T abalho de P oje o ap esen ado pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à
ob enção do g au de Mes e em Ciência Polí ica e Relações In e nacionais, especiali-
zação em Relações In e nacionais ealizado sob a o ien ação cien í ica do P o esso
Dou o An ónio Ho a Fe nandes e coo ien ação da Dou o a Júlia Ga aio.
Ve são co igida e melho ada após a sua de esa pública
We do in e nalize se e al dis inc and mu ually incompa ible se s o expec a ions. And
we do expe ience iden i y con lic s as we y simul aneously o wea se e al ha s.
Howe e , we should no ush o join in he cho us o le -wing p o esso basing. The
eal con adic ions o ou li es no wi hs anding, he adical academic is no an
oxymo on
Nancy F ase , Un uly P ac ices: …, p. 1.
Discu sos Mediá icos sob e o O ien e Violen o:
A iolência sexual na Sí ia e I aque enquan o eículo de Islamo obia em Po ugal
(2010-2015)
Ve ónica Isabel Ped o Fe ei a
[RESUMO]
As ep esen ações mediá icas da iolência sexual nos con li os da Sí ia e do I aque,
en e 2010 e 2015, são o caso de es udo que nos pe mi e es abelece as bases que
possibili a ão uma análise mais ab angen e sob e o papel do discu so na p odução e
ep odução de posições polí icas e sociais de ca iz islamo óbico. A a és da explo ação
das peças jo nalís icas, publicadas du an e o pe íodo mencionado em ês jo nais
po ugueses - o Público, o Exp esso, e o Co eio da Manhã online - pode emos oma
conhecimen o de alguns p essupos os, p econcei os e es e eó ipos ep oduzidos pela
comunicação social po uguesa que se o mam a pa i das es u u as e e o es
discu si os que in es iga emos pos e io men e. Nes e sen ido, o plano que aqui se
ap esen a em como obje i o es abelece as bases eó icas, me odológicas e empí icas da
in es igação a desen ol e . Pa indo da p emissa segundo a qual as ep esen ações
mediá icas nacionais con ibuem pa a uma isão es e eo ipada da mulhe muçulmana e
do p óp io Islão, con ibuindo assim pa a a ideia de uma mulhe ulne á el, í ima da
sociedade em que se inse e e da iolência do homem muçulmano, podemos assumi que
es e ipo de ep esen ações são uma o ma de iolência simbólica e epis émica que se
epe cu e e e i amen e na ida, e nos co pos, das mulhe es e dos homens al o de
disc iminação, nomeadamen e pela jus i icação que p opo cionam a polí icas de
es ição de asilo, nacionalidade ou imig ação, bem como polí icas impe ialis as de
in e enção nes es países. Uma das na a i as u ilizadas no p ocesso de legi imação de
ações polí icas ais como in e enções a madas é a p o eção das populações dos países
com quem se p e ende a a gue a. O a, de en e a população exis em g upos mais
ulne á eis cuja p o eção depende, segundo a na a i a, da in e enção mili a , é o caso
das mulhe es e c ianças, ins umen aliza-se, po an o, um ce o discu so de i imização
eminina com o obje i o de legi ima a in e enção mili a sob e o p e ex o da iolência
de géne o p a icada no P óximo e Médio O ien e. Es e p ocesso é ci cula e complexo,
na p á ica az pa e de uma ede dinâmica de elações de pode que se es abelecem en e
os indi íduos e as ins i uições a a és do discu so. Ou seja, as es u u as discu si as,
an o polí icas como económicas, cul u ais e sociais, que moldam o discu so p oduzido
e ep oduzido pelos media são sancionadas po ce as ins i uições eminis as ociden ais.
Pa a que seja possí el examiná-las numa in es igação é p imei o necessá io que se
analise o discu so dos media que não deixa de espelha o discu so ociden al, na medida
em que Po ugal se inse e den o des e espaço geopolí ico.
PALAVRAS-CHAVE: iolência sexual, o ien alismo, géne o, Sí ia, I aque, islamo obia,
discu sos
Media Discou ses abou he Violen Eas : Sexual Violence in Sy ia and I aq as a
ehicle o Islamophobia in Po ugal (2010-2015)
Ve ónica Isabel Ped o Fe ei a
[ABSTRACT]
The media ep esen a ions o sexual iolence in he con lic s o Sy ia and I aq, om
2010 o 2015, a e he case-s udy ha allows us o es ablish he basis ha will enable a
wide analysis o he ole o discou se in he p oduc ion and ep oduc ion o
islamophobic poli ical and social s ances. Th ough he examina ion o jou nalis ic
pieces, published du ing he a o emen ioned ime ame in h ee Po uguese newspape s
– Público, Exp esso, and Co eio da Manhã online – i is possible o acknowledge some
exis ing assump ions, p ejudices and s e eo ypes which a e ep oduced by he
Po uguese news media and bo n om he s uc u es and discu si e ec o s a ge ed o
u u e esea ch. The e o e, he p esen esea ch plan aims a c ea ing he heo e ical,
me hodological and empi ical g oundwo k o he ollowing in es iga ion. Taking in o
conside a ion he ac ha he na ional’s news media ep esen a ions con ibu e o a
s e eo ypical iew o Muslim women and Islam i sel , hus ein o cing in o he idea o
he ulne able woman as ic im o i s own socie y and Muslim men’s iolence, we can
sa ely assume hese kinds o ep esen a ions a e a o m o symbolic and epis emic
iolence wi h eal consequences in he li e, and bodies, o women and men a ge ed
wi h disc imina ion, namely he easons p o ided o jus i y asylum es ic ion,
na ionali y o immig a ion policies – as well as jus i ica ion o o impe ialis policies o
o eign in e en ion owa ds hese coun ies. One o he many na a i es used in he
p ocess o legi imizing poli ical ac ions such as mili a y in e en ions is he p o ec ion
o he in aded coun ies’ ci izens. Acco ding o he na a i e, among said ci izens he e
a e g oups which a e mo e ulne able and whose p o ec ion depends exclusi ely on
mili a y in e en ion, such is he case wi h women and child en. Thei p o ec ion is hen
ins umen alized in a emale ic imiza ion discou se aimed a legi imizing he
a o emen ioned mili a y in e en ion unde he p e ex o gende iolence p ac ices in
he Nea and Middle Eas . This p ocess is ci cula and complex, in p ac ice being pa o
a dynamic web o powe ela ions es ablished be ween indi iduals and ins i u ions
h ough discou se. Tha is, he discu si e s uc u es, be hey poli ical, economic, cul u al
o social, ha shape he discou se p oduc ion and ep oduc ion by he news media a e
sanc ioned by ce ain wes e n eminis ins i u ions. To examine hem in a u u e
in es iga ion i is i s necessa y o analyze he news media discou se which is, on i sel ,
a e lec ion o wes e n discou se, so a as Po ugal alls wi hin his geopoli ical space.
KEYWORDS: sexual iolence, o ien alism, gende , Sy ia, I aq, islamophobia,
discou ses
Con eúdo
In odução ......................................................................................................................... 1
I. A Violência Sexual de Géne o no O ien e aos Olhos do Ociden e: De inição do
Obje o de Es udo .............................................................................................................. 4
II. Análise c í ica do O ien alismo ao Géne o: Temá ica e P oblemá ica .................. 5
III. Violência Sexual ou o O ien e Violen o: Di agações em ol a do Es ado da A e 8
Concei o de iolência .................................................................................................... 8
O concei o de O ien alismo ........................................................................................ 24
O ien alismo sob a pe spe i a do Géne o ................................................................... 31
A Violência Sexual em pa icula ............................................................................... 40
O con ibu o do concei o de Géne o ........................................................................... 53
As Gue as do I aque e da Sí ia .................................................................................. 56
IV. In es igação P elimina ....................................................................................... 64
Obje i os, eo ia e me odologia .................................................................................. 64
Re lexões me odológicas: a análise de discu so nos media ........................................ 65
Análise dos discu sos: mé odo de pesquisa ................................................................ 66
Os discu sos dos media po ugueses: A iolência sexual na Sí ia e no I aque (2010 a
2015) ........................................................................................................................... 68
Público ..................................................................................................................... 68
Co eio da Manhã online ......................................................................................... 75
Exp esso .................................................................................................................. 80
Conca enando os esul ados ........................................................................................ 85
V. De inição Teó ica e Hipó eses ................................................................................. 92
VI. Rele ância do P oje o .......................................................................................... 96
Conside ações inais ....................................................................................................... 98
Bibliog a ia ................................................................................................................... 102
Apêndice A: En e is a ...................................................................................................... i
Apêndice B: C onologias ................................................................................................. ii
Lis a de Ab e ia u as
ACNUR – Al o Comissa iado das Nações Unidas pa a Re ugiados.
AI – Amnis ia In e nacional.
CDH – Conselho dos Di ei os Humanos.
FDUNL – Faculdade de Di ei o da Uni e sidade No a de Lisboa.
IASC – Uni ed Na ion In e -Agency S anding Commi ee.
MDH – Minis é io esponsá el pelos Di ei os Humanos no I aque.
NATO – No h A lan ic T ea y O ganiza ion.
OG – O ganização go e namen al.
ONG – O ganização não-go e namen al.
ONU – O ganização das Nações Unidas.
PYD – Pa iya Yekî iya Demok a (Pa ido de União Democ á ica).
RCS – Resolução do Conselho de Segu ança (das Nações Unidas).
RDC – República Democ á ica do Congo.
UNFPA – Uni ed Na ion Popula ion Fund.
Unice – Uni ed Na ions Child en’s Fund.
WHO – Wo ld Heal h O ganiza ion.
1
In odução
«Mulhe es p e e em mo e a se ioladas po mili an es do Es ado Islâmico»
(Liliana Coelho, Exp esso, 23/12/2014). O í ulo é sonan e, cap a-nos, con ida-nos à
empa ia pelas í imas e à epulsa con a os pe pe ado es. À p imei a is a pa ece-nos
apenas mais uma in o mação ace ca das a ocidades come idas no deco e da Gue a
Ci il da Sí ia.
No en an o, a análise c í ica ao í ulo da no ícia pe mi e-nos ques iona quais são
os p essupos os ine en es à a i mação. Não i emos no ácuo sociocul u al que o cul o
da in o mação supos amen e obje i a nos p e ende incu i , udo o que dizemos
enquad a-se num de e minado empo e espaço, num de e minado con ex o cul u al,
social e económico e é nessa medida que de emos analisa a cons ução dos discu sos
dos media. Es a conside ação é pa icula men e álida quando nos deb uçamos sob e os
discu sos mediá icos que se cons oem à ol a de um enómeno de iolência de géne o
num local que oi cons uído ao longo dos séculos como o Ou o – o P óximo e Médio
O ien e. Como a i mou Júlia Ga aio num es udo sob e a memó ia alemã das iolações
na Segunda Gue a Mundial, na análise aos discu sos sob e iolência sexual é essencial,
no momen o em que nos encon amos, analisa e descons ui as es a égias discu si as
e as no mas ep esen a i as e in e p e a i as ine en es ao espaço público em que esses
discu sos são c iados (Ga aio, 2013).
É necessá io descons ui as na a i as p esen es nos discu sos ace ca da
iolência sexual come ida em con li os que geog a icamen e se localizam nou o espaço
cul u al e social, a alia quais são as es u u as discu si as que os condicionam e
moldam, as suas implicações e dinâmicas e, inalmen e, a alia as suas consequências
enquan o inci ado as da p odução e ep odução de no mas e p á icas sociais. Tendo po
base que os discu sos enquan o p á icas sociais ( ex uais e não ex uais) dependem das
ins i uições que os ep oduzem, é impo an e analisa ao mesmo empo a p odução e
di ulgação dos mesmos, i.e., comp eende as sup amencionadas es u u as discu si as
(polí icas, económicas, ideológicas e sociais) e os seus e o es, i.e., ins i uições que os
supo am sejam elas as emp esas de comunicação social, a academia ou os mo imen os
sociais e polí icos.
Os discu sos são elações de pode que se es abelecem na sociedade
in luenciando-a mais ou menos de aco do com ci cuns âncias especí icas, uma delas é a
2
capacidade de esis ência a a és do ques ionamen o e de o mas de di ulgação de
conhecimen o al e na i as. Es a pe spe i a em como base a c ença na impo ância da
c iação, in e ação e impac o de odo o ipo de discu so, mesmo do académico, na
p á ica, is o é, a o ma como cons uímos e ep oduzimos a eo ia em implicações nas
ações e eações de odos os dias. O a, é p ecisamen e nes e sen ido que é p eciso e em
a enção que a abo dagem que u ilizamos não é inconsequen e, pois, pa a aseando
Gaya i Spi ak, oda a eo ia é uma p á ica (2008, p. 28).
A p odução académica c í ica p e ende deslinda as elações de pode que se
es abelecem na sociedade, ou seja, nas ins i uições e nos indi íduos que p oduzem e
ep oduzem no mas, incluindo na p óp ia academia. Nes e sen ido, uma das p incipais
p eocupações que se de e e na elabo ação de um p oje o, cujo obje i o é o e ece um
con ibu o pa a a análise dos discu sos ociden ais sob e o enómeno da iolência sexual
em países como a Sí ia e o I aque, é a posição c í ica em elação ao abalho académico
que em sido desen ol ido po académicas e académicos ociden ais, na medida em que
es es ambém azem pa e de uma cadeia de elações de pode . É impo an e, pois, no a
que enquan o au o a de um p oje o de in es igação que se des ina a encon a elações
de pode en e sociedades que o de êm e sociedades que êm sido al o de cons an e
inge ência ex e na, sou ob igada a aze uma decla ação de in e esses. Sendo eu opeia,
mesmo que pe encendo a um dos países com menos pode den o do espec o ociden al
eu opeu, e abo dando a emá ica do pós-colonialismo, conside o que é impo an e isa
que a minha in enção não é ala pelas pessoas que se inse em no di o espaço o ien al. O
que p e endo é, não obs an e, ap esen a uma c í ica ao discu so pa en e nas sociedades
di as ociden ais, incluindo, numa p imei a ase Po ugal. Os con ibu os do Sul Global
que u ilizo pa a cump i a a e a à qual me p oponho apenas con ibuí am pa a da uma
isão mais he e ogénea à c í ica. O obje i o úl imo, de qualque abalho c í ico, é en a
semp e, e na medida do possí el, que a p odução académica pe mi a e con ibua pa a
desen ol e uma pe spe i a é ica, an o na academia como na elabo ação dos discu sos
di undidos nos meios de comunicação, que espei e, dê oz e oiça aqueles que não se
conseguem aze ou i (Spi ak, 2008).
O que se p opõe no p esen e p oje o de in es igação é aça as linhas
o ien ado as de uma u u a in es igação e elabo a uma in es igação p elimina que
adian e algumas espos as às ques ões que se p e ende es uda pos e io men e. Pa i -se-
á, po an o, da ques ão de que o ma os media po ugueses, enquan o media ociden ais,
9
O concei o de iolência, obje o de ex ensa e lexão, en a em in e ação com
concei os ão as os como a gue a ou o pode (Ribei o, 2013, p. 9), o que o na a sua
discussão uma a e a ex emamen e complexa. Se se i e em conside ação a di iculdade
ine en e ao a o de de ini um concei o ão ab angen e, pe cebe -se-á o quão di ícil é
conside á-lo como um concei o ope a i o (Id, p. 7). Em p imei o luga , a iolência é
inco po ada num espec o que ai desde a mani es ação mais elada a é à demons ação
de o ça ísica mais lag an e, i.e., pode á mani es a -se a a és de o mas psicossociais,
ju ídicas, legais, ins i ucionais ou ísicas e o signi icado que adqui em a ia consoan e o
con ex o em que se inse e (Id, p. 8). Nes e sen ido, se á ú il delimi a o âmbi o no qual
se p e ende desen ol e o concei o de iolência endo em con a o obje i o da
in es igação que se p opõe ealiza . Po ou o lado, é impo an e e em con a o ca ác e
subje i o/obje i o e in e subje i o dos enómenos/mani es ações de iolência, ou seja,
se pa i mos do p incípio que a iolência é um meio pa a a ingi de e minado im, é
ine i á el que se pense na subje i idade/obje i idade do agen e execu o de iolência e
na subje i idade do ece o dessa mesma iolência, em cuja elação in e subje i a se
de e mina a e icácia e as consequências do a o iolen o. Conside a o con ex o e as
elações ine en es à iolência é enca á-la, em suma, «como um p ocesso» (Id., p. 8).
Des a o ma, in e essa-nos analisa duas o mas mui o especí icas de iolência: a
iolência ine en e ao enómeno bélico e a iolência obje i a das p á icas sociais e
polí icas, o mais e in o mais. A p imei a o ma se -nos-á ú il pa a comp eende o
enómeno da iolência sexual em con ex o de con li o a mado, sob e o qual se
deb uçam os discu sos que se analisa ão na in es igação p elimina . A segunda pe mi i -
nos-á a alia os discu sos enquan o na a i as di undidas e eiculadas na sociedade que
in luenciam e po ele são in luenciadas.
Começando po eco e às de inições de um dos mais in luen es ilóso os
a uais, Sla oj Žižek, des aca-se aquela que diz espei o, em p imei o luga , aos «a os de
c ime e de e o , con on os ci is e con li os in e nacionais», i.e., a « iolência
‘subje i a di e amen e isí el, exe cida po um agen e cla amen e iden i icá el» (Žižek,
2009, p. 9). Es e ipo ísico é o mais comummen e analisado an o po eó icos como
po leigos como a exp essão mais ób ia da iolência pa a o senso comum.
Pa a além da iolência subje i a, Žižek asse e a que a iolência pode, ainda, se
analisada como enómeno simbólico e sis émico (Id, p. 9-10). Es es dois ipos de
iolência são as causas p o undas das «explosões “i acionais” de iolência subje i a»
10
(Id, p. 10; e ambém pensamen o an e io de A end nes e sen ido em A end , 2014, p.
83/87), is o é, os enómenos de iolência isí el são a culminação des es dois ipos de
iolência no malizada e obje i a – na medida em que se e e em às es u u as sociais e
económicas em cujas epe cussões se aba em sob e as condições ma e iais da ida das
populações, ou seja, a sua ealidade.4
Aquilo que Žižek conside a iolência simbólica e sis émica são o mas ou
ins umen os obje i os de iolência. A iolência simbólica pa ece se um dos concei os
eo icamen e mais in e essan es, um sen ido que aliás já oi amplamen e explo ado po
ou os au o es. Na e dade, o concei o u ilizado pelo ilóso o eslo eno assemelha-se à
de inição de iolência simbólica do sociólogo ancês Pie e Bou dieu, na medida em
que o úl imo a de ine como o conjun o de es u u as obje i as e ep esen ações sociais
que cons i uem a dominação. O a, es as o mas de dominação es ão inc us adas no
ecido social e, po isso, não são o mas de dominação conscien es. Pa a ilus a es e
ipo de iolência o sociólogo ancês eco e ao exemplo da dominação masculina na
sociedade ociden al (Bo dieu, 2012). Es a o ma de iolência não se limi a apenas à sua
ace es a al mas es ende-se a odas as e en es da sociedade como é o caso dos meios
de comunicação social que aqui analisa emos em pa icula .
Ainda nes a linha, pode emos e semelhanças en e o concei o de iolência
simbólica de Žižek e o concei o de iolência cul u al de Johan Gal ung (Gal ung, 1990,
Ribei o, 2013, p. 10), es a úl ima e e indo-se a «[…] hose aspec s o cul u e, he
symbolic sphe e o ou exis ence – exempli ied by eligion and ideology, language and
a , empi ical science and o mal science (logic, ma hema ics) – ha can be used o
jus i y o legi imize di ec o s uc u al iolence» (Gal ung, 1990, p. 291). Com e ei o, a
iolência cul u al mani es a-se, segundo Žižek, em aspe os da cul u a moldando a nossa
o ma de enca a a iolência, o nando-a «[…] como o seu con á io, como a
espon aneidade do meio que habi amos, do a que espi amos» (Žižek, 2009, p. 39).
Concomi an emen e é impe a i o que se a en e na possibilidade de a associação
da iolência à cul u a, p econizada po Gal ung, pode se usada pa a legi ima no as
o mas de iolência, como é o caso da associação au omá ica que ce os discu sos e
4 Nes e aspe o em pa icula , Hannah A end (1906-1975) pa ece an ecipa , qua en a anos an es, a análise
do pe igo da dominação bu oc á ica pa a que Zizek apon a. Pa a es a análise mui a in luência i e am as
i ências da ilóso a na Alemanha da República de Weima e no Te cei o Reich, o expoen e máximo da
e icácia mo í e a da bu oc acia. Não obs an e, o pe igo da bu oc acia já o a explo ado nou as á eas
como é o caso da li e a u a, onde as ob as de Ka ka, ainda du an e o Impé io Aus o-húnga o são
pa adigmá icas, ide O P ocesso (1925).
11
pode es azem en e o Islão e a os de e o ismo, usando esses es e eó ipos, po
exemplo, pa a es ingi a en ada de mig an es económicos e e ugiados p o enien es
do Médio O ien e. Embo a o p óp io Gal ung en a ize que «en i e cul u es can ha dly
be classi ied as iolen ; his is one eason o p e e ing he exp ession ‘Aspec A o
cul u e C is an example o cul u al iolence’ o cul u al s e eo ypes like ‘cul u e C is
iolen ’» (Gal ung, 1990, p. 291), se i e mos em con a que a eligião é enca ada po
Gal ung como uma componen e da cul u a (Id., p. 296), e não uma cul u a em si,
acilmen e se pode á man e a p eocupação e e enciada.
Po ou o lado, a iolência simbólica de Gal ung é um concei o que não pode se
pensado sem o concei o de iolência es u u al do au o . Es e concei o, ambém ele
mui o semelhan e ao concei o de iolência obje i a de Žižek, e le e-se na ep essão que
as es u u as sociais exe cem sob e as pessoas impedindo o acesso das mesmas à jus iça
social. O a, uma p imei a c í ica que se pode á aze a ambos os concei os, e po
ex ensão aos de Žižek, p ende-se com es a mesma ideia em a iculação com a análise do
pode em Foucaul . Segundo es e úl imo au o , o pode disciplinado , aquele que ma ca
a sociedade em que i emos, c ia uma ede complexa de elações mu á eis, e e sí eis
e ins á eis e, po isso mesmo, não pode se possuída, ao in és ci cula e c ia modos de
subje i idade (Sø ensen, 2014). A no ma, enquan o ins umen o, é p esc i i a, de ine
uma o ma de compo amen o impe a i a que impele à con o midade. É a con o midade
à no ma que pe mi e aos indi íduos se em omados em con a enquan o co-sujei os nas
ações que omam du an e o dia-a-dia pe mi indo-lhe ap op ia -se da no ma e moldá-la
(Id., 2014). Assim, o que Foucaul nos diz ace ca das elações de pode é que es as
podem se pe igosas na medida em que e ão que se cons an emen e igiadas, caso
con á io pode ão da o igem a cená ios de iolência, is o é, a um es ado de dominação
(Id., 2014). Não obs an e, Foucaul pe mi e-nos pe cebe que den o das elações de
pode há semp e possibilidade de esis ência. Pa a comp eende mos as elações de
pode que ca ac e izam de e minado espaço- empo, de e emos ques iona quais são os
discu sos que legi imam es a elação de dominação, como se o ma am e quais são as
possibilidades de esis ência que nos o e ecem. A iolência ísica em Foucaul e le e-se
em mic op á icas quo idianas das ins i uições sob e os co pos das pessoas, é uma
iolência di usa, consensual e omnip esen e cons i uin e da es u u a social – e lexo do
biopode (Ribei o, 2013, p. 8; C . Foucaul , 2013).
12
A segunda c í ica à conceção zizekiana p ende-se com a sua u ilização do
concei o de iolência di ina desen ol ido po Benjamin. Es e concei o opõe-se ao
concei o de iolência mí ica. Se a iolência mí ica unda e man ém a lei, a iolência
di ina des ói a lei, mas, na aceção de Benjamin, es a é uma iolência não sang en a
po que se si ua o a do di ei o, ela p e ende expia a culpa da lei a a és de uma pu a
mani es ação – desp o ida de ca á e ins umen al. No ensaio de 1921 que dá co po a
es es pensamen os, Wal e Benjamin dá como exemplo de iolência di ina a e dadei a
e olução. É uma in e p e ação ap op ia i a – na aceção de Hannah A end – aquela que
le a Žižek a elaciona essa iolência a um a o de iolência popula . Segundo o pon o
de is a, es as i upções de iolência são demons ações de uma conceção/um
en endimen o de jus iça que se si ua além da lei (Žižek, 2009, p. 18/155; Benjamin,
1986, p. 297) e não a possibilidade de subs i uí-la po ou a, como pa ece se a posição
do ilóso o eslo eno, ou, na e minologia de Foucaul , po ou o Es ado de dominação.
A ideia de ambos, is o é, de Benjamin e do ilóso o eslo eno, é apa a es e ipo
de mani es ações da es e a ju ídica. Mas, enquan o a de inição de Wal e Benjamin
incide sob e o ca ác e ca á ico da iolência di ina enquan o des uido a do di ei o
expu gando o indi íduo da iolência mí ica – do im que a ins umen aliza e da
iolência ins umen al –, Žižek az uma análise ap op ia i a do concei o e associa-o a
odos os a os de esis ência/ ingança daqueles que se encon am sob jugo do di ei o mas
que, num linguagem hegeliana, não encon am econhecimen o ou a sua subs ância, po
ou as pala as, não conseguem a ualiza /obje i a a sua libe dade subje i a na
acionalidade da o dem é ica uni e sal (Žižek, 2009, p. 116). Em suma, encon am-se
p i ados dos seus di ei os e subs ância é ica, ou, como di ia Gaya i Spi ak, não êm
como me onimicamen e se sen i ou clama o di ei o de se pa e de um odo.
Concomi an emen e é possí el e a semelhança en e a iolência ju ídico-mí ica de
Wal e Benjamin e a iolência obje i a de Žižek.
No en an o, de e-se essal a o dis anciamen o empo al que exis e en e o
con empo âneo Žižek e os es an es ilóso os. Wal e Benjamin i eu num pe íodo
especialmen e ecundo da análise da iolência e da sobe ania nas suas mani es ações
o ali á ias, enquan o Žižek é con empo âneo de um mundo ob igado a oma
consciência de que a iolência dos excluídos se ai mul iplicando um pouco po odo o
Sul – seja ele e e en e aos países subdesen ol idos do hemis é io sul, ou àqueles que
13
se si uam numa posição subal e na den o dos países desen ol idos ou em
desen ol imen o.
A isão da iolência e olucioná ia de Benjamin é in luenciada pelos esc i os do
ana cossindicalis a Geo ge So el (1847-1922). É impo an e no a a di e ença en e a
conceção de iolência de So el, como o igem da elação en e o dominado e o
dominado , po que é a iolência que dá co po ou pe mi e a exis ência de um dominado,
e a conceção de F anz Fanon, pa a quem a iolência ma ca uma u u a en e o dominado
e o dominado (Wie o ka, 2009, p. 22).
Pa a o eó ico e olucioná io F anz Fanon, o mundo colonial só pode se
desa iado a a és da iolência absolu a (Fanon, 1963, p. 37). Es a posição é de endida
com base na di e ença en e a explo ação que o capi alismo le a a cabo nos países não-
colonizados e a dominação exe cida sob e as populações dos países colonizados pelas
au o idades coloniais. Fanon dis ingue as p á icas ins i ucionalizadas e ins i uições,
c iadas pelos capi alis as pa a man e as populações da me ópole explo adas numa
posição de submissão, sepa ando-as daqueles que de êm os meios de p odução, como
uma o ma de iolência es u u al/obje i a. Des a o ma, aquilo que ambém podemos
enca a como pode é impos o a a és de ins i uições e das suas mic op á icas de pode ,
de aco do com a ideia de Foucaul , embo a a conceção de Fanon se ap oxime mais da
iolência obje i a acima mencionada. Po ou o lado, segundo Fanon, o mesmo não
acon ece nos países colonizados, onde es a íamos pe an e uma iolência di e a de pu a
o ça: « he in e media y does no ligh en he opp ession, no seek o hide he
domina ion; he shows hem up and pu s hem in o p ac ice wi h he clea conscience o
an upholde o he peace; ye he is he b inge o iolence in o he home and in o he
mind o he na i e» (Id., p. 38). Es e é o es ado de dominação de Foucaul , em que a
única o ma de esis ência é a iolência. Pa a Fanon, os po os colonizados es ão
amilia izados com a pu a iolência a a és da expe iência colonial e a única o ma de
se libe a em é a a és dessa mesma iolência b u al:
The iolence which has uled o e he o de ing o he colonial wo ld,
which has ceaselessly d ummed he hy hm o he des uc ion o na i e social
o ms and b oken up wi hou ese e he sys ems o e e ence o he economy,
he cus oms o d ess and ex e nal li e, ha same iolence will be claimed and
aken o e by he na i e a he momen when, deciding o embody his o y in his
own pe son, he su ges in o he o bidden qua e s (Fanon, 1963, p.40).
14
Pa a Fanon, a agência dos colonizados depende assim da iolência b u a, é ela
que dá o igem à consciência e agência daqueles que o am í imas da iolência b u al
dos colonizado es. É o essen imen o, a in eja e o ódio que mo em os colonizados. Os
ou os são os op esso es, os colonizado es – es a isão dualis a do con li o exige uma
u u a a a és da sup essão do ou o (Id., p.40-41). Pa a Fanon, os colonizado es
se em-se ambém de uma dico omia de ca ác e maniqueís a ao e a a em as
sociedades na i as como insensí eis à é ica, onde os alo es não apenas es ão ausen es
como são nega i os. Os na i os são os inimigos dos alo es e nes e sen ido o mal
absolu o, o elemen o co osi o que udo des ói à sua ol a, o elemen o que des igu a a
beleza e a mo al, o deposi á io de pode es malé olos, o ins umen o inconscien e de
o ças cegas (Id., p. 41). Es a quase desumanização dos na i os e dos seus alo es le a à
iolen a a i mação da sup emacia dos alo es b ancos e à ag essi idade que pe meou a
i ó ia des es alo es sob e a ida dos na i os; daí a ingança dos na i os se o iso
pe an e esses alo es ociden ais (Id., p. 43). O a, endo em con a es a isão ace ca do
enómeno colonial, pensada em especí ico a pa i do caso da A gélia, não admi a que a
de inição de colonialismo a ançada po Fanon seja a seguin e: «[…] colonialism is no
a hinking machine, no a body endowed wi h easoning acul ies. I is iolence in i s
na u al s a e, and i will only yield when con on ed wi h g ea e iolence» (Id., p.61).
Diame almen e opos a é a análise de uma das mais in luen es ilóso as do
século XX, Hannah A end . Embo a enha c i icado o ensaio sup amencionado de
Wal e Benjamin, o seu On Violence desc e e o mesmo ca ác e ins umen al da
iolência. Pa a a ilóso a a iolência é um enómeno ins umen al jus i icá el, embo a
nunca legí imo, que depende de ins umen os que aumen em a capacidade des u i a da
po ência do agen e e cuja imp e isibilidade das ações dos a o es compo a um elemen o
de a bi a iedade de suma impo ância (A end , 2014, p. 14/17/51). Sendo um enómeno
ins umen al, a iolência inse e-se no domínio dos meios, e po isso não pode á se
conside ada um im em si, embo a um dos p oblemas mais analisados seja p ecisamen e
a possibilidade da au o agia dos ins pelos meios (Id., p. 56/85; C . Fe nandes; 2011).
Po conseguin e, a iolência é enca ada, pela ilóso a, como a capacidade de des uição
e, em úl ima análise, da mo e pu a e simples. O a, os seus es udos incidi am sob e udo
na ilegi imidade da iolência na polí ica, po oposição a au o es como Max Webe . Pa a
A end , o pode – a capacidade de agi conce adamen e e com au o idade (A end ,
15
2014, p. 49-50; Ribei o, 2013, p. 9)5 – legí imo não p essupõe a u ilização da iolência
como ins umen o polí ico. Den o des a linha, Michel Wie o ka dis ingue os concei os
de iolência e con li o, pois «o con li o não apenas não se con unde com a iolência,
mas ende, no essencial, a opo -se-lhe» (2004, p. 25 apud Ribei o, 2013, p. 9):
É impo an e isa que es a conceção de iolência como não legí ima é
o emen e ma cada pelas suas i ências, nomeadamen e a iolência nazi que
expe ienciou em solo eu opeu an es e du an e a Segunda Gue a Mundial. Hüppau
chama a a enção pa a a conexão en e mode nidade e iolência p ecisamen e a a és de
uma imagem símbolo da des uição nazi: «[…] he icon o mode niza ion and
indus ializa ion du ing he nine een h and ea ly wen ie h cen u ies, he smoking
chimney, has been iden i ied as he symbol o Auschwi z» (Hüppau , 1997, p. 4). Os
p ocessos de especialização e acionalização pe mi i am o planeamen o e execução da
iolência desumanizada do Holocaus o que in luenciou o abalho dos e e idos
pensado es do século XX.
A iolência de F anz Fanon e da no a esque da da segunda me ade do século
XX no seguimen o da Gue a do Vie name, i.e., a iolência e olucioná ia que inspi ou
os mo imen os es udan is da década de 1960, comen ada po Sa e, é c i icada po
A end não só po não e em con a as p óp ias e lexões de Ma x ace ca da iolência
como pela ilegi imidade da p óp ia solução iolen a. A ilóso a de endia que a iolência
só é u ilizada po aqueles a quem o pode escapa. É nes e aspe o que as suas e lexões
mais di e em das de au o es como Benjamin ou Žižek ao de ende em a iolência como
denominado comum an o ao pode ido como au o idade como àqueles que esis em
ao pode ins i uído, pois a iolência obje i a é apanágio daqueles que de êm o pode ,
enquan o as i upções de iolência subje i a são enómenos de esis ência e
ma e ializam-se pela impossibilidade de esis i de ou a o ma a um pode que se
en anha em odas as es e as da ida. Toda ia, é possí el encon a em A end uma
concessão nes e sen ido ao a i ma «[…] embo a eu me sin a inclinada a pensa que
g ande pa e da p esen e celeb ação da iolência em como causa uma us ação g a e
da aculdade de ação no mundo mode no» (A end , 2014, p. 87).
A iolência, al como se mani es ou no século XX, é, segundo os au o es acima
e e idos, um enómeno/pila cons u o da mode nidade. Como a iança Be nd Hüppau
5 Pa a A end só é possí el associa pode e iolência se se conside a que o Es ado é um ins umen o de
op essão nas mãos da classe dominan e, de aco do com o pensamen o de Ma x (Id., p. 41-42).
16
«[…] iolence […] was no longe unde s ood in e ms o indi idual ac s o de ian
beha io bu as a cons i u i e elemen o he e y p ocess o cons uc ing and ela ing o
eali y unde condi ions o mode n Wes e n ci iliza ion» (1997, p. 2). O a, a iolência
como elemen o in ínseco à cons ução da mode nidade Ociden al es á ligado à
sepa ação en e o que se conside a iolência legí ima e o que é ido como iolência
ilegí ima, sendo a p imei a odos os a os que, inse idos na na a i a ci ilizado a do
Ociden e, c iam as condições pa a ex ingui a p óp ia iolência, a a és de um p ocesso
e a ado na na a i a como pací ico/c iado de paz (Hüppau , 1997, p.11; e ambém
Said, 2003, p. x i). Segundo Hüppau , pensado es como Ma x e Fanon ambém se
inse em nes a conceção mode na pois pa ilham a isão do ca á e necessá io da ação
iolen a na c iação de uma o dem mais jus a e pací ica (c . Hüppau , 1997, p. 14).
A ualmen e as in e enções in e nacionais sob o lema «ob igação de p o ege » são o
expoen e mais emblemá ico des a conceção da iolência legí ima. Po seu lado,
Hüppau de ende que a iolência ilegí ima é cons uída como o Ou o espacial e
empo al, a a és das « écnicas de elegação», que pe mi em que a iolência seja is a
na Mode nidade como exceção inda de ou os locais ou empos e que ep esen am po
isso mesmo um eg esso à ba bá ie (Hüppau , pp. 2-4; 6; 11; e ambém pensamen o
de Kaldo , 2013). Conside a-se assim que a iolência se á e adicada (Elias 1976 apud
Ribei o, 2013, p. 7) a a és do p ocesso de mode nização enquan o p ocesso ci ilizado
que se baseia na in e io ização e au ocoe ção con o me as no mas socie ais,
possibili ado pela o ça das ideias e modos de con olo cole i o (Muchembled, 2014, p.
274; Ribei o, 2013, p. 7; C . Foucal , 2013).
Es a isão da iolência como algo que se inse e na na a i a ci ilizado a ou se
si ua no ou o bá ba o/ eg esso bá ba o, de ido a um enómeno indi idual, alheio à
his ó ia nacional ou a uma ideologia de endida, alha em e a dimensão es u u al da
iolência numa sociedade ecnológica (Hüppau , 1997, pp. 10-11; Ribei o, 2013, p. 18-
19).
Não podemos deixa de no a que es a análise é mui o ú il pa a en ende a
manei a como a iolência sexual nos con li os ende a se analisada nos media
ociden ais, is o é, como um sinal de ba bá ie e a aso cul u al (pa ia cado) o a da
17
mode nidade ociden al, como se no a exempla men e na cobe u a mediá ica ao egime
alibã ou ao Daesh (Ah am, 2015, p. 58).6
Não obs an e, exis em ou as análises que elacionam a iolência com a cul u a,
como é o caso de Sigmund F eud e Wol gang So sky (Ribei o, 2013, p. 5-7). Como
e e e Sousa Ribei o, essa elação de simbiose é isí el nas elações de colonialidade
(2013, p. 7), e nes e caso uma ques ão pe inen e é «[…] sabe de que o ma é que a
cul u a enquan o domínio e di e si icação c escen es de écnicas, ins umen os e
linguagens, e enquan o p odução imagina i a, con ibui pa a a expansão de o mas de
iolência». Bas a pensa no exemplo dos meios de comunicação mediá ica (Id., p. 7).
Ou seja, é, po an o, necessá io pe cebe que a cul u a é, ambém, um local de p odução
e ep odução da iolência, não apenas de supe ação (Id., p. 9) – se é que o é de ac o.
É nes e con ex o que ale a pena ol a ao pensamen o de Sla oj Žižek, que,
con a iando as na a i as dominan es nos media ociden ais, analisa a « iolência
islâmica» a ual como um enómeno mode no.7
O au o analisa o enómeno con empo âneo da iolência do Daesh a as ando-se
de pe ceções popula es que olham a sua iolência como ba bá ie, mani es ação de uma
cul u a e óg ada, p é-mode na, algo de um passado do qual o «mundo ci ilizado» já se
a as a a. Conside a ainda que a iolência e olucioná ia es á po de ás de odo o
undamen alismo islâmico, já que se esume a uma mani es ação da alha da esque da
libe al na con ao ensi a ao libe alismo/capi alismo (Žižek, 2015, p. 21).
A pe spe i a de endida po Sla oj Žižek não deixa de se anali icamen e
in e essan e, pois pe mi e inse i os mo imen os polí icos islâmicos den o do
6 Fazendo uma b e e no a de escla ecimen o, os nomes pelos quais o g upo em sido denominado
a ia am desde a sua media ização. Su gindo como Es ado Islâmico do I aque e Le an e (EIIL, em inglês
Islamic S a e o I aq and he Le an – ISIL) nas p imei as no ícias, é eco en emen e apelidado de
Daesh, o equi alen e de EIIL em á abe. Com a omada de Mossul o g upo au op oclamou-se
simplesmen e Es ado Islâmico (Islamic S a e, em inglês é mais usual denominá-lo Islamic S a e o I aq
and Sy ia – ISIS). No p esen e abalho, op ou-se po usa a exp essão Daesh po não se econhece o
es a u o de Es ado Islâmico, u iliza -se-á es a úl ima denominação apenas em ci ações e í ulos de no ícias
que a incluam.
7 Na e dade, exis em á ias análises que nos pe mi em associa o Daesh à mode nidade. Nomeadamen e,
no que conce ne à u ilização de meios de comunicação de massas mode nos como eículo de p opaganda
e dou inação, sendo auxiliado pelos p óp ios meios de comunicação ociden ais seden os de imagens do
con li o ( ide: h p://www. hegua dian.com/wo ld/2014/oc /07/isis-media-machine-p opaganda-wa ). Po
ou o lado, a cons ução da sua na a i a como na a i a al e na i a ou con a na a i a é, na sua base,
mode na enquan o espos a à mode nidade hegemónica ociden al ( ide
h p://www.ny imes.com/2015/02/19/opinion/ he-isis- hea e -o -c uel y.h ml). Pa a além disso, o Daesh
des ói es ígios his ó icos conside ados he eges, i.e., que não obedecem à na a i a/ideia de Islão po
eles de endida, nas ão a amadas e explo adas a ní el mediá ico, explosões de iolência subje i a.
18
enquad amen o polí ico-concep ual da mode nidade (Id., p. 24). Não deixando de se a
isão de um ociden al sob e o o ien e, o ilóso o asse e a que, «[…] em seg edo, [os
mo imen os polí icos islâmicos] já in e io iza am os nossos pad ões e medem-se po
eles» (Id., p. 19),8 ou seja, são uma espos a às ca ego ias que egem a polí ica ociden al
mode na, o que ejei am é a conceção de polí ica que ingou desde o século XIX – a
biopolí ica (Id., p. 24; Esposi o, 2007). Eles ence am assim uma ce a dose de
mode nidade e esis ência.
O in e esse da análise do Daesh (al-Dawlah al-Islamīyah), é p ecisamen e a
en a i a do mo imen o insu ecional de i a en idade polí ica es abelecida nos moldes
de um Es ado mode no. Ou an es, es a é a sua o ma de lida com a p essão
mode nizado a da sociedade global. É ao mesmo empo uma o ma de esis ência e uma
inco po ação dos pad ões da mode nidade ociden al.
Se olha mos pa a o g upo como um mo imen o adicionalis a, não conseguimos
comp eende a sua decisão de, sob a denominação enganado a de cali ado, o ma uma
en idade polí ica o ganizada na ealidade nos moldes de um Es ado mode no, cuja
o igem é inega elmen e ociden al. De ac o, o ocábulo al-Dawlah é a pala a á abe
pa a denomina o que en endemos po Es ado mode no, em con aposição à che ia
adicional (Ayubi, 2008, p. 15; 19). Es a iolência já não se pode associa sem e lexão
c í ica à pu a mani es ação de Benjamin e de Žižek, mas an es à iolência sobe ana de
Schmi . O que o g upo p e ende em úl ima análise é o es abelecimen o de uma en idade
polí ica es a al.
O Es ado pode, ambém, se enca ado como uma en idade que de e mina as
p e oga i as ine en es ao concei o de cidadania, de pe ença à comunidade polí ica. Se
de e mina quem pe ence, po um lado, ambém de e mina quem se exclui da ca ego ia,
po ou o, ou seja, quem não pe ence à comunidade polí ica de o ma passi a ou a i a,
na medida em que expulsa aqueles que não se inse em nos pa âme os ju ídicos da
cidadania (Bu le , 2012, p. 8-9). Is o é álido não só pa a aqueles que se localizam à
ma gem do Es ado, no seu ex e io , como pa a os apá idas ou e ugiados, como aqueles
que den o do Es ado escapam às ob igações e p o eções do Es ado po não possuí em a
cidadania, ou, po ou as pala as, po que não p eenchem ou cump em de e minadas
ca ego ias no ma i as como, po exemplo, os imig an es ilegais ou memb os de
8 I álico nosso.
25
O discu so é en endido, de aco do com a conceção oucaul iana, como uma
na a i a p oduzida, con olada, selecionada, o ganizada e dis ibuída numa sociedade
de aco do com ce o núme o de p ocedimen os cujo obje i o é expiá-la dos seus pode es
e pe igos, domina os acon ecimen os e a sua ma e ialidade (Foucaul , 1997, pp. 9-10).
Na nossa sociedade, a p odução dos discu sos es á limi ada po ce os p ocedimen os
ex e nos e in e nos. O p incipal é a on ade de e dade (Id., p. 17) e o con olo exe cido
sob e os indi íduos que o p oduzem e que a ele êm acesso (Id., p. 29). Den o des a
lógica, pe cebem-se as azões que le am os discu sos dos media a se em al o de
acusações po se em «[…] new and au onomous o ms o powe – he ‘ ou h es a e’ –
o a leas being in he se ice o he economic and poli ical powe s in gene al, o being
ideological appa a uses ha gua an ee he ep oduc ion o social domina ion, o o
using a symbolic iolence ha gua an ees he aliena ion o hose who a e domina ed bu
who do no e en ha e he ca ego ies ha migh allow hem o ealize i » (Wie o ka,
2009, p. 67). Es a g elha de análise é ex emamen e pe inen e nas emá icas, aqui
analisadas, da sexualidade e da polí ica (Foucaul , 1997, p. 10), endo em con a que o
au o es a a cien e do ca ác e iolen o do discu so como imposição (1997, p. 40).
Ac esce aos p oblemas do discu so enquan o meio de dominação a
ep esen ação daqueles que não se podem ep esen a . Aqui o discu so é,
concomi an emen e, uma o ma de ala po que elimina a agência dos dominados já
que es es não êm capacidade/pode de ala po si. São aqui jogados á ios ipos de
iolência, incluindo a epis émica.
Mas onde é que a iolência se epe cu e na p á ica? A espos a é bas an e
simples: no co po. O co po enquan o enómeno social e que, como e e e Judi h Bu le ,
se encon a expos o aos ou os – ulne á el e dependen e das condições sociais e
ins i uições que o odeiam (Bu le , 2009, p. 33; Slo e dijk, 2013, p. 112). O co po não é
condicionado apenas pelas escolhas pessoais po que os cons angimen os sociais são
in ínsecos a essa escolha (Asad, 2009, p. 30). Asad conside a que, pa a o Ociden e, o
co po é uma p op iedade do indi íduo, no sen ido ju ídico que cada pessoa possui o seu
co po, é dele p op ie á io, e po isso o espasse ou a explo ação sexual do co po de
uma pessoa são ma é ias de g ande in e esse e al o de g ande p eocupação pa a os
ociden ais (Id., 2009, p. 28). O mesmo se passa com o concei o de libe dade (Ibid.), que,
ambém ele sendo uma o ma de p op iedade inaliená el ao seu co po i en e, pe mi e
ao homem dispo do seu co po, a eição e discu so como p op iedades pessoais que o
26
cons i uem como pessoa (Id., p. 30). Segundo o au o , ao con á io do mundo
muçulmano em que o concei o undamen al de dis upção social é a sedução (Ibid.)
de ido à pe da de au ocon olo do indi íduo e subsequen e iolência e discó dia social
que daí ad enha (Id., p.44), na sociedade libe al é a iolação do co po, com in en os
sexuais, con a a on ade indi idual que cons i ui c ime con a o di ei o de p op iedade
e uma o ma de iolência. A manipulação do desejo do indi íduo não é conside ada pelo
mundo libe al ociden al como um c ime, na medida em que essa manipulação é
undamen al ao desen ol imen o de uma sociedade capi alis a mode na. A democ acia
de me cado depende da pe da de con olo do consumido e o p óp io uncionamen o do
sis ema polí ico é baseado na capacidade de os polí icos seduzi em os seus elei o es
(Ibid.).
Numa p imei a lei u a, o au o pa ece en e eda po uma ce a me a o ização da
sexualidade, co endo o isco de es azia as elações de pode que pau am as elações
ísicas en e co pos sexualmen e ma cados, eduzidos a signos ao se iço da c í ica a um
de e minado sis ema económica. Pois, se é impo an e analisa o impac o do sis ema
económico, social e polí ico nas es u u as discu si as e de pensamen o que pau am a
sociedade ociden al ambém não se pode á esquece o impac o da iolência nos co pos
das í imas – em úl ima análise a ameaça é exis encial. Ao mesmo empo é impo an e
essal a ambém ou os p oblemas que ad êm des a abo dagem, pois se é e dade que
a gene alização de ce os discu sos no di o «Ociden e» p oduzem e ep oduzem uma
ce a isão do «O ien e» à qual denominamos O ien alismo, não deixa de se menos
e dade que a exis ência de um discu so que gene alize o pensamen o do «Ociden e»
não deixa de inco e no mesmo ipo de p oblema ao p oduzi e ep oduzi uma ce a
isão do mesmo, pa a a qual Edwa d Said ale a denominando-a Ociden alismo (Said,
2003, p. 330-331).13 Po ou as pala as, pa a se mos in elec ualmen e hones os e emos
que e em con a a exis ência de discu sos al e na i os an o no Ociden e como no
O ien e e e e i mo-nos ao discu so analisado po Asad como um ce o discu so
ociden al hegemónico, embo a não possamos deixa de no a que de ce a o ma, ao
gene aliza as isões do O ien e e ao de ini uma dico omia en e Ociden e e O ien e,
ambém ele, à sua manei a, ep oduz um discu so O ien alis a.
13 A e e ência ei a po Said espondia às c í icas que liam o seu li o como sendo um an i-
Ociden alismo. O au o a gumen a que essas c í icas pa iam de «[…] he claim impu ed o me ha he
phenomenon o O ien alism is a synecdoche, o minia u e symbol, o he en i e Wes , and indeed ough o
be aken o ep esen he Wes as a whole» (Said, 2003, p. 331).
27
Di -se-ia mais, po ou o lado, que ao sis ema desc i o po Asad co esponde, ao
mesmo empo, uma despoli ização da população que a a és da media ização é sujei a
ao domínio polí ico-bu oc á ico que elimina da discussão pública as ques ões p á icas e
que acaba com a opinião pública (Habe mas, 2013, p. 71, pp. 122-123). O a, é es a
bu oc acia écnico-cien í ica que decide os assun os polí icos e as opiniões dos seus
pe i os (Slo e dijk, 2014, p. 113) que pe passam a a és dos media.
No assun o que aqui abo damos ale a pena e em conside ação a in luência de
alguns desses pe i os ou bu oc a as écnico-cien í icos – os O ien alis as. São
p ecisamen e es es pe i os, o ma ados pelo mesmo ipo de discu so c i icado po
Edwa d Said que in luenciam não só as polí icas ociden ais como as opiniões da p óp ia
população, que, em g ande pa e, as enca a como e dades obje i as legi imadas pelas
ins i uições académicas. Aliás, es a c í ica oi sublinhada po Edwa d Said em 2003
aquando da II Gue a do Gol o. Segundo Said « he e is, a e all, a p o ound di e ence
be ween he will o unde s and o pu poses o co-exis ence and humanis ic enla gemen
o ho izons, and he will o domina e o he pu poses o con ol and ex e nal
dominion». No caso da II Gue a do Gol o, o conhecimen o dos académicos
o ien alis as – alguns apoian es explíci os da in asão – o a usado e nalguns casos
ins umen alizado pa a ins de con olo e dominação de um país do Sul. A gue a con a
o I aque oi, nes e sen ido, «[…] an impe ialis wa con ec ed by a small g oup o
unelec ed US o icials ( hey' e been called chickenhawks, since none o hem e e
se ed in he mili a y) […] bu disguised o i s ue in en , has ened and easoned o
by O ien alis s who be ayed hei calling as schola s» (2003, p. x ).
Nes e âmbi o, a ida polí ica passou a se de e minada po uns quan os
especialis as, pe i os e écnicos cuja au o idade de i a dos conhecimen os que possuem
– den o do esquema sabe /pode oucaul iano (C . Foucaul , 2014). As polí icas
públicas in luenciadas po es es especialis as ogem ao deba e da população, ida como
pouco in o mada, con ibuindo pa a a despoli ização da população, is o é, a polí ica
deixou de se um espaço de discussão de al e na i as den o de uma comunidade plu al
pa a se o na na me a ges ão da ida onde a écnica e o conhecimen o se sob epõem ao
deba e ap esen ando-se como a única al e na i a iá el – a es a ges ão despoli izada da
ida humana chamamos de biopolí ica pós-polí ica (C . Agamben, 2007; Habe mas,
2013; Ranciè e, 1999; Žižek, 2009, p. 43).
28
Concomi an emen e, e a iculando a análise com o concei o de iden idade e
pe ença, já an es aludido, a p óp ia comunidade polí ica que se cons i ui em oposição a
ou o desen ol e um sen imen o de pe ença e esponsabilidade pa a com os seus
memb os – aqueles que se assemelham a mim (Bu le , 2009, p. 36). Es a iden idade e
sen imen o de pe ença que in luencia a di eção e a nossa capacidade de a e o, ou seja, a
nossa capacidade de nos compadece mos pa a com o so imen o em uma eno me
impo ância polí ica (Id., p. 46).14
Peguemos num ce o discu so ancês como exemplo ex emo, um discu so que,
oda ia, em uma his ó ia de de esa de alo es epublicanos laicos que di icilmen e
encon a pa alelo nou os países ociden ais (e se encon a quase numa posição de
oposição ao que se e i ica em países como os Es ados Unidos). O a, apesa da sua
especi icidade e do ac o de con a com uma his ó ia longa e complexa no con ex o da
o mação do Es ado ancês mode no e das suas elações com a Ig eja Ca ólica, esse
discu so ancês não deixa, po ém, de se um bom pon o de pa ida pa a uma análise de
um ce o O ien alismo eu opeu.
O discu so laico ancês do p esen e é um discu so pa icula men e in e essan e
den o do Ociden e, que se a eiga ele p óp io de ca ác e uni e salis a,
ins umen alizando e manipulando es es alo es na desquali icação de uma pa e da
população, e.g. a a-se de um discu so epublicano ancês que dis ingue os ‘bons’ dos
‘maus’ anceses, sendo os ‘bons’ aqueles que de endem a laicidade ou a libe dade de
exp essão e os ‘maus’ os ‘imig an es, os comuni a is as, islami as, in ole an es, sexis as
e c’ (C . Ranciè e, 2015).15 De aco do com Jacques Ranciè e, os g andes alo es
uni e sais como a laicidade, a igualdade legal, a igualdade en e homens e mulhe es
uncionam a ualmen e como ins umen o de uma dis inção en e «nós», que ade imos a
odos es es alo es, e «eles», que não os espei am, po ou as pala as acabam po
se i como a gumen os xenó obos e acis as (Ibid.). A laicidade do Es ado ancês
pe mi e e como a ualmen e essa componen e da mode nidade es á a se usada como
14 Tendo em con a Talal Asad, a nossa espos a mo al, que oma a o ma de a e o, é egulada aci amen e
po ce os ipos de enquad amen os in e p e a i os (se nos si uamos no Ociden e ou no O ien e), o que
sen imos é condicionado pela manei a como in e p e amos o mundo e a manei a como in e p e amos
al e a a manei a como sen imos (Bu le , 2009, p. 41)
15 É necessá io a en a no con ex o his ó ico, cul u al e social que pe mi iu a exis ência da laicidade
ancesa – a lu a con a a Ig eja e a Mona quia no con ex o e olucioná io ancês dos séculos XVIII e
XIX –, bem como nas a iações do discu so de laicidade den o do espec o polí ico-pa idá io ancês –
en e a laicidade da ex ema-di ei a, di ecionada unicamen e con a a eligião islâmica e que exal a o
passado/o igens c is ãs, e a ex ema esque da, que se posiciona con a a inge ência de qualque eligião
no espaço público.
29
elemen o do discu so de exclusão de ce as comunidades. O a, as epe cussões des e
discu so são ób ias, an o pa a as comunidades que i em em F ança como pa a aquelas
que i em nos seus países de o igem no Mag ebe, P óximo e Médio O ien e. Um dos
exemplos da ins umen alização do discu so eminis a secula e ociden al a iculado
com o uni e salismo do epublicanismo ancês na de inição da polí ica de mig ação,
nomeadamen e ao ní el da jus i icação pública, é-nos dado po Mi iam Tick in (2008) –
e se á analisado na subseção seguin e.
Como se e i icou sob e udo no escaldo dos a en ados de Pa is, p imei o à sede
da e is a sa í ica Cha lie Hebdo em janei o de 2015 e em no emb o do mesmo ano a
á ios pon os da cidade, em nume osos discu sos de de esa da laicidade, es a em-se
o nado ambém um eículo (ou al ez p e ex o) pa a a p opagação da islamo obia, com
o Islão a se suma iamen e equipa ado a uma isão do mundo dogmá ica e iolen a
a essa à con i ência com a di e ença e à laicidade. Ou seja, em ce os discu sos os
assassinos de Cha lie Hebdo e os pe pe ado es do a en ado de no emb o são
ans o mados no pa adigma do se muçulmano, uma equipa ação de ca ác e
islamo óbico. Como e e e a a i is a ca alã B igi e Vasallo, a islamo obia de ine-se
como «[…] los p ejuicios y el miedo con a el islam y las pe sonas musulmanas»
(Vasallo, 2015). Assim, as a i udes islamo óbicas mais equen es, segundo o hink ank
Runnymede T us 16 são: 1) comp eende o Islão/os muçulmanos como uma en idade
monolí ica ou es á ica, incapaz de se adap a a no as ealidades; 2) en endê-los como
di e en es, sepa ados e independen es, não in luenciados po a o es cul u ais e sem
alo es comuns com ou as cul u as; 3) en endê-los como in e io es, bá ba os,
i acionais, p imi i os e sexis as; 4) ê-los como inimigos ag essi os, animosos, aliados
ao e o ismo e choque de ci ilizações; 5) en ende o Islão como ideologia polí ica ou
mili a ; 6) ejei a sem qualque conside ação qualque c í ica ei a na Eu opa po
pessoas ou en idades muçulmanas; 7) jus i ica p á icas disc imina ó ias con a
muçulmanos e 8) en ende a hos ilidade con a muçulmanos ou o Islão como algo
«na u al» (Runnymede T us , 1997 apud Vasallo, 2015).
É impo an e, no en an o, isa que quando alamos em muçulmanos es amos a
ala de «[…] odo el mundo que sea leído, co ec amen e o inco ec a, como al», o
que implica que odas as pessoas is as como muçulmanas, ainda que a eias ou não
16 Ve es udo comple o sob e a Islamo obia da Runnymede T us em
h p://www. unnymede us .o g/uploads/publica ions/pd s/islamophobia.pd .
30
eligiosas, sejam isadas pela islamo obia. O mesmo se aplica às pessoas is as como
á abes independen emen e da sua con issão eligiosa, e odas aquelas que
independen emen e da sua adição cul u al ou e nia so am des e ipo de
p econcei o/es e eó ipo, i.e., amazigh, cu das e c. (Vasallo, 2015). Não se em, po an o,
em con a a iden i icação pessoal de cada um. A islamo obia é assim um a o
p econcei uoso e sus en ado em es e eó ipos que nega agência às pessoas al o e igno a
as suas iden idades pessoais di e sas.
A islamo obia não é, po ém, um concei o ecen e. De aco do com Fe nando B.
López «[…] he e m is a leas a hund ed yea s old» (López, 2011, pp. 6/19). O e mo
já ha ia sido explo ado po au o es do século XIX e XX e designa a a a i ude dos
eu opeus, de e a a o Islão e os muçulmanos como os inimigos absolu os, e e nos e
implacá eis a C is andade, dos c is ãos, dos eu opeus e da Eu opa (Id., pp. 19-20). Pa a
López, a islamo obia não é em si nem uma o ma de in ole ância eligiosa nem uma
o ma de acismo biológico/ acismo cul u al, embo a em ce as ci cuns âncias se
mis u e com es as o mas de ejeição; a acialização da iden idade islâmica é uma
consequência da isão dos muçulmanos como inimigos (Id., pp. 20-21).17
Po ou o lado, na conceção de B igi e Vasallo, es a associação abusi a da
iden idade pessoal do Ou o em po base a con usão en e adição cul u al,
acialização, apelidos e iliação eligiosa. A islamo obia nasce da cons ução daquilo
que Vasallo denomina de mi o iden i á io a pa i da oposição biná ia mas ic ícia, já
aludida, en e Eu opa laica (ou c is ã) e o Islão/muçulmanos como algo es angei o,
como o inimigo ex e no (Vasallo, 2005). Es a lei u a educionis a a e a não só aqueles
que denominamos e o is as, como aquelas pessoas que iden i icamos como
muçulmanas indas das segundas e e cei as agas de imig an es, enca ando a mig ação
como a o he edi á io e não como um p ocesso. T aduz-se ambém na es angei ização
das pessoas ecen emen e con e idas ao Islão (Ibid.). Vasallo abo da aqui um pon o
impo an e da lu a con a a islamo obia, is o é, o obje i o não é desculpabiliza nem
idealiza os a os e o is as e aqueles que os come em, mas sim e i a que equipa emos
odos aqueles que nos pa ecem di e en es de nós como e o is as.
17 A di e ença en e a acialização e a ideia eligiosa da islamo obia ecai sob e o de e minismo ou o
olun a ismo da iden idade. Se a iden idade é ida como olun á ia liga-se à in ole ância eligiosa, se é
ida como ine en e e de e minada en ão é acializada (López, 2011, p. 4).
31
A ligação en e o O ien alismo e a islamo obia é bas an e in incada.18 O
O ien alismo é de inido como um de e minado discu so que chama a si o conhecimen o
de uma massa à qual chamam O ien e com o obje i o de u iliza esse conhecimen o pa a
dominá-lo. A islamo obia é um ou o discu so que esul a do conhecimen o di undido
po alguns o ien alis as, e, p incipalmen e, po eles alimen ado. Enquan o o
O ien alismo se e es e da cien i icidade dos especialis as do O ien e, a islamo obia é
um medo mediá ico e gene alizado em elação às populações baseado em
conhecimen os em ce a medida di undidos pelos p imei os ao e a a em o Islão e os
muçulmanos como inimigos. Es e medo alimen a enómenos como a ecusa da
imig ação muçulmana com base em es e eó ipos alimen ados pelos media (C . Tick in,
2008).
O O ien alismo e, mais especi icamen e, a islamo obia moldam, des a o ma, o
discu so ociden al in e encionis a que, po sua ez, em po base a neu alidade
ideológica capi alis a de uma e a bio19 e pós-polí ica (Žižek, 2009, p.43). É po isso que
o ilóso o Sla oj Žižek conside a que de emos esis i ao apelo da ação, ao SOS
humani á io que nos impede de e a in e ação en e os ês ní eis de iolência e nos
p ende ao mais isí el, mais ób io, que nos desloca a a enção do ní el mais p o undo e
no malizado da iolência – a obje i a e simbólica (Žižek, 2009, p. 19).
O ien alismo sob a pe spe i a do Géne o
“¿Cómo es que nos pe mi imos hace lo an aleg emen e con muje es y con ex os que ni
conocemos ni nos hemos p eocupado de conoce , ni de escucha , ni de en ende ?”
B igi e Vasallo, Pe de el No e, 2013.
A in e - elação en e os es udos pós-coloniais e o eminismo em pe mi ido
molda ambas as pe spe i as eó icas. Po um lado, o eminismo em indo a ques iona
p essupos os den o do discu so pós-colonial e, po ou o, os es udos pós-coloniais
pe mi i am ques iona os discu sos dominan es no eminismo ociden al, ale ando pa a
p essupos os p oblemá icos (Ashc o ; G i i hs; Ti in, 2008, p. 233). Da elação e
diálogos/deba es en e ambas, desen ol eu-se o campo do eminismo pós-colonial cuja
noção mais in luen e em sido a da dupla colonização, ou seja, a ideia segundo a qual as
mulhe es das sociedades que o am/são al o de colonialismo são colonizadas an o pela
18 Edwa d Said não usa o e mo n’ O ien alismo, nem em Co e ing Islam. Inclui o e mo apenas no a igo
de 1985 «O ien alism econside ed». Cul u al C i ique 1, pp. 89-107 (López, 2011, p. 19).
19 «Pode -se-ia dize que ao elho di ei o de aze mo e ou de deixa i e se subs i uiu um pode de
aze i e ou de esga a da mo e» (Foucaul , 1976, p. 122 apud Esposi o, 2010, p. 58).
32
ideologia impe ialis a como pela pa ia cal. Po ou as pala as, es as au o as
denunciam a o ma como a subal e nidade e op essão das mulhe es muçulmanas é
ins i ucionalizada e calci icada an o pelas p á icas pa ia cais das sociedades em que se
inse em como pelas eminis as ociden ais cúmplices de agendas impe ialis as (Hasan,
2005, p. 27; C . Mahmood, 2005). O a, embo a o concei o enha in eg ado o
ocabulá io dos académicos sup amencionados, só ecen emen e começou a se
eo izado (Ashc o ; G i i hs; Ti in, 2008, p. 233) e c i icado.
Em p imei o luga , é impo an e sublinha que o concei o de esponsabilidade
social de e se a base de qualque eo ização da li e a u a pós-colonial, como de ende
Ke u H. Ka ak (2008, p. 239). A c í ica da au o a incide sob e udo sob e a pouca
p odução de esc i os pós-coloniais ou o desca e/a des alo ização desses mesmos
esc i os po nume osos académicos ociden ais po conside a em que não são
su icien emen e eó icos pa a os pad ões ociden ais; a u ilização desses mesmos esc i os
como ma é ia-p ima u ilizada pelos p odu o es e consumido es de eo ia ociden al;
assim como a p odução des e ipo de conhecimen o como um im em si, des inado
unicamen e pa a consumo in e no da academia, a única a en ende a linguagem
p i ilegiada u ilizada (Ibid.). Ao mesmo empo, o ecu so, nos es udos pós-coloniais, a
modelos eó icos e nocên icos ou discu sos hegemónicos ociden ais pa a alida a
in e p e ação dos ex os pós-coloniais le a à cumplicidade dos in elec uais ociden ais
«[…] in an endea o ha i onically ends up alida ing he dominan powe s uc u es,
e en when hey ideologically oppose such hegemonic powe […]» (Ka ak, 2008, p.
240).
Um dos con ibu os mais impo an es, na c í ica aos es udos pós-coloniais e da
subal e nidade, é o de Gaya i Spi ak, no seu amoso ensaio «Can he Subal e n
Speak?» de 1988. Pa a Spi ak, a p odução de eo ia é ambém uma p á ica (2008, p.28).
Nes e sen ido, e pa a aseando Mohan y, a p odução académica é uma p á ica discu si a
assim como é polí ica, que se mos a p esc i i a e ideológica ao in e i e pa icipa em
de e minados discu sos hegemónicos, pois a p á ica académica eminis a inse e-se nas
elações de pode exis en es (supo ando-as ou esis indo-lhes) (1988, p. 62). Po ou o
lado, a p odução eó ica, mesmo endo como obje i o a emancipação dos g upos
ma ginalizados, pode cai na a madilha de ep oduzi o mesmo ipo de p á icas que
c i ica, como a iança Ka ak.
33
A ques ão da agência é aqui cen al. Se i e mos em con a que aqueles a quem
Spi ak chama de subal e nos são en es que se ca ac e izam pela sua posição den o da
lógica de mobilidade social – daqueles a quem a mobilidade social é negada, mas que
não possuem iden idade e, po isso, não possuem oz na medida em que o que
dizem/ ei indicam não é econhecido como al. O a, a al a de agência ine en e à sua
posição le a a au o a a analisa o concei o de ep esen ação. A ep esen ação em,
segundo Spi ak, um duplo signi icado: « ala po », e e en ou « e-p esen a »
(ap esen a -se como), como na a e e na iloso ia da s ellen (2008, p. 28). Es e
desdob amen o do concei o de ep esen a pe mi e-nos pe cebe a c í ica de Spi ak aos
es udos pós-coloniais, pois, no seu pon o de is a, a p á ica adical de e ia e em con a
es e desdob amen o ao in és de ein oduzi um sujei o indi idual a a és de concei os
o alizan es de pode e desejo (2008, p. 31). An es de mais, o que de ende é a
necessidade dos es udiosos da subal e nidade se ques iona em ace ca da possibilidade
do subal e no agi e e oz (2008, p. 32), pa a que a sua esis ência seja econhecida.
Es a p eocupação não é ida em con a quando «[…] he me opoli an eminis mig an
( emo ed om he ac ual hea e o decoloniza ion) asks he ques ion o simple semiosis
– Wha does his signi y? – and begins o plo a his o y» (Spi ak, 2008, p. 33). Es e ipo
de p á icas é um exemplo da iolência epis émica ideológica, pois ep esen a, nas
pala as da au o a, «[…] emo ely o ches a ed, a - lung, and he e ogenous p ojec o
cons i u e he colonial subjec as O he ”, ou po ou as pala as “ his p ojec is also he
asymme ical obli e a ion o he ace o ha O he in i s p eca ious Subjec -i i y»
(Spi ak, 2008, p. 31).
O a, an o a ep esen ação como a p óp ia colonização implicam uma elação de
dominação es u u al e a sup essão polí ica e discu si a da he e ogeneidade do sujei o
em causa (Mohan y, 1988, p. 61). A análise de Chand a Mohan y incide sob e udo na
p odução, ap op iação e codi icação do conhecimen o sob e uma «Mulhe do Te cei o
Mundo» como um sujei o monolí ico em ce os ex os de eminis as ociden ais, e cujas
ca ego ias analí icas aplicadas e le em em p imei o luga os seus in e esses con ex uais
(1988, p. 61; Hasan, 2012, p. 59). A cons ução da «mulhe do Te cei o Mundo» implica
uma noção de di e ença sexual/géne o e do pa ia cado como ca ego ias aplicá eis
uni e salmen e, sem que se enha em con a os seus con ex os iden i á ios (Mohan y,
1988, p.64; Dunn, 2008, p. 47), cons i uindo as mulhe es enquan o g upo de aco do com
a op essão uni e sal que supos amen e pa ilham – as «Mulhe es» (Id., p. 63/65). Po
34
ou o lado, o géne o eminino no «Te cei o Mundo» é ca ac e izado nessa isão como
sexualmen e cons angido, igno an e, pob e, ile ado, adicionalis a, eligioso,
domes icado, ligado à amília, i imizado, em con as e com a ca ac e ização implíci a
das mulhe es ociden ais como educadas, mode nas, com con olo sob e os seus co pos e
sexualidade, em suma, li es de escolhe , i.e. es amos pe an e ca ac e ização que se
aduz numa dico omia en e um Islão op essi o e um Ociden e iguali á io (Id., 1988, p.
65; Ho, 2007, p. 290 apud Hasan, 2012, p. 57).
A iolência, ísica e especi icamen e a sexual, di ecionada con a mulhe es,
ajuda à de inição uni e sal e sis emá ica das mulhe es enquan o í imas do con olo
masculino e sexualmen e op imidas (Id., p. 67). As mulhe es são assim cons i uídas
enquan o g upo a a és da elação de dependência com os homens que as es abelecem
(Id., p. 68). Es e discu so em es ado p esen e an o em no ícias que p e endem ela a as
gue as do Médio e P óximo O ien e como, mais ecen emen e, sob e os
mig an es/ e ugiados como «ho das de iolado es».20 É a pa i des as imagens que a
media ização dos casos de iolência sexual nos países á abes/muçulmanos é mui as
ezes ei a, mais p ecisamen e a pa i da na u alização do á abe/muçulmano como uma
masculinidade ag essi a, sexual e consequen emen e maliciosa. O es udo, acima
aludido, de Mi iam Tick in (2008) sob e a ins umen alização do discu so eminis a na
implemen ação de medidas polí icas de mig ação es i i a o nece-nos um bom
exemplo da u ilização des e ipo de es e eó ipos pa a ins polí icos. A análise da au o a
apoia-se em dois exemplos, a lei que isa a comba e a p os i uição (loi pou la sécu i é
in é ieu e) de 2003 – onde se c iminalizou a solici ação passi a, p o ocando um
20 Um dos casos mais isí el oi, ce amen e, aquele que oco eu em Colónia, na Alemanha, du an e a
passagem de ano (2015-2016), aquando de um inciden e que en ol eu assal os, assédios sexuais e
iolações em que as í imas iden i ica am os ag esso es como sendo «á abes ou mag ebinos», o que
consequen emen e ge ou uma onda de p o es os e a ins umen alização po pa e de g upos xenó obos
con a os e ugiados indos de países á abes e No e de Á ica, como o Pa io ische Eu opäe gegen die
Islamisie ung des Abendlandes (aka PEGIDA) – ide
h p://www.spiegel.de/in e na ional/ge many/cologne-shocked-by-sexual-assaul s-on-new-yea s-e e-a-
1070583.h ml. A imp ensa sé ia alemã ale ou desde o início pa a a dimensão mais limi ada do
acon ecimen o, no qual pa icipa am não e ugiados sí ios, mas sim mag ebinos e inclusi amen e alguns
alemães alcoolizados. No en an o, na p á ica es a dis inção não azia di e ença pa a o discu so xenó obo
de mo imen os como o PEGIDA. É p eciso não esquece que os acon ecimen os de Colónia su gem
depois de meses de boa os in undados sob e iolações de alemãs po e ugiados. Des a manei a, os
e en os da passagem de ano o am ins umen alizados pa a e o ça es e eó ipos é nicos que associam a
masculinidade á abe a uma masculinidade iolen a e ul amisógina, e ao aumen o da iolência sexual
con a as mulhe es. É p eciso ambém não esquece que se, po um lado, de emos ala de
ins umen alização do discu so eminis a pelos mo imen os xenó obos, não se pode á descu a ão pouco
a pa icipação de ce os se o es eminis as nas mani es ações an i-imig ação que se segui am, não
obs an e mui as eminis as alemãs se e em dis anciado abe amen e des a ins umen alização acis a e
mani es ado con a o sexismo e acismo).
41
e o Global Summi o End Sexual Violence in Con lic s de 2014 em Lond es25 –, bem
como a p oli e ação de ma e ial académico (Buss, 2014, p. 3) e ju ídico sob e o assun o,
emon a ao século passado.
É ce o que a iolência sexual em ei o pa e dos discu sos de gue a como pa e
das es a égias de demonização do inimigo ( eja-se, o que acon eceu na P imei a Gue a
com a in umen alização de casos de iolação na Bélgica como p opaganda a a o da
en ada dos Es ados Unidos no con li o; pa a mais exemplos ao longo da His ó ia ide:
Go schall, 2004, p. 130; Kuo, 2002, p. 305 e T ue, 2008, p. 411). No en an o, o am as
iolações oco idas na gue a de independência do Bangladeche, nas gue as de
desmemb amen o da Jugoslá ia e no genocídio do Ruanda que unciona am, em es ei a
ligação com a i ismo eminis a, como ca alisado es des a c escen e a enção mediá ica,
con ibuindo decisi amen e pa a a implemen ação de e o mas ju ídicas pa a p e eni ,
comba e e puni o enómeno, impelindo assim o seu econhecimen o enquan o c ime
de gue a, julgado assim nos ibunais penais ad hoc pa a o Ruanda e a Jugoslá ia
(Kuo, 2002, p. 309/310; Hansen, 2000, pp. 55/56; Skjelsbæk, 2001, p. 211).26
Na p á ica, a p o icuidade e quan idade de ma e ial académico, elabo ado po
in es igado es eminis as, con ibuiu pa a o a anço legisla i o in e nacional nes a
ma é ia, (en e mui os ou os, e Hansen, 2000, pp. 59-61; Solangon & Pa el, 2012, p.
418 e Alison, 2007, p. 83; Kelly, 2010, p. 115; Skjelsbæk, 2001, p. 211) – conc e izado
no Es a u o de Roma, que es abelece o T ibunal Penal In e nacional em 2002. A
isibilidade dada po es as eminis as pe mi iu, em p imei o luga , o su gimen o de um
lobby in e nacional e a pos e io p oli e ação de esoluções do Conselho de Segu ança
que incidem sob e o enómeno (Scully, 2009, pp. 114-115). Em segundo luga , en ou
sensibiliza o público pa a ques ões como a iolação den o do con ex o ma imonial,
que a é en ão não e a conside ada como al, e pa a a iolência e iolação de
abalhado es sexuais. Po ém, es udos mais ecen es no am que a e lexão e o a i ismo
das eminis as da segunda aga, ao da em ên ase à iolência come ida po homens
25 O in e esse pela e adicação da iolência sexual em con li os a mados é isí el quando a en amos no
ecen e Global Summi o End Sexual Violence in Con lic , London 2014, onde a a iz Angelina Jolie,
embaixado a da boa on ade do Al o Comissa iado das Nações Unidas pa a os Re ugiados, ei e ou o
es a u o da iolência sexual como a ma de gue a di ecionada con a a população ci il e a sua dimensão
polí ica e social enquan o o ma de dominação, apelando à comunidade in e nacional que abalhe pela
jus iça e pela lei o nando a lu a con a a iolência sexual uma p io idade na polí ica mundial ( ide
h ps://www.go .uk/go e nmen / opical-e en s/sexual- iolence-in-con lic ;
h p://p .eu onews.com/2014/06/11/o-comba e-de-angelina-jolie-con a-a- iolencia-sexual/).
26 O julgamen o Foča (Haia, 2000) é conside ado um ma co na punição de iolações de gue a po
en ol e «apenas» c imes de na u eza sexual.
42
con a mulhe es, con ibuí am pa a pe pe ua a dico omia en e homem ag esso /mulhe
í ima, pa a in isibiliza as í imas não mulhe es e mesmo pa a secunda iza o papel de
ou os a o es iden i á ios como co , e nia, classe social, pe ença eligiosa no enómeno
da iolência sexual (Alison, 2007, pp. 65-67/78; Solangon & Pa el, 2012, p. 424 e
Onyango & Hampanda, 2011, p. 237; Dolan, 2014; Skjelsbæk, 2001, p. 215/218/224).
Es as c í icas p o êm de académicas cujo abalho se inse e den o de
abo dagens in e secionais27 e que conside am que a ca ego ia géne o não é su icien e
pa a comp eende os su os de iolência sexual em con ex o de gue a ou con li os
a mados. Po isso, julgam necessá io a ende a ou as ma cas iden i á ias como
nacionalidade, e nia, co , classe social, e c, i.e., analisa o con ex o, as isiblidades e
in isibilidades den o do enómeno e conside a de o ma c í ica a sepa ação analí ica
en e es e ipo de iolência e ou os enómenos iolen os, sexuais ou não, em con ex o
de con li o a mado ou em empo de paz.
An es de a ança mos, o na-se necessá io si ua his o icamen e o eminismo
anglo-saxónico a im de melho en ende mos o con ibu o pionei o das eminis as da
segunda e e cei a agas,28 bem como as suas limi ações. Enquan o mo imen o que
emon a às décadas de 1970 e 1980, o mo imen o eminis a anglo-saxónico ba eu-se
pela denúncia da iolência sexual e conseguiu impo uma no a abo dagem ao
enómeno: não como p odu o ine i á el da biologia masculina a o ecida pelo
desmo ona da o dem social na gue a, mas como o ma de exe ce pode enquad ada
nas es u u as do pa ia cado. O seu con ibu o ocou-se sob e udo no que conside a am
se o pe igo de ins i uições he e ossexuais como a po nog a ia e as no mas que egiam
as p óp ias elações he e ossexuais. O es udo da po nog a ia e da iolação deu
isibilidade à iolência sexual exe cida den o dos limi es da no ma i idade
he e ossexual p e alecen e. Os p incipais nomes des e mo imen o o am/são Susan
B ownmile , com Agains Ou Will,29 And ea Dwo kin, com Po nog aphy: Men
Possessing Women, en e ou as (C . B ownmille , 1993; Dwo kin, 1981; Linden, e . al.,
1982). Ambos os enómenos e am is os como exp essões de subjugação da mulhe
27 De aco do com Leslie McCall «[…] in e sec ionali y – he ela ionships among mul iple dimensions
and modali ies o social ela ions and subjec o ma ions […]» (2005, p. 1771), mais especi icamen e, na
de inição de A a B ah e Ann Phoenix «signi ying he complex, i educible, a ied, and a iable e ec s
which ensue when mul iple axis o di e en ia ion – economic, poli ical, cul u al, psychic, subjec i e and
expe ien ial – in e sec in his o ically speci ic con ex s» (2004, p. 76).
28 Não obs an e alguma con o é sia quan o à delimi ação das ases do eminismo ado a-se aqui a di isão
de endida po Ann Fe guson (Vide oo no 1 apud Fe guson, 1984, p. 106).
29 Es udo bas an e c i icado, ide Tho nhill & Palme , 2000.
43
ace ao homem. Pa a B ownmille , os homens iolam po que podem, i.e., po que a
ana omia dos seus co pos o pe mi e e as condições nos cená ios de gue a as a o ecem.
Enquan o ins umen o de pode , de con olo sob e os co pos emininos, B ownmille
apenas equaciona as iolações come idas con a homens enquan o subs i u os dos
co pos emininos e.g. ins i uições p isionais (C . B ownmillhe , 1993).
Não obs an e, oi o con ibu o des as eminis as que, segundo a na a i a do
eminismo académico anglo-saxónico, con ibuiu decisi amen e pa a o in e esse
cien í ico pela ques ão da iolência sexual e pa a a manei a como a ualmen e o
en endemos: a ligação ao concei o de pode e de pa ia cado enquan o domínio dos
elemen os socie ais masculinos sob e os emininos. Es a isão da iolência sexual como
o ma de exe ce e de conquis a pode ab iu caminho à e lexão que pos ula a
iolação/ iolência sexual como a ma de gue a – usada de o ma sis emá ica e
gene alizada com obje i os es a égicos e polí icos (C . Skjelsbæk, 2001, p. 213) –
concei o que a ualmen e se gene alizou. A na a i a di undida ca ac e iza-se, no en an o,
pela di isão en e o con ibu o da segunda aga, como endo sido dominado po uma
isão demasiado essencialis a quan o ao concei o de géne o, con ibuindo des a o ma
pa a ep oduzi isões educionis as da mulhe enquan o í ima e do homem enquan o
ag esso , e o da e cei a aga, como sendo aquela que ouxe a abo dagem mais
inclusi a e ab angen e do enómeno – o pós-es u u alismo (C . Hemmings, 2005).
Concomi an emen e, é impo an e oma uma posição c í ica em elação a es a
na a i a o ganizado a da his ó ia do eminismo em unção de agas bem delimi adas
no empo e nas posições de endidas. Uma posição c í ica acu ilan e é a de Cla e
Hemmings. Segundo a au o a e pa ilhando a isão de Gaya i Spi ak e Hayden Whi e
«[…] wan ing o ‘ge he s o y s aigh ’ is an ac o disa owed epis emic iolence, which
p e en s a en ion o he poli ical in es men s ha mo i a e he desi e o know, and ha
gene a e a w i e ’s epis emological and me hodological p ac ices. In a eminis con ex ,
which s o ies p edomina e o a e p ecluded o ma ginalized is always a ques ion o
powe and au ho i y» (Hemmings, 2005, p. 118). Es a ideia pe mi e que enhamos
a enção às elações de pode que se es abelecem mesmo den o da p odução de
conhecimen o eminis a e em como as na a i as ace ca do passado são p oduzidas no
p esen e e po isso necessa iamen e moldadas po ele – pelas suas elações de pode - ao
pe mi i em que um p esen e pa icula ganhe legi imidade a a és da ep odução e
acei ação de uma na a i a pa icula (Ibid.).
44
A c í ica pode á se aplicada ambém ao es udo da iolência sexual em con ex o
académico. Como e e e Do is Buss « he e y ac o he heigh ened ocus on con lic
sexual iolence in policy, ac i is , and schola ly ci cles, o example, is i sel a
phenomenon wo hy o s udy o conside wha has been made known, and knowable, by
he way esea ch and policy on con lic sexual iolence ha e de eloped» (2014, p. 4). A
na a i a eiculada ao es udo da iolência sexual, po exemplo, em Á ica es á
associada com a endência de associação en e o con inen e e a iolência excessi a (Id.,
p. 3: Baaz & S e n, 2013, p. 90-91). Po ou o lado, ambém exis e o p oblema
elacionado com a excessi a isibilidade que es e ipo de iolência em em elação a
ou os ipos de iolência (C . Dolan, 2014), p o ocando o des io na pesquisa,
inanciamen o e ação em de imen o de ou as í imas (Buss, 2014, p. 3).
A aiz do p oblema nes a abo dagem si ua-se num ce o essencialismo exis en e
quando es udamos «as expe iências das mulhe es em con ex o de iolência em con li os
a mados», po que ende-se a esquece a impo ância de uma análise c í ica à ca ego ia
«mulhe », não se analisa o con ex o empo al (e.g. p é ou pós con li ual) ou mesmo o
que é que o concei o de «expe iência» signi ica em con ex os de g ande iolência e
insegu ança – se é uma expe iência indi idual ou cole i a – em suma, às exclusões que
de i am das escolhas que se azem endo em con a as e e ências an e io es (Id., p. 13).
A p oblema ização da dis inção en e iolência sexual que oco e du an e os con li os
a mados e iolência sexual que oco e em con ex o de paz, al como é p opos a po Liz
Kelly, pe mi e e noção das consequências do uso de uma al dis inção na a aliação de
quem são as e dadei as í imas (2010, p. 119).
Na análise que a au o a az, a iolência sexual inse e-se den o de um con inuum
en e as elações sexuais consensuais e a iolação – en e ambas exis e uma eno me
a iedade de elações sexuais indesejadas ou coagidas (Id., pp. 120-121). Nes e sen ido,
e á não só de se conside a a agência das mulhe es nos úl imos pa ama es do con inuum
como ambém e em conside ação que é p oblemá ico julga a iolação como a pio
coisa que pode ia acon ece a uma mulhe – ou a um homem –, pois os e ei os dessa
conside ação aca e am a pe ceção do e en o como ine i a elmen e aumá ico e
enco aja as mulhe es a de ini em as suas expe iências como iolação e
consequen emen e a sua iden i icação enquan o í imas (Ibid.). Pa a além disso, ge a-se
uma dis inção abusi a en e a « e dadei a iolação» – aquela que oco e em con ex os
de ex ema iolência, como as iolações de gue a – e as ou as, que mais não az que
45
pe pe ua um cí culo de impunidade em elação àquelas si uações que não são
conside adas as « e dadei as iolações» (Kelly, 2010, pp. 122-123).
Po ou o lado, a dis inção en e iolações em con ex o de paz e iolações em
con ex o de gue a ou con li o a mado alha em elaciona os p oblemas que pe passam
po ambos os enómenos. Liz Kelly descons ói os a gumen os que de endem uma
maio ên ase no enómeno da iolência sexual: em p imei o luga , mos a-nos como a
iolência sexual em con ex o a mado não é mais silenciada do que aquela que oco e em
empo de paz po que as mulhe es são enco ajadas a ala em po mo i os polí icos; em
segundo luga , não exis e maio isco de iolência sexual em con li os a mados po que
o isco é con ex ual e po an o a ia, como nos mos ou Elizabe h Wood (C . Wood,
2010); em e cei o luga , ac edi a-se que há uma maio alha na in es igação e no
julgamen o des es c imes em con ex o de con li o a mado, mas exis em enómenos de
iolência sexual em empo de paz que são ão ou mais di íceis de in es iga e julga ,
como é o caso da iolação ma i al; e em qua o luga ac edi a-se que exis e uma maio
alha em p o idencia se iços básicos de apoio, o que não co esponde à e dade, uma
ez que em ce os con ex os esses se iços ambém não exis em em empo de paz,
sendo desen ol idos apenas no pós-con li o (2010, p. 118). Em suma, a maio ia das
p eocupações que as eminis as apon am aos empos de gue a são ambém aplicá eis
em empo de paz, po an o, segundo Kelly, se ia bené ico deixa de dis ingui-las po
o ma a e i a a sepa ação en e o que é enca ado como a « iolação eal» e as ou as
o mas de iolência sexual, e i ando des a o ma a ep odução do ciclo de impunidade
que alimen a a a és da conside ação do con ex o (Id., p. 120).
Pa a além disso, a ên ase nas iolações como á ica de gue a (c . Skjelsbæk,
2001, p. 213), e na dico omia que cos uma acompanhá-la – homem pe pe ado e
mulhe í ima –, le a a uma ul a isibilidade de um ipo de iolação e de í imas,
c iando-se uma imagem ex emamen e a oz da iolência e b u alidade desse enómeno,
pa a além de se ep esen a e omen a uma economia que se alimen a do in e esse
in e nacional em ol a da iolência sexual em con ex o de con li o a mado (Ibid. p. 14).
Es a na a i a de i a da isão que associa a iolência sexual a uma á ica de gue a
o ien ada pela ca ego ia géne o.
46
É impo an e no a , con udo, que, apesa da sua popula idade na comunicação
social, a a-se de uma isão ambém con es ada. O papel da di a li e a u a cinzen a30 é
aqui impo an e bem como a p odução académica de in es igado es como Ch is Dolan
ou de Elizabe h Wood, que ale am pa a a exis ência de í imas que escapam à ca ego ia
da í ima mulhe e pa a a c í ica da ine i abilidade da iolência sexual em con ex o de
con li o a mado, a a és do es udo das condições de p e alência do enómeno. O que
em suma se analisa nes a li e a u a al e na i a são as di e enças exis en es den o do
enómeno e do con ex o em que o enómeno oco e (Buss, 2014, p. 13-14). Veja-se
ambém nes e sen ido o abalho de Baaz/S e n (2013), in es igado as que, a a és de
um longo abalho de e eno no espaço que ende a se associado ao concei o « iolação
como a ma de gue a» (RDC), con es am a sua pe inência, apon ando, po exemplo,
pa a ques ões como a (in)capacidade de as lide anças mili a es con ola em os
comba en es. Pa a além disso, no am como a hipe isibilização des e ipo de iolação se
aduziu na in isibilidade de ou as iolências que a e am as mulhe es no e eno e de
ou as í imas de iolência sexual. Não obs an e os impo an es con ibu os des es
académicos e a i is as, as polí icas in e nacionais con inuam a se ma cadas po um
discu so essencialis a que e a a a mulhe como um se ulne á el. O con ibu o de
Scully nes e campo mos a-nos que as Resoluções do Conselho de Segu ança –
nomeadamen e a RCS 132531 e a RCS 182032 que a comple a – que êm sido ap o adas
ao longo dos anos pa a en a comba e o enómeno con ibuem pa a o usca as causas
da iolência sexual, i.e., a incidência exclusi a na iolação sexual que é come ida con a
apa igas e mulhe es olhe a comp eensão do enómeno (2009, p. 113). Mas,
p incipalmen e, al isão pe pe ua conceções e es e eó ipos que são p ejudiciais no
p ocesso pós-con li o pa a mulhe es e homens e a cons ução de uma paz iá el (Id., p.
113/116). O mesmo e e e Ch is Dolan:
Pa ia chy in he o m o he Secu i y Council had e ec i ely s olen
he eminis ’s clo hes. I will become e iden ha many yea s o impo an
eminis ac i ism we e e ec i ely co-op ed, and ha he emancipa o y
po en ial o a ue gende analysis was los o a e-essen ialising and
30 O e mo «li e a u a cinzen a» é u ilizado pa a desc e e o ma e ial p oduzido pelas o ganizações, são
pesquisas ou ma e ial in o ma i o, como ela ó ios, p oduzidos o a dos canais de dis ibuição come cial
e académicos.
31 Resolução 1325 do Conselho de Segu ança das Nações Unidas, ap o ada no ano 2000, sob e
“Mulhe es, Paz e Segu ança” (MPS).
32 Resolução de 1820 do Conselho de Segu ança das Nações Unidas. Re o ça e complemen a os
comp omissos da RCS 1325 MPS.
47
pa ia chal gende bina y in which women we e po ayed as weak ( ic ims)
and men as s ong (pe pe a o s). (Dolan, 2014, p. 81).
As he elision and subs i u ion o one o he cen al pilla s o
pa ia chy (women a e weak, men a e s ong) wi h one o he co e ene s and
allying calls o gende expe s (women a e ic ims, men a e pe pe a o s)
shows, much o pa ia chy’s success ul c oss-d essing has been by way o
discu si e sleigh o hand. (Ibid.).
A c í ica de Dolan ambém incide sob e as RCS que o am ap o adas pa a
comba e a iolência sexual, nomeadamen e a Resolução 2106 de 24 de junho de 2013 e
a decla ação sob e a p e enção da iolência sexual em con li os ado ada pelos Minis os
dos Negócios Es angei os dos G8, a 11 de ab il de 2013 em Lond es (Dolan, 2014, p.
80). Da sua análise esul a a c í ica ao já abo dado bina ismo en e homens e mulhe es
que culmina semp e no e o ço da imagem das mulhe es como acas e e e nas í imas,
assim como dos homens o es e e e nos ag esso es.
Se conside amos que a iolência sexual não é o almen e egis ada/denunciada
po que é que não o conside amos ambém pa a os homens? Po que é que achamos que
as mulhe es e as c ianças são desp opo cionalmen e í imas des e ipo de iolência?
Es a assunção baseia-se em ideias implíci as e explíci as, em p imei o luga a suposição
de que, se exis em í imas do sexo masculino, elas são mui o in e io es em núme o e,
em segundo luga , se as í imas mulhe es es ão egis adas em maio núme o en ão
logicamen e odos os pe pe ado es são homens. Ao mesmo empo pe passa pelo
discu so a ideia segundo a qual a iolência sexual comp ome e a capacidade de as
mulhe es con ibuí em de o ma signi ica i a pa a a sociedade pós-gue a, mas não se
em em conside ação que o mesmo acon ece com os homens (sob e es as ques ões, e ,
en e mui os ou os, Alison, 2007; Solangon & Pa el, 2012; Onyango & Hampanda,
2011; Dolan, 2014; Skjelsbæk, 2001; Buss, 2014).
O que se e i ica nes e ipo de discu so é a c is alização de uma balança de
pode p é-exis en e que a o ece odos os homens em de imen o de odas as mulhe es –
não há uma p eocupação eal em desag ega e elaciona ou as ca ac e ís icas como
sejam a aça, a classe social ou e nicidade; es a p eocupação só exis e na medida em que
se elaciona com a iolência sexual di ecionada con a as mulhe es. O esul ado é,
segundo in es igado es como Dolan, o silenciamen o de na a i as al e na i as àquelas
eiculadas pelas ins i uições in e nacionais (Dolan, 2014, p. 81). Po seu lado, a
48
conside ação segundo a qual a iolência sexual se elaciona mais com a elação de
pode que se es abelece en e as í imas e os pe pe ado es, i.e., na mudança das
elações de pode en e ambos, p o idencia uma explicação plausí el pa a a exis ência
de al os masculino. Não obs an e, es a ên ase na iolência sexual pe pe ada con a
homens como o ma de e eminiza e diminui a masculinidade das í imas, que se
encon a em an os es udos, não se e le e no discu so in e nacional (Id., p. 82).
O a, ao não p es a a enção a es as ou as o mas/cons elações de iolência
sexual, pa a além de se c is aliza em es e eó ipos, e o çam-se as elações de pode
exis en es e as p óp ias jus i icações da iolência sexual, nes e caso a homo obia que
in o ma a es a égia po de ás da iolência sexual con a homens – não se ques iona,
po an o, o he e ono ma i ismo que molda es as p á icas bélicas. Dolan conclui assim
que há na ealidade um silêncio ensu decedo sob e a sexualidade e o sexo na
in es igação e legislação sob e iolência sexual, o que em úl ima análise e i a que se
omem medidas adequadas de p e enção e de ecupe ação. Em suma, as elações de
pode são idas como dadas, o que pe pe ua e ep oduz as mesmas p á icas que se
de e iam descons ui (Ibid.). Como esul ado, os ins umen os in e nacionais pa a lida
com es e ipo de si uações não são inclusi os – nomeadamen e, IASC 2005 ou o
UNFPA de 2011 –, ao não con empla em í imas do sexo masculino,
ansgéne o/sexuais, nem pessoas que ogem ao espec o biná io homem-mulhe (Id., p.
83).
Ou o con ibu o pa a a comp eensão do enómeno da iolência sexual em
con li os a mados encon a-se no abalho de Dub a ka Za ko sob e géne o,
sexualidade e e nicidade/iden idade nacional em con ex os de gue a e iolência. Num
ex o sob e a imp ensa c oa a du an e a gue a pela independência, a in es igado a
mos a como a e nia é c iada a pa i de um discu so sob e a masculinidade nacional,
a a és de uma análise da ep esen ação nos media de ce as p á icas e no mas de
masculinidade – associadas ao pode , i ilidade e he e ossexualidade (2001, p. 81).
Nes e es udo sob e as ep esen ações mediá icas da iolação/ iolência sexual masculina
du an e o con li o na ex-Jugoslá ia, conclui que as na a i as de gue a na C oácia não
con êm qualque e e ência a í imas masculinas c oa as pa a que a sua masculinidade
cons i u i a he e ossexual não seja pos a em causa, i.e., as no mas que pe mi em a
cons ução de uma imagem de «p ope men» (Id., p. 77), aquele que se de ende a si e
aos ou os – nes e caso, mulhe es e c ianças. A iolência sexual isibilizada é semp e
49
associada ao Ou o como o ma de «diminui » a sua masculinidade e pô em causa a sua
he e ossexualidade – a a és da cas ação, simbolicamen e a eliminação da
masculinidade do Ou o den o de uma cul u a alocên ica, e a imagem de iolação
como elação sexual consen ida, suge indo a in e io ização a a és da e eminização e
homossexualização das í imas e pe pe ado es (Id., p. 77-79; eja-se ambém
Skjelsbæk, 2001, p. 225).
O papel da iolência na cons ução de uma na a i a undado a le a à
in isibilização de qualque e e ência que possa se en endida como abalo à
masculinidade c oa a e, nes e sen ido, as no ícias sob e a iolência sexual come ida
con a homens su gem sob e udo da imp ensa es angei a, ao mesmo empo que na
imp ensa c oa a exis e uma isibilidade sele i a que pe mi e e eminiza e
homossexualiza as ou as nacionalidades con a as quais o nacionalismo c oa a lu a a –
po ou as pala as, a na a i a nacionalis a é cons uída em oposição ao Ou o
humilhado (Za ko , 2011, p. 107).
O jogo de isibilidades sele i as e in isibilidade é explo ado em p o undidade
na análise compa a i a que a au o a az en e o caso da iolência sexual na ex-
Jugoslá ia e o de Abu Gh aib a a és de uma análise que eco e à in e secionalidade
como me odologia (Za ko , 2011). No seu a igo, Za ko demons a como o concei o de
géne o em que se in eg ado não apenas no con ex o em que se inse e como é ambém
necessá io elacioná-lo com ou os concei os como a aça, a eligião, a e nia e a classe
social. No caso da ex-Jugoslá ia, como imos, a di e ença p imá ia é a e nicidade,
cons uída a a és de noções de masculinidade, pode e he e ono ma i idade, que
in o ma a isibilidade dos casos selecionados, i.e., é a in e seção da masculinidade e
sexualidade que ma ca a pe ença ao g upo é nico (2011, p. 109). Di e en emen e, no
caso de Abu Gh aib a in e secionalidade é jogada ao ní el do Islão e da aça e a
isibilidade da í ima não so eu es ição – o Ou o i aquiano (Id., p. 110; eja-se
ambém Owens, 2010, p. 1043). O que a isibilidade do acon ecimen o pe mi iu oi a
apa en e au oc í ica a a és da exposição das di as «maçãs pod es», po o ma a mos a
ao mundo a ins i uição mili a ame icana como sendo uma ins i uição que pune quem
oge às eg as, eg as essas expu gadas de qualque elemen o nacionalis a, acis a,
xenó obo ou homo óbico. A au oc í ica pe mi e assim man e as eg as e p á icas
in o mais sup amencionadas com as quais a ins i uição é coni en e e que a moldam
(Ibid.).
50
A pos e io ixação dos media com a soldado Lynndie England (C . Sjobe g &
Gen y, 2007) mos a como as mulhe es con inuam a se o Ou o den o da ca ei a
mili a , o papel que desempenham no e en o é sob e udo de ep esen a a
he e ossexualidade da ins i uição – os soldados ame icanos não são gays – na medida
em que os a os pe o ma i os sexuais são ei os en e uma mulhe e os p isionei os do
sexo masculino, pa a além de se da ên ase ao seu elacionamen o com ou o mili a
(Za ko , 2011, p. 111). Exis em, oda ia, indícios que indicam que hou e uma seleção
da isibilidade dos a os come idos con a os p isionei os i aquianos – a os de iolação e
abuso sexual come idos po homens ame icanos o am eliminados da is a do público.33
A ques ão da he e ono ma i idade ambém é impo an e na dinâmica es abelecida en e
os mili a es ame icanos e os p isionei os i aquianos em Abu Gh aib, como e e e
Pa icia Owens (2010):
The hegemonic masculini y o Ame ican comba an s, o example, is
made possible h ough a con inual e o o de ine i s sexuali y ela i e o he
sexuali y o in e io o he s, se ing i apa and p o ec ing i . Homophobic
bonding includes a ge ing he masculini y o enemy comba an s by aping
and humilia ing hem and a acking hei honou ed s a us as 's aigh '. The
depic ion o enemy comba an s as sexually de ian has been a common
h ead in he wa s in A ghanis an (2001-) and I aq (2003-) (Id., p. 1042).
É impo an e no a que as análises eminis as a es e episódio o am ambém
ma cadas pela isão educionis a que ê as mulhe es como me os ece áculos das ações
masculinas (Eisens ein, 2004 apud Za ko , 2011, p. 113), ou que conside a a
ins umen alização da mulhe enquan o símbolo eminino de humilhação e diminuição
da masculinidade dos p isionei os (Enloe, 2004 apud ibid.). Es as análises alham ao
igno a em o con ex o ala gado e menosp eza em a agência eminina – mili a es
mulhe es que pa icipam a i amen e nos p oje os ame icanos hegemónicos acis as,
homo óbicos e islamo óbicos –, ep oduzindo des a o ma o es e eó ipo da
agilidade/ ulne abilidade eminina e da iolência sexual e bélica como essencialmen e
33 «NBC News la e quo ed U.S. mili a y o icials as saying ha he un eleased pho og aphs showed
Ame ican soldie s “se e ely bea ing an I aqi p isone nea ly o dea h, ha ing sex wi h a emale I aqi
p isone , and ‘ac ing inapp op ia ely wi h a dead body.” The o icials said he e also was a ideo ape,
appa en ly sho by U.S. pe sonnel, showing I aqi gua ds aping young boys» (He sh, 2004). É impo an e
no a aqui a acu ilância da análise de Za ko , na medida em que as iolações e e idas a homens su gem
e a adas como endo sido pe pe adas po soldados i aquianos e não ame icanos, man endo-se assim a
he e ossexualidade ame icana in ocada. Já os soldados ame icanos são e e idos como «ha ing sex» –
impu ando uma supos a consensualidade, po não se usa a pala a iolação pa a se e e i aos seus a os –
com uma p isionei a i aquiana.
57
he P esen (2007) e Wha Kind o Libe a ion? Women and he Occupa ion o I aq (com
Nicola P a , 2009). Pa indo das suas p óp ias expe iências e das de á ias mulhe es
i aquianas que en e is ou, demons a-nos as pe ceções, aspi ações e us ações des as
mulhe es ao longo do empo. Pe mi e-nos coloca em pe spe i a o nosso conhecimen o
sob e a gue a – conhecimen o esse sujei o a eg as, que «de e pode insc e e -se num
ce o ho izon e eó ico» e « epele […] oda uma e a ologia do sabe » (Foucal , 1997, p.
26) –, compa ando-o com as expe iências daquelas que a i e am. Segundo a au o a:
When I aqi women speak abou be e imes and poin o Saddam
Hussein, o example, i is no because hey enjoyed li ing in a ep essi e
dic a o ship wi h wa s and, in la e yea s, sanc ions. Any posi i e nos algia
o he pe iod be o e he in asion is la gely measu e o he ex en o which
li ing condi ions ha e de e io a ed since 2003 (Al-Ali, 2007, p. 261).
Po ou o lado, o seu abalho pe mi e-nos descons ui a ca ego ia «Mulhe »
enquan o algo monolí ico (Laza , 2005, p. 10), mos ando-nos a plu alidade e
di e sidade de expe iências e pe ceções das mulhe es i aquianas. De aco do com Al-Ali
«I always eel uneasy when I hea people say “I aqi women hink…” o “I aqi women
wan …”, gene alizing om wha is ine i ably a wide a ie y o opinions, iews and
isions» (2007, p. 261). O mesmo se aplica à Sí ia. Um exemplo cla o da
impossibilidade de condensa numa única ca ego ia o pensamen o de milha es de
mulhe es com di e en es expe iências de ida é a espos a de Sama Yazbek à pe gun a
que lhe coloquei ia Twi e : «Wha do you hink a e he eelings/yea nings/conce ns o
Sy ian women?». A espos a oi axa i a: «I canno say in a scien i ic o academic way
“Sy ian woman” because i depends g ea ly on he egion and place we conside ;
egions whe e ISIS is domina ing g ea ly di e om hose whe e he egime is aking
hold, and i is ue o egions unde he g ip o o he jihadis g oups» (Ve Apêndice A:
En e is a; Alhayek, 2015, p. 24).
Mais do que desc e e uma sé ie de acon ecimen os polí icos e sociais, de
aco do com a lógica p e alecen e nas ciências sociais, ale a pena in e liga esses
acon ecimen os com as expe iências e memó ias pa icula es das pessoas que as
i encia am. Memó ias essas que, como de ende Al-Ali, são sujei as à mudança,
sele i as e luídas. São cons uções complexas baseadas não só em expe iências sociais,
em mundi idências e na a i as cole i as (2007, p. 269). O backg ound iden i á io de
58
cada mulhe in e age com as á ias a iá eis às quais se aludiu, i.e. a classe, a
o ien ação polí ica, e nicidade, a iliação eligiosa e local de o igem e esidência (Ibid.).
Das en e is as ealizadas po Nadje Al-Ali, oi possí el pe cebe «how di e en
women ha e expe ienced speci ic his o ical e en s and pe iods and how hey ha e
chosen o ep esen hem in hei memo ies» assim como «ce ain o ms o knowledge
and expe iences a e p i ileged o e o he s: a he e y leas , a woman’s own pe sonal
expe ience is o en p i ileged o e ha o o he s» (Id., p. 269). Pa a além disso,
con a iando ep esen ações mui o equen es da mulhe o ien al como se passi o (c .
sup a, secção do Es ado da A e sob e O ien alismo), é impo an e pe cebe que as
mulhe es não são me os agen es passi os, elas pa icipam a i amen e na his ó ia do
país, an o enquan o pa e da es u u a de op essão como na dissidência (Id., p. 267).
As lealdades e a inidades das mulhe es i aquianas ao longo da his ó ia do seu
país, sob e udo da segunda me ade do século XX e no século XXI, dependem de uma
in e - elação en e á ias a iá eis, não só a e nia e a eligião como é comummen e
acei e. En e as décadas de 1950 e 1960 as mulhe es di idiam-se poli icamen e segundo
a sua ideologia – osse ela o comunismo ou o nacionalismo á abe, com a exceção do
nacionalismo cu do, que se man inha sob linhas é nicas, embo a com di isões de aco do
com a classe social e localização u bana/ u al. O dia-a-dia sociocul u al das mulhe es,
o a da polí ica, e a sob e udo in luenciado pela e nicidade e eligião.
En e es es dois pe íodos acima mencionados, o I aque passou de uma
mona quia pa a uma República. Em 1958, 'Abd al-Ka im Qasim oma o pode e de uba
a Mona quia Hachemi a, num golpe inspi ado po Nasse no Egi o. Segundo Al-Ali, ao
con á io do pe íodo da mona quia em que a polí ica e a sob e udo go e nada po
á abes suni as, du an e o pe íodo de Quasim ha ia uma maio inclusi idade é nico-
eligiosa. Não obs an e, a época que se seguiu ao golpe le ado a cabo pelo Pa ido Ba' h
em 1963, comummen e associado a um pe íodo iolen o e sec á io, oi eco dada pelas
mulhe es en e is adas como um pe íodo de libe dade social e cul u almen e ib an e
sob e udo pa a as mulhe es de classe média, apolí icas e secula es que bene icia am dos
a anços do egime na educação, mode nização e p o idência social. A his ó ia se ia
di e en e pa a aquelas poli icamen e a i as na oposição ao egime, que so e am de
p isões, o u a e execuções – cu iosamen e mesmo es as e ospe i amen e ap eciam as
polí icas de desen ol imen o do egime.
59
Com a subida ao pode de Saddam Hussein, em 1979, as di isões sec á ias
aumen a am de ido à sua polí ica de di isão e pola ização do país. Os al os do egime
não podem se associados a uma e nia ou eligião especí ica, na medida em que a
ep essão do egime a ingiu odas as pessoas, incluindo as pe encen es a mino ias, que
se opunham ao go e no. Concomi an emen e, uma classe média cosmopoli a de
Bagdade con inua a a p ospe a independen emen e da iden idade é nico- eligiosa. A
iden idade p edominan e e a a sociocul u al, mesmo no pe íodo das sanções nos anos
90. Du an e o pe íodo áu eo do desen ol imen o económico, nos anos 1970 e 1980 a é
à Gue a I ão-I aque e à Gue a do Gol o, e den o do con ex o da ep essão polí ica, a
gene alidade das mulhe es i aquianas ganha am di ei os socioeconómicos (Id., p. 266).
A g ande linha di isó ia que se aça é en e as expe iências das mulhe es no
mundo u al, que po isso mesmo não bene icia am de um sis ema de educação
dinâmico e em expansão nem do dinamismo cul u al e in elec ual dos cen os u banos, e
as daquelas que i iam nesses mesmos cen os u banos (Id., pp. 262-263).
Po ou o lado, é p eciso a ende às di e en es ases na e ó ica do egime de
Saddam Hussein, esul an e da mudança de condições polí icas, sociais e económicas, e
no impac o que es a e e nas mulhe es. Como oi acima mencionado, os bene ícios do
impulso na educação e na p o idência social bene icia am p incipalmen e aqueles que
se si ua am numa classe média u bana, mas no ge al os bene ícios o am sen idos em
odas as classes. Hou e uma en a i a de e e e o pode pa ia cal p i ado em
bene ício do público, o que le ou a uma eação menos a o á el do se o eligioso e
conse ado , que ia es e pa e nalismo es a al como uma o ma de in e e ência nas
adições pessoais. Não obs an e o melho amen o nas condições de ida das mulhe es, o
Es ado con inua a a e uma posição ambi alen e pe an e os di ei os das mulhe es que
se e le iu na p essão, du an e a Gue a I ão-I aque, na unção ep odu o a da mulhe
numa sociedade cada ez mais mili a izada e « hei bodies became inc easingly he si e
o na ionalis policies and ba les» (Id., p. 267). As his ó ias de o u a e iolência
sexual come ida con a aquelas mulhe es – e ac escen e-se homens – que se opunham às
polí icas ep essi as do egime, e a polí ica dos casamen os e di ó cios são exemplos
cla os.
Com a depaupe ação do país na sequência da Gue a do Gol o em 1991 e as
sanções económicas impos as pela ONU, Hussein ence ou uma polí ica de alianças com
os che es ibais e consequen emen e, em oca de lealdade, pe mi iu p á icas ances ais
60
como os «c imes de hon a». A de e io ação da economia, a mudança das polí icas do
egime e a de esa de alo es cada ez mais conse ado es con ibuí am pa a a al e ação
das elações de géne o, das p á icas e consequen emen e nas condições de ida das
i aquianas. En e os anos 1990 e 2000, as mulhe es diminuí am signi ica i amen e a sua
pa icipação na o ça de abalho, o seu acesso à educação e ao sis ema de p o idência
oi es i o a pa das es ições ao seu modo de ida de endida pelo conse ado ismo
c escen e da sociedade (Ibid.).
A si uação só pio ou com a in asão do I aque lide ada pelos EUA em 2003.
Pa a aseando Al-Ali (c . 2007, p. 260), a de esa do pe íodo de Saddam Hussein pelas
i aquianas que en e is ou só pode se analisada à luz dos acon ecimen os que se
segui am à in asão. De ac o, no escaldo do caos e des uição esul an e da in asão, a
econs ução de uma sociedade es á el e pací ica pós-con li o o nou-se num sonho po
ealiza . A população suni a não se e ia no go e no xii a – os xii as cons i uem a
maio ia da população i aquiana – de Bagdade e esse descon en amen o, aliado à
desmobilização dos mili a es que comba e am con a os ame icanos, oi canalizado pelo
que começou po se um b aço da Al-Qaeda e acabou como p e enso Es ado, undado
em ideais sala i as e wahabi as. O clima de gue a ci il, a en ados e a aques que se
i eu pós-in asão oi de e minan e pa a o ma o espaço ideal de desen ol imen o de
um g upo que ap o ei ou a deso ganização do exé ci o i aquiano pa a se abas ece com
a mas e conquis a não só la gas camadas do e i ó io i aquiano como uni-lo à
debili ada, ambém pela gue a ci il, Sí ia.
As mulhe es so e am pa icula men e com es e caos, na medida em que a
iolência sexual o nou-se es u u al, não só de ido ao o alecimen o das no mas ibais
e eligiosas, que se inham o nando cada ez mais ígidas, como ao aumen o da
iolência ins i ucional (e.g. c imes de hon a; abusos da polícia, o ças a madas,
mili an es de ideologias misóginas) (c . Al-Ali, 2007/2016).36 Ci ando Al-Ali num ex o
ecen e sob e a iolência sexual no I aque, «[…] sexual iolence, as we a e wi nessing
now, did no eme ge in a acuum; I aqi women and men we e con on ed wi h sexual
and b oade gende -based iolence p e-in asion I aq and, as well as in he pos -
in asion pe iod» (2016, p. 1).
36 Pa a mais in o mações sob e as condições de ida das mulhe es nos anos que se segui am à in asão do
I aque em 2003 e A a C oss oads: Human Righ s in I aq Eigh Yea s a e he US-Led In asion,
disponí el em: h ps://www.h w.o g/ epo /2011/02/21/c oss oads/human- igh s-i aq-eigh -yea s-a e -us-
led-in asion.
61
No caso da Sí ia, a hegemonia do Pa ido Ba' h oi mais p ecoce. O alinhamen o
com o nacionalismo á abe de Nasse le ou à en a i a de um Es ado conjun o (1958-
1961), logo abandonado. A ins abilidade polí ica e social ab e caminho ao golpe de
Ha ez al-Assad em no emb o de 1970, seguindo-se um pe íodo ma cado pela
consolidação do pode e po um apa elho ep essi o. As gue as le adas a cabo an o em
e i ó io is aeli a como libanês es ende am-se ao longo da segunda me ade do século
XX. Um dos al os da ep essão do egime sí io o am os mo imen os islâmicos, como a
I mandade Muçulmana – um dos episódios pa adigmá icos oi o a aque a Hama em
1982. A i alidade en e o Pa ido Ba' h i aquiano e o sí io le ou a Sí ia a apoia o I ão
na Gue a I ão-I aque nos anos 1980.
Em 1994 sucede no pode Basha al-Assad, segundo ilho de Ha ez al-Assad,
o malmen e elei o a a és de um plebisci o. Assis e-se en ão a algumas e o mas p ó-
democ á icas pe mi idas e le adas a cabo pelo egime, como a eme gência de ó uns de
discussão polí ico-social, que culmina am no «Mani es o 99», a libe ação de 600
p isionei os polí icos e o enascimen o da I mandade Muçulmana. Não obs an e, logo
no ano seguin e o egime sup imiu o mo imen o p ó-democ á ico. In ocando o apoio
dado pelo egime sí io a g upos como o Hamas, Hezbollah e o Mo imen o Jihadis a
Islâmico e a aquisição de ADM, Bush inclui a Sí ia, em 2002, no «Eixo do Mal», numa
cla a ameaça ao país, seguindo-se um pe íodo de o es ensões nas elações en e a
Sí ia e os países lide ados pelos EUA. Em 2004, os EUA impuse am sanções
económicas ao país acusando o mesmo de apoio a e o is as; concomi an emen e e ao
longo da segunda me ade da década de 2000 as ondas de esis ência con a o egime
c esciam. É impo an e isa que a pa dos mo imen os islâmicos den o da Sí ia, os
Cu dos o am, al como no I aque, ou o dos al os do egime.
O descon en amen o chegou ao pa oxismo em ma ço de 2011 quando p o es os
p ó-democ acia i ompe am em De a'a. Um pe íodo de seca pa icula men e g a e que
começou em 2006 e uma economia incapaz de abso e a população jo em a i a o am
algumas das a iá eis que le a am aos p o es os, cujo ca alisado oi a de enção e
o u a de jo ens que ha iam pin ado slogans e olucioná ios na pa ede de uma escola
(Gleick, 2014, p. 331). Aos p o es os segui am-se as eações e demons ações de o ça
do egime que le a am à a ual gue a ci il na Sí ia. Nes e con li o pa icula men e
iolen o, são á ios os ela os de c imes de gue a e con a a humanidade (e.g. a aques à
62
população ci il, incluindo iolência sexual; a aques com a mas químicas)37 come idos
an o pelas o ças do egime de Basha al-Assad como pelas o ças ebeldes – uma
amálgama de o ças p ó-democ acia, mode ados e adicais islâmicos. O Daesh oi uma
das o ças adicais que ap o ei ou o caos ge ado pela gue a na Sí ia. Pa a além de lu a
na I aque, es endeu a sua ação mili a à Sí ia, endo conquis ado aixas do e i ó io
en e Raqqa, na Sí ia, e Mossul no I aque.38
Num dos poucos es udos sob e a si uação das mulhe es na gue a da Sí ia, Ka y
Alhayek (2015) no a que as his ó ias das mulhe es sí ias que não encaixam no discu so
mains eam dos media in e nacionais, sob e as í imas da Gue a Ci il, são
in isibilizadas. A maio ia das his ó ias de mulhe es são ma ginalizadas em p ol de
his ó ias que se coadunem com a na a i a da e ugiada sí ia como í ima dos homens
op essi os e iolen os da sua sociedade, den o de uma ca ego ia homogénea que não se
e le e na p á ica (Id., p. 1).
É impo an e e em con a a di e sidade de expe iências de cada mulhe , que
nos e i amos ao pe íodo an e io à P ima e a Á abe e ao início do con li o a mado na
Sí ia, que es ejamos a ala das expe iências das mulhe es i aquianas du an e o egime
de Saddam, a ocupação ame icana e o pe íodo de gue a ci il pos e io . As his ó ias das
mulhe es sí ias en e is adas po Alhayek o necem um bom exemplo da di e sidade de
expe iências an es e du an e o con li o. Sendo odas elas e ugiadas, as suas si uações
sociais a iam mui o mesmo den o dos g upos ma ginalizados e sem isibilidade
pública – as es u u as económicas e sociais con inuam a in luencia as suas
expe iências mesmo quando se o nam e ugiadas. Nas seis en e is as publicadas,
Alhayek dá oz a mulhe es in isibilizadas pelas ep esen ações mediá icas. De ido à
in e ceção da classe, idade, educação, posição social da amília e luga de o igem, as
expe iências das mulhe es são mui o di e en es, não obs an e a iolência es u u al da
pa e do egime, mas odas es as mulhe es encon a am o mas de esis i e sob e i e
den o das es u u as de pode e dominação an o na Sí ia como na Jo dânia (2015, pp.
24-25).
37 Sob e a u ilização de a mas químicas e A acks on Ghou a: Analysis o Alleged Use o Chemical
Weapons in Sy ia, disponí el em: h ps://www.h w.o g/ epo /2013/09/10/a acks-ghou a/analysis-alleged-
use-chemical-weapons-sy ia.
38 Pa a mais in o mações ela i as ao con li o na Sí ia e h p://www.bbc.com/news/wo ld-middle-eas -
26116868.
63
Quan o à iolência sexual, o enómeno es e e p esen e em ambos os con li os e
em di e en es épocas da his ó ia da Sí ia e do I aque. No I aque, ma ca a p esença no
apa elho ep essi o do egime de Saddam Hussein, oi come ida pelas opas no e-
ame icanas no e eno (Abu Gh aib) e pelas á ias ações na gue a ci il que se seguiu à
in asão ame icana. Um ecen e a igo de Nadje Sadig Al-Ali az p ecisamen e um
le an amen o das expe iências de iolência sexual no I aque das úl imas décadas,
su gindo assim as p á icas ex emas de esc a ização sexual do Daesh não como uma
u u a, mas como exace bação de endências an e io es agudizadas sob e udo pelo caos
que ma cou os anos pós-in asão. Se a iolência sexual no I aque despe ou pouco
in e esse mediá ico,39 o mesmo já não se pode dize da Sí ia: ejam-se as denúncias de
iolência sexual no deco e da gue a ci il en e os denominados ‘ ebeldes’ e as o ças
do go e no de Basha Al-Assad, bem como pelos ecen es ela os de esc a a u a sexual
o ganizada po comba en es do Daesh.40
To na-se cla a a in e ligação en e ambos os con li os, desde logo ao ní el do
egime di a o ial – ambos os egimes e am lide ados po mino ias eligiosas, mas
secula es –, da dimensão sec á ia pós- egime di a o ial no caso do I aque e du an e a
gue a ci il no caso da Sí ia, com mo imen os belige an es suni as, como é o caso do
Daesh, a a ua nes es dois países. Reco de-se que o Daesh que uni os dois países num
cali ado, que os go e nos de ambos os países coope am na lu a con a os ebeldes e
ecebem apoio dos mesmos países, como é o caso do I ão. A in e enção ame icana no
I aque – que icou conhecida como a Segunda Gue a do Gol o – é o elemen o
di e enciado , já que os indícios de iolência sexual se i am inclusi amen e pa a
legi ima a in e enção dos EUA. Em á ios discu sos Geo ge W. Bush e e iu as
câma as de o u a e iolação de Saddam Hussein pa a de ende a in asão do I aque.41
Já an es a P esidência Bush ins umen aliza a amplamen e a iolência sexual pa a
jus i ica a in asão do A eganis ão. Du an e a gue a na Sí ia, os de enso es de
in e enções ex e nas con a Basha Al-Asad e e i am, po ol a de 2013, a iolência
39 No en an o, esses acon ecimen os o am amplamen e documen ados po o ganizações de di ei os
humanos ociden ais. Veja-se, po exemplo, o ela ó io da Human Righ s Wa ch Clima e o Fea : Sexual
Violence and he Abduc ion o Women and Gi ls in Bagdad (July 15, 2003,
h ps://www.h w.o g/ epo /2003/07/15/clima e- ea /sexual- iolence-and-abduc ion-women-and-gi ls-
baghdad).
40 C . h p://www.you middleeas .com/columns/a icle/sexual- iolence-as-a-wa -s a egy-in-i aq_25812;
h p://globaljus icecen e .ne /index.php/publica ions/ad ocacy- esou ces/173-in isible-and-silenced-
women- he-s o ies-o -women- o u ed-du ing-saddam-hussein-s- egime.
41 Veja-se a c onologia das e e ências às «salas de iolação de Saddam» nos discu sos de Bush e de
igu as impo an es da sua adminis ação (Sale an, 2004).
64
sexual e os a aques químicos como jus i icação pa a a inge ência. Mas oi mais
ecen emen e, com o Daesh, que os casos de iolência sexual, pa icula men e a que se
e e e à esc a a u a sexual con a mino ias c is ãs e yazidis em ambos os países, êm
susci ado um g ande in e esse da comunidade in e nacional. Na ealidade os ela os de
esc a a u a sexual do Daesh acaba am po monopoliza a a enção mediá ica à iolência
sexual nas gue as da zona.
É assim que se cons uiu uma imagem da mulhe sí ia e i aquiana, sob e udo das
e ugiadas, como í ima que necessi a de se sal a pelo Ociden e. Es a ideia
homogeneizado a das expe iências das mulhe es do Médio O ien e, especi icamen e da
Sí ia e do I aque, du an e es e pe íodo de con li o a mado, como í ima da obje i icação
e ag essão sexual do homem muçulmano e da sociedade pa ia cal, onde es a
masculinidade sexualmen e ag essi a (c . Alhayek, 2015) se desen ol e, acabou po se
ambém ins umen alizada: an o po mo imen os ci is e polí icos eu opeus na omada
de decisão e sancionamen o de polí icas xenó obas de es ição de asilo ao e ugiados,
bem como como o ma de jus i icação do impe ialismo ociden al, masca ado ou
imbuído de pa e nalismo es a al. O enómeno que Tick in obse a a nos p imei os anos
do século XXI (c . Tick in, 2008) con inua a mani es a -se, ago a no con ex o do
impac o da Gue a da Sí ia. Como e emos a a és da análise da imp ensa po uguesa,
nes as cons uções de signi icado a iolência sexual é pa icula men e impo an e:
a a és da seleção das í imas isí eis, i.e., da cons ução mediá ica da í ima, a a-se
de um ipo de iolência mais gende izado e po isso mais susce í el de consegui
consensos no que oca ao sal amen o das mulhe es muçulmanas inde esas pelos
soldados ociden ais.
IV. In es igação P elimina
Obje i os, eo ia e me odologia
Nes e pon o, e depois da análise da li e a u a e e en e aos concei os cen ais do
p oje o e do escla ecimen o ace ca do obje i o ala gado da in es igação, i emos
p ocede à explanação da in es igação p elimina . Como oi amplamen e
sup amencionado, o obje i o é esponde à ques ão: de que o ma os media
po ugueses, enquan o media ociden ais, e a am a iolência sexual exe cida po
o ças belige an es/insu ecionais nos con li os da Sí ia e I aque (2010-2015)? Quais
são os p essupos os polí ico- ilosó icos e psicossociais po de ás des a na a i a? E
65
p ocu a co obo a ou e u a o a gumen o segundo o qual a na a i a inculada pelos
media po ugueses ep esen a simbolicamen e o homem muçulmano como ag esso e a
mulhe (seja ela c is ã ou muçulmana) como í ima. A es e discu so es á subjacen e
uma ideia de e minada e gene alizada do homem e da mulhe do Médio O ien e –
o ien alismo – di undida pelo mains eam ideológico ociden al, que em úl ima análise
cons i ui uma o ma de iolência simbólica e in ole ância dissimulada, que o nece uma
jus i icação plausí el pa a os discu sos islamo óbicos ociden ais, alhando em de ende
os di ei os des as mulhe es, pa a além de legi ima inge ências ociden ais no Médio
O ien e e polí icas an i-imig ação.
Reco e -se-á ao mé odo de análise abdu i o e, po an o, baseado na p ocu a de
uma análise, e a pa i daí suge i -se-á uma hipó ese explica i a que se á explo ada na
in es igação pos e io .
Re lexões me odológicas: a análise de discu so nos media
Como já oi e e ido an e io men e, a p esen e in es igação p elimina , sob e a
imp ensa po uguesa, eco e à análise c í ica do discu so. Os obje i os da análise c í ica
de discu so passam pelo oco em p oblemas sociais; pela isão das elações de pode
enquan o discu si as e do discu so enquan o cons i u i o da sociedade, da cul u a e da
ideologia: o discu so é his ó ico e uma o ma de ação social; a ligação en e o ex o e a
sociedade é mediada e a análise de discu so é in e p e a i a e explica i a (Fai clough &
Wodak, 1997, pp. 271-80 apud Dijk, 2001, p. 353). Não obs an e es e ipo de análise de
discu so não e um enquad amen o eó ico único, podemos, no en an o, e p esen e,
pa a além das ca ac e ís icas acima enunciadas, a di isão da análise em dois ní eis: 1)
mic o, i.e., o uso da linguagem, o discu so, a in e ação e bal e a comunicação; 2)
mac o, i.e., pode , domínio, a desigualdade en e g upos sociais (Dijk, 2001, p. 354). As
ações/in e ações ao ní el mic o in luenciam e pe mi em a exis ência das es u u as de
pode a ní el mac o, e.g. qualque discu so ep oduzido num ó gão no icioso acaba po
in luencia a opinião pública de uma de e minada manei a, po exemplo, con ibuindo
pa a ce os es e eó ipos que i ão aumen a o sen imen o xenó obo, acis a, sexis a e c.
numa de e minada população.
Es e ipo de pode , ou seja, a capacidade de in luencia , é maio nas camadas da
população que êm maio acesso a ecu sos sociais escassos como é o caso da
in o mação, po exemplo, o que lhes pe mi e e a capacidade de con ola os discu sos
públicos, e.g. a comunicação social (Id., p. 355). É, po an o, necessá io de e mina qual
66
é o ipo de pode e qual é o discu so ao qual es á inculado, pa a pos e io men e
de e mina : 1) como é que de e minados g upos con olam o discu so público? 2) como
é que es es discu sos con olam os pensamen os e as ações dos g upos menos
pode osos, e quais são as consequências sociais des e mesmo con olo? A espos a a
es as ques ões passa pela de inição do discu so como e en os comunica i os
complexos, sendo que o acesso e o con olo podem se de inidos an o pa a o con ex o
como pa a a es u u a do ex o e a ala em si (Id., p. 356; 358).
A análise de discu so analisa os á ios con ex os do discu so, desde os p ocessos
cogni i os da p odução e eceção a é às dimensões sociocul u ais da linguagem e
comunicação (Dijk, 1988, p. 2). Mais especi icamen e, a análise c í ica do discu so é um
ipo de análise de discu so cujo p incipal obje o é o pode social, ou mais
especi icamen e, a o ma como o pode social ge a, ep oduz e esis e ao abuso,
dominação e desigualdade a a és do ex o e da pala a em con ex os sociais e polí icos
complexos – a posição socialmen e comp ome ida con a a desigualdade social e a a o
de uma emancipação social é ou a das ca a e ís icas di e enciado as da análise c í ica
do discu so (Id., 2001, p. 352).
Análise dos discu sos: mé odo de pesquisa
A análise dos discu sos nos media po ugueses oi ei a com base na pesquisa de
peças jo nalís icas em ês jo nais po ugueses, nas suas edições imp essas e online: o
Público (imp essa e online), Co eio da Manhã (apenas online) e Exp esso (imp essa e
online). A escolha des es ês jo nais e e como móbil a ab angência de posições
polí ico-sociais dos jo nais u ilizados e dos seus o ma os. Em p imei o luga , o am
escolhidos jo nais diá ios e um semanal, ao mesmo empo hou e a p eocupação de
escolhe , den o das possibilidades an e io es, dois jo nais espei ados como “sé ios”
po con e em in o mação de e e ência, Público e Exp esso, e um ido como
sensacionalis a, o Co eio da Manhã. O Co eio da Manhã oi ecolhido apenas na sua
e são online de ido à di iculdade na pesquisa e acesso às suas e sões imp essas.
O Co eio da Manhã, sendo um jo nal diá io com 36 anos e de g ande i agem,
es á p esen e no dia-a-dia da esmagado a maio ia dos po ugueses. De ac o, é o jo nal
com mais dis ibuição em locais de con í io e/ou descanso como são os ca és. A
es u u a, o con eúdo di ulgado nes e jo nal, bem como a dimensão da i agem des e
jo nal gene alis a em Po ugal eme em-no pa a a es e a da imp ensa sensacionalis a. O
Exp esso, po ou o lado, é um jo nal de e e ência de g ande i agem semanal, o
73
p imei o como no segundo cená io as a enções i am-se pa a os a ican es que as
ajudam a iaja pa a a Eu opa e os habi an es da Líbia, não sendo mencionados
eu opeus nem edes de á ico eu opeias. Ou o exemplo de en a i a de sensibilização
encon a-se na no ícia de 5 de dezemb o de 2014 com o í ulo «ONU pede-lhe um dóla
pa a alimen a os e ugiados sí ios». Es a no ícia apela à solida iedade pa a com os
e ugiados an o a ní el indi idual como cole i o, a pa i da campanha da Amnis ia
In e nacional pa a que se conceda au o izações de esidência a pessoas «especialmen e
em isco» como são o caos das í imas de iolação.
Pa a além des a p eocupação mais ge al com os e ugiados, assis e-se ambém à
sensibilização do lei o pa a as consequências e di iculdades que a iolência sexual
pode á aze pa a a econs ução das sociedades pós-gue a. Na c ónica de William
Hague – Minis o dos Negócios Es angei os b i ânico à da a – a iolência sexual é
enca ada de o ma ins umen al e enquan o enómeno exclusi amen e eminino.58 Na
p á ica o a igo p e ende c ia uma opinião pública a o á el à assina u a de um aco do
polí ico en e os G8, num encon o que deco e ia no Reino Unido, cujo mo e e a a
iolência sexual: «é nosso de e como di igen es polí icos de países li es e se es
humanos acaba com a impunidade daqueles que usam a iolação como a ma de gue a,
e assegu a que as í imas nunca mais sejam abandonadas». É po demais e iden e a
dis inção que se az en e «países li es», à ma gem des e p oblema, que possuem
supe io idade mo al pa a julga , e os «ou os», aqueles que u ilizam ou são coni en es
com a iolência sexual. Há na c ónica, pa a além da u ilização de o ma p oblemá ica
das expe iências das mulhe es, a ins umen alização do co po de uma c iança pa a c ia
empa ia no lei o : «há duas semanas isi ei a República Democ á ica do Congo onde me
oi en egue uma o og a ia de uma menina de cinco anos que inha sido iolada».
Passemos ago a a uma peça no iciosa sob e as decla ações de Rui Manche e –
Minis o dos Negócios Es angei os de Po ugal à da a – na sequência dos a en ados
con a o Cha lie Hebdo e do ela ó io da CDH sob e a Sí ia, com o obje i o de
ap esen a o Daesh como ameaça que a comunidade de e ia comba e .59 Assim, o
minis o a i ma que a «comunidade in e nacional não pode pe manece indi e en e
pe an e a escala de iolações e de abusos que aí êm desc i os e que não podem senão
me ece condenação» ealçando ao mesmo empo a de e minação em e adica o Daesh
58 «Fim à iolência sexual com a ma de gue a», 11/04/2013.
59«Rui Mache e ei indica libe dade de exp essão e de ende papel dos jo nalis as», Nuno Ribei o,
03/03/2015.
74
como on e des e mal. O Daesh é is o como pe igo na Eu opa numa al u a em que é
bomba deado pelos países da NATO e c iminalizado em á ios países (os jo ens
eu opeus do Daesh são a ados como pe igo pela impo ação de e o ismo). Po seu
lado, e i ica-se in e esse pela si uação dos e ugiados que en am chega à Eu opa e
que es ão em campos de e ugiados (que países eu opeus inanciam com obje i o de
e i a que en em a a essia). Há, nes e sen ido, um cons an e apelo à ação no é mino
do con li o na maio pa e das no ícias.
É impo an e a en a no ac o de a maio ia das í imas nomeadas se em
e ugiadas sí ias que enca nam o ideal da í ima nos media. Na peça jo nalís ica
«Re ugiada sí ia no Líbano: Nós endemo-nos à ealidade da iolação» podemos
con on a esse ideal pela imagem de passi idade da í ima que anspa ece no e bo
« ende ». 60 A es a passi idade ac esce a al a de isibilidade das expe iências
indi iduais des as mulhe es, pois a no ícia é baseada num ela ó io da ONG e as pessoas
en e is adas são ep esen an es da ONG e um médico, não exis indo ci ações di e as
das 240 e ugiadas en e is adas pa a a elabo ação do ela ó io. Ac esce que a iolência
sexual é aqui e a ada como um p oblema exclusi amen e eminino e como o pio que
pode acon ece a uma mulhe ou apa iga. O obje i o da peça é ale a pa a a al a de
apoio que es as mulhe es êm nos campos de e ugiados e a exo ação à al e ação des a
si uação, cujos mo i os o am sup amencionados.
A única epo agem, da au o ia de Alexand a Lucas Coelho em E bil, e a a a
« uga [dos c is ãos] ao 'Es ado Islâmico».61 Di ulgada pelo Público online, em como
oco cen al as expe iências dos c is ãos que ugi am dos e i ó ios sob o jugo do
Daesh. Faz-se uma dema cação en e aqueles que i e am «desde semp e no I aque» –
os c is ãos – e os jihadis as es angei os que « ala am uma língua es anha». Há um
es o ço po pa e de Lucas pa a c ia empa ia em elação a es as pessoas ao menciona
as condições em que i em e as suas ocupações, mui o semelhan es às nossas. Há
ci ações di e as de e ugiados c is ãos, humanizando-os a a és dos seus anseios, lu as e
medos – mais especi icamen e de um pad e de Qa aqosh e Majida, uma mãe de cinco
ilhas e um ilho. Com Majida somos le ados a é ao mundo das c ianças, desde a sua
ilha mais no a de oi o anos a é à «mais elha [que] es á nos 24. Qualque uma delas
pode ia se ans o mada em esc a a sexual no sis ema do “Es ado Islâmico”». As
60So ia Lo ena, 15/01/2013.
61 «C is ãos desde semp e no I aque ago a em uga ao “Es ado Islâmico”», Alexand a Lucas Coelho,
30/05/2015.
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mulhe es são associadas à iolência sexual, a sua ulne abilidade é sexual e o p opósi o
de o menciona é c ia empa ia em elação às p eocupações da mãe. A epo agem
explo a ao mesmo empo a elação en e os c is ãos i aquianos e os Ou os, assim como
as ligações que se es abelecem en e os úl imos: a coni ência dos á abes suni as em
elação ao Daesh con a o go e no xii a, go e no esse is o como esul ado da ocupação
ame icana. Quando a epó e analisa as espos as dos seus en e is ados, sob e a
o igem do a ual p oblema no I aque, ci a-os indi e amen e a i mando que a o igem do
Daesh ad ém de más decisões de go e nos locais e po ências ex e nas, mas, quando a
epó e a alia a espos a de Majida, conside a que es a é «menos ab angen e, e le indo
só mal-es a em elação aos ame icanos. Um mal-es a que é mui o mais dos e ugiados
indos de e as não cu das, como es es, que dos cu dos, ge almen e simpa izan es da
Amé ica». No a-se assim que Lucas c ia empa ia pelo so imen o associado a Majida
(ameaça sexual), mas sinaliza dis ância pe an e a sua análise polí ica.
Co eio da Manhã online:
No Co eio da Manhã, e são online, o ema da iolência sexual su ge em eze
ex os: doze no ícias e um a igo de opinião. Em seis é o ema cen al e em se e é apenas
e e ido.
A esmagado a maio ia das no ícias publicadas pelo Co eio da Manhã em como
base ela ó ios da ONU ou de ONGs. Algumas apa ecem com a e e ência da Lusa, mas
a maio pa e não ap esen a au o . Mais de me ade das no ícias são cu as.
A p imei a no ícia oi publicada a 15 de agos o de 2012 e baseia-se num
ela ó io elabo ado po en iados da ONU à Sí ia onde se dá con a de c imes con a a
Humanidade come idos pelo egime sí io, de en e os quais se menciona a iolência
sexual.62 Embo a o sub í ulo anuncie que o ela ó io «dá con a dos g a es c imes
pe pe ados pelas duas pa es» do con li o, o co po da no ícia adian a, a a és de uma
ci ação di e a do ela ó io, que os c imes pe pe ados pelos ebeldes «não êm a mesma
g a idade, equência e escala» em compa ação com os do egime. Há, po an o, uma
cla a dis inção en e o egime que le a a cabo c imes mais g a es, equen es e em
maio escala, de en e os quais iolência sexual, e os ebeldes, que embo a come am
c imes con a a humanidade, não são ão «g a es» – não ha endo menção a iolência
sexual quando se ala deles.
62 «ONU acusa egime sí io de c imes con a a Humanidade».
76
No ano de 2013 não há no ícias sob e iolência sexual nes es dois con li os.
Apenas em junho de 2014 se e oma o ema da iolência sexual a a és das a i mações
da ONG espanhola En ecul u as no âmbi o do lançamen o do ela ó io do ACNUR no
Dia do Re ugiado.63 Es a ONG dá con a da exis ência de «22 milhões de mulhe es e
apa igas deslocadas no mundo» en e as quais se encon am sí ias e, não endo es a
no ícia como oco cen al a iolência sexual, es a é ap esen ada como uma das azões
que ob iga es as mulhe es a sai do seu país. Há, po an o, uma associação en e a
iolência sexual e o géne o eminino. No mês seguin e, e omando o ema dos
e ugiados, o Co eio da Manhã ol a a e ela dados de um ó gão da ONU, des a ei a
da Unice , sob e o aumen o dos casamen os de c ianças e ugiadas na Jo dânia en e
2012 e 2013, em ce ca de 7%.64 A no ícia ambém ci a a ONG Sa e he Child en («os
casamen os p ecoces e o çados en e meninas sí ias e ugiadas duplicou desde o início
da gue a»), ema ando com uma ci ação indi e a que a i ma que 48% se a a de uniões
com homens 10 anos mais elhos. O a, segundo a no ícia, es es casamen os de em-se à
pob eza e isco de iolência sexual, uma o mulação que pa ece sinaliza uma
dissociação dos casamen os em si da iolência sexual. O géne o das í imas não é
mencionado ou quando é mencionado é associado ao géne o eminino, an o a mulhe es
como a apa igas. Pa a além disso, a no ícia inci a-nos a pensa as apa igas sí ias como
í imas da sua p óp ia cul u a e sociedade.
Tal como no Público, é possí el aze uma dis inção en e as no ícias an e io es à
conquis a de Mossul e ao Massac e de Sinja e as no ícias que se segui am, na medida
em que nas p imei as a de inição dos ag esso es e a aga, com a exceção dos c imes
impu ados ao egime e à supos a aqueza das amílias das apa igas sí ias e ugiadas, e
na segunda as no ícias passa am a di eciona a culpa con a os mili an es do Daesh.
Mais uma ez, a no ícia de no emb o de 2014 baseia-se nas a i mações ob idas nas
Nações Unidas, a a és de uma Comissão de in es igação que acusa o Daesh de
iolen a sexualmen e mulhe es e de ex e mínio de mino ias, ep esen ados na no ícia
como enómenos dissociados.65 Embo a o ela ó io se baseie em en e is as ei as a 300
pessoas, en e as quais homens, mulhe es e c ianças nenhum é ci ado e os c imes são
associados apenas a í imas do sexo eminino. No ano seguin e, no iciam a libe ação de
mais de 200 e éns yazidis no I aque, de en e os quais « elhos, mulhe es, c ianças e
63 «Há 22 milhões de mulhe es e apa igas deslocadas no mundo, diz ONG espanhola», 20/06/2014.
64 «Pob eza e iolência sexual aumen am casamen os de meninas e ugiadas», 16/07/2014.
65 «Comissão de in es igação da ONU acusa EI de c imes de gue a», 14/11/2014.
77
pessoas com p oblemas men ais» – há uma cla a dissociação das mulhe es em elação
aos ou os g upos. Não obs an e a no ícia e como mo e a libe ação da pa e do Daesh
dos e éns, não se deixa de u iliza a iolência sexual pa a isa as «a ocidades» do
g upo. Pa a se ala do Daesh u iliza-se o epí e o «jihadis as», pala a com cla a
cono ações eligiosas. Fala-se de «a ocidades do g upo ex emis as suni a» – ou a cla a
associação do g upo à eligião muçulmana no seu amo suni a – aquando da conquis a
da «“casa” dos yazidis» numa alusão à pe ença des es úl imos em elação aos
p imei os. A no ícia e mina a i mando que os abusos den o da á ea con olada pelo
Daesh se êm mul iplicado, apagando-se o om da libe ação. As «a ocidades»
come idas pelo g upo, especialmen e a iolência sexual é exponenciada a a és dos
ela os de mulhe es que op a am pelo suicídio «pa a escapa a es e des ino».
A associação en e a iolência sexual e os g upos ex emis as es á p esen e nas
no ícias que se seguem, como é exemplo a no ícia com o í ulo «G upos ex emis as
aumen am a iolência sexual».66 Es a associação em implíci a ou a associação, des a
ei a dos g upos ex emis as que come em c imes sexuais ao Islão. Todos os «g upos
ex emis as» mencionados na no ícia, baseada num ela ó io da ONU, são islâmicos.
Embo a o ela ó io se baseie em es emunhos «p o undamen e angus ian es de es up o,
esc a idão sexual e casos de casamen os o çados, que são u ilizados po g upos
ex emis as como pa e de uma á ica de e o na Sí ia, I aque, Nigé ia, Somália e
Mali», não há nenhuma ci ação di e a. Não nos é assim possí el e acesso às
expe iências pessoais das í imas, si uação que pe passa po odas as no ícias que se
baseiam em on es es angei as, bem como ela ó ios in e nacionais.
As í imas, «essencialmen e67 mulhe es e c ianças en e os 8 e os 25 anos», são
e a adas sem os o, não há qualque indi idualização das í imas pa a além da
desc ição da iolência «gene alizada e sis emá ica» das «a ocidades» come idas con a
es as mulhe es p o enien es do I aque e da Sí ia. Sem his ó ia e sem dis inção, pa a
além da dis inção baseada na sua pe ença a uma mino ia é nica ou eligiosa. Es as
mulhe es es ão ligadas pela sua ulne abilidade, segundo as pala as de Zainab
Bangu a, Rep esen an e Especial do Sec e á io-Ge al das Nações Unidas sob e a
Violência Sexual em Con li os, «“as mulhe es e apa igas es ão em isco e sob a aque
em odos os aspe os da sua ida […] a b u alidade as segue a cada passo do caminho, no
66 13/04/2015.
67 I álico nosso.
78
seio do con li o a i o, em á eas con oladas po a o es a mados, em pos os on ei iços e
de con olo e em ins alações de de enção”».68 As expe iências das mulhe es aqui
e a adas são selecionadas de aco do com a sua ulne abilidade, não exis em
expe iências al e na i as.
A 29 de maio de 2015 é publicada uma no ícia sob e a mobilização po pa e da
União Eu opeia de 40 milhões de eu os pa a apoia e ugiados da Sí ia, e e indo-se que
os undos disponibilizados pela UE ambém se i ão pa a «p opo ciona espaços
segu os que e i em a iolência sexual sob e as meninas», pa a além da educação,
aumen o das opo unidades de abalho e o mação dos e ugiados.69 Mais uma ez as
apa igas são is as como um g upo especialmen e ulne á el à iolência mesmo den o
dos campos de e ugiados. A iolência sexual é o assun o mencionado pa a c ia
empa ia pelo so imen o das mulhe es no lei o quando se abo da a ajuda in e nacional
aos e ugiados. É o que se e i ica na no ícia sob e a possibilidade de «cem eu os
doados po um po uguês pa a apoia e ugiados no Líbano alimen am uma c iança sí ia
em Bei u e du an e um ano», assun o mencionado em ci ação indi e a, po Ana F anco
Sousa do Se iço Jesuí a aos Re ugiados de Po ugal.70
En e junho e dezemb o de 2015, as no ícias do Co eio da Manhã ocam-se na
iolência sexual exe cida pelo Daesh, com b e e ên ase na iden idade das í imas,
sob e udo aquelas que «não [são] muçulmanas». Duas das no ícias baseiam-se em dados
p o enien es do Obse a ó io Sí io dos Di ei os Humanos, de en iados da ONU.71 Em
nenhuma das no ícias são ap esen adas expe iências indi idualizadas das í imas, ou
seja, não são nomeadas, não êm oz p óp ia. A ep esen ação des as í imas é ei a o a
pelos en iados da ONU, o a pelos jo nalis as que ansmi em a in o mação. Quando as
í imas alam, o que acon eceu na no ícia de 30 de dezemb o de 2015 sob e a
manu enção do seques o po pa e do Daesh de «3.400 yazidis no I aque», é possí el
an e e a seleção das expe iências das mulhe es.72 Quem ala não é apelidada de í ima
ou e ugiada, é uma «a i is a de esc a a u a sexual» que não se encaixa na imagem de
í ima que se p e ende e a a e po isso não ala da sua expe iência pessoal mas sim de
o ma gene alizada sob e a esc a a u a sexual: «o Es ado Islâmico u iliza as mulhe es
68 «Nações Unidas ale am pa a a iolência sexual na Sí ia e no I aque», 08/05/2015.
69 «UE mobiliza 40ME pa a apoia e ugiados da Sí ia».
70 «Cem eu os alimen am uma c iança e ugiada du an e um ano», 17/11/2015.
71 «Es ado Islâmico ende meninas ap adas como esc a as», 08/06/2015; «Es ado Islâmico ende
esc a as a comba en es na Sí ia», 08/11/2015.
72 «Daesh man ém seques ados 3.400 yazidis no I aque».
79
yazidis como “ca ne pa a a ica ”», mas ala «em nome de milha es de mulhe es e
c ianças que con inuam seques adas». Nas pala as da en iada da ONU «es a é uma
gue a que es á a se a ada no co po das mulhe es», mais uma ez das «mulhe es»
enquan o ca ego ia homogénea e massi icada. Não há qualque e e ência às
expe iências pa icula es das í imas, es as são semp e «mulhe es», «esc a as meninas
ap adas» enca adas segundo as no ícias como commodi ies: «[os mili an es do Daesh]
ocupam no as á eas pa a e em no as meninas»; «as meninas são endidas “po ão
pouco como um maço de ciga os” ou “po á ios milha es de dóla es”». A empa ia
c iada pa a com as í imas eco e a exemplos ex emos, que são ambém a imagem das
í imas a quem se dá isibilidade, como «o exemplo de uma menina de 15 anos que oi
comp ada po um homem de 50 anos que lhe mos ou uma a ma e um pau e lhe
pe gun ou qual dos dois obje os escolhe ia […] a menina escolheu a a ma e o homem
disse que não a inha comp ado pa a ele se ma a […] a segui iolou-a [sic]».
As «a ocidades» do Daesh são is as como p á icas medie ais p o ocadas pela
sua on ade de cons ui uma sociedade do século XIII, nas pala as da en iada da
ONU. T a a-se de uma conside ação que p essupõe uma ideia de p og esso
ci ilizacional bene olen e, ao mesmo empo que enca a odas as mani es ações de
iolência não sancionada pelos alo es ociden ais como e óg ada e um eg esso à
ba bá ie, uma conceção que se encaixa nas ep esen ações hegemónicas de iolência
que ap esen ámos na secção do Es ado da A e e e en e ao concei o de iolência (c .
sup a).
O mesmo se pode dize ao analisa o a igo de opinião de And é Ven u a,
p o esso uni e si á io na FDUNL, com o í ulo «A injus iça islâmica».73 A e e ência à
injus iça como sendo «islâmica» é uma o ma de liga a injus iça à eligião e a odas as
sociedades cuja eligião é o Islão. A c í ica ecai na «au op oclamada ole ância
ociden al» que igno a «mino ias é nicas esc a izadas e mulhe es escandalosamen e
a icadas pa a a sa is ação dos seus pe e sos líde es di os islâmicos». É impo an e
aqui no a a u ilização de adje i os como «g i an e», «escandalosamen e» e «pe e sos»
pa a in ensi ica a epulsa do au o . A iolência sexual é aqui u ilizada como exemplo da
injus iça islâmica, mais uma ez o co po das mulhe es é u ilizado como a gumen o
con a a supos a injus iça gene alizada da eligião islâmica. Não há, da pa e do au o ,
qualque en a i a de p oblema ização do concei o de sociedade islâmica, são odas
73 17/08/2015.
80
me idas na mesma ca ego ia de sociedades iolen as e misóginas. And é Ven u a, com o
obje i o de comp o a a sua opinião, u iliza o caso da alegada ag essão do líde
eligioso islâmico em Lisboa con a a sua esposa, uma e ugiada a egã. Segundo o au o
es a ag essão é um exemplo da « esis ência das au o idades em a ua » de ido a
«es e eó ipos e medos que desen ol emos enquan o nações democ á icas».
O que aqui lemos é o e a o mais acabado do pensamen o islamo óbico
ociden al. Nes e ipo de discu so, di e sos acon ecimen os são ag upados de o ma
ac í ica den o do ó ulo «injus iça islâmica», desde a esc a a u a sexual do Daesh
passando pela alegada ag essão do Sheik Muni a é à supos a a luência de «po enciais
e o is as […] à Eu opa in il ados e ime sos nos d amá icos mo imen os mig a ó ios
que assolam o Medi e âneo». Pa alelamen e, o mesmo ipo de abo dagem p esen e nas
no ícias an e io es é aqui pa en e de o ma mais isí el quando compa amos a o ma
como as mulhe es são ap esen adas: as í imas não ociden ais não êm nome, nem
expe iências pessoais indi idualizadas, ao con á io das í imas ociden ais como é o
caso de Kayla Muelle ,74 a « abalhado a humani á ia» ( eja-a a desc ição gene alis a
«dezenas de ou as jo ens de odas as nacionalidades», sem que se mencione a
di e sidade de eligiões). No e-se que se, segundo And é Ven u a, es a his ó ia «de e ia
a o men a as consciências de odos os líde es do mundo ociden al», há, po an o, um
oco no mundo ociden al como deciso úl imo em e mos mo ais, mas cujo
disce nimen o se encon a oldado pela «nossa75 ole ância islâmica». Usando uma
ep esen ação uni o me dos co pos das mulhe es como al os de iolência islâmica, o
ex o p econiza uma exo ação à ação da pa e do di o Ociden e: du eza pe an e os
homens muçulmanos a i e no Ociden e e disposição pa a pega em a mas con a
g upos mili a es islâmicos no Médio O ien e.
Exp esso:
Dos í ulos selecionados, o Exp esso oi o jo nal que menos a igos publicou
sob e a iolência sexual, com apenas duas no ícias publicadas online, e qua o
publicações imp essas. Qua o das seis no ícias êm como ema cen al a iolência
sexual (ambas as no ícias publicadas no si e do Exp esso e duas das no ícias publicadas
74 A i is a de di ei os humanos no e-ame icana que abalha a pa a Médicos sem F on ei as, quando oi
ap ada em 2013 pe o de Alepo. Foi en egue ao líde do Daesh, que a e ia iolado epe idamen e.
Segundo o Daesh oi mo a num bomba deamen o jo dano em 2015.
75I álico nosso.
81
na e são imp essa). Em apenas uma 76 os pe pe ado es são ap esen ados como
«“shabbiha” e […] soldados sí ios» (a mesma no ícia que não em a iolência sexual
como oco cen al); com a omada de Mossul e de Sinja es e ipo de iolência passa a
se associado ao « undamen alismo», «jihadismo» do Daesh. As no ícias êm como oco
cen al a iolência sexual pe pe ada con a mulhe es (com a exceção adian e analisada
da única no ícia sob e a iolência sexual come ida po o ças do egime), seja ela
iolação ou esc a a u a (que inclui esc a a u a sexual). Aqui as no ícias undam-se não
só em ela ó ios de ONG e OG, como ambém em epó e es in e nacionais e nacionais
a esc e e pa a o Exp esso (e.g. Da id Send a, na on ei a u ca/sí ia; Rica do
Lou enço, co esponden e nos EUA e Judi Neu ink em Duhok).
Fo am poucas as no ícias do Exp esso selecionadas, e aquelas que o am êm a
iolência sexual como ema cen al, pois, ge almen e, os jo nalis as des e jo nal u ilizam
ou as exp essões pa a se e e i em ao enómeno. As pala as « ap adas» ou « o u a»
podem implica a os de iolência sexual, mas sem que se aça qualque e e ência
exp essa. As exp essões «abuso sexual», « iolação», « iolência sexual» e «esc a a u a
sexual» são apenas mencionadas quando são o oco cen al da no ícia ( endo como
exceção sup amencionada a no ícia sob e os e ugiados sí ios na on ei a en e a
Tu quia e a Sí ia em junho de 2011).
A p imei a no ícia, onde são mencionados casos de iolência sexual, eme e pa a
o d ama dos e ugiados «encu alados na on ei a» en e a Tu quia e a Sí ia.77 O
co esponden e do Exp esso desc e e a si uação polí ica na Sí ia, o a aque pelas o ças
do egime con a Idlib e M'a a al-Numan, que le ou 10 mil pessoas a ugi pa a a
on ei a. A no ícia chama a a enção pa a a sua si uação e a iolência sexual é
mencionada como uma das mui as expe iências de iolência i idas e con adas po
es es e ugiados que agua dam na on ei a com a Tu quia. Há, po an o, nes a
epo agem um e lexo da p eocupação com a si uação dos e ugiados. Po ou o lado, é
in e essan e no a que, ao con á io das es an es peças jo nalís icas, as í imas de
« iolência sexual, o u as e assassínios a sangue io» são desc i as no masculino,
embo a es e po meno possa se esul ado do uso do «masculino neu o» ou de ido à
b e idade da e e ência a es as expe iências, que não são de odo o oco da no ícia. As
expe iências indi iduais dos e ugiados não são nomeadas ou explo adas, «os
76 «Encu alados na on ei a», Da id Send a, 18/06/2011.
77 Ibid.
82
e ugiados» são ep esen ados enquan o cole i o. No en an o, ale a pena e em con a
que a imagem que ilus a a no ícia é compos a apenas po homens, possi elmen e num
campo jun o à on ei a alguns com as mãos le an adas e echadas em punho.
Com a omada de Mossul e pos e io men e Sinja , o oco das no ícias
di ecionou-se pa a a iolência sexual come ida po mili an es do Daesh. A 9 de agos o
de 2014 su ge a p imei a no ícia que menciona de o ma secundá ia as iolações
come idas pelo g upo: «EUA bomba deiam o ças do EIIL».78 Es a no ícia é baseada em
con i mações indas do Pen ágono sob e os «a aques a posições de a ilha ia do
Exé ci o Islâmico do I aque e do Le an e (EIIL), depois de es as e em al ejado o ças
cu das pe o da cidade de E bil». O con eúdo in o ma i o jus i ica a in e enção no
I aque, «o maio en ol imen o mili a no e-ame icano no I aque desde 2011», pelo
a aque às o ças cu das e aos ci is que se e ugia am nas mon anhas de Sinja . A
in o mação ela i a à in e enção ame icana no I aque é seguida pela desc ição da
ajuda, a a és do en io de man imen os aos deslocados nas mon anhas, po pa e dos
mili a es ame icanos e do escla ecimen o ace ca da o igem é nica das mino ias í imas
de iolência po pa e do Daesh, iolência con i mada ao Exp esso pelo jo nalis a cu do
Osamah Muhammad. O obje i o úl imo des a ci ação di e a, onde se lê: «posso
con i ma que pelo menos 50 mulhe es o am ioladas e 80 o am ei as e éns. Uma
depu ada i aquiana diz que o EIIL ameaçou endê-las como esc a as», é jus i ica a
in e enção ame icana eco endo aos co pos iolados das mulhe es, glo i icando o
es o ço ame icano ao a i ma que «com a ajuda no e-ame icana, os yazidis es ão ago a
a ecebe mais comida e água po ia aé ea, mas a si uação con inua po esol e ». É
ambém isado o pedido de «ajuda» po pa e dos cu dos «em e mos de a mamen o
aos EUA», pois segundo a no ícia «os cu dos con am com uma o ça de eli e, os
peshme gas, mas mesmo es a não em sido capaz de con e a o ensi a jihadis a»; ao
mesmo empo lemb a-se que «são o g upo mais p ó-ociden al e secula do Médio
O ien e». A e e ência g upo secula é impo an e na medida em que o secula ismo
ende a se a ualmen e enca ado como pa e da cul u a ociden al e, po an o, mo almen e
supe io à eligiosidade, mui as ezes associada ao undamen alismo dos muçulmanos
(não apenas do Daesh já que es e se ap esen a como a enca nação de odos os males que
ad êm da eligiosidade excessi a e da oposição ao secula ismo, como o exemplo
hipe bolizado). Os ame icanos são is os como a única o ça capaz de ence o Daesh,
78 Cá ia B uno, 09/08/2014.
89
ealidade; eles ambém c iam o discu so social e são, al ez hoje uma das ins âncias
p incipais do p óp io discu so social» (1995, p. 275).
De ido, p ecisamen e, ao papel que os media êm enquan o e o es de o mação
das es u u as discu si as, a al a de con ex ualização ab angen e e p oblema ização dos
enómenos iolen os o na-se especialmen e p oblemá ica po que p oduz e ep oduz
imagens es e eo ipadas e essencialis as de iden idades e a adas o a do espaço e do
empo. São equen emen e igno adas as es u u as de iolência, sejam elas polí icas,
sociais, económicas ou ideológicas, que in o mam e p oduzem o con ex o do enómeno
iolen o que se es á a cob i media icamen e. Um exemplo mui o cla o é-nos dado po
Alhayek (2015) ao analisa os discu sos p esen es em no ícias, ecolhidas a a és do
mo o de busca Google, sob e as e ugiadas sí ias. Nes as no ícias, de cadeias no iciosas
anglo-saxónicas, as ep esen ações dominan es das e ugiadas sí ias são ei as
in isibilizando as elações polí icas e económicas, assim como as es u u as de
desigualdade que es as mulhe es expe ienciam ao o na em-se e ugiadas (Id. p. 6).
Tal como nos discu sos analisados po Alhayek, ambém nas peças no iciosas
analisadas nes e p oje o e i icamos o mesmo ipo de abo dagem. Veja-se a no ícia do
Co eio da Manhã «Pob eza e iolência sexual aumen am casamen os de meninas
e ugiadas» ou a do Público «Zaa a i, o campo que é a imagem do êxodo sí io». Po ém,
no co po da cu íssima no ícia online não se p ocede a qualque ipo de análise do
con ex o socioeconómica que conduz à si uação. As obse ações de Alhayek aplicam-se
à imp ensa po uguesa:
The ep esen a ions o Sy ian e ugee women in global and social
media a e domina ed by an image o a powe less emale Sy ian e ugee who is
a ic im o he amily's ac ions o selling daugh e s o o money (Id., p. 3).
Sy ian e ugees a e a backwa d people who sell hei daugh e s a he
i s ha dship hey ace, and on he o he hand, Sy ian e ugee women a e
powe less ic ims o hei unci ilised/ba ba ic socie y (Id., p. 3-4)
Da mesma o ma se á pe inen e a c í ica ei a po Nadja Al-Ali (2016) ace ca da
necessidade de uma e dadei a pe spe i a in e secional que enha em con a não só as
es u u as mac o, como sejam a globalização, o impe ialismo e neocolonialismo
ociden ais, mas ambém as es u u as mic o que in luenciam as elações que se
es abelecem en e as ins i uições e os indi íduos, bem como a necessidade de analisa a
iolência sexual do g upo Daesh não como um caso à pa e, mas como enómeno
90
inse ido num con ex o his ó ico ma cado pela con inuidade na oco ência de iolência
sexual em cená io de con li o social e polí ico.
Es a análise possibili a ia que se desca asse a ca ac e ização das í imas
enquan o ca ego ia uni e sal, esquecendo a sua especi icidade con ex ual que conjuga
in a ia elmen e á ias dimensões e iden idades com as es u u as acima aludidas. Pa a
que isso acon eça é impe a i o que an o os meios de comunicação social como o meio
académico deixem de enca a as í imas como ca ego ia homogénea desp o ida de
indi idualidade, cuja his ó ia é ep esen ada nos media sem que se lhes seja pe mi ida
uma oz com a qual possam exp essa a sua expe iência pessoal ao mesmo empo que
se analisam as especi icidades polí icas e socioeconómicas que pe mi em e moldam o
a o iolen o.
De ac o, as peças jo nalís icas analisadas na secção an e io cons i uem um
exemplo des a ep esen ação simplis a das í imas não ociden ais. Como ão bem
sin e izou Ka y Alhayek, « imes o con lic a e a epea ed example o a si ua ion whe e
women a e ep esen ed as aceless, nameless, and powe less ic ims» (2015, p. 3).
To na-se, po isso, de ex ema impo ância pe cebe as azões que le am à isibilização
de ce as í imas indi iduais, como Kayla Mulle . A ep esen ação de Kayla Mulle , não
só como uma í ima indi idualizada, mas ambém como uma pe sonalidade
pa icula men e gene osa, bondosa e ma e nal pa a com as ou as mulhe es e apa igas
que consigo con i e am du an e o ca i ei o, ilus a es a di e enciação en e a í ima
ociden al indi idualizada, al uís a e de en o a de capacidade de decisão e on ade
p óp ia, em compa ação com a í ima não ociden al massi icada, ulne á el e a
necessi a de sal amen o. En e 2010 e 2015 não se encon a qualque menção às
mulhe es cu das e yazidi que pega am em a mas pa a lu a con a o Daesh, ou às
mulhe es que so e am iolência sexual no deco e da sua a i idade polí ica
an i egime na Sí ia.
O papel dos meios de comunicação social na ep odução des as imagens é ema
de discussão, di idindo-se as posições ou pe spe i as. Uma p imei a de ende o papel
dos meios de comunicação enquan o ansmissões de enómenos que se desen ol em na
sociedade e que se si uam à ma gem da sua capacidade de ação, i.e., aqueles são
en endidos como um me o eículo ep odu o de no mas e discu sos já p oduzidos na
sociedade ( an Dijk, 1987, 1994 apud Wie o ka, 2002, p.121). Os media são nes e
sen ido, sob e udo, eículos de islamo obia e o seu papel enquan o agen es não se ope a
91
nos meios aqui analisados, i.e., as peças jo nalís icas são assim undamen almen e
e o es des as es u u as discu si as (Id., p. 122). Exis e uma ou a posição que de ende
o papel dos media enquan o agen es de p odução de discu so que não se in o ma
di e amen e na ealidade. Es a posição ale a-nos pa a as «lógicas p óp ias que
desembocam no ab ico de ela os, de imagens, de ep esen ações […] [que] não se
subme e[m] à p o a da obje i idade» (Id., p. 123). Es a úl ima posição é-nos ú il po que
pe mi e explica as di e enças «[...] [n]os seus c i é ios de seleção e de hie a quização
das no ícias [...]» e eme e, em úl ima análise, o «[...] acismo […] [pa a] o esul ado de
uma a i idade especí ica de comunicação que se desen ol e de manei a independen e»
(Ibid.). A pe spe i a que aqui se ado a pe mi e não só conside a os media como e o es
de acismo ou islamo obia, já exis en es na sociedade, mas ambém explica as
di e enças en e ma e iais jo nalís icos p o enien es de di e sas emp esas de aco do
com a segunda posição. Embo a não se possa sob e alo iza o papel dos media como
p odu o es de islamo obia e acismo, is o que mui as ezes se limi am a ep oduzi
dinâmicas de pode já pa en es na sociedade, ao mesmo empo que se subme em a
lógicas conco enciais de me cado que moldam as suas escolhas jo nalís icas, somos
ob igados a econhece di e enças na o ma de a a o con eúdo jo nalís ico que são
explicadas pela agência das emp esas de comunicação social, i.e. das duas es u u as
hie á quicas e dos jo nalis as que as compõem.
Es a di e ença é e iden e quando compa amos o con eúdo jo nalís ico dos ês
jo nais analisados. Enquan o o Co eio da Manhã online publica no ícias ge almen e
cu as ou mui o cu as, baseadas exclusi amen e em con eúdo de ou os o ganismos
in o ma i os como são os ela ó ios de o ganizações go e namen ais e não
go e namen ais assim como ou as emp esas de comunicação, o Exp esso e o Público
p oduzem ma e ial jo nalís ico p óp io, que embo a em núme o eduzido, pe mi e
econhece uma isão p óp ia dos jo nalis as que in eg am o jo nal, não obs an e a
u ilização simul ânea de epó e es in e nacionais da pa e do Exp esso. Como oi
sup a e e ido, o núme o eduzido de epo agens de e eno de e-se sob e udo às
di iculdades logís icas que a emp ei ada aca e a.
Em e mos quan i a i os, o jo nal Público seguido pelo Co eio da Manhã são
aqueles que mais no ícias publicam sob e iolência sexual ou com e e ências ao
enómeno. Con udo em e mos pe cen uais são o Exp esso e o Co eio da Manhã que
ap esen am mais no ícias cujo oco cen al é a iolência sexual. É mais isí el a
92
p eocupação do Público po desc e e a iolência sexual como mais um dos enómenos
iolen os so idos du an e os cená ios de gue a mencionados. Inclusi amen e, exis e
uma maio p eocupação da pa e do Público e do Exp esso em ou i as his ó ias dos
e ugiados indi idualmen e em elação, po exemplo ao Co eio da Manhã, que e a a
as í imas, pa a aseando Alhayek, sem os o, sem nome e sem pode (C . sup a). Mais
uma ez, es a di e ença de e -se-á à opção edi o ial da página do úl imo, uma ez que a
escolha a o ece as no ícias mui o cu as onde não há espaço pa a disco e ace ca da
complexidade do enómeno nem nas expe iências pessoais daqueles que com ela
so e am. Concomi an emen e essal a-se a impo ância da linha edi o ial que a o ece,
ao mesmo empo, es e ipo de no ícias cu as po se adequa mais ao o ma o online,
ápido e conciso, sem deixa de apela a a és de í ulos chama i os, daí ad indo a
cen alidade do oco na iolência sexual.
Também nas c ónicas publicadas exis e uma cla a dis inção en e o Público e o
Co eio da Manhã. No p imei o, a in enção ine en e à inse ção de e e ências ao
enómeno em causa de e-se sob e udo à necessidade de exempli ica a iolência da qual
os e ugiados que pedem asilo na Eu opa são sob e i en es. A c iação de empa ia e a
sensibilização do lei o em elação à causa dos e ugiados é o obje i o, po exemplo, das
c ónicas de Rui Ta a es no Público. Po ou o lado, a c ónica de And é Ven u a no
Co eio da Manhã inse e e e ências à iolência sexual como o ma de ge a e ol a
con a uma «injus iça islâmica». São duas o mas de usa o enómeno da iolência
sexual no discu so c onís ico o almen e di e en es: a ins umen alização do p imei o,
his o iado e eu odepu ado independen e pelo Bloco de Esque da, se e sob e udo pa a
canaliza apoio jun o do público pa a a ajuda aos e ugiados; o segundo, um p o esso
de di ei o poli icamen e ligado ao PSD, ins umen aliza o enómeno con a o Islão.
Vale a pena essal a , po úl imo, que da mesma o ma que os meios de
comunicação social podem se um eículo de di usão de discu sos es e eo ipados
ambém podem con ibui pa a a p odução e di usão de discu sos al e na i os que deem
oz às á ias expe iências dos sob e i en es de iolência sexual, con ex ualizando-as
endo especial a enção às es u u as polí icas, económicas, sociais e cul u ais que as
moldam, an o a ní el local como in e nacional.
V. De inição Teó ica e Hipó eses
A in es igação que o p esen e p oje o de in es igação p opõe e á po base a
93
seguin e pe gun a de pa ida: qual é a na a i a p edominan e nos media
in e nacionais, nos meios eminis as mains eam (de o ganizações in e nacionais como
a ONU; em mo imen os sociais como as Femen; Eu opean Women's Lobby e Uni ed
Na ions En i y o Gende Equali y and he Empowe men o Women – UN Women) e
no meio académico ela i o à iolência sexual pe pe ada po memb os de o ças
belige an es/insu ecionais nos con li os da Sí ia e I aque, nos pe íodos comp eendidos
en e 2010 e 2015? Quais são os p essupos os polí ico- ilosó icos e psicossociais po
de ás des a na a i a e de que o ma é que pode á se ins umen alizada po
mo imen os polí icos e sociais «an i-imig ação» / «an i-asilo» e/ou «p ó-in e enção»?
O p oje o assen a á numa in e ação en e a abo dagem in e p e a i a e c í ica – e
nes e sen ido socialmen e comp ome ida – que desmasca a o obje i ismo mos ando a
conexão exis en e en e conhecimen o e in e esse (Habe mas, 2013, p. 147), is o é,
desna u alizando ce os concei os dados como na u ais e obje i os e associando-os aos
in e esses que sus en am,86 pois «[…] logo que se en ende que as p oposições são
ela i as ao sis ema de e e ência p e iamen e nelas pos o, a ilusão obje i is a des az-
se e libe a o olha pa a um in e esse que di ige o conhecimen o» (Habe mas, 2013, p.
136). É, con udo, necessá io e em a enção que es a c í ica da azão neu a já ha ia sido
ei a po á ios académicos, de en e eles des acam-se F ied ich Nie zsche ao ad oga
que «[…] odo o conhecimen o em um ca ác e local e de que nenhum obse ado
humano consegue uma imi ação ão pe ei a do olho di ino que anscenda ealmen e a
sua p óp ia localização» (Slo e dijk, 2014, p. 108), Michel Foucaul com o
desen ol imen o da eo ia dos egimes de discu so/pode -sabe e Thomas S. Kuhn com
a eo ia dos pa adigmas cien í icos (Slo e dijk, 2014, p. 112), e, p incipalmen e, as
eminis as, das quais se des aca Judi h Bu le , ao descons uí em a noção de uma ciência
neu a, sem géne o, e demons a em como o discu so cien í ico na u alizado é p odu o
de uma masculinidade dominan e, quase exclusi amen e dominado e de e minado pelo
géne o masculino (Slo e dijk, 2014, p. 112). Assim, pa i -se-á des a adição c í ica do
pensamen o obje i is a com o obje i o de in e p e a os discu sos ociden ais no que
conce ne ao ema sup amencionado.
O a, na in es igação p opos a u iliza -se-á o mé odo dedu i o, ou seja, o
consecu i o es e e e o mulação de hipó eses e u adas e eelabo adas com base no
86 Segundo Jü gen Habe mas «a pa i das expe iências do dia-a-dia, sabemos que as ideias se em mui as
ezes pa a masca a com p e ex os legi imado es os mo i os eais das nossas ações. O que a es e ní el se
chama acionalização chamamos-lhe, no plano da ação cole i a, ideologia.» (2003, p. 140-141).
94
es udo sis emá ico do con li o na Sí ia e I aque en e 2010 e 2015. O obje i o é analisa
o enómeno da iolência sexual e do discu so sob e a iolência sexual na
con empo aneidade à luz da eo ia c í ica pa a que u u amen e seja possí el comp o a
a e icácia da eo ia e co obo a ou e u a as hipó eses adian adas na in es igação
p elimina . Pa a al, pa e-se de duas hipó eses iniciais de i adas das conclusões à
in es igação p elimina e, com as quais, pos e io men e se p e ende esponde à
pe gun a de pa ida.
P imei o, da -se-á ele ância ao es udo da na a i a eiculada pelas o ganizações
in e nacionais e meios de comunicação social conside ando-se a hipó ese: a na a i a
inculada pelas o ganizações e media in e nacionais ep esen a simbolicamen e o
homem muçulmano como ag esso e a mulhe (seja ela c is ã, muçulmana ou judia)
como í ima. Pa a co obo a / e u a a e e ida hipó ese in e p e a -se-á a elação en e o
discu so in e nacional e o concei o de i imização e O ien alismo a a és da ecolha e
a amen o de dados de on es discu si as ex uais e ex a ex uais (e.g. imagens e
ídeos), eminen emen e quali a i as, como ela ó ios de o ganizações in e nacionais e
não-go e namen ais que abo dem o enómeno da iolência sexual, comunicados o iciais
e os p óp ios si es e peças jo nalís icas (i.e. a igos, epo agens, documen á ios) de
jo nais/ e is as in e nacionais.
No seguimen o da escolha das on es e ecolha do ma e ial documen al e
iconog á ico, o p ocesso de análise e a amen o dos dados se á ei o com ecu so ao
mé odo da análise c í ica de discu so, no caso do ma e ial discu si o. O obje i o é,
a a és da descons ução dos discu sos, comp eende as elações de pode que se
es abelecem no discu so mediá ico ao mesmo empo que se comp eende as ins i uições
que lhe dão sen ido e o sancionam. En e as e amen as que pe mi em le a a cabo es a
análise encon am-se o es udo das linguagens sociais, discu sos, con e sações e
in e ex ualidade (C . Gee, 2010, pp. 28-30), bem como a análise do uncionamen o
dessas ins i uições, eco endo sob e udo aos es udos o ganizacionais e ins i ucionais.
Po ou as pala as, o que se p e ende é não só analisa o discu so, como ambém
«disce ni as o mas de exclusão, da limi ação, da ap op iação […]; mos a como se
o ma am, pa a esponde a que necessidades, como se modi ica am e se desloca am,
que o ça exe ce am e e i amen e, em que medida o am con o nadas» e «como se
o ma am, a a és de, apesa de, ou com o apoio desses sis emas de coe ção, de sé ie de
discu sos: qual oi a no ma especí ica de cada uma e quais o am as suas condições de
95
apa ição, de c escimen o, de a iação» (Foucaul , 1997, p. 45). Pa a al é necessá io
a ende ambém às ins i uições que eiculam o discu so em causa, não só as emp esas
de comunicação social como os p óp ios mo imen os eminis as, mais especi icamen e
as o ganizações eminis as ansnacionais mains eam ociden ais. Reco demos que se
a a de o ganizações cujo discu so se e, mui as ezes de mo e, pa a as posições
omadas po mo imen os polí icos.
Findo o p ocesso, p ocede -se-á a um pe íodo de e lexão ace ca dos esul ados e
possí el ea aliação das hipó eses de abalho, eco endo simul aneamen e à
compa ação dos dados ecolhidos com a bibliog a ia c í ica sob e a emá ica em es udo.
P e endendo-se uma ap o undada comp eensão do enómeno, é necessá io
analisa no decu so do a amen o da in o mação acima e e ida ês dimensões do
discu so: i) a dimensão iden i á ia (i.e., géne o, aça, e nia, nacionalidade e
socioeconómica); ii) a dimensão polí ica (i.e., mic o e mac o); iii) dimensão elacional
ou in e subje i a.
A segunda pa e do p oje o, po sua ez, en a á co obo a / e u a a hipó ese
segundo a qual a es e discu so ace ca da iolência sexual es á subjacen e uma ideia
de e minada e gene alizada do homem e da mulhe do Médio O ien e – o ien alismo –
de endida pelo mains eam ideológico ociden al, que em úl ima análise cons i ui uma
o ma de iolência simbólica e in ole ância dissimulada que o nece uma jus i icação
plausí el pa a os discu sos islamo óbicos ociden ais, p omo e a ejeição de
mig an es/ e ugiados dessas gue as e alha em de ende os di ei os des as mulhe es,
ou seja, pa indo das ideologias ociden ais dominan es/hegemónicas, ca ac e izada
ambém po uma ce a ideia de O ien e, en a -se-á comp eende de que o ma es a
in lui na na a i a que jus i ica os discu sos islamo óbicos. Com o obje i o de analisa
es as conexões, ecolhe -se-ão on es p imá ias ex uais (e.g. ela ó ios de o ganizações
in e nacionais e não go e namen ais, li os jo nalís icos, en e is as a a i is as
i aquianas e sí ias.) ou mul imédia (e.g. documen á ios, epo agens jo nalís icas,
pequenas peças no iciosas e c.). Es as on es se ão a adas de aco do com o mé odo
e nog á ico e linguís ico – análise c í ica de discu so – pa a que se comp eenda a
elação acima mencionada, a a és da análise da dimensão psicossocial p esen e nos
ela os analisados. Es a análise se á complemen ada pela e isão da li e a u a ela i a
aos es udos pós-coloniais e de géne o.
96
Em suma, po um lado, os discu sos ociden ais conce nen es aos concei os
subs an i os de iolência sexual e géne o se ão analisados nas componen es discu si as,
ilosó icas e psicossociais mencionadas e a pa i daí ex ai -se-ão e in e p e a -se-ão as
causas que o iginam a iolência simbólica a ás mencionada, i.e., de que o ma os
componen es do discu so in e nacional se elacionam pa a ep esen a es e ipo de
iolência. Po ou o, analisa -se-ão as epe cussões que a na a i a in e nacionalmen e
inculada em na o ma como o di o ‘ociden e’ lida com a iolência sexual em cená ios
de con li o.
VI. Rele ância do P oje o
O p oje o Discu sos Mediá icos sob e o O ien e Violen o: A iolência sexual na
Sí ia e I aque enquan o possí el eículo de Islamo obia em Po ugal (2010-2015)
a igu a-se ele an e de ido ao ca ác e a ual dos deba es em o no do enómeno da
iolência sexual. Pa a além do in e esse demons ado pelas o ganizações in e nacionais
e não-go e namen ais, e.g. Global Summi o End Sexual Violence in Con lic , London
2014, comemo ou-se em 2015 os 40 anos do lançamen o do sobejamen e conhecido
Agains Ou Will de Susan B ownmille , com a ealização de a i idades cien í icas
como, po exemplo, a Con e ence «Agains Ou Will». Fo y yea s a e : Explo ing he
Field o Sexual Violence in A med Con lic , Hambu g 2015.
Es e in e esse de e-se em pa e à pe ceção segundo a qual a iolência sexual é
um p oblema da maio g a idade que o a i ismo, a e lexão c í ica e o empenho das
ins i uições in e nacionais não es ão a consegui comba e e a maio ia dos c imes
con inua impune.
Concomi an emen e, a imp ensa ociden al em dado g ande isibilidade e
mos ado bas an e in e esse nos casos de iolência sexual na Sí ia e ecen emen e no
I aque com a expansão do Daesh. O ema é de g ande ele ância polí ica a ual e os
es udos académicos exis en es são ainda escassos, o que é comp eensí el endo em
con a que a gue a ainda es á a deco e e é di ícil aze uma pesquisa no e eno nes as
si uações. De ac o, o enómeno da iolência sexual exe cida nes es dois con li os ainda
se encon a em ase de di ulgação, análise e he menêu ica. A ecolha e análise
sis emá ica dos dados ela i os a es e enómeno nos con li os em causa êm sido ei as
sob e udo pelas ONG’s como a Human Righ s Wa ch, e a Amnis ia In e nacional e
g upos como o Obse a ó io Sí io, que ecolhe da in o mação jun o dos e ugiados,
97
endo assim ambém con ibuído pa a a di ulgação de in o mação sob e udo e e en e
às iolações de di ei os humanos. Po ou o lado, a igu a-se de ex ema impo ância
ence a uma análise de géne o, na senda dos ecen es es udos de géne o que incidem
sob e es e enómeno, que p oblema ize a o ma como es e ipo de iolência é
ep esen ada pelas ins i uições in e nacionais que se encon am imiscuídas no con li o
ou que ansmi em o desen ola do mesmo. Nes e abalho especial a enção de e á se
ambém dada à manei a como pos e io men e esses casos são ins umen alizados pelo
discu so polí ico ociden al (e.g. como o ma de jus i icação das in e enções ex e nas;
polí icas de ca iz islamo óbico).
A ele ância da análise ambém de i a dos ecen es desen ol imen os ela i os
à inda de e ugiados de países como a Sí ia, o I aque, o A eganis ão, Paquis ão,
Nigé ia en e ou os. O c escen e luxo de mig an es que ogem de si uações ad e sas
nos seus países de o igem desencadeou eações mui o di e sas nas sociedades dos
países eu opeus que es ão a ecebê-los ou pa a os quais os e ugiados se di igem. Es a
onda de solida iedade ou de epulsa, mui as ezes baseada em es e eó ipos e
p econcei os islamó obos, es á mui o p esen e nos meios i uais e é ambém ela
ins umen alizada poli icamen e po mo imen os di os nacionalis as, como é o caso do
alemão PEGIDA, ou, numa escala mui o meno , o po uguês Pa ido Nacional
Regene ado . Acon ecimen os como os de Colónia (c . Sup a, no a de odapé 20)
exempli icam es a onda de ódio mo i ada po associações abusi as e imagens
es e eo ipadas, cujo e lexo mais isí el são as opiniões exp essas nas edes sociais.
Ao mesmo empo, a análise que se p e ende aze do enómeno em causa enseja
pela e i alização da eo ia de géne o como complemen o às eo ias eminis as, sem
deixa de se socialmen e comp ome ida com o mo imen o. Po ou as pala as, num
mundo cada ez mais a esso a ca ego ias ideológicas e, p incipalmen e, ao eminismo
enquan o mo imen o social, o que es e es udo p e ende de o ma análoga é,
p ecisamen e, con ibui pa a a eno ação e e i alização das eo ias de géne o. A
pola ização de posições, à medida que a lu a pelo di ei o das mulhe es ganha cada ez
mais isibilidade in e nacional, com campanhas como o HeFo She ou com a ap o ação
da Con enção de Is ambul, de 2011, em igo desde 1 de Agos o de 2014 e que
p e ende incen i a os países signa á ios a ap o a em leis que comba am a iolência
con a Mulhe es (Po ugal é um dos país signa á ios), le a ao su gimen o de
mo imen os an agónicos, como são os mo imen os de di ei os do homem – no sen ido
98
es i o do e mo – e em mo imen os de mulhe es an i eminismo. U ge, po an o,
analisa o enómeno à luz dos es udos de géne o e/ou dos es udos quee , que nos
ajuda ão a o mula uma c í ica pe inen e ao discu so inculado pelos meios de
comunicação p edominan es no mundo anglo-saxónico e eu opeu, descons uindo e
descolonizando es es discu sos pa a que enhamos uma isão mais escla ecida e menos
dis o cida do enómeno em causa.
Conside ações inais
Hay un espacio eno me pa a pode denuncia la iolencia sin gene a op esión en nues os
discu sos hacia una población que es á iplemen e ic imizada: po los e o is as que es án
secues ando su c eencia y su iden idad, po el es o de la población que la c iminalizamos sin apujos y
po una se io de es uc u as polí icas, económicas y adminis a i as abie amen e acis as.
B igi e Vasallo, Pe de el No e, 2013.
Há de ac o, como e e e Vasallo, um eno me hia o que sepa a a e ol a que
sen imos pelas a ocidades come idas às populações ci is e as gene alizações ac í icas
sob e de e minada e nia ou cul u a. A o ma como ansmi imos a in o mação é
de e minan e na cons ução de um de e minado discu so, enquan o elação de pode que
se es abelece en e indi íduos e/ou ins i uições p oduzidas e ep oduzidas o al e
ex ualmen e. Ao desen ol e es e p oje o en ámos não ansmi i a ideia, e ónea,
segundo a qual o so imen o das í imas e sob e i en es es á ao se iço de uma
qualque agenda impe ialis a ociden al, mas sim ale a pa a a impo ância do discu so
na es u u ação do pensamen o ociden al e consequen emen e nas polí icas de endidas e
desen ol idas pelos países ociden ais em elação a de e minada camada da população.
A in luência é, aliás, mú ua, pois se o discu so in lui na es u u ação do pensamen o de
la gas camadas da população do di o Ociden e, o mesmo se aplica pa a o p óp io
discu so que depende das es u u as discu si as p oduzidas e ep oduzidas pelas
ins i uições que as sancionam e e o çam.
Na p á ica, analisámos nes e p oje o apenas uma pequeníssima pa cela des a
ede dinâmica de elações de pode que se es abelecem en e as ins i uições e os
indi íduos a a és do discu so. Os meios de comunicação social são impo an es na
di ulgação de in o mação iada e selecionada de aco do com as es u u as de pode que
impe am numa de e minada sociedade, con ibuindo ao mesmo empo pa a a cons ução
desse mesmo discu so.
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i
Apêndice A: En e is a
As pe gun as ei as, em inglês, o am as seguin es:
1. Wha do you hink a e he eelings/yea nings/conce ns o he I aqi women?
Which a e you / hei claims?
2. Wha is you opinion on he way Eu opean and Anglo-saxonic eminis s ake he
ma e o I aqi women’s igh s, hei claims/p io i ies and main s uggles?
3. Wha is you opinion on how Eu opean and Anglo-saxonic poli ical ins i u ions,
eminis and women’s igh s mo emen s a e dealing/ esponding o he g owing
Sy ian and I aqi communi y/diaspo a in Eu ope.
A espos a de Sama Yazbek oi-me en iada em á abe:
يتزيزع
ةلئسا ىلع درلأ يدل تقو لا هنا نظأ ،ثحبلا هبشي ليوط درل جاتحت ،اهنع ةباجلاا نكمي لاو ةماع يه ،اهتحرط يتلا ةلئسلأا
لاثم نيلأست تنا ،تاحفصلا نم ديدعلا ذخأتس اهنلأ ،ةماع : يف تناك امك دعت مل ايروس اذه تقولا يف ؟ةيروسلا ةأرملا نع
ب لوقن نا نكمي لا ،قابسلايملع لكش :ةيروسلا ةارملا . رطيسي يتلا ةقطنملاف ،ىرخأ ىلا ةقطنم نم فلتخت ءاسنلا عاضوأ نلأ
ىرخلآا ةيداهجلا تاعومجملا وا ،ماظنلا اهيلع رطيسي قطانم نع فلتخت ،شعاد اهيلع
اذ دحب ثحب ىلا جاتحي لولأا باوجلا نلأ ،تقولا اذه كلمأ لاو ،ليوط تقول جاتحي اذه ،يتزيزع رذتعاهت
Es a oi a adução87:
«My Dea
The ques ions you ha e asked a e gene al and ague and one can no answe hem, i
needs a long and ho ough answe mos simila o a disse a ion. I hink I don' ha e he
ime o answe on shallow ques ions. Fo example, you a e asking abou he sy ian
woman? Now, in nowadays Sy ia, she's no longe he same. I can no say in a scien i ic
o academic way “sy ian woman” because i depends g ea ly on he egion and place
we conside ; egions whe e ISIS is domina ing g ea ly di e om hose whe e he
egime is aking hold, and i is ue o egions unde he g ip o o he jihadis g oups.
I am so y my dea bu his equi es a lo o ime and un o una ely I don' ha e ha
ime. The answe o only he i s ques ion would need a disse a ion o i s own.»
87 Da au o ia de Lyes Benkhella .