scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Sérgio Guimarães de Andrade, o conservador e a sua colecção. A imaginária como conceito

Carvalho, Maria João Vilhena de

Abstract

A institucionalização definitiva da Secção de Escultura do Museu Nacional de Arte Antiga deve-se ao conservador Sérgio Guimarães Andrade (1946-1999). Num encontro sintético entre os conceitos pessoais do ofício de museólogo e de objecto museológico, os do entendimento da arte da escultura e as grandes transformações da colecção provocadas pela incorporação da Colecção Ernesto Vilhena, geriu a Secção de Escultura e produziu a primeira exposição permanente de Escultura Portuguesa do MNAA, inaugurada em 1994, também legível como história da imaginária esculpida em Portugal entre o século XIV e o início do século XIX.

Full text

Resumo A institucionalização definitiva da Secção de Escultura do Museu Nacional de Arte Antiga deve-se ao conservador Sérgio Guimarães Andrade (1946-1999). Num encontro sintético entre os conceitos pessoais do ofício de museólogo e de objecto museológico, os do entendimento da arte da escultura e as grandes transformações da colecção provocadas pela incorporação da Colecção Ernesto Vilhena, geriu a Secção de Escultura e produziu a primeira exposição permanente de Escultura Portuguesa do MNAA, inaugurada em 1994, também legível como história da imaginária esculpida em Portugal entre o século XIV e o início do século XIX. • Abstract The definitive establishment of the Sculpture section in the Museu Nacional de Arte Antiga is the result of the efforts attempted by the curator Sérgio Guimarães Andrade (1946-1999). In a synthetic assembly between his personal concepts of museum curatorship and museological object, the understanding of the art of sculpture and the main changes occurred upon the integration of the Collection of Ernesto Vilhena, he conducted the Sculpture Department and produced the first permanent exhibition of the Portuguese Sculpture in MNAA, inaugurated in 1994, also consistent as a sculpted image history in Portugal between the 14th and the beginning of the 19th centuries. • palavras-chave Museologia Museu Nacional de Arte Antiga Colecção de Escultura Conservador Colecção Ernesto Vilhena key-words Museology Museu Nacional de Arte Antiga Sculpture collection Curator Ernesto Vilhena’s collection O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) viveu a paulatina especialização das práticas e dos saberes museológicos na senda do pensamento de João Couto. Durante a sua direcção (1938-1962) desenhou-se pela primeira vez a trilogia funcional Colecção-Secção-Exposição2. Posteriormente, no início da década de 1970, este processo veio a ter como corolário a fixação e a estabilidade de um sistema de organização dos serviços internos em Secções que correspondiam às diferentes Colecções; isto é, um conjunto de objectos da mesma categoria artística era da responsabilidade científica de um conservador. É nesta conjuntura que o quadro de profissionais integrará uma nova geração que marcou a história recente do Museu e que será, grosso modo , a responsável pelas renovações expositivas da década de 1990. Com todas as suas diferenças, é fundamental reconhecer nesta geração de museólogos a importância do conceito de "interpretação" e a majoração do conceito de objecto museológico a partir dos quais se pode começar a traçar a existência de uma cultura visual/museológica própria do MNAA da segunda metade do século XX, cuja fonte se pode recuperar dos processos herdados da particular sensibilidade de João Couto e depois amadurecidos na aprendizagem com Maria José de Mendonça e Madalena Cabral3. A vitalidade e a institucionalização definitiva da Secção de Escultura devem-se a Sérgio Guimarães Andrade (1946-1999) que, num encontro feliz e sintético entre os conceitos pessoais do ofício de museólogo, os do entendimento da arte da escultura e as grandes transformações da colecção, produziu a primeira exposição permanente de Escultura Portuguesa do MNAA, inaugurada em 1994 e que, nas suas linhas SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO. A IMAGINÁRIA COMO CONCEITO1 MARIA JOÃO VILHENA DE CARVALHO Instituto de História da Arte FCSH/UNL, linha de Museum Studies Bolseira de Doutoramento da FCT (SFRH/BD/40853/2007) 1A primeira versão deste texto foi apresentada publicamente na conferência integrada na homenagem In Memoriam Sérgio Guimarães Andrade . Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 8 de Janeiro de 2010. 2A reflexão sobre a expografia da Escultura promovida no âmbito dos estágios, como no contexto de actividades de investigação, é exemplar e sintomática da nova linha conceptual introduzida e do estímulo à profissionalização que era desejável na actividade e nas funções do Conservador, na esteira da vida do Museu Nacional de Arte Antiga enquanto Museu Normal . Assim surgem, desde 1945, os trabalhos de Salvador Barata Feyo (1948, Organização de uma Galeria de Escultura num Museu do Tipo das Janelas Verdes ), Maria José de Mendonça, Manuel Bom (1955-1956, Evolução da Escultura em Portugal analisada através da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga ), Belarmina Ribeiro (1959, "A Escultura No Museu Nacional De Arte Antiga (1/Esquema De Duas Visitas Guiadas).") e Cordeiro de Sousa (1959, "Os Medalhões Della Robbia Do Museu Das Janelas Verdes."). 3Registo de memória em depoimento escrito de José Luís Porfírio, Janeiro 2010. 111 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 fundamentais, se manteve aberta ao público até 2009, encerrada para dar lugar à mostra Encompassing the Globe . Sérgio Guimarães Andrade licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, onde é forçoso assinalar a sua aprendizagem com intelectuais tão referentes como Vitorino Nemésio, Pe. Manuel Antunes, Virgínia Rau, Mário Tavares Chicó, Jorge Borges de Macedo, Oliveira Marques, Mário de Albuquerque e D. Fernando de Almeida, para além de Jorge Henrique Pais da Silva. Fez também o curso de conservador de Museus (in. 1972), de que sempre exaltava a formação com Maria José de Mendonça e Abel de Moura. Foi particularmente sensível à influência do pensamento e actuação de Madalena Cabral, responsável pelos serviços de educação do MNAA, quanto à filosofia, objectivos e processos de acção nos museus. Na análise que fez do seu próprio amadurecimento destacava ainda o trabalho com Per-Uno Ägren (1930-2008), museólogo sueco e consultor da Unesco com quem trabalhou directamente entre 1976 e 19814. O itinerário profissional de Sérgio Andrade iniciou-se no Museu Nacional de Arte Antiga em Novembro de 1970, ainda com o estatuto de tarefeiro, pelas mãos de Maria José de Mendonça5, então directora, e de Jorge Henrique Pais da Silva6. Colaborou no projecto de investigação do Retábulo de Santa Auta – com um estudo sobre a representação dos negros7– e na primeira inventariação da Colecção de escultura doada ao Estado português pelos herdeiros do Comandante Ernesto Vilhena pouco tempo antes, em 1969, e que se encontrava depositada no espaço do Museu. Como breve nota, que é importante pelo que significa de ligação imediata a um núcleo de peças esculpidas que posteriormente integrará a sua colecção de trabalho, retemos que no processo de inventário das esculturas Vilhena, Sérgio Andrade coordenou o levantamento fotográfico levado a cabo pelos Estúdios Novaes e os registos museográficos das peças, que incluíram a concepção de uma ficha de inventário própria, os termos básicos de classificação por matérias, séculos e estilos de produção e também a definição de uma arrumação ordenada dos objectos e do seu estudo8, criando aquela que seria a primeira fórmula de documentação da colecção Vilhena em contexto museológico e que, anos mais tarde, viria a desenvolver num sistema documental completo que ia desde a atribuição de número de inventário até ao estudo material e à investigação histórico-artística. Nesta sequência de trabalhos com as peças doadas, participou no projecto da exposição Imagens da Virgem da Colecção Vilhena comissariada por Irisalva Moita, conservadora chefe do Museu da Cidade, aberta ao público em Dezembro de 1971. Data deste momento e dessa tarefa de inventariação a sua ligação definitiva à escultura. Em 1973, integrou oficialmente o quadro do pessoal do Museu Nacional de Arte Antiga. A colecção de escultura anterior à entrada de Sérgio Andrade contava 935 peças registadas, provenientes na sua maioria da transferência de propriedade das corporações religiosas extintas, de doações, legados e de aquisições. Os núcleos mais significativos eram os Della Robbia florentinos, as figuras de presépio em terracota 4MNAA, Arquivo de Secretaria, Pessoal , Dossier curricular de Sérgio Guimarães Andrade, Curriculum Vitae, 1999. 5Maria José de Mendonça (1905-1984) ocupou o cargo de directora do MNAA desde Setembro de 1967 até Janeiro de 1975. 6MNAA, Arquivo de Secretaria, Livro 72, Cópias de Correspondência Remetida de Janeiro a Junho 1973: Processo 207/1-A: "Exmo. Senhor Director- -Geral dos Assuntos Culturais. Em referência ao requerimento de SÉRGIO AUGUSTO ALBUQUERQUE GUIMARÃES DE ANDRADE para ser provido no lugar de Terceiro-Conservador além do quadro posto a concurso conforme aviso publicado no Diário do Governo, II Série nº 68 de 21 de Março de 1973, cumpre-me prestar a seguinte informação: O candidato é discípulo do Professor Jorge Pais da Silva, tendo em preparação a tese de licenciatura sobre um tema de arte. Em Novembro de 1970 o Professor Pais da Silva apresentou-o no Museu de Arte Antiga como sendo um aluno qualificado que desejava vir trabalhar no Museu. Admitido em regime de tarefeiro, Sérgio Andrade mostrou-se interessado pelo estudo da escultura e desde logo o encarreguei de proceder ao inventário de existência da Colecção do Comandante Ernesto de Vilhena, em depósito no Museu. Terminado esse inventário, para o qual Sérgio Andrade estudou um tipo especial de ficha, passou a trabalhar na organização da galeria de estudo da Secção de Escultura do Museu (...) Museu Nacional de Arte Antiga, 2 de Abril de 1973. A Directora, Maria José de Mendonça." 7 Retábulo de Santa Auta. Estudo de Investigação . 1972. Lisboa: Ministério da Educação Nacional- -Instituto de Alta Cultura-Centro de Estudos de Arte e Museologia. 8MNAA, Espólio Sérgio Guimarães de Andrade, Pasta Colecção Vilhena, "Relatório sobre o trabalho efectuado na Secção de Escultura até 7 de Outubro de 1972. Colecção Comandante Ernesto Vilhena", dactilografado; "Relação ordenada das peças de Escultura da Colecção Vilhena", manuscrito, Fevereiro/Março 1971. SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 112 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 policromada, um internacionalmente reputado conjunto de alabastros medievais ingleses, as esculturas doadas por Calouste Gulbenkian, e sobretudo muitas imagens barrocas e tardo-barrocas em madeira estofada. Tratava-se de um conjunto de tipo cumulativo, com um historial de proveniências que se pode considerar orgânico e que não constituía, portanto, um agregado coerente capaz de documentar e construir a história da escultura portuguesa ou a europeia. A expografia da escultura, entendida como mostra de colecção, também se caracterizava fundamentalmente pelo carácter episódico, fragmentado, e resultava espacialmente das grandes transformações das obras de 1938-1942, da construção do edifício Anexo e das alterações do Palácio dos Condes de Alvor - cujas montagens se podem considerar consolidadas no ano de 1945 - e do grande corte com o conceito de um Museu-Pinacoteca ambicionado por José de Figueiredo que ocorreu com a chegada de João Couto à direcção, em 19389. Durante o período em que Maria José de Mendonça foi directora regista-se a sua sensível abertura e o interesse pela arte da Escultura. Não podem deixar de mencionar-se a ênfase que deu ao enriquecimento do acervo escultórico do Museu por parte de João Couto na Exposição evocativa da sua obra, logo em 196710; a realização da Exposição Comemorativa do centenário da morte de Auguste Rodin , em 1968; a mostra das Imagens da Virgem , em 1971; a participação com parte do acervo de peças Vilhena na Exposição do Salão de Antiguidades da Fil , em 1972; a colaboração do Museu na Exposição Iconográfica e Bibliográfica Comemorativa do VIII Centenário da Chegada das Relíquias de São Vicente a Lisboa , em 1973; a Exposição «comunal», dedicada a Santo António, São João e São Pedro e realizada no átrio das Janelas Verdes, em Junho de 1973; ou ainda a mostra da Arte do Século XVIII no Brasil, da qual permanece no Museu a reprodução de um dos Profetas de Congonhas, do Aleijadinho. Na gestão da Colecção de Escultura há a destacar o pioneirismo e modernidade com que renovou o conceito expositivo da Doação Gulbenkian, diferenciando os seus núcleos constituintes e criando uma sala própria para as peças de escultura com desenho arquitectónico de Cruz de Carvalho11, como também o modo como enfrentou, com um programa aggiornato com as propostas da nova museologia contemporânea, a recente realidade da explosão do crescimento do acervo provocado pela entrada da Colecção Vilhena na posse do Estado Português e a sua integração no espaço do Museu Nacional de Arte Antiga. Para o acesso público e a distribuição dos objectos, o projecto de Mendonça previa quatro níveis, equivalentes às diversas possibilidades de acesso público12: 1º - uma galeria aberta ao público, apresentada no grande vestíbulo e galeria superior do Anexo; 2º - uma galeria de estudo, localizada no espaço entre o vestíbulo e a Secção de Cerâmica, no Anexo13; 3º - um núcleo de Reserva, instalado numa ampla dependência da zona destinada a depósito de obras de arte, no piso térreo do Anexo14. A ideia modelo transmitira-a a própria museóloga anos antes, entre 1963-1964, publicada no Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga, ao referir que «foi dada uma diferente arrumação nas arrecadações e depósitos da cave do edifício novo, por se averiguar conveniente a nova SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 9Maria João Vilhena de Carvalho. "A Colecção de Escultura: Exposição e Histórias". Comunicação apresentada no Ciclo de Conferências de Primavera: 120 Anos do Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga, 20 de Maio de 2004. 10 A obra do Dr. João Couto no MNAA , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1967. 11 Em Outubro-Novembro de 1969 - coincidindo com a inauguração do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, é remontada a Sala Museológica que João Couto autonomizara no MNAA após a Doação. O projecto museológico então concebido por Maria José de Mendonça teve risco museográfico de Cruz de Carvalho, pintor e decorador. Na plasticidade desta Sala Gulbenkian, com fortes ecos das propostas do italiano Francesco Albini, estavam presentes os valores da obra de arte entendida como unicum , na sua essência e no seu contexto de Colecção, exaltado através da cenografia, dos suportes dos objectos e da sua iluminação particular. 12 Note-se que estes níveis correspondem a uma topografia interna do Museu Nacional de Arte Antiga que já não existe e foi profundamente alterada nas intervenções arquitectónicas da década de 1980, por ocasião dos preparativos da XVIIª Exposição de Arte, Ciência e Cultura do Conselho da Europa, e da primeira metade da década de 1990, antecedendo a reabertura ao público de 1994. 13 Corresponde actualmente às salas de exposição permanente de Mobiliário Português do MNAA, no piso 1. 14 MNAA, Arquivo de Secretaria, Livro 66, Cópias de Correspondência Remetida, Janeiro a Junho 1970, Nº 133, Proc. Nº 5-M-2, 9 de Março de 1970. 113 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 disposição das secções ali existentes. (…) Na galeria oposta à do mobiliário foi instalada a secção de escultura e noutras dependências colocaram-se as peças e fragmentos de talha dourada e os metais. A nova disposição permitiu criar uma galeria de estudo com vista à formação prática de Conservadores. No intuito de tornar mais agradável a permanência nestas arrecadações, instalou-se um sistema de ventilação que permite uma constante renovação de ar»15. Maria José de Mendonça manifestava ainda a sua concordância com a decisão administrativa superior16 de, após a transferência da Colecção para o Museu de Arte Antiga, ser aqui feita uma selecção de peças destinadas a outros museus do país17, que só muitos anos mais tarde seria pontualmente realizada por Sérgio Andrade (Carvalho, 2009, 158-162). (FIG. 1) O início do trabalho de Sérgio Guimarães de Andrade é praticamente concomitante com essa nova realidade da colecção que é necessário gerir, e que ele transforma. O novo contexto, sublinhamos, é resultado da doação ao Estado Português da Colecção de Escultura do Comandante Ernesto Vilhena (n. Ferreira do Alentejo 1876-m. Lisboa 1967), efectuada pelos seus herdeiros, em 1969, e da conservação no Museu Nacional de Arte Antiga de cerca de 1500 (mais exactamente 1490) peças. Este crescimento exponencial teve imediatos efeitos práticos na vida do Museu logo em 1969 (apesar da doação só ter sido definitivamente oficializada como propriedade do MNAA em 1980, após forte insistência junto das instituições de tutela durante o período da direcção de Maria Alice Beaumont18), obrigando permanentemente a um hercúleo redimensionamento do espaço destinado a arrecadação e à manutenção das ideais condições de conservação dos objectos. 940 imagens esculpidas em pedra, 510 talhadas em madeira e 40 trabalhadas noutros materiais quase triplicaram os números da Colecção de Escultura e o MNAA, entre os museus nacionais, passou a contar com o conjunto mais completo de obras da imagi15 Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga . 1963- -1964, publicado em 1966, p. 73. 16 Tal como reportava o jornalista que acompanhou a visita oficial, em 22 de Fevereiro de 1969, do Ministro da Educação Nacional (José Hermano Saraiva), do Secretário de Estado da Informação e Turismo, do director-geral de Espectáculos e Cultura Popular à Casa Vilhena, após a assinatura do Auto de Doação ao Estado: “ (…) Vão ser criados o Museu Nacional de Escultura e núcleos de cultura espalhados pelo País. Segundo nos informou o sr. ministro da Educação Nacional, a colecção Vilhena, legada ao Estado,vai ficar temporariamente arrecadada, em condições ideais, nas salas vagas da nova Biblioteca Nacional. Mas só enquanto não se construir em Lisboa o Museu Nacional de Escultura, onde serão recolhidas peças dispersas por museus nacionais e não se criarem os já projectados Centros de Cultura, a disseminar por todo o país e que incluirão muitas das obras existentes aqui em duplicado. Assim se devolverá à província alguma coisa daquilo que ela, ao longo dos séculos, foi perdendo – os testemunhos da sua própria criação artística. (…)”, in “Uma Dádiva Que Não Tem Preço”. Diário de Notícias, 23 Fevereiro 1969, p. 1 e 6. 17 MNAA, Arquivo de Secretaria, Livro 66, Cópias de Correspondência Remetida, Jan-Jun 1970, Nº 133, Proc. Nº 5-M-2, 9 de Março de 1970: (…) “Transferida a colecção para o Museu de Arte Antiga, será aqui feita a escolha das peças destinadas a outros museus do país, conforme foi superiormente determinado, procedendo-se ao inventário e fotografia de todas as espécies, o que se torna urgente fazer.” 18 Maria Alice Beaumont (1929-2004) ocupou o cargo de directora do MNAA desde Abril de 1975 até Setembro de 1990. MNAA, Arquivo de Secretaria, Cópias de Correspondência Remetida, Jan-Jun 1980-I; Nº 197, Proc. 4-M-5, 15-04-1980: Exma Senhora Directora Geral do Património Cultural. Conforme é do pleno conhecimento de V. Exa. a antiga colecção de escultura Comte. Vilhena encontra-se depositada neste Museu desde 1970, sem que a sua situação esteja clara e inequivocamente definida. Ao tratar-se na presente ocasião da exposição de escultura em Mafra, parecer-nos-ia um momento adequado para resolução desta questão, pelo que proponho a V. Exa. que a dita colecção seja incorporada nas colecções do Museu Nacional de Arte Antiga, aplicando-se-lhe assim os regimes de inventariação e registo que são praticados no Museu, e passando a incluir-se nos seus núcleos em situação museográfica definida. Esta incorporação far-se-ia naturalmente sem prejuízo de futuras resoluções no que respeita a cedência e ou utilização de peças da dita colecção. (...) A Directora, Maria Alice Beaumont. SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 114 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 FIG. 1 - Esculturas incorporadas nas colecções do MNAA. nária esculpida em Portugal entre os séculos XIII e XVIII, destacando-se as peças dos séculos XIV, XV e XVI pela qualidade de alguns exemplares únicos e, em simultâneo, pelo valor serial que se pode reconhecer na multiplicação imagética desses modelos. Foi com esta profunda alteração do conteúdo do acervo – a Colecção de Ernesto Vilhena - que a Secção de Escultura se transformou, o que permitiu a Sérgio Andrade enunciar novos objectivos baseados no seu particular conceito do objecto museológico, para si o verdadeiro protagonista do Museu desde o processo da incorporação, passando pela conservação, estudo e investigação, documentação e informação até, finalmente, à interpretação dada a público em exposição. Neste sentido, comungava, aliás, das linhas contemporâneas da Nova Museologia. Segundo ele, o conservador deve produzir a interpretação do objecto como realizador – no sentido cinematográfico – quer da exposição permanente, (ou « de base », como sempre lhe chamava), quer da exposição ou da acção temporária em que esse objecto é sempre o actor. A proposta criativa do museólogo enquanto realizador é então entendida como uma tradução da linguagem que é própria dos objectos que se expõem para a linguagem do público19. Assim, para Sérgio Andrade, os seus objectos de trabalho, as imagens esculpidas, não actuariam como meros exemplos ou ilustrações: propõem uma re-conceptualização do passado por via da interpretação sugerida pelo conservador ao visitante através da montagem cujo objectivo será dar a conhecer, com clareza, um determinado sentido e o significado dos objectos. O Museu é um espaço de transfigurações. Uma ilustrativa passagem dum documento datado de 1979 resume a actividade dos primeiros dez anos passados com responsabilidade pela Secção de Escultura e elucida com transparência o conceito da intervenção do conservador sobre o objecto, ao mesmo tempo que enuncia o que considera ser a diferenciação fundamental entre uma actividade temporária e a exposição permanente: « O pensamento que tem orientado a secção de escultura tem sido o de, através de exposições temporárias, e com pretexto destas, estudar e apresentar ao público pequenos núcleos da colecção. Resulta esta linha não só dos problemas consequentes à falta de espaço, mas também da convicção de ser tal processo preferível ao de exposições de base que, em grande parte por motivos já apontados, não poderiam ter a força suficiente para se enquadrarem com exposições desse tipo de pintura ou ourivesaria. Permitem ainda as exposições temporárias, sistematicamente ou permanentemente organizadas, a elaboração de programas de estudo e de conservação ou tratamento, e revestem-se do aliciante – ou desafio – de apresentarem ao público leituras, ou propostas de leitura, dinâmicas, por isso mesmo susceptíveis de serem sempre diferentes e de convidarem o visitante a assumir uma intervenção. Dentro desta linha a exposição de base encontra-se limitada a um núcleo de presépios, a outro de peças em madeira setecentista (capela) e aos núcleos Gulbenkian e de peças Della Robbia. Exposições temporárias, mais ou menos permanentes, têm-se organizado desde 1975, e a pretexto delas se procurou estudar e/ou tratar os núcleos que as constituíam. Assim se procedeu com a colecção de imagens de Malines e com a de alabastros medievais ingleses, com um SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 115 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 19 Teresa Pacheco Pereira em "Evocação" In Memoriam Sérgio Guimarães Andrade . Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 8 de Janeiro de 2010, expôs já o conceito de objecto de Sérgio Andrade num contexto patrimonial não exclusivamente museográfico, nomeadamente do Monumento-Mosteiro da Batalha (onde Sérgio Andrade foi Presidente da Comissão Instaladora do Museu do Mosteiro de Santa Maria da Vitória - entre 1979 e 1980 -, autor do projecto da sua reutilização museológica e primeiro responsável do Museu/Mosteiro com exercício efectivo da sua direcção - entre 1981 e 1986-) entendido ele próprio como objecto museológico. núcleo de figuras de presépio, e com o grupo de imagens que integram a exposição ainda patente de escultura em madeira. A exposição “O Natal” patente em 1977 e 1978, abriu por seu turno caminho a um estudo dos presépios, e à tentativa de publicação de um álbum, que persistentes faltas de tempo e pessoal impediram se concretizasse. A linha de reduzir as exposições de base ao mínimo considerado necessário dentro de um pensamento global do Museu, e de recorrer a exposições temporárias, mais ou menos longas, e de acordo com as preocupações que o Museu vem manifestando, continuará a ser o eixo orientador da secção de escultura, subordinando a essa opção os programas de estudo, de conservação e tratamento, de investigação. Por seu turno o que se pretende com as exposições não é mostrar peças – mas sim contribuir para uma compreensão e para um conhecimento das coisas, das realidades, das vivências em que essas peças, pretextos, não são senão um testemunho ou um objecto consequente de uma ideia, de uma mentalidade, de uma intenção, de uma maneira de nos assumirmos a nós próprios e perante os outros. Se expôr é, neste contexto, acima de tudo expôr ideias, o objecto, a peça, é o pretexto imediato, exigindo dele uma leitura, uma conversa, que transcende evidentemente os campos de estudo tradicionais a que a peça se encontra limitada nos museus. Crê-se que o desafio que se põe ao conservador (e fala-se de um museu de arte e de um com as características do Museu Nacional de Arte Antiga) não é o de restituir a peça à sua função original, mas sim o de lhe procurar tantas utilizações quantas as que lhe permitem dar-lhe uma rentabilidade contribuindo para aquela compreensão e conhecimento do que nós somos, e do mundo que nos rodeia . (…)»20. A relação com os objectos – simultaneamente intelectual, histórica, cultural, antropológica em suma, - torna-se física, material e é nesta condição que o conservador age sobre eles, diríamos que "epifanicamente", porque as esculturas também se lhe revelam. (FIG. 2) Na prática do ofício tal como Sérgio Andrade o executou reconhecemos esta relação, muito concretamente, na compreensão e re-interpretação das qualidades matéricas - formais e físicas - das esculturas que foram o seu suporte de trabalho, como uma fenomenologia. Em primeiro lugar, porque pelas suas formas ou pelos atributos que as acompanham, as próprias peças podem ser detonadoras de uma ideia de exposição, como aconteceu com a mostra S. Thiago Discipulo de Jezus e Fez Guerra contra os Mouros , promovida em Santiago de Palmela em 199821; depois, num entendimento muito claro das diferentes expressões dos materiais, da pedra, da madeira, do barro ou dos efeitos que as técnicas de acabamento têm sobre estas22; pela total adequação de dimensões e a articulação dos suportes expositivos que utilizava com a materialidade (volume e dimensões) e os valores plásticos das peças; ou ainda pela total abertura da relação física entre público-espectador do Museu ao objecto que propunha e defendia, distanciados estes apenas quanto a segurança de obras de arte únicas o exige. Estes valores conceptuais retemo-los das suas palavras e podemos reconhecê-los nas montagens das suas exposições temporárias. Dizia assim que, « mais importante que ver numa escultura um objecto de história de arte, é senti-la como expressão das vidas que a constituíram e que por ela passaram. É percebê-la como resultado e como síntese de 20 MNAA, Arquivo de Secretaria, Relatório de actividades, 1979, dactilografado, "3. Movimento das Colecções. Escultura". 21 S. Thiago Discipulo de Jezus e Fês Guerra Contra os Mouros , Palmela, Igreja de Santiago-Castelo de Palmela, 1998. 22 Reencontrando-se empiricamente com o trabalho produzido por Michael Baxandall na História da Arte, no seu The Limewood Sculptors of the Renaissance Germany . 1980. New Haven and London: Yale University Press. SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO FIG. 2 - Sérgio Guimarães Andrade em Expressões Medievais , Caldas da Rainha, 1992. © Arquivo MNAA. 116 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 anseios, dúvidas, angústias, de desespero e de alegrias dos Homens que nela concentraram as suas preces, as suas fés os seus desejos, as suas esperanças. Mais importante que analisá-la como volume e como forma em discussões desarticuladas de conteúdo humano, é compreendê-la e sentir ao tocá-la outras mãos e outros olhos que no passado nela deixaram algo de si próprios. De acordo com tal intenção seguiram-se processos de montagem em que as peças são trazidas a um contacto próximo e directo com o público, em que se formam grupos onde elas próprias conversam entre si e com as pessoas, ou então pela sua força se individualizam numa tentativa de diálogo .»23 No início da década de 1980 no Museu Nacional de Arte Antiga, grandes obras de intervenção no edifício Anexo permitiram criar um piso intermédio onde, dez anos mais tarde, o espaço do Claustro do piso superior virá por fim a receber a Exposição Permanente de Escultura. A abertura definitiva da exposição permanente - ou "de base" -, de escultura portuguesa, em 1994, representou uma ruptura na história das exposições da escultura no Museu Nacional de Arte Antiga. Inaugurada inicialmente em Maio de 1991, a realização da mostra No Tempo das Feitorias em 1992, retomando o certame da Europalia 91 em Bruxelas, iria provocar o seu adiamento até 199424. João de Almeida seria o autor do projecto de arquitectura. Essa exposição resultou do particular entendimento dos valores que caracterizaram a nossa imaginária, tal como Sérgio Guimarães de Andrade o foi mostrando ao longo do vasto trabalho de museólogo nas diferentes exposições temporárias que organizou tanto dentro do Museu Nacional de Arte Antiga - entre as quais salientamos Escultura em Madeira (1979) (FIG. 3), Natal (1983) ou Imagens no Tempo (1988) - como noutros contextos institucionais, fossem eles o Palácio Nacional de Mafra (1980) (FIG. 4), o Museu/Mosteiro da Batalha, com várias mostras decorridas entre 1982 e 198525, ou em espaços museológicos camarários como aconteceu em EstreSÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 117 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 23 A Escultura em Portugal no Século XV . Museu- -Mosteiro da Batalha, 1983. 24 Com uma lúcida perspectiva sobre as vicissitudes contínuas que a gestão do museu envolve, informa sobre as implicações que a exposição Feitorias teve sobre a exposição de escultura: "(...) 13. Em Maio de 1991, e depois de um conjunto de situações que estão relacionadas directamente com o pedido de aposentação da Sra. Dra. Maria Alice Beaumont, o 3º piso foi finalmente inaugurado com exposições de base de Pintura e Escultura Portuguesas. Concebidas, organizadas e montadas pelas respectivas secções do Museu. 14. Cerca de 11 meses decorridos o Museu é obrigado, sem possibilidades de reacção ou dela incapacitado, a retirar novamente estas exposições, e a assistir, marginalizado, à alienação dos seus espaços. Onde novamente se fazem adaptações, exclusivamente pensadas em termos da temporária "Feitorias", ignorando claramente a vocação e usos museológicos dessas salas. 15. Quando se concluir as "Feitorias" (três meses?) então irá ser necessário desmontar e retirar as grandes estruturas expositivas, todos os materiais e suportes, mas, sobretudo, e pelo menos, pintar uma vez mais as enormes áreas de paredes das salas da Pintura Portuguesa, totalmente inadequadas a este fim. (...)". MNAA, Espólio Sérgio Guimarães Andrade, Dossier Informações e Notas de Serviço, "Informação sobre a Exposição Feitorias. 21.05.92". 25 Quando, em 1982, se iniciaram as obras das instalações do MNAA, foi transferida e provisoriamente arrecadada no Palácio Nacional de Mafra, uma quantidade significativa de esculturas, quase todas elas provenientes da Doação Vilhena, aí permanecendo até 1997, momento em que regressaram definitivamente ao Museu. Deste conjunto de esculturas foi feita uma selecção de uma centena e meia de peças do período medieval que, a título de depósito no Museu-Mosteiro da Batalha, foram protagonistas de uma série de exposições concebidas por Sérgio Guimarães Andrade. FIG. 3 - Escultura em Madeira , MNAA, 1979 © Arquivo MNAA. 26 Por ordem cronológica, comissariou as exposições: Presépios , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1975; O Natal , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1976; Imagens de Malines , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1976 (com itinerâncias); Alabastros Medievais Ingleses , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1977 (com itinerâncias); Livro de Horas de D. Manuel , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1977 (adaptado a kit e itinerante); A Rua , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1977; Escultura em Madeira , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1979-1980; Coleccionar. A Colecção Ernesto Vilhena , Mafra, Palácio Nacional de Mafra, 1980; Alabastros Medievais Ingleses , Museu-Mosteiro da Batalha, 1981; Mosteiro da Batalha. Fotografias de Mário Novais , Museu-Mosteiro da Batalha, 1981; Esculturas do Século XV , Museu- -Mosteiro da Batalha, 1982; Música no Século XV. Os Instrumentos Musicais Representados no Mosteiro da Batalha , Museu-Mosteiro da Batalha, 1982; A Escultura em Portugal no Século XV , Museu-Mosteiro da Batalha, 1983; O Mosteiro da Batalha e a Arquitectura Gótica em Portugal . Museu- -Mosteiro da Batalha, 1983; Presépios , Museu Nacional de Arte Antiga, 1983-1984; Imaginária Medieval , Museu-Mosteiro da Batalha, 1984; Arquitectura e escultura góticas , Museu-Mosteiro da Batalha, 1985; Exposição de base de Escultura, Museu Nacional de Arte Antiga, 1985-1987; Esculturas em Madeira dos Séculos XIX e XV , Museu- -Mosteiro da Batalha, 1985; Esculturas dos Séculos XIII e XIX . Imaginária do Tempo da Rainha Santa Isabel . 650º Aniversário da Sua Morte , Estremoz, 1986; Imagens no Tempo. , Lisboa, MNAA, 1988; Espaços e Imagens. Esculturas Portuguesas dos Séculos XIII ao XVIII , Óbidos, Museu de Óbidos, 1992; Exposição de base de Escultura Portuguesa, Museu Nacional de Arte Antiga, 1991-1992; Expressões Medievais. Escultura em pedra do Museu Nacional de Arte Antiga , Caldas da Rainha, Galeria Municipal, 1992-1993; Exposições de base de Escultura, Museu Nacional de Arte Antiga, 1994-2009; S. Thiago Discipulo de Jezus e Fês Guerra Contra os Mouros , Palmela, Igreja de Santiago-Castelo de Palmela, 1998. Foi ainda o autor dos fundamentos de Ai Confini della Terra. Scultura e arte in Portogallo. 1300-1500 , Rimini, Palazzi dell'Arengo e del Podestà, 2000 - O Sentido das Imagens. Escultura e Arte em Portugal (1300-1500) , Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 2000-2001. 27 MNAA, Espólio Sérgio Guimarães Andrade, Dossier Exposição de Base Anexo (Claustro), Maio 91/Abril 92. SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 118 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 FIG. 4 - Coleccionar . A Colecção Ernesto Vilhena , Palácio Nacional de Mafra, 1980 © Arquivo MNAA. moz (1986) (FIG. 5), nas Caldas da Rainha (1992), em Óbidos (1992), ou em Palmela (1998), ou até, e ainda, em movimentos expositivos itinerantes que se alargaram a numerosos locais como nos casos das exposições dedicadas aos Alabastros Medievais Ingleses ou às Imagens de Malines em Portugal 26. Paralelamente às actividades temporárias e descentralizadas, oferecia-se agora ao público uma exposição coerente da história da imaginária esculpida em Portugal. Mostrava-se muito mais e melhor, num discurso museológico coerente na sua arquitectura conceptual. E a escultura passou a estar presente não só na Exposição de Escultura Portuguesa localizada no espaço do Anexo, mas também integrada no discurso expositivo dos Núcleos Cronológicos patentes no espaço do Palácio dos Condes de Alvor e distribuídos por pequenas "bolsas" cuja lógica era a da leitura integrada das esculturas portuguesas - ou das existentes em Portugal nos contextos das produções europeias, como ainda nos diversos apontamentos escultóricos que se dispersaram e dispersam ao longo das diferentes Exposições de Artes Decorativas e das Artes não europeias. (FIG. 6) O conceito da mostra permanente do MNAA radicou nos princípios de base que conciliavam os valores que dão identidade à Colecção de Escultura com as linhas fundamentais da trajectória histórica da escultura em Portugal, segundo os pressupostos considerados pelo conservador no programa que viria a desenvolver no Museu Nacional de Arte Antiga, de novo a partir de Maio de 1991, e cujo enunciado de realidades trazemos mais uma vez pelas suas palavras: « Quando terminada a XVIIª foi necessário definir o programa de organização do "Anexo" (dedicado à Arte Portuguesa); des- a dispensa de textos corridos discursivos e, sendo estes sugeridos pelas imagens, deviam intervir apenas como legendas alargadas de cada uma delas. Sérgio Andrade apresentava assim « uma grande colecção de escultura portuguesa medieval », « onde se sobrepõe os valores da religião e do culto », « em que as formas evoluem no sentido de uma definição mais humana e mais realista », « na qual se podem detectar centros de produção e oficinas que marcam a escultura medieval portuguesa » e que « seguem caminhos próprios, que têm ascendência hispânica, francesa e flamenga »31. A fortuna da interpretação de Sérgio Guimarães Andrade foi reconhecida internacionalmente em 2000, com a realização em Rimini, Itália, da exposição Ai Confini della Terra. Scultura e arte in Portogallo (1300-1500), mostrada nos Palazzi dell'Arengo e del Podestà, concebida a partir do guião original do Conservador e produzida pelo Museu Nacional de Arte Antiga em parceria com o Instituto Português de Museus e a organização não governamental Meeting per la amicizia fra i popoli 32. Dos "exóticos" confins da Europa, a imaginária esculpida nos séculos de Trezentos e Quatrocentos ofereceu-se, com o sentido das imagens, como contraponto à arte da pintura cultivada na Península Itálica mostrando-se nos seus tipos, espaços, funções, formas, centros de produção e mestres, temas e cultos, antes da nova época de Quinhentos. • Bibliografia BAXANDALL, Michael. 1980. The Limewood Sculptors of the Renaissance Germany. New Haven and London: Yale University Press. BOLDRICK, Stacy; David Park e Paul Williamson 2003. Wonder. Painted Sculpture from Medieval England. Leeds: The Henry Moore Institute. BOM, Manuel. 1955-1956. Evolução da Escultura em Portugal analizada através da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa: Tese de Estágio para Conservador de Museus apresentada ao Exmo. Snr. Director do Museu Nacional de Arte Antiga, dactilografada. CARVALHO, Maria João Vilhena de. 2009. O pólo museológico da Flor da Rosa. A Colecção Vilhena. In O Mosteiro da Flor da Rosa. Lisboa: IGESPAR, I.P./DRCALEN. COUTO, João. 1941. Congressos e Conferências do Pessoal Superior dos Museu de Arte. Tese apresentada ao II Congresso Transmontano. Lisboa: 1941. FEYO, Salvador Carvão d'Eça Barata. 1948. Organização de uma Galeria de Escultura num Museu do tipo do Museu das Janelas Verdes. Lisboa: Tese de Estágio para Conservador de Museus apresentada ao Exmo. Snr. Director do Museu Nacional de Arte Antiga, dactilografada. RIBEIRO, Belarmina. 1959. "A Escultura no Museu Nacional de Arte Antiga (1/Esquema de Duas Visitas Guiadas)." Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga. Vol. IV, Fasc. 2, Janeiro-Dezembro, 29-34. SOUSA, J. M. Cordeiro de Sousa. 1959. "Os Medalhões Della Robbia do Museu das Janelas Verdes." Boletim do Museu Nacional de Arte Antiga , Vol. IV, Fasc. 2, Janeiro-Dezembro: 35-36. SÉRGIO GUIMARÃES DE ANDRADE, O CONSERVADOR E A SUA COLECÇÃO 125 REVISTA DE HISTÓRIA DA ARTE Nº8 - 2011 30 MNAA, Espólio Sérgio Guimarães Andrade, Documento Esculturas Medievais, 1ª Projecto para a Publicação , 31 de Julho 1989, manuscrito. 31 Idem, ibidem. 32 Trazida depois ao público português com o título seleccionado pela equipa do MNAA responsável por aquela mostra, em homenagem ao pensamento original de Sérgio Guimarães de Andrade: O Sentido das Imagens. Escultura e Arte em Portugal (1300-1500) . Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, Outubro 2000Janeiro 2001.