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O outro lado de mim: o peso da orientação sexual no envelhecimento LGBT

Silva, Judite Beatriz Pais da

Abstract

Portugal tem apresentado um aumento da população envelhecida, levando a que esta faixa etária tenha vindo a ser alvo de diversas implementações de medidas e políticas, motivadas pela preocupação pública que tem surgido em torno da temática do envelhecimento. Aqui, destacamos especificamente os seniores LGBT e as necessidades, medos ou desafios que estes têm vindo a apresentar ou a enfrentar. À medida que vão envelhecendo, com o medo de se tornarem alvo de discriminação ou perseguição, muitos destes elementos chegam a uma fase da sua vida em que sentem que têm de renunciar à sua orientação sexual, “voltando para o armário”, para viverem sem medo das consequências da exposição da sua sexualidade. O objetivo da presente investigação consiste, então, em adentrarmos sobre o que significa envelhecer como uma pessoa LGBT, bem como tentar compreender que lacunas é que ainda permanecem no conhecimento sobre o envelhecimento LGBT. Assim, este estudo incide sobre as histórias de vida de indivíduos com sessenta e mais anos (> +60), homens e mulheres, que apresentam uma orientação sexual não heterossexual, residentes tanto no seu domicílio, como em instituições. Este não é um estudo representativo ao nível estatístico, sendo que quisemos propor-nos a chegar a tantos indivíduos que pudessem representar tanta diversidade de casos quanto possível (no presente caso, nove entrevistados), para aprofundarmos esta temática. Para o efeito, realizámos, então, entrevistas com foco nas histórias de vida de alguns seniores LGBT, a fim de obter os dados pretendidos para o estudo. Desta fase, foi possível observar que estes carecem de apoio ao nível institucional e residencial, de uma entidade ou políticas que vão ao encontro das suas necessidades, como uma residência ou instituição (no caso da uma institucionalização), que aceite seniores LGBT sem que estes tenham medo de ser discriminados, ou que tenham de renunciar à sua sexualidade e/ou orientação sexual para que possam viver a sua velhice de uma forma mais plena e sem temor.

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O Outro Lado de Mim: O Peso da Orientação Sexual no Envelhecimento LGBT Judite Beatriz Pais da Silva Dissertação de Mestrado em Sociologia Especialização em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais Novembro 2018 2 O Outro Lado de Mim: O Peso da Orientação Sexual no Envelhecimento LGBT Judite Beatriz Pais da Silva Dissertação de Mestrado em Sociologia Especialização em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais Novembro 2018 3 RESUMO Portugal tem apresentado um aumento da população envelhecida, levando a que esta faixa etária tenha vindo a ser alvo de diversas implementações de medidas e políticas, motivadas pela preocupação pública que tem surgido em torno da temática do envelhecimento. Aqui, destacamos especificamente os seniores LGBT e as necessidades, medos ou desafios que estes têm vindo a apresentar ou a enfrentar. À medida que vão envelhecendo, com o medo de se tornarem alvo de discriminação ou perseguição, muitos destes elementos chegam a uma fase da sua vida em que sentem que têm de renunciar à sua orientação sexual, “voltando para o armário”, para viverem sem medo das consequências da exposição da sua sexualidade. O objetivo da presente investigação consiste, então, em adentrarmos sobre o que significa envelhecer como uma pessoa LGBT, bem como tentar compreender que lacunas é que ainda permanecem no conhecimento sobre o envelhecimento LGBT. Assim, este estudo incide sobre as histórias de vida de indivíduos com sessenta e mais anos (> +60), homens e mulheres, que apresentam uma orientação sexual não heterossexual, residentes tanto no seu domicílio, como em instituições. Este não é um estudo representativo ao nível estatístico, sendo que quisemos propor-nos a chegar a tantos indivíduos que pudessem representar tanta diversidade de casos quanto possível (no presente caso, nove entrevistados), para aprofundarmos esta temática. Para o efeito, realizámos, então, entrevistas com foco nas histórias de vida de alguns seniores LGBT, a fim de obter os dados pretendidos para o estudo. Desta fase, foi possível observar que estes carecem de apoio ao nível institucional e residencial, de uma entidade ou políticas que vão ao encontro das suas necessidades, como uma residência ou instituição (no caso da uma institucionalização), que aceite seniores LGBT sem que estes tenham medo de ser discriminados, ou que tenham de renunciar à sua sexualidade e/ou orientação sexual para que possam viver a sua velhice de uma forma mais plena e sem temor. Palavras-chave: velhice, sexualidade, LGBT, institucionalização, estratégias, políticas públicas. 4 ABSTRACT Portugal has shown an increase in the aging population, leading to the fact that this age group has been the target of various implementations of measures and policies, motivated by the public concern that has arisen around the theme of aging. Here, we specifically highlight the LGBT seniors and the needs, fears or challenges they have been presenting or facing. As they grow older, with the fear of being discriminated against or persecuted, many of these elements reach a stage in their life where they feel they have to renounce their sexual orientation, "going back to the closet", to live without fear of the consequences of exposing their sexuality. The purpose of the present research is then to delve into what it means to grow old as an LGBT person as well as try to understand which gaps is still lingering in the knowledge about LGBT aging. Thus, this study focuses on the life histories of individuals aged equal and over sixty (> +60), men and women, who have a non-heterosexual sexual orientation, living both in their homes and in institutions. This is not a representative study at the statistical level, being that we wanted to propose to reach as many individuals that could represent as many different cases as possible (in this case, nine interviewees), to deepen this theme. To that end, we conducted interviews focusing on the life histories of some LGBT seniors, in order to obtain the data intended for the study. From this phase, it was possible to observe that they lack institutional and residential support of an entity or policies that meet the needs they present, such as a residence or institution (in the case of an institutionalization) that accepts LGBT seniors without that they are afraid of being discriminated against, afraid, or that they have to renounce their sexuality and / or sexual orientation so that they can live their old age with plenitude and without fear. Keywords: old age, sexuality, LGBT, institutionalization, strategies, public policies. 5 AGRADECIMENTOS Diversas pessoas contribuíram com um papel fundamental para que este estudo fosse levado a cabo, as quais não posso deixar de reconhecer e agradecer: A todos os entrevistados que se disponibilizaram a partilhar as suas histórias comigo e com o mundo, expondo todos os seus medos, dificuldades, experiências, vitórias e momento íntimos. Sem a vossa colaboração, este estudo não seria possível. Ao pessoal das instituições (Diretoras e pessoal técnico), por me concederem o espaço e os meios para a realização das entrevistas (tanto nos lares, como nos domicílios), sendo sempre prestáveis e atenciosos. Ao meu orientador, o Professor Doutor Bruno Dionísio, que desde a discussão do tema, passando pelas inúmeras reuniões, até ao fim do estudo, foi uma pessoa fundamental para este trabalho. Foram as suas palavras de motivação, as suas sugestões, o seu conhecimento, as suas orientações e a sua presença constante que permitiram que eu avançasse para a conclusão da dissertação. À minha família e ao meu namorado, pelo apoio infindável que me prestaram a todos os níveis, pelas palavras de alento e motivação constante, e pelo amor e carinho que me transmitiram até ao fim. 6 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais. DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis. HIV – Human Immunodeficiency Virus (ou em português, VIH: Human Immunodeficiency Virus). 7 ÍNDICE GERAL Capítulo I – Apresentação do Estudo 11 1. Introdução 11 2. Apresentação do estudo 13 2.1. Questão de partida e objetivos 13 2.2. Pertinência e (in)visibilidade do problema de pesquisa 13 Capítulo II – Instituições 21 1. Instituições: revisitando Goffman 21 2. Transformação das instituições: aquilo que permanece e aquilo que se transforma 31 Capítulo III – Construção social da velhice: representações e estigmas 37 1. Conceções 38 2. Estratificação social da velhice 41 3. Representações, estereótipos e estigmas 43 4. Mito da velhice assexuada 46 5. (Des)Valorização do corpo 48 Capítulo IV – Políticas Públicas 55 1. Definição 55 2. Modelos de políticas 56 3. Políticas públicas e dispositivos de intervenção 57 4. Associativismo LGBT em Portugal 59 Capítulo V – Metodologia 61 1. Introdução 61 1.2. Metodologia qualitativa 61 8 2. Processo de recolha de dados 63 2.1. Definição da amostra 63 2.2. Captar relatos de vida LGBT na velhice: as entrevistas 64 2.3. Obstáculos 72 Capítulo VI – Perfis dos entrevistados 77 1. Características sociodemográficas 77 2. Momento da descoberta 84 3. Perceções sobre as instituições 88 3.1. Lares: O receio da perda de privacidade, de intimidade e de liberdade 94 4. A privacidade e a exposição (in)voluntária ao outro 101 5. A importância da privacidade e da intimidade para a sexualidade 108 5.1. Comportamentos sexuais de risco 114 5.2. A sombra do HIV 120 6. Nove realidades: contrastes e semelhanças 122 Capítulo VII – Conclusão 125 Referências bibliográficas 129 Anexos 135 Anexo I - Modelo de Consentimento Informado e de Confidencialidade 136 Anexo II – Guião das entrevistas 138 Anexo III – Transcrição das entrevistas 142 Francisco 143 Ana 162 Paula 194 Manuel 219 9 Maria 237 Joaquim 258 Mário 276 Isabel 295 António 312 16 Gráfico 2 – Nados vivos (N.º) e Índice sintético de fecundidade (N.º), Portugal, 20082013. Número de nados vivos abaixo de 83 mil – 2013. INE Neste sentido, destacando a crescente população envelhecida de Portugal, podemos notar que a orientação sexual, que tem peso neste campo, está pouco desenvolvida, seja de um modo mais geral (políticas ou instituições criadas com vista aos seniores LGBT, por exemplo,) ou de um modo mais específico (ao nível de medos, dificuldades que estes indivíduos enfrentam no dia-a-dia, por exemplo). Ainda que não possamos representar todos os seniores LGBT estatisticamente (nem este é um estudo representativo ao nível estatístico), quisemos propor-nos a chegar a tantos indivíduos que pudessem representar tanta diversidade de casos quanto possível (no presente caso, nove entrevistados), para aprofundarmos esta temática, como nos propusemos de início. Neste sentido, este campo de investigação pareceu-nos pertinente na sua exploração porque, com os tempos que correm, a orientação sexual LGBT tem vindo a tornar-se mais visível no espaço público, mas não deixa de ter consequências na forma como esta é representada socialmente e percepcionada. Contudo, parece ser ainda entre os mais jovens que esta diversidade é mais compreendida ou aceite, sendo que no segmento sénior antes se reforça o preconceito: não se basta ser velho (peso da idade), como também se é LGBT (peso da orientação sexual). Está presente, então, uma interseccionalidade (Crenshaw, 1994), uma vez que o indivíduo passa a ser alvo de preconceito ou discriminação por diversas razões (idade, género, orientação sexual, poder económico, raça, religião, entre outros). 17 Dado que a população está cada vez mais envelhecida e que há agora mais pessoas assumidas face à sua sexualidade (não heterossexual), à medida que vão envelhecendo, com o medo de se tornarem alvo de discriminação ou perseguição, muitos chegam a uma fase da sua vida em que sentem já não ser possível serem eles mesmos (no caso dos que sentiram em algum momento das suas vidas poderem ser eles próprios) e preferem renunciar à sua orientação sexual, “voltando para o armário”, para viverem sem medo das consequências da exposição da sua sexualidade, numa falsa ilusão de felicidade. Nestes casos, interrogamo-nos: como é que se expressa a sexualidade e a orientação sexual dos indivíduos? E dos indivíduos LGBT? É sequer permitida ou aceite? Como é que a instituição atua nestes casos? O facto das necessidades dos indivíduos serem orientadas e geridas pela organização / grupo de atores que dirige a instituição, permite que haja um maior nível de controlo por parte da instituição para com a vida dos indivíduos, passando estes a estar condicionados e a depender do regulamento instituído. Neste sentido, a decisão que por vezes se toma antes da velhice – o assumir da orientação sexual, o “sair do armário” – volta a ser pesada aquando da entrada na velhice, em que os indivíduos medem os riscos da exposição da sua orientação sexual e decidem por qual estratégia optar, se pela exposição, se pela renúncia da sua orientação sexual. Esta reflexão é observada, principalmente, mas não exclusivamente, em casos em que os seniores LGBT passem a depender de terceiros ou que tenham de ser institucionalizados. Como Savin-Williams & Dubé referem: “Coming out to others can be a risky undertaking for some gay and lesbian individuals who may have legitimate reasons not to disclose; however, remaining in the closet can lead to feelings of alienation and isolation from friends and family” (Savin-Williams & Dubé, 1998). Portanto, diversos indivíduos, incluindo alguns dos entrevistados, sentiram ou sentem que têm de renunciar à sua sexualidade ou orientação sexual para poderem passar despercebidos, por exemplo, numa situação de institucionalização ou de dependência de uma terceira pessoa ou familiar. Por esta ordem de pensamento, e uma vez que os jovens LBGT, entre os 16 anos e os 30 anos, também vão envelhecer, portanto, aqueles que as Associações LGBT abrangem em Portugal, e uma vez que esta questão tem contornos e reflexões 18 “recentes”, torna-se preocupante pensar não só nos casos dos seniores LGBT atuais, como no futuro destes seniores vindouros. Que hipóteses de escolha terão no futuro? Sentir-se-ão livres e desinibidos com a sua sexualidade e orientação sexual nas suas velhices? Poderão continuar a usufruir das suas sexualidades e relações LGBT mesmo que sejam dependentes de terceiros ou que estejam institucionalizados? Os seniores LGBT, de acordo com os entrevistados, atualmente, sentem que têm de renunciar àquilo que são ou querem ser, ou em muitos casos, que conquistaram tardiamente o que queriam verdadeiramente ser, para poderem usufruir da sua velhice em caso de dependência de terceiros ou de uma institucionalização, principalmente se não tiverem condições económicas para investirem numa alternativa que lhes ceda maior liberdade, tolerância e privacidade face à sexualidade e à orientação sexual da terceira e quarta idade. Na realidade, as instituições nos dias que correm são cada vez mais diversificadas e presentes nas alternativas dos cuidados dos quotidianos dos indivíduos à medida que vão envelhecendo ou que vão necessitando destas. De públicas a privadas, as instituições surgem-nos nos mais diversos modelos e formas de funcionamento. Contudo, a sexualidade ou a orientação sexual são variáveis que podem interferir num processo de institucionalização. A interação sexual, ao fazer parte do ser humano e do seu bem-estar, ainda que a sua expressão varie de indivíduo para indivíduo e que se manifeste essencialmente durante a juventude e a sua vida adulta (seja pelo simples prazer, para constituição familiar, por novas experiências, ou por outro motivo), pode continuar a manter a sua importância nesta fase da vida de um indivíduo. Portanto, percebemos que não é por se passar a ser sénior ou a atingir-se uma determinada idade que se deixa automaticamente de ter intimidade ou vontade sexual (mito da velhice assexuada, conceito de Mauro Brigeiro e Guita Debert). Como tal, o peso que esta variável vai ter para o sujeito (que também varia de indivíduo para indivíduo), ainda para mais numa relação LGBT, pode traduzir-se numa preocupação ou num fator de peso que pode condicionar a negociação e as estratégias do seu processo de institucionalização (por exemplo, omissão da sua sexualidade / orientação sexual, ou renuncia total às mesmas) e influenciar de algum modo a escolha do lar para o indivíduo, caso a escolha parta do próprio. A questão de se assumir ou não a orientação sexual é, portanto, deveras complexa. Segundo Bettina, “Coming out (…) is a sexual identity recognition process 19 culminating in a self-awareness of a gay, lesbian, or bisexual orientation and/or sharing this information with others (…) ” (Bettina, 2010: 4). Portanto, escolher “sair do armário” é uma situação que pode ocorrer a qualquer momento da vida de um indivíduo LGBT, quando este assim achar oportuno, decisão essa que pode tentar renunciar mais tarde, se assim sentir necessidade, motivado pelo medo ou pelo preconceito do ambiente em que está inserido. A necessidade de se “sair do armário” prende-se ainda com o mito da heteronormatividade, em que se assume automaticamente que uma pessoa é heterossexual até prova em contrário, pelo que, muitas vezes, para uma pessoa ser feliz ou ter uma relação com quem desejar, tem de “sair do armário”, contrariando esse mito, passando a estar exposta ao que daí advier. De acordo com Rust, o assumir da orientação sexual é necessário, portanto, numa cultura heterosexista: “Is the process by which individuals come to recognize that they have romantic or sexual feelings toward members of their own gender, adopt lesbian or gay (or bisexual) identities, and then share these identities with others. Coming out is made necessary by a heterosexist culture in which individuals are presumed heterosexual unless there is evidence to the contrary.” (Rust, 2003: 227). Deste modo, torna-se interessante tentar perceber como é que os processos de envelhecimento são condicionados pela sexualidade e pela orientação sexual, como foi o caso destes indivíduos que partilharam as suas histórias de vida connosco, representantes de tantas outras, conduzidos pela falta de políticas públicas, receios, carências, de Associações e/ou de entidades que assegurem a colmatação das suas necessidades, independentemente destes residirem nos seus domicílios ou em instituições. As suas práticas, vivências, formas de agir e desafios em muito contribuem para a exploração desta problemática. Assim, e a fim de contextualizar o referido, nos próximos capítulos será focado a importância e o papel das instituições (eg. como é que estas atuam, qual o seu nível de intervenção, que propósito servem, os tipos de instituições, …), a construção social da velhice (ao nível das representações e estigmas que esta traduz, como o mito da velhice assexuada, o mito da heteronormatividade, a importância do corpo, …), o papel das políticas públicas nos processos de envelhecimento LGBT (no que consistem, as Associações e a sua ausência, falta de medidas que correspondam ao necessário, …), bem como os perfis dos entrevistados (momentos que os marcaram, desafios, medos, 20 estratégias, …). De notar, desde já, que a velhice não é uma situação homogénea, mas antes estratificada e que, neste sentido, os processos de envelhecimento LGBT não ocorrem todos da mesma forma, com as mesmas variáveis ou estratégias, traduzindo-se, assim, nos diferentes perfis que serão explorados adiante. 21 II – INSTITUIÇÕES 1. Instituições: revisitando Goffman É no âmbito institucional social que surge o tipo de instituição que tem vindo a ser referido desde o início do presente trabalho, nomeadamente, os lares para idosos, sejam estes de cariz privado ou público. As instituições, portanto, surgiram e desenvolveram-se ao longo da modernidade, como é o caso da família e da transformação que tem sofrido na sua configuração ao longo do tempo ou, por exemplo, o mundo do trabalho assalariado, que também sofreu transformações com o evoluir dos tempos. Neste sentido, o próprio Estado Providência também surge e adquire um papel muito importante no que diz respeito às instituições, pois vai representar a passagem de uma fase do mundo do trabalho para o mundo da reforma, em que passa a haver necessidade de dar resposta aos indivíduos que precisam de ajuda por não terem possibilidade de sobreviverem sozinhos. De acordo com Dionísio, é neste sentido que a velhice “constitui, pois, um dos impactos sociodemográficos mais significativos das sociedades modernas, pondo a nu a caducidade dos sistemas de segurança social dos Estados-Providência.” (Dionísio, 2001: 242) Ao mesmo tempo, dá-se também a alteração das solidariedades mecânicas e orgânicas: a solidariedade orgânica entra em vigor quando a solidariedade mecânica deixa de funcionar. Para Durkheim, a solidariedade social destacava-se através da consciência coletiva, sendo esta o elo de ligação entre as pessoas. Contudo, será a solidez, o tamanho ou a intensidade dessa consciência coletiva que mede a ligação entre os indivíduos, sendo que esta também varia segundo o modelo de organização social de cada sociedade. Neste caso, começamos por uma solidariedade mecânica, caracterizada pela dependência da extensão da vida social que a consciência coletiva alcança, em que quanto mais forte a consciência coletiva, maior é a intensidade da solidariedade mecânica. Deste modo, a solidariedade mecânica funciona devido ao sentimento que está na base ser um sentimento de pertença a uma nação, a uma religião, à tradição, à família. Quando este tipo de solidariedade deixa de funcionar, entra então em vigor a solidariedade orgânica. Esta, por sua vez, ocorre enquanto processo de individualização 22 dos membros dessa sociedade, os quais assumem funções específicas dentro dessa divisão do trabalho social. Aqui, os indivíduos unem-se não porque se sentem semelhantes ou porque haja consenso, mas sim porque são interdependentes dentro da esfera social. É neste sentido que o Estado-Providência se vai destacar: surge como resposta à solidariedade social necessária, principalmente através das reformas dos indivíduos que atingem a velhice. Estas alterações vão ainda desafiar o que esses laços oferecem. O próprio papel da mulher, enquanto figura exclusivamente cuidadora, também sofre uma transformação quando esta entra no mercado de trabalho, até então pertencente exclusivamente ao homem. Esta transmutação vai, então, levantar outra questão: se a mulher deixou de se dedicar exclusivamente ao lar e ao ato de cuidar e passou a entrar no mercado de trabalho, então quem cuida agora? É neste sentido que os lares surgem como resposta e que se tornam prementes, pois tornou-se necessário dar uma resposta de outra natureza. Com as modificações no trabalho, na família e no ato de cuidar, as instituições vão, assim, adquirindo uma maior importância na sociedade à medida que a modernidade se transforma. Os lares de velhice surgem, como tal, para suprir essa necessidade humana, bastante notória nos tempos que correm, sendo que estes inicialmente eram “dirigidos aos asilos, à população carente que necessitava de abrigo, frutos da caridade cristã diante da ausência de políticas públicas” (Camarano e Kanso, 2010: 233). Frequentemente associadas a edifícios que albergavam mendigos, doentes psiquiátricos e, posteriormente, pessoas idosas, as instituições foram sendo associadas a representações negativas e estereótipos, as quais se têm vindo a modificar com o tempo. Atualmente servem para dar resposta aos casos de institucionalização necessária, seja por motivos de saúde, dependência ou detioração do indivíduo, por viuvez, por solidão, por decisão individual ou familiar, entre outras. Actualmente, os lares de velhice surgem também como “uma das alternativas de cuidados não-familiares existentes” (Camarano e Kanso, 2010: 233), deixando de fazer parte apenas da rede de assistência social, passando a integrar também a rede de assistência à saúde. Os lares pretendem dar resposta, portanto, aos casos das populações mais vulneráveis: as crianças, os jovens e os idosos. Como tal, estes lares assumem como características serem “governamentais ou não-governamentais, de caráter residencial, destinadas a domicílio coletivo de pessoas [normalmente] com idade igual 23 ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em condição de liberdade, dignidade e cidadania” (Camarano e Kanso, 2010: 234). De notar, no entanto, que existe uma grande dificuldade em se conseguir qualificar a velhice, pois não há um termo consensual na literatura para o efeito. O termo que mais se verifica é o de “terceira idade”, sendo que este é maioritariamente empregue ao nível demográfico. De facto, temos uma primeira idade (alusiva às crianças e jovens), uma segunda idade (alusiva aos jovens mais maduros e aos adultos), e uma terceira idade (que engloba todos os que tenham sessenta ou mais anos de idade). Na verdade, seria necessário aqui criar outro segmento, como a quarta idade (os jovens velhos) ou mesmo uma quinta idade (para uma idade bem mais avançada) para que fosse possível abranger praticamente todos os casos da população, tornando mais fácil caracterizar cada situação e necessidade. Refletindo, quando se fala de jovens, não parece existir qualquer pudor na sua referência. Todavia, quando falamos de velhos, este parece estar associado a uma carga negativa (um lado simbólico negativo associado à velhice). Neste sentido, recorre-se a outros termos para se suavizar esta carga, como idoso ou sénior, ao mesmo tempo que os próprios seniores demonstram alguma relutância em caracterizarem-se como velhos. Parece, então, não existir um termo que designe tudo isto de uma forma sem ser associada a uma conotação negativa. Esta própria definição complexa leva a que os lares não sejam criados com foco na especificidade de cada caso (leia-se, para os casos de terceira idade, para os casos de quarta idade ou para os casos de quinta idade), mas numa amálgama de situações que caracterizam todos idosos num coletivo. Neste sentido, associa-se frequentemente as razões de institucionalização apenas ao surgimento de dependência ou de perda de autonomia de um indivíduo aquando da sua entrada num lar. Contudo, as razões de institucionalização não são iguais para todos os casos. Podemos encarar casos de doença, de perda de independência, solidão, isolamento, uma interrupção do quotidiano derivado de uma viuvez, em que os indivíduos, embora sejam autónomos, vão para um lar (em que a pressão familiar pode estar presente), entre outras possibilidades – tudo isto pode variar com a idade em que o indivíduo se encontra (terceira idade, quarta idade ou quinta idade), pelo que a especialização do lar pode fazer toda a diferença. Portanto, estas pessoas vivem de forma diferente em comparação com os casos dos indivíduos que estão em situações mais decadente, deterioradas, ou terminais, pelo que se tem de apostar numa 24 diferenciação dos cuidados e não na manutenção desta homogeneização dos cuidados que, por sua vez, contribuem para a aceleração de perda cognitiva, das suas funções e para o isolamento / depressão. Os diferentes tipos de instituições adquirem, então, uma grande importância para o efeito. Os lares, assim, são por vezes associados apenas a instituições de saúde, todavia, há que notar que as instituições que servem de lares de velhice, apesar de poderem ter na sua estrutura e na sua oferta de serviços uma área médica, não se trata de uma unidade médica, pois os lares “não são estabelecimentos voltados à clinica ou à terapêutica, apesar de os residentes receberem – além de moradia, alimentação e vestuário – serviços médicos e medicamentos” (Camarano e Kanso, 2010: 234), do qual são exemplo os serviços de enfermagem ou de fisioterapia, representando as ofertas mais comuns. O usufruto destes serviços varia, aqui sim, de acordo com a saúde, necessidade e autonomia de cada indivíduo. Com o decorrer do tempo, a própria Sociologia foi interpretando o papel das instituições, notório não só, mas principalmente em autores como Michel Foucault ou Erving Goffman, os quais focam esta temática das instituições como algo totalizador, embora divirjam posteriormente na sua justificação. Para ambos os autores, as instituições estavam enquadradas como algo totalizante, mas era justamente sobre a leitura desse seu lado totalizante que estes divergiam. Neste sentido, para Erving Goffman, um lar de velhice pode ser traduzido como uma instituição total, no sentido em que uma instituição total pode ser definida como “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada” (Goffman, 2001: 11). Tal é visível num lar de velhice, dado que os indivíduos que são institucionalizados, seja por que motivo for, passam a residir num mesmo local que um grande número de outros indivíduos, muitos deles em situação semelhante face aos restantes, de forma temporária ou permanente, passando a respeitar e cumprir o que é instituído pela instituição em causa. Estas instituições, neste sentido, investem na padronização de comportamentos, num determinado nível de controlo, e num determinado nível de intervenção nas situações dos indivíduos, algo que varia consoante as instituições. 25 As instituições totais para Goffman, deste modo, eram analisadas através do olhar da modernidade. Para o autor, estas não faziam parte da modernidade e representavam uma deficiência que tinha de ser corrigida, pois a modernidade representa ideais de liberdade e de autonomia, o que se torna incompatível com a noção de instituição total e com o que esta representa. Foucault, neste sentido, pensa o contrário, pois para este autor as instituições totais são, justamente, um aspeto da modernidade, um projeto específico desta, com o intento de criação da ordem social (disciplinarização dos corpos). É algo que faz parte da própria modernidade, com o propósito de enquadrar, de ordenar, de disciplinarizar, de oprimir, de retirar do espaço público os “anormais”, os “inúteis”, os “mutilados” – serve, essencialmente para higienizar o espaço público e realizar uma vigilância dos corpos. Portanto, o assunto é o mesmo para os dois autores, mas a sua tónica é diferente: para Goffman as instituições totais são um problema a resolver e a eliminar, e para Foucault estas fazem parte da modernidade e têm um propósito. Não obstante o referido, as instituições permaneceram e têm vindo a sofrer transformações desde então. Neste sentido, as instituições que atendem aos cuidados de velhice costumam reger-se por um regulamento interno5, o qual ilustra direitos e deveres dos utentes e da instituição, visando a dignidade não só dos utentes, mas também do pessoal trabalhador, o respeito mútuo e o respeito pela privacidade dos utentes, bem como o bom funcionamento da instituição e cumprimento dos parâmetros do regulamento. Para tal contribuem documentos como a Legislação Nacional (que emite decretos-lei para regular as instituições, para que se regulem por eles para 5 Excerto exemplar de um regulamento interno que traduza os princípios de uma instituição, neste caso do tipo ERPI: “Norma 4ª - Objetivos e Princípios. 1. Constituem Objetivos do Lar de Idosos: a) Proporcionar serviços permanentes e adequados às necessidades biopsicossociais das pessoas idosas; b) Ajustar as respostas às necessidades e expectativas do utente tendo em conta as suas potencialidades por forma a dar uma resposta individual e personalizada, garantindo a dignidade da pessoa; c) Contribuir para a estabilização e/ou retardamento do processo de dependência; d) Contribuir para a estimulação de um processo de envelhecimento ativo; e) Prevenir e despistar qualquer inadaptação, deficiência ou situação de risco, assegurando o encaminhamento mais adequado; f) Promover o envolvimento e competências da família por forma a garantir a integração social e o bemestar do utente. g) Promover a convivência social entre os utentes e com os familiares e amigos, com os cuidadores e com a própria comunidade; h) Promover a participação dos familiares ou representante legal, no apoio ao utente, dentro das normas e bom funcionamento da Instituição.” 32 estruturas e regulamentos que apresentam (níveis de permissividade e abertura), se assemelham ao tipo de residência que o indivíduo sénior possuía anteriormente, no sentido em que já permitem uma manutenção dos seus padrões de vida, dos seus interesses na vida instituída. Presentemente, assiste-se a um trabalho de transformação das instituições, mas que está longe de ser uma realidade que abarque todas as instituições, que já se encontram a ser ajustadas a estas necessidades, que procuram promover a qualidade de vida dos utentes e a proximidade com o estilo de vida que o indivíduo possuía antes do momento da institucionalização – almeja-se a manutenção das características que compõe a identidade do indivíduo, abrindo espaço para a exploração e aquisição de novas características. Essas características passam a ser alcançadas pelo indivíduo que procura manter um maior nível de privacidade, liberdade e de expressão pessoal (sexualidade, orientação sexual, práticas, crenças, etc.), de acordo com o pagamento mensal de valores mais elevados. De acordo com Duarte, as instituições “não deveriam ser configuradas apenas como instituições que acolhem idosos rejeitados ou abandonados pela família, mas também devem ser lembradas, compreendidas e respeitadas como uma escolha dentro do contexto de vida de cada indivíduo” (Duarte, 2014: 201). Assim, independentemente dos motivos que levam à escolha / tomada de decisão de entrada num lar (solidão, doença, dependência), o sénior pode decidir por si próprio, passar a residir num lar, traduzindo-se essa escolha numa preferência pela vida na instituição face à sua situação atual. “É notável e também frequente a presença de idosos que, embora possuam o convívio familiar, preferem viver na instituição pelos mesmos motivos: a falta do cônjuge, a independência dos filhos no papel de cuidadores formais e por maus tratos dos familiares; porém, através de uma decisão mais autônoma e não imposta por outros” (Duarte, 2014: 211). Esta escolha pode ser incutida também pelo poder económico que cada indivíduo possui, influenciando o processo de negociação do indivíduo aquando da sua entrada no lar. Apesar do referido, a tomada de decisão também pode não provir do indivíduo em si, mas sim da soberania de outra pessoa, como um familiar (peso da família). À medida que as capacidades da pessoa vão desaparecendo, a família vai avaliando os riscos que lhe estão inerentes (solidão, doença, alvo de enganos, etc.). Há, portanto, um ajustamento das escolhas à perceção da realidade de vida, o que pode levar a constrangimentos familiares pelo peso que a família pode exercer, principalmente na 33 soberania na decisão e quando existem casos de desacordo da decisão tomada ou pretendida. Seja um caso decidido por familiares, ou por exemplo, sinalizado como risco por técnicos que decidam, mediante avaliação, que o indivíduo já não pode continuar em casa, ou nas condições em que se encontrava, ou que necessita de cuidados especiais, esta decisão não parte então, nestes casos, do indivíduo. Neste sentido, partindo ou não do indivíduo, se refletirmos sobre o domínio do poder económico que cada um possui, é possível notar que essa variável, ao diferir de acordo com cada sénior, traduz diferenças na forma como se processam as escolhas do lar. Como tal, creio que mediante a possibilidade económica de cada futuro utente de um lar, assim varia o leque de possibilidade de escolha6, pois os lares variam em diversas questões, especialmente no preço e nos serviços que oferecem, consoante a sua forma e estrutura, do qual é exemplo a diferença entre um lar privado e um lar público. Após uma pequena exploração das tipologias e diversidades de lares (três privados e três públicos), foi possível notar que existem algumas diferenças entre estes, mais precisamente, à medida que o preço ia subindo, mais distintos eram os tipos de serviços oferecidos7 e mais aberta é a instituição face à sua estrutura, permitindo que os indivíduos em processo de institucionalização efetuem a negociação das suas condições de vida de forma diferente (principalmente ao nível da orientação sexual). A noção que permanece após a visualização de diversos lares, deste modo, é a de que, nos lares que apresentam custos mais elevado ou mesmo de luxo, há uma maior liberdade a vários níveis, como a hora de despertar ou de dormida não ser fixa, única ou obrigatória (desde que a mesma respeite ou não interfira com a rotina dos restantes utentes), bem como as horas das refeições ficarem ao desígnio de cada um, existe acesso livre ao quarto, e no caso de haver um casal, este poder partilhar um quarto sem qualquer constrangimento ou separação por género. Da mesma forma, há uma maior liberdade relativamente à orientação sexual dos indivíduos e à sexualidade dos mesmos. Estas condições, quando analisadas, assemelham-se mais ao quotidiano de um indivíduo 6 Relembrando que esta escolha pode não depender do idoso em questão, mas sim de um membro familiar ou de uma outra entidade. 7 Exemplos da diversidade de serviços que iam surgindo com o aumento dos preços dos diferentes lares: habitação individual, serviços médicos e terapêuticos, serviços de lavandaria, ginásio, restaurante, salão de cabeleireiro e manicura/pédicure, piscina, biblioteca, jardins, atividades lúdicas, aulas de música e pintura, trabalhos manuais, golf, hidroginástica, bingo, culinária, passeios e visitas a museus, entre outros exemplos. 34 que reside na sua própria casa, em que este decide pelo seu livre arbítrio o quê, quando, onde e como fazer8. Esta é uma característica que varia de acordo com as instituições de velhice, nas quais os regulamentos internos também têm um papel fundamental. No caso dos lares que oferecem preços mais acessíveis, alguns mantém algumas características supramencionadas, mas cingem-se principalmente aos serviços básicos e obrigatórios para manutenção da qualidade de vida e da dignidade do indivíduo. Nestes, os utentes encontram-se mais facilmente regidos pelo que o regulamento da instituição dita, havendo um maior nível de controlo. Nestes, os idosos deparam-se com uma hora comum e fixa para despertar e para dormir, bem como para as refeições, sendo que o acesso aos quartos por vezes é inexistente (a não ser por motivos de descanso noturno, ou diurno mas apenas por autorização) ou no mínimo limitado, onde, dependendo do tipo de lar, por vezes não são permitidos casais (instituições essas, por exemplo, que só aceitam homens ou só mulheres), nem membros LGBT assumidos. Em face do exposto, o que é possível extrair em primeira mão é que os idosos podem acabar por sofrer um certo tipo de desigualdade no acesso à escolha do lar (e consequentemente na negociação do seu processo de institucionalização). Os lares mais dispendiosos apresentam um maior nível de liberdade e proximidade à vida anterior à institucionalização, mas são, na mesma medida, mais dispendiosos em termos de custos por idoso – nestes casos, haverá provavelmente uma negociação menor por parte dos idosos, pois a possibilidade de manter as suas características é maior, onde este pode expressar os seus interesses de forma menos constrangida. Por sua vez, os lares mais acessíveis são mais atingíveis, mas mais fechados em termos de estrutura e permissividade de certas variáveis que possam interessar ser mantidas por parte dos idosos, como é o caso do interesse de manutenção da expressão da sua sexualidade ou da sua orientação sexual – nestes casos, haverá provavelmente uma negociação maior ou diferentes estratégias empregues por parte dos idosos, como omissão ou renúncia à sua sexualidade e orientação sexual. Como exemplo do referido, expomos regulamentos internos de três lares observados mais dispendiosos, em que o custo mensal de permanência (tanto temporária como permanente) ronda valores entre os 925,00€ e os 1.715,00€. No caso dos lares mais acessíveis, o custo mensal de permanência descrito nos seus regulamentos ronda 8 No caso dos indivíduos com 65 ou mais anos que têm autonomia para viverem sozinhos e que demostram capacidade para decidirem por si mesmos nas diversas áreas das suas vidas. 35 valores entre os 290€ e os 630€. Tal evidencia a existência de uma diferença considerável entre os custos dos diversos tipos de lares. Tal revela que essa diferença de preços pode, portanto, limitar a escolha do lar de acordo com as possibilidades existentes em termos económicos do indivíduo em causa. De acordo com o inquérito realizado pela DECO9 em Março de 2012, apurou-se que dois em cada três idosos que vivem em lares têm um rendimento inferior à mensalidade da instituição, tendo de recorrer a poupanças ou à família para conseguir pagá-la. Esta é a representação da maioria dos casos de institucionalização, onde estes processos são negociados de forma mais escrutinada e se recorre a diversas estratégias para manutenção dos interesses e características dos indivíduos. Como tal, os lares mais dispendiosos acabam por ficar reservados a um segmento da população mais pequeno. O privilégio de manter a sua vida, rotina e interesses está, então, reservado à população sénior das classes mais altas, o que se traduz num tipo de desigualdade face aos restantes indivíduos das outras classes, que não possuem poder económico para optar por um destes lares. Nestes, a necessidade de negociar as variáveis de interesse de manutenção do padrão de vida do indivíduo é feita de forma diferente do que num lar de cariz mais acessível, pois o indivíduo tem liberdade e privacidade para exercer o seu padrão de vida, tem o seu próprio espaço para manter os seus interesses vigentes, bem como a sua orientação sexual, contando que não interfira ou desrespeite a vida de terceiros. A negociação do processo de institucionalização, ao depender do poder económico, de acordo com as quantias demonstradas, não está ao nível de todas as classes. Estas diferenças acabam por se traduzir em desigualdades, expressas em diferentes níveis. Estas desigualdades, segundo Therborn (Costa, 2012; Therborn, 2006), podem ser essencialmente de três tipos: vitais, sendo estas correspondentes às necessidades básicas, face às necessidade humanas de vida, as quais podem interferir no próprio momento em que se morre (eg. consoante o local onde se nasce, a probabilidade de sobrevivência à nascença pode ser maior ou menor, sendo tal visível, por exemplo, na esperança de vida em países do primeiro ou do quarto mundo); de recursos, sendo estas correspondentes às questões socioeconómicas, as quais interferem na classe social e no 9 O estudo da revista Proteste, que decorreu em Março de 2012 em Portugal, na Bélgica, na Espanha e em Itália, envolveu uma amostra da população entre os 50 e os 65 anos, tendo como destinatários familiares de utentes de lares que acompanharam o processo de institucionalização. 36 posicionamento do indivíduo nesta; e existenciais, sendo estas correspondentes ao tratamento que cada pessoa é alvo, interferindo na forma que cada pessoa é tratada no quotidiano (se é mais ou menos discriminada, humilhada, etc.). Como exemplo desta última, temos o caso da orientação sexual, a idade, a cor da pele, entre outros. Esta é, neste sentido, também uma desigualdade que se pode interseccionar com a desigualdade de recursos: eg. uma mulher LGBT negra vs. uma mulher branca heterossexual; ou um idoso LGBT pobre vs. um idoso heterossexual rico – portanto, as condições de favorecimento oscilam consoante o que caracteriza cada indivíduo, sendo que a orientação sexual não é exceção e que, em conjunto com a questão dos recursos, tende a aumentar essa intensidade. 37 III – CONSTRUÇÃO SOCIAL DA VELHICE: REPRESENTAÇÕES E ESTIGMAS “A sociedade taxa os velhos de ‘menos homens e mulheres’, de ‘seres assexuados’. É um grande malefício que se faz com indivíduos de idade avançada, porque muitos são os que podem até usufruir mais do que quando eram jovens”. (Debert e Brigeiro, 2012: 40) À medida que vamos passando pelo processo de envelhecimento e entrando na velhice, podemos notar que estes são únicos para cada indivíduo. Do mesmo modo, a passagem da vida adulta para a velhice, através do processo de envelhecimento, não é algo repentino, pois esta não é uma passagem linear de uma fase para a outra, é antes algo que vai sendo construído gradualmente em cada caso. Assim, a uniformização da ideia de que existe apenas uma forma de envelhecer, a noção de que a velhice é maioritariamente decaída ou negativa, tem vindo, nos últimos tempos, a ser combatida com a ideia de que esta uniformização de velhices é, na verdade, muito mais plural – não existe só uma velhice, mas uma grande variedade destas. Neste sentido, não podemos dizer que passamos de uma velhice para outra, mas sim que existem maioritariamente dois paradigmas que se confrontam: o da velhice gloriosa (que é vista de uma forma mais positiva) e o da velhice mais decadente (que é vista de uma forma negativa). Não existe, portanto, uma passagem linear da velhice, mas sim uma confrontação de vários mundos. Enfrentamos então, cada vez mais, uma superação dos estigmas. Neste sentido, o processo de envelhecimento e a velhice em si apresentam, na sua constituição, construções sociais, as quais contêm na sua essência representações, estigmas e estereótipos, em que alguns dos quais têm vindo a ser dissipados com o avançar das épocas, das investigações e das descobertas, traduzindo-se na transformação do olhar sobre as mesmas. Passou-se de uma única velhice associada à pobreza, à doença, e à desvalorização do corpo, em que o mito da velhice assexuada e da heteronormatividade lhe são intrínsecos, para a perceção da existência de outras velhices – uma estratificação social da velhice e a possibilidade de uma velhice gloriosa, onde está vigente a possibilidade da manutenção e expressão dos padrões / estilo de 38 vida dos indivíduos, mesmo que institucionalizados (dependendo da instituição), e da expressão das suas sexualidades ou das suas orientações sexuais. Contudo, e antes se avançar, passemos às definições dos conceitos principais que serão mencionados. 1. Conceções Como já foi notado anteriormente, cada vez mais é possível observar o envelhecimento da população, um problema social e demográfico, pois a esperança média de vida das pessoas vai aumentando cada vez mais, prolongando-se também a longevidade do ser humano, principalmente através de mecanismos de retardamento do envelhecimento, tais como a medicina, os tratamentos estéticos, a alteração de hábitos alimentares e quotidianos, práticas saudáveis, como o exercício físico, entre outros. Tal contribuiu para o aumento da faixa etária sénior, levando à construção gradual da categoria de velhice, sendo que esta tem vindo a ser construída socialmente. Neste sentido, torna-se curioso observar a transformação de um problema demográfico – o excesso de população envelhecida e a falta de natalidade e de jovens – num problema social, ou seja, um problema que tem repercussões na sociedade e que tem de ser resolvido. Observamos aqui, então, um paradoxo: as pessoas conseguem cada vez mais alcançar idades mais avançadas, derivado do progresso civilizacional em que investimos diariamente, mas depois não sabemos o que fazer com esta população envelhecida. Do mesmo modo, é possível notar que têm vindo a ser criadas e utilizadas diversas noções alusivas a esta faixa etária, maioritariamente de conotação negativa, como se fossem sinónimos uns dos outros, algo que não é tão linear assim. Os conceitos envelhecimento, velhice, terceira idade e idoso, de facto, referem-se à mesma faixa etária, mas os seus significados não são assim tão equiparados. Como tal, por envelhecimento entende-se um “processo de diminuição orgânica e funcional, não decorrente de doença, e que acontece inevitavelmente com o passar do tempo” (Erminda, 1999: 43), o qual pode ser dividido em três dimensões: biológica (alteração estrutural e funcional), cronológica (idade) e social (papéis e hábitos). Geralmente considera-se o envelhecimento como algo equivalente a um fenómeno natural, o qual manifesta um incremento da fragilidade e vulnerabilidade devido à 39 influência das alterações de saúde e do estilo de vida, a qual se expressa de forma diferente de acordo com os indivíduos. Por sua vez, velhice é associada ao último ciclo da vida, para a qual contribuem fatores externos e internos, como por exemplo as condições de saúde e os hábitos de vida do indivíduo. Estão-lhe associadas, neste sentido, perdas psicomotoras, sociais e culturais, “(…) está associada à pobreza, à dependência e à incapacidade (…)”. (Birman, 1995: 23) Já a noção de terceira idade torna-se sinónimo dos jovens velhos, isto é, dos “aposentados dinâmicos que se inserem em actividades sociais, culturais e desportivas” (Birman, 1995: 23), a fim de se manterem ativos e saudáveis, contribuindo para um envelhecimento ativo. Por seu turno, idoso é a designação utilizada para se fazer referência aos velhos respeitados, sendo que este conceito designa uma categoria social, o que “implica o desaparecimento do sujeito, da sua história pessoal e das suas particularidades”. (Birman, 1995: 23) Assim, de uma forma simples e sumária, pode-se considerar o envelhecimento como um processo, a velhice como uma etapa da vida, e idoso como o resultado e sujeito destes (Netto, 2002). Aquilo que podemos retirar de quando realizamos uma pesquisa sobre os conceitos alusivos à velhice é que, essencialmente, a literatura respetiva desta temática é controversa quanto ao uso dos termos, em que as suas conotações são simbolicamente negativas. De facto, pela velhice ser frequentemente conotada a uma noção negativa, tal levou à criação de diferentes termos, estes tidos como sinónimos, para se suavizar a carga negativa que lhe está associada. Torna-se, então, essencial haver um olhar do fenómeno a partir da mancha grisalha, seja ao nível demográfico, seja ao nível do problema social, associando-o às suas consequências, bem como à noção da existência de uma pluralização de velhices. Deste modo, o envelhecimento ativo adquire grande importância no combate à conotação negativa que é associada ao envelhecimento. Segundo Ana Fernandes et. al, o envelhecimento ativo deve ser uma área a investir para se poder combater problemas sérios – não só de saúde – no futuro: “Uma das grandes preocupações sobre a população mundial para os próximos 50 anos é o processo de envelhecimento da população, a sua repercussão sobre os problemas de saúde, a vigência de uma transição epidemiológica em concomitância com novas doenças, a busca de avanços científicos e tecnológicos para responder à procura emergente e a adopção e consolidação de modelos de saúde centrados na prevenção.” (Fernandes et al, 2007: 40 43) Através da melhoria das condições de envelhecimento, a longevidade pode aumentar e, essencialmente, traduzir-se numa velhice de qualidade, com saúde e com mais autonomia, contribuindo para uma maior pluralização de velhices. Para tal, o investimento num envelhecimento ativo torna-se essencial. Desta forma, as Políticas Públicas adquirem um papel primordial para o efeito, pois é através destas que se consegue alcançar um maior número de entidades (associações, lares de velhice, cuidadores, fornecedores de cuidados de saúde, as próprias pessoas, etc.) que implementem estas medidas de contribuição para o envelhecimento ativo: “(…) As políticas públicas implantadas têm como preocupação maximizar a melhoria da qualidade dos anos vividos da população, numa perspectiva interdisciplinar, integrada, articulada e individualizada, que percorra todo o curso de vida e seja capaz de consolidar estratégias de estilos de vida saudáveis, enfatizando, entre outras, a prática regular da actividade física.” (Fernandes et al, 2007: 43) A importância de haver medidas que premeiem o envelhecimento ativo torna-se, portanto, evidente, agora mais do que nunca. Neste sentido, o envelhecimento também se torna num paradigma, no sentido de que este se destaca de duas formas: por um lado, ou os idosos se tornam num peso para o Estado Providência, através de tudo o que é necessário para a continuidade e melhoria das suas vidas, como é o caso da necessidade de medicação, de cuidados médicos, de lares de velhice, entre outros; ou, por outro lado, os idosos tendem a envelhecer “por si próprios”, de maneira a não pesarem no Estado Providência. É aqui que o envelhecimento ativo se destaca, pois este também contribui para uma maior autonomia do indivíduo, levando a melhores condições de saúde que, por sua vez, levam a uma menor necessidade de se recorrer ao Estado Providência. Atualmente, a possibilidade do ser humano vivenciar uma vida longa tem aumentado de tal forma que a importância do fator idade para definir a categorização do indivíduo na velhice está a perder sentido, passando a ter peso apenas como uma variável. “O mais importante na definição de idoso não tem a ver com a idade cronológica, mas sim com o estado de saúde”. (Pereira, 2015: 17) Por outro lado, dado que se vive mais tempo, a qualidade de vida também foi ganhando importância, pelo que a questão da saúde que se possuí tem vindo a ganhar outros contornos e preocupações por parte dos indivíduos no decorrer dos seus processos de envelhecimento – alusão ao envelhecimento ativo e da sua importância para um 41 envelhecimento saudável, que categoriza diferentes tipos de velhice, autonomia, independência e manifestação dos interesses do indivíduo, mesmo que esteja institucionalizado. Como tal, “Ser velho não significa ser doente. Ser velho consiste numa condição que varia perante a época, cultura, o estilo de vida bem como um conjunto de factores científicos e tecnológicos” (Pereira, 2015: 17). 2. Estratificação social da velhice Neste sentido, e de acordo com a tipologia de Rosário Mauritti, dentro do processo de envelhecimento dos indivíduos pode-se observar a existência de diversos perfis sociais, sendo que existem, neste contexto, dois discursos dominantes sobre a etapa da velhice, nomeadamente, os discursos da velhice negativa, “onde se sublinham, fundamentalmente, as situações de pobreza, isolamento social, solidão, doença e dependência” (Mauritti, 2004: 340) e os discursos da velhice que são associados a designações positivas, os quais “a projectam num tempo de lazer, de liberdade e de auto-aperfeiçoamento”. (Mauritti, 2004: 340) Do mesmo modo, num processo de envelhecimento, é possível realizar-se uma associação “a uma «quarta idade»” (Mauritti, 2004: 340), a qual é caracterizada essencialmente pelo surgimento de vários tipos de incapacidades mais debilitantes e consequente aumento de dependência. Relativamente à “«terceira idade»” (Mauritti, 2004: 340), esta é uma representação que é associada à categoria de reformado. É desta forma que os seniores estão, assim, devido ao fator idade, a passar a pertencer a um escalão etário especificado. Todavia, existe um problema, pois não existe um “consenso quanto ao limiar a partir do qual um indivíduo se pode classificar no conjunto das pessoas mais idosas”. (Mauritti, 2004: 342) Dentro desta faixa etária, há que notar que existe uma grande “heterogeneidade de configurações vivenciais e culturais de que estes indivíduos e respectivos quadros familiares são portadores”. (Mauritti, 2004: 351) Através destes, podem-se traçar os seguintes perfis: 48 fazem pensar que a chamada andropausa no homem e a menopausa na mulher são responsáveis pelas dificuldades sexuais”. (Debert e Brigeiro, 2012: 42) A questão da sexualidade, neste sentido, deixa de ser inexistente e passa a ser encarada como algo que pode ser passível de resolução mediante a vontade do indivíduo e a sua situação. Por exemplo, se o motivo impeditivo à realização de relações sexuais for a disfunção eréctil, esta é passível de resolução, já que o sujeito poderá recorrer a medicamentos ou produtos para resolver esse problema, do qual é exemplo o tão conhecido Viagra. De facto, a “compreensão da sexualidade como uma técnica ao alcance de todos, a ser aprendida, renovada e preservada, favoreceu as intervenções terapêuticas e dá ênfase crescente à dimensão mecânica da actividade sexual”. (Simões, 2011) Do mesmo modo, principalmente ao nível das instituições, vigora uma ideia de heteronormatividade, ou seja, subentende-se que todos os indivíduos são heterossexuais até prova do contrário, algo que pode não querer ser manifestado pelos mesmos. Com a modernidade e a desconstrução de certas noções mais tradicionais, estas novas formas de se fazer e ver o mundo, têm vindo a favorecer uma certa abertura à ideia de que a velhice assexuada é, de facto, um mito para diversos indivíduos seniores, LGBT ou não. Como tal, se a sexualidade ou a orientação sexual, por exemplo, for um dos fatores a ter em conta no processo de institucionalização de um indivíduo (pois pode ter uma expressão forte na sua vida anterior à sua entrada na instituição e querer continuar a mantê-la), então esta já pode ser negociada de forma diferente comparativamente há uns anos atrás. 5. (Des)valorização do corpo Do mesmo modo, o que se pôde observar dentro desta exploração documental é que o próprio corpo e as transformações corporais que um indivíduo experiencia mantêm um papel importante durante o processo de envelhecimento, pois passam a existir diferentes perceções e valorizações do corpo, não só do idoso em relação a si próprio, como também dos outros em relação a si, as quais podem afetar a sua vida tanto ao nível pessoal como em termos de identidade, levando-o a questionar o que é na atualidade e o que foi em tempos: “a importância que o corpo tem (…) reforça essa desvalorização dos velhos”. (Lima e Silva et al., 2009: 297) Portanto, a transformação 49 que é vivida ao nível corporal pelos indivíduos e que leva, consequentemente, à desvalorização do corpo pela sociedade que os rodeia, acaba por ajudar a reforçar o mito da velhice assexuada. Não obstante, continuam a persistir questões culturais, por exemplo, associadas à viuvez, à honra social, à vergonha, entre outros, que leva a que seja difícil combatê-las. Apesar do referido, atualmente essas transformações corporais já podem ser combatidas, ou pelo menos atenuadas. Com a idade, principalmente por parte do lado feminino, ainda que já seja igualmente visível uma preocupação do lado masculino, começa a existir um investimento de conservação e melhoria para com o próprio corpo (dietas, tratamentos, cremes, cirurgias) a fim de o preservar o mais perto possível da jovialidade que almejam. Passa a haver, neste sentido, um grande “consumo de produtos e serviços destinados a retardar a acção do tempo”. (Lima e Silva et al., 2009: 297) Todavia, nem todas as pessoas têm acesso a este tipo de consumo, ainda que mesmo no caso daqueles que têm, não seja possível retardar para sempre o seu processo de envelhecimento. “Envelhecer passa a ser o ficar cada vez mais distante do ideal da perfeição do corpo, já que a beleza e a juventude são associadas à saúde”. (Lima e Silva et al., 2009: 297) Como tal, ainda que o indivíduo revele visivelmente uma aparente condição saudável ou jovialidade, o alcançar da idade, de uma determinada faixa etária, transporta a conceção do indivíduo para a velhice e para a desvalorização – “o corpo de mais idade é quase invariavelmente associado à doença, invalidez, decrepitude, proximidade da morte”. (Lima e Silva et al., 2009: 297) Assim sendo, as transformações corporais de um indivíduo durante o seu processo de envelhecimento podem levar a que, quando não são bem aceites, quando não são satisfatórias para o sujeito, ou mesmo quando afetam alguma função motora ou mental, tal possa interferir com a sua identidade e levar a um processo de negação – “o velho é sempre o outro”. (Birman, 1995: 23) Para Lima e Silva et al., as “alterações corporais internas e externas têm repercussões no comportamento das pessoas idosas”. (Lima e Silva et al., 2009: 300) Como tal, um processo de envelhecimento saudável e ativo promove uma velhice mais sadia e autónoma, promovendo o afastamento da noção de velhice assexuada. Contudo, apesar do investimento nesse estilo de vida por parte do indivíduo, este está sujeito a fatores externos, como por exemplo a doença, que pode alterar de algum modo as suas funções/capacidades motoras e mentais, afetando 50 consequentemente o alcance ou a possibilidade de realização de diversos tipos de bemestar pretendidos, incluindo a sexualidade. Neste sentido, para tal ser possível, é necessário que o indivíduo mantenha um mínimo de controlo corporal e cognitivo: “o que importa é a capacidade de conservar o controlo sobre movimentos e funções corporais, sobre as emoções e as faculdades cognitivas – atributos básicos que permitem que uma pessoa seja reconhecida, valorizada, levada em conta em qualquer relação social. A velhice torna-se, então, a falência desses controlos e competências”. (Simões, 2011) Assegurando a manutenção desses controlos e competências, o indivíduo assegura também um outro tipo de perceção dele mesmo, das suas capacidades e da sua própria maturidade. Este parâmetro, por sua vez, num processo de institucionalização, poderá influenciar a escolha do lar, dependendo dos serviços médicos de que necessitar. Segundo Guimarães (1997), no decurso do envelhecimento de uma pessoa, esta sente necessidade de produzir diversas versões do seu self para que consiga garantir representações multifacetadas de si próprio e, adicionalmente, uma maior probabilidade de sucesso no decurso da vida. Como tal, “(…) os atributos que usualmente marcavam a juventude, como o esforço de exploração e a construção da identidade, são transpostos à vida adulta e à maturidade, vistas agora como abertas à variação e à reinvenção pessoal (…)”. (Simões, 2011) É uma fase da vida do indivíduo em que passa a haver um maior investimento por parte do sujeito na construção da sua identidade e daquilo que promove a sua satisfação pessoal, sendo a sexualidade, por exemplo, um desses componentes contribuidores da procura do aprazimento – há um “lugar central da sexualidade” (Lima e Silva et al,. 2009: 300). Apesar das diversas transformações que possam ocorrer ao nível da identidade, a velhice é uma etapa em que, precisamente por o sénior gozar de mais tempo livre (proporcionado pela reforma) e de outras responsabilidades, é ideal para investir em si mesmo e moldar-se consoante os seus objetivos e vontades: “A velhice também pode ser um período de recuperar perdas, de alcançar novas conquistas e de se buscar o prazer e a satisfação pessoais”. (Lima e Silva et al., 2009: 298) O mito da velhice assexuada pode, assim, começar a ser dissipado pela própria etapa da velhice e pelas ações do indivíduo que consta nela, independentemente de se encontrar institucionalizado ou não. A identidade, assim, consiste essencialmente no reconhecimento de que um certo indivíduo é ele próprio, em que para tal contribuem um conjunto de caracteres 51 particulares que identificam uma pessoa, os quais vão sendo modificados e aprimorados ao longo da sua vida. A identidade é, portanto, formada pelos próprios indivíduos enquanto eles interagem com outros (incluindo a interação e o interesse sexual, ou mesmo a sua orientação sexual), sendo que, no entanto, a identidade não está unicamente dependente da interação sem mais e dos significados atribuídos que o próprio perceciona – esta é, também, formada pelas perceções do que os outros recebem acerca de nós. Todavia, o envelhecimento é um processo que não é igual para todos os indivíduos, dado que os “homens e mulheres enfrentam de maneiras distintas a experiência do envelhecimento” (Freitas et al., 2010: 411), onde cada caso é um caso que se manifesta, desenrola e constrói dentro dos seus próprios moldes – todavia, o envelhecimento não tem de significar como que uma morte social do indivíduo. Do mesmo modo, não é só o processo de envelhecimento em si que ocorre de forma diferente entre os homens e as mulheres, mas também todos os outros parâmetros e áreas da vida do ser humano, tais como a intimidade, a orientação sexual e a sexualidade: “There is growing evidence that human sexuality takes somewhat different forms in women and men. (…) Women's sexuality tends to be relationship-focused, with love and intimacy typically playing a more prominent role in sexuality for women than for men. (…) Men are more likely to sexualize and women to romanticize their sexual orientation”. (Garnets e Peplau, 2006: 70) Estas diferenças na forma de encarar a sexualidade de acordo com o género levam à noção de que a sexualidade adquire, portanto, um nível de importância diferente para o homem e para a mulher sénior de acordo com a sua vivência, experiências e interiorização de habitus de género, de formas distintas. Igualmente, o próprio local de residência também pode interferir com o desejo ou a possibilidade de haver relações sexuais. Deste modo, as políticas e medidas sociais que contribuem para um envelhecimento com qualidade ganham cada vez mais importância. O envelhecimento, portanto, deve ser considerado como “o resultado da melhoria generalizada das condições de vida, (…) induzida pelo sucesso de políticas sociais públicas (…). O risco existe, isso sim, (…) porque o último troço de vida (…) pode ser vivido sem a qualidade a que qualquer cidadão tem direito”. (Capucha, 2005: 338) Todavia, a qualidade de vida tende a ser, com alguma frequência, associada apenas à saúde ou à ausência dela e 52 às suas implicações, esquecendo outras componentes igualmente importantes para que o indivíduo usufrua de qualidade de vida. Tal como a alimentação, a higiene, o vestuário ou algum tipo de atividade podem contribuir para o bem-estar do ser humano, também a sexualidade deve ser tida em conta, pois também esta contribui para o bem-estar do indivíduo, variando a sua importância de situação em situação. Neste sentido, ao assumir-se automaticamente que um indivíduo se torna num ser assexual ao entrar numa determinada idade, nega-se-lhe o reconhecimento de que este ainda tem o direito e a possibilidade de manifestar alguma vontade sexual se assim o desejar. A sexualidade ou a atividade sexual é, deste modo, uma forma de envelhecimento ativo e é um direito humano, pelo que, como tal, impedir a sua expressão é vedar um direito humano. É neste sentido que o mito da velhice assexuada tem vindo a ser combatido por diversos académicos e atores sociais, evidenciando a existência de uma “associação entre a manutenção da atividade sexual na velhice e a qualidade de vida” (Lima e Silva et al., 2009: 295), reforçando, assim, a sua importância nesta etapa da vida de um indivíduo, talvez até a sua transformação, mas não o seu desaparecimento, algo que se torna ainda mais mitificado ou complexo nos indivíduos LGBT. A sexualidade na velhice transformou-se num mito devido ao papel que a sociedade exerce nas representações que vigoram daquilo que nos rodeia, levando a que, neste sentido, acabe por se tratar quase de um assunto tabu por parte das representações que vigoram da própria sociedade. De acordo com Lima e Silva et al., a sociedade tem um papel fundamental na forma como esta pode ser encarada, pois é por parte da própria sociedade que emerge um tabu para com a questão da sexualidade existente na velhice: “a sociedade, por discriminar os velhos de forma geral, condena a sua sexualidade” (Lima e Silva et al., 2009: 300), levando à ideia de que esses atos caibam antes aos mais novos: “esse controle sobre seus atos seria exercido pelos jovens”. (Lima e Silva et al. 2009, 300) Este mito tem-se prolongado porque tem a sua origem num esquema interpretativo básico que marcou a história da reflexão sobre o envelhecimento, a qual postulava que “um estilo de vida prudente deveria procurar retardar esse declínio [sexual], mas aceitá-lo era parte do exercício moral de ajustamento aos efeitos do processo de envelhecimento”. (Debert e Brigeiro, 2012: 38) Apesar dos tempos terem mudado, este mito ainda é alimentado, pois “no que diz respeito às discriminações identificadas contra os mais velhos, considera-se que é 53 próprio das sociedades como a nossa reprimir a sua sexualidade”. (Debert e Brigeiro, 2012: 39) Tal é visível essencialmente, mas não só, através de diversos tipos de censura, dos quais são exemplo a censura familiar, particularmente por parte dos filhos do indivíduos em causa, os quais tendem a ter uma maior dificuldade de aceitação, ou através da censura nas instituições que não sabem lidar com esta temática e portanto preferem erradicá-la ou ignorá-la, ou mesmo através da censura na própria comunidade. Todavia, este mito tornou-se mais mitigado, mais diluído, as áreas de investigação alargaram-se, as mentalidades tornaram-se mais abertas, e as descobertas e conclusões sofreram inovações e, atualmente, já se refuta este mito, incluindo-o como uma dimensão existente (e não excluída) da velhice. O esforço dos estudos para combater este mito reside no facto destes investigadores crerem que este mito assenta na existência de uma conceção social do fim da vida sexual na velhice, tida como generalizada e errónea: “evidenciada através de uma série de preconceitos (…) a associação excludente entre idade e sexualidade é uma representação equivocada” (Debert e Brigeiro, 2012: 39-40). A sexualidade pode ser, assim, também ela encarada como uma construção social: “as experiências sexuais têm significados diversos, dependendo do contexto em que se inserem”. (Lima e Silva et al., 2009: 301) Neste sentido, torna-se importante analisar os sentidos que são atribuídos pelos indivíduos às suas práticas sexuais, pois atualmente está-se a deixar para trás a tendência de se pensar a velhice como uma situação de decadência física, de perda de papéis sociais e de repressão sexual por parte da sociedade, e mais como uma etapa de investimento em si próprio, liberdade, conquistas e reinvenção pessoal – “Se por um lado, (…) a sexualidade tem pouco ou nada a ver com a idade, por outro a velhice exige uma nova forma de experimentá-la” (Debert e Brigeiro, 2012: 40), onde o papel da instituição se vai manifestar. Neste sentido, interessava existir um posicionamento político que propendesse a favor do desconstrangimento dos indivíduos, para estes se sentirem livres para expressar a sua sexualidade, incluindo LGBT, não sendo constrangidos por algum tipo de censura social para “manter ou não a actividade sexual após os 60 anos, com qualquer significado que esta possa ter para eles, independentemente dos padrões culturais construídos”. (Lima e Silva et al., 2009: 302) A orientação sexual e a sexualidade devem apresentar-se como uma opção pessoal, livre de constrangimentos, como uma “atividade benéfica para o envelhecimento bem-sucedido”. (Debert e Brigeiro, 2012: 37) 54 Actualmente o prazer / interesse sexual é tido como “um direito humano, (…) universal, e parte indissociável do bem-estar físico e subjetivo”. (Debert e Brigeiro, 2012: 41) Após a exploração da construção social da velhice vigente, torna-se importante legitimar a inclusão da vida sexual na velhice, especialmente ao nível institucional, como algo normal e integrante da mesma, incluindo indivíduos LGBT. Estes indivíduos sofrem, assim, um triplo estigma (pelo menos) ao nível da sexualidade, da velhice, e da orientação sexual – interseccionam-se. É, então, necessário acabar com a separação destas duas dimensões, com a exclusão da sua participação no quotidiano dos indivíduos que vivenciam a velhice e que desejam manter essa expressão da sexualidade nas suas vidas, mesmo que institucionalizados, pois a sexualidade, expressando-se se diferentes formas e intensidades para os indivíduos, continua a existir, podendo mesmo influenciar a forma como a negociação e seleção de um lar é realizada. “A sexualidade não se esgota com o passar dos anos (…). Apesar (…) do declínio da frequência de atividade sexual com o avanço da idade, (…) esse decréscimo é substituído por uma intensidade ampliada do prazer sexual”. (Debert e Brigeiro, 2012: 38). 55 IV - POLÍTICAS PÚBLICAS 1. Definição As Políticas Públicas têm cada vez mais importância no nosso dia-a-dia, nos seus diferentes níveis de atuação e nos seus diferentes efeitos. Mas, na verdade, o que são políticas públicas? Que papéis exercem? Que impactos podem e devem ter? De acordo com Howlett e Ramesh (1995), em termos de políticas públicas e relativamente à implementação do “policy cicle”, as políticas sofrem como que uma espécie de ciclo para alcançarem o seu desenvolvimento e implementação. Primeiro começa-se por se compreender e definir o problema por parte dos decisores políticos, sendo que, após essa etapa, faz-se um diagnóstico do mesmo. Depois, desenvolvem-se soluções para o problema definido e, em seguida, executam-se as decisões consideradas adequadas à resolução do problema. Posteriormente, implementa-se a política que resultou desse processo e, por fim, avalia-se o seu impacto e sucesso de correspondência ao problema identificado inicialmente. Segundo Souza (2006: 24), apesar de existirem diversas definições conhecidas ao longo da literatura, por parte de autores como H. Laswell, H. Simon, C. Lindblom e D. Easton, a definição que continua a ser tida mais em conta é a de Laswell: “(…) ou seja, decisões e análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões: quem ganha o quê, por quê e que diferença faz”. De uma forma talvez simplista (no sentido em que definir-se Políticas Públicas é uma ação complexa), e citando o que descreve Souza, pode-se definir Políticas Públicas como “políticas públicas, [que] após desenhadas e formuladas, desdobram-se em planos, programas, projetos, bases de dados ou sistema de informação e pesquisas. Quando postas em ação, são implementadas, ficando daí submetidas a sistemas de acompanhamento e avaliação”. (Souza, 2006: 26) Portanto, o que é possível traduzir com esta sequência é que uma política pública traduz o acordo e o interesse acerca de um determinado número de questões em torno de um problema e a implementação de uma possível solução, o que, uma vez mais, pode ser observado ao nível dos lares de terceira idade e das associações LGBT. Todavia, e como foi supramencionado, definir este conceito não é algo que possa ser feito de forma linear, dado que existem diversas perspetivas sobre a questão 56 das Políticas Públicas, onde vigora a ideia principal de que estas se passam essencialmente ao nível dos governos: as “definições de políticas públicas, mesmo as minimalistas, guiam o nosso olhar para o locus onde os embates em torno de interesses, preferências e ideias se desenvolvem, isto é, os governos. (…) as definições de políticas públicas assumem, em geral, uma visão holística do tema, uma perspetiva de que o todo é mais importante do que a soma das partes e que indivíduos, instituições, interações, ideologia e interesses contam, mesmo que existam diferenças sobre a importância relativa destes fatores” (Souza, 2006: 25). Neste sentido, podemos encontrar diversos autores que defendem o outro lado da equação, isto é, que as Políticas Públicas não ocorrem somente ao nível governamental. Segundo Balsa12 (2014), as políticas públicas são desenvolvidas não só pelo Estado, como também por outros atores, para corresponderem à resolução da causa de algum problema considerado público ou social, a fim de o solucionarem. De notar que a implementação de políticas não é um processo único ou mesmo simples, dado que as políticas podem sugerir diversos sentidos e constar em diferentes contextos que a podem minar, pelo que segundo Balsa demonstra, é importante “considerar os diferentes sentidos que a política recebe, ao ser apropriada por lógicas de ação distintas, à medida que ela se enraíza nos sucessivos níveis de implementação que a concretizam”. (Balsa, 2012: 1) 2. Modelos de políticas Neste sentido, e de acordo com Souza (2006), existem diversos tipos de políticas que nos rodeiam constantemente de alguma forma no nosso quotidiano. O presente trabalho, dentro dos diversos modelos, enquadra-se no tipo da política pública (2006: 28). Este modelo é destacado por Theodor Lowi, no qual, se desenvolveu a máxima de que é a política pública que faz a política. O que esta máxima traduz é que “cada tipo de política pública vai encontrar diferentes formas de apoio e de rejeição e que as disputas em torno de sua decisão passam por arenas diferenciadas” (2006: 28). Neste sentido, a política pública pode assumir quatro formatos: 1) Políticas distributivas: 12 De acordo com o V SEMEAP – Seminário de Modelos e Experiências de Avaliação de Políticas Públicas, Programas e Projetos Sociais / III Seminário Internacional sobre Avaliação. Avaliação de Políticas Públicas no Capitalismo Globalizado: para quê e para quem. 2014. 57 consistem em decisões tomadas pelo governo; 2) Políticas regulatórias: consistem essencialmente em burocracia, em políticos e em grupos de interesse; 3) Políticas redistributivas: consistem em políticas sociais universais, no sistema tributário e no sistema previdenciário; e 4) Políticas constitutivas: lidam essencialmente com procedimentos. As políticas constitutivas, possivelmente, revelam-se as mais adequadas à questão que se tem vindo a explorar até este ponto, no sentido em que os processos de institucionalização decorrem de um procedimento que é cumprido para se formalizar a entrada do idoso na instituição, independentemente do seu cariz (seja pública ou privada), após a cessação de negociação dos interesses que se visa manter e da realização da estratégia escolhida para manter o seu padrão de vida após a sua formalização do processo de institucionalização. Do mesmo modo podemos referir as associações LGBT, as quais também agem através de procedimentos para chegar às pessoas que delas necessitem. Pese embora o referido, todas os quatro tipos de políticas referidas acima, de uma forma ou de outra, afetam as vidas dos cidadãos de diversos modos e graus. Os seus elementos principais, assim, os quais passam pelo seguinte: “a política pública permite distinguir entre o que o governo pretende fazer e o que, de facto, faz; (…) envolve vários atores e níveis de decisão, embora seja materializada através dos governos, e não necessariamente se restringe a participantes formais, já que os informais são também importantes; (…) é abrangente e não se limita a leis e regras; (…) é uma ação intencional, com objetivos a serem alcançados; embora tenha impactos no curto prazo, é uma política de longo prazo; (…) e envolve processos subsequentes após sua decisão e proposição, ou seja, implica também implementação, execução e avaliação”. (2006: 36-37). 3. Políticas públicas e dispositivos de intervenção Actualmente as políticas públicas encontram-se cada vez mais presentes em todas dimensões da vida do ser humano, no sentido em que, como já foi referido, estas não ocorrem apenas através dos grandes organismos, como o Estado, por exemplo, mas também ao nível do indivíduo, nas suas ações, interações e decisões quotidianas, essencialmente através da forma como este se apropria das políticas que o rodeiam e as 64 diversidade possível: de perfis, de origens e trajetos de vida, de experiências e sentidos. Tencionamos, neste sentido, o aprofundamento do conhecimento da realidade e não a generalização de resultados. Como refere Pais: “Em ambivalências qualitativas, os critérios de seleção são critérios de compreensão, de pertinência e não de representatividade estatística. (…) A relevância deste tipo de amostra não reside na pretensão de representação de uma população com o objectivo de generalização de resultados; em contrapartida procura-se aprofundar o nível de conhecimento de realidades cuja singularidade é, por si, significativa”. (Pais, 2001:110) Portanto, o objetivo passa pela vontade de explorar diversos casos de envelhecimento LGBT, apurando as suas singularidades, as suas histórias, as suas noções e perceções, não de modo a que estes representem toda a população LGBT, mas os diversos “casos-tipo” que permitem representar outros tantos casos com que os indivíduos se identificam. De novo, como Pais sugere: “(…) um caso não pode representar o mundo, embora possa representar um mundo no qual muitos casos semelhantes acabam por se refletir”. (Pais, 2001:109) Esta amostra visava chegar a tantos perfis quanto fosse possível captar, para se tentar atingir uma “saturação informativa” (Pais, 2001:110). Dado este assunto ser ainda tabu nesta faixa etária, e haver alguma relutância de se expor em primeira mão, após uma séria ponderação metodológica, decidimos que a melhor forma de chegarmos às pessoas que apresentavam as características necessárias seria através do método de bola-de-neve. Através deste método, conseguimos chegar ao primeiro entrevistado que, por sua vez, nos fez chegar a outras pessoas através dos seus contactos e conhecimentos. Do mesmo modo, estas fizeram-nos alcançar mais indivíduos. Tal permitiu-nos chegar a nove pessoas. Posteriormente, seguiram-se as entrevistas. 2.2 Captar relatos de vidas LGBT na velhice: as entrevistas Dado que o objetivo passava por se aprofundar o conhecimento das realidades destas nove pessoas, recorremos à aplicação de entrevistas semiestruturadas, a fim de conseguirmos captar o olhar destes atores, relativamente aos seus processos de envelhecimento, mediante as suas orientações LGBT. Decidimos aqui premiar o papel da entrevista, em função dos objetivos do estudo formulados, pelo impacto que esta pode ter, quando bem executada, permitindo- 65 nos adentrar pela intimidade e perceção do mundo pelos olhos do entrevistado. Esta subjetividade que daí provém permite-nos compreender as noções destes, as suas realidades, de um modo mais íntimo e profundo. Tal, feito com cautela, permite-nos desviar do mero senso comum. Como sugere Pais: “A objectividade não tem, necessariamente, de ficar amarrada à obsessão do mensurável e do quantificável. Com efeito, é tão perigosa a ilusão subjectivista quanto a ilusão objectivista”. (Pais, 2001:109) Esta fase inicial, e em conjunto com a realização das entrevistas aos indivíduos em questão, passou também pela exploração de seis regulamentos internos de lares públicos e privados, a fim de conseguirmos obter uma visão mais precisa da realidade que vigora ao nível das instituições relativamente à manifestação de uma orientação sexual diferente, à questão da vivência da sexualidade, e ao direito da intimidade e da privacidade. Através da realização simultânea das entrevistas, tornou-se mais fácil de se perceber e interpretar esses mesmos regulamentos nas instituições em que algumas entrevistas ocorreram. Destas leituras, o que foi possível observar e traduzir a este nível foi que esta é uma realidade que se alterna consoante a estrutura da instituição. A exploração destes seis regulamentos internos de lares públicos e privados durou menos tempo (leia-se, dois meses) do que o período de entrevistas, o qual decorreu, mais ou menos, durante 4 meses, e ocorreu tanto no domicílio, como nas instituições dos respetivos. Estas realizaram-se entre o distrito de Setúbal e o distrito de Lisboa. As entrevistas apresentaram sempre um formato semiestruturado (ver anexo II), conduzindo-se as mesmas com temas e questões abertas, para servir de fio condutor, balizando a conversa, evitando-se a perda de informação ou o desvio do ambicionado. Deste modo, é facultado espaço ao entrevistado para se expressar livremente nos seus termos, que disponha de uma certa liberdade para poder desenvolver as respostas ao que lhe era perguntado. O guião utilizado foi composto por cinco grandes temas, que fossem comuns a todos os entrevistados, sendo que o guião foi adaptado para o caso dos indivíduos institucionalizados e para o caso dos indivíduos não institucionalizados. Os dois primeiros grandes temas eram iguais nos dois casos, sendo que a partir desse ponto apenas divergem na sua estrutura. Neste sentido, o primeiro grande tema era referente aos seus percursos, trajetórias e retratos de vida, sendo que aqui interessava abranger os planos pessoal, familiar, escolar, profissional e saúde das vidas dos indivíduos. O 66 segundo grande tema diz respeito às perceções que os entrevistados tinham sobre as instituições, sendo que para este tema contavam as suas imagens, perceções, representações sobre as mesmas, e as fontes para a construção dessas «imagens». A partir daqui, os restantes três grandes temas foram adaptados aos casos dos indivíduos institucionalizados e aos casos dos indivíduos não institucionalizados. Nomeadamente, no primeiro caso, dos indivíduos institucionalizados, o terceiro grande tema refere-se ao processo de escolha da institucionalização, em que interessava aferir o tipo de decisão ocorrida, os fatores que influenciaram, e o peso da orientação sexual. Por sua vez, no caso dos indivíduos não institucionalizados, o terceiro grande tema diz respeito à possibilidade de uma futura institucionalização, em que contam as suas perceções acerca do quotidiano institucional, a forma como vivenciariam o dia-a-dia, a importância dos profissionais da instituição e a importância da privacidade e intimidade. No quarto grande tema, no caso dos indivíduos institucionalizados, diz respeito aos seus quotidianos institucionais, em que para tal interessava abordar pontos como os seus desafios, medos ou dificuldades, a forma como vivenciavam o dia-a-dia e a importância dos restantes utentes e profissionais. Por sua vez, no caso dos indivíduos não institucionalizados, este quarto grande tema refere-se ao possível processo de escolha dos indivíduos no que diz respeito à institucionalização, em que para tal contaram os pontos da tomada de decisão, os fatores que influenciaram essa decisão, e o peso da orientação sexual dos indivíduos. Por fim, no quinto grande tema, tanto para um caso como para outro, este referese à sexualidade, sendo que aqui divergem nos pontos abordados em cada caso. No caso dos indivíduos institucionalizados, foram abordados pontos como a importância da sexualidade, a importância do respeito pela privacidade e intimidade, o papel da instituição, as noções dos comportamentos sexuais de risco, e os tipos de relações experienciadas15. No caso dos indivíduos não institucionalizados, foram abordados pontos como a importância da sexualidade, as noções dos comportamentos sexuais de risco, e os tipos de relações experienciadas. Apesar do referido, é também possível consultar os dois tipos de guiões nos anexos, nos anexos, nomeadamente, o anexo II. A escolha destes temas e deste formato de entrevista (semiestruturada) deve-se à noção que a entrevistadora tem de que cada indivíduo representa um caso diferente e 15 Aqui referimo-nos a tipos de relações no sentido do número de parceiros que estas tinham, nomeadamente, monogamia, bigamia, poliamorosas, etc.. 67 que, como tal, apresentam singularidades que interessam captar. Deste modo, se se recorresse a um guião fechado e se se o aplicasse de forma linear, como se os seniores selecionados fossem todos iguais, estaríamos a homogeneizar todas as situações, deixando de fora essas singularidades que interessam captar. Como tal, um formato semiestruturado permitirá que se possa explorar, de uma forma flexível e aprofundada, os aspetos que se considerem mais relevantes, apesar do guião elaborado pelo entrevistador. A escolha deste tipo de entrevistas é motivada pela razão de que, assim, será possível observar-se os indivíduos e as “(…) leituras que fazem das próprias experiências, (…) os ponto de vista presentes, (…) [e a] reconstituição de (…) experiências ou de acontecimentos passados”. (Quivy e Campenhoudt, 2005:96) Estes métodos permitem, como Godoy (1995:62) demonstra, usufruir do ambiente natural onde os entrevistados residem como uma fonte direta de dados, obter bastante informação devido ao seu carácter descritivo, bem como obter o verdadeiro significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida, captar essa subjetividade. Esta escolha prende-se também pela noção de que pode “produzir resultados científicos de acentuado interesse, muitos dos quais com o potencial de acrescentar inovação”. (Gomes, 2015:91) O objetivo é enfatizar “os episódios significativos, a sequencialidade dos acontecimentos em contexto, a totalidade do indivíduo” (Gomes, 2015:92). Por sua vez, tal é possível porque existe um quadro de significações comum que é partilhado entre os indivíduos: “Entrevistados e entrevistadores exibem determinadas pertenças sociais e posicionam-se em contextos de influência específicos, sendo que estes elementos são fundamentais para a compreensão daquilo que ocorre na relação de entrevista. O resultado da entrevista nasce, pois, desse encontro específico e das interacções nele criadas”. (Gomes, 2015:97) Através das entrevistas, o discurso ganha poder, no sentido em que apresenta “sentidos derivados dos propósitos das situações sociais” (Duarte, 2014:208), os quais partem dos indivíduos. Ou seja, apesar de haver uma visão pessoal e uma significação própria acerca de uma determinada questão, o que interessa é captar as significações dos seniores LGBT entrevistados (e não as nossas significações pessoais), pois estas variam conforme as interpretações e sentidos que as pessoas atribuem ao que os rodeia. Como tal, dado que o discurso “possibilita, através do estudo da linguagem, os entendimentos que permeiam a vida do idoso em questão – plena de experiências e valores” (Duarte, 2014:208), esta fornece elementos que permitem o reconhecimento e a observação de 68 dados muito importantes para se captar o conhecimento da realidade na qual o idoso está inserido. As entrevistas, após a sua transcrição e análise, traduzem-se em perfis captados que permitem observar a sua diversificação e semelhança (algo visível adiante), sendo que interessa que estes casos se apresentem como casos analisadores, como casos significativos que sejam expressivos do peso da orientação sexual no processo de envelhecimento dos indivíduos. Este método, como Ana Brandão explica, “(…) faz, pois, parte de uma tradição que procura dar conta das influências socioculturais naquilo que o indivíduo é e faz, inserindo-se na linha das metodologias qualitativas de investigação social, sobretudo quando é usada como técnica principal de recolha de dados”. (Brandão, 2007:1) Ao recorrermos a esta técnica, portanto, premiamos a visão do entrevistado face aos acontecimentos que o marcaram mais, as suas perceções, as suas noções sobre o que o rodeia, nomeadamente, o peso da orientação sexual no seu processo de envelhecimento e tudo o que lhe está inerente. Um aspeto importante para a compreensão da vida das pessoas, neste caso dos seniores LGBT, passa não só por nos focarmos no peso da orientação sexual nãoheterossexual, ou pela sua identidade de género, mas também por fazermos um levantamento da sua história. O peso do passado, do que já viveram até ao momento da entrevista, das experiências que os marcaram de algum modo, é a mais-valia que nos servirá para apurarmos esses dados e transformá-los em conhecimento científico. Como Almack sugere, “An important aspect of understanding the lives of older LGBT people is not just about their differing sexual orientation or gender identity but also their differing history. Their past becomes important when exploring hopes, fears, and concerns around later life and end of life care when they may be in a position of receiving care from people who they fear might not respect or even recognize their differing sexual orientation or gender identity”. (Almack et al., 2015:3) Torna-se, portanto, em material de primeira mão, que nos permite enriquecer o estudo. A história de vida narrada durante a entrevista, permite-nos captar as singularidades dos indivíduos e das suas histórias, através da subjetividade que exprimem com o entrevistador. Cada história de vida representa a vida de um indivíduo, a sua singularidade, pelo que cada uma destas adquire um certo valor muito próprio. Como Brandão sublinha “(…) uma história de vida é sempre individual e única – a história de um indivíduo particular contada a partir da sua perspectiva e à luz da sua 69 experiência. (…) contar a própria história é uma forma de reviver os eventos que se recorda e é também um re-experimentar os sentimentos e as emoções que lhes estão associados”. (Brandão, 2007:1-2) É precisamente este “re-contar” e este “reexperimentar” que confere o valor pessoal a cada história de vida, que caracteriza cada singularidade apresentada por cada entrevistado. Toda esta subjetividade adquire, assim, importância sociológica na execução de um estudo. Apesar do referido, qualquer sociólogo tem presente a noção de que a subjetividade tem de ser bem gerida para não passar a barreira do senso comum. Todavia, neste caso, é a subjetividade que confere o valor às singularidades captadas. De facto, como Brandão elucida, “(…) uma história de vida não constitui – não pode constituir – um relato objectivo e exaustivo dos eventos ocorridos na vida do narrador, nem exterior a eles. (…) é um relato dotado de uma afectividade particular justamente porque é através dele que o actor se reconta e se reafirma como entidade distinta das demais”. (Brandão, 2007:2) Exigir uma objetividade que nunca será possível obter por parte do entrevistado, traduz-se num desvalorizar do material que obtemos em primeira mão, a subjetividade. De acordo com Brandão, a subjetividade subjacente ao método da história de vida é visto pelo lado científico como algo que rasa o senso comum e que depende da memória dos entrevistados para traduzir fielmente o que nos é contado no momento da entrevista. Esta memória, se for distorcida, poderia, assim, enviesar os resultados, traduzindo-se como um método menos fiável do que a recorrência aos métodos mais objetivos, como o questionário, que depois se traduz em dados representativos. Todavia, como a autora evidencia, o mesmo pode ocorrer com os métodos mais objetivos: “(…) ao narrar a sua história, o actor sempre omitirá, voluntária ou involuntariamente, aspectos e eventos que poderiam ser relevantes do ponto de vista sociológico. Porém, não existe razão objectiva para considerar que o mesmo não aconteça quando se recorre, por exemplo, ao questionário. Também aqui se está dependente da memória e da vontade do inquirido, da sua capacidade de compreensão das questões que lhe são colocadas e das suas representações do mundo”. (Brandão, 2007:4) Neste sentido, deve-se reconhecer o valor científico do senso comum, sem o confundir com a mera explicação comum. Na verdade, se refletirmos sobre o significado da palavra subjetividade, notamos que esta diz respeito ao indivíduo, àquilo que este pensa, que este perceciona, que este 70 reflete face ao que o rodeia ou ao que experienciou. Uma vez que esta subjetividade remete à individualidade, e à ciência interessa maioritariamente a coletividade e não os casos individuais, para que possam ser traduzidos em representações estatísticas, a subjetividade (encontrada em métodos como a história de vida, entrevistas, etc.) é remetida à categoria de método menos fiel e menos rigoroso. “Em geral, as acusações dirigidas ao estudo de casos articulam-se em torno de argumentos que remetem para questões de (ausência de) representatividade, fiabilidade e rigor. Estas acusações partem da fé num modelo de ciência positivo e dedutivo, no seio do qual a singularidade adquire um estatuto problemático. (…) Tácita ou explicitamente, assume-se que o conhecimento científico procede por dedução e o actor é encarado como peão mais ou menos ignorante das determinantes da sua conduta”. (Brandão, 2007:3) Uma vez mais, se refletirmos no papel da subjetividade, facilmente percecionamos que esta, ainda que remeta à individualidade e à singularidade dos indivíduos, é igualmente espelho da existência e influência da sociedade no indivíduo: “(…) a experiência subjectiva nunca é exclusivamente individual: ela traduz também uma experiência comum (…). Se devemos acreditar que até no nosso acto mais individual e solitário a nossa sociedade está presente (…), é ainda através da nossa consciência e da nossa experiência individuais que ela se manifesta. Através do individual é possível chegar à compreensão do modo como o universal se manifesta na singularidade, pois, (…) estudar o social individualizado é estudar a realidade social na sua forma incorporada, interiorizada, permitindo compreender como é que a realidade “exterior”, através da experiência socializadora, se faz corpo.” (Brandão, 2007:5) Portanto, o papel da subjetividade adquire mais valor, traduzindo maior rigor e fidelidade, uma vez que não remete somente ao indivíduo, mas sim à sua existência também espelhada coletivamente. Portanto, até aqui, é possível extrair que a subjetividade também é representativa, não estatisticamente, mas dos diversos mundos existentes, traduzidos pelas entrevistas e pelas histórias de vida a que recorremos enquanto metodologia eleita para o presente estudo. “A representatividade dos casos analisados – e, portanto, o valor sociológico dos dados recolhidos – não assenta, nem pode ser avaliada em termos meramente estatísticos, procedimento característico das metodologias quantitativas. São as suas qualidades teóricas e metodológicas – em particular, a sua 71 ligação à natureza do fenómeno investigado – que determinam o seu valor em termos de representatividade – no caso, sociológica –, não a sua relação quantitativa com um universo que, aliás, não é, muitas vezes, passível de ser determinado”. (Brandão, 2007:5) Apesar da falta de representação estatística, que também não se prendia com o foco do estudo, estas metodologias permitem a tradução (valorizada) das singularidades dos indivíduos que, no presente caso, interessavam captar. As singularidades de cada indivíduo, como tal, uma vez que traduzem a presença do coletivo, permitem o alcance de generalização de teorias, de reflexões, e de elucidação sobre certos fenómenos e/ou problemas sociais: “Cada caso pode, assim, ser visto como uma espécie de protótipo, caracterizando se a singularidade pela concentração do global no local e sendo entendido como um facto, uma espécie, ou uma coisa caracterizadora e não como um traço particular de um facto, de uma espécie, ou de uma coisa. (…) A generalização, nos estudos de casos, refere-se, então, não à extrapolação das conclusões para um universo, sob a forma de enumeração de frequências de resultados, mas mais propriamente à expansão e generalização de teorias.” (Brandão, 2007:6) Neste sentido, a subjetividade obtida através da metodologia escolhida mantém um papel primordial no que diz respeito ao presente estudo. O poder das histórias de vida está presente na forma como os diferentes indivíduos contam as suas histórias, na forma como se aproximam e distanciam de tantos outros sujeitos que, sem saberem, partilham momentos chave no decorrer das suas vidas, experiências e histórias com que se identificam, mesmo que se tratem de desconhecidos. Segundo Pais, “As potencialidades do método biográfico radicam, sobretudo, num valor de subjectividade que permite que a história de vida exista e circule: a via de subjectividade (…) é a que possibilita reconstruir o alcance objectivo de uma consciência individual, de grupos ou de época.” (Pais, 2001:107) Através destas, bem como da partilha de experiências e de momentos marcantes, pode-se, assim, permitir evidenciar pormenores, problemas, noções de uma realidade, fenómenos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos: “(…) em jogo está também a possibilidade de tornar visível o que (…) nem sempre é empiricamente detectável.” (Pais, 2001:107) Estas ferramentas traduzem-se, então, numa fonte rica de dados que se revelam bastante importantes para o estudo. 72 2.3 Obstáculos Durante o período de realização das entrevistas, fomos enfrentando alguns obstáculos, com os quais tentámos lidar da melhor forma possível. Desde logo, deparamo-nos com a questão do tabu. Sempre existiram certos temas considerados tabu e, ainda que a sua dimensão varie ao longo do tempo e sejam atenuados, de alguma forma nunca desaparecem por completo. O mesmo se sucedeu com o presente tema. Falar-se de sexualidade / intimidade só por si não é uma tarefa simples, seja ela LGBT ou não, e junto de pessoas mais velhas, sente-se ainda mais algum fechamento. Tal sucede por este se apresentar como um tema que exige um certo nível de exposição pessoal, da intimidade da pessoa em questão, o que se pode traduzir num sentimento de vulnerabilidade e desconforto, que leva, por sua vez, à evasão de se dialogar sobre o assunto. Como tal, e para o efeito, tivemos sempre presente a noção de que falar de sexualidade e de orientação sexual com pessoas seniores, especialmente ao fazer-se perguntas que são tidas como do foro íntimo, poderia criar algum tipo de constrangimento, o que poderia tornar-se num obstáculo, ainda que diversos seniores tenham aceitado disponibilizar-se para o efeito. Para contornarmos este possível obstáculo, tentámos sempre fazê-lo com naturalidade, demonstrando que esta é uma componente natural do ser humano e foi com informalidade, compreensão e delicadeza que foi abordado, evitando criar-se qualquer tipo de constrangimento nos indivíduos. Este receio de exposição deve-se, frequentemente, ao medo das repercussões que daí possam advir. Apesar de ter havido um avanço na desmistificação do tabu da sexualidade entre gerações, ainda existe um certo nível de preconceito para com as pessoas no momento de se assumirem como LGBT, principalmente quando se é sénior. Como exemplos destas repercussões negativas temos a discriminação no trabalho, a desaprovação familiar, intervenções psiquiátricas, criminalização, entre outras formas de preconceito ou intolerância possíveis, como Almack et al. explicam, “(…) coming out could result in serious negative repercussion including job discrimination, family disapproval, psychiatric interventions, criminalisation, and various other forms of prejudice or intolerance.” (Almack et al., 2015:3). Na realização das entrevistas, aquilo com que nos deparámos foi que este desconforto e temor daí emergido influencia as pessoas no momento da abordagem para a solicitação da entrevista. Para além das pessoas que rejeitaram desde logo a 73 possibilidade de entrevista, não demonstrando qualquer abertura para o efeito (justificado desde o medo das repercussões à vergonha de se assumir perante outros, mesmo que anonimamente, algo que têm como privado e secreto), lidámos também com outros “dois tipos de pessoas”: 1) as que confirmaram as entrevistas e as quais se concretizaram; e 2) as que confirmaram as entrevistas, mas que adiaram eternamente a data de entrevista, até deixarem finalmente de responder às tentativas de contacto por parte da investigadora. Nos casos em que esta última situação se verificou tentámos sempre respeitar o espaço do possível entrevistado, insistindo somente no sentido de se demonstrar a importância do seu contributo para o estudo, sem querer provocar qualquer desconforto, constrangimento ou insistência abusiva. Pelo mesmo motivo, quando estes adiavam a data mais de três a cinco vezes, e manifestavam desconforto com o contacto e renitência em remarcar nova data, concluíamos o contacto com a pessoa. Tal sucedeu-se quatro vezes. Passámo-nos então a focar nos casos de resposta afirmativa e voluntária, explicando-lhes qual o objetivo do estudo, a importância da sua colaboração, apresentar-lhes o formulário de consentimento e proteção de dados, e providenciar uma ideia daquilo que poderiam esperar face aos temas que seriam abordados, a fim de se evitar qualquer futuro constrangimento e possível desistência. Daqui resultaram nove entrevistados. Nestes casos, apesar da resposta afirmativa e manifestação de vontade para contribuírem para o estudo, também lidámos com pormenores que, se não fossem desconstruídos e trabalhados, poderiam dificultar ainda mais a tarefa de se entrevistar. Exemplificando, a posição corporal que os entrevistados apresentavam no início da entrevista – inicialmente, tanto os entrevistados que residiam no seu domicílio como os entrevistados que residiam numa instituição de velhice, apresentavam uma posição corporal mais fechada, como se adotassem uma postura de defesa, de preservação da sua intimidade, com pouca abertura inicial no que dizia respeito à fala, com respostas mais curtas e um pouco mais vagas. Inicialmente, tudo apontava para um sinal de constrangimento, de relutância em expor a sua intimidade, a sua vulnerabilidade, a sua história, mesmo com noção de que estavam protegidos pelo anonimato. Portanto, nesta fase de partida, e a juntar às posturas demonstradas, também as expressões faciais se carregavam de seriedade e de concentração. À medida que se ia avançando nas entrevistas e se ia puxando mais pelos entrevistados, esta posição de fechamento ia-se tornando num “descontrair dos 80 seu local de trabalho, tendo vendido tudo o que tinha e partido com ela para a Suíça, onde sofreu de violência doméstica e foi roubada. Posteriormente, noutra relação, voltou a sofrer de violência doméstica, tendo voltado a perder os seus pertences e a sua casa, a qual foi vendida pela sua companheira para ajudar o filho a sair da droga. Após ficar sem nada pela segunda vez, foi abandonada pela companheira e pelo filho desta. Actualmente, vive solteira num local com poucas condições, mas recusa-se a ir para um lar, pois afirma saber como estes funcionam (de quando exercia a sua profissão) e não querer voltar a ser maltratada por ter uma orientação sexual diferente. A nossa terceira entrevistada, Paula tem 73 anos, é transsexual e é casada com o seu companheiro de longa data. Não tem filhos, mas tem uma sobrinha por parte do seu marido, a qual trata como se fosse filha. Paula nasceu com sexo masculino, mas nunca se sentiu no corpo certo. Desde cedo que se sentia diferente, sentia uma discrepância entre aquilo que sentia no seu interior e aquilo que via ao espelho. Gostava de brincadeiras tipicamente femininas, de vestir a roupa da mãe às escondidas, calçar os seus saltos, usar as suas joias, pintar-se com a sua maquilhagem. Enquanto era pequena, contou com a ajuda da mãe para se esconder do seu pai, austero e conservador, que nunca compreendeu nem apoiou, e só em fim de vida aceitou retomar a ligação com Paula. Mais tarde enveredou pela Engenharia de Arquitetura, pois sempre sentiu prazer em “dar forma às coisas e em transformar aquilo que não se enquadrava em lado nenhum”, mantendo-se sempre nessa área até à sua reforma, indo ainda acompanhando alguns projetos quando lhe é requisitada essa atenção. Fez a transformação do corpo integral perto dos seus quarenta anos, tendo na altura sofrido um pouco com os seus projetos de trabalho. Foi também nessa altura, ainda antes da transformação, que conheceu o seu marido, tendo-se casado com este em 2010. Actualmente, reside numa instituição privada com o companheiro, a qual refere ter sido escolhida a dedo por ambos, pois agradava-lhes a ideia de estarem “rodeados de luxo, sem terem de se preocupar com nada, pois até têm empregados para tudo e, acima de tudo, respeito e liberdade” para serem eles próprios, o que contribui muito para a sua intimidades e vida sexual, coisa que ambos prezam. O nosso quarto entrevistado, Manuel tem 66 anos, é homossexual, identifica-se como homem e é solteiro. Nunca teve filhos, mas tem uma sobrinha por parte da sua única irmã, a qual ajudou a criar por ser mãe solteira, e tratou sempre como se fosse a sua própria filha. Durante a sua juventude, Manuel sentia que era diferente, apenas não 81 sabia identificar como ou no quê. Ensinado pelos que o rodeavam que gostar de raparigas era a coisa certa, as suas relações tiveram sempre uma curta duração, tendo inclusivamente tentado ter relações sexuais com uma companheira aos seus 17 anos. Sem saber que na verdade gostava de rapazes, descobriu-o pouco mais tarde no seio do seu grupo de amigos durante uma ida ao cinema ao ar livre. Entre amores e curtas relações, nunca casou ou se juntou com alguém, pois teve permanentemente a intromissão da família nesse assunto, com quem sempre viveu por dificuldades financeiras. A sua família, composta pela mãe viúva, pela irmã que viria a ser mãe solteira, e pela futura sobrinha que viria a nascer, revelou-se contra desde que o descobriram, ainda que mantivessem uma relação, embora atribulada, por viverem juntos. Manuel deixou a escola cedo, com quase 15 anos, altura em que o pai morreu, para assumir a sua profissão, de talhante, a qual viria a exercer até à sua reforma. Há cerca de dois anos faleceu a mãe. Actualmente, depois de um acidente de viação, ficou com graves problemas no andar e a família (irmã e a sobrinha) optou por pô-lo no lar, ainda que contra a sua vontade. Não obstante, encontrou um companheiro e, apesar de a família o visitar poucas vezes, são contra essa relação, tentando-os impedir de estar juntos. Aqui, contam com o papel da instituição, que é quem os protege das suas famílias, permitindo que estes estejam juntos e felizes. A nossa quinta entrevistada, Maria tem 62 anos, é transsexual, nasceu com o sexo masculino, o qual mantém por nunca ter tido dinheiro para avançar para a cirurgia, e identifica-se como mulher. É solteira e nunca teve filhos. Abandonada pelos pais ainda em pequena, viveu com uma tia e com os seus sete filhos, sentindo que cresceu sempre sozinha. Em termos de escolaridade, fez “apenas” até ao 9º ano porque não gostava da escola e saiu assim que pôde. Teve vários trabalhos, mas aquele que teve durante o maior período de tempo foi o de barman/barmaid num bar noturno associado ao movimento LGBT (dependia da forma que se apresentava no seu trabalho). Tem uma reforma de pouco mais de 300€, dado o tempo que trabalhou quando jovem, sendo que, posteriormente, passou a maior parte da sua vida na rua, entre a droga e a prostituição. Sem casa e sem família, aos 42 anos perde também o seu trabalho e passa viver na rua, situação que durou 13 anos, sobrevivendo com a esmola, a prostituição e com negócios de droga. Acabou presa durante uma rusga policial e ficou condenada a 5 anos. Dado o seu sexo ser masculino, ainda que se identificasse como mulher, cumpriu a prisão num estabelecimento prisional para homens, acabando por ser violada e humilhada diversas 82 vezes por outros reclusos. Esta situação foi algo que a “marcou profundamente” e a fez pensar em tudo o que tinha feito até ali. Sem saber exatamente quando, descobriu que tinha contraído HIV. Quando saiu, tinha 60 anos, decidiu que queria mudar de vida e procurou sair da rua. Encontrou um lar que a acolheu após o conhecimento da sua situação, tendo de pagar apenas uma pequena verba, onde reside atualmente e onde diz sentir-se “feliz pela primeira vez na vida”. O nosso sexto entrevistado, Joaquim tem 75 anos, é homossexual e identifica-se como homem, mas reconhece que a sua orientação sexual é complicada, porque vai para além disso. Actualmente é solteiro, mas em tempos esteve casado com uma mulher, com a qual teve uma filha, vivendo nessa altura numa relação poliamorosa. Mais tarde, essa relação acabou de forma inesperada e atualmente vive apenas com o companheiro que fazia também parte dessa relação poliamorosa. Em termos de escolaridade, sempre gostou da área das ciências e da natureza, pelo que enveredou pelo curso de Biologia, concretizando a sua licenciatura nesse campo. Ainda frequentou um mestrado na mesma área, mas devido a uma oportunidade de trabalho que surgiu, acabou por não concluir o mestrado e desistiu do mesmo. Trabalhou sempre nessa área até à sua reforma, excetuando um ou outro ano em que esteve desempregado ou a trabalhar fora do país. Actualmente encontra-se já reformado, com uma reforma que ronda os 1.300€, reforma essa que lhe permite manter a vida que quer manter nesta fase da sua vida. Vive na sua casa com o seu companheiro e não pondera a ideia de ir para um lar, excetuando uma situação inevitável em que passe a depender de cuidados de terceiros e não tenha mais ninguém com quem possa contar. Nesta fase da sua vida, diz-se feliz e a aproveitar para “namorar muito” e “viver ao máximo” até ao dia em que morrer. O nosso sétimo entrevistado, Mário tem 71 anos, é homossexual e identifica-se como homem. Actualmente é solteiro, mas já esteve casado com uma mulher, com a qual teve dois filhos. Em termos de escolaridade, saiu cedo da escola, tendo completado até ao quarto ano, saindo de seguida para ajudar o pai e o avô no mar. Estes eram pescadores desde sempre, uma tradição de família que se passava entre gerações, e ele não foi exceção. Todavia, nunca obrigou os seus filhos a seguir a mesma tradição, os quais escolheram enveredar por outras áreas. Trabalhou desde esta altura na mesma área, até ao fim dos seus dias de trabalho. Actualmente encontra-se já reformado, com uma reforma que ronda os 300€, reforma essa que o faz depender da ajuda económica de um dos filhos para sobreviver, com quem vive na mesma casa. Teve sempre uma boa 83 relação com os seus filhos, até se assumir como homossexual depois de ser apanhado com outro homem, algo que mudou drasticamente. Um dos filhos cortou a relação com ele, e o outro, com quem vive, apoiou-o tanto quanto possível. Após ter assumido esse companheiro, relação que acabou mal e onde passou por um desgosto, não teve mais companheiros. Actualmente, não perspetiva arranjar mais ninguém, até porque teme a reação dos filhos. Para Mário, a ideia de ir para um lar, se deixar de poder contar com a ajuda do filho, aterroriza-o profundamente, mas reconhece que se não tiver outra alternativa pretende pelo menos escolher um que o aceite como ele é. Até lá, diz querer aproveitar para viver bem e criar memórias bonitas com o filho, e tentar reconciliar-se com o outro filho antes de morrer. A nossa oitava entrevistada, Isabel tem 69 anos, é lésbica e identifica-se como mulher. Actualmente vive com a sua companheira em união de facto, sendo que nenhuma das duas tem filhos. Embora tenham tentado engravidar, através da ajuda de um amigo de ambas, a gravidez acabou por não dar certo e passaram por uma situação de aborto por parte da sua companheira. Após a situação do aborto, desistiram da ideia de continuar a tentar engravidar, pensando que era um sinal para não terem filhos. Em termos de escolaridade, frequentou a escola até ao sétimo ano do antigo liceu, correspondente ao décimo segundo ano atual, pois para ela era suficiente, dado que queria começar a trabalhar e começar a ganhar a sua independência e deixar de depender dos pais. Quando se assumiu, pôde contar com o apoio dos pais, que fizeram questão de a proteger e de conhecer as suas companheiras ao longo da sua vida. Trabalhou como funcionária pública num centro de emprego, como técnica de emprego, em dois países, Angola e Portugal, nomeadamente. Actualmente encontra-se já reformada, com uma reforma que ronda os 900€. Juntamente com a companheira, afirma viverem bem sem precisar de grandes luxos nem grandes gastos, tendo o suficiente para serem felizes e viverem o seu dia-a-dia. Para Isabel, ponderar a ideia de ir viver para um lar assusta-a, mas reconhece que os lares não são todos iguais e que pode até ser feliz, desde que fique com a sua companheira. Por fim, o nosso nono entrevistado, António tem 60 anos, é homossexual e identifica-se como homem. Actualmente é solteiro e vive sozinho, mas já foi casado com uma mulher, relação da qual nasceram três filhos. Obrigado a esconder a sua sexualidade e com medo do que lhe pudesse acontecer, optou por aceitar casar com uma mulher, fazendo vida com a mesma, acabando mais tarde por arranjar um amante 84 masculino. O que não contava é que esse mesmo amante fosse, na verdade, também amante da mulher dele nas suas costas, sendo ele o único que não estava a par dos acontecimentos. Mais tarde, ambos ficaram juntos e António acabou por sair de casa e refazer a sua vida, deixando os filhos com a mulher. Em termos de escolaridade, frequentou a escola até ao décimo segundo ano, ingressando posteriormente na Polícia, do qual fez vida até à atualidade e na qual pretende permanecer até à sua reforma. Após a situação do amante e do divórcio da sua mulher, decidiu assumir-se, já com quase quarenta anos de idade, sendo que esta decisão o afetou a vários níveis, passando por situações delicadas principalmente ao nível do trabalho. António voltou a ter novos companheiros mas nenhum durou o suficiente para assentar numa relação séria e estabilizada. Para este, pensar em abandonar o seu apartamento alugado para ir para um lar é um pensamento que já lhe passou pela cabeça diversas vezes, não por o desejar, mas sim por o temer, uma vez que não quer voltar a viver a sua sexualidade em segredo. 2. Momento da descoberta Se observarmos os dados recolhidos, podemos observar que o peso da orientação sexual na vida destes indivíduos manifesta-se não só no momento da sua velhice, mas desde o momento em que estes tomaram consciência da sua orientação. Nesta perceção da “diferença”, começam a surgir sentimentos de receio pela decisão de exposição, medo pelas consequências que daí possam advir, temor pelo julgamento, pela discriminação, pelas reações do outro (família, amigos, colegas de trabalho,…), pelos possíveis atos intimidatórios. Muito deste zelo deve-se ao conhecimento que os indivíduos em causa detinham de outros casos de exposição, de histórias alheias, do medo da família, ou pelo peso religioso. Atente-se nos testemunhos dos entrevistados: (…) andei um bom tempo perdido e confuso, porque nesse tempo não se falava dessas coisas, percebe? Era tudo um tabu e não se podia ser diferente que se era logo vítima de discriminação, de maus tratos, e ham… e as pessoas punham-nos rótulos de… pronto, de paneleiros, de maricas, de doente, de tudo o que tivesse uma conotação mais pejorativa… Nem havia cá isto de se ser bi. Ou se era normal, ou se era gay, e já esses eram muito mal vistos e mal tratados, como disse, mas não havia cá disso de se gostar das duas coisas. Por norma se se soubesse era-se logo posto num hospital psiquiátrico porque estávamos doentes mentalmente, porque era uma coisa das nossas cabeças era um defeito. Percebe? Um defeito que tinha de ser corrigido para sermos hétero, porque só assim éramos normais. Não, passava-se um mau bocado. Francisco, 76 anos, Bissexual, ll 29 – 39 85 (…) sempre fui (…) uma pessoa isolada. Excluída. Gozada. É assim desde nova, desde que soube que gostava de mulheres. Sempre soube. Antes até da minha adolescência. (…) Devia ter os meus 14 ou 15 anos (…) quando (…) me declarei a uma melhor amiga que tive desses tempos. (…) Naquela altura não havia cá nada destas coisas. Era um tabu gigante. (…) Não havia cá gays, quanto mais lésbicas. Imagine-se, e com uma família conservadora… era o escândalo. O vexame. A desonra. Era-se ostracizado de imediato! (…) passava-se de pessoa a um monstro, a uma aberração, a um ser odiado, que deveria de ser alvo de ódio pelos outros, descartado e abominado pela sociedade e que deveria de ser invisível enquanto pessoa. (…) Ninguém queria ter nada a ver connosco. Demarcavam-se de nós como se estivéssemos a morrer com uma doença totalmente mortal e contagiante. (…) fartei-me de chorar… com medo, com raiva. (…) Enquanto a minha mãe chorava desalmadamente (…), o meu pai agarrou-me pelo braço. (…) e só me lembro de ver a mão dele a vir em direção à minha face. Começou a baterme (…) com toda a força que tinha, como se aquela tareia fosse fazer desaparecer a lésbica que havia em mim. Ana, 82 anos, lésbica, ll 67 – 225 (…) em nada me sentia homem. Sentia que estava no corpo errado, eu sentia-me como se fosse uma mulher. (…) Quando era pequena fazia praticamente só brincadeiras de menina. (…) Isto até aos meus 7 ou 8 anos. E olhe que os meus pais repararam e insistiram o máximo possível no contrário, e eu com medo do meu pai ia tentando disfarçar o melhor que podia. (…) enquanto fui crescendo, fui sempre escondendo esta parte de mim. (…) vivia o meu lado feminino em segredo. (…) mulher à noite e homem de dia. (…) Quando tinha de ser homem, tinha de gostar de mulheres, que não gostava. Portanto, só podia gostar de homens à noite, enquanto era mulher, quando me sentia verdadeiramente na minha pele! (…) Decidi falar com os meus pais, ainda que a minha mãe soubesse, o meu pai e restante família não sabiam. (…) Claro, o meu pai não reagiu bem, cortámos relações, disse que tinha tido um filho e não uma filha (…) tive que explicar que ser transsexual não significa que fosse gay, porque eu era mulher e gostava de homens como sendo mulher e não como sendo homem, porque não me identificava como homem, e que queria ser mulher na íntegra em breve, que iam passar a ter uma filha e não um filho (…) que seria feliz. Mas ele não percebia, de todo. Paula, 73 anos, transsexual, ll 27 – 397 Nestes casos, exemplificando, aquilo que mais se destaca são as noções que estes construíram com base nas suas próprias experiências e nas histórias alheias, sendo estas essencialmente negativas. Do mesmo modo, para além de lidarem com as próprias experiências e com as histórias dos outros, lidaram com a humilhação, discriminação e ostracismo por parte dos outros. Rótulos pejorativos, insultos, alvos de “gozo” e perseguição, rejeição, incompreensão, intolerância, agressões físicas e psicológicas são apenas exemplos de experiências negativas que estes entrevistados enfrentaram, não só nesta fase, como durante diversos momentos nas suas vidas. Como estes casos, temos os restantes que também se assemelham neste sentido: 86 (…) crescemos envolta dos valores morais católicos que defendem que a homossexualidade é um crime, é imoral, é contra a nossa natureza, que é uma abominação, entre outras coisas absurdas. (…) Não é que levasse homens lá para casa ou que alguma vez tenha vivido com um, mas quando elas descobriram que eu era homossexual, já o meu pai tinha morrido e eu … pronto, não me meteram fora de casa porque precisavam de toda a ajuda financeira possível, porque como ele morreu, eu saí da escola na altura, tinha quase quinze anos, e deixei tudo para ir trabalhar para que não faltasse comida na mesa. Manuel, 66 anos, homossexual, ll 25 – 34 (…) aí já eu tinha interesse no lado feminino das coisas, ou seja, preferia as brincadeiras delas, brincava mais com elas, e até quando podia vestia as roupas das minhas primas, vestia, e uma vez vesti as da minha tia. É claro que gerei a maior confusão possível e imaginária. Isto porque os cabrõezinhos dos meus primos viram e foram contar à minha tia, e claro, levei umas belas senhoras donas chapadas. (…) Ainda hoje é tabu uma pessoa ser transsexual, quanto mais naquele tempo e com aquela idade, que nem havia nome para isso. Era-se logo aberração e pronto, doente, a precisar de tratamento mental. Mostrar-se interesse por uma coisa daquelas, tão simples quanto ter interesse em vestir a roupa do sexo oposto, era um crime punível da maior surra possível que o nosso encarregado se pudesse disponibilizar a dar. E soubesse quem soubesse, era sempre bem merecida, que era para ver se aprendia a ser normal. Maria, 62 anos, transsexual, ll 65 – 76 (…) quando eu era jovem, cresci rodeado de rapazes e de raparigas, e até sabia apreciar as raparigas. E foi isso que também nos era ensinado. Os rapazes gostam de raparigas e as raparigas gostam de rapazes. E eu cumpria com o que me tinha sido passado, mas houve uma altura que comecei a perceber que gostava de rapazes, era eu adolescente, mas sempre pus essa parte de lado. Acabei por namorar com (…) a minha melhor amiga, (…) e ao fim de algum tempo de namorados, com a pressão da minha família, acabei por a pedir em casamento. (…) Como sentia um grande carinho por ela, mas também gostava de homens, achei que gostava de ambos. Tive uma fase que achei que era bissexual. Mas afinal não. (…) gostava da minha mulher mas não sentia que gostasse da mesma maneira que gostava de homens, e cobiçava os corpos masculinos em segredo porque não podia revelar isso a ninguém nem desgraçar o meu casamento. Ia desmoronar uma data de outras coisas. (…) Completamente impensável. Mas foi exatamente isso que aconteceu! O impensável! Joaquim, 75 anos, homossexual, ll 40 – 62 (…) agora já não sou casado, mas já fui, e fui com uma mulher. Sabe que isto os pescadores aqui, e mesmo no geral, e mesmo na minha família, aí então… é tudo muito conservador. Não se podia gostar de homens. Que é o meu caso. (…) pense lá no que seria ir para o mar num barco, às vezes pequenos (…) ir para o mar cheio de homens, um dia inteiro e às vezes mais do que isso. Em que um dos homens era gay. Imagina o caos que se levantava? Uma pessoa levava logo uma tareia, como eu cheguei a levar! Mas isto repare lá, nem era um cenário possível, essas coisas ali naquele trabalho não existiam. Homens ali… era tudo macho (…) Claro que eu sabia que gostava de homens, aí talvez desde os meus treze ou catorze anos. (…) Mas com a família que eu tinha, como é que podia dizer uma coisa dessas? Que gostava de homens? Não, não, não, 87 nem era possível sequer. Claro que tive de manter esse meu lado escondido e casei com uma mulher lá filha de um outro pescador (…) mas não gostava dela, gostava de homens e arranjei um amante. (…) depois fomos apanhados. Gerou uma confusão dos diabos. (…) vá de insultos, de nomes, de ficarem agressivos. Tentámos assumir-nos e defender-nos. (…) Vieram logo todos para cima de nós para nos tentar separar, para nos agarrarem e fazerem mal, e como nos defendemos, começaram a bater-nos. Vá de murros, vá de pontapés, vá de puxões (…) ficámos um bocado em mau estado. Mário, 71 anos, homossexual, ll 33 – 362 (…) os meus pais perceberam, e sempre me apoiaram em todas as decisões que eu tomava. Em tudo o que decidi até aqui, sempre estiveram ao meu lado. Posso dizer que fui e sou uma sortuda. Até as namoradas que fui tendo, e mesmo quando me assumi, pude falar com eles. Pude sempre desabafar com a minha mãe, que depois da primeira vez falou com o meu pai, e foi sempre muito recetivo e carinhoso, aliás, foram sempre os dois, muito compreensivos e apoiantes. (…) Tenho amigas e amigos também não heterossexuais (…) e as histórias deles, meu Deus, o que eles passaram… Desde valentes enxertos de porrada, a cintos, a chicotes, a panelas, a queima de cigarros, a igrejas transformadoras da orientação sexual, a manicómios, a tudo o que fosse possível ser utilizado para se acabar com a monstruosidade de se ter um filho que não fosse hétero. Isabel, 69 anos, lésbica, ll 23 – 34 (…) Quando eu entrei [na Polícia] não se falava dessas coisas. Não era possível sequer entrar-se se se soubesse uma coisa dessas. Se se soubesse que uma pessoa era gay ou fosse o que fosse, que não fosse hétero, uma pessoa era logo corrida, e era crime até. Provavelmente acabava-se espancado ou algo do género também. Por isso é claro que nunca me atrevi a mostrar o mínimo sinal da minha orientação sexual. Era como se eu não existisse. (…) hoje não faria de forma igual, mas também hoje não seria necessário, já há uma maior tolerância, há mais compreensão, mais… ham… talvez aceitação, sim, talvez seja essa a palavra. Mas naquela altura não havia. António, 60 anos, homossexual, ll 15 – 52 A partir destes excertos, é possível verificar que as experiências dos entrevistados, ao assumirem as suas orientações sexuais (voluntária ou involuntariamente), foram delicadas. Excetuando um caso, em que a entrevistada teve uma boa experiência (entrevistada Isabel), os restantes casos aqui transcritos revelam experiências mais complexas neste sentido. Desde experiências que se traduziram em episódios de medo, de confronto, de descoberta inesperada, de agressões físicas, verbais, e psicológicas, de discriminação, entre outros, os nossos entrevistados revelaram ter enfrentado momentos delicados e amargos no momento da exposição da sua orientação sexual. Estes mesmos momentos, ocorridos nas suas juventudes, traduzem-se, da mesma forma, em memórias agora distantes que, no entanto, continuam a estar presentes nas suas memórias atuais e nas suas maneiras de ser e viver a vida. Nos seus quotidianos continuam a ter medo de passar por momentos semelhantes (ou 88 piores), o que os influencia na perceção de determinados elementos, como por exemplo a imagem que concebem de uma instituição de velhice. 3. Perceções sobre as instituições As representações acerca das instituições de velhice estão, em muito, ligadas àquilo que nos rodeia e a que temos acesso, como por exemplo as notícias que nos são passadas pelos media, as histórias de que tomamos conhecimento, os casos polémicos que ganham grandes proporções, como os casos dos lares ilegais, de situações de maustratos, de abandono, de lares sem condições, entre outros. Independentemente das fontes a que recorremos para a construção dessas “imagens”, somos sempre influenciados de alguma forma, positiva ou negativamente, sobre um determinado assunto. Os nossos entrevistados não são exceção. Atentemos nas suas representações face aos lares de velhice e aos motivos que originaram tais perceções: (…) foi uma decisão minha, partiu apenas de mim, porque como já disse basicamente estou sozinho, por isso vim por mim próprio, mas não me desfiz da minha casa. Acabei por ficar com a casa que era dos meus pais, que felizmente já está paga, e como não tenho irmãos fiquei eu com ela e por isso continuo a tê-la ainda, e se algum dia quiser sair daqui, saio, como não me dá despesa... Disso pode ter a certeza, saio e retorno para casa. Mas até agora tem sido… interessante pelo menos. (…) a minha reforma ronda os mil e tal euros, por isso decidi procurar algo que apresentasse condições, que fosse aquilo que eu tinha mais ou menos em mente, e dentro das minhas possibilidades económicas escolhi este lar. Visitei alguns, fui conhecer os espaços, as pessoas, as estruturas e as formas de funcionamento dos lares, os outros tipos que lá vivem. Francisco, 76 anos, bissexual, ll 199 – 212 (…) um lar? (…) Eu não vou para lar nenhum, já disse! Disse-o à minha amiga, e digo-o a si, e a quantos quiserem ouvir! Não vou sair daqui, esta é a minha casa, não a perco mais vez nenhuma, não até ir desta para melhor. (…) eu não quero nem por nada deste mundo. Não acha que eu já levei pouco na vida? Ainda agora ir para um lar? Não, nem pensar, nem por sombras, caramba! (…) eu sou enfermeira, não se esqueça! Quer dizer, era! (…) acompanhei muitos idosos de instituições! Cheguei a fazer turnos em instituições quando trabalhei em dois sítios ao mesmo tempo. Eu assisti de perto à realidade que se vivia nas instituições. (…) eu trabalhei em instituições, eu assisti a muitas realidades, e intervim em outras tantas. Sei em primeira mão as faltas de respeito que existem, a discriminação, o tratamento que se lhes é dado, orientação sexual nem sequer pode existir que se arranja um valente trinta e um (…), vida sexual, carinhos, intimidade, não existe ou então é-se menosprezado, vexado, diminuído, infantilizado… se não pela administração, pelas funcionárias, se não por elas, por outros utentes. Não que eu queira algo assim, tive a minha dose e fechei-me de vez, mas e quem quiser? (…) Não, isso não. 89 Tenho muito medo porque se assim, independente e livre já foi o que foi, imagina depender de um terceiro? De regras que não são suas e que lhe são impostas? De ter de se esconder? De ter medo de que lhe batam, humilhem, diminuam, etc. tudo outra vez? Não, não, já tive que chegue. Para mim chegou. Enquanto puder mantenho-me assim. No dia que não puder, que Deus me leve e me acabe com todo o sofrimento que tive de vez. Ana, 82 anos, lésbica, ll 705 – 742 Nestes dois casos podemos, desde já, notar a diferença de realidades e perceções no que diz respeito às instituições de velhice. No primeiro caso, o Francisco revela-nos ter ido, voluntariamente, procurar residir num lar, revelando ter construído uma imagem mais positiva acerca destas instituições. Justifica-nos a sua ida para o lar com a necessidade de convívio, de combater a solidão, mas com a condição de manter a sua privacidade e liberdade. Por outro lado, no segundo caso, a Ana revela uma total rejeição da ideia de habitar num lar de terceira idade, decisão que justifica com sentimentos de insegurança, medo, receio de perda de liberdade e privacidade, receio da intolerância, da discriminação, entre outros. Como estes dois casos, temos os restantes que se vão aproximando e afastando um pouco destes: (…) decidimos procurar uma coisa que valesse a pena. Não uma instituição vá, banal, com todo o respeito que tenho a tais instituições, mas não queria isso, porque para isso não saía de casa. Queríamos mesmo era algo luxuoso, em que não tivéssemos de fazer nada, que tivesse piscina, atividades a sério como ténis, badminton, natação, golfe, paddel, jardins para se caminhar, ginásios com bons instrutores, spa, restaurante, cabeleireiro… tudo isto, e foi isto que encontrámos aqui, que escolhemos. Por isso é que viemos para aqui. (…) nunca pensei muito bem a favor dos lares. É que com tudo o que se ouvia falar das pessoas LGBT que iam para lares, e que até nem eram assumidas, ou apenas haver suspeição destas serem e não serem na verdade, mas tudo o que se ouvia era… desastroso! Sofriam horrores! E é claro que eu não queria uma coisa destas para mim! (…) as pessoas que residem nos lares, mais nos públicos e naqueles de cariz assim muito social, já têm aquela imagem de debilitados, de mal tratados, de desrespeitados, de infelizes, de prontos para morrer. Seja por tudo o que se ouve e vê, seja pelo que se sabe e se conta, e mesmo sabendo que existem lares que não é assim, é uma ideia que tenho muito presente, por tudo o que sei, o que vi e ouvi. Mas também sei que não há lares assim, mas é praticamente tudo mais para o privado é que se começa a diferir nessa forma de tratar as pessoas, de as respeitar, de as cuidar… E nem toda a gente pode. (…) este onde vivemos, isto não é um lar, é como que um resort residencial sénior, com direito a luxos, (…) em que se pretende dar um bom estilo de vida, sem preocupações e com muito lazer a esta fase da vida de uma pessoa. É a valorização do idoso. Onde cada um é respeitado, pode ser quem quer, como quer, desde que respeite os outros também, e viver com tudo a que tem direito sem se ter de preocupar com nada. Seja de limpeza, seja de alimentação, seja de atividades, seja de saúde, seja de afazeres… Mas claro, tudo por um bom dinheiro desembolsado. E aqui paga-se bastante bem. Paula, 73 anos, transsexual, ll 552 – 582 96 diferença… mas continuo a achar tudo isso uma utopia. Seriam precisas décadas de investimento na formação das pessoas que lidam com os utentes para que houvesse uma volta de 180º para que tudo mudasse e se começasse a tratar as pessoas como pessoas, com respeito por todas as suas diferenças, respeito pelo seu espaço, pela sua liberdade, e não como velhos ali esquecidos à espera do fim. (…) É que uma pessoa chega ali e os utentes são todos tidos como iguais. É tudo heterossexual, tudo solteiro, sem vontade de fazer relações, sem vontade de fazer coisas diferentes do que pintar, jogar dominó ou cartas, fazer trabalhos manuais, ou tricô, e sempre com vontade de se comer as mesmas coisas. (…) Aliás, nem podiam dois utentes estar no mesmo quarto ao mesmo tempo, que pelo menos um não seja dali, por exemplo um homem e uma mulher, porque do mesmo sexo era muito, mas muito mais difícil encontrar, e que alguém que desse conta não fosse lá meter o nariz. (…) torna-se muito difícil, muito difícil tudo isso e muito difícil conseguir-se ter intimidade ou mesmo apenas a sua privacidade... A maioria dos lares não tem formação do pessoal para lidar com isso, para respeitar, aceitar, apoiar e fornecer condições de segurança para isso, e depois as próprias estruturas também não estão preparadas para isso. São quartos para não sei quantos utentes, não há cá misturas, quer dizer, parece um reformatório. As higienes já são o que são, quanto mais as intimidades. Ana, 82 anos, lésbica, ll 786 – 830 (…) estava na altura de nos mimar (…) É como se estivesse sempre de férias, sabe? (…) Não nos preocupamos com a limpeza, nem com a comida, nem com nada! E temos sempre as visitas de quem quisermos, porque temos como que um pequeno apartamento! É um quarto com cama de casal, e uma wc, ou seja, é uma suite, e depois temos varanda, que têm todas uma vista maravilhosa, cozinha e sala, sendo a cozinha aberta para a sala. É um apartamento amplo, moderno, espaçoso, e prático! Olhe, é como que um aparthotel! Mas com tudo incluído. Com o benefício de que já está tudo pago, não há surpresas extras, a não ser que as queiramos nós, e ainda podemos ter as nossas visitas sempre que quisermos, mesmo à noite, tendo as pessoas que apenas se identificar na entrada e respeitar apenas a questão da hora do silêncio. É isso que sinto, que estou de férias, e sinto que o mereci e muito. Aqui estamos rodeados de luxo, sem termos de nos preocupar com nada, pois há empregados para tudo e, acima de tudo, respeito e liberdade. Aqui sinto-me livre para ser quem sou. Eu e o meu marido. As pessoas respeitam-se, não só os funcionários, como também os outros residentes. Paula, 73 anos, transsexual, ll 586 – 602 (…) Sempre se ouviu falar de como os velhos eram tratados, quanto mais os gays. O que é que eu ia fazer à minha vida? Iam maltratar-me? Ia ser desrespeitado, humilhado, posto de parte? E quem é que me ajudava? Sei lá, passou-me tudo pela cabeça. Porque ainda para cima, estando mais dependente, porque como estou numa cadeira de rodas tenho de depender mais dos outros para certas coisas, mas estando mais dependente, tenho menos liberdade, e saberem que eu sou homossexual… e se fossem preconceituosos ou odiosos ou fosse o que fosse, iam fazer-me mal. E toda a gente sabe que os próprios velhos são intoleráveis face a essas coisas, não aceitam. (…) Mas afinal os meus medos não precisavam de ser assim tão fortes. (…) a senhora Diretora era uma pessoa aberta e compreensiva e falou comigo abertamente sobre o que eu sentia, sobre a minha situação, pela minha versão da história, sobre os meus medos, sobre o que é que eu esperava encontrar, sobre as maneiras de agir e pensar das pessoas que ali estavam e 97 trabalhavam, como eram os outros utentes em relação a esse tema… (…) Até aqui sempre me senti bem tratado, respeitado dentro do possível, mesmo na minha privacidade. Se quero ficar no quarto, conversam comigo para perceber se se passa alguma coisa ou se ‘tou bem e respeitam. Tentam ajudar no que podem, preocupam-se connosco, e tentam animarmos assim que nos vêm mais cabisbaixos. Não, por acaso foi uma agradável surpresa, não era de todo o que contava encontrar. Manuel, 66 anos, homossexual, ll 326 – 365 (…) A partir do momento em que fui forçada a ter sexo, na prisão, deixei de procurar sexo. Desde essa altura que não voltei a ter uma única relação sexual. Nem tenho interesse para isso. Fiquei com um trauma muito grande e não consigo sequer pensar em voltar a estar intimamente com ninguém. (…) Vivo a minha vida, não quero mais parceiro nenhum, e não digo que não possa acontecer daqui uns anos, talvez, encontrar alguém que faça valer a pena, mas não quero. Por tudo o que passei, por ter HIV, por tudo o que isso implica… Por tudo mesmo. É uma complicação tremenda, tudo o que esta porcaria envolve. Os cuidados, os tratamentos, as medicações, as pessoas, tudo. Não, não quero mais nada disso, prefiro não ter mais ninguém e viver sossegada na minha vida, com os meus livros. (…) Estou sempre com medo de infetar mais alguém, de ser maltratada, de ser humilhada uma vez mais, de ser perseguida, de piorar… por isso intimidade sexual não creio vir a ter. Mas a Diretora do lar foi fantástica comigo. Desde o momento em que soube da minha história que me deu a mão e que me ajudou em tudo. Quando saíram os resultados dos exames e deu que eu tinha HIV, ela foi a primeira a dizer que se arranjaria uma solução, porque me quis isolar. E arranjou. Tratou de designar uma funcionária só para mim, um quarto só para mim, um mais pequeno e mais isolado, porque era o único individual que sobrava também, mas pronto, é só meu, com a minha casa de banho, tudo de alimentação servido em loiças e talheres descartáveis para garantir que não há contágios, porque assim usa-se e vai direto para o lixo, e também tenho atenção médica mais focada em mim. Quer dizer, caiu-me um anjo do céu. Tenho respeito, carinho, preocupação… Finalmente começou algo a dar certo, a correr bem, a mostrar uma luz que brilha ao fundo do túnel. Maria, 62 anos, transsexual, ll 497 – 531 Como é possível verificar até aqui, também aqui as imagens construídas em torno do receio da perda de privacidade, de intimidade e de liberdade associadas à entrada / institucionalização num lar de terceira idade, oscilam de acordo com os nossos entrevistados. Para uns, essa ideia estava presente e foi desconstruída quando entraram numa instituição para residência permanente, afirmando ter-se revelado uma experiência positiva e surpreendente. Para outros, a ideia permanece e rejeitam por completo a possibilidade de integração e residência permanente num lar, se não mesmo em última instância. Vejamos os restantes casos: (…) Podemos usufruir a vida com o descanso e o prazer que temos direito de usufruir nesta fase das nossas vidas. Porque é que iria para um lar para depois seguir as regras dos outros? Comer o que me querem dar? Às horas que impõe para todos? Seja para comer, seja para os banhos, seja 98 para dormir, seja para ter visitas, seja para passear e entrar, seja para tudo? Quero ver televisão, só existem os quatro canais (…) Se queremos ir passear, temos de dizer a cinquenta pessoas onde é que vamos, a que horas vamos, porque é que vamos, a que horas voltamos, com quem vamos, e é se for autorizado sairmos, porque se algum deles decidir que não podemos sair seja porque motivo for, então não podemos sair e pronto. (…) Quer dizer, isto é um absurdo! E a comida! (…) Quer dizer, e se não quiser comer nada daquilo? Ou àquelas horas? E se não me apetecer comer nada sequer? Não, isso mexe comigo profundamente. E as horas do deitar e do acordar. Meu Deus, mas o que é isso! E se eu não quiser acordar àquela hora? E se quiser acordar mais cedo? Posso andar ali a fazer a minha vida, a despachar-me para depois ir fazer o que quiser? Ir logo tomar o pequeno-almoço? Ir passear? Ou se me apetecer ficar na cama, posso ficar a dormir até mais tarde? Quando acordar ainda vou ter direito a pequeno-almoço? E posso sequer? E se não houver nada daquilo que quero? Tenho que comer apenas o que há porque assim querem que seja? E tenho de comer naquele sítio, naquele refeitório, com aquele cheiro horrível a comida, a alumínio ou inox ou lá raio que parta que seja? Não, não. Então eu em casa às vezes acordo seja tarde ou seja cedo, vou fazer o pequeno-almoço que me apetece e às vezes vou comer na cama, com o meu tabuleiro, ou no sofá, a ver televisão, a ler um livro, seja no quarto, seja na sala, seja na cozinha! Como à hora que quero, o que quero, e como quero. Esta arbitrariedade é um poder gigante. É de um valor fenomenal que não tem preço. Que ninguém nos deveria poder tirar. É isto que nos faz ser quem somos, todos seres individuais uns dos outros, diferentes uns dos outros, com horários, gostos, vontades, desejos, tudo, tudo diferente uns dos outros. Porque é que teria de fazê-lo de forma igual a toda a gente? (…) E as pessoas, meu Deus, as funcionárias então… a forma como falam connosco! Ou falam de forma bruta, (…) ou infantilizam-nos de uma forma absurda! Não acho normal! E depois gozam com tudo, são mexeriqueiras, falam mal de tudo e de todos, das vidas das pessoas, não respeitam a privacidade que as pessoas têm, que por sua vez já têm de partilhar quartos não sei quantas outras pessoas, nem podem escolher com quem querem ficar ou se querem sequer partilhar o quarto! E os casais? E as pessoas que são homossexuais ou lésbicas ou seja lá o que for? Como é que essas pessoas vivem o dia-a-dia delas? Olhe, eu não sei se me sentiria à vontade para ser o meu eu todos os dias! E se me humilhassem? Se me andassem atrás de mim por causa disso? Opa, não, não acho que haja necessidade alguma de passar por algo assim. De todo. Até porque depois como é que fazia com o meu companheiro? Como é que vivíamos os dois a nossa intimidade? Podíamos ficar juntos no mesmo quarto? Podíamos ficar sequer juntos no mesmo lar? E podíamos namorar ali, como namoramos em casa? Podíamos fazer a nossa rotina, manter os nossos hábitos, fazermos as coisas que gostamos, que nos fazem felizes, irmos passear, comermos o que quiséssemos, onde quiséssemos e às horas que quiséssemos, como fazemos aqui em casa? E a nossa privacidade? Podíamos ficar a namorar? Podíamos andar de mãos dadas? Podíamos trocar beijinhos? Podíamos estar no quarto a fazer amor? Olhe agora o caso, íamos os dois para o mesmo lar, e vá, até podíamos ter o mesmo quarto, e por obra e milagre do Espírito Santo, até podíamos namorar, e agora de repente tínhamos interesse em criar uma relação novamente poliamorosa com outro elemento, que por acaso e pela raridade do mundo, também fosse homossexual, vá, ou bissexual, 99 ou transsexual que gostasse de homens, e que quisesse estar connosco porque se interessou em nós, porque demos abertura para isso, porque nos interessámos nele também, e os três, juntos, quereríamos criar uma relação a três! Acha que isso seria possível sequer? Não!! Mas é claro que não! Uma coisa dessas dificilmente é bem aceite no mundo de adultos aqui fora, quanto mais num lar onde há mais mentes conservadoras e preconceituosas que sabe Deus o que lhes passa pela cabeça! Não, seria muito complicado! Joaquim, 75 anos, homossexual, ll 342 – 413 (…) se puder ser eu a decidir, não vou, será a minha última opção. E logo atrás dessa fica a opção de viver na rua. (…) Porque pronto, o dinheiro é um problema, a minha reforma não dá nem para me governar sozinho, quanto mais investir num lar porreirinho. Mais que não fosse, onde desse para eu poder ser quem sou. Até podia não arranjar mais companheiros, coisa que já não faço aqui por respeito aos meus filhos, que prometi que não o fazia, mas ao menos não tinha de ter medo de que soubessem que gosto de homens, não é? Por isso acho que só resta poder viver aqui enquanto der, e quando não der, olhe moça, lá me resignarei para ir para o raio do lar, mas vou ter de mudar aquilo que sou. Pelo menos sempre me protejo de outra tareia ou seja lá do que for que as pessoas intolerantes fazem hoje em dia. Isto deve ir mudando com as gerações, sei lá. (…) não pretendo ter mais ninguém. Pronto, é assim, não é que não quisesse, porque até gostava de ser mais feliz, de voltar a viver o amor, e de fazer, e de ter noites acompanhado. Ter alguém ao meu lado. Mas assim é difícil. Até aqui em casa do meu filho, que é meu filho, quanto mais num lar, que ninguém me é nada. Acha que iam perceber? Que iam aceitar? Que ia poder namorar? É que isto os velhos ainda namoram, se é que me entende! Mas não, assim não dá… Porque estou sempre em guerra com toda a gente para poder ser eu feliz. E depois de tudo o que fiz os meus passar, não me sinto no direito de impor a minha felicidade à dos outros que sofreriam com isso, como os meus filhos. (…) A intimidade faz falta, começa a pesar ao fim de tanto tempo de solidão. Mário, 71 anos, homossexual, ll 440 – 498 (…) prefiro viver na minha casa, com a minha mulher! Como é que faria num lar? Quer dizer, não sei se há lares só para homossexuais, mas se houver, como é que faço para ir? As condições? Há vagas? Há restrições? E se não houver, vou para um lar “normal” que pode não aceitar pessoas com orientações sexuais diferentes? Não sei como é que isso pode funcionar bem… Porque até posso ser aceite por uns e não por outros… e depois, como é que lido com o conflito se tenho de viver ali? Não sei, não sei bem como é que isso pode resultar sem dar problemas… E a minha mulher? Poderíamos ficar juntas? É que esta questão para mim é a principal. Se precisarmos de um lar, uma de nós, a outra vai querer ficar lá, onde a outra está, a acompanhar todos os dias, como se vivêssemos em casa, percebe? Onde está uma, está a outra! O nosso diaa-dia, como é que ia ser? Acho que isso me assusta um bocado... Ela é o amor da minha vida, a minha alma gémea. Tudo só faz sentido com ela. Todas essas questões são importantes, de ter a minha casa, a minha rotina, a minha maneira de fazer as coisas, a minha comidinha que nem sempre é a melhor, reconheço, mas que me sabe tão bem… tudo isto mexe já comigo só de pensar, mas o que me aperta o coração é mesmo a questão da minha mulher, de se podemos ficar juntas ou não, e manter a nossa normalidade do dia-a-dia que temos aqui... Sabe, mesmo as coisas mais simples… o dar as mãos, estarmos agarradas, darmos uns beijinhos, termos a nossa 100 intimidade, tomarmos banho juntas, o trocarmos carinhos, a nossa cumplicidade, lermos os nossos livros no sofá, com as nossas pernas embrulhadas uma na outra, com a nossa mantinha na posição que mais gostamos… Quer dizer… todas estas coisas podem não querer dizer nada às outras pessoas, mas aquilo que significam para nós… Percebe? São as nossas rotinas, são tudo coisas que têm significados, sentidos, simbolismos para nós, e que talvez só nós duas percebamos, mas é nosso. É tão nosso que só faz todo o sentido do mundo ser assim. (…) Como é que ia lidar com a perda e a mudança de todas estas coisas? Tudo isto que tem tanto significado para nós? Sim, não só para mim, mas para a minha mulher também! Isabel, 69 anos, lésbica, ll 269 – 325 (…) Pretendo adiar essa possibilidade o mais possível. E digo possibilidade porque sempre me ensinaram que não podemos dizer que dessa água não beberei, porque não sei o que me aguarda no futuro. Amanhã acontece-me qualquer coisa e preciso de ir para um lar, e como é? Percebe? Mas não, é adiar o mais possível. (…) Mas sim, isso seria sempre eu a escolher, a não ser que estivesse chéché do dia para a noite e não pudesse decidir nada. Aí talvez fosse a única situação em que não dependesse de mim. Mas no que depender, sim, será uma decisão minha. Mas sim, fatores… Então olhe, tinha de ser algo que pudesse pagar, porque não sei qual será a minha reforma, mas tinha que poder pagar… Ham… Sim, tinha de ter as melhores condições possíveis, porque não passei tanto tempo na Polícia, a “dar o corpo às balas” pelos outros, para depois não usufruir da minha velhice em paz e no melhor possível. Ham… Idealmente teria de aceitar pessoas gays e afins, e se possível ser mais assim do que ter héteros. Ou até podia ter, desde que houvesse garantia de eles eram realmente compreensivos e tolerantes da diferença, para poder ser o que sou à vontade, ‘tá a ver? Ser eu… Ham… Que as pessoas ‘tivessem todas elas formadas para lidarem com a diferença, e não só com o não hétero, que acho que nem isso há assim uma grande formação. E não tratarem os velhos como se fossem idiotas cheios de baba à espera morrer. A formação, a educação, o conhecimento… todo esse tipo de coisas nesta área, acho que é preciso investir-se mais nisso, que é preciso mudar-se muita coisa ainda. Essencialmente acho que era isso que ia contar… E gostava de poder ter à vontade para poder ter intimidade se gostasse de alguém. Vá, privacidade, nos termos da palavra. António, 60 anos, homossexual, ll 358 – 381 De acordo com o observado, nos casos de associação negativa, percebemos que o receio da perda de privacidade, de intimidade e de liberdade, juntamente com o sentimento de opressão, leva que haja de imediato uma recusa da possibilidade de se ponderar uma futura institucionalização. A ideia de terem de alterar as suas rotinas, de terem de alterar os seus modos de vida, de terem de se submeter a horários, ordens e regras que não são as suas, ou pelo menos que não funcionavam do mesmo modo nos seus domicílios, de terem de escolher entre as opções de alimentação fornecidas sem sentirem liberdade para optar por outra escolha, manifestam-se ser das principais preocupações destes entrevistados, sendo pensamentos que os desagradam. 101 De igual modo, a preocupação da partilha de quartos com estranhos também parece assolar a mente dos nossos entrevistados. A ideia de se ter de partilhar um espaço que consideramos nosso, como algo privado, como algo íntimo, como um quarto, ou uma casa de banho, por exemplo, com pessoas que não conhecemos e que não nos dizem nada, pode provocar estranheza, desconforto ou um grande mal-estar na pessoa em questão. Uma vez que a maioria dos lares ainda apresenta na sua configuração um certo número de quartos para dois ou três indivíduos juntos (assim como existem quartos para mais pessoas ou quartos individuais, ou alas só para mulheres e outras só para homens), torna-se difícil não partilhar um quarto com outros indivíduos. Apesar de existirem quartos individuais, estes existem em menor número e por vezes têm custos mais elevados para a pessoa que o escolher, o que limita a escolha destes às pessoas com maior poder económico. Por sua vez, dada a afluência de idosos nos lares, motivada pela população cada vez mais envelhecida de Portugal, torna-se quase fisicamente impossível para algumas instituições criar apenas quartos individuais para os utentes. Neste sentido, tende-se a investir nos quartos duplos ou triplos (podendo ser ainda maiores), para se acolher o máximo possível de idosos na instituição. Todavia, de acordo com as representações dos entrevistados, este acaba por ser um dos problemas, principalmente ao nível da privacidade. 4. A privacidade e a exposição (in)voluntária ao outro Para os nossos entrevistados, a privacidade é um aspeto que tem muito peso, principalmente no que diz respeito à sua orientação sexual. Para estes, é fundamental que sintam que possuem um espaço só seu, em que possam ser eles próprios, que seja respeitado pelos outros enquanto espaço pessoal, que sirva de refúgio quando precisam de um momento ou mesmo para poderem ter a sua intimidade, a sós ou com outra pessoa de sua permissão para adentrar nesse espaço. Esta preocupação com a privacidade diz, portanto, também respeito à intimidade, ao respeito desta, nos momentos em que esta ocorre. A vontade de se querer ter intimidade com um companheiro é uma reação natural do corpo humano, pelo que daqui parte a inquietação respetivamente à forma como e quando seria possível fazê-lo numa instituição, principalmente entre pessoas LGBT. Portanto, todas estas inquietações se agregam às representações que os indivíduos já detêm acerca das instituições. 102 O encarar do desconhecido, leia-se, ir para um lar que nos é estranho, em que não se conhece ninguém, em que tudo é diferente, juntamente com representações baseadas por vezes em histórias ou conteúdo noticiário, levam a que a hipótese de se encarar esse desconhecido de forma negativa logo à partida. Adicionalmente à influência dos mass media e das histórias partilhadas, juntam-se as experiências vivenciadas pelos próprios na sua juventude, as quais se tornaram em momentos marcantes, que balizam agora a forma como encaram as instituições e a possibilidade de institucionalização, traduzindo-se maioritariamente em rejeição da ideia: “With diminished personal support networks, more lesbian, gay and bisexual people over 55 expect to rely on external services than their heterosexual peers as they get older. However, many have experienced discrimination with health and social care services in the past and this leaves them doubtful that these services will be able to understand and meet their specific needs in the future. (…) There is a severe lack of understanding about the particular needs of older lesbian and gay people, especially from some faithbased organizations that provide care services.”21 Neste sentido, a questão da orientação sexual é outra preocupação veemente relacionada com a temática da institucionalização. Muitos dos indivíduos LGBT receiam a ida para um lar também por receio de terem de expor a sua orientação sexual. A exposição de algo tão íntimo perante os outros, como a orientação sexual, pode ser uma situação constrangedora. No caso dos nossos entrevistados, estes passaram por essa situação maioritariamente na juventude ou já em adulto, sendo que não abordamos nenhuma história de vida que a pessoa não se tenha assumido nesse campo. Contudo, algumas pessoas não se assumem uma vida inteira com medo das represálias/consequências que daí possam advir. Ou ainda, como a Opus Gay refere com o seu projeto “Envelhecer Fora do Armário”, anteriormente referido, algumas pessoas assumem a sua preferência sexual durante a juventude e, posteriormente, quando necessitam de ir para uma instituição ou de depender de terceiros, passam a renunciar a sua sexualidade/orientação sexual – ou seja, “voltar para o armário”. Através dos seguintes excertos, poderemos observar a forma como os entrevistados passaram pela exposição da sua orientação sexual já na velhice perante outros indivíduos e/ou perante a sua entrada numa instituição de velhice. Uns 21 Estudo realizado pela Stonewall, através do YouGov, em Inglaterra, Escócia e Gales, em 2010: “Lesbian, Gay Bisexual People in later life”. www.stonewall.org.uk 103 renunciaram à sua exposição por vontade própria, outros assumiram por si mesmos, naturalmente, as suas preferências no que diz respeito ao gosto pelo outro, e outros ainda foram “assumidos” por terceiros (como por exemplo, familiares). Em qualquer dos casos, os entrevistados tentaram recorrer a estratégias para o fazer, considerando ser o melhor para eles, fosse para “dar a volta à situação” de exposição involuntária e vulnerabilidade, fosse para se assumirem por si próprios, ou ainda para se esconderem perante o outro. Atente-se nos testemunhos: (…) A estratégia acho que passou mais por aqui, por uma coisa mais deste nível. Procurei informação sobre os lares que visitei assumindo que sou bissexual, porque assim via logo as reações e como me poderiam tratar logo à primeira vista. Depois cá dentro sou eu próprio. Não ando aí com um papel na testa a dizer que sou A, B, ou C, mas também não me escondo. E se alguém tiver alguma questão, que ma faça diretamente, porque é assim que eu funciono. Claro que tive… e às vezes ainda tenho… tenho medo de algumas represálias, de poder ser discriminado, de ser maltratado… Porque infelizmente ainda há muita gente conservadora e com mentalidade retrógrada, que não aceita as diferenças dos outros, e que quando conhece pessoas diferentes podem fazer-nos mal, e disso sim, eu tive medo, e dependendo das pessoas às vezes ainda tenho, mas ainda assim já passei demasiado tempo confuso sobre aquilo que eu devia ser e neste momento, que sei aquilo que sou, acho que não tenho que me esconder. Não provoco ninguém, nem espeto nada na cara de ninguém sobre aquilo que sou, não ofendo ninguém, mas também não me escondo. Acho que cheguei a esse direito ao fim de tanto tempo de vida, não é? Francisco, 76 anos, bissexual, ll 342 – 354 (…) Ali, vejamos, é como que se uma pessoa fosse depositada numa última casa, numa última etapa da sua vida, à espera de o dia final chegue. E até lá, ficamos à mercê dos outros e somos tratados como bem lhes apetecer, conformo os humores diários. Principalmente se se for dependente. Se formos diferentes, é mais um motivo de destaque para alguém agarrar e implicar connosco, para nos rebaixar, humilhar, sempre que surja a oportunidade. Não sei se me esconderia, talvez não o quisesse porque sempre lutei contra isso toda a minha vida, mas que tinha medo das consequências dessa decisão, tinha, sim. Mas lares para mim nunca. (…) É que uma pessoa chega ali e os utentes são todos tidos como iguais. É tudo heterossexual, tudo solteiro, sem vontade de fazer relações, sem vontade de fazer coisas diferentes do que pintar, jogar dominó ou cartas, fazer trabalhos manuais, ou tricô, e sempre com vontade de se comer as mesmas coisas. (…) A maioria dos lares não tem formação do pessoal para lidar com isso, para respeitar, aceitar, apoiar e fornecer condições de segurança para isso, e depois as próprias estruturas também não estão preparadas para isso. Ana, 82 anos, lésbica, ll 799 – 831 (…) A minha preocupação maior sempre foi a questão de se saber que eu sou transsexual. Saber qual o impacto que isso poderia ter, tanto para mim, como para o meu marido, como para as pessoas da instituição que escolhêssemos, funcionários e residentes. Haveria respeito? As pessoas da instituição foram formadas para lidarem com estas questões? Haveria tolerância pela 104 diferença? Haveria mais pessoas como eu? Com histórias como a nossa? Ia encontrar tolerância ou preconceito? Tratar-me-iam de igual forma ou seria discriminada? Eram tudo questões que tiveram o seu quê de peso na hora da nossa decisão. (…) E dado que já passei por tanto, de bom e de mau, mas muito de mau, é natural que receie ceder tudo o que é meu, mesmo por opção, porque na verdade nunca sabemos quem vamos encontrar. É que lá está, há sempre medos, passamos sempre por coisas que nos deixam ou com traumas, ou com receios, ou com experiências menos boas, sejamos LGBT ou não, Mas ainda mais quando somos LGBT, e lá está, isso ainda que achemos que as ultrapassamos, vão sempre pesar em decisões importantes, como estas, na escolha de algo tão importante, e ao mesmo tempo simples, quanto um local para viver. E isto pesou, claro que sim. Por isso antes de decidir, decidimos informarmo-nos e vir cá saber tudo, como se processava tudo, saber coisas particulares, como o nível de tolerância, o modo como tudo funcionava, o que estava incluído pelos preços, que opções tínhamos, etc., etc., e até acabei por me sentir tão à vontade que acabei por explicar a minha situação e os meus receios, as minhas dúvidas e preocupações, que foram todas esclarecidas ternamente pela senhora que estava lá a atender-nos. Senti-me tão bem que o meu marido concordou e decidimos vir para cá, está a fazer seis meses. (…) durante o dia-a-dia sinto que tudo é normal, que não sou olhada de lado, que não sou discriminada, que não sou alvo de preconceitos. Bem, até pode ser que os haja, mas não me fazem sentir mal. Paula, 73 anos, transsexual, ll 605 – 640 (…) Quando vim para aqui, a minha irmã foi falar com a senhora Diretora, e sem eu querer ou ter opinião sobre o assunto, ela disse-lhe que eu era homossexual, sem me avisar ou perguntar sequer. Não é que eu fosse esconder, quer dizer, se calhar, não sei, mas tinha de ser uma decisão minha, não dela. E claro que fiquei logo assustado. Sempre se ouviu falar de como os velhos eram tratados, quanto mais os gays. O que é que eu ia fazer à minha vida? Iam maltratar-me? Ia ser desrespeitado, humilhado, posto de parte? E quem é que me ajudava? Estava sozinho. Sei lá, passou-me tudo pela cabeça. Porque ainda para cima, estando mais dependente, porque como estou numa cadeira de rodas tenho de depender mais dos outros para certas coisas, mas estando mais dependente, saberem que eu sou homossexual… e se fossem preconceituosos, homofóbicos ou odiosos ou fosse o que fosse, iam fazer-me mal? (…) os próprios velhos são intoleráveis face a essas coisas, não aceitam. Podem fingir que não se importam porque apenas têm medo de arranjar confusão, mas são raros aqueles que realmente não se importam com isso. Há que perceber também que eram outros tempos, por isso também têm outras cabeças, mas ainda assim é complicado. Não era uma decisão que lhe cabia. (…) mas afinal os meus medos não precisavam de ser assim tão fortes. Quando o processo de entrada ficou concluído, se assinou tudo e se tratou de tudo, a minha irmã foi-se embora e a senhora Diretora quis falar comigo, só nós dois. Pensei logo que aquilo ia dar merda (…) Pensei que ia advertir-me logo ou pôr-me no lugar, sei lá, passou-me tudo pela cabeça. Mas afinal não tinha razões para isso. Afinal a senhora Diretora era uma pessoa aberta e compreensiva e falou comigo abertamente sobre o que eu sentia, sobre a minha situação, pela minha versão da história, sobre os meus medos, sobre o que é que eu esperava encontrar, sobre as maneiras de agir e pensar das pessoas que ali estavam e trabalhavam, como eram os outros utentes em relação a esse tema… Ham… Ah! E que havia 105 outro senhor que era homossexual também, mais velho que eu, mas que sabia que isso não queria dizer nada, apenas para eu saber e sentir que não era diferente ali, não era o único, mas que pronto, era como tudo, que podíamos nem nos dar bem, quanto mais surgir dali algo… Bom, tudo isso. Manuel, 66 anos, homossexual, ll 322 – 351 Até aqui os nossos entrevistados passaram por diversas situações que os obrigaram a recorrer a diferentes estratégias. Seja por exposição involuntária, derivada de familiares, amigos ou colegas, seja por exposição voluntária, em que se decidiram assumir a alguém em especifico ou no geral, os nossos entrevistados tentaram sempre resolver a situação da melhor maneira e “dar a volta por cima”, tanto no caso das situações mais negativas, como das situações mais positivas, tentando adaptarem-se às reações e consequências que daí resultassem. Atente-se nos restantes relatos dos outros casos de exposição da orientação sexual: (…) finalmente sinto a minha sorte a mudar, devido a uma pessoa que me ajudou como um anjo, a Diretora desta instituição. Para mim é o meu anjo. Devo-lhe muito. Desde o momento em que lhe contei a minha história, o que sou, como me sinto, como queria ser vista… tudo! Foi impecável! Até agora tem sido tudo muito pacato. Noto alguma renitência e reserva das pessoas que trabalham diretamente comigo, que me ajudam, que me “servem”, que me fazem seja o que for, noto que há cautela, que há cuidado e receio comigo, como se tivessem medo de eu passar seja o que for só pelo ar, ou pronto… Mas sim, há de haver sempre algum preconceito, mesmo que não queiram transparece-lo, mas há. Sempre. Ainda para mais sendo eu a transsexual cá do sítio. Passei a ter de me vestir de forma mais masculina, mas dentro do meu quarto posso estar vestida como quiser. Combinámos isso porque há muita gente velha aqui e são suscetíveis a essas coisas, por isso resguardo o meu verdadeiro ser e querer ser para a minha privacidade do quarto. Aí posso estar vestida de mulher, ser mulher, e passar os meus tempos livres ou na cama ou no cadeirão/sofá a ler, mas cá fora não posso andar assim. Posso até passar mais tempo no quarto do que os outros por causa disso. Foi esse o acordo. Principalmente para não criar problema nem preconceitos nem nada do género. Acedi porque também não quero viver mais na rua. Foi um meio termos e todos temos o que queremos e precisamos de algum modo. Foi melhor assim. E felizmente não tenho tido assim… ham… vá, problemas. (…) Continuo a ser a mulher-homem, homem em público, mulher em privado, ainda que quisesse ser sempre mulher em cem por cento do tempo e ser reconhecida pelos outros como tal, mas pronto, como te disse, foi o meio-termo que se arranjou para a condição de eu ficar aqui, algo que eu queria muito, porque não queria voltar para a rua. Se voltasse, sei que não duraria muito tempo a voltar a entrar na vida que tinha, na droga e na prostituição, e não queria isso para mim outra vez. (…) E acho que me sinto verdadeiramente feliz aqui. Com este meio-termo todos temos o que queremos e finalmente tenho um teto sobre a minha cabeça, comida, higiene, privacidade, respeito dentro do possível, tratamento de uma doença que nem sabia ter… Não, prefiro assim realmente. Maria, 62 anos, transsexual, ll 534 – 567 112 homens, ou ainda de Ana, que foi humilhada, traída, arrastada para uma relação a três sem saber e forçada a fazer sexo quando não tinha vontade, ainda que não encare como violação). Contudo, para estes nossos entrevistados, a sexualidade continua a ter importância, conferindo-lhe um papel fundamental na vida e no bem-estar do ser humano (para quem assim o entender), apenas não para eles próprios. Nos restantes casos, as experiências revelaram-se mais positivas e não tão marcantes, pelo menos no sentido negativo. De facto, por terem vivido experiências positivas ao longo das suas vidas, por terem experienciado momentos mais intensos, estes continuam a atribuir importância à sexualidade nesta fase de velhice, ainda que uns mais do que outros, naturalmente. Com diferentes frequências, com diferentes intensidades, e com diferentes parceiros, a sexualidade continua manifestar-se na vida destes seniores que, agora mais do que nunca, necessitam e prezam a sua intimidade e privacidade para se sentirem satisfeitos, onde a orientação sexual continua a pesar, principalmente num lar. (…) quero e faço questão de continuar a namorar, e muito, a usufruir, a viajar, a viver bem, e a partilhar tudo com o meu companheiro. Estamos juntos desde a nossa relação a quatro e por isso… Claro que a sexualidade continua a ter muito peso. Foi o meu companheiro desde sempre, e sempre tivemos uma sexualidade muito forte, muito ativa, muito intensa. Tanto ele como eu. E repare, praticamente tudo que aprendi, foi com ele, não é? (…)descobri tudo pela primeira vez, que aprendi tudo, que aprendi como amar outro homem. E mantemo-nos juntos até hoje. Por isso sim, para mim mantém-se como uma coisa importante, e creio que se há de manter sempre, porque o sentimento é muito forte. Joaquim, 75 anos, homossexual, ll 433 – 445 (…) Eu vivo para mim. E para os meus filhos, mas é diferente. A gente quando quer ter alguma intimidade e não podemos, viramo-nos para a nossa satisfação, pronto. É normal, no meu caso então há muito tempo que não tenho ninguém. Desde esse rapaz, desde que acabamos a nossa relação. A intimidade faz falta, começa a pesar ao fim de tanto tempo de solidão. (…) tem, claro que tem importância. Privei-me por respeito e promessa aos meus filhos. A frequência desapareceu não é, por causa de tudo isto que lhe disse, da promessa de não ter mais ninguém, mas claro que faz falta na mesma. Não sei como é que são as outras pessoas, mas eu sinto saudades de ter intimidade, essa intimidade, com quem nos faz feliz e sentir bem. Claro que é importante. Faz parte da gente, do ser humano, não é? Pronto, para mim é importante. Mas não tendo outras pessoas, olhe, foco-me em mim. Mário, 71 anos, homossexual, ll 499 – 511 (…) A nossa intimidade é muito importante para mim. Sem dúvida. Para nós, aliás. Nós gostamos muito de namorar, e… ham… pronto, manter a nossa sexualidade viva. Faz sentido para nós, somos o amor da vida uma da outra, queremos sempre estar juntas, queremos manter a nossa faísca acesa. Não está bem a ver, nós quando estamos juntas, a atração física, as faíscas 113 que soltamos, são completamente visíveis a olho nu. O desejo que temos uma pela outra é completamente notório. Todas as pessoas que estão connosco dizem-nos sempre o mesmo. Por isso… não sei, não sei o que lhe diga. Sei que a sexualidade vai variando com a idade, com as fases das nossas vidas, com o que vamos passando, mas acho que a nossa… muito honestamente… acho que se tem mantido igual. Talvez até melhor, porque agora, e com o passar dos anos, conseguimos ir aprofundando o conhecimento do corpo uma da outra e… pronto… sabemos o que cada uma gosta mais, o que queremos… Esse tipo de coisas. Não lhe digo que faça todos os dias, porque há dias que temos coisas para fazer (…) não, não vou ser hipócrita e dizer que sim, porque não faço, mas…. Mas fazemos muito frequentemente, sim, isso sim. Por isso sim, é um fator para nós, seria algo que pesaria muito também se fosse para um lar… Lá está, primeiro tinha que ter a minha mulher comigo, e depois… Pronto, gostaria de ter o meu quarto, o meu espaço, a minha casa de banho, a minha zona de refeições, a minha privacidade… Gostava de poder até estar de mãos dadas com a minha mulher, apenas isso, sem resultar em opressão ou conflito por parte das outras pessoas, quanto mais conseguir ter privacidade para poder fazer amor! Não sei se isso seria possível, se dá para as pessoas terem a sua privacidade, terem o seu quartinho como casais, estarem juntas sem serem interrompidas ou…. Não sei. Mas no meu caso sei que gostaria de poder ter um espaço só meu e da minha mulher, sermos respeitadas por sermos como somos, e podermos estar juntas nesse sentido. Nesse e em todos. Não sei como funciona, mas eu pelo menos gostaria de que fosse assim, no mínimo… Isabel, 69 anos, lésbica, ll 383 – 410 (…) É assim, não vou ser aqui todo politicamente correto… Ham… O sexo faz falta. É importante para nós, pessoas e animais. Não é só para a reprodução, como a igreja ensina, percebe, claro que também é importante para isso, mas também é para o prazer, para sermos felizes, para nos satisfazermos. Eu… Ham… Para mim tem importância. Continua a ter importância, mesmo não tendo relações mais frequentes ou mais sérias, ou mais duradouras, seja. Serve-me para ter relações casuais, para ir satisfazendo a vontade de estar com alguém, a necessidade de sentir a proximidade do outro, do toque, do calor do corpo… Mas sim, já não faço com tanta frequência, mas também nunca fiz assim muito. Fazia poucas vezes com a minha mulher, como disfarce e por obrigação (…) Depois tive a relação com o meu amante, que aí sim, fiz muitas vezes, tantas quanto pude, até a relação der dado para o torto, mas também valeu o que valeu. Valeu mais por ter sido o meu primeiro em tudo, a começar pela entrada no mundo homossexual. Teve mais peso por aí. E depois pronto, fui tendo relações mais casuais depois desse desgosto. Mas claro, o sexo tem sempre importância. É claro que se calhar para mim tem mais importância do que para outras pessoas, ou menos, em comparação a outras pessoas, mas tem sempre. E para mim não é exceção. É algo que nos faz sentir bem, bem no geral, connosco próprios também, mas pronto, cada um é como é. Ham… E sim, num lar também é uma coisa que faz falta. As pessoas que vivem num lar têm diversas idades, não são só pessoas a morrer de velhice. E mesmo assim continua a haver essa necessidade. Eu tenho sessenta anos, caminho para o aumento da idade, e não me vejo a perder o interesse nesse sentido. Posso se calhar não fazer com tanta frequência, ou não conseguir fazer sozinho e precisar da ajuda de um ou outro 114 medicamento, gel, pomadas, tudo o que vai existindo para melhorar a vida sexual de uma pessoa, seja de que idade for, e posso se calhar até já não fazer sexo da mesma maneira que fazia quando era mais novo, que de certeza que isso vai mudar, mas sei que a sexualidade continua a ter importância nessa fase da nossa vida. Não é por estarmos velhos, mais velhos a cada dia que passa, que vamos perder tudo a que temos direito, que vamos obrigatoriamente perder o interesse em tudo aquilo que nos faz felizes. António, 60 anos, homossexual, ll 388 – 421 Como pudemos observar, portanto, a sexualidade na velhice, ainda que possa diminuir na sua frequência, ainda revelou manter algum peso e importância na vida dos entrevistados. De acordo com os mesmos, a vontade sexual, é uma componente que faz parte do ser humano e que é normal manifestar-se em diferentes fases da vida, mesmo na velhice, e não só na juventude. O desejo, a atração, a sedução, a intimidade, os carinhos, as trocas de carícias, ou o simples dar as mãos, continuam a fazer parte do seu quotidiano nesta fase das suas vidas. Para alguns dos nossos entrevistados, a importância da privacidade acresce precisamente por haver necessidade de momentos de intimidade, seja a sós ou com o(s) parceiros(s), embora não se cinja completamente a esta razão, o que declaram não ser fácil numa velhice heterossexual, e muito menos numa velhice LGBT, em que tais comportamentos são encarados com maior estranheza. A preocupação surge pelo receio de, ao ingressarem um lar de velhice, perderem o direito a esta privacidade/intimidade, ideia que vigora sobre as instituições, de acordo com os mesmos, e não terem liberdade para ou manterem as relações que trazem da vida não institucional (no caso dos casais que entrem em conjunto numa instituição), ou para encontrarem alguém novo dentro da vida institucional com quem possam criar uma nova relação, caso surja oportunidade. Esta ideia de proibição, ainda que visível em algumas instituições, não é aplicável a todas. No caso dos entrevistados Francisco, Paula e Manuel, as instituições revelam uma atitude diferente, sendo que para além de permitirem e compreenderem, ainda promovem a compreensão e naturalização dessa componente entre os trabalhadores e os utentes. 5.1 Comportamentos sexuais de risco Pela importância que os nossos entrevistados revelaram atribuir à sexualidade, decidimos também questioná-los acerca das suas noções relativamente aos comportamentos sexuais de risco. Uma vez que algumas instituições não permitem este contato, ou as que permitem por vezes não estão preparadas para lidar com esta matéria, 115 acaba por não se promover uma intimidade segura para aqueles que assim o desejam concretizar. Dentro das instituições que visitamos para entrevistarmos os nossos entrevistados, reparámos que, tirando a instituição onde reside a terceira entrevistada, não existem campanhas de segurança (ou as que existem são insuficientes) no que diz respeito à sexualidade na velhice, ações de promoção de métodos contracetivos seguros, informação esclarecedora no que diz respeito a esta temática. Não é que tal não exista dentro da instituição, mas quando abordados sobre esta temática, obtivemos poucas respostas. Esta ausência de informação acaba, por sua vez, por contribuir para que, quando os seniores desejam ter momentos de intimidade, muitas vezes às escondidas, que acabem por se submeter a comportamentos sexuais de risco, desvalorizando o peso das doenças sexualmente transmissíveis (DST), como o HIV, a gonorreia, a herpes genital (não só genital), a candidíase, entre outras. Atente-se nos seguintes testemunhos: (…) estamos no meu quarto, sem qualquer problema, e se alguém entrar a meio é porque me esqueci de fechar a porta, ou porque entrou sem bater, sem autorização para entrar, porque só entram se eu deixar. E se entrar sem autorização, se fez isso, de certeza que da próxima bate, depois de ver o que viu! Mas não, por acaso comigo nunca aconteceu nada assim desse tipo, e também não o permito, e é importante deixarmos logo essas barreiras explícitas desde início. Isso de se ter de fazer amor tudo muito rápido, sem se preparar nada… não, acho que temos de nos precaver e preparar tudo! Tudo com segurança porque estamos velhos mas não estamos mortos, não estamos acabados! Mas no dia que acontecer, exijo medidas, então!? Francisco, 76 anos, bissexual, ll 481 – 489 (…) Como profissional da área de saúde tinha mesmo que ter essas noções, não é? Olha agora o que era eu incentivar duas pessoas a exprimirem a sua sexualidade, a instigar ao amor, e depois não lhes dar condições de segurança para isso? A verdade é que nós não conhecemos as pessoas, nem as que temos ao nosso lado, e às vezes uma vida inteira, quanto mais! Já viu o que era agora promover relações sexuais sem segurança, e algum apanhar uma DST? E depois? E se depois ainda passassem a mais alguém? Olhe o que eu fazia à minha vida? E à dos outros, claro! Não, não, não! Tudo com segurança! Se é para haver, que seja com segurança! E eu que o diga, que hoje estamos com alguém que nos quer muito, que somos tudo para essa pessoa, e logo a seguir somos abandonados, porque os parceiros ou as parceiras depois andam com este e com aquele, e depois somos deixados com uma DST nas mãos. Felizmente não me foi o caso, porque me protegi sempre, mas poderia não ter protegido e olhe, sabe Deus o que poderia ser. Era mais uma para o meu historial médico. Sim, porque no calor do amor e do momento dizemos que sim a quase tudo, e depois é que são elas. (…)nunca conhecemos quem temos a nosso lado. Porque já viu, nós lá ainda tivemos relações e provavelmente ela já andava metida sexualmente com o outro e comigo ao mesmo tempo. Sei lá eu como é que o outro tem as relações dele! Se se protege, se não, quantas parceiras teve, se passou algo à minha companheira na altura… já viu, 116 se não me protegesse, corria sempre um grande risco sem necessidade! Não, não acho que valha a pena correr esses riscos. E é que enquanto enfermeira vi cada coisa… Tratei de muitas DST’s, e bem vi o horror que aquilo era, de aspeto, de tratamento, de embaraço, de dor, de tudo… não há necessidade, não é? (…) Mas pronto, isso também é lá com a vida de cada um, por isso… Cada um sabe de si, e Deus sabe de todos, não é o que se costuma dizer? Pois muito bem. Ana, 82 anos, lésbica, ll 919 – 956 (…) eu no meu caso ainda mantenho relações sexuais com o meu marido (…) e acho que mesmo o pessoal da instituição está preparada para aceitar a ideia de haver relações sexuais entre o pessoal residente, porque até Viagra têm disponível para requisição, por isso… E preservativos também! É verdade, já me passava essa! Nós atualmente já não usamos tanto, somos companheiro há 30 anos e sempre tivemos uma relação monógama, e enquanto mulher também só estive com ele, pelo que também fizemos exames na altura e estava tudo bem e acabámos por deixar de usar tanto, mas sei que é muito importante e que deve ser um item que nunca deve faltar nas relações, a verdade é essa. Mas acho que quando se está há tanto tempo junto como estamos, que se passou pelo que nós passámos, que só queremos e estivemos um com o outro… começa a não fazer tanto sentido. Ainda por cima eu também não posso engravidar, por isso… Mas pronto, temos noção de que há riscos, mas nós somos precavidos e aqui também há precauções à venda para quem quiser! Paula, 73 anos, transsexual, ll 716 – 733 (…) Bem, é assim, primeiro… ham, eu não acredito em relações sexuais com vários parceiros ao mesmo tempo, ou seja, eu e o [nome do companheiro], que é o meu companheiro, só estamos um com o outro, mas sim, ham, sei que isso não chega, até porque não sabemos quem já tivemos na vida um do outro, mas sim, sou honesto e assumo que nem sempre usamos. É verdade. Ham… Por vezes conseguimos comprar ou pedimos aqui, que se pedirmos compram-nos, mas sai do nosso bolso, mas pronto, compram, mas por vezes quando não há… olhe, nesses momento acabou por não dar para esperar e não se usou. Por isso é assim, é um misto. Tenho noção que existem doenças, que há essas coisas todas, que não acontecem só aos outros, mas por vezes pensamos: “Ah, é só desta vez! Também não faz mal nenhum, já estamos juntos há algum tempo e só estamos um com o outro.” E pronto, acabamos por não usar. Mas eu sei que é um erro. Mas também olhe, já está, já está. Até agora ainda não morri, e quando morrer, sei que agora fui feliz. Manuel, 66 anos, homossexual, ll 492 – 504 (…) Pronto, quando foi ou onde não sei, mas quando este lar me aceitou, depois de ter dado a conhecer a minha história e de ter tratado de tudo para ficar aqui, tive de fazer exames, principalmente para garantir a veracidade da minha história de estar limpa da droga, e tudo mais, e nesses exames descobri que tinha contraído HIV. Lá está, quando e onde ou com quem, não sei, não faço ideia, porque fosse nas festas que ia, nas noitadas que tinha e que fazia, na prostituição, na droga ou na prisão, ham, das vezes que fui forçada a ter sexo, ham, nem sempre tive cuidado. Nem sempre tive sexo protegido. Fosse pela droga que me toldava o juízo do que deveria fazer ou não, para me proteger a mim, e mesmo os outros, mas principalmente a mim, ou fosse por, sei lá, pela excitação que me fizesse ficar cega e esquecer as proteções... E pronto, não 117 acontece só aos outros. Infelizmente, aconteceu-me a mim. Não é que desejasse aos outros, mas também não o queria para mim. E agora sei lá quem é que me passou e a quem é que eu passei. A quem pude e consegui, contactei e falei, falei e disse o que se passava, para fazerem exames… claro que criei o caos, e tenho criado porque ainda contacto pessoas, tento fazê-lo, mas não é fácil. Nem encontrar as pessoas, nem dar as notícias. Mas também, ainda que tenha vergonha, sei que tenho de o fazer. Principalmente para evitar o contágio e o espalhar da doença. Eu não sabia que tinha. Muitos que também têm se calhar também não sabem. Por isso tenho que fazer o meu papel e lutar para tentar controlar um pouco essa disseminação desenfreada da doença. Ainda por cima HIV… meu Deus… Em jovem não quis saber, só descobri em quase velha, e olhe, agora sim, tenho noção dos riscos porque os vivo na pele. Maria, 62 anos, transsexual, ll 473 – 494 Até aqui podemos notar que os nossos entrevistados revelam deter noções sobre os comportamentos sexuais de risco. Apesar de terem esses conhecimentos, confessaram ter tido pouco cuidado em algum momento das suas vidas. Fosse por descuido, fosse por inconsciência, fosse por influência, fosse por desvalorização, fosse por vergonha de comprar métodos contracetivos, fosse por necessidade de reprodução ou por viverem relações polígamas sem consciência num momento inicial, acabaram por praticar sexo desprotegido e exporem-se aos perigos que daí possam advir. De tal é exemplo o caso de Maria que, antes de ter sido violada, também confessou não ter tido cuidado nas relações sexuais que tinha. Quando começou a consumir droga e a prostituir-se, aceitava fazer sexo de qualquer forma para poder lucrar mais, o que a levou a expor-se ainda mais aos perigos do sexo desprotegido, mesmo tendo conhecimento destes. Posteriormente, foi presa e aí violada diversas vezes, pelo que não tem a certeza do momento de contágio da doença sexualmente transmissível de que foi alvo, nem a certeza da pessoa que lho possa ter passado, nem mesmo de quantas pessoas pode ter ela infetado posteriormente. Atualmente, e longe de uma vida de drogas e prostituição, por ter noção dos perigos em primeira mão, pôs a prática sexual de parte e valoriza imenso a proteção neste campo, incentivando outros. Portanto, o que podemos destacar até aqui é que os nossos entrevistados têm, de facto, conhecimento sobre as práticas sexuais e os comportamentos sexuais de risco, sabendo o que devem fazer para se proteger. Contudo, por diversos motivos, como foram acima mencionados, e em diferentes momentos das suas vidas, nem sempre insistiram nessa proteção. Quando confrontados com as possíveis consequências, foram invadidos por uma sensação de preocupação e medo. Esta falta de cuidado, no entanto, ainda se verifica nesta fase de velhice, seja por vergonha de pedir contracetivos, seja por 118 receio de serem julgados ou humilhados, o que potencia uma maior disseminação de doenças sexualmente transmissíveis. Atentemos ainda nos restantes casos: (…) sei que os riscos existem. Eu com a minha mulher, aliás, ex-mulher, usei sempre preservativo, tivemos sempre precaução, até percebermos que queríamos ser pais e que éramos exclusivos. Aí deixamos de usar precauções. Mas por exemplo, quando descobri que ela estava envolvida com o terceiro elemento, por acaso a grande preocupação que tive foi se ela usava proteção, não só porque não queria que o filho que queríamos ter fosse de outra pessoa, como também não queria depois saber que tinha apanhado alguma doença que fosse por causa deles. Na altura exigi fazermos exames a tudo nesse sentido, para descobrir se ela tinha sido sincera quando me disse que tinha usado sempre proteção, e para saber se estava eu mesmo salvaguardado nesse sentido. Os exames chegaram, e deram todos normais, ou seja, nenhum de nós tinha contraído nada em termos de doenças. Depois quando se decidiu que o terceiro elemento iria juntar-se a nós na relação, ou seja, o meu atual companheiro, desde essa altura, também ele se submeteu a exames para se tirar tudo a limpo e se garantir que não haveria surpresas nenhumas depois para nós. Os resultados vieram e também deram todos como normais, dentro do expectável. Ainda assim, decidimos usar sempre preservativos entre nós, porque foi mesmo uma exigência minha. Porque é assim, se de dois passamos a três inesperadamente, então qualquer um poderia acabar por se envolver com outro qualquer e haver desproteção nesses momentos. Logo, assim estaríamos sempre protegidos dentro da nossa relação. Ou seja, como entre nós os três usávamos sempre preservativo, a não ser eu e a minha mulher quando era para engravidar, assim estaríamos sempre precavidos se tivesse havido algum deslize por parte de algum de nós com outra pessoa qualquer. E ainda bem que assim foi, porque assim sempre nos protegemos fielmente. E pronto, depois quando apareceu o quarto elemento repetimos o processo todo. Todos fizemos exames, nós os quatro, e continuamos a usar preservativo entre todos. Depois, pelo menos anualmente fazíamos sempre exames de rotina para garantir que todos estávamos bem de saúde e que não seriamos riscos uns para os outros. Aliás, ainda agora, com o [nome do companheiro], continuamos a fazer isso. Usamos preservativo, ainda que seja honesto e haja algumas vezes que passem esquecidas, tenho que dar a mão à palmatória, e também continuamos a fazer exames anualmente para garantirmos a nossa saúde. (…) Mas tentámos e tentamos sempre ter esse cuidado. Joaquim, 75 anos, homossexual, ll 448 – 480 (…) Sim, oh, a gente sempre teve cuidado. Quer dizer, houve algumas vezes que não usámos proteção. Mas isto porque toda a gente sabia ali da vida uns dos outros. Se eu fosse à farmácia ali da zona, se fosse comprar preservativos, logo a seguir ou ao fim do dia, já se sabia que eu tinha comprado. Depois se não usasse com a minha mulher, havia falatório. E isso sabia-se porque bastava alguém ir ter com ela e perguntar se a noite tinha sido boa, como chegou a acontecer, ou ela ir depois à farmácia comprar remédios para os putos e depois perguntarem-lhe se ela tinha gostado dos preservativos que eu tinha levado, se tinha sido uma boa noite. (…) As pessoas daqueles meios sabem tudo, falam de tudo, têm de saber da vida de todos. (…) tive de passar a comprar fora ali da zona, onde não me conhecessem, para poder comprar sem ser apanhado e 119 falado por isso. E comprava logo algumas embalagens, dentro do possível, para evitar também ter de justificar as voltas extras e longas dali. Porra, que ali tudo se sabia e se falava. Mas pronto, quando dava, usávamos, quando não dava, não usávamos. Mas também só tínhamos relações os dois um com o outro (…). Mário, 71 anos, homossexual, ll 516 – 539 (…) eu tenho noção, sim, de que existem doenças sexualmente transmissíveis, de que há muita porcaria prontinha a ser passada uns pelos outros, sim… mas… Ham… Bem, não sei se sabe, existem preservativos femininos. Existem já há uns vinte e poucos anos, se não estou em erro… Mas pronto, nem sempre era fácil encontrar-se um, ou nem sempre dava tempo de se usar, ou às vezes havia vergonha de se usar ou mesmo de se ir comprar… Por isso, sim, eu tenho noção sim, dos riscos, do que existe, dos cuidados a ter… Pronto, sempre fiz o melhor que pude, sempre usei o melhor que encontrei e pude usar, e sempre tive cuidados com as minhas parceiras todas. Mas pronto, houve vezes que… ham… pronto, devia ter tido mais cuidado. Percebe, não é? Ham… Mas também com a minha mulher já estamos juntas há trinta e quatro anos, já não tivemos mais parceiras desde aí, e também só temos uma relação as duas, por isso… Sei que uma relação monógama ajuda na diminuição do contágio de doenças, mas que mesmo assim é preciso haver cuidado, mas pronto, acho que quando se está há tanto tempo numa relação como nós, da maneira que nós estamos, que vivemos mesmo uma para a outra… Esses cuidados ficaram um bocado de parte… Ham… Mas pronto, sim, tenho noção de que há riscos, de que há doenças, de que há também pessoas maldosas que sabem que têm doenças e que fazem questão de não usar proteção quando têm relações sexuais com outras pessoas… (…) Nós no nosso grupo de amigos não os julgamos, porque não somos ninguém para o fazer, não somos melhores nem piores, mas lá está, é aquele tal pensamento de que só acontece aos outros. Mas que mesmo assim, quando temos casos mesmo à frente do nosso nariz, que às vezes nos puxam para a noção da realidade, e ainda assim não temos sempre tanto cuidado como deveríamos ter… Mas tenho noção sim. Plenamente. Isabel, 69 anos, lésbica, ll 413 – 445 (…) Comportamentos sexuais de risco? Ham… Sim, sei o que isso é, sim. Claro que sim. A ideia que tenho foi das coisas que vi e soube através dos anos, ao longo dos anos que vivi e fui tendo relações, que fui conhecendo pessoas e as suas histórias… Eu com o meu amante tive relações sempre protegidas, mas com a minha mulher não tinha. Por sua vez, a minha mulher não teve relações protegidas com nenhum dos dois, fazia coito interrompido, porque o preservativo provoca-lhe irritações na área genital. Ham… Portanto, acabava por não ficar protegido à mesma. Depois de saber disso fui fazer exames, em pânico, não é, porque nessa altura ouvia-se muito falar em doenças passadas pelo sexo, altamente contagiosas e resistentes, como a Sida, havia um grande número de casos de Sida que começavam a ser cada vez mais falados, e começou-se a ver o que é que isso provocava, não é, mortes lentas, dolorosas, em que qualquer pessoa olhava para nós e sabia logo que estávamos doentes, porque era uma coisa visível de aspeto, e era terrível. (…) Muita coisa mudou. E isso acho que ainda se torna mais um risco. É uma doença que antes era visível, que antes se dava para nos fazer aperceber que a outra pessoa não estaria bem de algum modo. Isso evitava que houvesse sexo até, quanto mais desprotegido ou não. Mas agora não, agora não é tanto assim. As pessoas atualmente podem ter Sida e 120 aparentarem ser pessoas minimamente saudáveis. Tornou-se numa doença invisível, silenciosa, muda, que ninguém dá conta a não ser que saiba já que a tem, ou que se tenha mesmo precauções para evitar uma coisa dessas. Na pior das hipóteses, acontece como aconteceu comigo, que me protegia de um modo mas não me protegia do outro. Com ele, ele tinha sempre proteção e usávamos proteção para estarmos juntos sexualmente, mas com a minha mulher não, porque ela ficava naquele estado, como lhe disse. Portanto, acabei por ficar desprotegido à mesma. Felizmente não aconteceu nada, mas nunca mais repeti o erro. Fiquei tão assustado que nunca mais fiz relação alguma sem proteção que fosse, ainda por cima depois do surto que houve nessa altura. Não me pus a jeito mais vez nenhuma por ninguém. Por isso… ham… sim, tenho noção do que são comportamentos sexuais de risco, e foi através da minha história, da minha própria experiência, que obtive a minha noção acerca desse tema, para além claro das notícias, dos filmes, de tudo isso que ia surgindo ao longo dos tempos. Tentei precaver-me o melhor que pude depois de ter passado pelo susto durante uma época de surtos desses tipos de doenças, principalmente entre homossexuais. Posso dizer que depois de um lapso, aprendi a minha lição. António, 60 anos, homossexual, ll 511 – 551 Após a observação dos testemunhos supracitados, podemos concluir que está em causa a importância de se adotar segurança na sexualidade, não só durante a velhice, mas em todo o decorrer da vida. Todavia, na fase da velhice, esta é vivida de forma diferente, o que pode levar a que não exista tanto esclarecimento relativamente a este assunto. A propagação de DST, neste sentido, adquire uma preocupação importante. De acordo Queiroz et al., dá-se um grande impacto da presença de diversos sentimentos, por exemplo, tanto do medo como da ansiedade na qualidade de vida nos indivíduos que portam DST, especialmente HIV. Esses sentimentos estão intimamente relacionados com o diagnóstico do HIV e à expressão dos seus relacionamentos afetivo-sexuais, ainda que, face aos avanços na terapia antirretroviral, a infeção pelo HIV ainda seja representada como uma doença estigmatizada, mortal e digna de medo. Tal medo restringe as formas de relações afetivo-sexuais, enclausurando a sexualidade motivada pelo medo de exposição, gerando um tipo de distanciamento forçado, angústias, repressão e sentimentos de negação. (Queiroz et al., 2017:1060) 5.2 A sombra do HIV No caso dos nossos entrevistados, e como já mencionado, a Maria é portadora de HIV, a qual afirma ter agora noção dos comportamentos sexuais de risco, que em jovem não teve, mas que tenta alertar os que a rodeiam para essa preocupação. Ainda que atualmente a doença não se manifeste como na década de 80 e 90, esta continua a existir 121 e a propagar-se por existir uma desvalorização face aos cuidados durante relações sexuais. Ainda que o acesso à medicação antirretroviral tenha vindo a aumentar e ainda que esta tenha proporcionado uma alteração na perceção sobre a doença (o status do HIV passou de doença fatal para uma condição de saúde crónica), uma pessoa que seja detentora desta condição atualmente ainda sofre com o estigma/preconceito acerca da mesma em diversas áreas da sua vida, ainda mais se for uma pessoa LGBT. O acesso ao tratamento, aliado à terapia antirretroviral e à ampliação da oferta do diagnóstico têm provocado impactos na qualidade de vida das pessoas portadoras desta doença. Tal leva a que haja um aumento no tempo de vida dos indivíduos, à queda da mortalidade (tão observada nos anos 80 e 90), ao aumento da expectativa de vida e à ressignificação de projetos futuros. (Queiroz et al., 2017:1057) De acordo com os autores Queiroz et al. (2017:1057), conviver com o HIV exige mais do que apenas o tratamento da doença – as pessoas que são portadoras do HIV têm de lidar constantemente com problemas transdisciplinares que envolvem sintomas depressivos, estigma, discriminação e os efeitos adversos do regime terapêutico. Conjuntamente, os preconceitos face à orientação sexual mantêm a sua expressão, uma vez que o HIV continua a ser um grave problema no quotidiano dos homossexuais. De facto, a população LGBT, principalmente os elementos masculinos, ainda carregam a representação social dessa doença, o que os leva a sofrer estigmas e preconceitos. De realçar que, devido à construção histórica da doença no meio LGBT, essa condição causa uma maior estranheza entre pessoas heterossexuais que, antes de se infetarem, julgavam não correr risco, dado não serem homossexuais. O aumento do estigma e do preconceito em muito se associam a este aspeto. Daí que, quando ocorria um caso de infeção num indivíduo heterossexual, houvesse preocupação/necessidade de se manter em sigilo o seu diagnóstico, como forma de preservar a sua identidade pessoal, social e perante o constructo da família. Actualmente, já é possível observar uma certa transformação deste tipo de pensamento, ainda que se mantenha o preconceito e o estigma, afetando estas a qualidade de vida dos indivíduos detentores desta condição, especialmente se pertencerem ao meio LGBT. De acordo com os autores Emlet et al., o HIV é cada vez mais reconhecido como uma doença que afeta os seniores. Tal deve-se ao facto destes seniores permaneceram sexualmente ativos e recorrerem a um uso inconsistente do preservativo, apesar da infeção do HIV. Assim, a atividade sexual e o comportamento sexual em risco entre 128 problemas, transformando-se as configurações das instituições e da própria sociedade em si a este respeito. 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almack, Kathryn; Yip, Andrew; Seymour, Jane; Sargeant, Anita; Patterson, Anne; e Makita, Meiko. (2015) The Last Outing: exploring end of life experiences and care needs in the lives of older LGBT people. Marie Curie Research Programme, 2012-2014 - Final report, March. Amado, Thaís da Silva. (2012) Institucionalização da Pessoa Idosa: entre as condições familiares e direitos em construção. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina; Centro Sócio Económico; Departamento de Serviço Social. Florianópolis – SC. Areosa, Sílvia Coutinho; Bevilacqua, Patrícia; Werner, Juliana. (2003) “Representações sociais do idoso que participa de grupos para terceira idade no município de Santa Cruz do Sul”. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento. 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Esta será realizada pessoalmente, sendo a mesma gravada com o consentimento do/a entrevistado/a, para posterior transcrição da informação e análise da mesma. Fica, desde já, garantida a destruição das gravações das entrevistas dois anos após a conclusão da dissertação e da sua apresentação. Condições e financiamento: Este é um projeto que não implica financiamentos de terceiros. A participação neste projeto é de carácter voluntário e é possível desistir do mesmo assim que desejado, sem qualquer prejuízo. Confidencialidade e anonimato: Este projeto garante a confidencialidade e o uso exclusivo dos dados recolhidos para a presente dissertação, prometendo igualmente anonimato do/a participante (não se regista os dados de identificação, seja dos entrevistados, seja da instituição em si). Garante-se que, em qualquer caso, a identificação dos participantes nunca será tornada pública; assegurando-se que todos os contactos serão feitos com tanta privacidade quanto possível. Responsável pelo Projeto: Judite Beatriz Pais da Silva, aluna de Mestrado em Sociologia, Especialização em Políticas Públicas e Desigualdades Sociais, na Faculdade 137 de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. [N.º de Telemóvel]; [email protected] Por favor, leia com atenção a seguinte informação. Se achar que algo está incorreto ou que não está claro, não hesite em solicitar mais informações. Se concorda com a proposta que lhe foi feita, queira assinar este documento. Assinatura/s de quem pede consentimento / aluna: ______________________________________________________________________ Declaro ter lido e compreendido este documento, bem como as informações verbais que me foram fornecidas pela/s pessoa/s que acima assina/m. Foi-me garantida a possibilidade de, em qualquer altura, recusar participar neste estudo sem qualquer tipo de consequências. Desta forma, aceito participar neste estudo e permito a utilização dos dados que de forma voluntária forneço, confiando em que apenas serão utilizados para esta investigação e nas garantias de confidencialidade e anonimato que me são dadas pelo/a investigador/a. Nome: ___________________________________________________________________ Assinatura: ___________________________ Data: _____ / _____ / _______ ESTE DOCUMENTO É COMPOSTO DE 2 PÁGINA/S E FEITO EM DUPLICADO: UMA VIA PARA O/A INVESTIGADOR/A, OUTRA PARA A PESSOA QUE CONSENTE. 144 E.: Bem, já recolhi os seus dados, podemos então começar? 1 A.: Sim, sim. 2 E.: Muito bem, passarei então à realização de algumas questões, sim? 3 A.: Sim, sim, mas… aviso já que estou assim… um bocadinho nervoso! 4 E.: Ora! Não esteja, não há necessidade. Trata-se apenas de… vá, uma conversa! 5 Sinta-se à vontade para partilhar o que sentir que deve partilhar, mas não se sinta 6 nervoso ou constrangido, ou seja o que for! Estou aqui para o ouvir, não para o 7 julgar. Combinado? 8 A.: [Risos] Combinado! Vamos lá, dispare! 9 E.: Muito bem! Então diga-me, quando é que veio para esta instituição? 10 A.: Ora, eu tenho 76 [anos]… vim para cá com 72… estou cá há quatro anos, menina. 11 Portanto, vim em 2013. [Pausa 4 segundos] Foi, não foi? Foi sim. Aliás, já vai a 12 caminho dos cinco anos, faz agora no ano que vem. É, é isso. 13 E.: E qual foi o motivo para a decisão de se recorrer à instituição? 14 A.: Olhe, vou ser muito sincero consigo. Acho que estava farto. Passei por muito e creio 15 que senti que era o que fazia mais sentido neste momento. [Pausa 2 segundos] Deixe-me 16 ser mais explícito que o seu ar parece confuso, menina! [Risos] 17 E.: [Risos] Agradeço! Força. 18 A.: Bom, fui casado durante 15 anos com uma mulher, tivemos um filho, ham, e ham… 19 fui-me apercebendo de que os homens não me eram indiferentes. E antes que me 20 pergunte, respondo-lhe já… foi uma coisa que… Bem, não é que os homens alguma vez 21 me tivessem sido indiferentes, mas também nunca pensei neles nesse sentido… Na 22 verdade acho que tinha medo de pensar… Porque lá está, eu gostava de mulheres. Aliás, 23 todos gostavam de mulheres no meu tempo. E gosto. Mas também gosto de homens. 24 Porque como lhe disse, sou bissexual. Percebe? ‘Tou a ser confuso, não ‘tou? 25 E.: Não, não, continue, estou a acompanhar o que diz, não se preocupe. 26 A.: Bem, lá está, percebi que pensava em homens também noutro sentido, não só em 27 mulheres, e vim a ter a certeza disso lá no trabalho, quando era enfermeiro no [nome do 28 local de trabalho], porque andei um bom tempo perdido e confuso, porque nesse tempo 29 não se falava dessas coisas, percebe? Era tudo um tabu e não se podia ser diferente que 30 145 se era logo vítima de discriminação, de maus tratos, e ham… e as pessoas punham-nos 31 rótulos de… pronto, de paneleiros, de maricas, de doente, de tudo o que tivesse uma 32 conotação mais pejorativa… Nem havia cá isto de se ser bi. Ou se era normal (ou seja, 33 hétero), ou se era gay, e já esses eram muito mal vistos e mal tratados, como disse, mas 34 não havia cá disso de se gostar das duas coisas. [Pausa 0,3 segundos] Por norma se se 35 soubesse era-se logo posto num hospital psiquiátrico porque estávamos doentes 36 mentalmente, porque ham, era uma coisa das nossas cabeças, ham, era, ham, um defeito. 37 Percebe? Um defeito que tinha de ser corrigido para sermos hétero, porque só assim 38 éramos normais. [Pausa 2 segundos] Não, passava-se um mau bocado e se não se 39 tivesse alguém que nos desse a mão, então daí a afundarmo-nos em nós próprios e numa 40 tristeza profunda era um pulinho. Aliás, eu passei. Eu dei esse pulinho. E ham, ham… 41 pronto, e passei por um período mais triste e confuso até descobrir o que era, quem era, 42 aquilo que me fazia ser e sentir eu próprio. E isso, essa certeza, levou tempo a chegar, 43 mas deu-se. E se se deu! Deu-se quando durante um tempo em que fiz os turnos da 44 noite, eu e um outro colega, ham o [nome da pessoa], e nós aproximamo-nos… Ham… 45 Éramos os dois assim pelas mesmas idades, ele era dois anos mais velho… Mas 46 parecíamos assim… aqueles grandes e bons amigos, como as mulheres, aquelas que 47 andam sempre juntas para todo o lado. Assim começámos a ser nós. Ham, no início não 48 sabíamos que ambos tínhamos esse interesse, mas… essa proximidade, pronto, foi 49 aumentando, não é… E percebemos depois que tínhamos, e… Mas também foi confuso 50 para nós, sabe? Ele era solteiro, eu era casado, ambos tidos como heterossexuais, então, 51 tínhamos enfermeiras novinhas e jeitosas a fazerem-se a nós, e pronto, erámos o quadro 52 da normalidade da época. Mas pronto, fomos tornando-nos cada vez mais amigos e 53 estávamos sempre juntos, e começamos a chamar à atenção por parte da restante 54 equipa… Quer dizer, isto actualmente parece-me já mais tolerado, que é tudo malta 55 jovem e muitos já sem preconceitos, mas a menina imagina como isto era há uns 30, 40 56 anos ou mais atrás? Claro que era notado. E como pode calcular, não era bem aceite. 57 Mas pronto, ham, começámos a estar cada vez mais juntos, mais próximos, mais 58 íntimos, tínhamos brincadeiras e… lembro-me como se fosse ontem, que engraçado… 59 em que dizíamos piadas, fazíamos cócegas um ao outro, passávamos a mão nas costas, 60 no ombro, no braço… Havia necessidade de haver toque, percebe? Lembro-me da 61 primeira vez que ele me tocou na mão, quando me passou um medicamento para a mão, 62 estávamos só os dois na sala da medicamentação, e ele fez questão de tocar e agarrar a 63 minha mão. Agarrar, com força, ‘tá a ver? Não foi um toque despercebido, foi um toque 64 146 propositado! Um toque do tipo “Tás a perceber que me estou a meter contigo? Que te 65 ‘tou a fazer notar neste momento? Que te ‘tou a provocar uma reacção?”. E provocou 66 mesmo. Nesse momento senti um aperto no estômago, uma súbita falta de ar, como se 67 fosse… ham… como se fosse uma cena de romance, num filme! Ali, os dois, muito 68 íntimos, numa sala sem mais ninguém, no turno da noite… ‘tá a perceber a cena de 69 romance que costuma dar nos filmes, em que tudo desaparece à volta? Assim estávamos 70 nós… E vermelho, senti-me a ficar vermelho e atrapalhado! Oh meu deus, que 71 atrapalhado fiquei… Mas nesse momento percebi. Percebi perfeitamente. Os homens 72 não me eram de todo indiferentes. Ele. Ele não me era de todo indiferente. E ele 73 percebeu. E acho que era isso que ele pretendia, porque acho que também ele estava 74 andava confuso com o que sentia da nossa relação de amizade. Confuso comigo. Mas 75 aquele toque… Ainda hoje sinto o aperto daquela mão forte, sabe? Os dedos suaves, o 76 calor dos dedos dele ao tocarem na minha pele… Lembro-me tão bem, mas tão bem… 77 Entretanto ouvimos passos e o momento perdeu-se, parece que tinha sido sugado para a 78 realidade novamente [risos]. Mas tínhamos o último turno da noite na noite seguinte e 79 decidi que ia falar com ele, perceber o que se passava, o que tinha sido aquele momento, 80 sim porque eu sei que ele também o sentiu, e ia perceber, tinha de perceber se aquilo era 81 só da minha cabeça ou se ele também sentia o mesmo que eu estava a começar a sentir. 82 E assim foi, na noite seguinte, já pelas 2h e pouco da manhã, estavam os outros dois 83 colegas na pausa e fiquei eu e o [nome da pessoa], e então tive de ir à tal sala da 84 medicamentação e decidi que tinha de falar com ele, que não podia passar dessa noite, 85 que tinha de esclarecer o que se passava. Passei a noite toda a pensar no que fazer, a 86 falar comigo mesmo, na minha mente, a tomar e retomar decisões. Ao fim e ao cabo 87 tinha uma mulher em casa com o meu filho. Tinha que dar um rumo à minha vida, saber 88 que sentimentos eram aqueles, tomar uma decisão que fosse justa para todos. E pronto, 89 quando ‘tava na tal sala, fui guardar stock, ia com esses pensamentos a revolverem-se na 90 minha mente, de tal modo que nem me apercebi de que ele tinha entrado atrás de mim. 91 Virei-me para sair da sala e ir falar com ele e quando rodei fiquei sem reacção. Ele tinha 92 entrado atrás de mim e estava parado agora, pronto, à minha frente não é. O meu 93 estômago começou a embrulhar-se, e queria começar a falar, queria aproveitar para 94 dizer o que sentia, mas só senti um nó na garganta, estava ansioso, e comecei a ficar 95 nervoso claro, parecia um gago. Que vergonha! [Pausa 0,4 segundos] Mas ele avançou 96 na minha direcção e agarrou-me a mão, e parecia a pessoa mais calma de sempre, como 97 se já soubesse tudo o que ia acontecer. Elevou a minha mão à face dele, deu-me um 98 147 beijo muito terno na mão e depois olhou para mim, com aquele olhar de se atravessar a 99 alma, puxou-me para ele, até bati com o meu peito no dele, e depois deu-me o melhor 100 beijo da minha vida. [Pausa 0,3 segundos] Credo, olhe os meus pelos! Tenho os pelos 101 [do braço] todos arrepiados!! Quem diria, ao fim destes anos ainda me provoca arrepios! 102 [risos] Mas sim, tivemos um belo beijo, demorado, com tudo a tive direito [risos] e… e 103 pronto, a partir daí ficámos conversados! [risos] Mas sim, daí a passarmo-nos a 104 encontrar nessa sala os dois sempre que podíamos foi um pulinho e… e…. e confesso, 105 passámos muitos bons momentos naquela sala, ao ponto de termos sido quase 106 apanhados a… [Pausa 0,5 segundos] não sei se posso dizer isto aqui… ham… a fazer 107 amor, posso dizer isto aqui? 108 E.: Pode, pode, claro, não se preocupe, a ideia é mesmo essa, é entrar nos seus 109 momentos mais marcantes com os seus olhos. Esteja à vontade. 110 A.: Bem, é isso, fizemos amor algumas vezes nessa sala, quando estávamos os dois no 111 turno da noite, porque fazíamos sempre as pausas juntos, e os outros dois colegas 112 também faziam as pausas deles juntos, e então quando eles estavam na pausa deles, eu e 113 o [nome da pessoa] aproveitávamos, íamos sempre para aquele piso, para aquela sala, e 114 estávamos juntos. E é claro que tínhamos de ser rápidos, não podíamos arriscar ser 115 apanhados, e pronto… [Pausa 0,3 segundos] Bem, dessa vez quase aconteceu, mas foi 116 por uma unha negra… Mas pronto, nós envolvemo-nos não é, e entretanto decidi que 117 não podia viver aquela… aquela… vida dupla, vá. Já não era feliz com a minha mulher, 118 ultimamente só discutíamos, só restava mesmo a empatia pelo filho, o mínimo não é, só 119 queria estar com ele, estava apaixonado não é… e pronto, ganhei coragem para contar à 120 minha mulher, porque também já havia muito diz que disse, e aí eu acho que fosse pelo 121 que fosse que lhe devia isso, que lhe devia a verdade. Afinal de contas, ham, estava a 122 traí-la, com outro homem, sim, mas continuava a ser traição, não é… Então pronto, um 123 dia cheguei do trabalho e no meio de uma discussão pelas minhas horas a mais de 124 trabalho aquilo saiu-me, saiu-me assim de rompante boca fora! Disse-lhe com todos os 125 dentes quantos tinha na boca “Já não te amo! Chega, não aguento mais! Vou deixar-te, 126 isto tem de acabar!”, e como se isso já não fosse bruto o suficiente, analisando isto 127 agora, não é, ainda me virei para trás, porque já estava a sair da sala, e virei-me e ainda 128 acrescentei ao ar de incrédula dela “E mais, vou deixar-te por outro. Sim, outro, um 129 homem. Descobri que gosto de homens. Chega desta relação sem amor, só de discussão 130 e mágoa! Chega!”. [Pausa 0,4 segundos] E tivemos mesmo de nos sentar a falar os dois, 131 148 tive de falar com ela para ela perceber todo aquele processo, que na verdade nem eu 132 ainda percebia muito bem, mas claro, ela não reagiu nada bem, e o meu filho já 133 crescido, tinha 7 anos na altura creio, também não aceitou. Afastaram-se e ele deixou de 134 me falar com o tempo. Bem, actualmente já falamos mais o básico, o ligar assim uma 135 vez por semana ou assim, o típico “Olá, como vais?, Vou indo, e tu?, Então e 136 novidades?”, e por aí, mas nada acerca da minha vida íntima. Mas sim, ham, depois 137 separámo-nos eu fui para outra casa. Depois durante um tempo tive de lidar com os 138 burburinhos dos que nos conheciam, das nossas famílias, nos corredores do meu 139 trabalho, e não só os burburinhos como também os afastamentos de muitos dos que me 140 eram próximos… aliás passei por uma depressão nesse período, fizeram-me sentir uma 141 aberração. [Pausa 0,2 segundos] Mas pronto, tive que me assumir perdi muitos amigos, 142 muita gente que ham, se afastou… Enfim, é de se esquecer. Mas ele ajudou-me, 143 ultrapassei a depressão, porque ele também se assumiu, e ultrapassámos isso juntos, 144 mudámos de casa, fomos viver juntos, e naquele momento nada interessava, porque o 145 tinha a ele, percebe? Porque estava a começar a ser realmente feliz, porque estávamos 146 juntos e finalmente felizes e então tinha valido a pena enfrentar aquelas tormentas e 147 tempestades para estarmos juntos. Estivemos juntos quase 10 anos, tivemos momentos 148 maravilhosos, noites fenomenais, mas tudo tem um fim… estivemos juntos alguns anos, 149 como disse, e entretanto ele mudou de local de trabalho e nisto conheceu outro… e o dia 150 da conversa [faz aspas com os dedos], o fatídico dia da conversa, chegou e tudo 151 terminou… e deixou-me. Acho que se pode dizer que houve aqui alguma força kármica, 152 não é? Passei pelo mesmo que fiz a minha mulher sofrer, ironia do destino, não é 153 verdade? De repente eu é que era o outro em casa à espera dele, o outro que reclamava 154 com as horas extra, o outro que discutia por tudo e por nada, o outro que agora era 155 ciumento… E terminou. [Pausa 0,3 segundos] Ainda conheci outras pessoas depois 156 disso, tive alguns casos pontuais, alguns amores… acho que posso dizer que me estava 157 a explorar, a descobrir. A solidificar, é. E ainda estive com uma mulher, mas também 158 não durou mais do que um par de anos. Depois estive novamente com outro homem, um 159 dos que com quem ‘tive num caso pontual, mas depois encontrámo-nos ao fim de 160 alguns anos, e a coisa deu-se, quer dizer, deu-se durante algum tempo. Acabámos por 161 nos separar pouco depois, um pouco antes de eu decidir vir para cá. A relação também 162 não era grande espingarda, sabe? Quando conhecemos alguém como o [nome da 163 pessoa], é como se fosse o nosso grande amor. Todos os que vêm a seguir são sempre 164 comparados a esse grande amor, àquela pessoa que há de ter sempre aquele grande 165 149 destaque… [Pausa 0,2 segundos] Isto tudo para dizer, e desculpe menina, que acho que 166 estava a fugir à razão da sua pergunta, mas tinha de lhe explicar o porquê da minha 167 vinda para cá, e o que motivou isto, mas isto tudo para dizer que entre casos, um 168 casamento e relações furadas, que acabei por chegar a uma altura na minha vida em que 169 dei por mim a pensar no que andava a fazer, por tudo o que tinha passado, em como 170 tinha acabado sozinho, em como tudo isto me tinha afastado de alguns grandes amigos, 171 de grande parte dos meus familiares, a relação com a minha ex-mulher, a primeira 172 mulher que eu verdadeiramente amei, mãe também do meu filho, e em como tudo isto 173 me tinha afastado tanto das outras pessoas e agora não tinha ninguém ao meu lado, 174 alguém especial, que fizesse valer a pena, já para não falar que os meus pais já 175 morreram. Repare, sou filho único, não tenho mais irmãos, já não tenho pais, só tenho 176 alguns tios e primos que se afastaram, não tenho cônjuge, e tenho um filho que mal me 177 fala e pouco faz parte da minha vida. Para que é que queria estar em casa sozinho e 178 abandonado, já a entrar naquela fase da vida em que reflectimos toda a nossa vida e que, 179 pronto, já me sentia sozinho, não é, triste… Não, decidi que queria estar rodeado de 180 gente e pensei em vir procurar alguns lares, residências, ver como era, até porque 181 existem algumas ideias estranhas acerca dos lares, como eu próprio também tinha, mas 182 felizmente já não é como eu imaginei há uns anos atrás, e como muitos me contavam 183 que era e o que podia ser, mas pronto, isso também depende um bocado daquilo que se 184 desembolsa não é… Mas sim, então decidi que ia eu ver e procurar saber como era, ver 185 o que existisse. Que enquanto tivesse independência e autonomia suficiente para isso, e 186 que como vê, ainda tenho, graças a Deus, que me cabia a mim a decisão. E se 187 encontrasse algum que me agradasse, e ia fazer o melhor que pudesse para encontrar o 188 melhor possível que eu pudesse pagar, ia ponderar a ida para lá, para esse lar. Ou 189 residência. Ou seja lá como lhes chamam hoje em dia. E aqui estou, para aqui vim parar, 190 mas basicamente vim porque estava farto da vida que tinha e vim para cá à procura de 191 pessoas novas, de companhia, de outra vida, mas com condições. A alternativa seria 192 encher a casa com uma data de gente desconhecida, lá está, para estar rodeado de 193 pessoas novas, mas achei que não era uma grande alternativa! [risos] E provavelmente 194 ainda me destruíam as coisas, ou ainda tinha de ser eu a tomar conta das coisas, das 195 pessoas, das necessidades de todos… Não, assim é melhor! [risos] 196 E.: Estou a ver! Então veio para esta instituição por si, por decisão sua e não por 197 terceiros, é isso? 198 150 A.: Sim, sim, foi uma decisão minha, partiu apenas de mim, porque como já disse 199 basicamente estou sozinho, por isso vim por mim próprio, mas não me desfiz da minha 200 casa. Acabei por ficar com a casa que era dos meus pais, que felizmente já está paga, e 201 como não tenho irmãos fiquei eu com ela e por isso continuo a tê-la ainda, e se algum 202 dia quiser sair daqui, saio, como não me dá despesa... Disso pode ter a certeza, saio e 203 retorno para casa. Mas até agora tem sido… interessante pelo menos [risos]. 204 E.: Humm, interessante? Já vou pegar nisso! [risos] Mas já agora, diga-me 205 primeiro, como é que foi feita a escolha do lar em questão? O poder económico 206 teve algum peso? 207 A.: Sim, como lhe disse, a minha reforma ronda os mil e tal euros, por isso decidi 208 procurar algo que apresentasse condições, que fosse aquilo que eu tinha mais ou menos 209 em mente, e dentro das minhas possibilidades económicas escolhi este lar. Visitei 210 alguns, fui conhecer os espaços, as pessoas, as estruturas e as formas de funcionamento 211 dos lares, os outros tipos que lá vivem… Devo confessar-lhe que vi coisas muito 212 interessantes, que adorei, mas pronto… o dinheiro não dá para tudo, não estica e não 213 pude optar por esses que eram mesmo tipo resort, com tudo XPTO e à maneira. E 214 muito, muito caros. Mas também vi coisas que, por preços mais módicos não é, que 215 bem, não lembra a ninguém mesmo! Coisas de querer sair dali a correr e não olhar para 216 trás. [Pausa 0,3 segundos] Cheguei mesmo a pôr em causa a minha decisão. Coisas 217 ainda muito retrógradas, sabe? Mas pronto, depois vi este e gostei deste. Não é como 218 um hotel de luxo, mas também tem muito boas condições, bom pessoal, há respeito e 219 isso. Olhe, está aqui à maneira! [risos] Mas sim, o dinheiro faz sempre peso. Aliás, não 220 há nada nesta vida que não se pague, que não se tenha de fazer contas ao dinheiro que se 221 tem no bolso e ao preço que é apresentado para o que queremos e para aquilo que temos 222 de bolso para podermos gastar. Hoje já nem morrer se pode sem se gastar rios de 223 dinheiro nos funerais. Bem, a nossa ser que se queira ir para uma vala comum, mas isso 224 já é toda uma outra história! [risos] Sim, a não ser que se seja algum multimilionário, 225 então sim, temos de contar o que temos e isto foi para o que deu, mas lá está, escolhi 226 dentro daquilo que mais me agradou e escolhi o melhor para mim. Aliás, eu tive esse 227 privilégio, de ser eu a decidir e a vir, algo que muitos infelizmente não têm. Mas pronto, 228 isso já não me compete. 229 E.: Hum-Hum. Estou a ver. E que variáveis (interesses a manter) contaram no seu 230 processo de institucionalização? 231 151 A.: Como assim…? Interesses a manter como o quê? Aquilo que eu quero continuar a 232 fazer é isso? 233 E.: Sim, sim, exactamente. Por exemplo, que outros factores podem ter estado 234 incluídos nessa decisão (medos ou desafios)? 235 A.: Oh, bem… foram algumas não é… há sempre algumas preocupações… alguns 236 medos… Bom, uma delas foi a minha liberdade, foi que pudesse continuar a fazer as 237 minhas caminhadas pela fresquinha, assim cedinho, poder continuar a fumar, porque 238 sou eu quem decide isso e não um médico qualquer, já me bastou os palpites durante o 239 tempo de trabalho. [risos] A ter os meus cigarrinhos no bolso e também a poder beber 240 uma ou outra cervejinha à tarde, e naqueles dias de caloraço então, que mais parece que 241 se abriram as portas do Inferno então… Isso para mim é como que uma rotina. Outra 242 preocupação era ter um quarto só para mim. Isso para além de ser uma preocupação era 243 mesmo uma exigência, foi um requisito que fiz questão de manifestar logo ao início 244 quando andei a fazer visitas aos lares ou residências ou lá o que é. Porque é assim, se 245 vim para aqui à procura de conhecer pessoas novas, também pode acontecer que me 246 interesse por alguém, não é!? E depois? E se quisermos mais… mais privacidade, vá! 247 Como é que é? Pois, há que pensar nisto! Não quero ter medo das pessoas, não quero ter 248 medo dos outros, das conversas que possa querer ter, dos momentos que possa querer 249 viver no meu quarto e ainda ter de me esconder! Não, quero poder ser eu próprio, e ter o 250 meu espaço, e fazer lá o que assim bem entender e ainda ser respeitado por tudo isso. 251 Sim, um dos medos que eu tive… [Pausa 0,2 segundos] um dos medos que eu tive e que 252 às vezes ainda tenho! Pois, tive e tenho, é de que não me aceitem como sou, que me 253 tratem mal, porque isso ainda sou independente e bom de cabeça e não admito isso de 254 ninguém, porque para isso ficava na minha casa e não permitia fosse o que fosse. Mas 255 pronto, também não ando aí a dizer o que sou a toda a gente. Se perguntarem, respondo, 256 não escondo mas também não espalho na cara das pessoas, sou quem sou, olhe. Mas lá 257 está, se quiser ter intimidade com alguém, alguma relação, alguma privacidade… quis 258 ter esse direito. 259 E.: Portanto, ter mesmo um espaço para poder estar intimamente com a pessoa 260 que quer. Poder ter relações sexuais, namorar, ter privacidade e intimidade, por 261 exemplo, é isso? 262 A.: Bem, já que falou tão abertamente e tão claramente das coisas… é isso, sim. Vamos 263 lá ver uma coisa, pôr tudo em pratos limpos… Eu estou na flor da idade! [risos] Estou 264 152 velho mas não ‘tou morto! [risos] Quer dizer, velho… estou mais velho, isso sim, 265 porque não me considero nada velho! ‘Tou mais crescido! [risos] Ora, agora só porque 266 tenho mais do que 65 anos vem de lá alguém da Organização Mundial da Saúde decidir 267 sobre a minha vida e dizer que eu afinal agora sou velho só porque tenho mais do que 268 65 anos! Ora q’isto! [Pausa 0,3 segundos] Não, não me considero velho. Ou sequer 269 acabado. Por isso sim, acho que tenho direito a ter um espaço onde possa ter a minha 270 intimidade quando queira. E vou ser honesto. Na verdade já conheci uma pessoa aqui, e 271 já há quase um ano que estamos juntos. Quer dizer, juntos, juntos não, porque ele não é 272 assumido. Quer dizer, acho que ele é daquele tipo de pessoas que não faz questão de 273 dizer que é homossexual mesmo quando lhe perguntam, e é reservado, muito discreto, 274 não anda aí a colar a vida íntima nas capas dos jornais, percebe? Nem eu, mas não 275 escondo o que sou. Mas também não temos assim uma relação tipo… mesmo 276 namorados, daqueles que estão sempre juntos, que vivem juntos e assim, não é como as 277 relações que já tive, que mencionei ainda há pouco. Nós é mais… vamos estando 278 juntos… vamos namorando, e… e… ham… e olhe, vamos colmatando as necessidades 279 um do outro, não só sexuais, mas num todo, ‘tá a perceber? Estamos a conhecer-nos 280 com muita calma, muita paciência, muita compreensão e muito… vá, muito… prazer! 281 [risos] E isso era uma coisa que mantinha na minha vida fora daqui, o namorar, o 282 relacionar-me com um outro ser, não só intimamente mas a todo um nível geral… Não 283 gosto de estar sozinho. E aqui fazia questão de manter isso aqui também, porque vim 284 para aqui mais para socializar, para conhecer pessoas novas, lá está, para não estar 285 sozinho! Então e agora vinha cá para me isolar na mesma?! Ou para afinal não me sentir 286 bem aqui, não ter privacidade, não ter condições e querer ir para casa para poder passar 287 uma tarde no vale dos lençóis com a pessoa com quem eu quisesse estar?! Não fazia 288 muito sentido, não é? Senão para isso não fazia sentido vir para cá. [Pausa 0,3 289 segundos] E eu que já me apanhei em algumas situações caricatas! [risos] 290 E.: Estou a ver, estou a ver, já vou pegar nisso então. Mas diga-me, utilizou alguma 291 estratégia para entrar nesta instituição (por exemplo, escondeu ou expôs a sua 292 orientação sexual)? 293 A.: Com certeza! [risos] É assim… não sei bem se o que fiz se pode chamar 294 estratégia… Basicamente, como já disse, andei a visitar e conhecer vários lares e 295 residências, seja lá o que for, e nessas visitas também falava com o pessoal respectivo 296 dos atendimentos e de como se realiza um processo de institucionalização e isso… 297 153 Bem, fazia várias perguntas, tirava dúvidas, perguntava pelas normas da instituição, os 298 horários, os quartos, tudo isso, mas quando via aqui algum lar que me interessasse, 299 guardava sempre a minha pergunta final para o fim da conversa. Era como que a minha 300 cereja no topo do bolo, não sei se me ‘tou a fazer entender. Basicamente, fazia as 301 questões daquilo que queria saber acerca do lar e depois de saber tudo, se a residência 302 me agradasse, eu próprio perguntava com muita naturalidade se aceitavam pessoas com 303 orientações sexuais diferentes. E fazia esta pergunta porquê? Ora, então eu tenho uma 304 orientação sexual diferente, e agora vinha para um lar sem saber se aceitam, se são 305 tolerantes, se são compreensivos, se são homofóbicos, ou se é permitido sequer, como já 306 vi ser, se não vou ter condições para seu eu próprio, quando a minha finalidade é a de 307 poder ser eu próprio e conhecer pessoas novas e por aí fora? Não fazia muito sentido, 308 pois não? E pronto, lá as pessoas me respondiam ao que queria saber, algumas com 309 mais estranheza do que outras pelo cariz das perguntas, pela calma e naturalidade com 310 que eu perguntava esse tipo de questões acerca da aceitação, das diferentes orientações 311 sexuais, etc etc, como se perguntasse que horas eram naquele momento. [risos] E é 312 engraçado porque houve um caso numa das visitas, um em que uma senhora do 313 atendimento me respondeu muito naturalmente à pergunta, como se fosse muito normal 314 esse tipo de malta, os tipos como eu, ‘tá a compreender, ir para aquele lar, e então 315 respondeu-me “Aceitamos sim, senhor [nome da pessoa]. O senhor é homossexual, se 316 não é indiscrição perguntar? Fique a saber que aqui não temos problemas nenhuns em 317 aceitar pessoas com orientações sexuais diferentes, aqui temos uma política de aceitar 318 a diferença. Aqui somos todos muito tolerantes pelas diferenças dos outros, muito 319 tolerantes, e tentamos incutir isso a todos os que trabalham connosco e diretamente 320 com os utentes!”. Realmente foi uma querida, mas quando me fez aquela pergunta de 321 questionar se eu era homossexual apeteceu-me brincar e ser um bocado sarcástico e 322 dizer “Não, não, eu só estou a perguntar por curiosidade, para ver a sua reação, 323 porque não tenho mais nada que fazer e apeteceu-me vir aqui aleatoriamente saber 324 mais sobre si e as suas opiniões!” [risos] Mas não, não o fiz porque era uma querida, 325 ainda uma moça jovem, olhe, talvez uns 10 ou 15 anos mais velha que a menina, e até 326 porque achei uma atitude querida, portanto não o fiz. Mas na verdade o que lhe respondi 327 teve tanto efeito como o que eu queria dizer para brincar com a senhora! [risos] Disse-328 lhe muito humildemente “Não minha senhora, na verdade não sou. Quer dizer… sou e 329 não sou. Ou melhor… Olhe, sou bissexual.” [risos] Gostava que tivesse visto a 330 expressão da senhora, a cara dela mudou, passou de ar convicto de que eu era homo, 331 256 avançar. Ao aceitarmos que vivemos o que vivemos pelas escolhas que fizemos sempre 588 nos ajuda a seguir em frente e a lutar por algo diferente daquilo que passámos e que não 589 queremos voltar a repetir. Mesmo com o HIV, foi isso que aprendi. Cada dia é um dia 590 novo, uma nova batalha e uma nova aprendizagem, onde tenho de lidar com o que sou, 591 com o que me tornei pelas minhas escolhas, e trabalhar esse sentimento, procurando 592 sempre ser melhor e não cair nos mesmos erros nem nas mesmas más decisões. [Pausa 593 0,3 segundos] Sim. Ham… Acho que só isso. Que nos sirva de lição de vida, pelo 594 menos, para não repetirmos. 595 E.: Muito bem, fica registado. Então vamos terminar a nossa entrevista, ou quer 596 acrescentar mais alguma coisa? 597 A.: Sim, sim, tudo bem. Não. Acho que não quero acrescentar mais nada. Não, não, 598 disse tudo o que queria. 599 E.: Obrigado então pela sua colaboração, pela partilha da sua história e pela sua 600 disponibilidade. 601 A.: Ham… De nada, de nada, obrigado eu. Foi uma experiência interessante. 602 E.: Obrigado. Até breve. 603 A.: Até breve! 604 257 258 Transcrição da entrevista Nº6 – Joaquim 259 E.: Então, o que lhe parece, podemos começar? 1 A.: Sim, podemos, vamos lá começar. 2 E.: Muito bem. Para começar, gostaria que me falasse um pouco de si, que me 3 falasse um pouco do seu percurso de vida. 4 A.: Hum… Sim, tudo bem. Então… Ham… O que quer saber em concreto? 5 E.: Ham… A sua idade, por exemplo, podemos começar pela sua idade. 6 A.: Ah, sim, estou a ver. Ham, bom, então, tenho setenta e cinco anos. 7 E.: Muito bem, então e em termos escolares, por exemplo, que escolaridade é que 8 tem? 9 A.: Ah, sim, estou a ver, são aquelas perguntas de caraterização, não é? Sim, ‘tou a ver. 10 Ham, sim, então, tenho uma licenciatura, em Biologia, e escolhi essa área porque 11 sempre gostei de ciências e de coisas relacionadas com a natureza e então enveredei por 12 esta área. Ainda… ham, também, ainda frequentei um mestrado na mesma área, mas 13 durou pouco tempo. Na altura quis investir na minha formação, até porque estava há 14 algum tempo sem encontrar um bom trabalho na área, e então para não estar sem fazer 15 nada decidi investir nisso, sempre seria uma mais-valia, mas depois acabou por surgir 16 uma boa oportunidade de trabalho e acabei por desistir do mestrado poucos meses 17 depois de ter começado. Compensou-me mais do que ter terminado essa outra 18 graduação. Até acabei por trabalhar fora do país e tudo. Tive uns anos a trabalhar fora, 19 outros desempregado, mas compensou-me muito essas oportunidades de trabalho. 20 E.: Muito bem. Então e em termos familiares? É casado? Tem filhos? 21 A.: Não, não, isso não. Quer dizer, é assim, mais ou menos. Actualmente não sou 22 casado, mas já fui, e com uma mulher, sim, eu sei, mas agora só tenho um companheiro, 23 e tenho uma filha sim, desse casamento, mas não tenho mais nenhum filho, até porque 24 sou homossexual e isso torna-se mais difícil de realizar. [Risos] Gostava de ter tido mais 25 filhos, e ainda ponderei a adoção, mas devido à minha situação… Pronto, não cheguei a 26 avançar com a ideia e agora apenas tenho uma filhota. Vale por muitos, e é linda, mas 27 gostava de ter tido mais. Mas pronto, a vida é mesmo assim. 28 E.: Sim? E que situação, se é possível responder, é que o impossibilitou de avançar 29 com esse desejo? 30 260 A.: Ham, bem… não sei se está familiarizada com este tipo de relações… mas… eu 31 estive numa relação que começou com duas pessoas, depois passámos a ser três, e 32 acabamos com quatro pessoas e uma filha de todos. 33 E.: Sim, creio que se é o que me está a explicar, participou numa relação 34 poliamorosa, fez parte de uma família poli. Certo? 35 A.: Exato, é isso mesmo. Não há muita gente que saiba o que isso é, mas sim, foi isso. E 36 a não ser que se tenha um filho biológico, a adoção torna-se muito complicada de 37 acontecer. Por isso ficámos só com a [nome da filha]. 38 E.: Estou a ver. Então e como é que surgiu essa relação poliamorosa? 39 A.: Ham… então, quando eu era jovem cresci rodeado de rapazes e de raparigas, e até 40 sabia apreciar as raparigas. E foi isso que também nos era ensinado, sabe. Os rapazes 41 gostam de raparigas e as raparigas gostam de rapazes. E eu cumpria com o que me tinha 42 sido passado, mas houve uma altura que comecei a perceber que gostava de rapazes, era 43 eu adolescente, mas sempre pus essa parte de lado. Acabei por namorar com uma amiga 44 que eu tinha na altura, na verdade a minha melhor amiga, que crescemos juntos e tudo, e 45 ao fim de algum tempo de namorados, com a pressão da minha família, acabei por a 46 pedir em casamento. Nisto já estava a completar a minha licenciatura, e então depois 47 disso casámos. Como sentia um grande carinho por ela, mas também gostava de 48 homens, achei que gostava de ambos. Tive uma fase que achei que era bissexual. Mas 49 afinal não. Depois de estarmos casados, ao fim de um tempo, na altura quando me 50 inscrevi no mestrado, começamos a ter algumas dificuldades, porque me custava cada 51 vez mais manter intimidade com ela. Éramos os primeiros namorados um do outro e 52 nunca soubemos o que era estar com outras pessoas. Acho que isso também estava a 53 ajudar a fazer arrefecer a relação… Mas, ham… nisto ela quer começar a tentar 54 engravidar. Tinha eu uns vinte e cinco anos, mais coisa menos coisa, e eu também me 55 agradava a ideia de ter um filho ou uma filha, porque sempre gostei de crianças. Pronto, 56 mas não estava a perceber bem aquela situação, porque queria ter um filho, que na 57 verdade era uma filha, gostava da minha mulher mas não sentia que gostasse da mesma 58 maneira que gostava de homens, e cobiçava os corpos masculinos em segredo porque 59 não podia revelar isso a ninguém nem desgraçar o meu casamento. Ia desmoronar uma 60 data de outras coisas. Haveria de ser lindo não é. Completamente impensável. Mas olhe, 61 foi exactamente isso que aconteceu! O impensável! Porque depois nessa altura, quando 62 andávamos a tentar engravidar, nós já andávamos com mais problemas, mais distantes, 63 261 mais frustrados por tudo e com tudo, e principalmente com a história da gravidez, e 64 mesmo entre nós, tínhamos menos paciência. Então um dia cheguei a casa mais cedo, e 65 pronto, ham, dei com a minha mulher na cama com outro homem. É verdade que 66 usavam proteção, mas naquele momento não soube o que pensar. Se devia ficar feliz por 67 sentir que não era o único insatisfeito com aquela relação, se preocupado com o que ia 68 acontecer a seguir, se magoado porque apesar de tudo eu não a tinha traído, por mais 69 vontade que tivesse de estar com outros homens, ou mesmo se feliz por ter sido ela a 70 fazê-lo e eu ter uma desculpa para acabar com tudo se assim o quisesse. E enquanto eu 71 pensava em tudo isto, enquanto processava o que estava a ver, estava e continuava 72 estático à frente deles. Ela tapou-se, assustada, em pânico para eu não me passar, para 73 ter calma, etc., etc., etc., e ele muito calmo, apenas me estendeu a mão e me disse para 74 me juntar a eles. Apanhou-me verdadeiramente de surpresa. Aliás, não só a mim, como 75 também a ela. Mas aquela frase fez-me desbloquear daquela absorção da situação que 76 eu estava a fazer. Só tive tempo de perguntar “Ham? O quê?”. E logo a seguir senti a 77 mão dele a tocar a minha, tinha ele a avançar lentamente para mim, como se estivesse a 78 ser cauteloso, para me puxar para a cama, para o meio deles. Acho que estava em 79 choque, mas deixei-me ir. E lembro-me dele dizer: “Se ainda não fugiste, nem 80 enlouqueceste, pode ser que gostes de te juntar a nós. Experimenta, e depois logo 81 decides o que fazer. Eu gosto de ambos, pode ser que tu também gostes.” E aquilo 82 mexeu comigo, deixou-me revoltado e intrigado ao mesmo tempo. Fiquei tão confuso 83 que ao mesmo tempo que me apetecia sair dali intempestivamente e a partir tudo, 84 também me apetecia entregar-me ao momento e descobrir as palavras dele. Afinal não 85 era todos os dias que iria ter a oportunidade de ir para a cama com um homem de forma 86 justificada, em que ela presenciasse tudo e não levantasse suspeitas sobre nada mais. 87 Em que não parecesse ser homossexual, mas sim uma experiência. E já agora, o que era 88 aquilo de: “Eu gosto dos dois, pode ser que tu também gostes”? Mas quem raio é que 89 diz uma coisa daquelas? A sério, aquilo mexeu comigo e acabei por me deixar ir e 90 explorar toda aquela situação no melhor que pude. Acabamos por ter uma grande… 91 ham… pronto, um grande momento de prazer, de fazer coisas que nem achei ser 92 possível, e depois quando acabámos, eu disse-lhe logo, à minha mulher, que tínhamos 93 de falar, e que ele tinha de ir embora. Lá ele se foi embora, e nós recompusemo-nos, e 94 começamos a falar. Questionei-a sobre várias coisas, pronto, como é que ela o tinha 95 conhecido, como é que aquilo tinha chegado àquela situação, como é que se tinham 96 envolvido, como é que ele gostava de ambos os sexos, como é que ela podia ter-me 97 262 traído, como é que tudo e mais alguma coisa. Perguntei-lhe tudo e mais o possível e 98 imaginário. Ela explicou-me que as coisas entre nós não estavam muito bem, que 99 fazíamos poucas relações, que não andávamos muito próximos, pronto, que estávamos 100 mais distantes e etc., e que o conheceu no trabalho dela, e que as coisas surgiram, mas 101 que não sabia que ele era bissexual, achava que ele era heterossexual, e que aí ficou tão 102 surpresa quanto eu. Mas que pronto, apesar de tudo que me amava, mas que também o 103 amava a ele. Queria os dois na vida dela, que era possível, que sabia de um caso de uns 104 tipos quaisquer que viviam numa relação poliamorosa, e que era possível haver, que 105 resultava se as pessoas se amassem, que bastava querer e que ainda haveria mais amor e 106 que queria isso porque não queria perder nenhum dos dois. Claro que lhe pedi tempo 107 para pensar em tudo aquilo. Ao mesmo tempo que tudo aquilo me chocou, também me 108 despertou os sentidos, fiquei confuso e curioso. Confuso porque não sabia nem tinha 109 percebido nada daquilo por parte dela, nem que fosse sequer possível ela querer uma 110 coisa assim, e curioso porque toda aquela ideia me agradou. Ter a minha mulher que 111 dava para manter a minha melhor amiga e termos juntos os filhos que queríamos ter, e 112 ao mesmo tempo termos outra pessoa na relação que por gostar de ambos os sexos, que 113 nos satisfazeria aos dois, sem eu também ter de dar a minha parte de homossexual. 114 Disse-lhe que precisava de tempo para refletir sobre isso, para pensar em tudo muito 115 bem, mas continuava magoado com ela e que ela não podia vê-lo enquanto isto não se 116 resolvesse. Não sabia bem o que pensar nem como é que aquilo poderia realmente 117 resultar, ou sequer se queria mesmo a cem por cento uma coisa assim. Então e se eu não 118 gostasse dele? Só tínhamos tido um momento de prazer juntos. Não tínhamos vivido 119 juntos, não tínhamos tido outros encontros, não tínhamos conhecido mais nada um do 120 outro, não conhecia os seus gostos, os seus desejos, as suas vontades, a sua 121 personalidade, os seus defeitos, o seu feitio, o seu trabalho, a sua idade, nem o seu nome 122 sequer. Nada, não sabia nada. Mas então porque é que me sentia tão atraído por aquela 123 ideia? Pelo que único momento que o conheci e vivi com ele, ou seja, aquela relação 124 sexual que tivemos os três, porque é que isso não me saia da cabeça? E eu, sairia da 125 cabeça dele? Ia pôr-me numa relação a três sem saber o que ele sentia por mim? Se se 126 sentia atraído por mim? Se iria gostar de mim? E se só gostasse mesmo da minha 127 mulher e eu depois acabasse sozinho? E se entretanto tivéssemos o filho que andávamos 128 a tentar ter, onde cabia o papel dele no meio disto tudo? Que papel iria ter ele nesse 129 nascimento e criar dessa vida humana? Ela era a mãe, eu era o pai, e ele seria o quê, 130 nesta relação de três? O outro pai, um tio, um primo, o padrasto? Eram tudo questões 131 263 que me assombravam quando pensava nessa possibilidade. Era tão mais fácil continuar 132 só assim, nós dois, e pronto, corresse bem ou mal, ficávamos só juntos ou separávamo-133 nos, e pronto, agora numa relação de três, como é que ia correr? Percebe? Se uma 134 relação de duas pessoas já dá pano para mangas, quanto mais uma relação de três, com a 135 perspetiva de termos um filho! 136 E.: Compreendo. Mas pelo que referiu atrás, esteve numa relação poliamorosa. 137 Portanto, decidiu a favor da entrada desse terceiro elemento na vossa relação, 138 certo? 139 A.: Sim, sim. Acabei por expor todas as minhas dúvidas à minha mulher e juntos 140 passámos três dias a debater essa possibilidade. Concordei com dar uma hipótese à 141 relação a três, mas na condição de sairmos juntos durante uns meses, que durou na 142 verdade quase um ano, sem que houvesse relações sexuais para nos toldarem o 143 discernimento da decisão, porque já se sabe que o bom sexo é meio caminho andado 144 para a conquista das coisas. Isso, na minha opinião, iria dar-nos tempo aos três para nos 145 conhecermos melhor e decidir se realmente gostávamos uns dos outros a sério para 146 fazer valer a relação a três e todos os problemas que surgiriam daí. Sim, porque não 147 seria simples de certeza. E pronto, lá foi o que decidimos fazer. Chamámo-lo lá a casa, 148 comunicamos-lhe o que tínhamos falado e decidido, e quisemos saber a opinião dele em 149 relação a isto tudo. Porque ele poderia não querer fazer parte de uma coisa assim, não é. 150 Nós dois, eu e a minha mulher, falámos entre nós dois, sobre a vontade que ela tinha de 151 não perder ninguém e manter a relação com os dois, resultando numa relação a três, mas 152 ainda não tínhamos falado com ele para sabermos a opinião dele. Acabou por ser 153 positiva, mesmo sabendo da ideia de tentarmos ter um bebé brevemente, e começamos a 154 sair juntos. Ele disse que fosse o que fosse, que só vivíamos uma vez e que era uma 155 pessoa muito aberta a experiências, e portanto que iria tentar. Se resultasse, óptimo, se 156 não resultasse como queríamos mas houvesse sentimento e empenho, que faríamos por 157 isso, e se não resultasse mesmo, então amigos à mesma. Confesso que aquela forma de 158 viver a vida me assustou e me fascinou ao mesmo tempo. Era assustador a liberdade que 159 ele transparecia ter. Mas pronto, assim tentámos, e assim conseguimos. 160 E.: Então e a questão do filho, como foi resolvida? 161 A.: Ah, sim, então, ham, o filho afinal foi uma filha, e foi muito bem resolvida. Passado 162 aí umas duas ou três semanas de começarmos a sair juntos, ela começou a andar muito 163 enjoada e decidimos fazer exames para ver se ela tinha conseguido engravidar. Pronto, 164 264 resumindo, deu positivo, ficámos muito felizes, mas depois fiquei preocupado porque 165 receava que pudesse não ser minha. A verdade é esta, tudo aquilo era uma loucura. 166 Quem me dizia a mim que não seria minha? Mas pronto, conversámos, ela disse que 167 não, que nunca tinha feito sexo com ele sem proteção, e que a filha era mesmo minha. 168 Ainda assim, quando ela nasceu, tinha eu vinte e oito anos, aproveitámos e tiramos as 169 teimas. Felizmente, era mesmo minha! [Risos] Actualmente ela já tem quarenta e sete 170 anos, e vive a sua vidinha muito bem, muito bem resolvida, não ficou danificada em 171 nada por causa de nós, e até já tem os seus filhotes. Um menino e uma menina. Somos 172 uns avós babados, mas ela vive longe, o que não facilita a convivência com as crianças. 173 Não tenho mais filhos, mas podia ter os meus netos. Mas pronto, não faz mal. Mas é 174 engraçado, ela saiu mais ciumenta e por isso diz que não se imagina numa relação 175 poliamorosa. [Risos] Quanto a isso apenas lhe respondi que eu também não, nunca tinha 176 imaginado e olhem agora onde eu andava! Mas não, isso foi bem resolvido. Mesmo 177 entre nós os três, ela era a mãe, e nós éramos os pais. Eu era o pai [nome do 178 entrevistado], e ele era o pai [nome do companheiro]. Foi uma miúda muito amada, 179 muito bem-educada, porque todos nós concordávamos com os valores partilhados entre 180 os três, o que poupou muito conflito, e teve sempre muito apoio em tudo. Porque não 181 éramos só dois, éramos três. Estava sempre acompanhada, revezávamo-nos entre os três 182 para ela não estar sozinha, para não precisar de nada, ser acompanhada em tudo a todos 183 os níveis, e cresceu sempre feliz, com uma mente muito aberta para tudo, muito 184 tolerante. Lá está, porque ela cresceu naquele ambiente, não conhecia nenhum ambiente 185 diferente deste, não sabia o que era ter uma relação de pais monogâmicos. Claro que 186 acabámos por sofrer um pouco com a exposição porque ela, à medida que ia crescendo, 187 os coleguinhas da escola iam sabendo que ela tinha uma mãe e dois pais. Era algo que 188 fazia muita confusão a toda a gente. Não condeno, até a mim me tinha feito confusão na 189 altura, mas era uma escolha nossa, por isso, acho que tinha de haver respeito. Mas 190 pronto, resolvemos sempre todos os problemas, as faltas de respeito, sempre a 191 protegemos muito nesse sentido também, o melhor possível para que ela não fosse 192 afetada, não fosse alvo de gozos, humilhações, perseguições, maldades, fosse o que 193 fosse, porque os miúdos são cruéis, e os pais deles às vezes também ou ainda piores. 194 Mas ela até cresceu bem. Viveu sempre rodeada de amor e carinho, porque nos dávamos 195 sempre bem, e se havia algum conflito, porque ninguém está livre disso, ou então é um 196 ser amorfo, pronto, não o resolvíamos diante dela. Fazíamo-lo em privado. E 197 continuamos a fazer relações a três, algo que se tornou mais intenso ainda, porque nos 198 265 conhecíamos cada vez melhor, porque sabíamos cada vez mais o que é que cada um 199 gostava e isso também nos juntou mais. 200 E.: Estou a ver. Então e o quarto elemento que referiu no início? Como é que se 201 juntou à relação? 202 A.: Ah, sim, ham, pronto, então, ao fim de… ham… deixe-me lá ver… ham… ao fim 203 de uns dez anos juntos, uns dez, onze, doze, olhe, não sei ao certo, começámos a 204 aproximarmo-nos mais de uns e menos de outros. Ou seja, a minha mulher andava mais 205 cansada, andava com problemas no trabalho, porque tive mudado de trabalho agora 206 andava a trabalhar mais horas e exigia mais dela, e então passava menos tempo em casa, 207 e quando passava pronto, nem sempre tinha cabeça para tudo o que queríamos fazer, 208 como fazer planos a três, relações sexuais, passear, ir jantar fora como casal, leia-se, os 209 três, pronto, tudo isso. Acho que acabou por se distanciar de nós. Mas atenção, não era 210 por sermos um casal de três que significava que tínhamos de fazer tudo a três. Fazíamos 211 por isso, mas se nos desse vontade de fazer coisas a dois, também fazíamos. Mas claro, 212 isso também pode traduzir-se num ciuminho por parte de quem fica de fora. E acabámos 213 por nos aproximar mais eu e o [nome do companheiro], do que os três em concreto. 214 Pronto, com o tempo já tínhamos relações sexuais só os dois, planos a dois com a nossa 215 filha, pronto, esse tipo de coisa. Cada vez mais coisas a dois do que a três, como 216 tínhamos no início da nossa relação poliamorosa. E ham… Lembro-me que há um dia 217 em que ela chega e nós dois decidimos falar com ela para nos aproximarmos de novo, 218 porque se continuássemos assim, creio que iriamos acabar por nos separar, mais ano 219 menos ano. Quando falámos com ela, explicámos tudo isso que lhe referi agora, e ela 220 percebeu, e disse que também tinha de ser honesta. Acontece então que ela tinha voltado 221 a conhecer outra pessoa, também no trabalho, que também era bissexual, 222 aparentemente, e que também gostava dela como gostava de nós. Nisto acabamos por 223 debater tudo isto, como é que seria, como é que iria resultar, porque dois já difícil, três é 224 complicado demais, e quatro seria praticamente impossível. Que papel é que teria nas 225 nossas vidas, na vida da nossa filha, agora adolescente quase adulta, nos seus dezasseis 226 ou dezassete anos, creio eu, como é que ia participar na vida dela, e em tudo, pronto. E 227 mesmo nas relações sexuais, como é tal seria. Ou sequer se seria, se faríamos uma 228 relação mesmo a quatro, a todos os níveis, incluindo intimamente, ou se ela faria dali 229 uma relação a dois. Decidimos então conhecê-lo, e ele acabou por gostar de nós, ela 230 também queria manter a relação connosco, e é claro que nisto tudo houve alguns 231 272 E.: Claro. Então e nesta fase da sua vida, a sexualidade continua a ter importância 430 para si? 431 A.: Claro, sim, sem dúvida! Porque é como lhe digo, quero e faço questão de continuar 432 a namorar, e muito, a usufruir, a viajar, a viver bem, e a partilhar tudo com o meu 433 companheiro. Estamos juntos desde a nossa relação a quatro e por isso… Claro que a 434 sexualidade continua a ter muito peso. Foi o meu companheiro desde sempre, e sempre 435 tivemos uma sexualidade muito forte, muito ativa, muito intensa. Tanto ele como eu. E 436 repare, praticamente tudo o que aprendi, foi com ele, não é? Não me posso esquecer que 437 na altura eu namorei com uma mulher, casei com uma mulher, tive uma filha com uma 438 mulher, e tive relações com uma mulher. Porque achei que tinha de o fazer, porque fui 439 ensinado a que era assim que tinha de ser e que não havia uma outra alternativa. Foi 440 com ele que descobri tudo pela primeira vez, que aprendi tudo, que aprendi como amar 441 outro homem. E mantemo-nos juntos até hoje. Por isso sim, para mim mantém-se como 442 uma coisa importante, e creio que se há-de manter sempre, porque o sentimento é muito 443 forte. 444 E.: Sim, compreendo. E que noção tem acerca dos comportamentos sexuais de 445 risco? 446 A.: Oh, bem, ham, tenho algum não é, sei que os riscos existem. Eu com a minha 447 mulher, aliás, ex-mulher, usei sempre preservativo, tivemos sempre precaução, até 448 percebermos que queríamos ser pais e que éramos exclusivos. Aí deixamos de usar 449 precauções. Mas por exemplo, quando descobri que ela estava envolvida com o terceiro 450 elemento, por acaso a grande preocupação que tive foi se ela usava proteção, não só 451 porque não queria que o filho que queríamos ter fosse de outra pessoa, como também 452 não queria depois saber que tinha apanhado alguma doença que fosse por causa deles. 453 Na altura exigi fazermos exames a tudo nesse sentido, para descobrir se ela tinha sido 454 sincera quando me disse que tinha usado sempre proteção, e para saber se estava eu 455 mesmo salvaguardado nesse sentido. Os exames chegaram, e deram todos normais, ou 456 seja, nenhum de nós tinha contraído nada em termos de doenças. Depois quando se 457 decidiu que o terceiro elemento iria juntar-se a nós na relação, ou seja, o meu atual 458 companheiro, desde essa altura, também ele se submeteu a exames para se tirar tudo a 459 limpo e se garantir que não haveria surpresas nenhumas depois para nós. Os resultados 460 vieram e também deram todos como normais, dentro do expectável. Ainda assim, 461 decidimos usar sempre preservativos entre nós, porque foi mesmo uma exigência 462 273 minha. Porque é assim, se de dois passamos a três inesperadamente, então qualquer um 463 poderia acabar por se envolver com outro qualquer e haver desproteção nesses 464 momentos. Logo, assim estaríamos sempre protegidos dentro da nossa relação. Ou seja, 465 como entre nós os três usávamos sempre preservativo, a não ser eu e a minha mulher 466 quando era para engravidar, assim estaríamos sempre precavidos se tivesse havido 467 algum deslize por parte de algum de nós com outra pessoa qualquer. E ainda bem que 468 assim foi, porque assim sempre nos protegemos fielmente. E pronto, depois quando 469 apareceu o quarto elemento repetimos o processo todo. Todos fizemos exames, nós os 470 quatro, e continuamos a usar preservativo entre todos. Depois, pelo menos anualmente 471 fazíamos sempre exames de rotina para garantir que todos estávamos bem de saúde e 472 que não seriamos riscos uns para os outros. Aliás, ainda agora, com o [nome do 473 companheiro], continuamos a fazer isso. Usamos preservativo, ainda que seja honesto e 474 haja algumas vezes que passem esquecidas, tenho que dar a mão à palmatória, e também 475 continuamos a fazer exames anualmente para garantirmos a nossa saúde. Já a minha ex-476 mulher também faz o mesmo com o companheiro dela, que era o quarto elemento da 477 relação. Lá está, é uma forma de precaução, mas às vezes pode não ser suficiente. Mas 478 tentámos e tentamos sempre ter esse cuidado. 479 E.: Muito bem. Estamos a chegar ao fim da nossa entrevista. Quer acrescentar 480 algo que se tenha esquecido, relativamente a algum tema que tenha sido abordado, 481 ou que se lembre e queira registar? 482 A.: Ham… Oh, só fazer talvez aqui uma ressalva… Quando falo nas pessoas como 483 terceiro ou quarto elemento, não é que as pessoas tivessem essa categorização dentro da 484 relação. Faço-me entender? Portanto, não é que fossem o terceiro ou o quarto dentro da 485 relação. Não, não é nada disso. Fi-lo e disse-o no sentido de tentar simplificar a 486 explicação da situação em si, porque explicar isto a uma pessoa de fora, que não 487 acompanhou a história, e em que também não aparecem nomes e não posso nem quero 488 dizer nomes para poder distinguir as pessoas, tive de arranjar uma forma de tentar 489 simplificar aquilo que queria explicar para que fosse compreensível sem se tornar numa 490 salganhada, numa confusão de indivíduos, sem que se percebesse bem o que se tinha 491 passado ou como aconteceu ou funcionou tudo isto. Percebe? 492 E.: Sim, sim, claro. Fique descansado, eu percebi. Mas a ressalva ficou registada. 493 A.: Pronto, obrigado então. Era só isso que queria deixar claro, lembrei-me disso há 494 bocado. 495 274 E.: Bem, então vamos terminar aqui a nossa entrevista. E gostaria de aproveitar 496 para lhe agradecer a sua participação, colaboração e disponibilidade. 497 A.: De nada. 498 275 276 Transcrição da entrevista Nº7 – Mário 277 E.: Ora, sente-se pronto para começar? 1 A.: Sim, sim, sinto. 2 E.: Muito bem. Para começar, gostaria que me falasse um pouco de si, que me 3 falasse um pouco do seu percurso de vida. 4 A.: Sim, ham… bem, ham… Tenho setenta e um anos e sou pescador, quer dizer, agora 5 não, já não, porque já me reformei, mas assim muito de vez em quando ainda vou ao 6 mar… Sempre fui. Pescador. Sempre fui pescador. É uma profissão de família, já o meu 7 pai e o meu avô eram, e eu tive de ser também, porque era negócio de família. E 8 comecei cedo. Por acaso como cresci rodeado desta vida, não me fez muita espécie, ‘tá 9 a perceber, mas na verdade gostava de coisas mais ligadas à agricultura. Mas pronto, na 10 altura o mar dava muitas épocas de dinheiro, não havia estas leis que há agora, das 11 proibições disto e daquilo, e então quantas mais mãos fossem para o mar no bote, 12 melhor. Íamos pescar, apanhávamos tanto peixe quanto fosse possível, de tamanho e de 13 variedade, mas focávamo-nos mais naqueles que sabíamos que valiam mais cá fora e 14 que eram mais procurados, e ham… ficávamos dias inteiros fora. Acordávamos de 15 madrugada, comíamos bem o que houvesse, levávamos umas merendas com a gente, e 16 lá íamos para o mar, madrugada fora, até deixar de dar peixe. Havia dias que valiam por 17 dois ou três, mas também havia outros que nem na manhã o peixe picava. Sabíamos 18 logo quando é que já não valia a pena insistir, ficar ali a moer naquilo, porque era 19 desperdício de isco, e de combustível também. Estas coisas também são gastos, não é, 20 ham… Tudo se gasta e tudo se poupa. Por isso sempre fomos de aproveitar o que era da 21 gente, sempre evitámos de gastar em vão. E lutávamos muito, todos os pescadores no 22 geral, mas a gentes três, o meu pai, o meu avô e eu, lutávamos muito para termos o 23 maior lucro possível. E chegámos a trazer muito dinheiro para casa, para as nossas 24 famílias. Mas digo-lhe, tornou-se muito ingrato com o passar dos anos. Sempre foi uma 25 vida mais sofredora, mais difícil, e depois de tanta luta e tanto esforço, tantos riscos que 26 passávamos, porque íamos para o mar mesmo com más condições temporais, se isso 27 assim fosse preciso, para quê? Para depois também ter uma reforma de uma miséria? 28 Acabo com trezentos e poucos euros… Se não fosse o meu filho, bem que me tinha de 29 desenrascar à fava. 30 E.: Compreendo, é complicado. Então e é casado? Um filho já percebi que tem, 31 mas tem mais? 32 278 A.: Não moça, agora já não sou casado, mas já fui, e fui com uma mulher. Sabe que isto 33 os pescadores aqui, e mesmo no geral, e mesmo na minha família, aí então… é tudo 34 muito conservador. Não se podia gostar de homens. Que é o meu caso. Agora veja lá, 35 pense lá, pense lá no que seria ir para o mar num barco, às vezes pequenos, outras vezes 36 médio, outras vezes grande, dependia de quem ia e das alianças que fazíamos para 37 termos mais mãos e mais lucro, que depois era dividido por todos, mas pronto, num 38 barco, fosse de que tamanho fosse, ir para o mar cheio de homens, um dia inteiro e às 39 vezes mais do que isso. Em que um dos homens era gay. Imagina o caos que se 40 levantava? Uma pessoa levava logo uma tareia, como eu cheguei a levar! Mas isto 41 repare lá, nem era um cenário possível, essas coisas ali naquele trabalho não existiam. 42 Homens ali… era tudo macho, eram todos machos que deixavam as mulheres em casa 43 para irem trabalhar um dia em inteiro fora enquanto elas ficavam com as casas, com as 44 refeições e com os filhos. Quando voltavam tinham que ter uma refeição na mesa e sexo 45 antes do outro dia começar. Lembro-me do meu pai ser assim, e de como ele, era o meu 46 avô também. E outros colegas também, que também se tornavam nossos vizinhos. Claro 47 que eu sabia que era… pronto, que gostava de homens, aí talvez desde os meus treze ou 48 catorze anos, mais coisa ou menos coisa. Mas com a família que eu tinha, como é que 49 podia dizer uma coisa dessas? Que gostava de homens? Não, não, não, nem era possível 50 sequer. Claro que tive de manter esse meu lado escondido, não disse a ninguém nunca, e 51 casei com uma mulher lá filha de um outro pescador amigo do meu pai e do meu avô. A 52 mulher até nem era feia, pelo contrário, era bonita, e jeitosa, um bocadinho assim roliça, 53 mas pronto, não passava disso. Não me atraía. Casei com ela não foi pelos bonitos olhos 54 azuis dela, casei sim por mim, para me proteger, para me esconder, e também por ela, 55 porque era nova e ainda não tinha casado. Juntou-se o útil ao agradável e juntaram-nos 56 os dois. Pronto, depois lá juntámos os trapinhos e começou-se as conversas das porras 57 dos netos e doas netas, principalmente da minha mãe e da mãe dela. Mas acho que a 58 família dela era pior. Mas pronto, ham… Lá a gente começou a tentar fabricar o raio das 59 crianças, que na altura me custou mais que tudo, e também não me atraía por ela, por 60 isso tinha que justificar a minha falta de interesse. A miúda até era meiga, lá acreditava 61 quando eu lhe dizia que não tinha vontade porque estava cansado, que tinha tido um dia 62 muito cansativo, ou que tinha dificuldade em… em… ham… em… pronto, em ter 63 relações, em manter, porque andava stressado com a pesca e com problemas de dinheiro 64 e etc., por aí, pronto. Mas quando as desculpas começavam a falhar, lá tinha de “o tirar 65 para fora” e obrigá-lo a trabalhar contra vontade. E foi assim que tive os meus dois 66 279 filhos. Acabaram por ser as minhas bênçãos, ainda hoje a um deles devo quase tudo, 67 mas que foi difícil foi. Até porque fui pai com os meus vinte e um anos, do meu 68 primeiro filho, e com quase vinte e três do segundo filho, e na altura foi muito difícil 69 para mim, porque estava a tentar descobrir-me e a lidar com muita coisa. Acho que 70 acabei por não estar tão presente quanto devia ter estado, mas compensei depois. Com 71 eles já depois dos cinco anos passei a estar muito mais presente. E fui um pai muito 72 diferente do que o meu pai e o meu avô foram para mim. Fui mais compreensivo, mais 73 meigo, mais presente, mais liberal. Por exemplo, em relação aos trabalhos. A pesca era 74 tradição, mas nenhum deles gostava disto para fazer disto vida. Ia obrigá-los a trabalhar 75 nisto para quê? Para não serem felizes? Não, achei melhor não o fazer, e deixei-os 76 seguirem os seus caminhos. Se eles forem felizes, eu também sou. 77 E.: Muito bem. Então e diga-me, o senhor começou cedo na pesca. Com que idade 78 começou? Que escolaridade completou? 79 A.: Então ham… A escola, deixei no quarto ano, como comecei cedo na pesca com 80 eles… Acho que tinha aí os meus nove ou dez anos, quando deixei a escola. Mas não 81 deixei porque quis. Eu gostava da escola até, e acho que podia compreender melhor as 82 coisas, muitas coisas, e até ter mais sabedoria e mesmo falar melhor, pronto, para além 83 da sabedoria da vida, porque essa até tenho muita com tudo o que vivi, mas no fundo 84 todos nós vivemos sempre algo que nos faz pensar isso, que somos mais vividos ou 85 sabidos que alguém. Mas pronto, sabedoria e experiência da outra que não a da escola, 86 tenho muita. 87 E.: Estou a ver. Diga-me, mais atrás na nossa conversa disse que chegou a levar 88 uma tareia” por causa da sua orientação sexual. Certo? 89 A.: Sim, sim, certíssimo. 90 E.: E isso está relacionado com o seu divórcio, ou são situações independentes uma 91 da outra? 92 A.: Eh, é assim moça, acabam por estar ligadas. São coisas que aconteceram à sua 93 maneira, mas sim, acabam por estarem ligadas. 94 E.: Poderia explicá-las? 95 A.: Ham… sim, sim, claro. Ham, então… Eu levei a tarei depois de ter sido apanhado 96 com outro homem, e depois disso divorciei-me. Ham… Pronto, andávamos ao mar, e 97 como os “lobos-do-mar” se estavam a começar a reformar aos magotes, ou seja, os avôs 98 280 e por aí, os homens mais velhos que já tinham dificuldades em ir ao mar, e aí o meu avô 99 até já tinha morrido, tinha morrido pouco tempo antes disso começar, tinha eu já os 100 meus trinta ou quês, talvez mais, não tenho a certeza, os pais, como o meu, e os jovens, 101 e outros parentescos, mas é para perceber melhor em termos de gerações, porque ali 102 estava uma salganhada de gerações, malta de todas as idades, e então a malta mais nova 103 ia-se juntando para irmos ao mar. Nisto, há um dia que a malta se junta para ir ao mar, e 104 aparece um rapaz novo, que era novo ali, primo de um pescador dali já de longa data. 105 Apresentou-se ali, conheci o rapaz, uns três ou quatro anos mais novo que eu, mas o 106 jovem parecia ali caído de paraquedas. Dava para ver que estava desenquadrado, que 107 nunca tinha feito aquilo na vida, que estava perdido ou quê. Como estavam todos nos 108 seus afazeres, aprocheguei-me lá do moço e comecei a falar com ele. Ajudei-o a 109 preparar as redes e os materiais para irmos embarcar, expliquei-lhe a função de algumas 110 coisas, preparei-o para outras, porque pronto, estava a dar-me pena ver assim o rapaz. E 111 assim que o primo dele viu, disse-me logo: “Epa [nome do entrevistado], tens jeito para 112 educar crianças! Sendo assim, ele vai tornar-se no teu aprendiz. Pronto, problema 113 resolvido! Oh [nome do rapaz], já ‘tás entregue e despachado! Faz boa figura, ham!”. 114 E pronto, fiquei encarregue de encaminhar o rapaz. Começamos a fazer embarcações 115 juntos, a passar mais tempo juntos, a conviver mais, pronto, e então numa tarde que 116 estamos só os dois junto do bote, ele começa a desabafar comigo, a falar-me sobre onde 117 vivia, o que é que estava ali a fazer, porque é que tinha vindo… E nisto diz-me que 118 sentia que podia mesmo falar comigo, que lhe parecia… liberal, mais moderno, mais 119 fácil de falar do que outros, mais compreensivo. Por isso ia arriscar as chances dele 120 comigo. O verdadeiro motivo dele ter vindo passar o verão ali era porque… Bem, ele 121 achava que gostava de homens. Os pais dele souberam, apanharam-no aos beijos com 122 um rapaz, creio eu que foi algo assim, e mandaram-no para lá, para o pé de nós, porque 123 achavam que viver uma profissão de homens 24h sobre 24h o ia fazer esquecer essa 124 loucura de gostar de outros homens. Que ninguém sabia, nem o primo dele, apenas ele 125 próprio e os pais, e queriam dar-lhe uma lição, para verem se ele aprendia o que era vida 126 dura, porque isso ia fazer dele um homem. Um homem que gostasse de mulheres. Não 127 ia. E eu sabia que não ia. Porque a maior prova disso mesmo era eu, euzinho, ali na 128 frente do rapaz, que percebia melhor do que ninguém o que ele me estava a dizer, e que 129 sabia que quando somos o que somos, não há nada no mundo que nos transforme no que 130 os outros querem. Se nós éramos homossexuais, não íamos passar a querer mulheres do 131 pé para a mão, mesmo que não o pudéssemos dizer ou mostrar. E é claro que para mim 132 281 aquilo mexeu-me com os nervos. Ele achava que gostava de homens, eu sabia que 133 gostava de homens. Como é que íamos passar aquilo? Eu já o achava giro, depois de 134 saber disso, ainda mais interessado fiquei. Já sentia que não sabia como disfarçar em 135 certas situações aquele olhar fixo que fazemos quando queremos ficar a olhar para 136 alguém de quem gostamos ou estamos atraídos. Lembro-me de nesse momento ficar 137 sem palavras e de estar a olhar para ele fixamente ao pé do bote, sem conseguir 138 disfarçar o meu ar. Ele reparou, claro, e perguntou-se se estava tudo bem. E eu lá reagi e 139 disse-lhe que por mim estava tudo bem, se ele gostasse de homens, que cada um era 140 como era, que não tinha de se sentir mal ou diferente por causa disso, que tinham de o 141 saber respeitar, que se quisesse explorar ele é que sabia, pronto, esse tipo de coisas. 142 Tentei fazer com que o rapaz se sentisse mais apoiado, mais compreendido, mais… 143 ham… mais aceite, vá, mais integrado. Era preciso uma coragem do tamanho do mundo 144 para se conseguir assumir assim perante outra pessoa. ‘Tá bem que era só eu, mas pense 145 lá, quem é que lhe dizia a ele que eu era tolerante mesmo? Que ia guardar segredo? Que 146 ia reagir bem e que não me ia passar e bater-lhe ou entregá-lo aos outros? Quer dizer… 147 não é? Não sabia. Eu era só um, se calhar isso também o descansou, não sei, mas a 148 verdade é que basta uma pessoa, uma única pessoa, para nos estragar a vida toda, seja 149 de que maneira for. E eu podia pô-lo em risco. Mesmo assim arriscou falar comigo, 150 partilhar uma coisa íntima e intensa comigo. Era um risco, e mesmo assim deu esse 151 passo. Eu não sei se dava. Aliás, tanto que não dava que não dei, não até ser apanhado 152 em flagrante. Mas pronto, continuando, ham… ah, sim, então, nesse momento lá 153 conversámos mais um bocado sobre esse assunto, sobre essa questão tudo de quem 154 gosta do quê, e de como isso funciona, e por aí, mas nunca lhe revelei que gostava de 155 homens também. Acho que ele deve ter ficado desconfiado porque desde aí tornámo-156 nos ainda mais próximos. Chegávamos mais cedo que os outros, partíamos mais tarde 157 que os outros… fazíamos mais tarefas juntos… tudo porque queríamos estar um com o 158 outro. Gostávamos da companhia um do outro. E sabíamos isso. Nós dois sabíamos 159 disso. Quando era preciso fazer alguma coisa que assim os outros não queriam, ou 160 propunha-me eu a fazer e ele dizia logo que também ajudava porque queria aprender, ou 161 dizia ele que assumia essa tarefa e eu dizia que o ajudava para o ensinar. Pronto, como 162 eram coisas que ninguém queria fazer, como desemaranhar as redes, por exemplo, ou 163 lavar os materiais e passá-los por água doce, que o sal corrói tudo, ou preparar grande 164 parte das coisas para o dia seguinte, ou mesmo pôr-se as embarcações em terra se viesse 165 dia de descanso ou de temporal que a embarcação ficasse melhor se ficasse em terra, era 166 288 acabou por ficar magoada, triste, desiludida, mas acho que compreendeu, que ficou ao 369 mesmo tempo aliviada, porque começou a perceber que não era ela que tinha algum 370 problema, que era eu. Isso não a impediu de ter uma desilusão, de ficar de rastos, mas 371 acho que aliviou um bocado a sensação que os pensamentos que ela tinha. 372 E.: Então foi aí que se divorciou? 373 A.: Sim, foi logo depois disso. Levou algum tempo ainda, mas lá nos divorciámos. 374 Depois como já lhe disse, ela fez e seguiu a vida dela, e eu fiz e segui a minha. 375 E.: E juntou-se com o tal rapaz, ou ficou solteiro depois dessa situação? 376 A.: Não, não, nós juntámo-nos. Depois das águas acalmarem, acabámos por nos 377 conseguirmos juntar, mas não durou tanto quando gostaria. Assumimos, acabámos por 378 sair dali porque estava a ser demasiado difícil viver ali sem sermos alvos 379 constantemente de tudo e de todos, e como queríamos paz, até para eu criar os meus 380 filhos, que como lhe disse, ficaram comigo, decidimos sair dali e mudar de casa. Lá 381 mudámos e ainda estivemos juntos uns dez anos ou quê. Foi o meu grande amor e o 382 meu maior desgosto, porque não pude ser feliz. Acabou porque aí já os meus filhos 383 tinham perto dos vinte ou vintes, não me recordo bem, e como estavam a ser cada vez 384 mais alvo de perseguição por causa de nós, decidimos acabar a nossa relação. Acho que 385 foi uma piada do karma. Tirei anos de vida de felicidade de outras pessoas, e agora era a 386 minha vez de não poder ser feliz. Não aguentava ver os meus filhos serem tratados 387 daquela maneira pelas outras pessoas por causa de mim. Não era justo para eles. Não 388 mereciam. Não tinham feito nada para merecer aquilo. Era a minha vez de abdicar do 389 que queria e do que me fazia feliz para que os outros pudessem ser felizes agora. E 390 pronto, já não falando só disso, mas também do facto deles não aceitarem assim tão bem 391 esta coisa da homossexualidade. O meu mais velho até percebe mais ou menos, tenta o 392 melhor que pode, ainda hoje que é com quem vivo, mas o meu mais novo não, sempre 393 me culpou por tudo. Desde o não ter tido mãe, o ter tido de passar por todas as coisas 394 más que passou, o insucesso que teve em tudo o que fez, as perseguições e as reputações 395 de que foi alvo. Ainda hoje, temos uma relação muito difícil, e ainda tento fazer as 396 pazes com ele, que me perdoe por tudo, e até o irmão já tentou falar com ele, mas é 397 muito difícil. Ele fechou-se e tornou-se numa pessoa triste e insensível, infeliz e amarga. 398 Até hoje fiz tudo o que pude para remediar isso, mas não consegui ainda. É o desejo que 399 tenho ainda. É conseguir ser feliz até morrer e resolver-me com o meu filho. 400 289 E.: Compreendo. E uma vez que vive com o seu filho mais velho e não numa 401 instituição, diga-me, o que é que pensa sobre as instituições? Os lares? Que 402 imagem é que tem deles? 403 A.: Tá a brincar, com certeza, não ‘tá? Os lares aterrorizam-me profundamente, nem 404 brinque! Porque é que acha que prefiro viver com o meu filho? 405 E.: E que imagem é que tem dos lares para ter essa opinião? O que é que 406 contribuiu para essa perceção? 407 A.: Oh, então pense lá comigo, veja lá. Se aqueles que me conheciam, alguns sangue do 408 meu sangue, outros com quem cresci, que me conheciam e rodeavam desde pequeno, se 409 esses reagiram daquela maneira quando souberam que eu era gay, que me deram aquela 410 tareia e me perseguiram, então ia para um lar fazer o quê? Eu do que acho, daquilo que 411 sei, os lares até podem aceitar pessoas gay, ou seja do que for, mas sei que lá dentro 412 depois não podemos ser aquilo que a gente somos, ou que o que agente quer ser. Agora 413 quero dormir com o meu namorado ou marido ou seja o que for, acha que vão deixar? 414 Quantos notícias sobre isso já saíram? Quantas porras se ouve por causa deste e daquele 415 que no lar foi agredido ou perseguido porque era gay, porque era mais feminino, porque 416 foi apanhado a fazer isto, aquilo ou outro? Não, não, não é uma coisa que queira para 417 mim. É assim, também sou realista. Eu actualmente não tinha condições para me 418 governar sozinho. Se não fosse pelo meu filho, então nem casa tinha, provavelmente. 419 Sim, porque pelo meu outro filho bem que podia até viver na rua. Não lhe fazia 420 diferença nenhuma, desde que estivesse longe dele. Por isso se não fosse por este meu 421 filho meu velho, bem que podia andar na lama com esta porra toda. Mas pronto, se não 422 houvesse ele, ou no dia que ele não me quiser na casa dele, claro que tenho de me 423 resignar e aceitar o meu destino, ir para um lar ou o que quer que seja. Acho que sempre 424 deve ser melhor do que viver na rua, pronto, não é? Mas que nunca me assumia aí, não, 425 nunca. Para que é que me ia sujeitar à humilhação e aos maus tratos? Não preciso disso 426 para nada. Ficava sossegadinho no meu canto, sem levantar suspeitas, sem dar azos a 427 confusões, e pronto, quando morresse, morria. Claro que me resignava, que remédio. 428 Mas moça, pode crer que não me assumia ali. Atão se levei uma tareia daquela gente 429 toda, que me conhecia de pequeno e era minha família e amigos, ali atão era mesmo a 430 pedir para ser alvo d’outra tareia. Fosse lá das gentes graúdas, fosse lá das auxiliares, 431 que do que sei são brutas e maltratam como tudo, ou dos outros velhos. Ou no mínimo 432 gozo e humilhação, de perseguição constante, como já fui. Não, isso é uma ideia que me 433 290 aterroriza profundamente, nem pensar. Ia ter que andar sempre escondido, não ia poder 434 ser quem sou, quem demorei tanto tempo para poder ser. Não ia ter a mesma vida, poder 435 fazer as mesmas coisas. Não, no que depender de mim, farei o possível para o evitar. Se 436 não der, olhe, resigno-me. 437 E.: Portanto, no que depender de si, da sua escolha, essa seria a última opção a 438 recorrer. 439 A.: Exacto, se puder ser eu a decidir, não vou, será a minha última opção. E logo atrás 440 dessa fica a opção de viver na rua. Por isso… já ‘tou como o outro, venha o Diabo e 441 escolha qual delas seria a melhor. Porque pronto, o dinheiro é um problema, a minha 442 reforma não dá nem para me governar sozinho, quanto mais investir num lar 443 porreirinho. Mais que não fosse, onde desse para eu poder ser quem sou. Até podia não 444 arranjar mais companheiros, coisa que já não faço aqui por respeito aos meus filhos, que 445 prometi que não o fazia, mas ao menos não tinha de ter medo de que soubessem que 446 gosto de homens, não é? Por isso acho que só resta poder viver aqui enquanto der, e 447 quando não der, olhe moça, lá me resignarei para ir para o raio do lar, mas vou ter de 448 mudar aquilo que sou. Pelo menos sempre me protejo de outra tareia ou seja lá do que 449 for que as pessoas intolerantes fazem hoje em dia. Isto deve ir mudando com as 450 gerações, sei lá. 451 E.: Compreendo. Então não pretende mesmo ter mais nenhum companheiro? 452 A.: Não, não pretendo ter mais ninguém. Pronto, é assim, não é que não quisesse, 453 porque até gostava de ser mais feliz, de voltar a viver o amor, e de fazer, e de ter noites 454 acompanhado. Ter alguém ao meu lado. Mas assim é difícil. Até aqui em casa do meu 455 filho, que é meu filho, quanto mais num lar, que ninguém me é nada. Acha que iam 456 perceber? Que iam aceitar? Que ia poder namorar? É que isto os velhos ainda namoram, 457 se é que me entende! Mas não, assim não dá… Porque estou sempre em guerra com 458 toda a gente para poder ser eu feliz. E depois de tudo o que fiz os meus passar, não me 459 sinto no direito de impor a minha felicidade à dos outros que sofreriam com isso, como 460 os meus filhos. Pronto, o mais velho ainda é mais tolerante. Pediu-me que se me tivesse 461 de envolver com alguém, que não o fizesse aqui pelo menos. Mas o mais novo, é para 462 esquecer. Esse como forma de me aproximar dele e podermos pelo menos conversar um 463 pouco, aceitar as minhas chamadas, que isto agora com os telemóveis que há hoje é tudo 464 mais fácil e prático, e assim já consigo ir falando com ele, mas para isso tive de 465 prometer que nunca mais me aproximava de nenhum homem. Ia ser o pai homem 466 291 normal que não gosta de homens que ele queria ter tido. Acabo por ser um pouco 467 infeliz, porque gostava de ter tido as minhas relações e que terminassem antes porque 468 não deu certo entre a gente, do que não ter podido sequer ter tido relações por causa dos 469 outros. Mas eles sofreram tanto por causa de mim, quem sou eu para os obrigar a não 470 serem felizes mais uma vez? 471 E.: Claro, estou a perceber. Então mas se pudesse ter outros companheiros, 472 esquecendo toda esta vertente que falou, tinha? 473 A.: Tinha. Aliás, nunca tinha acabado a relação com o tal rapaz. Que veja lá, só acabou 474 porque tivemos de nos separar por causa dos meus filhos. Ainda nos encontrámos umas 475 vezes depois disso, mas não podia passar disso. Tinha feito essa promessa! Como ele 476 queria voltar a assumir a nossa relação, porque para ele os meus filhos já eram crescidos 477 e eles só tinham de saber lidar com a situação, só tinham de aceitar se quisessem fazer 478 parte das nossas vidas, e se não quisessem, que fossem às vidas deles. Eu não 479 concordava a cem por cento com isso, mas percebia o lado dele, mas como tinha feito 480 aquela promessa de que os ia fazer felizes, de que os ia compensar, não pude aceitar 481 voltar a ter relação com ele. Ele ainda esperou uns dois anos, mas depois ele não pôde 482 esperar mais. Tivemos uma conversa final, em que ele me disse que não podia esperar 483 mais por mim, que eu me decidisse pela minha felicidade – ele – ou pela minha 484 obrigação – os meus filhos –, e que tinha conhecido outra pessoa, que essa pessoa 485 gostava muito dele e que queria começar uma relação com ele, mas que ele ainda me 486 amava e que aquela era a nossa última oportunidade de ficarmos juntos se eu assim 487 quisesse. Claro que a minha decisão está à vista, uma vez que não ‘tou com ele. Ele 488 acabou por refazer a vida dele, e olhe, ainda hoje está com essa pessoa. Eu, pronto, é o 489 que se vê. Promessas são promessas, mas que saudades tenho de uma noite de pezinhos 490 quentes a meu lado. Tive que abdicar da minha felicidade pelos meus filhos, pelo mais 491 velho, para poder continuar a viver com ele e não ir para um lar, e pelo mais novo, para 492 tentar fazermos as pazes. Olhe, não é que deixe de ser eu, gay, mas apenas está 493 escondido. Está inativo, adormecido. Mas pelos meus filhos, para os compensar o que 494 passaram, faço-o. 495 E.: Para além da falta que sente de ter companheiros, sente falta de ter intimidade 496 com outras pessoas? 497 A.: Claro. Eu vivo para mim. E para os meus filhos, mas é diferente. A gente quando 498 quer ter alguma intimidade e não podemos, viramo-nos para a nossa satisfação, pronto. 499 292 É normal, no meu caso então há muito tempo que não tenho ninguém. Desde esse rapaz, 500 desde que acabamos a nossa relação. A intimidade faz falta, começa a pesar ao fim de 501 tanto tempo de solidão. 502 E.: E a sexualidade, que peso tem para si? 503 A.: Ham… tem, claro que tem. A frequência desapareceu não é, por causa de tudo isto 504 que lhe disse, da promessa de não ter mais ninguém, mas claro que faz falta na mesma. 505 Não sei como é que são as outras pessoas, mas eu sinto saudades de ter intimidade, essa 506 intimidade, com quem nos faz feliz e sentir bem. Claro que é importante. Faz parte da 507 gente, do ser humano, não é? Pronto, para mim é importante. Mas não tendo outras 508 pessoas, olhe, foco-me em mim. 509 E.: Muito bem. E que noção tem acerca dos comportamentos sexuais de risco? 510 A.: Ham… Como assim? 511 E.: Das doenças sexualmente transmissíveis, dos riscos que se corre, os 512 comportamentos que se têm, se há protecção, se não há. O que pensa disso? 513 A.: Ah! Sim, oh, a gente sempre teve cuidado. Quer dizer, houve algumas vezes que não 514 usámos protecção. Mas isto porque toda a gente sabia ali da vida uns dos outros. Se eu 515 fosse à farmácia ali da zona, se fosse comprar preservativos, logo a seguir ou ao fim do 516 dia, já se sabia que eu tinha comprado. Depois se não usasse com a minha mulher, havia 517 falatório. E isso sabia-se porque bastava alguém ir ter com ela e perguntar se a noite 518 tinha sido boa, como chegou a acontecer, ou ela ir depois à farmácia comprar remédios 519 para os putos e depois perguntarem-lhe se ela tinha gostado dos preservativos que eu 520 tinha levado, se tinha sido uma boa noite. A sério moça, isso é tão certo como eu estar 521 aqui vivinho da silva a falar consigo. As pessoas daqueles meios sabem tudo, falam de 522 tudo, têm de saber da vida de todos. E claro, depois nessa vez que me aconteceu isso a 523 mim, que fui comprar preservativos para estar com o rapaz, quando cheguei a casa, 524 ainda não se sabia nada, mas à noite e no dia a seguir a minha mulher interrogou-me 525 logo para saber se eu tinha comprado preservativos, porque é que ainda não os tínhamos 526 usado. Porque também não queríamos ter mais filhos, então usávamos. Mas agora veja 527 lá, as desculpas que tive de dar para justificar aquilo. Tinha-os todos contados por ela. 528 Não pude tirar daí nem um. E tive de fazer essas vezes com ela, não tinha como fugir. 529 Afinal não tinha sido eu a comprar? Pronto, tive de usar com ela. Ela andou feliz da 530 vida, eu andei desesperado, e o rapaz tirava-me gozo sempre que íamos preparar as 531 293 coisas. E tive de passar a comprar fora ali da zona, onde não me conhecessem, para 532 poder comprar sem ser apanhado e falado por isso. E comprava logo algumas 533 embalagens, dentro do possível, para evitar também ter de justificar as voltas extras e 534 longas dali. Porra, que ali tudo se sabia e se falava. Mas pronto, quando dava, 535 usávamos, quando não dava, não usávamos. Mas também só tínhamos relações os dois 536 um com o outro, assim e mais frequente também. Com a minha mulher usava sempre 537 porque não queria correr o risco de ter mais filhos, desse por onde desse, mas a 538 frequente era rara. Já ficava muito custoso. Se tivéssemos duas a três vezes relações por 539 mês, acredite moça, já era muito. Mas sempre fui saudável. Entretanto também não me 540 envolvi com mais ninguém, por isso… Olhe, acho que até não correu mal de todo, ainda 541 tenho algumas ideias sobre a coisa. 542 E.: Muito bem. Estamos a chegar ao fim da nossa entrevista. Quer acrescentar 543 algo que se tenha esquecido, relativamente a algum tema que tenha sido abordado, 544 ou que se lembre e queira registar? 545 A.: Ham… Não, não creio. Apenas que gostava que as coisas tivessem sido diferentes, 546 que não tivesse tido de enganar ninguém e de fazer sofrer ninguém. Porque se não o 547 tivesse feito, não sentia que tinha de os compensar pelo que fiz, e ter de abdicar da 548 minha felicidade para os compensar. Podia ser eu a ser feliz, mesmo feliz, com a pessoa 549 que tinha mesmo amado de coração. Podíamos ainda ‘tar juntos. Por isso que se tire 550 daqui essa lição, só isso. Sermos verdadeiros com a gentes mesmos, não enganarmos 551 ninguém, nem desperdiçarmos a vida dos outros se não gostamos deles como eles 552 gostam de nós, e não devermos nada a ninguém. Aí sei que podemos ser felizes a sério. 553 Só isso. Acho que isso é importante de se memorizar. 554 E.: Bem, então vamos terminar aqui a nossa entrevista. E gostaria de aproveitar 555 para lhe agradecer a sua participação, colaboração e disponibilidade. 556 A.: De nada, obrigado também eu. 557 294 295 Transcrição da entrevista Nº8 – Isabel 296 E.: Muito bem, quer começar agora? 1 A.: Ham… Sim, pode ser. 2 E.: Muito bem. Para começar, gostaria que me falasse um pouco de si, que me 3 falasse um pouco do seu percurso de vida. A sua idade, o seu estado civil, 4 escolaridade, a sua vida até aqui, por aí. 5 A.: Ham, ham… Então… Então… Tenho sessenta e nove anos… ham… Tenho uma 6 companheira, a quem chamo de minha mulher, ainda que não sejamos casadas, mas é o 7 que sinto que somos, pronto, que ela é para mim, por isso pronto, vou passar a dizer que 8 é a minha mulher, está bem? Pode ser não pode? 9 E.: Sim, claro, claro. 10 A.: Pronto, ham, então… ham… a escola… Sim, tenho o sétimo ano de escolaridade, da 11 antiga escola, que agora equivale ao décimo segundo ano, se não estou em erro. Ham… 12 Estive para ir para a faculdade, mas não quis, queria ficar um ano a trabalhar, para ter 13 mais experiência, ganhar alguma estaleca, ter eu o meu dinheiro já para algumas 14 coisas… Mas comecei realmente a trabalhar e já não tive vontade de voltar à escola. Já 15 não quis fazer mais daquilo, já não tinha paciência para a escola, para mais escola, 16 porque ainda por cima comecei a trabalhar num centro de emprego e a receber bem, isto 17 ainda lá em Angola, porque eu nasci e vivi lá, como técnica de emprego, acho que é 18 aquilo que chama cá de IEFP, porque depois quando vim para cá trabalhei aí como área 19 equivalente de lá. Acabei por não querer seguir mais escola porque também os tempos 20 eram outros, acho que hoje se dá muito mais importância a isso do que na minha altura, 21 mas também é mais desvalorizado no mercado de trabalho, mas pronto, eu queria ser 22 independente. Ter o meu dinheiro, ter as minhas coisinhas, fazer o que queria… E os 23 meus pais perceberam, e sempre me apoiaram em todas as decisões que eu tomava. Em 24 tudo o que decidi até aqui, sempre estiveram ao meu lado. Posso dizer que fui e sou uma 25 sortuda. Até as namoradas que fui tendo, e mesmo quando me assumi, pude falar com 26 eles. Pude sempre desabafar com a minha mãe, que depois da primeira vez falou com o 27 meu pai, e foi sempre muito receptivo e carinhoso, aliás, foram sempre os dois, muito 28 compreensivos e apoiantes. Tenho amigas e amigos também não heterossexuais, não é, 29 por acaso já perdi um bocado a ligação com eles, quando me mudei para cá, mas… e as 30 histórias deles, meu Deus, o que eles passaram… Desde valentes enxertos de porrada, a 31 cintos, a chicotes, a panelas, a queima de cigarros, a igrejas transformadoras da 32 297 orientação sexual, a manicómios, a tudo o que fosse possível ser utilizado para se acabar 33 com a monstruosidade de se ter um filho que não fosse hétero. Quer dizer… que 34 aberrações. Esses sim, esses pais é que foram efetivamente aberrações. Então agora as 35 pessoas nascem como nascem, sem terem culpa do que vão gostar, de quem vão gostar, 36 e se não fizeram nada de mal a ninguém, porque não podem ser respeitadas e felizes? 37 Sinceramente. Felizmente, e por saber dessas coisas todas, fico muito feliz por saber os 38 pais que tive. Não podia ter tido mais sorte na vida como a sorte que tive nos pais que 39 me calharam. Acho que isso muda tudo, toda a base familiar, toda a nossa educação, a 40 liberdade de podermos escolher ser quem quisermos, amarmos quem quisermos, sem 41 termos medos alguns… E ainda termos uma grande rede familiar a apoiar-nos… Quer 42 dizer, acho fantástico mesmo. Não é qualquer pessoa que o fazia. Principalmente 43 naquela altura. 44 E.: Claro, compreendo. Então a sua mulher foi apresentada aos seus pais também? 45 A.: Sim, claro, felizmente ainda fui a tempo de a apresentar aos meus pais. Eles 46 morreram uns sete ou oito anos depois de começarmos a nossa relação. Tinha eu uns 47 quarenta e dois ou quarenta e três anos nessa altura… Tiveram um acidente de carro. 48 [Pausa 0,5 segundos] O meu pai, ham… Ele… Ele morreu logo no acidente. Disseram-49 me que foi morte imediata. Ham… E a minha mãe foi levada para o hospital, muito mal, 50 num estado muito grave, mas no dia a seguir já… já não conseguiu aguentar… Pronto, 51 morreu também. [Pausa 0,6 segundos] Nesse dia fiquei órfã. Completamente só. Estive 52 rodeada por tanta gente, incluindo a minha mulher, e acho que nunca me senti tão 53 sozinha. Acho que foi a maior dor que senti na vida. Ainda não tinha assimilado a 54 notícia da morte do meu pai e ainda estava na esperança de poder salvar a minha mãe e 55 me agarrar a ela com unhas e dentes… e… ham… nem isso pude ter… [Pausa 0,4 56 segundos] Levaram-me os meus pais, deixaram-se sem eles quando eu mais precisava 57 deles. Um filha da puta bêbedo que se despistou e embateu de frente no carro dos meus 58 pais, estavam eles a caminho de casa deles, depois de terem estado connosco a jantar cá 59 em casa. Quando nos ligaram para casa a avisar o que se tinha passado… o meu número 60 estava na lista dos contactos do meu pai, com que ele andava sempre, e ligaram para 61 mim… quando atendi, nem quis acreditar. Não podia ser, não podia ser possível uma 62 coisa daquelas. Eles tinham acabado de estar ali, ao meu lado, ao pé de mim. Tinham 63 acabado de me abraçar com tanta força que ainda os podia sentir! [Pausa 0,4 segundos] 64 Como é que me podiam estar a ligar a dizer que eles tinham tido um acidente e que eu 65 304 E.: Claro, compreendo. Sendo assim perspectiva uma possível futura 267 institucionalização? Ou descarta por completo? 268 A.: Bem… ham… Quer dizer… Não propriamente… prefiro viver na minha casa, com 269 a minha mulher! Como é que faria num lar? Quer dizer, não sei se há lares só para 270 homossexuais, mas se houver, como é que faço para ir? As condições? Há vagas? Há 271 restrições? E se não houver, vou para um lar “normal” que pode não aceitar pessoas 272 com orientações sexuais diferentes? Não sei como é que isso pode funcionar bem… 273 Porque até posso ser aceite por uns e não por outros… e depois, como é que lido com o 274 conflito se tenho de viver ali? Não sei, não sei bem como é que isso pode resultar sem 275 dar problemas… E a minha mulher? Poderíamos ficar juntas? É que esta questão para 276 mim é a principal. Se precisarmos de um lar, uma de nós, a outra vai querer ficar lá, 277 onde a outra está, a acompanhar todos os dias, como se vivêssemos em casa, percebe? 278 Onde está uma, está a outra! O nosso dia-a-dia, como é que ia ser? Acho que isso me 279 assusta um bocado. Todas essas questões são importantes, de ter a minha casa, a minha 280 rotina, a minha maneira de fazer as coisas, a minha comidinha que nem sempre é a 281 melhor, reconheço, mas que me sabe tão bem… tudo isto e muito mais mexe já comigo 282 só de pensar, mas o que me aperta o coração é mesmo a questão da minha mulher, de se 283 podemos ficar juntas ou não, e manter a nossa normalidade do dia-a-dia que temos 284 aqui... Sabe, mesmo as coisas mais simples… o dar as mãos, estarmos agarradas, 285 darmos uns beijinhos, termos a nossa intimidade, tomarmos banho juntas, o trocarmos 286 carinhos, a nossa cumplicidade, lermos os nossos livros no sofá, com as nossas pernas 287 embrulhadas uma na outra, com a nossa mantinha na posição que mais gostamos… 288 Quer dizer… todas estas coisas podem não querer dizer nada às outras pessoas, mas 289 aquilo que significam para nós… Percebe? São as nossas rotinas, são tudo coisas que 290 têm significados, sentidos, simbolismos para nós, e que talvez só nós duas percebamos, 291 mas é nosso. É tão nosso que faz todo o sentido do mundo ser assim. Mesmo a 292 comermos as nossas refeições, temos a nossa maneira de o fazer. Não só de preparar as 293 refeições, mas também da forma de comer. A posição em que nos sentamos. Temos a 294 nossa bancada da cozinha que gostamos de tomar lá o pequeno-almoço, e enquanto 295 comemos as duas ao mesmo tempo, temos o jornal no meio, e vamos lendo-o ao mesmo 296 tempo! Quando acordamos, eu deixo logo as nossas bebidas preparadas, e vou logo 297 buscar o jornal, todas as manhãs, enquanto ela prepara as torradas e as coisas na 298 bancada, depois eu chego e trago também os nossos bolinhos preferidos. E depois 299 [Document text truncated for crawler view.]