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Análise da cobertura de música pelo jornal Público Adriana Maia Dias Maio, 2017 Relatório de Estágio de Mestrado em Jornalismo
Relatório de estágio apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Jornalismo, realizado sob a orientação científica da Professora Dora Santos Silva.
AGRADECIMENTOS À música, por me ter salvo a vida. Aos músicos, sejam eles cobertos pela imprensa ou não, que me marcam e me tornam melhor pessoa. À família e amigos, pela presença. Ou porque não se explica tudo numa frase. Aos professores que não desistem de ensinar. Aos jornalistas do PÚBLICO que me souberam fazer sentir parte da equipa. Ao Kurt Cobain da Avenida da República, por ser uma personagem fundamental do meu percurso universitário. Mesmo que não o saiba. Aos vizinhos que forçosamente aceitam o meu gosto musical e não se queixam. À Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, obviamente.
ANÁLISE DA COBERTURA DE MÚSICA PELO JORNAL PÚBLICO [Analysis of music coverage by newspaper PÚBLICO] ADRIANA MAIA DIAS RESUMO Este relatório pretende descrever o trabalho realizado durante o estágio curricular de mestrado na secção de cultura do jornal diário PÚBLICO, entre Setembro e Novembro de 2016. Além de fazer uma descrição do estágio e do trabalho aí realizado, o relatório cobre ainda o tema do jornalismo cultural em Portugal, concentrando-se no jornalismo de música, fazendo com maior detalhe, num estudo de caso, uma análise da cobertura de música pelo PÚBLICO. O relatório pretende dar uma visão pessoal de como foi a experiência do estágio curricular, salientando pontos fortes e fracos e enumerando os trabalhos mais importantes durante a experiência. Relativamente ao tema da cobertura de música deste jornal, o relatório pretende estudar dados recolhidos durante o estágio, referindo quais os principais tópicos que definem o jornalismo de música do PÚBLICO. Para tal, analisa todos os artigos de música publicados durante um mês estruturado, complementando essa análise com entrevistas aos principais jornalistas de música do PÚBLICO. Através desses resultados, a principal conclusão a que se chega é que o jornalismo de música do PÚBLICO é sobretudo de agenda, centrando-se no artista, sendo que a música com maior expressão nas páginas do jornal é anglo-saxónica, apesar da importância dada também à música nacional. Palavras-chave: jornalismo cultural; PÚBLICO; estágio; música; crítica musical.
ABSTRACT This report describes the work realized during my internship in the culture section of PÚBLICO, between September and November 2016. Besides describing the internship and the work done there, the report covers the theme of cultural journalism in Portugal and particularly in this newspaper, focusing in musical journalism. The report intends to give a personal vision of the internship experience, with its pros and cons, and enumerate the most important pieces I’ve done during the internship. Concerning the theme of musical journalism in this newspaper, the report studies collected data during that time, referring which are the main topics that define musical journalism in PÚBLICO. In order to that, it analyzes every music article published in a structured month, complementing that analysis with interviews to the main music journalists in PÚBLICO. The results lead to the conclusion that musical journalism in PÚBLICO is mainly agenda journalism, focusing itself on the artist, with Anglo-Saxon music having the biggest expression, although Portuguese music is also very important. Keywords: cultural journalism; PÚBLICO; internship; music; musical critic.
ÍNDICE Introdução………………………………………………………………………………………………..……. 1 Capítulo I: Caracterização do órgão de comunicação e do estágio……………..…… 3 I. 1. o jornal PÚBLICO …………………………………………………………………………..….. 3 I. 2. Estagiar no PÚBLICO………………………………………………………………………..… 5 Capítulo II: Enquadramento teórico…………………………………………………………….… 11 II. 1. Definição e enquadramento do conceito de cultura………………………… 11 II. 2. Definições sobre jornalismo cultural…………………………………………….…. 14 II. 3. Jornalismo cultural em Portugal…………………………………………….………… 18 II. 4. Jornalismo de música em Portugal……………………………….………………..… 21 Capítulo III: Cobertura de música pelo jornal PÚBLICO…………………….……….…… 25 III. 1. Jornalismo de música no PÚBLICO…………………………………….………..…… 25 III. 2. Metodologia usada………………………………………………….………………….…… 30 III. 3. Análise de dados………………………………………………………….……………..…… 32 Conclusão……………………………………………………………………………….………………..…… 39 Bibliografia…………………………………………………………………………..………………...…….. 41 Anexo A: Estatuto editorial………………………………….…………..………………….………….. i Anexo B: Exemplos de trabalhos realizados…………………….……………………………… iii Anexo C: Entrevistas a jornalistas do PÚBLICO………………………………….………… xxxix
1 INTRODUÇÃO “Well never mind, We are ugly, but we have the music.” (Leonard Cohen) Se o jornalismo é considerado por muitos o quarto poder, há que dizer que essa visão parece restringir-se ao jornalismo político, económico ou de sociedade, pelo menos em Portugal. Actualmente, o jornalismo cultural no nosso país parece ainda estar em segundo plano. Tal acontece em todas as áreas da cultura que o jornalismo cobre. A música, por isso, e ainda que seja uma das áreas a que se dá maior importância, não é excepção. Em Portugal, o jornalismo de música tem passado por diferentes momentos e fases, mas está ainda longe do que se faz em outros países da Europa. O presente trabalho nasce de três meses de estágio curricular no jornal PÚBLICO, na secção de cultura, e tem como objectivo fazer um estudo de caso sobre a cobertura de música neste órgão de comunicação. Para tal, segue três pontos principais: uma descrição do órgão de comunicação e da experiência do estágio curricular; uma explicação do que é cultura e jornalismo cultural, bem como uma apresentação do jornalismo de música em Portugal; por último, uma definição do jornalismo de música no PÚBLICO, para a qual foram analisados dados recolhidos durante o período de estágio. O primeiro capítulo dedica-se ao primeiro ponto referido: uma descrição do PÚBLICO, através de uma breve história do jornal e referindo a organização das principais secções do mesmo. Este capítulo dedica-se também à experiência do estágio, relatando quais as principais tarefas e destacando os trabalhos de maior envergadura, salientando ainda pontos fracos e fortes da experiência.
2 O segundo capítulo, de enquadramento teórico, aborda o segundo ponto anteriormente referido. Deste modo, pretende ilustrar e definir conceitos como cultura e jornalismo cultural, concentrando-se no caso português e particularmente no jornalismo de música a nível nacional. Por último, o terceiro capítulo aborda o terceiro ponto, analisando a cobertura de música realizada pelo PÚBLICO, apresentando para tal um estudo de caso – análise dos artigos de música publicados durante um mês estruturado, utilizando variáveis como enquadramento, valor-notícia e localização das peças, entre outras – de forma a poder caracterizar devidamente esta área do jornalismo cultural do PÚBLICO.
9 comissários da exposição e o director da Amadora BD, entrevistar alunos e professores em visita de estudo ao festival. O artigo, editado por Isabel Salema, saiu a 6 de Novembro (domingo) quer no publico.pt, quer na versão impressa do jornal, sendo que nesta última foi publicado com cerca de metade do tamanho original. Dada a componente política de muitas das exposições, como “Zombie”, de Marco Martins, ou “Papá em África”, de Anton Kannemeyer, uma parte substancial da reportagem abordava esse aspecto. No entanto, na versão impressa do jornal, toda essa componente foi eliminada. Quando questionei essa edição, responderam-me que tal acontecera por uma questão de espaço. No entanto, uma fotografia ocupava praticamente metade da página… No entanto, o trabalho que mais me marcou foi sem dúvida o artigo sobre o livro mais recente de Carlos Ruiz Zafón. Escrever sobre este autor parecia algo obrigatório, tendo em conta a importância de Zafón e o sucesso que obteve não só em Portugal, mas no mundo inteiro, após publicar A Sombra do Vento. Foi no fim de Outubro que propus a Isabel Coutinho redigir o artigo, ideia que foi imediatamente aprovada. Escrever sobre Zafón implicou ter lido os livros anteriores da saga O Cemitério dos Livros Esquecidos, da qual fazem parte os livros A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu, para poder contextualizar personagens, locais e ambiente. Foi igualmente necessário entrar em contacto com a editora Planeta. Tentou-se ainda conseguir uma entrevista com o autor, mas sem sucesso, dado que a agenda de Zafón não o permitia e acabaria por vir a Lisboa em Dezembro de 2016 para apresentação do livro, com entrevistas à imprensa portuguesa. O artigo, uma apresentação do livro, mas centrado na relação da obra de Zafón com Barcelona - a cidade principal dos seus livros, foi publicado a 23 de Novembro (quarta-feira) na versão impressa do PÚBLICO e no publico.pt, editado por Inês Nadais. Estagiar no PÚBLICO foi uma experiência marcante, em que se destacou a aprendizagem de novas técnicas jornalísticas, de saber reagir ao stress da hora de fecho e, sobretudo, perceber realmente como funciona um jornal diário. Não posso deixar de referir que houve pontos fracos, como certos membros da equipa que pareciam marcar uma maior distância entre “estagiários” e “jornalistas” (provando mais uma vez o elitismo sempre presente no PÚBLICO…) ou ainda certos
10 esquecimentos por parte de editores (aquando da vinda da banda Eagles of Death Metal a Portugal, foi-me pedido que escrevesse uma notícia sobre o acontecimento; a notícia foi revista e editada mas não foi publicada devido a um “esquecimento” de uma das editoras). No entanto, foram mais os pontos postitivos do que os negativos. Não se consegue entender o que é o trabalho de um jornalista sem passar por um órgão de comunicação social, e foi essa componente prática que tornou este estágio uma experiência enriquecedora.
11 Capítulo II: Enquadramento teórico II. 1. - Definição e enquadramento do conceito de cultura “Cultura - conjunto de traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afectivos, que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e em que se englobam, para além das artes e das letras, os modos de vida, as formas de vida em comum, os sistemas de valores, as tradições e as crenças” Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (UNESCO) “Cultura é a acção que o homem realiza quer sobre o seu meio quer sobre si mesmo, visando uma transformação para melhor” Manuel Antunes (1999), Teoria da Cultura, p.39. Definir cultura depende muito da visão que se tenha sobre a mesma. Para T.S.Eliot existem três sentidos de cultura: do indíviduo, do grupo e da sociedade. “A cultura do indivíduo depende da cultura de um grupo ou classe e a cultura do grupo ou classe depende da cultura da sociedade a que este pertence este grupo ou classe” 10 , afimava Eliot (Eliot, 1962: 17). Desta forma, cultura tanto pode ser um elemento individual, quase como sinónimo de conhecimento, como pode ser o conjunto de artes, tradições e elementos que caracterizam um povo ou sociedade. No livro Cultura e jornalismo cultural: tendências e desafios no contexto das indústrias culturais e criativas (2012), Dora Santos Silva traça uma evolução do conceito de cultura. Até meados do século XIX, a visão “clássica” e “ilustrada” deste conceito cingia cultura ao campo intelectual, das belas-artes, numa visão elitista. Foi a partir da segunda metade do século XIX que se começou a desenhar uma nova visão do sentido de cultura, mais abrangente e “antropológica”, que não se cingia apenas às 10 Tradução feita por mim
12 belas-artes, mas que englobava tudo aquilo que caracteriza uma sociedade, conferindo uma dimensão mais colectiva ao significado de cultura. No entanto, durante a primeira metade do século XX, uma nova visão surgia: a cultura como indústria, dado o crescimento da cultura de massas. Esta visão foi sobretudo defendida por Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt, com um pensamento mais crítico sobre as construções culturais. Desenvolvem-se assim teorias sobre “high culture” (a “verdadeira” cultura) e “low culture” (a cultura de massas, considerada alienada e alienatória). É com a segunda metade do século XX que se desenvolvem os cultural studies – estudos culturais, que pretendiam estudar “as práticas culturais quotidianas, no contexto do protagonismo dos media” (Santos Silva, 2012: 32) - fundados por Richard Hoggart, Raymond Williams, Edward Thompson e Stuart Hall. “Culture is ordinary”, a famosa frase de Raymond Williams num ensaio de 1958, sintetiza esta visão de cultura: uma forma de vida, presente em diferentes aspectos desta. Deste modo, segundo Dora Santos Silva, pode dizer-se que cultura é um todo complexo, que pode englobar desde objectos culturais até ao estilo de vida de toda uma sociedade. Segundo esse prisma, é correcto afirmar que cultura e civilização se relacionam intimamente e que uma não pode existir sem a outra, apesar de haver visões contrárias, que afirmam que civilização e cultura são conceitos opostos. Mas dada a pluralidade do sentido de cultura, são possíveis diferentes visões. Assim, não é apenas cultura música, literatura, artes performativas ou visuais, mas também moda, gastronomia ou até mesmo estudos antropológicos podem ser considerados cultura, actualmente. Frequentemente, cultura é também associada à criatividade ou mesmo às novas indústrias criativas. Como afirma Dora Santos Silva, “hoje cultura engloba Beethoven e Madonna, um quadro de Velásquez e um anúncio publicitário da Vodafone, os sonetos de Camões e a ciberpoesia de Bernstein” (Santos Silva, 2012: 21-22). Cultura e identidade são também factores muito próximos, estando associados a valores. A pluralidade e diversidade de culturas e de visões sobre as mesmas só são possíveis dada a integração da cultura em determinado tempo e espaço.
13 O jornalista e crítico de música do PÚBLICO Vítor Belanciano, numa crónica de 28 de Outubro de 2016 a propósito das reacções à atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, afirma as seguintes ideias sobre cultura: “Claro que, para lá das construções sociais, a realidade é bem mais estimulante e difusa. O sentido último da cultura foi-se complexificando nas últimas décadas com a problematização das ramificações clássicas (alta vs. baixa cultura, minorias vs. massas ou arte vs. entretenimento), da mesma forma que existem cada vez mais práticas de fronteira, híbridas, tangenciais. Esses agentes de fronteira acabam por ter um papel relevante. Alguns deles são simultaneamente escritores, cantores ou artistas, estabelecendo pontes entre diversos territórios, pertencendo a vários sem a pressão de terem de escolher, assumindo essa dualidade, mostrando-nos que a realidade é tantas vezes mais entusiasmante do que os muros morais onde a tentamos enclausurar”. Assim, poderia dizer-se que é mais correcto falar de “culturas” do que de “cultura”, dada a diversidade de acepções deste conceito. E são as diferentes visões de cultura que permitirão distintas concepções de jornalismo cultural, como se poderá ver no seguinte subcapítulo.
14 II. 2. – Definições de jornalismo cultural O jornalismo cultural evolui conforme a acepção de cultura. “A definição de jornalismo cultural foi evoluindo paralelamente à de cultura (…) ajustando-se às suas duas concepções básicas: a ‘ilustrada’ (que se restringia ao campo das belas-artes) e a antropológica, desenvolvida por E. B. Taylor, Richard Williams e outros estudiosos dos Cultural Studies” (Santos Silva, 2012: 69). A visão mais clássica e “ilustrada” encontrase neste momento sobretudo em publicações mais específicas ou especializadas, enquanto a visão mais antropológica ou ligada às indústrias criativas se pode encontrar nos media em geral. O jornalismo cultural actual tem muito como filosofia o entretenimento e o lazer. Jorge Rivera, jornalista, crítico, poeta e ensaísta, descreve jornalismo cultural como “uma zona muito complexa e heterogénea de meios, géneros e produtos que abordam com objectivos criativos, reprodutivos e informativos os terrenos das belasartes, as ‘belas-letras’, as correntes de pensamento, as ciências sociais e humanas, a chamada cultura popular e muitos outros aspectos que têm a ver com a produção, circulação e consumo de bens simbólicos, sem importar a sua origem e o seu destino” (Rivera, 2003: 19 apud Santos Silva, 2012: 70). Em muitos casos reina ainda a visão clássica e “ilustrada” de cultura, com cobertura exclusiva de belas-artes, em que geralmente as áreas de maior destaque são o cinema e a música. Com alguma ironia, apesar desta visão mais elitista, verifica-se uma maior atenção ao cinema e à música comerciais. No entanto, têm também surgido publicações jornalísticas com outras visões de cultura, com abordagens criativas ligadas a novas tendências, através de revistas especializadas ou roteiros e “guias de consumo”, dando ênfase a aspectos como lifestyle, design, culinária ou novos criadores. As várias formas de contar uma história, sobretudo com as novas possibilidades que o jornalismo digital fornece, verificam-se também no jornalismo cultural. Cada vez mais as redes sociais, os blogs e certos sites especializados em temas culturais se
15 tornam fontes de divulgação. A internet é também responsável por uma “deselitização”, se é possível o termo, do jornalismo cultural, dado que se tem acesso muito mais fácil aos objectos culturais do que anteriormente, tornando-os acessíveis a todos e não apenas ao jornalista. Actualmente, há artigos e histórias que não poderiam existir se não fosse em ambiente digital. Cada vez mais se vêem histórias contadas através de galerias de imagens, vídeo, mapas interactivos ou panorâmicas em 360º. 11 O hibridismo do jornalismo cultural é um dos elementos principais que possibilitam esta transformação. A própria actualidade do jornalismo cultural é diferente da actualidade do jornalismo em geral – “a novidade no jornalismo cultural reside, naturalmente, no lançamento de produtos, na estreia de filmes, abertura de exposições, etc, mas também na excepcionalidade ou pioneirismo do próprio produto cultural” (Santos Silva, 2012: 81). Assim, aqui a raridade e a criatividade constituem, de forma tão ou mais importante do que a actualidade, um valor-notícia. Para Marisa Torres da Silva, “o jornalismo cultural pode ser, aliás, caracterizado como um espaço de confluência entre repórteres, intelectuais ou mesmo criadores, tornando-se por isso distinto de outras formas convencionais de produção jornalística” (Torres da Silva, 2014: 16). Afirma ainda que a identidade dos jornalistas de cultura se liga “à capacidade de julgar os produtos culturais” (Torres da Silva, 2014: 16). Um estudo de Gemma Harries e Karin Wahl-Jorgensen mostra que os profissionais do jornalismo cultural sentem diferenças em relação ao jornalismo “tradicional”, considerando-se mais qualificados do que os restantes jornalistas, dado que se consideram especialistas em assuntos culturais. É também referido que os críticos de arte entrevistados e consultados para o mesmo “raramente expressaram dúvidas sobre a sua autoridade crítica” (Harries, Wahl-Jorgensen, 2007: 624), mostrando assim que muitos jornalistas de cultura sentem que a sua identidade profissional se liga directamente à classificação que fazem dos objectos culturais. 11 Artigo disponível em http://www.publico.pt/culturaipsilon/voltamos-aos-sete-reinos
16 Destaca-se ainda que as opiniões mais comuns entre os jornalistas de cultura sobre a hierarquia que deve existir nas notícias são: “as artes são importantes e devem estar no centro da cobertura mediática” (Harries; Wahl-Jorgensen, 2007: 626); “as artes são mais «ligeiras» do que política e outros assuntos, mas mais importantes do que áreas de «baixa cultura» como cobertura de desporto e celebridades” (Harries; Wahl-Jorgensen, 2007: 626). Há ainda uma opinião entre jornalistas de cultura, bastante mais rara, que de certo modo acaba por contradizer as duas afirmações anteriores: “as artes são «soft news»” (Harries; Wahl-Jorgensen, 2007: 626), o que acaba por demonstrar dois aspectos - que as opiniões sobre jornalismo cultural, mesmo entre os profissionais da área, não são unânimes, e que a visão que se tem sobre jornalismo cultural está directamente ligada à visão que se tem de cultura. No entanto, há uma ideia que perpassa estas opiniões, ainda que divergentes: o jornalismo cultural é visto como um mundo aparte, longe do jornalismo convencional. No mesmo estudo, os resultados de entrevistas a jornalistas de cultura mostram que “as principais preocupações são manter as definições de jornalismo cultural, e evitar a contaminação pela cultura popular” (Harries, Wahl-Jorgensen, 2007: 629), e que dentro do jornalismo cultural há diversas “subsecções”, como jornalista cultural, editor cultural, e crítico, cada um com tarefas e responsabilidades distintas. No entanto, os críticos “freelancer” vêem-se de uma forma diferente, dada a instabilidade do seu trabalho. Um dos elementos fundamentais do jornalismo cultural é um bom domínio de escrita, bem como um domínio não apenas da actualidade, mas de várias referências culturais, em várias áreas (música, literatura, arquitectura…). Esse domínio de diferentes temas é uma das principais razões pelas quais os jornalistas de cultura se sentem “mais qualificados” do que os outros jornalistas. No entanto, sendo verdade que o estilo de escrita do jornalismo cultural é um dos principais elementos distintivos do mesmo, há que dizer ainda, como afirma Dora Santos Silva, que “será porventura exagerado afirmar que se distingue exclusivamente pelo seu estilo (…) e não pela natureza dos temas que aborda” (Santos Silva, 2012: 71). A mesma autora considera ainda que “(…) o jornalismo não deve prescindir das qualidades de concisão, objectividade e clareza, mesmo que os temas sejam complexos e alguns géneros,
17 como a crítica e o ensaio, possam reclamar uma maior liberdade linguística, vocabular e estética” (Santos Silva, 2012: 78). Nesta área, tão importante como o jornalista cultural é também o crítico. Segundo Daniel Piza, o crítico deve ter três funções principais: informar o leitor sobre a obra ou objecto artístico, bem como o autor e o contexto histórico em que se integra; analisar a obra, medindo relativamente qualidades e defeitos; usar o objecto para uma leitura da realidade, sendo o crítico um “intérprete do mundo” (Piza, 2003: 70). No seu estudo “Function of Media Arts Critic”, Dwight DeWerth‐Pallmeyer destaca que a maioria dos críticos culturais considera a melhor parte do seu trabalho a interacção com o leitor, enquanto os prazos e os editores que não entendem o tema a ser tratado são vistos como o pior desse mesmo trabalho, bem como a publicidade que muitas vezes está subjacente nos media culturais. “É desapontante quando a maioria dos críticos de arte simplesmente resumem uma actuação mediática e dizem por que é boa ou má. Infelizmente, este tipo de críticas constituem um padrão na crítica de artes, e não uma excepção” (Pallmeyer, 2003:113). Pallmeyer aponta, como contraste, o que deveria ser um verdadeiro crítico: “”Quando o crítico se empenha, resume as qualidades-chave, mas também aponta as qualidades estéticas e dramáticas e as questões morais ou éticas do texto” (Pallmeyer, 2003: 113). E acrescenta: “a boa escrita crítica é em si uma forma de arte” (idem). 12 Em modo de conclusão e de síntese das anteriores opiniões, poderia dizer-se que o papel principal do jornalista cultural é actuar como descodificador de símbolos culturais, de modo a aproximar o público de criadores e objectos culturais, podendo ser visto como um “mediador democrático” (Santos Silva, 2012: 73). Ainda que as opiniões sobre o papel deste tipo de jornalismo divirjam, é unânime que o jornalista cultural é um intérprete da própria cultura. 12 Tradução feita por mim.
18 II. 3. – Jornalismo cultural em Portugal Há uma falta considerável de estudos sobre jornalismo cultural em Portugal, país em que o jornalismo cultural continua sem ter um papel de destaque. Ao contrário de outros países, em Portugal a área da cultura continua em segundo plano. “Não se pode dizer que o jornalismo cultural ocupe um papel importante na imprensa portuguesa. Comparativamente com outros países (Brasil com pelo menos 20 títulos de revistas especializadas em algum segmento de cultura, Reino Unido com dezenas de títulos regionais e nacionais ou a vizinha Espanha, precursora do jornalismo de tendências) o panorama português é muito fraco e a única revista mensal dedicada às artes – Magazine das Artes – teve o seu fim em Maio de 2008” (Santos Silva, 2012: 103). Data de 1761 a primeira revista portuguesa inteiramente dedicada à cultura, sob o nome Gazeta Literária / Notícias Exactas dos Principais Escritos Modernos, editada no Porto. Entre os séculos XIX e XX foram criadas várias revistas culturais, na sua maioria sobre literatura. As revistas literárias adquiriram sobretudo grande importância durante a ditadura salazarista, já que, apesar das imposições e restrições da ditadura, revistas como Seara Nova e Cadernos de Poesia divulgavam escritores e poetas que o fascismo tentava esconder. Foi após o 25 de Abril que as manifestações culturais se multiplicaram, fazendo com que a indústria cultural se desenvolvesse cada vez mais. Assim, apareciam nos anos 80 os primeiros jornais integralmente dedicados à cultura, como Se7e e Blitz. Actualmente, vários jornais diários generalistas publicam suplementos culturais, entre os quais se conta o PÚBLICO, com os suplementos Ípsilon, Fugas, P2 e Culto – os três últimos suplementos podem ser considerados suplementos culturais se seguirmos a visão antropológica de cultura; e há ainda semanários, como o Expresso, que também possuem suplementos culturais. Há que destacar, no panorama do jornalismo cultural nacional, o Jornal de Letras. Neste momento, surgem também novas revistas mais ligadas à agenda de eventos, como é o caso da TimeOut, que se
25 Capítulo III: Cobertura de música pelo jornal PÚBLICO III. 1. – Jornalismo de música no PÚBLICO A música é, a par do cinema, a área da cultura a que o PÚBLICO dá maior destaque. Todos os dias, o jornal diário publica pelo menos 3 artigos de cultura na versão impressa, com a versão digital a ser constantemente actualizada. Relativamente ao jornal diário, é sobretudo na versão online que a música ganha protagonismo, por uma questão de espaço. Já no suplemento Ípsilon, são vários os artigos e críticas musicais. Há que destacar que o jornalismo de música no PÚBLICO está em grande parte subordinado à agenda de eventos ou de lançamentos de discos. Para Pedro Nunes, o PÚBLICO apresenta-se como “um jornal culturalmente exigente” (Nunes, 2004: 222), para o leitor mais informado, excluindo os outros leitores (ideia bastante presente quando mostra uma comparação feita no Y de 12/10/2001 entre os lançamentos de Leonard Cohen e Suzanne Vega, descritos no jornal como mestre e discípulo). Foram vários os jornalistas que escreveram sobre música nas páginas e nos suplementos de cultura do PÚBLICO. Mário Lopes e Vítor Belanciano são os nomes actuais da redacção que escrevem sobre esta área, sobretudo acerca de música internacional. É frequente ver também artigos assinados por Nuno Pacheco, do conselho editorial do jornal, ou ainda do colaborador Gonçalo Frota, geralmente sobre música portuguesa ou lusófona. Claro que todos os jornalistas podem escrever notícias sobre música, mas são estes os jornalistas especializados nesta área e que escrevem peças de maior profundidade. A alteração dos suplementos culturais do jornal tem vindo a alterar o espaço dado à música no PÚBLICO. Foi com o suplemento Sons que a música conheceu um maior destaque no jornal. Em Y o espaço dado à música era também maior do que aquele que é actualmente dado a esta área no actual Ípsilon. Segundo o jornalista do PÚBLICO Mário Lopes, ao haver mais páginas e mais suplementos, o espaço dado à
26 música era maior, tal como acontecia com outras áreas da cultura. No entanto, no jornal diário o espaço que se dá aos artigos sobre música não se tem vindo a alterar muito. Sobre os suplementos culturais no jornalismo, Pedro Nunes refere que “os suplementos podem ser amplamente integrados na secção de cultura do jornal. Favorecem a criação de uma comunidade de leitores que seguem o gosto/linha editorial da publicação e valorizam a escrita de um jornalista ou crítico em particular” (Nunes, 2004: 87). Entre os suplementos do PÚBLICO dedicados à cultura (não apenas à música, mas a todas as áreas), estiveram os suplementos Pop Rock (1990-1996), Fim de Semana (1991-1994), Zoom (1995), Artes e Ócios (1994-1999), Leituras (1990-1999), Artes (2000), Y (2000-2006) e Mil Folhas (2000-2006). De entre estes suplementos, a música era uma das artes principais em Pop Rock, Sons, Fim de Semana, Artes e Ócios e Y, já que Leituras e Mil Folhas se dedicavam sobretudo à literatura. Todos estes suplementos eram de publicação semanal, vendidos com o próprio jornal. O suplemento Pop-Rock, que durou de 1990 a 1996, foi um suplemento inteiramente dedicado à música, dando especial destaque à música internacional, sobretudo anglo-saxónica, ainda que a música portuguesa também fosse de grande importância para o suplemento. Pop-Rock seguia esta ordem: várias breves, uma entrevista ou artigo desenvolvido e uma série de críticas de discos, tanto de música internacional como portuguesa. A crítica musical do suplemento Pop-Rock era bastante mais extensa do que no actual Ípsilon, muitas vezes com o dobro do tamanho das críticas de música actuais. Anos mais tarde, de 1995 a 2000, era com no suplemento Sons que a música era protagonista. O suplemento, com menos páginas do que o anterior Pop-Rock, era composto por um só artigo desenvolvido e uma série de breves sobre lançamentos de discos (as chamadas “saídas”). Muitas vezes, o Sons era temático, dando-se frequentemente destaque à música clássica (por exemplo entre 1995 e 1996) e ao jazz. Fim de Semana foi um suplemento que embora muito dedicado à agenda cultural, também tinha vários artigos de fundo. Cinema, música, teatro e exposições eram os temas em destaque.
27 Zoom existiu apenas durante Julho de 1995. Tinha várias semelhanças com o anterior suplemento Fim de Semana. Artes e Ócios foi sobretudo um suplemento de agenda de eventos, em que a programação televisiva teve também grande importância. O que mais se destacava neste suplemento era o cartaz de festivais e concertos, a par de estreias de filmes ou peças de teatro. Não havia grandes artigos de fundo ou de análise de objectos e eventos culturais. Y, com cerca de 40 páginas, era o suplemento que mais se assemelhava ao actual suplemento cultural Ípsilon (aliás, foi precisamente este suplemento, ao lado do suplemento literário Mil Folhas, que precedeu imediatamente o Ípsilon). Neste suplemento, a música era também protagonista. Centrava-se na agenda de eventos e na música internacional. Além da música, o cinema igualmente uma área de grande importância. O suplemento era composto por “flashes” (breves, cujo nome se manteve no actual Ípsilon), artigos desenvolvidos e/ou entrevistas, bem como notícias e críticas, sobretudo musicais ou cinematográficas. Neste suplemento, havia vários artigos escritos por jornalistas estrangeiros e correspondentes internacionais, em maior quantidade do que no Ípsilon dos dias de hoje. Artes foi outro suplemento dedicado a diferentes artes performativas, como dança e teatro, em que a música também estava presente, ainda que não da mesma forma que noutros suplementos aqui já referidos. Não havia um destaque dado à música como acontecia em Y ou Sons, a título de exemplo. De 2007 até à actualidade, é Ípsilon o suplemento cultural do PÚBLICO, em que a música é uma das áreas em destaque. É editado por Vasco Câmara desde que começou a ser publicado. O actual suplemento é comparável a uma junção dos antigos Y e Mil Folhas, não havendo neste momento uma distinção tão marcada entre a secção de cultura do jornal diário e o suplemento semanal. Aliás, no publico.pt a secção dedicada a cultura surge com o título “Cultura-Ípsilon”, ilustrando assim uma relação de igualdade entre diário e suplemento.
28 É curioso verificar que era dada anteriormente mais importância aos programas de televisão dentro da secção de cultura, com maior quantidade de breves ou pequenas notícias sobre estreias de séries ou de programas. Actualmente, a secção de cultura apresenta frequentemente artigos desenvolvidos sobre séries, geralmente na versão digital do jornal (os artigos são quase sempre da autoria da jornalista Joana Amaral Cardoso). Ainda que a música seja uma das áreas de destaque, não se dá actualmente à música o mesmo espaço que existia em suplementos anteriores. Segundo o crítico e jornalista do PÚBLICO Vítor Belanciano, a diminuição do espaço que se dá à música nos jornais não acontece apenas em Portugal, mas um pouco pela imprensa de todo o mundo. Ainda assim, em Portugal nota-se mais esse corte dada a falta de revistas e jornais especializados em música, como acontece noutros países. E é na crítica que se corta um maior espaço no que diz respeito à música, já que ainda se dá grande destaque a artigos de apresentação de discos ou concertos. “Quando o Ípsilon foi implementado, a música perdeu espaço, porque tinha que coabitar com outras áreas. E sinto que sim, que evidentemente ao longo dos anos, não só a música, mas outras áreas da cultura, foram perdendo espaço no jornal. Acho que não é uma tendência que não é do interior aqui do PÚBLICO, é uma tendência genérica. Essencialmente no espaço de crítica, penso, já que continua a haver muitos textos de apresentação, reportagens… O lado mais crítico, seja crítica de discos ou de concertos, por exemplo, nota-se imenso que isso se perdeu, tendo em conta que no jornal PÚBLICO sempre houve essa relação entre os suplementos e o diário”, diz Belanciano. 19 A visão de Vítor Belanciano coincide em certos aspectos com a de Dora Santos Silva. “Em bom rigor, não existe crítica nos jornais portugueses. A crítica estruturada foi ocupada por sinopses que não ocupam mais do que um parágrafo.” (Santos Silva, 2012: 121). Sobre o que faz com que um artista seja (ou não) falado no PÚBLICO, o jornalista do PÚBLICO Mário Lopes explica: “nós procuramos, acima de tudo, contar histórias que sejam relevantes quer por aquilo que reconhecemos como qualidade das 19 Ver entrevista em anexo.
29 pessoas ou bandas, quer pelo impacto que de alguma forma vamos vendo em relação àquilo que fazem”. 20 No entanto, há dois artistas que parecem atravessar as gerações de suplementos do PÚBLICO e ter sempre igual importância e destaque, seja o ano que for: Bob Dylan e Bruce Springsteen. Ambos aparecem constantemente, seja por lançamentos de discos, novas digressões, porque ganham um prémio Nobel que não recebem em mãos ou por atacar as políticas de Donald Trump. Acerca das pressões das editoras sobre os jornalistas, Vítor Belanciano tem uma posição clara. “É claro que existem sugestões, mas a última palavra é sempre do crítico, ou supostamente deveria ser assim. No meu caso, já aconteceu até ao contrário: ser eu a propor muitas vezes”, comenta 21 . Para melhor se analisar e compreender como é a cobertura de música do PÚBLICO, segue-se uma análise de dados recolhidos durante o estágio com o objectivo de caracterizar os principais aspectos desta área da cultura no PÚBLICO. 20 Ver entrevista em anexo. 21 Ver entrevista em anexo.
30 III. 2. - Perguntas de investigação e método de análise científica da cobertura de música pelo PÚBLICO O objectivo deste relatório é analisar a cobertura de música pelo PÚBLICO. Para tal, foram colocadas perguntas de investigação como: - qual a relação de proporção entre a cobertura de música e das restantes áreas? - que género jornalístico é mais frequente na cobertura musical do PÚBLICO? - qual é o valor-notícia predominante? - qual é o enquadramento/ângulo de abordagem predominante? - qual é a dimensão da cobertura da música nacional em comparação com a internacional? Para responder a estas perguntas, no âmbito de um estudo de caso, a metodologia utilizada foi a análise de conteúdo, complementada com entrevistas. Analisaram-se então todos os artigos de música publicados num mês estruturado, organizado por quatro semanas diferentes: a primeira semana de Setembro (29 de Agosto a 4 de Setembro), a segunda de Outubro (de dia 10 a 16), a terceira de Novembro (de 14 a 20) e a quarta de Dezembro (de 26 deste mês até 1 de Janeiro de 2017). Escolhi estas semanas por me parecer excessivo analisar por completo as publicações durante os três meses de estágio. No total, foram analisados 80 artigos. As variáveis de análise usadas para analisar esse mês foram o número total de artigos de cultura publicados bem como o número de visualizações à página de cultura durante esse mesmo tempo; os géneros jornalísticos mais frequentes na cobertura de música; os valores-notícia mais destacados na música; o enquadramento das peças; por fim, a localização das peças. Foi também necessário, para completar esta análise, entrevistar os jornalistas Mário Lopes e Vítor Belanciano, ambos especialistas em música. Tendo em conta o
31 tema deste relatório - caracterização da cobertura de música pelo PÚBLICO - era indispensável falar com ambos os jornalistas, dada a larga experiência de ambos, além de que seria impensável apresentar um relatório sobre a cobertura musical do PÚBLICO sem falar com os jornalistas que se encarregam dessa tarefa.
32 III. 3. – Análise de dados Número total de artigos de cultura: Esta tabela mostra a relação entre o total de artigos de cultura e a quantidade de artigos de cada área dentro da secção durante o período de tempo escolhido para a análise (as quatro semanas antes referidas). Como se pode comprovar pelo gráfico, a música e o cinema são as áreas de eleição do PÚBLICO no que diz respeito à cultura, seguidas de perto pela literatura. Entre ambas as áreas, a música é a que tem mais destaque, com um total de 80 artigos. O número de artigos sobre literatura (secção “livros”) aumentou consideravelmente em Outubro dada a atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. Por ser um prémio literário, ainda que atribuído a um músico, não considerei que esses artigos devessem ser integrados na secção música. Assim, apesar de ter perdido alguma importância ao longo da história do jornal (basta ver que os antigos suplementos inteiramente dedicados à música já não existem), a música continua a ser uma das áreas de maior destaque, e inclusivamente um ex-libris da secção de cultura, já que a cobertura musical continua a ser uma imagem de marca do estilo aparentemente “high culture” do jornal, que muitas vezes cobre, por exemplo, artistas e eventos de música alternativa e indie, fora do mainstream. 80 63 14 3 51 32 5 5 Artigos de cultura Música Cinema Teatro Dança Livros Artes Arquitectura Design
33 Visualizações da página de cultura do PÚBLICO: VISITAS 29 AGO - 4 SET 10 OUT - 16 OUT 14 NOV - 20 NOV 26 DEZ - 1JAN CULTURA - TOTAL 196 350 230 893 185 969 320 583 Esta tabela mostra o total de visitas dos leitores à secção de cultura no publico.pt durante as semanas já referidas. As semanas com maior número de acessos aos artigos de cultura são aquelas em que precisamente se verificaram maiores acontecimentos culturais, como a atribuição do prémio Nobel da Literatura, em Outubro, ou a morte de Leonard Cohen, em Novembro. Esta tabela prova que a cultura é uma área que atrai grande número de leitores, ainda que seja uma área posta em segundo plano em vários jornais portugueses. Sobre essa perda de importância da área da cultura, que originou também uma perda de espaço nos jornais, Vítor Belanciano afirma: “quando o Ípsilon foi implementado, a música perdeu espaço, porque tinha que coabitar com outras áreas. E sinto que sim, que evidentemente ao longo dos anos, não só a música, mas outras áreas da cultura, foram perdendo espaço no jornal. Acho que não é uma tendência que não é do interior aqui do PÚBLICO, é uma tendência genérica. Essencialmente no espaço de crítica, penso, já que continua a haver muitos textos de apresentação, reportagens…” 22 . 22 Ver entrevista em anexo.
34 Géneros jornalísticos utilizados na cobertura de música pelo PÚBLICO: No PÚBLICO, a notícia predomina na secção de cultura, e a cobertura de música não é excepção. Durante o tempo analisado, a notícia é o género jornalístico que constitui mais de metade do total de artigos de música. O segundo género mais frequente é a crítica, uma das grandes marcas do jornal. Ainda que neste momento a crítica tenha menor destaque do que em momentos anteriores do jornal, continua a ser um dos géneros jornalísticos mais utilizados, sendo um dos ex-libris do PÚBLICO. No entanto, Vítor Belanciano afima: “o lado mais crítico, seja crítica de discos ou de concertos, por exemplo, nota-se imenso que isso se perdeu”, e relaciona as mudanças de géneros jornalísticos com a relação entre diário e suplementos culturais: “Ao longo dos anos isso também se foi transformando, numa altura em que no diário tudo o que tinha a ver com uma lógica de concertos semanais, seja entrevistas ou promoção de concertos, transitava imediatamente para as páginas de cultura. Hoje em dia, há um lado mais ambíguo, mais misto, nessa relação” 23 . É necessário também dar importância à entrevista, o terceiro género jornalístico mais frequente durante o tempo desta análise. A entrevista destaca-se na secção de cultura – e não é excepção, obviamente, na cobertura de música – já que, como afirma Dora Santos Silva, há necessidade de “(…) o jornalismo cultural utilizar 23 Ver entrevista em anexo. 43 3 7 24 3 Géneros jornalísticos Notícia Reportagem Entrevista Crítica Outros
41 BIBLIOGRAFIA ANTUNES, Manuel (1999). Teorias da Cultura. Lisboa: Edições Colibri. BELANCIANO, Vítor (2016). A sobranceria das elites culturais. Público. 2016. Disponível em: https://www.publico.pt/2016/10/28/culturaipsilon/noticia/a-sobranceriadas-elites-culturais-1749094 DEWERTH-PALLMEYER, Dwight (2009). The nature and function of the media arts critic. New Jersey Journal of Communication, 11 (1). Disponível em: http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/15456870309367440 ELIOT, T.S. (1962). Notes towards the Definition of Culture. Faber and Faber Limited. HARRIES, Gemma; WAHL-JORGENSEN, Karin (2007). The culture of arts journalists: elitists, saviors or manic depressives? Journalism, 8 (6). Disponível em: http://www.academia.edu/522337/Harries_G._and_WahlJorgensen_K._2007_._The_culture_of_arts_journalists_Elitists_saviors_or_manic_depr essives_Journalism_8_6_619-639 NUNES, Pedro (2004). Popular music and the public sphere: the case of portuguese music journalism. Tese de Doutoramento, Stirling Media Rearch Institute, Universidade de Stirling, Escócia. NUNES, Pedro. “O Jornalismo Pop-Rock em Portugal: entre o grilo falante da indústria e a esfera pública”, 6º Congresso Sopcom, Universidade Lusófona, Lisboa, 1418 Abril de 2009. PIZA, Daniel (2003). Jornalismo Cultural. São Paulo: Editora Contexto. PÚBLICO. http://www.publico.pt/ (acedido diariamente durante a escrita do relatório). SANTOS SILVA, Dora (2012). Cultura e jornalismo cultural: tendências e desafios no contexto das indústrias culturais e criativas. Lisboa: Media XXI.
42 SANTOS SILVA, Dora. “Tendências do jornalismo cultural em Portugal”, 6º Congresso Sopcom, Universidade Lusófona, Lisboa, 14-18 Abril de 2009. TORRES DA SILVA, Marisa (2014). Jornalismo musical: estratégias enunciativas e retóricas. Contributos para uma análise discursiva. Revista Comunicação Midiática, 9 (1). Disponível em:http://www2.faac.unesp.br/comunicacaomidiatica/index.php/comunicacaomidiati ca/article/view/428 UNESCO (2002), Declaração Universal Sobre a Diversidade Cultural. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001271/127160por.pdf
i ANEXOS Anexo A: Estatuto editorial do PÚBLICO ESTATUTO EDITORIAL DO PÚBLICO: Público é um projecto de informação em sintonia com o processo de mudanças tecnológicas e de civilização no espaço público contemporâneo. Público é um jornal diário de grande informação, orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica. Público inscreve-se numa tradição europeia de jornalismo exigente e de qualidade, recusando o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria informativa. Público aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural. Público entende que as novas possibilidades técnicas de informação implicam um jornalismo eficaz, atractivo e imaginativo na sua permanente comunicação com os leitores. Público estabelece as suas opções editoriais sem hierarquias prévias entre os diversos sectores de actividade, numa constante disponibilidade para o estímulo dos acontecimentos e situações que, quotidianamente, são noticiados e comentados. Público considera que a existência de uma opinião pública informada, activa e interveniente é condição fundamental da democracia e da dinâmica de uma sociedade
ii aberta, que não fixa fronteiras regionais, nacionais e culturais aos movimentos de comunicação e opinião. Público participa no debate das grandes questões que se colocam à sociedade portuguesa na perspectiva da construção do espaço europeu e de um novo quadro internacional de relações. Público é responsável apenas perante os leitores, numa relação rigorosa e transparente, autónoma do poder político e independente de poderes particulares. Público reconhece como seu único limite o espaço privado dos cidadãos e tem como limiar de existência a sua credibilidade pública.
iii Anexo B: Exemplos de trabalhos realizados B.1: What would you do?, canta Chris Brown ao sair da prisão Canção foi editada menos de 24 horas depois de o músico ter sido detido por ameaçar com arma de fogo a modelo Baylee Curran durante uma festa. PÚBLICO 2 de Setembro de 2016, 15:24 Partilhar notícia – 38 PARTILHAS
iv Já em 2009 foi muito mediatizado o caso de violência doméstica envolvendo Rihanna. DR Chris Brown acaba de lançar uma nova canção. What Would You Do surge menos de 24 horas depois de ter sido detido por ameaçar, durante uma festa em casa, a modelo californiana Baylee Curran com uma arma de fogo. A imprensa internacional relaciona a canção com a detenção do cantor americano de R&B, mundialmente conhecido por temas como With you e Turn up the music. Brown encontra-se em liberdade condicional depois de pagar uma fiança de 250 mil dólares (aproximadamente 223 mil euros). “Com toda a porcaria que está a acontecer, vou dar a outra face e lançar músicas”, disse num vídeo na conta oficial da rede social Instagram, horas antes de divulgar a nova canção. Chris Brown irá a tribunal dia 20 de Setembro. Já na semana anterior tinha publicado Grass ain’t greener, canção que estará incluída em Heartbreak on a Full Moon, o seu próximo álbum, ainda sem data. A RCA Records, editora do cantor, afirma que What would you do não é um single do próximo álbum. Não é a primeira vez que Chris Brown se envolve em casos de violência. O mais mediático deu-se em 2009, quando foi acusado de agredir Rihanna, na altura sua namorada, antes da cerimónia dos Grammy Awards. Brown também já foi acusado de atacar o seu antigo manager, MIke G, e de causar distúrbios em várias ocasiões.
v B.2: Um festival que vai de Shakespeare a Caetano Veloso A segunda edição do Festival Internacional de Cultura (FIC) começa esta sexta-feira, em Cascais. ADRIANA DIAS 8 de Setembro de 2016, 18:47 Partilhar notícia – 366 PARTILHAS A Casa das Histórias Paula Rego será um dos espaços do festival. DANIEL ROCHA A cultura é uma forma de olhar o mundo. É esta a filosofia do Festival Internacional de Cultura (FIC), em que a literatura está em destaque,
vi mas onde há espaço para todas as artes. Desta sexta-feira até ao dia 18 de Setembro, a segunda edição do FIC terá literatura, concertos, debates, teatro e exposições em espaços como a Casa das Histórias, o Centro Cultural de Cascais e o Jardim Visconde da Luz. Entre os mais de 65 convidados, 20 dos quais internacionais, sobressaem o escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, os britânicos David Lodge e Andrew Morton, o francês Mathias Énard, o compositor brasileiro Caetano Veloso e o poeta Antonio Cícero, que esta sextafeira, às 19h, abrem os encontros questionando se a identidade cultural é uma utopia. O prato forte do festival são os debates, muitos de carácter literário (como A literatura pode transformar o mundo?, com Ana Margarida de Carvalho, Maria Manuel Viana, Nuno Camarneiro e Mathias Énard, 12 de Setembro, às 22h) mas onde também não falta discussão política (A política em tempos de indignação, 10 de Setembro, às 19h, com a eurodeputada Marisa Matias e o filósofo espanhol Daniel Innerarity, é um exemplo). Há ainda conversas com escritores, como aquela entre Patrícia Reis e Arturo Pérez-Reverte (14 de Setembro, às 22h) e entre Inês Pedrosa e David Lodge (18 de Setembro, às 22h), sessões de autógrafos, ciclos de cinema, artes de rua e concertos de artistas como Cuca Roseta, João Gil e Ana Mesquita ou o Moscow Piano Quartet. “Nos vectores principais, o festival mantém-se o mesmo, continua a não ser um festival só de literatura, mas de cultura. No ano passado estava mais ligado a África e este ano ao Brasil”, afirma ao PÚBLICO Inês Pedrosa, programadora dos debates do festival e para quem “a dimensão da ponte existente entre os dois países é muito importante”. “O Brasil é uma potência cultural com enorme relevância”, reforça. Cada edição do FIC ergue-se em torno de uma figura central da cultura. Se no ano passado o autor a homenagear foi Cervantes, este é o ano de
vii Shakespeare, 400 anos após a sua morte. A obra do dramaturgo inglês estará em destaque dia 17, com apresentações do TEC – Teatro Experimental de Cascais. “Este festival pretende uma visão global e integradora da cultura”, diz Inês Pedrosa, para quem o espectáculo/aula-show no mesmo sábado, às 23h, Vinicius e Tom: Palavra e Música, de José Miguel Wisnik com Paula Morelenbaum, será um dos momentos altos. O FIC é organizado pelo grupo editorial LeYa em conjunto com a Câmara Municipal de Cascais e a Fundação Dom Luís I. A maioria das actividades é gratuita (há bilhetes para as exposições e as sessões de cinema). Texto editado por Isabel Coutinho
viii B.3: Milhares de episódios de séries e nem 20% são realizados por mulheres ou não-brancos Canais generalistas e de cabo mais igualitários do que serviços de streaming ou canais premium, diz relatório da Directors Guild of America. ADRIANA DIAS 14 de Setembro de 2016, 12:18 Partilhar notícia - 256 PARTILHAS Being Mary Jane foi considerada a melhor série a nível de igualdade de oportunidades. DR A Guilda dos Realizadores (Directors Guild of America, organização laboral que representa os realizadores norte-americanos) apresentou um novo relatório sobre a contratação de mulheres e minorias étnicas
xv E, afinal, o que significa Bowie para Brooker neste momento? “Vejo David Bowie como uma criação de David Jones. Diria que vejo David Robert Jones como um ser humano muito talentoso que criou uma personagem chamada David Bowie, e ainda bem que o fez. Sinto-me grato por David Bowie, resumindo”, afirma Brooker. E completa: “David Bowie é um conceito”. Texto editado por Mários Lopes
xvi B.5: Bruce Springsteen: “Bob Dylan é certamente um poeta" Numa apresentação em Londres da autobiografia Born no Run, Springsteen elogiou o Nobel e criticou violentamente Trump. PÚBLICO 19 de Outubro de 2016, 9:52 Partilhar notícia – 153 PARTILHAS Springsteen mostrou-se feliz pela atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan GARY CAMERON/REUTERS
xvii Bruce Springsteen, em Londres numa apresentação da sua autobiografia Born to Run à imprensa europeia, juntiu-se à lista dos que se mostram felizes pela atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. “Like a Rolling Stone foi uma das primeiras canções que ouvi que senti que mostrava uma versão real do meu país”, afirmou (citamos o diário britânico The Guardian), acrescentando que o trabalho de Dylan vai perdurar e continuar a soar alto, enquanto o de muitos músicos será esquecido. Comparando o seu trabalho com o de Dylan, comentou: “Bob é certamente um poeta, eu sou um operário que trabalha no duro” No evento, que decorreu no Institute of Contemporary Arts de Londres, Springsteen voltou a atacar Donald Trump. O Boss, que já tinha dito que Trump “é um idiota”, afirmou que “é terrível o que está a acontecer nos Estados Unidos” e que o candidato republicano “está a minar toda a tradição democrática”. Quando questionado sobre a atracção que Trump exerce, respondeu que “ninguém a consegue explicar”. Springsteen, apoiante de Barack Obama nas eleições de 2008 e 2012, já declarara numa entrevista à Rolling Stone que Hillary Clinton “seria uma presidente muito boa”. Sobre a autobiografia, Springsteen destacou que o mais difícil foi escrever a secção final. “Mostrei aos meus filhos o que escrevi sobre eles. Discuti com a Patti [Scialfa, a mulher] sobre o final do livro e mesmo sem nos sentirmos totalmente confortáveis com algumas coisas, ela deu-me muito espaço para explorar”. Contou ainda como a difícil relação com o pai o afectou quando ele próprio teve filhos. “O mais complicado foi não ter um modelo para saber o que é ser um bom pai”, confessou, contando ainda que foi difícil habituar-se a gerir o tempo. “Tenho uma boa relação com os meus filhos. Não posso dizer que tenha sido perfeito, mas fiz o que pude”. Ao falar da depressão que o afecta periodicamente, Springsteen disse que dar concertos o ajuda muito. Depois de três horas a tocar, está
xviii “demasiado cansado para estar deprimido”, já que “para estar deprimido é preciso alguma energia”.
xix B.6: Capa a cores em Madrid Imagens de soldados americanos e ingleses da Segunda Guerra Mundial, cenas do pós-guerra, momentos de ócio e da vida quotidiana, fotografias de figuras públicas ou pessoas em cafés: Capa en Color no Círculo de Belas Artes. PÚBLICO 1 de Novembro de 2016, 7:33 Partilhar notícia - 5 PARTILHAS
xx Até 15 de Janeiro do próximo ano vão estar expostas em Madrid fotografias a cores de Robert Capa. O trabalho do fotojornalista estará no Círculo de Belas Artes da capital espanhola, na exposição Capa en Color, inaugurada dia 20 deste mês. Capa, fotógrafo de guerra nascido em 1913 na Hungria, é conhecido pelas fotografias da Guerra Civil Espanhola. Esteve presente em algumas das mais importantes frentes de batalha, como a Segunda Guerra Mundial, tendo fotografado o desembarque dos aliados na Normandia. Morreu em 1954, ao pisar uma mina durante a guerra da Indochina. Nesse dia, levava duas máquinas consigo: uma tinha um filme a preto e branco, a outra a cores. As suas fotografias mais conhecidas, como o instantâneo da morte de um miliciano perto de Córdova, Espanha, são a preto e branco. Porém, fotografava a cores desde 1941. Utilizava a cor para complementar a fotografia, mas muitas dessas imagens não foram publicadas dado o tempo necessário para as revelar, muito mais do que aquele que implica o preto e branco. As primeiras imagens a cor de Capa mostram soldados americanos e ingleses da Segunda Guerra Mundial, mas são cenas do pós-guerra que figuram em algumas das suas fotografias a cor mais famosas. São momentos de ócio e da vida quotidiana, bem como fotografias de figuras públicas ou pessoas em cafés, num ponto de inflexão em relação ao seu trabalho mais conhecido. A exposição que chega agora a Madrid já tinha estado em 2013 em Nova Iorque, e em 2015 chegara a Budapeste, ao Robert Capa Center, com um espólio de mais de 4000 negativos. Em Madrid incluirá mais de 150 imagens nunca impressas ou expostas em Espanha. É uma exposição organizada pelo próprio Círculo de Belas Artes de Madrid e pelo International Center of Photography e tem como curadora Cynthia Young.
xxi O Círculo de Belas Artes terá ainda uma série de actividades relacionadas com a exposição, sendo a primeira uma conferência sobre reportagem de guerra com o fotógrafo Emilio Morenatti, a 14 de Novembro.
xxii B.7: Um galo de Barcelos gigante e tecnológico à beira do Tejo De dia 6 de Novembro até ao final do mês o Pop Galo de Joana Vasconcelos vai estar na Ribeira das Naus. ADRIANA DIAS 2 de Novembro de 2016, 19:27 Partilhar notícia 1320 - PARTILHAS Um galo de Barcelos de 10 metros que pesa quase quatro toneladas, composto por 17.000 azulejos e 16.000 leds. É assim a nova obra de Joana Vasconcelos, Pop Galo, inaugurada no próximo domingo e que estará na Ribeira das Naus, em Lisboa até ao fim de Novembro, no
xxiii contexto do Web Summit Lisboa. “Tentei pegar num ícone tradicional e reposicioná-lo, dando-lhe uma nova perspectiva para o futuro”, disse Joana Vasconcelos ao PÚBLICO no final das montagens de Pop Galo. Joana Vasconcelos já queria abordar o galo de Barcelos por ser um ícone da cultura portuguesa. “Será que a tradição ainda está presente? Será que as pessoas ainda sabem o que é o galo de Barcelos ou é apenas um objecto da cultura turística?”, questionou-se ao começar o projecto. Ao pesquisar sobre a sua história e simbologia, pensou que “ainda faz sentido existir hoje”. Decidiu revisitá-lo, cruzando elementos tradicionais e tecnológicos. Pop Galo tem esse nome pela relação com a pop art, pelas cores evidenciadas pelas luzes led e pela relação com a tecnologia. “É o revisitar da cultura pop. A mistura de materiais inusitados que conjugados dão uma espécie de nova versão do nosso ambiente. Aqui, o que misturo são leds com azulejo, e são os leds que dão um lado tecnológico a este galo. E é a tecnologia que permite uma maior interacção com o público”. A tecnologia é um dos aspectos fulcrais da obra, que terá ainda música, com composições de Jonas Runa. “É um galo tradicional durante o dia, com azulejos e que canta, e à noite é um galo do futuro, com luz e música”, afirma a artista, cuja nova obra terá também um site interactivo. Quem se aproxima do Pop Galo com um telemóvel acede a toda a informação no site através de um código QR. Ao longo do tempo, vão sendo acrescentadas ao site as fotografias tiradas por quem vê a obra e informação sobre a simbologia do galo na cultura portuguesa e em todo o mundo. Para Joana Vasconcelos, é uma obra dinâmica, pela informação que vai ser acrescentada e pelas viagens que fará pelo mundo pois é desmontável, divisível em oito partes, o que lhe confere
xxiv mobilidade. “É uma obra que se vai construindo ao longo das viagens que faz e das pessoas que vão passando por ela”. Joana Vasconcelos não consegue dizer qual o custo, porque “ainda não se conseguiu contabilizar tudo”, mas afirma ter sido elevado e destaca o apoio de patrocinadores e apoiantes, como o Azeite Gallo, sem os quais “não teria sido possível”. Um dos maiores custos está no transporte da peça. Pop Galo deveria ter sido inaugurado em 2014, no Brasil, nas celebrações dos 450 anos da fundação da cidade do Rio de Janeiro, para as quais tinha sido idealizado, mas a situação política do outro lado do Atlântico acabou por impedir que tal acontecesse. A obra irá em Janeiro à China, a Pequim, para comemorar o Ano Chinês do Galo, e Joana Vasconcelos espera que a peça viaje por mais lugares em todo o mundo. “O desígnio do Pop Galo é fazer um paralelismo entre a simbologia do galo na cultura portuguesa e noutras culturas”, afirma Joana Vasconcelos. “É um galo transversal, multicultural”, completa. Texto editado por Ana Fernandes
xxxi Livros Esquecidos, que dá nome à tetralogia. Une-os ainda outro aspecto: em cada história há um livro dentro do próprio livro. A ideia do Cemitério dos Livros Esquecidos surgiu quando o escritor reflectia em Los Angeles sobre a quantidade de coisas que todos os dias se perdiam ou esqueciam. Daí surgiu a imagem de uma biblioteca especial, destinada a guardar os exemplares de tantos livros abandonados pela cidade mas cativos na alma dos seus leitores. Uma imagem que neste livro é explorada mais a fundo, ao longo das mais de 800 páginas que reúnem as personagens de toda a saga, de David Martín a Julián Carax, e ligam finalmente as pontas soltas dos diversos enigmas espalhados pelos anteriores volumes. Em O Labirinto dos Espíritos, os leitores voltarão a encontrar Daniel Sempere e Fermín Romero de Torres, protagonistas da saga. Daniel tenta resolver o mistério da morte da mãe, mas as respostas só serão encontradas com o aparecimento de uma nova personagem que terá um papel determinante na história: Alicia Gris, sobrevivente dos bombardeamentos da Guerra Civil Espanhola, que comanda uma investigação sobre o ministro Mauricio Valls, agora desaparecido. No entanto, descobrir os segredos da história da família Sempere terá um preço a pagar. Zafón, em entrevistas à imprensa espanhola, destacou a nova personagem Alicia Gris como uma das suas criações favoritas, inspirada na Alice de Lewis Carrol. É, diz o autor, uma Alicia “na Barcelona das maravilhas, que afinal é uma Barcelona de trevas”, a Barcelona sob o regime franquista, da miséria, da censura e da fome. No entanto, se há uma personagem emblemática de todos os livros, arriscamo-nos a dizer que é Fermín, o mendigo que é “a voz da consciência” e a personagem picaresca da saga. É de tal forma importante que teve direito a uma carta de despedida de Zafón, publicada no jornal espanhol El País. Zafón diz a Fermín que ainda se lembra do dia "em que o encontrou a caminho do Cemitério dos Livros
xxxii Esquecidos" e relembra a sua capacidade de roubar a cena ao protagonista Daniel Sempere. Despede-se dizendo que chegou o grande final e que a aventura literária “valeu a pena”. Há personagens que nunca abandonam os seus autores. Carlos Ruiz Zafón em 2012, de passagem por Lisboa DANIEL ROCHA
xxxiii A máquina de bestsellers Zafón é uma máquina de fazer bestsellers. Só em Espanha, O Labirinto dos Espíritos teve uma primeira edição de 700 mil exemplares, e isto apenas em espanhol, já que se lançou simultaneamente uma edição em catalão com uma tiragem de 50 mil exemplares. Serão milhares de edições um pouco pelo mundo inteiro. Em Portugal, outro país rendido aos livros de Zafón, foi A Sombra do Vento, actualmente incluído no Plano Nacional de Leitura, o volume que mais vendeu até ao momento. Uma das principais razões do sucesso de Zafón é a forma como escreve. Mesmo nos livros juvenis com que começou a carreira (O Príncipe da Neblina, O Palácio da Meia-Noite, As Luzes de Setembro e Marina), já se notavam, além da intriga de aventura, elementos fantásticos e um certo tom de mistério e melancolia que caracteriza O Cemitério dos Livros Perdidos. Mas também a convergência entre realidade e ficção, os diálogos rápidos e intensos, e as diferentes vozes narrativas, com histórias dentro da história principal. Surpreendentemente, apesar dos aspectos cinematográficos da escrita de Zafón e do sucesso internacional que tem, nenhum livro seu foi transformado em filme. “Já mo propuseram várias vezes. Mas está bem que, por uma vez, um livro fique como está, sem uma adaptação cinematográfica”, afirmou o autor na Feira do Livro de Guadalajara, México, em 2004. Este mês, na apresentação à comunicação social espanhola do quarto livro, sublinhou o que dissera anteriormente, garantindo que “nunca" vai haver um filme de O Cemitério dos Livros Esquecidos. No entanto, já houve uma “adaptação musical” do primeiro livro, para o qual Zafón compôs uma série de temas ao piano para diferentes personagens e situações, já que, diz frequentemente, compor o ajuda a escrever. A banda sonora de Zafón foi apresentada no Palau de la Música, em Barcelona, em 2014.
xxxiv Como seria de esperar, o sucesso mundial do escritor também vive online. No Twitter e no Instagram há milhões de publicações com frases ou referências ao autor. No YouTube, são mais de 57 mil os vídeos sobre Zafón e as suas obras. E Zafón é ainda um dos 25 nomes mais associados ao hashtag #livro na Internet e nas redes sociais por todo o mundo. Uma cidade para ser lida Toda a saga de O Cemitério dos Livros Esquecidos tem lugar em Barcelona. Apesar de viver actualmente em Los Angeles, nos Estados Unidos, e de aí ter começado a escrever a tetralogia, foi Barcelona a cidade escolhida para os mistérios da saga. Ainda que em O Labirinto dos Espíritos haja momentos em Madrid e em S’Agaró (Costa Brava), é Barcelona que continua a ser o espaço principal da obra. Uma Barcelona que não é a Barcelona dos turistas, mas uma cidade misteriosa, entre o real e o fantástico, quase uma personagem também, com alma própria. A presença dominadora da cidade na tetralogia e a carga mística que Zafón nela inscreveu atraem visitantes curiosos por percorrer a mesma Barcelona das personagens dos quatro romances, havendo já visitas guiadas que são verdadeiros roteiros literários com base nas obras de Zafón, percorrendo maioritariamente o Bairro Gótico, no centro da cidade. E existe mesmo um Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón, livro de Sergi Doria baseado em Marina, o último dos livros juvenis de Zafón, sem ligação com a tetralogia, e nos dois primeiros volumes de O Cemitério dos Livros Esquecidos. Não pretende ser um guia turístico, mas sim um passeio pela cidade através dos livros de Zafón. No primeiro livro da saga, lia-se pela voz de Fermín que Barcelona era uma cidade feiticeira, “que nos rouba a alma”. Essa ideia continua pelos volumes seguintes; a frase chega mesmo a ser repetida neste livro que encerra a tetralogia. Como se fosse o único lugar em que aquela
xxxv aventura pudesse acontecer. Assim parece ser com Zafón. Por mais longe que esteja de Barcelona, é aquele o lugar da escrita. E o lugar que ficará para sempre na imaginação dos leitores. Texto editado por Inês Nadais
xxxvi B.10: A nova rádio de Luís Montez já está no ar A SBSR.fm, associada ao festival Super Bock Super Rock, vai dedicar especial atenção a novos músicos portugueses. ADRIANA DIAS 29 de Novembro de 2016, 18:05 Partilhar notícia - 9 PARTILHAS A rádio SBSR vai estar associada ao festival Super Bock Super Rock. JOSÉ SARMENTO MATOS
xxxvii A nova rádio do promotor de espectáculos Luís Montez, a SBSR.fm, está no ar a partir desta terça-feira. A rádio vai ouvir-se em Lisboa e no Porto, e tem ainda um site para que se possa ouvir “por todo o mundo”. O objectivo principal da SBSR.fm, dizem os promotores, é divulgar nova música, apostando em artistas nacionais e internacionais, mas com atenção especial à nova música portuguesa. Situada nas instalações da anterior rádio Nostalgia, em Lisboa, a SBSR.fm estará, como o próprio nome indica, associada ao festival Super Bock Super Rock. Tendo em conta que a Super Bock é uma marca de cerveja da UNICER, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, no parecer emitido a 22 de Novembro, autorizou a modificação do projecto e a alteração da denominação de Rádio Nostalgia para Rádio SBSR na condição de que a venda de espaço publicitário àquela empresa não exceda os 50% do total de tempo de emissão reservado à publicidade. E lembrou que a publicidade a bebidas alcoólicas está proibida na rádio entre as 7h e as 22h30. Para Luís Montez, o festival, que existe há 22 anos, precisava de uma boa forma de promoção. “Como o festival tem nomes conhecidos e outros menos conhecidos, havia a necessidade de uma plataforma no Grande Porto e na Grande Lisboa para divulgar música”, diz ao PÚBLICO. Para o empresário, os “profissionais apaixonados e profundos conhecedores de música e os animadores especiais” são a principal marca que diferencia a nova rádio e serão essenciais para o seu sucesso. Montez destaca ainda a importância que a rádio dará a novos artistas, especialmente em Portugal. “Posso garantir que passaremos pelo menos três músicas novas por semana”, acrescenta. A estação de rádio contará com diferentes programas, em que se poderão ouvir entrevistas, sugestões musicais e playlists diversificadas, entre outros.
xxxviii A apresentação à imprensa das instalações da nova rádio terminou com um showcase de Tomás Wallenstein, dos Capitão Fausto, na entrada do edifício. Mas este não foi o único músico a passar pela rua Viriato esta terça-feira. Ao longo do dia, sucederam-se showcases em estúdio de vários artistas, entre os quais Alek Rein, Gloden Slumbers, Samuel Úria e Minta & The Brook Trout. Texto editado por Inês Nadais
xxxix Anexo C: Entrevistas a jornalistas do PÚBLICO C.1: ENTREVISTA A VÍTOR BELANCIANO (18/1/2017) Há quanto tempo estás no PÚBLICO? Vai fazer 20 anos no próximo ano. E sempre estiveste na secção de cultura a fazer música? Sim. Nos primeiros anos estava muito ligado a um suplemento que o jornal tinha na altura, que era o Sons, que era só música, realmente. Passados uns anos, o suplemento desapareceu e surgiu um outro suplemento que misturava as diferentes áreas da cultura, que era o Artes e Ócios, depois o Y, e finalmente este Ípsilon. Sendo que ao mesmo tempo que escrevia sobre música, que era a minha área principal, também abordava outros temas. Sempre escrevi crónicas, também abordava questões de tendências, comportamentos, até de política. Mas sim, sempre ligado à cultura. Nesse caso, tens visto, ao longo destes anos, muitas alterações no espaço dado à música no jornal? Sim. Como te dizia, antes havia o Sons, um suplementa só de música, com entrevistas, artigos… E antes tinha havido um suplemento que penso que se chamava Pop Rock. Estamos a falar da segunda metade dos anos 90, quando acabou deve ter sido nos primeiros anos de 2000. Quando o Ípsilon foi implementado, a música perdeu espaço, porque tinha que coabitar com outras áreas. E sinto que sim, que evidentemente ao longo dos anos, não só a música, mas outras áreas da cultura, foram perdendo espaço no jornal. Acho que não é uma tendência que não é do interior aqui do PÚBLICO, é uma tendência genérica. Essencialmente no espaço de crítica, penso, já que continua a haver muitos textos de apresentação, reportagens… O lado mais
xl crítico, seja crítica de discos ou de concertos, por exemplo, nota-se imenso que isso se perdeu, tendo em conta que no jornal PÚBLICO sempre houve essa relação entre os suplementos e o diário. Portanto, acho que as duas coisas não são desconectadas. Ou seja, por exemplo, a crítica de concertos aparece sempre no diário. Ao longo dos anos isso também se foi transformando, numa altura em que no diário tudo o que tinha a ver com uma lógica de concertos semanais, seja entrevistas ou promoção de concertos, transitava imediatamente para as páginas de cultura. Hoje em dia, há um lado mais ambíguo, mais misto, nessa relação. Parece-te que essa tendência de diminuição da atenção à música no PÚBLICO se verifica noutros jornais portugueses? Acho que em Portugal e em todo o mundo, na verdade. Tendo em conta que Portugal é um mercado com especificidades, como é evidente que todos têm as suas singularidades, enquanto em mercados europeus como França, Espanha, sem falar de um caso mais singular como é Inglaterra, existem ou existiram imensas publicações só dedicadas à música – nos últimos anos as coisas foram-se transformando muito com a própria indústria da música e a chegada da internetportanto de alguma forma era como se nesses países não fizesse tanto sentido os jornais generalistas terem tanto espaço dedicado à música, no caso de Portugal durante muitos anos havia um jornal dedicado à música, o Blitz, em que cheguei a trabalhar antes de vir para aqui, mas depois esse jornal desapareceu, portanto faz sentido que os jornais generalistas dêem esse espaço à música, porque realmente não havia publicações que apontassem para aí. O que é que no PÚBLICO define que um determinado artista mereça ou não ser falado? Há dois vectores principais, na minha visão. Um é a sua relevância artística. Claro que, quando falamos de relevância artística, estamos a falar de um quadro sempre subjectivo, de uma avaliação subjectiva, mas para mim é esse o elemento