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A prioridade da saúde: editorial

Sakellarides, Constantino

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3 VOL. 18, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2000 Com uma clareza sem precedentes na história da democracia portuguesa, o programa de governo para os próximos quatro anos, aprovado nas vésperas de 2000, adopta a saúde como a sua principal prioridade social. Não faz sentido simplesmente esperar que o governo, ele só, execute a «prioridade da saúde». Esta deve ser antes interpretada como um desafio ao conjunto da sociedade portuguesa. É um desafio para transcender velhos hábitos e desenvolver uma cultura de análise serena, objectiva e partilhada das implicações inerentes à reforma das nossas instituições de saúde, como contraponto à falta de comunicação e à pequena-grande maledicência que mina a relação entre as pessoas e derrota a coesão necessária a qualquer mudança significativa. É um desafio para recriar um serviço nacional de saúde próprio das sociedades pluralistas deste virar de século mas fiel aos princípios éticos e aos objectivos sociais que estão na sua origem. O século que agora termina começou por ser o século da física e das novas fontes de energia e acabou por ser o século da biologia, da informação e da comunicação. Na transição do milénio o papel da afectividade não só na «comunicação» e na «decisão», mas também na qualidade das nossas vidas, começa a ser visto numa outra perspectiva. Há cerca de dez anos David Owen, conhecido político inglês, médico de profissão, escreveu um pequeno livro sobre o SNS inglês. O título chamou-me particularmente a atenção — «Our NHS» (O nosso SNS). Esta é a nossa reforma da saúde, ou não será. Dizem-me, com frequência, que este é o tempo do indivíduo e dos seus interesses mais próximos e objectivos. Seria naturalmente distracção excessiva não editorial●●●● ●●●● A prioridade da saúde 4REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA ●●●● editorial ●●●● reconhecer a importância do tangível, das opções individuais e dos modos de estar da «pós-modernidade». E, no entanto, existe o português por Timor, o europeu pelos valores da democracia, o cidadão do mundo por uma globalização não exclusivamente financeira e por um planeta ecologicamente sustentável. Julgo que é razoável esperar e querer o «nosso SNS». No tempo da «prioridade da saúde» o ensino e a investigação em saúde assumem uma importância particularmente grande. O desafio aqui não está em fazer mais cursos e iniciar mais projectos de investigação. Está antes na capacidade de explorar novas formas de associar o conhecimento à comunicação e à afectividade. Esta é uma aprendizagem para o futuro.