a gue a como “uma g ande al a de chá”), o
í ulo de “d .” cuidadosamen e a ibuído a Salaza , mas igualmen e um sen ido de
jus iça que apa ece aqui como o mo o do poema e ao mesmo empo o il o com que
compõe a sua memó ia – não sou de anco es mas… – denunciado pelo impe a i o
in ocado no inal do poema, segundo o qual “a e dade é semp e pa a se dize ”, essa
mesma e dade à qual à poesia az po e i a , mas que não deixa de coloca o poema
numa senda e sede de jus iça, ou pelo menos de p ocu a e comp eensão de um
sen ido que lhe o ganize a sua expe iência.
Es e eg esso à Gue a Colonial é ainda ma cado de o ma mais asse i a a
pa i do poema “Ben o Soa es” (p.48-49), que se e como uma segunda pa e ou um
epílogo ao poema “As Balas”. Se, nesse poema, encon á amos a bala que e a
desma cada, a ingindo o Soa es, que “en a a nos e sos já mo o”, nes e poema
encon amos esse mesmo episódio, exp esso com maio de alhe na a i o (o poema é
inclusi e esc i o em p osa). Não exis e p op iamen e uma elação de dependência ou
de subo dinação des e poema ace ao de “As Balas”, mas sim uma ou a o ma de
es emunho sob e o que acon eceu.
Começamos po no a que a chegada da mo e con inua a assumi um papel
p eponde an e, logo pela o ma como se inicia o ex o: “Aquele i o podia e sido pa a
mim.” É cu ioso epa a como no p imei o poema há uma ce eza na mo e que eio
pa a ele, mas que não se conc e izou na sua pleni ude, enquan o nes e poema se ab e
espaço pa a a dú ida (“Aquele i o podia e sido pa a mim”), pa a o acaso sis emá ico
em que a gue a se ai cons uindo. Não há nenhum des ino ou a alidade nes e
des echo, há apenas um desespe o au ológico das coisas se em como são po que é
assim que são as coisas – “Vin e cen íme os mais à di ei a e se ia eu a apanhá-lo. Não
ui”. O poema chega ao pon o de nega a é a al di e ença en e mo e e mo e , que
de inimos mais acima. O poe a a i ma, como e a cos ume, que “não chega a a minha
ho a” – o ins an e da mo e a inal não eio nem se conc e izou, não ins au ou nunca a
sua mo ada na expe iência in es emunhá el do poe a. Ha e ia luga pa a
suspei a mos: se essa ho a não chega a, se esse ins an e não acon eceu, en ão aquela
expe iência da mo e, que se ma ca a ão p o undamen e po não se pa ilhá el,
94
a inal não o e a po que nunca se deu seque ? O poema ai ao pon o de pa ece
dissol e a dis inção po nós de endida en e mo e e mo e , quando diz que um
soldado lhe ez “um ela o da mo e comple a do Soa es”; a mo e comple a, a
expe iência o al, sem hipó ese de qualque p esença, sem espaço pa a pa ilha ou
pa a es emunho. O luga em que habi a, com a comple ude dessa mo e, é o do
silêncio e do esquecimen o, a memó ia que é lemb ada po se omissa, po nunca
pode se e dadei amen e lemb ada. É impossí el can a a sua mo e, e qualque
en a i a se á um es o ço pálido e ingló io, que não ul apassa á igualmen e os
limia es da mudez: “Le ei anos a esquece e a eco da Ben o Soa es. O que es a dele
es á num poema an igo, que po pudo não leio nos an i ea os.”
Po que é ainda a inal sob e a mo e que alamos. Ao longo da iagem
dialogan e que Respi ação Assis ida ai ilhando, o poe a assinala os seus pon os
basila es, mapeando uma cons elação de a e os que lhe pe mi em cons i ui à ida o
amo e a paixão do qual a poesia é em si es emunha. Fala-se das amizades, daqueles
que se amam: em “A onso P aça”, daqueles que e am da amília an es de o se ,
“somen e não da am e a connosco/ po mo a em nou as geog a ias” (p.31); em
“Ad iano Gonçal es/ Bana”, daquele que quando “can a o dociamo / lá no céu acende-
se uma es ela” (p.32); o “Monsenho , Passando de Bicicle a”, pad e passeando pela
aldeia, “quem sabe/ pa en e dos meus nes e luga pequeno” (p.25); as memó ias dos
almoços de amília, jun os pa a a “Páscoa”, em que odos aqueles que e am memó ias
i as, o mas p esen es, são ago a esquícios de uma mo e que eio, de uma mo e
que es á pa a i ,
A senho a ia alisa a oalha
põe sob e ela alhe es mui o an igos
he dados dos a ós que a e a come
quan os anos passados des e dia
ainda es a emos como ago a jun os
na cozinha de Sangalhos
(…)
95
ao empo que is o oi (p.40)
, alamos po an o do empo que já passou e daquele que ainda não eio, na
pe icli an e indecisão da sua exis ência, em que an o se ala do a ô que eio pa a
Po ugal aze a ida (no poema “Sum Paxê. apon amen os do ne o”) como da
pe spec i a da sua p óp ia condição po i de a ô, no poema que começa
p ecisamen e com o e so “O que ai se a ô saúda- os”. O que une es es dois
poemas, e que ai soldando as linhas de odo es es poemas, é o olha cuidado e
saudoso pelas suas memó ias, os seus amigos, amília, p aze es e desgos os,
con apos os com a cons a ação de que ele em si se á b e emen e memó ias de
ou em, um sujei o ou objec o a se ememo ado po ou os, que a ão dele, quem
sabe, aquilo que ele ez com as memó ias das suas expe iências. Não ala íamos num
li o de ap endizagem, mas há ce amen e um econhecimen o impo an e po pa e
do poe a nes e li o: a sua ans o mação, com a mo e, em u u a ma é ia poé ica, ou
em pu o mo i o de paixão. Tal como o seu a ô, seus pais, Ben o Soa es, e ou as
excelências, ambém ele se á con e ido em pala a, quando ele po si já não ala . A
ausência que dele se sen e é uma p esença em di e ido, uma longa e ágil o ma de
es emunho aos que a segui a ele con inua ão a i e o que ele an o can ou:
ei-la aqui a ne a um ul o ainda
na ba iga da mãe
ambém ei a do que eu sou
e se quise des ó memó ias
o que no mundo
sob a de ós odas (p.57)
“Os Mel os Can o es de Pa dilhó” (p.58-59), o úl imo poema do li o, dá-nos
um cená io bucólico, na aldeia de Pa dilhó, numa manhã de uma “da a qualque ” de
Agos o. A sua con e sa – ou melho , lição – com os mel os que po lá andam, az
lemb a um ou o Assis, não de nome, mas de o igem, São F ancisco, e a sua
i emediá el a e nidade com o mundo – e nem essa a e nidade é aqui esquecida:
“P imos i mãos, não escondem o a ec o nem eu lhes pe doa ia al.” O poe a sen a-se e
espe a dos mel os o ensinamen o dos seus can os. A sua poesia, que semp e o a um

96
luga de á ias con e gências, eduz-se no inal a se uma ap endiz da linguagem das
a es. Ap endeu-lhes al ez o desapego da canção, mas há empo bas an e pa a sabe
que não há canção sem ele: “Pouca igilância, alen o dispe so: uma explica o ou o, e
ão i idos anos su icien es pa a eu não muda um míc on que seja.” A mo e que
pa a ele semp e eio, mas que al ez, quem sabe, al ez nunca i esse indo de odo, é
essa que ele espe a no inal, a cada momen o, po que a cada ins an e nos chega,
mesmo que não su ja, e em odas as coisas a emos e nos lemb amos dela – no can o
dos mel os, no ca o que já não se conduz, nos jan a es de amília, semp e numa
amilia idade ala man e, não a mo e silenciosa – muda – mas a mo e sob silêncio –
“su da”.
A Li e a u a é o nosso di ei o essencial à mo e, a possibilidade do
desapa ecimen o e da ans o mação naquele não-di o, naquele inde inido, no excesso
que nos compõe e nos (de) o ma. Olha e lida com esse excesso passa pela sua
pa ilha com os ou os, com aqueles que nos cons i uem o Eu, sendo Ou o, mesmo
que não es ejam aqui p esen es, mesmo que não nos ouçam – alamos imaginando
alguém, espe ando que alguém nos ouça e que ca egue connosco o es emunho dos
nossos seg edos; po isso con inuamos a esc e e . Se alguma coisa sob asse do que
aqui emos indo a dize , gos a íamos que osse que a Li e a u a é a mais ín ima
auscul ação da espi ação do Ou o, a o denação dos i mos e das paisagens in e io es
de cada um. O seu jogo é semp e o da a e nidade, e o seu empo é semp e o da
paciência. Toma o empo ao poema – aí es á o que ap endemos com a lei u a. Toma
o empo ao poema do mundo, ao con ínuo umo das coisas – é isso que nos al a
ap ende . “A p imei a exigência que nos az qualque ob a de a e é a de uma en ega.
Olha . Escu a . Recebe . Re i a mo-nos do caminho” (LEWIS, 2003: 33). É semp e
p eciso e i a mo-nos no caminho, desapa ece na ob a e em nome dela; que po
en e as pala as seja apenas deixado o as o da paixão que as compôs. Lemb emo-nos
da lei u a de De ida, ma cada po uma é ica que é impo an e não ol ida : le e
elaciona -me com ex os li e á ios é acima de udo uma lição de ole ância, de
pa ilha e de con iança. Pe mi i mo-nos à Mo e é deixa mo-nos à en ega e à Paixão
pelos ou os, numa elação que nos cabe não ompe , e numa con e sa a que nos cabe
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semp e esponde , e não deixa que acabe; já Assis Pacheco, não az da sua poesia
ou a coisa senão pa ilha, es emunho dessa comunhão, em que os poemas se dão
como p endas de casamen o, se ocam como coisas le es, ligei ezas esc i as,
inacabadas, es emunho da expe iência que se alha a con a , e po isso se con a de
no o, con ando, alhando, so endo, alhando e so endo, jun os, odos nós cúmplices
dos mesmos c imes.
98
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