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Clivada de SER e Estrutura Enfática com Mas SER: Uma mesma estrutura ou estruturas diferentes?

Bolrinha, Márcia Sofia Coelho

Abstract

O português dispõe de vários tipos de construções clivadas, entre as quais se incluem as clivadas de SER (ou semipseudoclivadas ou estruturas de focalização com SER). Existe ainda um tipo de estrutura que usa a conjunção adversativa mas com o verbo SER – é, era e foi – como um todo com valor enfático, que alguns autores têm analisado como uma variante da clivada de SER. Nesta dissertação, pretendeu-se descrever e analisar as estruturas enfáticas com mas SER, comparando-as com as clivadas de SER. Teve-se em conta a intuição de falantes, através de juízos de gramaticalidade, e também ocorrências de mas seguidas do verbo SER (nas formas é, era e foi) com valor enfático, retiradas dos corpora CETEMPúblico e CORDIAL-SIN. Procurou-se determinar: i) quais os contextos discursivos em que esta estrutura ocorre; ii) quais as suas propriedades sintáticas; iii) em que se distinguem das clivadas de SER. Verificou-se se as clivadas de SER e as estruturas com mas SER têm propriedades que justifiquem uma análise diferenciada e propôs-se uma análise sintática que desse conta do seu funcionamento, considerando-se propriedades sintáticas e semânticas de ambas as estruturas. Conclui-se nesta dissertação que: i) a estrutura enfática com mas SER tem propriedades diferentes da clivada de SER; ii) mas SER está a passar por um processo de gramaticalização; iii) mas SER pré-foco pode flexionar ou não de acordo com um verbo em T, enquanto mas é pós-frase nunca flexiona; iv) estamos perante duas estruturas diferentes para mas SER: uma estrutura para mas SER pré-foco e outra para mas é pós-frase; v) a estrutura com mas SER só introduz foco contrastivo.

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Clivada de SER e Estrutura Enfática com Mas SER: Uma mesma estrutura ou estruturas diferentes? Márcia Sofia Coelho Bolrinha Dissertação de Mestrado em Ciências da Linguagem Junho de 2017 Márcia Bolrinha – Clivada de SER e Estrutura Enfática com Mas SER: Uma mesma estrutura ou estruturas diferentes? - 2017 ii Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências da Linguagem, realizada sob a orientação científica de Maria Fernandes Homem de Sousa Lobo Gonçalves. iii Aos meus pais, Por acreditarem que tudo é possível iv AGRADECIMENTOS A escrita de uma dissertação não é uma tarefa nada fácil. A realização de um trabalho como este requer muita paciência, muito esforço pessoal e muita dedicação. Apesar disso, devo confessar que é bastante recompensador. Este trabalho tornou-me uma pessoa mais organizada e empenhada a nível pessoal. Queria agradecer a todas as pessoas que me são especiais e que me permitiram chegar até aqui, particularmente: A todos os professores de Linguística que me inspiraram a querer conhecer e explorar este mundo, em especial à professora Maria Lobo. Agradeço-lhe por ter aceitado ser minha orientadora, pela disponibilidade e paciência, e, mais importante que tudo, pelos conhecimentos que me transmitiu. A todos os meus amigos, que me incentivaram a nunca desistir e sempre acreditaram que eu era capaz disto e muito mais, e, por último, à minha família, cujo agradecimento é o mais especial. Aos meus pais, que sempre acreditaram em mim e nas minhas capacidades. Sei que eles têm muito orgulho em mim. Obrigada por tudo. Aos meus avós, que têm um lugar tão especial no meu coração. Agradeço-lhes pelo carinho. Para mim, serão eternos. A todos aqueles que me ajudaram, de alguma maneira, a realizar este trabalho. v CLIVADA DE SER E ESTRUTURA ENFÁTICA COM ‘MAS SER’: UMA MESMA ESTRUTURA OU ESTRUTURAS DIFERENTES? MÁRCIA SOFIA COELHO BOLRINHA RESUMO PALAVRAS-CHAVE: clivadas, clivada de SER, semipseudoclivada, estrutura enfática com mas SER. O português dispõe de vários tipos de construções clivadas, entre as quais se incluem as clivadas de SER (ou semipseudoclivadas ou estruturas de focalização com SER). Existe ainda um tipo de estrutura que usa a conjunção adversativa mas com o verbo SER – é, era e foi – como um todo com valor enfático, que alguns autores têm analisado como uma variante da clivada de SER. Nesta dissertação, pretendeu-se descrever e analisar as estruturas enfáticas com mas SER, comparando-as com as clivadas de SER. Teve-se em conta a intuição de falantes, através de juízos de gramaticalidade, e também ocorrências de mas seguidas do verbo SER (nas formas é, era e foi) com valor enfático, retiradas dos corpora CETEMPúblico e CORDIAL-SIN. Procurou-se determinar: i) quais os contextos discursivos em que esta estrutura ocorre; ii) quais as suas propriedades sintáticas; iii) em que se distinguem das clivadas de SER. Verificou-se se as clivadas de SER e as estruturas com mas SER têm propriedades que justifiquem uma análise diferenciada e propôs-se uma análise sintática que desse conta do seu funcionamento, considerando-se propriedades sintáticas e semânticas de ambas as estruturas. Conclui-se nesta dissertação que: i) a estrutura enfática com mas SER tem propriedades diferentes da clivada de SER; ii) mas SER está a passar por um processo de gramaticalização; iii) mas SER pré-foco pode flexionar ou não de acordo com um verbo em T, enquanto mas é pós-frase nunca flexiona; iv) estamos perante duas estruturas diferentes para mas SER: uma estrutura para mas SER pré-foco e outra para mas é pós-frase; v) a estrutura com mas SER só introduz foco contrastivo. vi SER-CLEFT AND EMPHATIC STRUCTURE USING ‘MAS SER’: THE SAME STRUCTURE OR DIFFERENT STRUCTURES? MÁRCIA SOFIA COELHO BOLRINHA ABSTRACT KEYWORDS: clefts, SER-clefts, emphatic structure using mas SER (‘but BE’). The Portuguese language has several types of clefts constructions, including SER-clefts. There are also emphatic structures using the adversative conjunction ‘but’ (‘mas’) combined with the verb ‘to be’ (‘SER’) – mas é, mas era or mas foi – that some authors have described as being a variant of the SER-cleft. The purpose of this dissertation is to describe and analyze these emphatic structures and to compare them with the SER-clefts. This work considers the intuition of speakers, through grammaticality judgments, and occurrences of mas é, mas era and mas foi with emphatic value, from the corpora CETEMPúblico and CORDIAL-SIN. The aim is to determine: i) which are the discursive contexts in which this structure occurs; ii) which are its syntactic properties; iii) how it differentiates from the SER-cleft. In this work, we consider if the SER-clefts and the structures with mas SER have properties that justify a differentiated analysis and we propose a syntactic analysis that accounts for its properties, considering syntactic and semantic properties of both structures. We conclude that: i) the emphatic structure using mas SER has different properties from the SER-cleft; ii) mas SER is a focus particle that is passing through a process of grammaticalization; iii) mas SER pre-focus may inflect according with a verb in T, but it is not obligatory, while mas é post-sentence never inflects; iv) we are dealing with two structures for mas SER: one for mas SER pre-focus and one another for mas é post-sentence; v) the emphatic structure using mas SER only introduces contrastive focus. vii ÍNDICE Lista de abreviaturas ............................................................................................ix Capítulo I: Introdução .......................................................................................... 1 I. 1. Apresentação do estudo e formulação do problema ........................ 1 I. 2. Objetivo do estudo .............................................................................. 2 I. 3. Estrutura da dissertação ...................................................................... 2 Capítulo II: Clivada de SER ................................................................................... 4 II. 1. Introdução às clivadas de SER ............................................................ 4 II. 1.1. Clivadas de SER diferentes das pseudoclivadas .............................. 5 II. 2. Propriedades da estrutura................................................................ 19 Capítulo III: Estrutura enfática com mas SER.................................................... 23 III. 1. Introdução às estruturas enfáticas com mas SER........................... 23 III. 2. Propriedades da estrutura............................................................... 27 III. 2. 1. Metodologia ............................................................................. 27 III. 2. 2. Posição sintática de mas SER ................................................... 28 III. 2. 3. Contextos ilocutórios ............................................................... 31 III. 2. 4. Tipo de constituinte clivado ..................................................... 33 III. 2. 5. Distribuição sintática do constituinte clivado ......................... 34 III. 2. 6. Propriedade de mas SER flexionar ........................................... 35 III. 2. 7. Conclusões finais ...................................................................... 38 Capítulo IV: SER e foco - Propriedades interpretativas .................................... 40 IV. 1. Tipos de foco e perspetivas sobre a codificação de foco na sintaxe ...................................................................................................................... 40 IV. 2. Foco na Clivada de SER e na Estrutura Enfática com Mas SER ...... 44 IV. 2. 1. Clivada de SER e foco ............................................................... 44 viii IV. 2. 2. Estrutura Enfática com Mas SER e foco .................................. 47 IV. 3. Conclusões ....................................................................................... 50 Capítulo V: Clivada de SER e estrutura enfática com mas SER ........................ 51 V. 1. Comparação das propriedades das estruturas ............................... 51 V. 2. Resultados e proposta ...................................................................... 52 V. 3. As duas estruturas ............................................................................ 53 Conclusão ........................................................................................................... 61 Referências bibliográficas ................................................................................. 63 Anexos ................................................................................................................ 68 A. Ocorrências de mas SER em corpora ................................................. 68 A1. Ocorrências no CETEMPúblico ........................................................... 68 A2. Ocorrências no CORDIAL-SIN ............................................................. 70 ix LISTA DE ABREVIATURAS AAL – Alto Alentejo (Castelo de Vide, Porto de Espada, São Salvador de Amarenha, Sapeira, Alpalhão, Nisa – Portalegre) Agree – Agreement (Concordância) AJT – Aljustrel - Beja ALC – Alcochete - Setúbal Asp – Aspect (Aspeto) CBV – Cabeço de Vide – Portalegre Conj – Conjunção CP – Complementizer Phrase (Sintagma complementador) EXB – Enxara do Bispo - Lisboa FIG – Figueiró da Serra – Guarda FocP – Focus Phrase (Sintagma focalizador) GRC – Graciosa - Angra do Heroísmo IP cop – Copular clause (Oração copulativa) LAR – Larinho - Bragança MTV – Montalvo - Santarém PAL – Porches, Alte – Faro PFT – Perafita - Vila Real PIC – Bandeiras, Cais do Pico – Horta STA – Santo André - Vila Real STJ – Santa Justa - Santarém UNS – Unhais da Serra – Castelo Branco 7 ‘Mais gosta é dançar salsa.’ (16) a. ¿Qué era lo que Juan leía? ‘O que era que o Juan lia?’ b. *¿Qué Juan leía era? ‘*O que o Juan lia era?’ O autor admite que o focalizador SER está in situ, que ocupa a posição de núcleo de FocusP, gerado dentro de um VP, e que a frase focalizada é seu complemento, tal como mostra o exemplo (17). Bosque (1999) propõe que as clivadas de SER não contêm uma oração pequena e que o verbo SER não é um verbo copulativo mas sim um operador de foco que tem como função contrastar constituintes. (17) [IP Juan i [VP t i [V comía [FP [[F o era ] papas.]]]]] (Bosque 1999: 4) Este autor afirma também que a clivada de SER é uma estrutura monooracional, enquanto a estrutura da pseudoclivada é formada por duas orações diferentes, ou seja, é bioracional. Mioto (2012) argumenta contra esta última hipótese, uma vez que SER sendo núcleo de FocusP deveria bloquear a subida do verbo principal da frase para I. Curnow & Travis (2003), para o espanhol colombiano, assumem que nem todas as pseudoclivadas podem tornar-se clivadas de SER e nem todas as clivadas de SER podem tornar-se pseudoclivadas, pela inserção ou eliminação de um constituinte Wh-. Estes autores aplicam alguns testes empíricos para a confirmação da hipótese de que as pseudoclivadas e as clivadas de SER são diferentes. Um desses testes é a focalização de polaridade negativa (o que também foi observado por Bosque (1999)). As pseudoclivadas não permitem a focalização desse tipo de construção, enquanto que isso já é possível com a utilização de uma clivada de SER: (18) a. *Lo que no puedo ver es nada. (Curnow & Travis 2003: 2) ‘*O que não posso ver é nada.’ b. No puedo ver es nada. 8 ‘Não posso ver é nada.’ Outro teste indicado pelos autores é a sensibilidade à subida de clítico. Nas clivadas de SER, o clítico “ignora” a presença de SER, ao contrário do que acontece nas pseudoclivadas, tal como também mostra Méndez Vallejo (2012: 3): (19) a. Lo que quiero es irme. ‘O que quero é ir-me.’ b. *Lo que me quiero es ir. ‘*O que me quero é ir.’ c. Quiero es irme. ‘Quero é ir-me.’ d. Me i quiero es ir i . Me quero é ir. ‘Quero é ir-me.’ Estes autores admitem, com estes testes, que a clivada de SER é uma estrutura mono-oracional, visto que a presença do verbo SER focalizador não impede a focalização de itens de polaridade negativa nem a subida de clíticos, enquanto a estrutura pseudoclivada contém uma oração subordinada. Curnow & Travis (2003) afirmam também que tanto a clivada de SER como a pseudoclivada servem para focalizar complementos indiretos, mas as estruturas parecem ocorrer em diferentes contextos, embora os autores não desenvolvam este tópico. Os autores também mostram que a clivada de SER tanto marca foco contrastivo como foco identificacional (não contrastivo) 3 . Camacho (2006), para o espanhol caribenho, tal como Bosque (1999), trata a clivada de SER como uma clivada específica, mas assume que o focalizador SER é núcleo de IP COP e que tem a mesma estrutura e propriedades argumentais que os 3 Curnow & Travis (2003: 7) mostram que, de 34 tokens interpretáveis, 25 correspondiam a usos contrastivos e 9 a usos identificacionais (não contrastivos). Os autores admitem que, para alguns desses, a leitura de contraste era claramente excluída. 9 outros verbos copulativos. IP COP tem como especificador um sujeito nulo e como complemento um DP focalizado, tal como mostra o exemplo representado abaixo: (20) (Camacho 2006: 19) IP 3 Los pájaros I’ 3 se comieron VP 3 VP IP COP 3 3 V e i x I’ COP 3 fue las migas iFOC Camacho (2006: 18), ao estabelecer uma relação entre a categoria vazia complemento e o constituinte focalizado, admite que o constituinte focalizado não está numa posição argumental, visto que o complemento las migas poderá aparecer numa ilha, como é demonstrado no exemplo (21). (21) El pájaro se comió me sorprende el hecho de que fuera/fueran las migas. O pássaro comeu me surpreende o facto de que foi/foram as migalhas. ‘O pássaro comeu surpreende-me o facto de que foi/foram migalhas.’ Assumindo ainda que deverão ser atribuídos papéis temáticos a argumentos que estão em posição de complemento, este autor sugere que las migas não pode ser argumento de comió, visto que não é seu complemento. O autor propõe, em alternativa, uma categoria nula em posição de argumento co-indexado com o predicado do verbo copulativo. Apesar disso, Camacho afirma que não existe relação de movimento entre las migas e a categoria nula. O autor sugere que a estrutura copulativa (IP COP ) está numa posição de adjunção a VP, visto que admite que o verbo SER tem as mesmas propriedades estruturais e argumentais que outros verbos copulativos. 10 Méndez Vallejo (2009b: 226) argumenta contra esta hipótese, visto que SER, de acordo com a autora, não se comporta como um verbo copulativo, mas como um intensificador de foco e, por isso, não partilha as mesmas propriedades que outros verbos copulativos. Tendo em conta a análise de Camacho (2006), a autora não concorda com a proposta de SER só focalizar constituintes acima de vP, visto que pode focalizar o perfetivo (22) e o progressivo (23). (22) A: ¿Rubén no había salido cojeando? (Méndez Vallejo 2009b: 103-104) Rubén não havia saído coxeando. ‘O Rubén não tinha saído a coxear?’ B: No, él había era llegado cojeando. Não, ele havia era chegado coxeando. ‘Não, ele tinha era chegado a coxear.’ (23) A: ¿Rubén no había salido cojeando? (Méndez Vallejo 2009b: 104) Rubén não havia saído coxeando. ‘O Rubén não tinha saído a coxear?’ B: No, él había salido era saltando. Não, ele havia saído era saltando. ‘Não, ele tinha saído era a saltar.’ Méndez Vallejo (2009b: 80) afirma que o verbo SER da pseudoclivada não está na mesma posição que o verbo SER da clivada de SER, isto porque nas pseudoclivadas SER não concorda em tempo e aspeto com o verbo principal da oração subordinada (24a e 24b), enquanto na clivada de SER o focalizador SER concorda sempre em tempo e aspeto com o verbo principal (24c e 24d): 11 (24) a. Quien/La que me robó fue ella. “Quem me roubou foi ela.” b. Quien/La que me robó es ella. Quem me roubou é ela. “Quem me roubou foi ela.” c. Me robó fue ella. Me roubou foi ela. “Roubou-me foi ela.” d. *Me robó es ella. Me roubou é ela. “Roubou-me foi ela.” Outro aspeto apontado pela autora é que o progressivo não pode ser focalizado pela pseudoclivada, mas pode ser pela clivada de SER: (25) a. *Lo que ha estado es estudiando lingüística. (Méndez Vallejo 2012: 3) O que tem estado é estudando linguística. ‘*O que tem estado é a estudar linguística.’ b. Ha estado es estudiando lingüística. Tem estado é estudando linguística. ‘Tem estado é a estudar linguística.’ 12 A autora admite que SER está numa posição interna a TP e não a CP, como é o caso das pseudoclivadas. Méndez Vallejo (2009b) conclui que a clivada de SER pode focalizar qualquer tipo de constituinte desde que seja pós-verbal, o que sugere que SER esteja numa posição abaixo de T mas acima de vP, e não dentro de vP como afirma Bosque (1999) e Camacho (2006), visto que SER pode focalizar constituintes gerados acima de vP. Méndez Vallejo admite então que SER, nas clivadas de SER, é originado em FocP localizado abaixo de T e acima de vP. Em relação ao focalizador SER, Méndez Vallejo (2009b) afirma que SER deve ser visto como partícula de foco (focus link) e não como um verbo copulativo ou um verbo auxiliar, visto que só aparenta funcionar como um intensificador de elementos focalizados. Esta autora concluiu também que SER só focaliza constituintes pós-verbais e que estabelece concordância em tempo e aspeto com um verbo em T. Baseada nestas observações, a estrutura que a autora sugere é que SER é gerado dentro de um FocP, no qual o núcleo (Foc) é nulo e o especificador é ocupado por SER. A justificação da autora para colocar SER na posição de especificador e não em núcleo é SER servir como um elo de ligação entre informação nova e velha e introduzir informação nova. Isto sugere que, ao enfatizar o elemento focalizado, deverá ser examinado como um especificador e não como um núcleo. Apesar de SER concordar em tempo e aspeto com o verbo em T e em pessoa e número com o elemento focalizado, a autora afirma que SER perdeu as suas propriedades semânticas como verbo. Esta autora refere ainda que SER não concede a interpretação de foco ao constituinte focalizado, mas que enfatiza ou intensifica a atribuição de foco. Portanto, Méndez Vallejo (2009b: 257) afirma que tanto o focalizador SER como o núcleo de FocP constituem a estrutura de foco. Em termos de posição sintática, Méndez Vallejo afirma que FocP ocorre na periferia interna de TP, abaixo de T. Méndez Vallejo (2012) observou também que as clivadas de SER tanto servem para marcar foco identificacional (não contrastivo) (26) como foco contrastivo (27) em espanhol colombiano: 13 (26) A: ¿Qué compraste? Que compraste? ‘O que é que compraste?’ B: Compré fue vino. ‘Comprei foi vinho.’ (27) A: ¿Compraste vino o cerveza? ‘Compraste vinho ou cerveja?’ B: Compré fue vino. ‘Comprei foi vinho.’ Mioto (2012: 300) considera a clivada de SER uma estrutura mono-oracional em que o focalizador SER é uma partícula de foco que emerge como adjunto do constituinte focalizado, como no exemplo por ele representado: (28) [TP O Lula i tem [vP é [vP t i falado pouco e com poucos.]]] O Lula, ao ficar em SpecTP, c-comanda o seu vestígio em VP. Por ser um adjunto, o focalizador SER não bloqueia a subida do verbo e o que temos no fim é uma oração mono-oracional. O autor admite que isto explica as várias posições do focalizador, dando os exemplos representados abaixo: (29) a. A Maria quer é chegar a Florianópolis no domingo, não chegar a Joinville. b. A Maria quer chegar é a Florianópolis no domingo, não a Joinville. c. A Maria quer chegar a Florianópolis é no domingo, não no sábado. 14 Mioto (2012: 290) admite também que a clivada de SER é uma clivada específica e que não tem nenhuma “redução” na frase, dando o exemplo (30). Se a clivada de SER fosse uma pseudoclivada com operador nulo, a frase (30b) seria gramatical. (30) a. O que a Maria é é escandaloso. b. *A Maria é é escandaloso. Autores como Resenes (2014) admitem haver mais que um tipo de clivada de SER: uma construção que é independente da pseudoclivada e outra que deriva da pseudoclivada, mas com apagamento do constituinte Wh. Apesar disso, Kato & Mioto (2016) afirmam que a falta de concordância verbal entre o verbo e o sujeito pós-verbal mostra que só há um tipo de clivada de SER. Kato & Mioto (2015) também defendem que as pseudoclivadas e as clivadas de SER não têm uma derivação comum. Na proposta dos autores, todo o VP pode ser focalizado (o verbo, se este não subir para T, os complementos e os adjuntos). Isto confirma que as clivadas de SER só focalizam constituintes no domínio de c-comando de T, portanto, não é possível focalizar sujeitos pré-verbais. Estes autores consideram que as clivadas de SER só servem para marcar foco contrastivo. Vercauteren (2016: 85-87), que também tem em conta as diferenças sintáticas entre as pseudoclivadas e as clivadas de SER, argumenta que a clivada de SER é uma estrutura mono-oracional, uma vez que permite subida de verbos acima de SER (31), bem como a subida de clíticos (32), tal como já foi observado por Curnow & Travis (2003) e Méndez Vallejo (2012): (31) O João parece é estar doente. (32) Vão para a tropa, vêm para trás, querem-se é casar. (GRC) (CORDIALSIN apud Vercauteren 2016: 87) Vercauteren (2016: 87) admite ainda que o verbo copulativo lexicaliza uma posição relativamente baixa, visto que não pode preceder um verbo em T: (33) *O João foi comeu o bolo. 15 A autora afirma que as propostas de autores como Wheeler (1982), Toribio (1992) e Costa & Duarte (2001) devem-se ao facto de estes autores analisarem a clivada de SER como se fosse uma estrutura bioracional. No trabalho de Costa & Duarte (2001), por exemplo, que faz uma proposta de análise unificada para todos os tipos de clivada, os autores admitem que nas clivadas de SER o pronome Whdas pseudoclivadas é substituído por um operador nulo. Estes autores defendem que o verbo copulativo nas clivadas de SER é o núcleo lexical de VP e que seleciona, portanto, uma oração pequena, isto é, a clivada de SER para estes autores também é bioracional. Estes sugerem que só VPs não máximos podem ser clivados neste tipo de estrutura e relacionam este facto com a propriedade de o português ser uma língua de objeto nulo, e admitem que, por essa razão, o constituinte clivado não pode ser um sujeito. Contudo, no trabalho de Lobo, Santos & Soares-Jesel (2015: 6), as autoras admitem que pode haver clivagem de sujeito (34): (34) Não telefonou o reitor. Telefonou foi o diretor. Lobo, Santos & Soares-Jesel (2015), seguindo a proposta de Mioto (2012), assumem que as clivadas de SER são estruturas mono-oracionais em que SER é uma partícula de foco que marca a periferia esquerda do material focalizado (admite-se que pode haver scrambling de material não focalizado para fora do domínio vP). Voltando novamente ao trabalho de Vercauteren (2016), a autora admite que as clivadas de SER são estruturas mono-oracionais em que a cópula não é núcleo de VP porque não tem as propriedades de um verbo copulativo regular, fazendo referência a vários autores que defendem a mesma proposta para o português do Brasil e para o espanhol. A autora vai ter em conta o ponto de vista de vários autores e vai assumir que o constituinte clivado está in situ Vercauteren (2016: 272) defende que SER pode estar associado a diferentes posições, apesar de estar sempre à direita de um verbo em T, como se ilustra nas diferentes frases que a própria autora apresenta: (35) (a) Ele pode é ter estado doente. 16 (b) Ele pode ter é estado doente. (c) Ele pode ter estado é doente. Ou seja, de acordo com a autora é preferível assumir que o verbo copulativo SER não ocupa uma posição fixa e que tem uma distribuição “livre”. Esta autora propõe uma nova análise baseada na análise de Cable (2010) para a sintaxe das partículas-Q, visto que justifica a livre distribuição do verbo copulativo e o considera uma partícula de foco (ou de focalização). Na proposta de Cable (2010) é discutida a posição das partículas-Q. O autor argumenta que estas partículas podem ser tanto adjuntas ao constituinte Whcomo ter o constituinte Whcomo complemento. Vercauteren (2016) adapta esta proposta e considera que o verbo copulativo toma o constituinte clivado como complemento e projeta um vP, sendo que isto tem consequências para a sua seleção, na medida em que núcleos funcionais que não selecionam constituintes verbais não selecionam um vP. Vercauteren (2016) assume também que o verbo copulativo não tem valor semântico e que assim SER e o vP irão ter as mesmas propriedades semânticas que o constituinte clivado. A falta de conteúdo semântico do verbo copulativo faz com que o seu complemento possa ter qualquer valor semântico, o que significa que SER não impõe nenhuma restrição de seleção. Assim, a autora afirma que, como não há restrição no tipo de constituinte clivado, esse pode ser de qualquer tipo semântico – entidades, propriedades, proposições, quantificadores, entre outros – dando os seguintes exemplos (CORDIALSIN apud Vercauteren 2016: 283): (36) a. E só prejudica é [ DP as searas]. (ALC) b. Não era era [ NP dores desinsofridas]. (STJ) c. Este bote é tripulado é [ PP por sete homens]. (PIC) d. E é bom é [ CP que as duas aguentem]. (PIC) e. Pois eu ia era [ VP fugir]. (GRC) 23 CAPÍTULO III: ESTRUTURA ENFÁTICA COM MAS SER III. 1. Introdução às estruturas enfáticas com mas SER Tal como referi na introdução do presente estudo, para além das clivadas que se conhecem, existe ainda uma construção em português que utiliza a conjunção adversativa mas em conjunto com o verbo SER – é, era e foi – para marcar foco sobre um constituinte. Essa construção, que tem um valor enfático-contrastivo, pode ser observada no exemplo seguinte: (57) Vão mas é para a província apanhar batatas. (CETEMPúblico, par=ext127650-pol-94a-3) Para a língua portuguesa, existem muito poucos trabalhos sobre a estrutura enfática com mas SER. Um desses trabalhos é o de Abreu (2001), em que a autora admite que a estrutura enfática com mas SER é uma variante da clivada de SER 4 , especialmente em relação a contextos imperativos. A autora admite que a “variante mas é” é utilizada na fala oral quotidiana por todas as camadas sociais do português europeu. Esta autora afirma que a construção é uma “combinação inseparável” de mas e a terceira pessoa do singular do verbo SER e que os contextos sintáticos são idênticos aos contextos da clivada de SER, apesar de a estrutura com “mas é” ter características próprias, como é o caso da variante pós-frase, exemplificada de seguida. (58) Vai calçar os sapatos, mas é. Abreu (2001: 48) identifica duas variantes da clivada de SER: a variante préfoco, que pode variar/concordar em tempo (59a), mas em que essa concordância nem sempre é obrigatória (59b), e a variante pós-frase, que não concorda em tempo com o verbo principal da frase (59d): 4 A autora chama a clivada de SER de “semi-pseudoclivada”. 24 (59) a. Ele foi mas foi para os lados de Galamares. (Abreu 2001: 48) b. Ele foi mas é para os lados de Galamares. c. Ele foi para os lados de Galamares mas é. d. *Ele foi para os lados de Galamares mas foi. Em relação às características discursivas desta construção 5 , a autora afirma que esta se integra sobretudo em estruturas imperativas e que tem um valor enfáticocontrastivo. A autora admite ainda que a variante pré-foco está muitas vezes associada a contextos perifrásticos: (60) Vai mas é dar uma voltinha! (Abreu 2001: 52) Abreu (2001: 53) afirma que a clivada de SER e em especial “a sua variante” são uma “verdadeira possibilidade complementar para ser usada em contextos imperativos”, sendo que o mesmo se aplica às frases exclamativas. A autora admite por isso haver uma “dupla marcação”: o uso exclamativo realça, enquanto “mas é” enfatiza. Tendo em conta as frases interrogativas, Abreu (2001: 53) afirma que as interrogativas parciais são incompatíveis com esta estrutura, mas também que as interrogativas totais são problemáticas, sendo esta estrutura mais comum em frases declarativas e imperativas, tal como já referido. (61) a. *Que fazes mas é tu? (Abreu 2001: 53) b. ??*Que fazes tu mas é? Lopes ([1983]2005: 34), apesar de não desenvolver muito a análise das clivadas em português, admite que estas “operam predicações metalinguísticas de 5 Tem-se em conta que ao caracterizar a “semi-pseudoclivada”, a autora caracteriza também a sua “variante mas é”. 25 superlativação, de topicalização, de focalização, de rectificação ou acto polémico dialógico, de contraste adversativo ou concessivo, de assentimento, etc. (…)”. Este autor faz referência a mas SER dando os seguintes exemplos: (62) a. Ele tem mas é medo. (Lopes [1983]2005: 35) b. O que ele tem é mas é medo. Enquanto (62a) é definida como “réplica polémica”, (62b) é definida pelo autor como “réplica polémica com maior carga axiológica negativa”. A estrutura enfática com mas SER, que requer sempre um contexto, parece ser uma extensão ou reformulação do que foi anteriormente afirmado e, tal como Barros (1988) afirma a propósito do uso “contrastivo” de mas: (…) De facto, o contrastivo contraria um nexo causal ou condicional de que aparece como sendo uma extensão, reformulação ou denegação. O contrastivo introduziria uma asserção como carácter de certo modo inesperado, uma especificação em certa medida contra-expectativa. Normalmente, não se verifica uma invalidação da implicação, mas um questionamento ao nexo implicacional através de uma extensão ou modalização. Tudo isto se traduz por uma junção de elementos antagónicos (…) que representa uma quebra de regularidade e é por esse mesmo facto contra-expectativa. (Barros 1988: 270) Méndez Vallejo (2012) afirma que falantes de dialetos do espanhol sem focalizador SER 6 escolhem certas expressões para marcarem tópico, foco, evidência e contraste. 6 Non-FS (Focalizing Ser) dialects. 26 Uma das expressões usadas em alguns dialetos do espanhol é a conjunção pero (‘mas’) que precede o constituinte em foco. O seu funcionamento é muito parecido com o mas SER do português, apesar de pero poder ocorrer sem o verbo SER, como mostra o exemplo da autora, representado abaixo: (63) A: Pensé que tenías dos niños. (Méndez Vallejo 2012: 15) ‘Pensei que tinhas dois filhos’ B: No, tengo pero dos niñas. Não, tenho mas duas filhas ‘Não, tenho mas é duas filhas’ A expressão pero, tal como se vai mostrar para a estrutura com mas SER, não funciona em contextos não contrastivos: (64) A: ¿Tienes mascotas? ‘Tens animais de estimação?’ B: *Si, tengo pero dos perros. *Sim, tenho mas dois cães. ‘*Sim, tenho mas é dois cães.’ A autora afirma que pero não substitui o focalizador SER em todos os contextos. Em português, são possíveis as duas formas: (65) A: ¿No tienes hambre? ‘Tens fome?’ B: No, tengo es/*pero sed. Não, tenho é/*mas sede. ‘Não, tenho é/mas é sede. Apesar disso, em espanhol, tal como acontece em português, pero pode coocorrer com o verbo SER: (66) A: ¿No tienes hambre? ‘Não tens fome?’ 27 B: No, tengo es pero sed. Não, tenho é mas sede. ‘Não, tenho é mas é sede.’ A autora propõe também que, em espanhol, a expressão pero em dialetos sem focalizador SER ocupa a mesma posição sintática que o verbo SER ocupa em dialetos com o focalizador SER, sendo essa posição FocP. No exemplo (67), é possível observar a estrutura proposta por Méndez Vallejo (2012) 7 . (67) TP (Méndez Vallejo 2012: 17) 3 T’ 3 T FocP salí 3 fui / FocP’ pero 3 Foc VP 6 yo De acordo com Mioto (2012), a estrutura proposta por Méndez Vallejo tem problemas, porque a presença do núcleo de Foc deveria bloquear a subida do verbo para T, o que na realidade não acontece. Nesta estrutura, a autora também não tem em conta os contextos em que pero coocorre com o verbo SER, isto é, se pero e es coocorrem numa só frase, como no exemplo (66B), não podem estar na mesma posição sintática, por isso, a estrutura proposta pela autora não parece ser a mais adequada. II. 2. Propriedades da estrutura II. 2. 1. Metodologia 7 Méndez Vallejo (2012: 17) admite que no espanhol de Bucaramanga é possível que SER ocupe uma posição mais alta do que a expressão dizque (marcador de foco em dialetos sem focalizador SER), visto que podem ocorrer na mesma frase (exemplo: Fernanda llegó fue dizque acompanhada). 28 Para observar a produção espontânea da estrutura enfática com mas SER foi extraída uma amostra de ocorrências de mas é, mas era e mas foi do website da Linguateca CETEMPúblico 8 (Corpus de Extratos de Textos Eletrónicos MCT do jornal Público), totalizando 31 ocorrências, e todas as ocorrências de mas é, mas era e mas foi do corpus CORDIAL-SIN 9 (Corpus Dialetal para o Estudo da Sintaxe), correspondendo a 22 ocorrências 10 . Em relação ao CETEMPúblico, da amostra de 8000 ocorrências, 31 frases apresentavam a estrutura mas SER em contexto enfático, tendo as restantes valor adversativo. No corpus CORDIAL-SIN (Corpus Dialetal para o Estudo da Sintaxe), levantaramse todas as ocorrências de mas é, mas era e mas foi em contexto enfático em 42 regiões de Portugal, tendo-se identificado 22 ocorrências de mas SER. Todas as ocorrências desta estrutura reproduzem a fala oral quotidiana, ou seja, esta estrutura não parece ser utilizada em registo escrito 11 . III. 2. 2. Posição sintática de mas SER A estrutura enfática com mas SER é uma construção enfático-contrastiva que dá ênfase a complementos ou adjuntos, mas, ao contrário da clivada de SER, pode também ocorrer em posição final de frase. Abreu (2001) chama a estas diferentes posições variante pré-foco (68) e variante pós-frase (69): (68) (a) A Marta vai mas é às compras. (b) Para mas é com isso! 8 In http://www.linguateca.pt/cetempublico/, 24 de outubro de 2016. Só foi extraída uma amostra visto que, neste corpus, só se consegue procurar uma concordância de cada vez e visto que “mas” tem um número de ocorrências excessivo, por cada procura, o website, só dá uma amostra aleatória de 8000 ocorrências das 392852 ocorrências de “mas” encontradas. Dessas 8000 ocorrências, 31 eram de mas SER em contexto enfático. 9 In http://www.clul.ul.pt/pt/recursos/226-corpus-syntax-oriented-corpus-of-portuguese-dialectscordial-sin, 25 de outubro de 2016. 10 Todas as ocorrências de mas é, mas era e mas foi extraídas dos corpora são em contexto enfático. 11 Pelo menos, registo escrito formal. 29 (69) (a) A Marta vai às compras, mas é. (b) Para com isso, mas é! Tal como se pode observar no exemplo seguinte, mas SER pode ocorrer em várias posições na frase: entre o verbo auxiliar e o verbo principal (70a), depois do verbo principal (70b) ou no fim da frase (70c), ou seja, tal como o verbo SER na clivada de SER, mas SER não tem uma posição fixa: (70) a. Vai mas é dormir, eu como polícias assim ao pequeno almoço. (CETEMPúblico, par=ext15858-des-94b-2) b. Ides jogar mas é p’ra II Divisão. (CETEMPúblico, par=ext31196-des98a-3) c. Queremos cooperar, mas é. (CETEMPúblico, par=ext252779-soc-97b1) Apesar de ser possível encontrar ambas as variantes, observa-se que a variante pré-foco é mais comum que a variante pós-frase. Nos corpora, em 54 ocorrências só houve uma única ocorrência de mas é pós-frase. Fazendo referência a algumas propriedades sintáticas referidas por Bosque (1999), Curnow & Travis (2003) e Méndez Vallejo (2012) para a clivada de SER, a estrutura enfática com mas SER também permite a focalização de itens de polaridade negativa (71) e a subida de clíticos para uma posição acima do verbo SER (72). Estas duas propriedades podem ser argumentos para uma análise mono-oracional desta estrutura. (71) Não posso comer mas é nada. (72) a. Podes mas é ajudar-me. b. Podes-me mas é ajudar. Tal como as clivadas de SER, tendo em conta as propriedades identificadas por Vercauteren (2016: 282), mas SER também não pode ser negado, nem pode ser 30 modificado por auxiliares modais ou aspetuais nem por advérbios, nem pode intervir material lexical entre ‘mas’ e ‘é’. (73) a. *O Mário escreveu não mas é o livro. b. *O Mário escreveu mas não é o livro. c. *O Mário tem escrito pode ter sido mas é o livro. d. *O Mário tem escrito mas pode ter sido é o livro. e. *O Mário escreve mas é definitivamente o livro. f. * O Mário escreve mas definitivamente é o livro. Isto mostra que, tal como na clivada de SER, SER não tem conteúdo semântico, não funcionando como uma forma verbal plena. Ao não ter conteúdo semântico, a estrutura não pode ser negada, visto que a negação seleciona proposições, nem pode ser modificada por advérbios, nem por auxiliares aspetuais/modais, visto que estes selecionam eventos. Em relação à posição sintática, mas SER não pode estar antes de um verbo em Flex/T (flexionado) (74) e quando coocorre com outra expressão focalizadora, por exemplo quando ocorre com a clivada de SER, é gramatical SER mas SER (75a), mas não *mas SER SER (75b): (74) *Ele mas era estava doente. (75) a. Eles vieram cá foi mas é para fazer porcaria. b. *Eles vieram cá mas é foi para fazer porcaria. Isto mostra que mas SER pré-foco está numa posição abaixo de Flex/T e, uma vez que, quando SER e mas SER coocorrem, SER precede mas SER, conclui-se que o verbo SER, nas clivadas de SER, está numa posição mais alta que mas SER nas estruturas enfáticas com mas SER pré-foco. Em relação à estrutura enfática com mas 31 SER pós-frase, admito que está numa posição mais alta que toda a oração, uma vez que, não podendo flexionar, não parece estar sob o escopo de Flex/T, e focaliza a oração na sua totalidade. III. 2. 3. Contextos ilocutórios A estrutura enfática com mas SER pode aparecer tanto em frases declarativas, como em frases imperativas, exclamativas e até interrogativas. O tipo ilocutório mais comum para esta estrutura são as frases declarativas, imperativas e exclamativas: (76) Tínhamos medo mas era dos bonés, dos guardas. (CORDIAL-SIN, FIG(6)) (77) Volta mas é para o Brasil! (CETEMPúblico, par=ext88855-soc-92a-3) (78) Ele haviam de dar mas era uma enxada para irem para a serra cavar alqueves! (CORDIAL-SIN, AAL(4)) Esta estrutura pode funcionar associada a tipos ilocutórios interrogativos em certos contextos: (79) A: Onde moras? B: Eu não te vou dizer, como é óbvio. A: Onde moras, mas é? (80) A: Tu não falas assim para mim! B: Queres um estalo, mas é? Tal como se pode observar nos exemplos acima, mas SER é gramatical tanto em interrogativas parciais (79) como em interrogativas totais (80), ao contrário do que é afirmado por Abreu (2001). Tanto no corpus do CETEMPúblico como no corpus do CORDIAL-SIN, a estrutura enfática com mas SER ocorre em frases exclamativas (81 e 82), imperativas (83 e 84) e declarativas (85 e 86), não havendo nenhuma ocorrência em contexto interrogativo. (81) Convém mas é agir desde já! (CETEMPúblico, par=ext77174-clt-93a-1) 32 (82) Ele haviam de dar mas era uma enxada para irem para a serra cavar alqueves! (CORDIAL-SIN, FIG(6) (83) Vamos mas é guardar os foguetes em lugar seguro e só fazer a festa no dia 14. (CETEMPúblico, par=ext56273-pol-96a-2) (84) Deixa-me mas é passar já antes… (CORDIAL-SIN, EXB(9)) (85) Nós ainda vamos mas é ao festival dançar… (CETEMPúblico, par=ext120290-nd-97b-1) (86) Querem mas é estar a rir-se e a conversar. (CORDIAL-SIN, PFT (2)) Em relação à variante pós-frase desta estrutura, pode-se afirmar que tem um uso mais restrito, sendo esta variante mais comum e aceitável num contexto imperativo, como nos exemplos (87) e (88), ou exclamativo, como no exemplo (89). Em relação às frases declarativas (90 e 91), elas só serão possíveis se houver um contraste implícito. Sendo assim, mas SER pós-frase é sensível ao tipo ilocutório da frase. (87) Traz-me o comando, mas é! (88) Olha para a estrada, mas é! (89) Estás maluco, mas é! (90) A: Já estou a ficar aborrecida. Ele não discursa nada! B: Ele discursa muito bem, mas é. (91) A: Passas o dia a beber sumo! Nunca te vejo a beber água. B: Eu até bebo água a mais, mas é. Em relação ao contexto interrogativo, observa-se que só serão possíveis em contextos muito específicos e de contraste expressamente implícito. (92) A: Eu não quero estudar mais! B: Estás mas é a brincar… A: Não quero mais! A partir de hoje, não vou mais à escola! B: Queres um estalo, mas é? Pode-se concluir que: a estrutura enfática com mas SER é comum em contextos imperativos, exclamativos e declarativos, sendo que tem um uso restrito em frases interrogativas; a variante pós-frase desta estrutura tem um uso ainda mais restrito que a variante pré-foco, visto que poderá ser estranha em contextos declarativos, se estes 39 ser negada, nem pode ser modificada por auxiliares modais ou aspetuais nem por advérbios. Outro dos argumentos que diferenciam a estrutura enfática com mas SER da clivada de SER é a coocorrência das duas, pelo menos quando mas SER está no presente do indicativo, o que mostra que não estão na mesma posição sintática, isto é, SER está numa posição mais alta que mas é. A estrutura enfática com mas SER encontra-se tanto em frases declarativas, como em imperativas, exclamativas e interrogativas, apesar de o contexto interrogativo ser um pouco problemático. A variante pós-frase tem um uso restrito e aparenta ser problemática em relação a contextos declarativos e interrogativos. Tal como na clivada de SER, a estrutura enfática com mas SER não impõe restrições ao tipo de constituinte clivado nem à função sintática do constituinte clivado, à exceção da clivagem/focalização de modificadores de frase (adverbiais). Em relação à flexão de ambas as variantes (pré-foco e pós-frase), é possível observar que a variante pré-foco poderá não concorda em tempo com o verbo principal da oração, enquanto a variante pós-frase tem obrigatoriamente de estar no presente do indicativo. Conclui-se, portanto, que, tal como na clivada de SER, mas SER não tem conteúdo semântico, isto é, não funciona como uma forma verbal plena e pode, portanto, ter um constituinte de qualquer tipo categorial. Observa-se também que mas SER está em processo de gramaticalização, visto que há casos em que a flexão em tempo não é possível. Mas SER parece funcionar como uma forma híbrida que ainda mantém alguns traços verbais ativos, como é o caso da flexão verbal, o que mostra que mas SER poderá ser um complexo verbal ou uma partícula de focalização em processo de gramaticalização. 40 CAPÍTULO IV: SER E FOCO – PROPRIEDADES INTERPRETATIVAS Sabe-se que o constituinte clivado nas construções clivadas é focalizado, portanto, para caracterizar as construções clivadas em geral e esta construção em particular há que ter em conta a noção de foco. A clivada de SER e a estrutura enfática com mas SER, como são construções que têm como objetivo colocar em destaque/focalizar um constituinte da frase (sujeito, objetos ou adjuntos), podem ser analisadas relativamente às suas propriedades interpretativas, nomeadamente em relação ao conceito de foco. Praticamente todas as construções clivadas do português são usadas para introduzir tanto foco informacional como foco contrastivo, à exceção da clivada de é que, que não vai ser desenvolvida neste trabalho, da clivada de SER e da estrutura enfática com mas SER que só aparentam introduzir foco contrastivo. IV. 1. Tipos de foco e perspetivas sobre a codificação de foco na sintaxe Na literatura são diferenciados, maioritariamente, dois tipos de foco: foco informacional, que introduz informação nova, e foco contrastivo, que contrasta com alguma informação dada contextualmente. Rooth (1992) considera que todos os tipos de foco, isto é, foco que expressa informação nova e foco que expressa contraste, são, na sua essência, o mesmo, ou seja, as diferenças de interpretação do foco devem-se a fatores pragmáticos e não semânticos, visto que a interpretação depende do tipo de antecedente do foco. Ao contrário desta última hipótese, É. Kiss (1998) considera que estes dois tipos de foco (foco informacional/apresentativo e foco identificacional/contrastivo) têm propriedades semânticas e sintáticas diferentes. 41 De acordo com a autora, É. Kiss (1998: 245-246), os dois tipos de foco têm propriedades sintáticas diferentes: o foco identificacional move-se para uma posição de especificador de uma projeção funcional, enquanto o foco informacional não está associado a movimento (não tem posição específica na frase). É. Kiss (1998: 248) aponta ainda várias diferenças entre os dois tipos de foco: i) o foco contrastivo expressa exaustividade, ao contrário do foco informacional, que expressa a natureza não pressuposta da informação dada, ii) o foco contrastivo impõe restrições a certos constituintes, como por exemplo restrições a quantificadores universais, e iii) o foco contrastivo pode ser iterativo, enquanto o foco informacional pode projetar e não tem posição específica na frase. Outra das questões que se prende com a análise da informação de foco, e em que há divergência entre os autores, é saber se esta informação é codificada na sintaxe ou se estamos perante uma interface sintaxe-discurso. Alguns autores assumem que há uma categoria funcional Foco na periferia esquerda da frase, outros assumem que Foco é determinado na interface com o discurso. Rizzi (1997) ao analisar a estrutura da periferia esquerda da oração, propõe uma estrutura dividida para o sintagma complementador (CP), com uma série de projeções funcionais organizadas hierarquicamente de acordo com propriedades discursivas 14 (121). Este autor, ao longo do seu trabalho, mostra evidências para a posição de todos os sintagmas entre Force e Fin, como por exemplo, a informação de tópico e foco, afirmando que se um tópico quiser ser interpretado como um tópico terá de estar na posição de especificador de TopP, sendo que o mesmo acontece com a informação de foco (especificador de FocP). O autor chama a este critério: Topic and Focus Criteria (Rizzi 1997: 287). 14 O símbolo de asterisco (*) significa que o sintagma poderá ser recursivo. 42 (121) ForceP (Rizzi 1997: 297) 3 3 Force TopP* 3 3 Top o FocP 3 3 Foc o TopP* 3 3 Top o FinP 3 3 Fin o IP Uma das diferenças observadas pelo autor para TopP e FocP é que o foco é quantificacional, ao contrário de um tópico, isto é, os sintagmas focalizadores poderão ter inúmeros valores, ou seja, são variáveis, enquanto que, no caso de um tópico, a informação/valor não é variável, o que é chamado por Rizzi (1997: 291) null constants. Como se pode observar pela análise de Rizzi (1997), o autor assume que as características discursivas são codificadas na sintaxe. Outros autores, como Costa (1998) e Costa & Figueiredo Silva (2006), pelo contrário, afirmam que o foco é codificado no discurso (noção semântico-pragmática) e não na sintaxe. Estes autores não consideram que os constituintes focalizados têm obrigatoriamente de ocorrer na posição de especificador de uma categoria funcional (Focus Phrase), ou seja, não consideram uma análise que envolve movimento do constituinte focalizado para uma categoria funcional específica, mas sim que os constituintes focalizados ocorrem numa posição in situ. De acordo com estes autores, em algumas línguas, o foco está na posição mais à direita da oração, distinguindo línguas que têm discurso configuracional, como o português, onde a informação de foco está na posição mais à direita da oração, e línguas que não têm discurso configuracional, como o inglês, onde o foco poderá não estar na posição mais à direita, mas ainda assim continuar in situ, como acontece, por exemplo, quando há focalização de um sujeito. Ainda assim, estes autores admitem 43 que, nos casos onde a sintaxe, isto é, a ordem de palavras, não codifica XPs focalizados é utilizada a prosódia como recurso. Vercauteren (2016: 14-15) afirma que um dos problemas em admitir que o discurso não é codificado na sintaxe é existir em línguas em que partículas discursivas estão sistematicamente na mesma posição sintática, como é o caso do japonês e do gungbe (língua gbe). No caso do japonês, a marcação de tópico é feita com a partícula wa, que está sempre no início da oração, e no caso do gungbe, a marcação de tópico é feita com a partícula yà enquanto a marcação de foco é feita com a partícula wὲ, estando ambas numa posição pré-sujeito. Isto mostra que, em algumas línguas, as propriedades discursivas estão codificadas na sintaxe e aparentam mover-se para posições sintáticas específicas. Belletti (2004) admite que a presença de uma característica de foco num certo constituinte desencadeia movimento, desse constituinte, para uma categoria específica de foco. Esta autora afirma que existe uma segunda categoria funcional Foco mais baixa na periferia esquerda do vP e propõe duas categorias Foco na oração. As duas categorias Foco iriam estar associadas a interpretações diferentes: FocP que se encontra na periferia esquerda da oração codificaria a informação de foco contrastivo, enquanto FocP que se encontra na periferia de vP codificaria informação nova (foco informacional), ou seja, de acordo com esta hipótese, tipos de foco diferentes têm representações sintáticas diferentes. Um problema para esta hipótese apontado por Vercauteren (2016) é a possibilidade de haver mais de dois constituintes associados a foco informacional numa oração, ou seja, teria de haver mais categorias funcionais FocP, o que, consequentemente, traria problemas para definir qual a posição sintática específica para cada constituinte focalizado que é movido. A autora afirma que não há uma relação entre posição sintática e interpretação e propõe, em alternativa, que nem todos os constituintes focalizados se movem para FocP. Como se pôde observar na subsecção II.1.1, também relativamente às clivadas se discute se há ou não uma categoria funcional específica para foco. Alguns autores, 44 como Bosque (1999), Méndez Vallejo (2009b) e Kato & Mioto (2012) assumem que existe uma categoria funcional específica para foco. Bosque (1999) admite que o focalizador SER está in situ, que ocupa a posição de núcleo de FocusP, gerado dentro de um VP, e que a frase focalizada é seu complemento. Méndez Vallejo (2012) afirma que SER é gerado dentro de um FocP, no qual o núcleo (Foc) é nulo e o especificador é ocupado por SER. Kato & Mioto (2012) assumem que o constituinte clivado se move para a periferia esquerda de FocP. Ou seja, apesar de todos estes autores proporem estruturas sintáticas diferentes, todos estes consideram que existe uma categoria sintática onde é codificada a informação de foco. Ao contrário destes autores, Vercauteren (2016) assume que o foco não tem necessariamente de se mover para uma categoria FocP, visto que nem sempre ocorre um movimento A’, como é o caso das clivadas canónicas, das pseudoclivadas e das clivadas de SER. Esta autora propõe que o constituinte focalizado poderá não se mover para FocP e poderá permanecer in situ, ou seja, poderá estar na sua posição base, como é o caso do português europeu. Neste trabalho, apesar de a codificação do foco ser bastante polémica, admitese que pode haver categorias específicas marcadoras de foco, mas que a marcação exclusivamente sintática de foco não é obrigatória, podendo a interpretação de foco ser determinada na interface sintaxe-discurso. IV. 2. Foco na Clivada de SER e na Estrutura Enfática com Mas SER De acordo com o que foi discutido na secção anterior, irá descrever-se os valores de foco associados às clivadas de SER e às estruturas enfáticas com mas SER, de maneira a observar se estas estão associadas a mais que um tipo de foco ou se estão associadas a um foco específico. IV. 2. 1. Clivada de SER e foco No espanhol, a construção clivada de SER pode tanto introduzir foco informacional (122 e 123) como foco identificacional/contrastivo (124 e 125), tal como mostram Curnow & Travis (2003), Camacho (2006) e Méndez Vallejo (2012). (122) A: Examen de sangre? (Curnow & Travis 2003: 8) 45 ‘Exame de sangue?’ B: Me – Hermana, me hicieron un poco de exámenes oyó? Me, irmã, me fizeram um pouco de exames ouviste? ‘A mim, irmã, fizeram-me alguns testes, entendes?’ D: Pero = -- le sacaron fue sangre? ‘Mas, eles tiraram foi sangue?’ (123) A: ¿Qué compraste? (Méndez Vallejo 2012: 6) Que compraste? ‘O que é que compraste?’ B: Compré fue vino. ‘Comprei foi vinho.’ (124) A: ¿Compraste vino o cerveza? (Méndez Vallejo 2012: 6) ‘Compraste vinho ou cerveja?’ B: Compré fue vino. ‘Comprei foi vinho.’ (125) A: Mi mamá no toma agua. (Curnow & Travis 2003: 8) Minha mãe não toma água. ‘A minha mãe não bebe água.’ B: Toma es pura gaseosa. 46 Toma é só gasosa. ‘Bebe é só gasosa.’ Apesar de estes autores admitirem que a clivada de SER para o espanhol marca tanto foco informacional como identificacional/contrastivo, tem-se em conta que alguns autores, como Bosque (1999), Mioto (2012) e Kato & Mioto (2016), afirmam que as clivadas de SER não expressam foco informacional e só introduzem foco identificacional/contrastivo. Observa-se, portanto, que no espanhol foco informacional está associado à focalização com SER. Em contrapartida, na língua portuguesa isso já não acontece. A clivada de SER em português só introduz foco contrastivo, ou seja, só é possível focalizar com SER se houver um contraste implícito. (126) A: O que é que andaste a aspirar? A casa estava limpa! B: Andei foi a aspirar o carro. (127) A: Telefonaste ao pai? B: Telefonei foi à mãe. Uma propriedade que é habitualmente associada a foco e às clivadas em geral é a exaustividade. É. Kiss (1998), no seu trabalho, usa a presença ou a ausência de exaustividade como argumento para distinguir foco identificacional e foco informacional. Foco identificacional/contrastivo não é compatível com constituintes frásicos com até e também, visto que implicam que estão outros elementos em causa que não foram especificados, enquanto o foco informacional não impõe restrições ao tipo de constituinte. Vercauteren (2016: 66) afirma que as clivadas de SER não são necessariamente exaustivas, isto é, não estão necessariamente associadas a exaustividade, dando os seguintes exemplos: 47 (128) a. Muitos tinham um cavalo e # o que muitos tinham era éguas. b. Li foi até/também este livro. c. Chegou atrasado foi o Joker, e o Bane também. Sendo que estas estruturas só aparentam introduzir foco contrastivo, de acordo com a hipótese de É. Kiss (1998), não poderiam ser compatíveis com estes constituintes frásicos, o que não se verifica. IV. 2. 2. Estrutura enfática com mas SER e foco A estrutura enfática com mas SER, tal como a clivada de SER, também só introduz foco contrastivo 15 (129, 130 e 131): (129) INF1 (…) É claro, e depois vão então mulheres – que agora os homens já poucos querem trabalhar. (…) Querem tudo andar mas é (…) na orgia e na paródia. (CORDIAL-SIN, MTV(18)) (130) INF (…) Ela vai, ou se calhar as duas, elas vão lá apanhar as uvas, não vão apanhar as uvas verdes, nem as uvas que estão muito viceiras, nem nada. Apanham mas é uvas muito passadinhas, tanto faz ser as brancas como ser as tintas que apanham. (CORDIAL-SIN, MTV(19)) (131) INF2 E semeava-se muito milho mas era (…) para a maçaroca. INF1 Para secar. INF2 E agora semeiam é para o gado. É para o gado. INF1 E agora semeiam muito milho mas é para o gado. (CORDIAL-SIN, CLH (21)) Pode-se observar e confirmar com os exemplos acima, que a estrutura enfática com mas SER só introduz foco contrativo. Em (129) ‘querer “andar na orgia e na paródia”’ contrasta com ‘querer “trabalhar”’, em (130) ‘apanhar uvas “passadinhas”’ 15 Todas as ocorrências retiradas de corpora e de intuições de falantes mostram que a estrutura enfática com mas SER só é produzida em casos contrastivos (ver exemplos de corpora em anexo). 48 contrasta com ‘apanhar “uvas verdes” ou ‘as que estão “muito viceiras”’’ e em (131) ‘semear milho “para a maçaroca”’ contrasta com ‘semear milho “para o gado”’. Em contrapartida, estas estruturas são estranhas em contextos de foco informacional (132, 133 e 134): (132) A: O que é que andaste a fazer o dia todo? B: ??Andei mas foi a estudar. (133) A: O que é que compraste hoje? B: ??Comprei mas foi uns bifes para fazer para o almoço. (134) A: Onde andaste o dia todo? B: ??Passei o dia todo a limpar a casa, mas é. Em relação ao tipo de foco, sabe-se que as estruturas enfáticas com mas SER focalizam sujeitos, complementos, constituintes verbais/domínios não finitos, predicativos de sujeito e de objeto, modificadores nominais e modificadores do predicado, à exceção de modificadores de frase adverbiais, tal como se observou na subsecção III.2.2. Vercauteren (2016) observa, em relação às clivadas de SER, que o constituinte clivado poderá ser um quantificador negativo ou existencial (135), enquanto no caso das pseudoclivadas, o constituinte clivado impõe restrições a estes tipos de constituintes (136). (135) a. Eles não sabem é nada. (PAL) (CORDIAL-SIN Apud Vercateren (2016: 57)) b. As testemunhas viram foi alguém. (Vercateren (2016: 57) (136) a. ??Quem se apaixonou pelo Batman não foi ninguém. (Vercauteren 2016: 57) 55 complemento, tendo este uma posição in situ, e projeta um vP. A autora afirma que vP pode ser complemento de núcleos lexicais, mas não de núcleos funcionais visto que eles selecionam o seu complemento. Estas propriedades justificam o porquê de SER não impor restrições ao tipo de constituinte clivado e o facto de o vP poder aparecer como complemento de núcleos funcionais (se estes selecionarem constituintes verbais), tal como T e Asp, na posição de argumento de núcleos lexicais e na posição de adjunção, mas não posição de especificador, nem de núcleos que não selecionem constituintes verbais, como D, P, C e projeções funcionais que têm advérbios e adjetivos atributivos. Esta análise resolve muitas questões, nomeadamente: i) a relação temporal entre SER e o verbo principal; ii) o porquê de SER não impor restrições ao constituinte clivado, visto que vP é uma categoria “transparente”. Ainda assim não explica: i) porque razão uma categoria vP pode ocorrer em diferentes posições na frase, não bloqueando diferentes tipos de relações de seleção sintática e semântica; ii) se SER é uma partícula de foco não deveria manter traços de um verbo pleno, como é o caso da flexão verbal, o que não acontece; iii) as características temporais não interpretáveis de vP também não justificam o porquê de SER flexionar. Para esta dissertação, foi ainda ponderado se SER não estaria numa posição de adjunção (144). (144) XP 3 SER XP Esta hipótese não foi adotada visto ser bastante problemática. Apesar de explicar a não alteração das relações de seleção sintática e semântica entre o constituinte clivado e os restantes elementos da oração, SER, ao ser um adjunto, poderia ocupar qualquer posição frásica, o que não se verifica. Não explicaria ainda a coocorrência com mas SER, isto é, considerar SER como adjunto não justifica a agramaticalidade de *mas SER SER, visto que ambas as ordens deveriam ser possíveis. Outra questão problemática é, ao ter propriedades verbais, SER teria de projetar uma categoria verbal (mesmo que “transparente”). 56 A grande questão prende-se agora com a representação sintática da estrutura enfática com mas SER pré-foco e pós-frase. • Estrutura enfática com mas SER pré-foco Tendo em conta as propriedades da estrutura, temos evidência para afirmar que mas SER está numa posição sintática abaixo de T, visto que é agramatical o seguinte exemplo: (145) *O João mas é gosta de chá. De acordo com os contextos e contrastes de gramaticalidade apresentados anteriormente, temos também evidência para afirmar que mas SER está numa posição abaixo do verbo SER focalizador. A questão da coocorrência de ambas as partículas é importante, visto que, nos casos em que coocorrem, mas é, que neste caso não flexiona, está sempre à direita do verbo SER, o que define a sua posição sintática: (146) a. *mas é SER: *O João gosta mas é é de chá. b. SER mas é: O João gosta é mas é de chá. Este contraste de gramaticalidade mostra que mas SER tem de estar numa posição entre SER e o constituinte focalizado, visto que se encontra sempre à esquerda deste. O facto de mas SER não flexionar nestes casos, encontrando-se sempre no presente do indicativo, é uma evidência para afirmar que mas SER está a passar por um processo de gramaticalização. Mas SER poderá não conter, ao contrário de SER, traços de T não interpretáveis (e não validados), que têm de ser validados por concordância (Agree) com T do verbo superior, que obrigam SER a ter o mesmo tempo e aspeto que o verbo principal da oração. Uma das propostas apresentadas neste trabalho para a estrutura enfática com mas SER é a seguinte: 57 (147) TP 3 DP T’ 6 3 O João i T vP gosta j 3 DP i v’ 3 v j VP 3 DP i V’ 3 V j vP uT 3 é uT vP 3 6 PP mas é 6 de chá Mas SER, ao coocorrer com SER, não contém traços de T, visto que SER bloqueia a ligação temporal e aspetual do verbo em T com mas SER, ou seja, apesar de mas SER ser c-comandado pelo verbo principal, há outro núcleo que se interpõe. Se não coocorrerem, mas SER poderá conter as características uT que permitem que esta partícula tenha as mesmas características temporais que o verbo principal. Esta estrutura justifica a coocorrência das duas partículas de focalização e a não flexão de mas SER. Admite-se também que, tal como o verbo SER da clivada de SER, mas SER não ocupa uma posição fixa na frase, mas sim, que tem uma distribuição “livre”. A partícula de focalização mas SER, nestes casos em que não flexiona, é entendida como uma partícula totalmente gramaticalizada sem características temporais ou aspetuais do verbo principal da oração. Nesta análise, existem ainda aspetos que não são totalmente explicados: i) mas SER, ao ser uma partícula de foco, não deveria flexionar, o que não se verifica; ii) apesar de não flexionar obrigatoriamente com um verbo em T, mas SER, pode ter as mesmas características temporais que o verbo principal da oração; iii) tal como a proposta de Vercauteren (2016), não explica a relação entre o verbo principal da oração com o seu complemento; iv) a estrutura não explica por que razão é 58 agramatical a ordem *mas SER SER a não ser que se assuma que “mas” mantém de alguma forma o seu estatuto de coordenador com o primeiro verbo SER. A segunda e última proposta apresentada para esta estrutura é a seguinte: (148) TP 3 DP T’ 6 3 O João i T vP gosta j 3 DP i v’ 3 v j VP 3 DP i V’ 3 V j PP 3 6 PP mas é 6 de chá Ao contrário da análise anterior, onde foi proposto que mas SER projetava uma categoria vP, nesta análise propõe-se que mas SER é um adjunto. Ao ser um adjunto, a estrutura explicaria: i) a não alteração das relações de seleção sintática e semântica entre o constituinte clivado e os restantes elementos da oração; ii) a sua distribuição “livre”, ou seja, as diversas posições que pode ocupar ao longo da frase, incluindo, a sua posição pós-frase; iii) o porquê de (por vezes) não ter características temporais e aspetuais. Contudo, não explicaria o porquê de mas SER flexionar em algumas ocasiões e a agramaticalidade da ordem *mas SER SER, a não ser, tal como já foi observado, que se assuma que “mas” mantém de alguma forma o seu estatuto de coordenador com o primeiro verbo SER. O problema para estas representações sintáticas é não sabermos exatamente se mas SER é um composto verbal pleno, com características temporais ou uma partícula de focalização gramaticalizada. Proponho que seja uma forma híbrida em processo de gramaticalização. 59 • Estrutura enfática com mas é pós-frase A última estrutura proposta é a estrutura da variante pós-frase. Esta estrutura sintática representa a posição de mas é pós-frase na oração e é a que parece mais adequada, visto que coloca em foco toda a oração. (149) TP 3 TP 6 3 mas é DP T’ pro j 3 T vP Queremos i 3 DP j v’ 3 v i VP 3 DP j V’ 3 V i DP 6 férias Admito que, nesta estrutura, mas é está numa posição mais alta que mas SER pré-foco, porque, como se pode observar, o que é focalizado por mas SER pré-foco é diferente do que é focalizado nesta estrutura. O exemplo (150) mostra que todo o predicado é um foco contrastivo. (150) Tu vais para a escola, mas é! Não ficas em casa! Mas é, neste caso, não é c-comandado pelo verbo principal da oração e, por isso, não adquire as mesmas características temporais e aspetuais que este. Ao não flexionar, estando sempre no presente do indicativo, torna esta partícula em específico uma partícula de focalização gramaticalizada. • As duas estruturas 60 Tal como foi possível observar nesta subsecção, a estrutura enfática com mas SER, que era ao início analisada como uma variante da clivada de SER, não só é uma estrutura independente com propriedades sintáticas e semânticas diferentes desta última, como é dividida em duas estruturas sintáticas diferentes entre si. Admite-se, portanto, que mas SER está associada a duas estruturas sintáticas, uma para mas SER pré-foco e outra para mas é pós-frase. A estrutura enfática com mas SER é maioritariamente manifestada no presente do indicativo, sendo que, por vezes, é agramatical quando se encontra flexionada, como é o caso da coocorrência com o verbo SER focalizador e da variante pós-frase, o que parece mostrar que mas SER está em processo de gramaticalização. 61 CONCLUSÃO Apesar de ter tido em conta a variabilidade e a aceitabilidade ou não aceitabilidade de ambas as estruturas é notável que, tendo em conta os contextos referidos, a estrutura enfática com mas SER tem propriedades diferentes da clivada de SER, tendo as diferentes variantes da primeira estrutura também diferentes propriedades entre si. O objetivo deste trabalho foi fazer uma sistematização das propriedades sintáticas e semântico-discursivas das estruturas enfáticas com mas SER, sabendo, contudo, que ainda há muitos aspetos a explorar. Nesta dissertação não foi possível descrever todas as propriedades das estruturas, mas sim, as propriedades mais comuns e mais diferenciadores de cada uma, de maneira a que fosse possível identificar divergências e propriedades singulares. Esclareceu-se, em primeiro lugar, que as pseudoclivadas e as clivadas de SER são estruturas diferentes sintática e semanticamente, de forma a definir a clivada de SER como uma clivada independente e, em seguida, iniciou-se a sistematização da clivada de SER e da estrutura enfática com mas SER para que se pudesse admitir uma análise diferenciada para cada uma delas. Conclui-se nesta dissertação que a estrutura enfática com mas SER não é uma variante da clivada de SER, mas sim, uma estrutura com uma partícula de focalização em processo de gramaticalização, estando a sua variante pós-frase totalmente gramaticalizada. As diferenças entre a clivada de SER e a estrutura enfática com mas SER são evidentes, mas também é de notar que estas estruturas têm bastantes propriedades em comum, como por exemplo, a distribuição “livre” na oração, a focalização de certos constituintes, os seus contextos ilocutórios, o tipo de constituintes que clivam, a 62 distribuição sintática, entre outras. Apesar de todas essas propriedades, sabe-se que são duas estruturas diferentes, visto que SER e mas SER podem coocorrer. É possível observar também que as diferentes variantes da estrutura enfática com mas SER têm propriedades diferentes entre si e que podem ser investigadas. As variantes apontadas para esta estrutura são: a variante mas SER pré-foco e a variante mas é pós-frase. A variante mas SER pré-foco é uma estrutura com uma partícula de focalização em processo de gramaticalização, que poderá não flexionar de acordo com o verbo principal da oração, mesmo se estiver a ser c-comandada por esse verbo. A variante mas é pós-frase está numa posição sintática mais alta, de adjunção, e focaliza (contrastivamente) todo o predicado da oração. Mas é, neste caso, encontra-se sempre no presente do indicativo, o que mostra que já se encontra plenamente gramaticalizado. Conclui-se no presente estudo que mas SER não tem conteúdo semântico, funcionando como uma forma híbrida que ainda mantém alguns traços verbais ativos, mas que geralmente se apresenta como uma partícula de focalização gramaticalizada. 63 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abreu, Liisa Melo e (2001) “Considerações sintáctico-semânticas sobre a construção chamada semi-pseudoclivada”. Lingua Americana Año V Nº9, pp. 40-56. Ambar, Manuela (1999) “Aspects of the syntax of focus in Portuguese”. In Georges Rebuschi & Laurice Tuller (Eds.), The grammar of focus, Amsterdam: John Benjamins, pp. 23–53. Ambar, Manuela (2005) “Clefts and tense asymmetries”. 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Kiss, Katalin (1998) “Identificational Focus versus Information Focus” In Language, 74 (http://www.jstor.org/stable/417867), pp. 245-273. 71 AAL (Castelo de Vide, Porto da Espada, São Salvador da Aramenha, Sapeira, Alpalhão, Nisa – Portalegre) (3) INF Pois. Pois, (...)eu não concordo com a monda química (...). Pelo menos nas vinhas, só com Ervax é que eu ainda já tenho aí feito. Mas o Ervax (...)não mata todas as ervas. Mata só aquelas ervas mais manhosas. Aquelas ervas mais manhosas é aquelas que a gente ainda aproveita para o gado e que não fazem tanto mal. INQ Pois. INF Pois, havia de matar mas era as bravas. As que mata as bravas mata as parreiras! Ah, já está a ver que aquilo também não... Por causa disso é que eu não concordo muito com isso. (4) INF1 (...) Íamos levar aqui. Íamos buscar lá para cá. Pois. Íamos buscar ali, aonde lhe chamam as Hortas, Porto de Roque. Aí é que o íamos buscar, de noite, às escuras - noites muito escuras! INQ2 Então, e não tinham medo? INF1 Ora, medo!? Tínhamos medo mas era dos bonés, dos guardas. O mais, lá assim de medos, não tínhamos medo. Se apanhávamos aí cada molha aí por essas serras! Pois, era isso. CBV (Cabeço de Vide – Portalegre) (5) INQ Depois o vinho depois de estar feito, guardava-se dentro de quê? INF É dentro de tonéis. E o Ansur, para acabar com os tonéis – que o gajo tinha lá tonéis pequeninos que eu cabia lá de pé dentro deles, mandou fazer mas foi casas. FIG (Figueiró da Serra – Guarda) (6) INF2 É tudo a estudar, tudo a estudar. INF1 É estudar, é! Ele haviam de dar mas era uma enxada para irem para a serra cavar alqueves! ALC (Alcochete – Setúbal) 72 (7) INQ1 E depois para conseguir que aquilo, que ele deixe de arder? INF Abafa-se com terra. INQ1 E diz que est-... E isso é fazer o quê? INF É abafar. INQ1 Abafar. Empoado, é? Chama-se aqui? INQ2 Sim. Está aqui um empoar. INQ1 Nunca ouviu falar em: "é preciso empoar o forno", não? INF Empoar? INQ1 Não? INF Tenho 'ouvisto' falar mas é abafar: que é para abafar, que é para deixar deitar (...) aquela coisa. PIC (Bandeiras, Cais do Pico – Horta) (8) INF1 Já houve infelicidades nesta pesca. Aqui mesmo no lugar, já houve aí um rapaz que (...) o outro deu, tombou, e a linha, com certeza, pegou-lhe, e lá o levou. Nunca mais apareceu. E já houve mais uns casos desses. Um nas Lages, creio eu, e outro na Calheta. Mas isso já não é também do meu tempo. Este rapaz aí que morreu, que eu estou falar, é acima de mim talvez uns três anos – três, quatro anos acima de mim. INF2 Mas o Bártolo é do tempo (...) do mestre Balduíno de arrear à baleia. INF1 É. É, é. Mas ele novo veio assim, é mas é da Calheta. EXB (Enxara do Bispo – Lisboa) (9) INF (…) E depois, a mais velha, já estava a querer andar lá um francês de roda dela. Digo eu assim: "As raparigas, se eu deixo isto andar mais para diante, elas casam-se e ficam cá". INQ E ficam cá. INF "E eu não gosto disto, e depois ou elas prendem-me aqui, (…) ou, se eu for, já também tem (…) anos e anos que não as vejo". INQ Pois. INF "Deixa-me mas é passar já antes"… Eu já estava assim alinhavado, tinha uns tostõezitos… 73 (10) INF (…) Punha-se… Atirava-se com tudo para cima duma mesa ou dum pial grande donde se fazia aquilo, ia-se tirar a fressura, tirava-se os 'rinzes'… Os 'rinzes' não, que eles ficavam no (próprio) porco; tirava-se mas era a seguir. LAR (Larinho – Bragança) (11) INQ E o macho da, da abelha? INF (…) Disso falta… Isso é que não posso dizer. INQ Não, não?… INF Só se ouve falar na mestra. (A) mestra. INQ Não há uns que são, que também andam sempre à volta com elas e que depois elas até os matam? INF (…) Isso há, aqui há muito, (o que é) esfarrapam mas é as bravas. Não, não. (…) As bravas, há uma qualidade (…) de abelhas bravas meias avermelhadas, assim meias avermelhadas… GIA (Gião - Porto) (12) INQ Nos campos, quando estão, quando têm trigo ou milho, ou, ou até nas hortas, não se costuma pôr assim um boneco para espantar os pardais? INF1 Espantalhos. INQ Espantalhos. INF1 Espantalhos. Esses espantalhos põem-se é nas figueiras. INQ Nas figueiras? INF1 É nas figueiras (…) e realmente nas árvores, e tal. INQ Rhum-rhum. INF1 No trigo (…) costumava pôr-se mas era uma palma benzida, uma folha de palma benzida. UNS (Unhais da Serra – Castelo Branco) (13) INQ1 Não é bom ráfia? Ráfia não é bom? INF1 Não é muito aconselhável. A ráfia é boa mas é quando é para atar. 74 VPC (Vila Pouca do Campo – Coimbra) (14) INQ1 Mas não chamava abegão? INF Não. (…) Era mas era um (…) procurador. GRJ (Granjal – Viseu) (15) INF (…) Tudo já me esqueceu! Tudo já me esqueceu! Passa o tempo e a gente, olhe, a cabeça já não… Já nem regula. (Apanha a gente já assim). A gente agora só já vive mas é arreliada e sabe Deus como! E sabe Deus como! GRC (Graciosa – Angra do Heroísmo) (16) INF1 Eu nunca mais me livro daqui para fora. Vou-me embora mas é (…) para as Vergas, que eu nunca mais me safo. STA (Santo André – Vila Real) (17) INF E depois de o namoro continuar é que arranjámos a rapariguita mais velha que está na França. Depois foram os três. Depois a mãe dele não queria que ele casasse comigo. Depois ele veio para esta casa, que ele vivia ali em baixo, e veio para esta casa. E daí depois eu tinha os três garotitos pequenitos – eu estava com o meu pai e com a minha mãe – e morreu-me um irmão na França. E depois veio para cá e eu disse-lhe: "Bem, ou vais dormir com os homens que trazem o meu irmão da França, ou à casa duma vizinha, ou guardas os três raparigos que temos". Depois ele diz: "Não, então eu guardo os três raparigos que temos, que ficam comigo na cama". E depois dormiram os três raparigos com ele. Depois ao outro dia diz: "Olha, vamos mas é tratar e vamos-nos casar". Pronto. Resolveu casar-se e vamos embora. [Risos] A mãe empurrou-o para aqui, botou-o fora de casa, e depois ele tinha que arranjar quem lhe cozesse as batatas. MTV (Montalvo – Santarém) (18) INF1 (…) É claro, e depois vão então mulheres – que agora os homens já poucos querem trabalhar. (…) Querem tudo andar mas é (…) na orgia e na paródia. 75 (19) INF (…) Ela vai, ou se calhar as duas, elas vão lá apanhar as uvas, não vão apanhar as uvas verdes, nem as uvas que estão muito viceiras, nem nada. Apanham mas é uvas muito passadinhas, tanto faz ser as brancas como ser as tintas que apanham. (20) INF (…) Donde é que veio a uva? Onde é que ela foi e como é que ela foi apanhada? E vamos lá ver mas é que como é que é que lá está a outra: se a outra está madura como esta quando para aqui veio. CLH (Calheta – Angra do Heroísmo) (21) INF2 E semeava-se muito milho mas era (…) para a maçaroca. INF1 Para secar. INF2 E agora semeiam é para o gado. É para o gado. INF1 E agora semeiam muito milho mas é para o gado. (22) INF1 (…) Só falta fazer… O senhor tem as mãos bem quentes! INQ1 Tenho, ora! Mas, a senhora… INF1 Ao respeito, tem mas é bem quentes à minha vista.