Te esa Velasquez de Aze edo e Sil a
DROGA E ESTIGMA:
UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE CONSUMIDORES
PROBLEMÁTICOS E NÃO PROBLEMÁTICOS
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
MESTRADO INTEGRADO EM PSICOLOGIA
2012
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Uni e sidade do Po o
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
DROGA E ESTIGMA:
UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS E
NÃO PROBLEMÁTICOS
Te esa Velasquez de Aze edo e Sil a
Junho 2012
Disse ação ap esen ada no Mes ado In eg ado de
Psicologia, Faculdade de Psicologia e de Ciências da
Educação da Uni e sidade do Po o, o ien ada pelo P o esso
Dou o José Luís Fe nandes (F.P.C.E.U.P.).
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Ag adecimen os
Em p imei o luga gos a ia de ag adece ao P o esso Luís Fe nandes pelo
acompanhamen o e inspi ação ao longo des es dois anos. Pelos ensinamen os aliosos,
pelo con í io nas euniões de seminá io e, sob e udo, pelo oque humano que semp e
ansmi iu aos con eúdos lecionados. Sem o seu apoio es e abalho não se ia possí el, nem
o meu gos o pessoal pela(s) emá ica(s) es udadas. A sua pala a se á semp e um bem
p ecioso pa a mim.
Aos meus pais e à minha i mã Ana, po odo o apoio e ca inho que semp e me
de am, e sob e udo po me apoia em nos momen os menos bons. Po se em a minha ped a
basila e o meu po o segu o desde semp e. À minha a ó Helena, po e sido
e dadei amen e uma segunda mãe pa a mim e po se uma pa e ão g ande da pessoa que
sou hoje.
À Pa ícia, minha p ima – e colega! – po se es mais do que p ima: és p a icamen e
uma i mã mais elha pa a mim. Ob igada po odo o apoio nes e meu pe cu so académico,
po odos os conselhos, pelas opo unidades que me des e a conhece e, acima de udo, pela
amizade e ca inho.
À Diana, minha “i mã”. Ob igada po es a es semp e lá, desde que jogá amos à
macaca na p é-p imá ia. Não há pala as que cheguem pa a ag adece a ua amizade e o
apoio que semp e me des e. À Ana, po odos os dispa a es pa ilhados e po e a inc í el
capacidade de me aze semp e i nos pio es momen os.
Às amigas e amigos que iz na aculdade, especialmen e à Helena e ao Hen ique –
ob igada pelos isos, pelos conselhos, pela paciência e pelo omb o amigo nos momen os
mais c í icos.
À equipa do CRI Ma osinhos, em pa icula à minha o ien ado a, D .ª Sónia
Rod igues.
À equipa do IDT, em pa icula à D .ª C is ina Ma ins, D .ª And eia Ribei o, D .ª
Cláudia Peixo o, D . Fe nando Ribei o e es an es écnicos da equipa de edução de iscos
em meio académico – oi um o gulho pa ilha con osco a expe iência de in e enção na
Queima das Fi as, ano após ano. Ob igada po udo o que me ensina am e, sob e udo, pelo
con í io e boa disposição.
Po úl imo, mas não em úl imo luga , a odos os que acei a am se en e is ados po
mim e me cede am uma pa e de si – sem a ossa colabo ação es e abalho nunca e ia
sido possí el. Fica ão pa a semp e na minha memó ia.
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Resumo
O p esen e es udo e e como obje i o es uda a elação en e d oga e es igma
(con o me de inido po Go man, 1988), mais conc e amen e a i ência des e es igma po
pa e de consumido es de d ogas. Pa a o e ei o, o am conduzidas en e is as
semies u u adas jun o de dois g upos de consumido es de subs âncias ilíci as: um g upo de
consumido es p oblemá icos e um g upo de consumido es não p oblemá icos. En e os
p incipais esul ados ob idos con am-se: a incompa ibilidade do es a u o de consumido e a
inse ção no me cado de abalho; o desp es ígio, pa a si e pa a en es signi ica i os – po
ex., a amília – deco en e do consumo de d ogas; a ime são numa subcul u a pe cecionada
como deg adan e, no caso dos p oblemá icos; a associação do consumo de uma d oga
especí ica – a he oína – a consequências mais nega i as pa a o consumido ; a pe ceção de
mais e o nos posi i os deco en es do uso de d ogas, po pa e dos consumido es não
p oblemá icos; o emp ego de écnicas especí icas de ges ão da iden idade de e io ada,
nomeadamen e a di isão do mundo social, po pa e de odos os pa icipan es; a
es igma ização de de e minados aspe os isuais especí icos, na apa ência pessoal; a al a de
con iança nas o ças de au o idade, especialmen e no caso dos consumido es não
p oblemá icos.
Pala as-cha e: D oga, Consumo de d ogas, Es igma, Go man, Exclusão, Consumo
p oblemá ico, Consumo não p oblemá ico.
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Abs ac
The p esen s udy was aimed o s udy he ela ionship be ween d ug consump ion
and s igma (as de ined by Go man, 1988), mo e speci ically he expe ience o his s igma
by d ug use s. In o de o do so, semi s uc u ed in e iews we e conduc ed wi h wo
g oups: one g oup o p oblema ic d ug use s and one g oup o non p oblema ic d ug use s.
The main esul s include: he incompa ibili y be ween he d ug use ’s s a us and his/he s
inse ion in he labo ma ke ; he disc edi o he indi idual and signi ican o he s – such as
ela i es – due o d ug consump ion; he imme sion, among p oblema ic d ug use s, in a
subcul u e pe cei ed as deg ading; he associa ion o he oin consump ion o a mo e
nega i e ou come o he use ; he pe cep ion o a mo e posi i e ou come ega ding d ug
consump ion among non p oblema ic d ug use s; he employmen o speci ic echniques o
manage he spoiled iden i y, namely di iding he social wo ld, by e e y pa icipan in his
s udy; he s igma iza ion o speci ic isual elemen s in he indi idual’s pe sonal
appea ance; he lack o con idence in au ho i y igu es, especially among non p oblema ic
d ug use s.
Key wo ds: D ug, D ug use, S igma, Go man, Exclusion, P oblema ic d ug use, Non
p oblema ic d ug use.
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Résumé
La p ésen e é ude a l’objec i d´é udie le appo en e d ogue e s igma isa ion
sociale (selon Go man, 1988), plus conc è emen l’expé ience de ce e s igma isa ion
subie pa les consomma eu s de d ogues. Pou ça, des in e iews semi s uc u és dans deux
g oupes de consomma eu s de subs ances illici es on é é éalisées : un g oupe de
consomma eu s p obléma ique e un g oupe de consomma eu s non p obléma ique. Pa mi
les ésul a s ob enus, on comp e : l’incompa ibili é du s a u de consomma eu e l’inse ion
dans le ma ché de a ail ; le disc édi pou soi-même e pou ses ê es signi ian s – pa
exemple, la amille – qui ésul e de la consomma ion de d ogues; l’imme sion dans une
sous-cul u e pe çu comme dég adan e, cas des p obléma iques ; l’associa ion de la
consomma ion d’une d ogue spéci ique – l’hé oïne – à des conséquences plus néga i es
pou le consomma eu ; la pe cep ion de plus endemen s posi i s de l’usage de d ogues
pa les consomma eu s non p obléma iques ; l’emploi de echniques pa iculiè es de
ges ion d’iden i é dé é io ée, à sa oi la di ision du monde social chez ses ac eu s ; la
s igma isa ion de ce ains aspec s isuels spéci iques dans l’appa ence pe sonnel ; la
manque de con iance aux o ces d’au o i é, su ou pa mi les consomma eu s non
p obléma iques .
Mo s-clés : D ogue, Consomma ion de d ogues, S igma isa ion, Go man, Exclusion,
Consomma ion p obléma ique, Consomma ion non p obléma ique.
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Índice
1. In odução
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1.1) Enquad amen o eó ico
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1.1.1) As d ogas ao longo do empo
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1.1.2) O consumo de d ogas em Po ugal
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1.1.3) A cons ução do es igma
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1.1.4) Um es igma pa icula : o caso da he oína
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1.1.5) A d oga como elemen o p odu o de es igma
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1.1.6) Temá icas a explo a
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2. Mé odo
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2.1) Linhas discu si as e adições me odológicas
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2.2) Obje o e obje i os
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2.3) Amos a
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2.4) A en e is a
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3. Resul ados
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3.1) Ca ac e ização dos pa icipan es
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3.2) Expe iência de consumo
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3.3) Consequências do consumo
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3.4) Es igma
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3.5) Manipulação da iden idade de e io ada
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4. Discussão
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5. Conside ações inais
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6. Re e ências bibliog á icas
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Anexos
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1. In odução
INSCRIÇÃO
Eu i a luz em um país pe dido.
A minha alma é lânguida e ine me.
Oh! Quem pudesse desliza sem uído!
No chão sumi -se, como az um e me...
(Camilo Pessanha)
Camilo Pessanha, nascido em 1867, é conside ado o expoen e máximo do
simbolismo em língua po uguesa, bem como an ecipado do p incípio mode nis a da
agmen ação. Pa a além da sua ca ei a li e á ia e p o issional – oi p o esso e ei o de
um liceu em Macau – Pessanha icou ambém conhecido pelos seus consumos de ópio.
Al es (2001) ap esen a-nos uma sín ese de á ias e e ências, p esen es na ob a do
poe a, à u ilização des a subs ância e à elação que es a em com a imagem que o au o
ansmi e de si. Pessanha su ge-nos, po ezes, como um sonhado em busca de um ideal,
sendo a d oga um ins umen o de acesso ao seu mundo de sonho – o ópio se ia a cha e de
acesso a um mundo men al, ab indo po as à deslocação, à iagem; ou as ezes, como
uma í ima – i e inse ido num mundo que o ejei a, su gindo o ópio como seu sal ado ,
possibili ado da e asão des e so imen o; po úl imo, o poe a ap esen a-se como um
espí i o aco e doen e, sendo o ópio nes e caso um ins umen o de des uição, a quem a
sua alma “lânguida e ine e” (op. ci .) eco e pa a se aniquila len amen e.
As desc ições da imagem social de Pessanha apon am-no como uma igu a
omân ica, de “espí i o belo” (Al es, 2001, p.79) que ap ecia a o deba e de ideias,
sob e udo sob a in luência do ópio, conside ando-o os seus amigos enquan o um sonhado .
Po ou o lado, aqueles que menos simpa iza am com o poe a desc e iam-no como
“in eligen e e excên ico”, bem como possuido de uma “ aidade incomensu á el”. Em
nenhuma desc ição – que da pa e dos seus amigos, que da dos seus inimigos – os
consumos de ópio su gem como um a o ele an e ou dep ecia i o: a sua dependência de
ópio inha mui o pouco peso na sua imagem pública, não lhe sendo associado qualque
juízo dep ecia i o. A na u alidade com que o consumo de ópio é acei e no caso de Camilo
Pessanha só é explicá el à luz dos cos umes da sociedade onde se encon a a inse ido:
Pessanha i eu g ande pa e da sua ida adul a em Macau, sendo o consumo de ópio na
China dos inais do séc. XIX uma p á ica mais que gene alizada (Al es, 2001).
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O caso de Camilo Pessanha, bem como de ou as pe sonalidades li e á ias – como,
po exemplo, os au o ela os de De Quincey, Baudelai e, Balzac, no séc. XIX, ou de
Huxley, Junge e Bu oughs mais ecen emen e, ace ca do consumo de subs âncias como o
ópio, o haxixe, o ca é ou mesmo o é e (Tinoco, 2002) – em da supo e à noção de que a
u ilização de d ogas não é um enómeno das úl imas décadas, ou ci cunsc i o a um es a o
especí ico da nossa sociedade.
De ac o, al como Espinosa (1989) a i ma, a p opósi o do consumo de subs âncias
psicoa i as, i emos (no passado e a ualmen e) e, mui o p o a elmen e, i e emos no
u u o num mundo eple o de subs âncias adic i as, na u ais ou a i iciais. O consumo de
subs âncias psicoa i as não é, con a iamen e à ideia a ual de que o consumo de d ogas é
um “p oblema” da con empo aneidade, algo de no o – pelo con á io, é um enómeno com
o igens emo as, milena es.
O obje o de es udo do p esen e abalho é o enómeno das d ogas; mais
conc e amen e, o obje i o se á ap o unda quais os p ocessos de es igma ização associados
ao seu consumo. Assim, o obje o de es udo se á desen ol ido endo em conside ação as
o igens his ó icas e sociais da p oblema ização da u ilização de d ogas, ou a cons ução do
es igma a es as associado, p ocu ando analisa as implicações que es e es igma em na
o ma como as d ogas e os seus usos são enca ados a ualmen e.
1.1) Enquad amen o eó ico
1.1.1) As d ogas ao longo do empo
U iliza -se-á, ao longo do p esen e abalho, a de inição de “d oga” p opos a po
Escoho ado (1996), baseada na de inição de Hipóc a es e Galeno: uma d oga, psicoa i a ou
não, é uma subs ância que, em ez de “se encida” pelo co po (po ou as pala as,
assimilada como um simples nu ien e), é capaz de o “ ence ”, p o ocando al e ações
o gânicas, anímicas ou ambas.
Usos adicionais
De aco do com Escoho ado (1996), os usos de d ogas da am de há milha es de anos
a ás. Nas cul u as de caçado es- ecolec o es, cujas c enças eligiosas se ca ac e iza am
pelo poli eísmo, as p imei as o mas de comunhão com o sag ado (como, na cul u a c is ã,
a hós ia) o am ei as a a és de subs âncias psicoa i as, como o peyo e, o inho ou ce os
unguen os. Po es a al u a, es a, medicina, magia e eligião não e am dimensões
di e enciadas, mas an es um odo, e as p á icas e e en es a es e odo en ol iam, na maio
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se incluem os ícios, como a oxicodependência e ou as “paixões i ânicas ou não
na u ais” (Go man, 1988, p.14) e os es igmas ibais e de aça, nação e eligião. A o ma
como a sociedade “no mal” lida com o es igma ca ac e iza-se po espos as bene olen es
(po ex., as ações sociais que p ocu am sua iza e melho a a condição do es igma izado –
no caso da d oga, a ede assis encial de apoio a oxicodependen es) e a ejeição, a exclusão
e o a as amen o: com base no es igma pe cebido, são ei as nume osas disc iminações,
ha endo uma endência gene alizada pa a in e i uma sé ie de impe eições a pa i da
impe eição o iginal. Com a c escen e media ização do enómeno d oga, a “pes e do séc.
XX”, o oxicodependen e o na-se, assim, alguém que ca ega um es igma (Fe nandes,
1998). Segundo Go man (1970, como ci ado em Fe nandes, 1998), a sua simples p esença
ab e caminho a um jogo social p odu o de exclusão.
Fe nandes e Tinoco (2002), a a és de um es udo que con ou com a pa icipação de
he oinómanos em p ocesso de a amen o, apon am á ias dimensões associadas ao
es igma da d oga, ou à manipulação da imagem de si em á ios aspe os da ida quo idiana
po pa e dos po ado es des e es igma. A ges ão da imagem de si é ulc al que nos
con ex os/es e as no ma i as, que nos des ian es: po um lado, em di e sos con ex os
sociais no ma i os o es a u o de consumido es em de se ocul ado; po ou o, a
es igma ização den o da subcul u a de pa es pode causa si uações de ac escida
di iculdade ao indi íduo – pode-lhe se , po exemplo, negado o acesso à subs ância, endo-
se es e ob igado a “anda aos il os” (inje a as sob as dos ou os consumido es). O ocul a
dos consumos – ou do es a u o de consumido – e i ica-se ambém no caso do consumo
“não p oblemá ico” de d ogas: o encob imen o dos consumos e ela-se como algo
essencial pa a p ese a a au oimagem pública, inclusi e pa a e i a julgamen os nega i os
a ní el social e amilia , sendo po is o ei o p e e encialmen e em locais esgua dados
(C uz e Machado, 2010). Quando a oxicodependência já não pode mais se escondida e o
es a u o de consumido se o na e iden e ( o nando-se o indi íduo um “desac edi ado”, na
de inição de Go man, 1988), exis e uma ges ão não da imagem de si, mas das ensões no
quo idiano (Fe nandes e Tinoco, 2002).
A ges ão da imagem pessoal jun o da amília ca ac e iza-se, inicialmen e, pelo
encob imen o dos signos do es igma – a a i ude de con enção, no seio amilia , é p o a
dis o (como seja esconde sinais de in oxicação pela subs ância den o de casa). O abalho
é ambém uma das es e as mais impo an es com que o consumido se e á que con on a :
há uma sé ie de escolhas pos as em ma cha ace a es a dimensão social – o abandono do
emp ego, a p ossecução de al e na i as des ian es (no caso de indi íduos com es as mais
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amilia izados) ou, no caso de indi íduos mais no ma i os, a in lexão dos consumos.
Inicialmen e, há uma conjugação dos consumos com a ida p o issional; es a coexis ência
acaba po se di icul ada pela ins abilidade que a ida de consumido aba ca. No caso das
edes de supo e social, ou g upos in o mais, há uma sucessão de associações e
a as amen os que podem e o ça a adesão ao consumo de d ogas du as: quando o
indi íduo se a as a dos seus amigos não consumido es em de imen o dos pa cei os
consumido es, ge almen e e i ica-se um maio en ol imen o com a ida de consumido
(Fe nandes e Tinoco, 2002).
Po úl imo, a elação do consumido com o sis ema ju ídico-penal e médico-sani á io
é abo dada: no caso do p imei o, as suas ações (como a ação da polícia e as idas a ibunal)
são inco po adas no es ilo de ida do consumido , uncionando como mais um obs áculo
ao consumo de subs âncias (e, a amen e, como p odu o da mudança de es ilo de ida); no
caso do segundo, es e é is o como uma o ma de en abiliza as suas a i idades – a ida a
consul as é uma o ma de ge i con li os amilia es, con inuando a consumi , e ambém
uma o ma de ge i a dependência a a és da ap endizagem de u ilização de di e en es
medicamen os (Fe nandes e Tinoco, 2002).
A isibilidade do es igma é ambém impo an e, sendo que a es igma ização se a i a
quando há uma isibilidade social do des io inicial (Romaní, 1999). Espinosa (1989)
chama-nos a a enção pa a as condições de isibilidade di e encial dos di e en es g upos
sociais: os g upos sociais mais abas ados possuem menos isibilidade, sendo os seus a os
di icilmen e iscalizá eis; os g upos sociais mais des a o ecidos, po sua ez, possuem
uma maio isibilidade, dado que i em p á ica ou li e almen e na ua – a sua condu a é,
assim, acilmen e e i icá el e iscalizá el.
1.1.4) Um es igma pa icula : o caso da he oína
Leia-se, a í ulo de cu iosidade, um a igo ecen e da e is a VICE com um nome
suges i o: “Um guia pa a senho as comp a em d ogas”. Ao longo des e a igo, a au o a ai
azendo uma desc ição de alhada das á ias d ogas – desde a cannabis aos cogumelos,
passando pela ce amina e pela cocaína – bem como do isual ce o pa a a po encial
consumido a se in eg a no meio onde es as são consumidas e c ia uma boa elação com
os deale s des as subs âncias. Chegando ao pa ág a o inal, dedicado à he oína, lê-se o
seguin e: “Não enho a mínima ideia. A he oína pa ece-me uma má ideia, a menos que e
quei as ma a ou se iolada e/ou assal ada po um deale . Tenho quase a ce eza que
ninguém en ega he oína ao domicílio po que en a em casa de alguém que a consome é
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demasiado pe igoso. […] Qualque al u a do dia é má pa a mo e , po isso peço
desculpa, mas não e posso ajuda mui o mais.” (Lee-Robe s, 2011). A ualmen e, a
he oína pa ece se ainda pos a numa ca ego ia dis in a das ou as d ogas, sendo-lhe
con e ida uma au a de maio pe igosidade e um maio es igma, nomeadamen e en e
consumido es de ou o ipo de subs âncias.
Gamella e Roldán (1999), eme endo pa a a popula ização do consumo de ecs asy
en e a população ju enil espanhola da década de 90, e e em-se a es a subs ância como a
d oga “an i he oína”: a pa i de 1987, al u a em que a “c ise da he oína” so e uma
al e ação endencial e passa de um p oblema essencialmen e sociopolí ico pa a um
p oblema de saúde pública (sob e udo com o c escimen o do núme o de in e ados com
VIH), os “yonquis” – dependen es de he oína – con e em-se num dos ipos sociais mais
dep eciados, inclusi amen e po ou os consumido es de ou os ipos de d ogas. Os jo ens
que, nes a época, começam a consumi ecs asy êm o seu discu so ma cado po uma
pe ceção benigna das “pas ilhas”, ace à de as ação p o ocada pela he oína: o ecs asy é
en ão is o como uma d oga limpa, di e ida, que não c ia dependência, dando ene gia e
i alidade, a o ecendo ainda a “ es a”, a sociabilidade e o e o ismo (Gamella e Roldán,
1999.). A he oína já não é uma d oga a a i a, popula ou “glamou osa” – mui o pelo
con á io, em “má ama” en e os jo ens (Gamella, 1996).
Num es udo ecen e, Calado e La ado (2010) dedica am-se à análise das
ep esen ações sociais da d oga e da oxicodependência jun o da população jo em p esen e
no Rock In Rio, em 2008. En e os esul ados ob idos, os au o es apon am que, pa a os
jo ens inqui idos, a ep esen ação de “consumido es de d ogas” e “ oxicodependen es” é
bas an e di e en e, sendo os úl imos enca ados de uma o ma mui o mais nega i a e
es igma izada do que os p imei os. O consumo de d ogas é cada ez mais associado a
p á icas de di e são, aos amigos e ao mundo das celeb idades, e i icando-se um
a as amen o ela i amen e à he oína enquan o subs ância a a i a e assumindo a cannabis
um papel cada ez mais cen al nas ep esen ações dos jo ens (Calado e La ado, 2010).
A he oína, po sua ez, pe manece associada a um submundo ma ginalizado e
desolado , os chamados “ninhos de pod idão” (Ribei o, 2004, p. 46), bem como à igu a do
oxicodependen e de ua, o “aga ado”, um indi íduo em si uação de g ande p eca iedade
mui as ezes ob igado à mendicidade, di agando em e ância pelos ecan os mais obscu os
da cidade, si uado en e a exclusão e a c iminalidade (Fe nandes, 2011).
Pode-se en ende o quo idiano junkie como um es ilo de ida – “Se -se aga ado é,
an es de mais, um modo de exis i ” (Fe nandes, 2011, p. 22). Es e modo de i e , ma cado
19
po uma misé ia p o unda, cons i ui um enómeno social que se oi ins alando len amen e:
o “p incípio da (des)igualdade de opo unidades”, como lhe chama Ribei o (2004), comum
a odas as classes, ans o ma um compo amen o des ian e – o consumo de d ogas, nes e
caso de he oína – numa o ma de se es a na ida, não se conseguindo mui as ezes exis i
de ou a o ma. Os indi íduos o nam-se ambém dependen es de expe iências, e de um
es ilo de ida, ul apassando a dependência a macológica (Lau ie, s/d, como ci ado em
Tinoco, 2005). Assim, pa a além da dependência biológica e psicológica su ge a
dependência ecossocial, na medida em que o indi íduo se ê dependen e de um “p oje o”
de ida que, en e ou as dimensões, passa po d oga -se e a anja d oga, a a és de uma
sé ie de o inas diá ias especí icas (Ribei o, 2004).
A c ise da he oína
Pa a se comp eende o es a u o p o undamen e es igma izado da he oína há que aze
m e ocesso dos p ocessos que acompanha am a di usão do seu consumo, a é ao pon o em
que es e se assumiu enquan o uma “c ise” de d oga. Toma -se-á como exemplo ilus a i o
des a e olução o caso espanhol, analisado po Gamella (1996).
Po c ise de d oga en ende-se uma ans o mação adical na o ma como ce as
d ogas são consumidas, dis ibuídas e concep ualizadas numa de e minada sociedade. Es e
ipo de al e ação é de inido po qua o p ocessos in e elacionados: 1) a ápida expansão de
o mas de consumo in ensi as de uma de e minada d oga – no caso da he oína, o consumo
po ia endo enosa insc e e-se nes e pa âme o; 2) o apa ecimen o de um in enso ala me
social em o no des es consumos e das suas consequências, que p o ocam po sua ez uma
ins i ucionalização das o mas de comba e a es e “p oblema” social; 3) o c escimen o de
uma economia pa alela, mais ou menos in o mal ou ilegal, dedicada à p odução e
dis ibuição de d ogas que disponibiliza em g ande escala as no as subs âncias; 4) o
desen ol imen o de um p oblema de saúde pública, u o de um p ejuízo sani á io massi o
e quan i icá el que, nas sociedades desen ol idas, pode ge a uma c ise sani á ia – um
exemplo des e pa âme o oi o c escimen o da ansmissão de VIH en e consumido es de
he oína nas décadas de 80 e 90 do séc. XX (Gamella, 1996).
A “c ise” da he oína em Espanha expandiu-se em ases dis in as. A p imei a, em
1977-78, deu-se quando os p imei os junkies se o na am isí eis e a ensão pública se
cen ou pela p imei a ez no uso local da he oína; en e 1979 e 1982, a segunda ase de
expansão des e enómeno eio con e i um es a u o “epidémico” à ques ão da he oína. A
e cei a ase, en e 1983 e 1986, é aquela onde es a ques ão a inge o seu expoen e máximo,
20
ins i ucionalizando-se de ini i amen e o “p oblema” da he oína. A pa i de 1987 o núme o
de no os usuá ios começa a diminui , embo a c esçam a mo bilidade e a mo alidade dos
usuá ios exis en es, consequência não só do seu es ilo de ida, mas sob e udo da expansão
da SIDA; é nes a ase que começa a c esce o consumo de he oína (e cocaína, ou ambas)
umada. A pa i de 1991-92 a c ise o na-se “endémica”: pe de-se o seu ca ác e “agudo”,
ha endo cada ez menos no os usuá ios, cen ando-se o p oblema numa população cada
ez mais en elhecida e ci cunsc i a a meios especí icos. Po es a al u a começam a su gi
no as o mas de consumo de ou o ipo de subs âncias, nomeadamen e as “d ogas de
desenho” (Gamella, 1996).
Há duas consequências econhecidas nas “c ises” das d ogas: em p imei o luga , uma
d oga pa ece se mais adi i a numa sociedade ou pe íodo de e minado do que nou as
(Peele, 1985, como ci ado em Gamella, 1996); em segundo luga , o “abuso” de d ogas
ende a cons ui -se sob a o ma de “epidemias” ou ciclos, com cla os a anços e
e ocessos, e não de o ma g adual ou cons an e, algo que em mo i os demog á icos,
cul u ais e económicos. A espei o do p imei o pa âme o podemos e e i um dado
apon ado po Palla és (1996): no seu abalho, que con ou com dois g upos de
he oinómanos, um com os consumos iniciados na década de 1970 e o ou o na de 1980, os
iniciados na década de 80 alo izam mais a p imei a expe iência com es a d oga, algo que
é consonan e com o discu so ala mis a igen e – em pa icula , com a noção de se ica
“aga ado” à he oína a pa i do p imei o consumo – do que os iniciados na década de 70,
época em que es e mesmo discu so ainda não se encon a a ins i uído.
O au o chama a a enção pa a o ac o de o consumo de d ogas se um compo amen o
inse ido socialmen e, sendo po isso mesmo sujei o à in luência do discu so dominan e.
Ou a p o a dis o é a o ma como o sujei o i e os e ei os na d oga no plano ísico: não
são apenas as p op iedades a macológicas que a e am a expe iência co po al da d oga,
mas ambém o plano simbólico, os elemen os p o enien es do con ex o imedia o e da
sociedade em ge al – daí a p imei a expe iência com a he oína se i ida de uma o ma
mais in ensa, p ecisamen e po es a sob eca egada de uma simbologia que lhe a ibui um
maio pe igo. A p óp ia abs inência da he oína – a “ essaca” – é an o mais in ole á el
quan o mais o indi íduo es i e con encido da sua in ole abilidade, ge ando-se o chamado
“mi o del mono” (Palla és, 1996, p. 82).
Tinoco (2005) chama-nos ambém a a enção pa a as al e ações que se êm indo a
egis a no discu so dos consumido es de he oína: a dimensão do lash como uma pa e dos
e ei os da subs ância oi-se pe dendo len amen e, sendo a e en e mais ealçada na
21
i ência dos consumos a do so imen o e da do . Es a mudança, apesa de co esponde a
um endu ecimen o nas condições de ida dos consumido es, co esponde igualmen e a
uma mudança na imagem social da he oína – as d ogas, em ge al, e a he oína, em
pa icula , ins i uí am-se como um es igma, implicando uma sé ie de cons angimen os nas
elações in e pessoais do indi íduo e, acima de udo, na pe ceção que es e em ace ca de si
mesmo.
A in luência que a isão cole i a em sob e o enómeno da d oga é, como se pode
dep eende a pa i dos con eúdos expos os, imensa. Uma p o a dis o pode se o enómeno
da des iância secundá ia: es e concei o, na de inição de Leme (1951, como ci ado em
Tinoco, 2005), consis e na componen e da ansg essão que é induzida pela sociedade – ao
p oibi -se de e minada condu a, os indi íduos que a come em e ão de se con on a com
cada ez mais obs áculos. Assim, as di iculdades e o isolamen o social consequen es da
condu a sancionada socialmen e (nes e caso, o consumo de he oína) acili a ia a
in e nalização de iden idades ansg essi as (Tinoco, 2005). Os consumido es de he oína,
de ido à ilegalidade des a subs ância e, especialmen e, a uma p o unda ejeição social –
ma ca-os um es igma associado ao consumo de d ogas em ge al, e da he oína em pa icula
– êm-se como que empu ados pa a um es ilo de ida que não é esul an e da subs ância
em si, mas sim do ipo de espos a social que a nossa sociedade dá a es e “p oblema”
(Palla és, 1996).
Tal como Tinoco (2005) a i ma, “A he oína é de ini i amen e, nos dias de hoje, um
es igma. É um es igma que p o oca eações nega i as nos ou os quando é e elado o
consumo e implica que o he oinómano aça uma cuidadosa ges ão do seg edo. O
consumido ê-se pe an e a disjun i a de edes de supo e social des ian es e sus
no ma i as – o que não acon ece, po exemplo, com o alcoólico ou o umado compulsi o
de abaco” (Tinoco, 2005, p. 53).
1.1.5) A d oga como elemen o p odu o de es igma
A ma ginação social cons i ui, segundo Romaní (1999), um conjun o de p ocessos
que acabam po limi a (e a é mesmo exclui ) a de e minados indi íduos ou g upos sociais
o acesso aos ecu sos mais habi uais da sua sociedade. Es a de inição pe mi e dis ingui
dois ipos de des ios: o des io acei á el e desejá el (po exemplo, as soluções
p o issionais mais c ia i as) e o des io p odu o de exclusão, p o enien e ge almen e dos
ex a os mais baixos da es u u a social. Fei a es a dis inção, o na-se possí el comp eende
que a es igma ização não é uma a iá el independen e, mas an es uma mediação necessá ia
22
no p ocesso de ma ginação, endo que se a i ada po ou os a o es (nomeadamen e a
compe ição po ecu sos básicos, como o e i ó io). A es igma ização pode ambém
oco e pa a de ende e/ou p ese a a p óp ia iden idade de g upo, pe mi indo des ia as
esponsabilidades de males sociais pa a o ex e io , ou pa a uma igu a conc e a (Romaní,
1999). Nes e úl imo caso, inse em-se os a o es sociais associados às d ogas, apon ados
como causa única de mui os dos p oblemas sociais mais a uais.
Fe nandes (2009) e e e-se ao enómeno d oga como um dela o da e osão das
no mas que em indo a oco e : es e a en a di e amen e con a os pila es da Mode nidade
(a al e ação da consciência é p e e ida à Razão, o hedonismo do aqui e ago a sob epõe-se
ao T abalho e o g upo de pa es d ug à Família, a elação amo osa passa a se iangulada
com a he oína), e elando de o ma inequí oca as ins âncias em c ise nas sociedades do
capi alismo a ançado.
A c ise des as ins âncias dá o igem a um sen imen o de insegu ança gene alizado,
ans o mando-se a nossa sociedade numa sociedade de isco, imp e isí el, eple a de
pe igos como ca ás o es na u ais, a en ados e o is as, aumen o da c iminalidade u bana,
e c. A ulne abilidade a odas es as ameaças di usas acaba po se ans e ida pa a obje os
conc e izá eis, como a d oga, de modo a c ia explicações plausí eis pa a a agilidade
expe ienciada e a legi ima no as p á icas policiais peni enciá ias (Fe nandes, 2009). Os
p incípios de exclusão da d oga p opos os po Fe nandes (1998), a ás enunciados, podem,
nes e sen ido, se enca ados como meios pa a pu ga a sociedade de oda es a insegu ança,
ma e ializada no enómeno d ogas. A ejeição do oxicodependen e não eside, en ão,
apenas nas suas ca ac e ís icas pessoais, mas sim naquilo que ep esen a: a alência das
ins âncias a ás e e idas.
Daqui se conclui que o es igma, pa icula men e o es igma associado ao consumo de
d ogas, não é, po si só, algo na u almen e mau. A sua ca ga emocional nega i a ad ém
das de inições que a sociedade lhe a ibui: como Go man (1988) a i ma, no mal e
es igma izado não são pessoas, mas sim pe spe i as que são ge adas em si uações sociais
du an e os con ac os mis os, em i ude de no mas não cump idas.
1.1.6) Temá icas a explo a
Tendo já sido abo dado o concei o de es igma, o na-se ele an e abo da ago a a
noção de exclusão social. B u o da Cos a (1998) ap esen a a noção de exclusão social
p opos a po R. Cas el, segundo a qual es e e mo di ia espei o à ase ex ema do p ocesso
de ma ginalização, sendo es e úl imo en endido como um pe cu so descenden e ao longo
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do qual se e i icam sucessi as u u as na elação do indi íduo com a sociedade. A ase
ex ema des e p ocesso (a “exclusão social” p op iamen e di a) é ca ac e izada não só pela
u u a com o me cado de abalho, que se aduz em desemp ego (sob e udo o desemp ego
p olongado), mas ambém po u u as amilia es, a e i as e de amizade.
A noção de exclusão social implica a exis ência de um con ex o de e e ência –
excluído de quê?. A quali icação de “social” pe mi e in e p e á-la como es ando
elacionada com a sociedade – nes e en endimen o, a exclusão em a e com a cidadania.
O exe cício pleno da cidadania implica e aduz-se no acesso a um conjun o de sis emas
sociais básicos, que podem se ag upados em cinco g andes domínios: o social, o
económico, o ins i ucional, o e i o ial e o das e e ências simbólicas (B u o da Cos a,
1998).
A á ea social ca ac e iza-se pelo conjun o de sis emas (g upos, comunidades, edes
sociais) em que uma pessoa se encon a inse ida, desde os mais imedia os (po exemplo, a
amília) aos in e médios (po exemplo, a emp esa) a é aos mais amplos (po exemplo, o
me cado de abalho – no e-se que es e não é concep ualizado apenas enquan o on e de
endimen os, mas enquan o a o de socialização e in eg ação social). No domínio
económico exis em ês sis emas básicos: os mecanismos ge ado es de ecu sos (como o
me cado de abalho, o sis ema de segu ança social), o me cado de bens e de se iços e o
sis ema de poupanças. O domínio ins i ucional ab ange dois ipos de sis emas: os sis emas
p es ado es de se iços (sis ema educa i o, de saúde, de jus iça, e c.) e as ins i uições mais
di e amen e elacionadas com di ei os ci is e públicos. O domínio e i o ial diz espei o à
exclusão social não só de pessoas, ou amílias, mas sim de e i ó ios in ei os (po
exemplo, bai os). O domínio das e e ências simbólicas, po úl imo, em a e com uma
dimensão subje i a da exclusão – espei a a odo um conjun o de pe das no campo das
e e ências: pe da de au oes ima, de au ocon iança, de pe spe i as pa a o u u o, de
capacidade de inicia i a, de mo i ações, de sen ido de pe ença, e c. (B u o da Cos a,
1998).
Os consumido es de d ogas, pa icula men e os consumido es p oblemá icos –
junkies – cons i uem um g upo sujei o à exclusão social, e é sob e es as igu as sociais que
incidi á o p esen e abalho, como já se e e iu. Tal como Fe nandes e Ca alho (2000a)
apon am, a igu a do oxicodependen e em indo a se associada a uma sé ie de elemen os
nega i os, que êm con ibuído pa a a o mação de um es igma associado ao consumo de
d ogas e pa a a exclusão social dos consumido es des as. A pa i da década de 80 do
século XX, o sen imen o de insegu ança começa a se associado à igu a do junkie (en e
24
ou as) – es e é conside ado um concen ado de iscos sani á ios e delinquenciais e
enca ado como um po encial ag esso pelo discu so social: as au o idades e a comunicação
social êm indo a impu a o aumen o da c iminalidade e da insegu ança u bana ao junkie
(Fe nandes e Ca alho, 2000a).
Ao longo do es udo p ocu a -se-á in e i qual a si uação dos pa icipan es em cada
um des es domínios, bem como se, em si uações especí icas, o indi íduo é capaz de
econhece , po pa e dos ou os, a i udes e compo amen os que e li am o es igma de que
é al o po consumi d ogas. Se ão incluídos no es udo dois g upos: um cons i uído po
consumido es “p oblemá icos” de d ogas, ou o po consumido es “não p oblemá icos”. O
consumo p oblemá ico, de aco do com Fe nandes e Ca alho (2000b), de ine-se da
seguin e o ma: “Consumo p oblemá ico é oda a u ilização de d ogas que conduza à au o
pe ceção de si uações e/ou es ados indesejá eis no indi íduo (saúde ísica e men al) e/ou
dos di e en es ní eis de sis emas que o en ol em ( amília, g upos in o mais, abalho,
elação com ins i uições). A de inição não de e con undi -se com a de oxicodependência,
pois es a ep esen a uma si uação especí ica na e olução dos consumos p oblemá icos.
Nem com a de pad ão de u ilização, em que um c i é io undamen al é o da equência de
uso. À noção de consumo p oblemá ico subjaze um c i é io que é essencialmen e
quali a i o, já que o uso espo ádico se pode e ela bem mais p oblemá ico do que ce os
consumos egula es” (Fe nandes e Ca alho, 2000b, p. 20). Assim, os consumido es
p oblemá icos ca ac e izam-se pela associação de uma sensação de mal-es a ao consumo
de d ogas (pe ceção des e consumo como despole ado de consequências nega i as), que a
um ní el indi idual, que a um ní el sis émico (quando os consumos a e am, po exemplo,
o ag egado amilia do indi íduo). A de inição do consumo “não p oblemá ico” é ei a po
C uz, Machado e Fe nandes (2010) endo em con a, p imei o, c i é ios ex e nos, que dizem
espei o a (A) Ausência de p oblemas médicos, sociais ou legais elacionados com os
consumos e (B) Ca ac e ização do sujei o po e cei os signi ica i os como consumido
“não p oblemá ico”. É ambém ido em conside ação um c i é io in e no ou subje i o, que
consis e na au o ca a e ização do sujei o como consumido “não p oblemá ico”.
Assim, a p opos a de es udo ap esen ada eme e pa a o ap o undamen o das o mas
como o consumo de d ogas é hoje enca ado em cada um des es g upos. O p incipal
obje i o se á, a a és da análise do discu so dos pa icipan es, explo a si uações de
exclusão social e a alia es igma ização a a és do ela o de si uações especí icas, bem
como da queb a de ínculos a e i os, nomeadamen e na ede social de apoio do
pa icipan e.
25
2. Mé odo
2.1) Linhas discu si as e adições me odológicas
O “ enómeno das d ogas” em sido abo dado po di e sos sis emas explica i os e
in e p e a i os, ge ando-se á ias linhas discu si as ace ca das “d ogas” e seu mundo.
Ag a e Fe nandes (1993), baseando-se em c i é ios de ca ác e his ó ico-epis emológico e
soco endo-se da epis emologia de Kuhn, o ganiza am os sabe es das d ogas em duas
g andes linhas: a linha conse a i a (pa adigma da d oga-enigma) e a linha ino ado a
(pa adigma da d oga-no o pa adigma).
A linha conse a i a, ou o pa adigma da d oga-enigma, ca ac e iza-se pela
in odução do obje o-d oga em pa adigmas já cons i uídos an e io men e a p opósi o de
ou os obje os – po exemplo, a psiquia ia, a c iminologia, a psicanálise, o beha io ismo,
o humanismo, e c. Nes es pa adigmas, o “consumo da d oga” cons i ui um dos enigmas
que alimen am a p odução de abalho cien í ico no mal – não assume, assim, um es a u o
especial en e os ou os enigmas, sendo apenas mais um obje o de es udo (Ag a e
Fe nandes, 1993).
A linha ino ado a (pa adigma da d oga-no o pa adigma) ca ac e iza-se, po sua ez,
po p ocu a cons ui um no o pa adigma explica i o pa a o obje o-d oga. Es e no o
pa adigma de e ia se explica i o e in e en i o, bem como independen e dos pa adigmas
cien í icos adicionais, uma ez que es a co en e c ê que es es úl imos se e ela am
incapazes de assimila con enien emen e o obje o-d oga. Es a linha c ia, des a o ma,
condições pa a uma maio au onomia do sabe do consumo das d ogas. Pa a o cons i ui
independen emen e de ou as disciplinas cien í icas, mas assumindo um es a u o de
acionalidade cien í ica, o na-se indispensá el a cons ução de um discu so com base nas
exigências dos pa adigmas cien í icos no mais, po um lado e, po ou o, com e e ência a
discu sos não cien í icos (Ag a e Fe nandes, 1993).
Ag a e Fe nandes (1993) ap esen am algumas p opos as de no os pa adigmas de
comp eensão das d ogas:
1) A p opos a de Ingold (1986, como ci ado em Ag a e Fe nandes, 1993), que se
ca ac e iza pela ejeição das eo ias sociopá icas, das eo ias
compo amen alis as e ainda das eo ias médicas (onde se inclui a psicanálise),
a i mando que as eo ias médicas e compo amen alis as endem a eduzi os
enómenos humanos a uma sé ie de causas e e ei os;
2) A p opos a de Comas (1981, como ci ado em Ag a e Fe nandes, 1993), que
pa e da e isão/a aliação da in es igação exis en e sob e o uso de d ogas
32
junkie); das en e is as ópicas, dado que se p ocu a á in e i si uações de exclusão social
a a és do ela o de episódios especí icos – po exemplo, pe gun a ao pa icipan e como se
sen e quando se di ige a um cen o de saúde, e pedi pa a ela a um episódio pa icula , de
modo a pe cebe se es e se sen e ou não es igma izado e excluído.
A en e is a, sendo uma o ma de comunicação o al p i ilegiada, é ambém um
ins umen o p i ilegiado pa a comp eende dinâmicas simbólicas impo an es que ão de
encon o aos obje i os essenciais des e abalho. Bou dieu (1991) salien a que o discu so
de cada um e le e a sua condição social; as dinâmicas, ou in e ações sociais, es ão, assim,
p esen es no discu so de cada um – as ocas de pala as, p esen es nas in e ações sociais,
se iam sob e udo ocas simbólicas, e e le i iam o es a u o, ou posição social, de cada
elemen o. A análise do discu so dos pa icipan es se i á o p opósi o não só de ecolhe
elemen os impo an es ace ca da sua aje ó ia, mas ambém pe mi i á acede a es a
dimensão: pe mi i á a e igua a posição que o indi íduo ocupa na sociedade e o ipo de
elações que se es abelecem en e ele e os ou os a o es sociais do seu meio.
Nes e es udo oi emp egue uma en e is a semies u u ada, cujo obje i o se á
comp eende a cul u a dos en e is ados, ou o seu es ilo de ida e as dinâmicas do seu dia-
a-dia, bem como a ecolha de alguns dados biog á icos, de o ma a de ini sin e icamen e a
sua aje ó ia no chamado “mundo das d ogas”. Fo am ambém explo ados episódios
signi ica i os especí icos elacionados com a exclusão social e a i ência do es igma
associados ao consumo de d ogas. As en e is as o am g a adas em o ma o áudio, endo
sido pos e io men e ansc i as. A écnica emp egue pa a o a amen o dos esul ados oi a
análise de con eúdo quali a i a emá ica, con o me desc i a po Ba din (1988) – a unidade
de egis o u ilizada pa a a codi icação dos elemen os ecolhidos oi o ema, uma ez que,
de aco do com a au o a, o ema “é ge almen e u ilizado como unidade de egis o pa a
es uda mo i ações de opiniões, de a i udes, de alo es, de c enças, de endências, e c.”
(Ba din, 1988, p.106). Assim, a ca ego ização, ou a ope ação de classi icação de elemen os
cons i u i os de um conjun o, po di e enciação e eag upamen o em “núcleos de sen ido”
(Ba din, 1988), nes e caso, seguiu um c i é io semân ico: os con eúdos ecolhidos
cons i uem, assim unidades de egis o semân icas (Vala, 1986).
33
3. Resul ados
3.1) Ca ac e ização dos pa icipan es
O g upo dos consumido es “p oblemá icos” oi de inido de aco do com os c i é ios
apon ados po Fe nandes e Ca alho (2000b), como mencionado an e io men e (c .
Mé odo), sendo compos o po seis elemen os, qua o do sexo masculino e dois do sexo
eminino. Os pa icipan es o am abo dados em si uação de consul a no CRI de
Ma osinhos, sendo es a uma amos a de con eniência. A maio pa e dos en e is ados não
se encon a, de momen o, a consumi d ogas – apenas um en e is ado e e e e consumos
a uais e egula es de he oína e cocaína (base); oi explicado aos pa icipan es que a
en e is a dizia espei o ao seu passado enquan o consumido es e ao seu p esen e, na
condição de ex-consumido es. A média de idades dos pa icipan es, nes e g upo, é de 28,5
anos, endo odos os pa icipan es nascido na década de 1980 – c i é io p e iamen e
de inido. Com a exceção de uma pa icipan e, a d oga de início oi semp e a cannabis
(haxixe), sendo que a idade do p imei o consumo se si ua, em média, pelos 15 anos.
O consumo de he oína e cocaína (base) é ambém, sem exceções, iniciado na
adolescência, em média pelos 17 anos. É impo an e e e i , nes e pon o, que nenhum dos
pa icipan es consome ou consumiu alguma ez es as subs âncias po ia inje ada: odos,
sem exceções, e e em o consumo exclusi o po ia umada. Um ou o dado ele an e na
ca a e ização des e g upo é o ac o de o consumo de ou as subs âncias psicoa i as –
cannabis, ecs asy, alucinogénios, e c. – assumi uma impo ância bas an e eduzida no
discu so des es pa icipan es. Ao longo das en e is as oi possí el comp eende que o
consumo des as subs âncias é, ou oi, sob e udo um consumo pon ual, po oposição ao
consumo egula /cons an e de he oína e cocaína (base).
O g upo dos consumido es “não p oblemá icos” oi de inido de aco do com os
c i é ios es abelecidos po Ca alho, Machado e Fe nandes (2010), como p e iamen e se
e e iu (c . Mé odo). Os pa icipan es o am selecionados po con eniência – eco eu-se à
ede in o mal de conhecidos da in es igado a, sendo as en e is as semp e ealizadas em
con ex o in o mal (na ua, em es abelecimen os públicos – po exemplo, ca és – ou mesmo
em casa dos pa icipan es); es a é, à semelhança do g upo dos consumido es p oblemá icos,
uma amos a de con eniência. Es e g upo é ambém cons i uído po seis elemen os, qua o
do sexo masculino e dois do sexo eminino. Foi ambém seguido o c i é io da da a de
nascimen o ( odos os en e is ados nasce am na década de 1980), sendo a média de idades
25,8 anos.
34
A d oga de início oi, em odos os casos, a cannabis, es ando a idade do p imei o
consumo si uada, em média, en e os 14 e os 15 anos. É de ele o apon a a impo ância
a ibuída a es a subs ância: pa a p a icamen e odos os pa icipan es es a subs ância é a que
su ge como mais “no mal, ou “habi ual”, bem como com um consumo mais egula . Nes e
g upo, con a iamen e àquilo que se pôde e i ica no g upo dos consumido es
p oblemá icos, as d ogas u ilizadas em con ex o es i o ou ec ea i o – MDMA, cocaína
(em pó), an e aminas, alucinogénios (LSD, cogumelos), me edona (bloom), ecs asy, e c. –
assumem uma impo ância mui o signi ica i a nos ela os que cada pa icipan e az das
expe iências de consumo, que a ní el indi idual (po exemplo, na desc ição de e ei os
posi i os – “ iagem”, maio a i ação isiológica – e nega i os – “bad ips” ou
indisposição ísica), que a ní el in e pessoal, sob e udo no que conce ne à o ma de es a
pe an e os ou os. O consumo de he oína é e e ido apenas po um pa icipan e, sendo es e
um consumo pon ual, algo que ai de encon o aos dados apon ados em in es igações
p é ias (C uz, Machado e Fe nandes, 2010; C uz e Machado, 2010) ace ca do consumo
“não p oblemá ico” de subs âncias ilíci as: es e passa po um consumo con olado, ou
mesmo po um a as amen o, des a d oga.
Há um aspe o in e essan e a salien a : o consumo de cocaína é ei o po ia umada
(em base) no caso dos consumido es p oblemá icos e em pó, no caso dos não
p oblemá icos. Cohen (1989) encon ou es a di e enciação numa amos a de consumido es
“não des ian es” de cocaína, sendo o consumo des a d oga po ia umada ou inje ada
cono ado nega i amen e, associando os pa icipan es es as ias de consumo a g upos
des alo izados socialmen e e a um maio isco de dependência.
No que conce ne à escola idade, o g upo de consumido es p oblemá icos possui um
ní el bas an e mais baixo – a maio ia dos en e is ados não possui mais do que o 9º ano de
escola idade, ao passo que no g upo dos consumido es não p oblemá icos, sal o duas
exceções, odos os pa icipan es possuem o mação supe io . Es e dado o na-se
pa icula men e ele an e sob e udo no que oca à o alidade: a capacidade de exp essão
e bal é bas an e supe io no caso dos consumido es não p oblemá icos, p oduzindo es es
um discu so bas an e mais as o, elabo ado e di e enciado do que o ou o g upo. Pa a es a
disc epância pode ão ambém e con ibuído as p óp ias condições em que as en e is as
o am conduzidas: no caso do g upo de consumido es p oblemá icos, a in luência de um
ambien e mais o mal pode á e en ualmen e e inibido uma pa icipação mais
descon aída, ou na u al, po pa e dos en e is ados.
35
3.2) Expe iência de consumo
Expe iências co po ais
No caso dos consumido es p oblemá icos, as expe iências co po ais ela adas são
sob e udo posi i as. O e ei o p oduzido pelas subs âncias consumidas é apon ado como
posi i o. A i ência ísica da subs ância – he oína ou cocaína (base), uma ez que não
o am ei as e e ências a ou as d ogas nes e âmbi o – é enca ada como ag adá el e
p aze osa, não endo nenhum pa icipan e apon ado e ei os ad e sos do consumo a ní el da
co po alidade. A ausência de e e ências a ou as subs âncias em e o ça o papel cen al
que as d ogas “pesadas” assumem jun o des e g upo.
No g upo dos consumido es não p oblemá icos as espos as nes e âmbi o são mais
di e si icadas. Em p imei o luga , po que dizem espei o a um maio núme o de
subs âncias – a maio pa e dos en e is ados apon a di e sas d ogas, desde a cannabis a
es imulan es ísicos, como po exemplo as an e aminas, di e enciando os seus e ei os; em
segundo luga , po que odos con apõem e ei os ísicos posi i os e nega i os pa a cada
d oga consumida: oi possí el e i ica um cuidado em ap esen a o “ e e so da medalha”,
mos ando-se os pa icipan es, sem exceção, cien es dos bene ícios de cada d oga, mas
igualmen e a en os aos pe igos que o consumo de cada uma delas compo a. Des e modo,
o am ap esen ados e ei os posi i os ais como o elaxamen o, no caso da cannabis, ou a
es imulação isiológica, no caso das an e aminas ou do MDMA:
“[…] Quando que o a e a , quando que o do mi … Em ez de oma um cházinho
umo.” (V.C.);
“O MD ambém me deu algumas noi es em que ui capaz de me aguen a mui o mais
empo do que o que aguen a ia.” (J.P.).
Da mesma o ma, o am ambém ei as e e ências aos e ei os ad e sos associados
ao consumo de algumas subs âncias: al a de ape i e quando o consumo de cannabis é
abandonado; aquica dia ou, como lhe chama um dos pa icipan es, “ ica com o co ação
odo es úpido”, associada ao consumo de an e aminas. A essaca do dia seguin e é ambém
apon ada po á ios en e is ados como uma consequência nega i a dos consumos.
Expe iências psicológicas
As espos as dadas pelos pa icipan es do g upo de consumido es p oblemá icos
cen a am-se, nes e campo, em sen imen os e emoções essencialmen e nega i os, ais como
sen imen os de culpa, au o c í ica, e gonha ou humo dep essi o:
“Tinha e gonha de apa ece a essaca no abalho” (R.C.);
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“[…] às ezes es a a is e, es a a dep imido e ica a sozinho” (M.T.).
Con udo, há ambém e e ências a alguns bene ícios associados ao uso de d ogas:
uma pa icipan e apon ou uma maio capacidade de lei u a na elação in e pessoal (uma
maio in uição humana, po assim dize , no con ac o com os ou os):
“Eu ia as coisas mui o mais ápido do que o no mal, quando as pessoas es a am a
ala de mim eu conseguia e logo o que é que se es a a a passa . […] Nós olhamos as
pessoas de um modo comple amen e di e en e.” (D.S.).
Foi ambém apon ado po um pa icipan e um e ei o posi i o, em e mos de au o
con iança, deco en e da u ilização de d ogas:
“E a udo meu. Quando consumia, e a udo meu. Não inha p oblemas nenhuns.”
(M.T.).
No g upo dos consumido es não p oblemá icos as espos as dadas são, mais uma ez,
mais di e si icadas e ambém mais equilib adas em e mos de ap esen ação de e ei os
posi i os s. nega i os deco en es do uso de d ogas. No caso das expe iências nega i as,
são apon adas as “bad ips” – es ados de consciência nega i os deco en es do uso de
alucinogénios, ais como LSD ou cogumelos alucinogénios:
“Já i e uma g ande bad ip com ácidos e uma com MDMA mis u ado com
cogumelos […] po que uma coisa le a- e pa a a moleza, pa a a iagem, e a ou a dá- e
on ade de aze coisas e de não pa a quie o. E aquilo deu-me um con li o in e io mui o
g ande.” (J.P.);
“ Ti e uma bad ip com cogumelos há uns anos a ás e oi uma expe iência
ho o osa, oi uma expe iência ho í el mesmo… Achei que ia ica maluca pa a semp e,
que não ia ol a a mim, oi mesmo uma ques ão de dissociação de pe sonalidade, uma
cena comple amen e o a do no mal e co ei comple amen e a pa i daí, nunca mais
oquei nisso…” (I.P.).
As “ iagens” possuem, con udo, aspe os posi i os: o consumo de alucinogénios
pe mi e expe iências o a do comum que são, mui as ezes, i idas como algo
p o undamen e posi i o:
“Com ácidos e cogumelos […] epá, aquilo possibili a- e conexões ce eb ais que, de
ou a o ma, não e ias, an o iagens in ospe i as como iagens ex a co po ais
b u ais.” (J.P.)
Ainda no que conce ne a e ei os posi i os, é e e ido o aumen o da c ia i idade como
uma an agem deco en e da u ilização da cannabis. A boa disposição e as emoções
posi i as são das p incipais an agens deco en es da u ilização des a d oga.
37
Uma das pa icipan es az algumas a i mações in e essan es ace ca da ges ão dos
consumos, que aduzem a pos u a que a maio pa e dos elemen os des e g upo assume
pe an e o consumo de d ogas, po aquilo que oi possí el apu a ao longo da en e is a:
“A expe iência oi mui o má mesmo […] mas isso ambém a pa i do momen o, lá
es á, em que não co eu bem, pa ei simplesmen e de consumi , nunca mais oquei em nada
disso.” (I.P.);
“Só consumo qualque d oga, seja ela qual o , se me de p aze e se não me ouxe
nenhuma implicação p incipalmen e a ní el psicológico […] só consumo o que me az
bem.” (I.P.).
Es a ges ão dos consumos e das subs âncias consumidas é apon ada po C uz e
Machado (2010) como uma das componen es essenciais pa a um consumo de d ogas “não
p oblemá ico”: se capaz, na sequência de um episódio nega i o, de aze ajus es ao
consumo de uma de e minada d oga.
3.3) Consequências do consumo
Plano pessoal
No caso dos consumido es p oblemá icos, p e alecem e e ências a consequências
nega i as deco en es do uso de d ogas. São ei as e e ências a cus os a ní el da saúde –
um dos pa icipan es chega mesmo a apon a es ados ísicos ex emos deco en es do uso
de cocaína, ela ando um episódio em que en ou em coma na sequência de uma o e dose
com es a subs ância. Em e mos de compe ências sociais, são apon adas que a pe da de
compe ências de comunicação, que a al a de a o nas elações in e pessoais:
“Eu an es não inha p oblemas em elação a abalho e e a uma pessoa que gos a a
de socializa e ala com qualque ipo de pessoa. […] às ezes pa ece que não me
consigo exp imi ão bem como que o, pe cebe?” (R.C.);
“Nem conseguia ala às pessoas quando consumia. Ago a es ou abs inen e e sei
ala , senão nem es a a aqui a ala consigo, começa a logo a ipa consigo.” (M.T.).
A incapacidade de abalha – segui ho á ios e uma o ina diá ia – é apon ada po
á ios pa icipan es des e g upo como consequência do consumo de d ogas. O sínd ome de
abs inência – a “ essaca” – é apon ada como o p incipal mo i o pa a es a
incompa ibilidade com o mundo do abalho: a maio ia e e e que ou abalha, ou consome
– nunca ambos em simul âneo. As complicações legais su gem ambém como uma
consequência ele an e do consumo de d ogas: o “se p eso” ou “se apanhado numa
usga” é e e ido bas an es ezes, sendo a p incipal des an agem o meio, ou o “mundo”,
38
em que o consumido , a dada al u a, se ê en ol ido. Um dos pa icipan es em uma o ma
pa icula de desc e e es e meio:
“Aquilo é o deg edo. […] e na al u a, a gen e na b incadei a dizia que e a a
Champion’s League isso. Mas, pa a mim, isso é a Liga dos úl imos.” (R.C.).
Apesa de odos os aspe os nega i os apon ados, há uma e e ência, po pa e de
á ios en e is ados, a um e o no posi i o de oda a expe iência no “mundo das d ogas”: a
ap endizagem e o c escimen o pessoal, a a és do con on o com a ad e sidade. Ganha
expe iência de ida é algo que é enca ado pela maio ia dos en e is ados como uma mais-
alia, apesa de odos os p oblemas causados pelo consumo de subs âncias ilíci as. Como
nos diz uma en e is ada, “nós emos de lu a po udo, odos os dias”, conside ando que
es a “é uma i ência que nos az c esce mui o”.
No caso dos consumido es não p oblemá icos são apon adas consequências nega i as
elacionadas com a saúde, ais como a pe da de peso (no caso da cannabis – como oi
mencionado p e iamen e, o abandono do consumo des a d oga é associado po alguns
en e is ados à al a de ape i e). A ní el cogni i o são apon adas algumas des an agens,
como po exemplo uma ce a diminuição in elec ual: um dos en e is ados a i ma que o
uso eco en e de cannabis, no passado, eio a e a o seu pode de aciocínio: “hoje em dia
o meu pode de aciocínio já não é o mesmo”.
Há uma e e ência ao descon o o causado pela disc iminação, mas es a é ei a de um
modo algo ambíguo, e elando que a di e enciação p oduzida pelo consumo de d ogas,
nes e caso (consumo não p oblemá ico), pode á não su gi p op iamen e como um es igma,
podendo ge a eações nega i as, mas ambém posi i as:
“No meio uni e si á io já e a um mis o, po que já e a disc iminação como depois o
in e so, o pessoal p ocu a -me ou pa a ambém consumi ou, algumas ezes, olha em-me
com uma espécie de admi ação.” (J.P.).
Alguns en e is ados apon am des an agens deco en es da u ilização de d ogas
elacionadas com a sua pos u a, ou condu a, sob o e ei o des as subs âncias, e e indo que,
mui as ezes, êm compo amen os inadequados que não e iam sób ios, e que es es
compo amen os mui as ezes aba cam p oblemas, nomeadamen e na elação com pessoas
signi ica i as (amigos, namo ados/as). Há, mais uma ez, algumas e lexões po pa e dos
en e is ados ace ca das consequências nega i as do consumo e de como es as
consequências se i am de ap endizagem pa a si uações u u as, p oduzindo al e ações
como a edução ou o abandono de de e minada subs ância. Um dos pa icipan es
es abelece uma compa ação in e essan e com os e ei os p oduzidos po um medicamen o:
39
“Da mesma o ma que conhecemos os e ei os posi i os de medicamen os, ambém é
impo an e econhece os e ei os posi i os das d ogas ilegais. Ago a, ambém cabe
secalha a cada um sabe con abalança a coisa e sabe se [o consumo] ale a pena.”
(B.C.).
Em e mos de e ei os posi i os, são mencionados a o es como a di e são, o p aze e,
à semelhança do que acon ece no g upo de consumido es p oblemá icos (ainda que nou a
escala), a expe iência de ida que o consumo p opo ciona.
Plano in e pessoal
No g upo dos consumido es p oblemá icos não há e e ência a e ei os posi i os do
consumo de d ogas, a ní el in e pessoal: odas as e e ências, nes a subca ego ia, possuem
uma cono ação nega i a. Todas as consequências apon adas, sem exceção, dizem espei o
ao impac o que o consumo de d ogas do en e is ado e e no seio amilia , sob e udo na
elação com os pais e com os ilhos (po exemplo, pe de empo a iamen e a cus ódia dos
ilhos).
No caso dos consumido es não p oblemá icos há ambém e e ências a sequelas
associadas ao consumo de d ogas, sendo os con li os com os pais aquela que é e e ida
mais equen emen e. São ambém ei as e e ências a ou o ipo de elacionamen os,
nomeadamen e com amigos e namo adas, apon ando um en e is ado a de e io ação des e
ipo de elações enquan o uma consequência nega i a do consumo de d ogas. Uma
pa icipan e e e e ambém a pe da de compe ências sociais (o ica “an issocial”),
deco en e da u ilização de d ogas, enquan o um a o di icul ado da in e ação
in e pessoal. Em e mos de e ei os in e pessoais posi i os, nes e g upo há á ios
en e is ados que e e em um maio con í io, sob e udo den o do g upo de amigos
quando es es ambém são consumido es, bem como uma maio cumplicidade com ou as
pessoas que ambém sejam consumido as.
É apon ado po á ios pa icipan es um dado que pode se conside ado pa adoxal
inicialmen e, mas que acaba po se um des echo na u al do impac o ge ado pelo consumo
de subs âncias: é apon ado como a o posi i o o aconselhamen o, po pa e dos pais, ace
ao consumo de d ogas – embo a a maio pa e dos en e is ados e i a os con li os com os
pais como uma consequência in e pessoal nega i a do consumo de subs âncias, e i ica-se,
em quase odos os casos, uma adap ação, po pa e dos pais, ao consumo de subs âncias
assim que es e é pe cecionado como “não p oblemá ico”:
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“No início i e g andes s esses, po que e a um consumo aliado a ou as a i idades
e isso causou g andes p oblemas. Mas depois, pá, lida am com a si uação da melho
manei a possí el, nunca me p oibi am de aze nada, nunca me anca am em casa,
simplesmen e de am-me as bases e os concelhos que acha am na al u a que e am
necessá ios e que unciona am e que me pe mi iam e uma elação minimamen e
saudá el com as d ogas.” (J.P.).
Con udo, con ém apon a nes e pon o que a e elação e a acei ação dos consumos só
se e i ica com de e minado ipo de subs âncias, nomeadamen e com a cannabis, is o
como uma “d oga le e” – ela i amen e a ou o ipo de d ogas, mais “pesadas”, não se
e i ica es a acei ação.
3.4) Es igma
“E depois iquei com uma ma ca pa a a ida, não é?”
(D.S., 28 anos, ex-consumido a de he oína e cocaína)
Noções ge ais de es igma
Todos os pa icipan es, que de um g upo, que do ou o, e e em que o consumo de
d ogas é semp e associado a uma imagem, ou ep esen ação, essencialmen e nega i a da
pessoa que o az, po pa e de não consumido es. No g upo dos consumido es
p oblemá icos salien am-se as e e ências ao ício e ao oubo, bem como a uma apa ência
ísica deg adada, “desmazelada”; é ambém apon ado um dado impo an e, elacionado
com a incompa ibilidade do es a u o de consumido com a inse ção no me cado de
abalho:
“Isso já se sabe, se uma pessoa chega e disse ao seu pa ão que consome d ogas,
ele despede-a logo. Não abalha. No abalho é assim, quem consome d ogas, oda a
gen e ica logo com o pé a ás. É oxicodependen e, ica logo a ás.” (M.T.).
No g upo dos consumido es não p oblemá icos é ambém apon ada es a
incompa ibilidade en e o consumo de d ogas e a inse ção no me cado de abalho, pelo
menos em ci cui os mais conse ado es:
“E acho que c ia um es igma eno me nas pessoas. Tu se dissesses abe amen e numa
en e is a ou num local de abalho mais con encional que e as consumido a de
de e minadas d ogas isso p o a elmen e a ia consequências g a íssimas em e mos de
abalho, sem dú ida.” (I.P.).
A igu a que é apon ada como mais es igma izada, como mais ma ginalizada, é a do
oxicodependen e de ua (“Esses são disc iminados à pa ida, logo pela apa ência – mui a
41
gen e nem seque os ê como pessoas.”), sendo que o consumo enca ado como p odu o de
uma maio exclusão é o consumo egula , e não o consumo espo ádico ou ec ea i o de
d ogas.
São ambém ei as e e ências à si uação de consul a médica (os médicos são
apon ados como igu as que es igma izam, eg a ge al, os consumido es de qualque ipo
de subs ância), bem como à elação que se es abelece com a au o idade, no ge al, sendo
que de aco do com uma das pa icipan es “é no mal que qualque pessoa que consuma
d ogas ou que aça alguma coisa que não seja líci a” se sin a “mais ameaçada pela
au o idade do que p o egida”. É in e essan e apon a que, pa a um dos en e is ados, a
noção de es igma não é is a como algo ex e io aos consumido es de d ogas, mas an es
como algo que é pa ilhado po odos, sendo “essa noção e esse es igma” algo que “ odos
emos um bocado”.
Acon ecimen os indi iduais
No caso dos consumido es p oblemá icos, o am ei as e e ências a si uações de
ejeição em di e sas es e as no ma i as, como po exemplo em si uações de abalho – um
dos pa icipan es ela a que se iu o çado a despedi -se do seu abalho, após o seu
emp egado e conhecimen o dos seus consumos:
“Eu e a o écnico de máquinas, supe isiona a as máquinas, e o meu pa ão quando
soube dos meus consumos, mudou-me o ho á io, pôs-me a abalha 4 ho as po dia como
emp egado de limpeza… E eu ui ob igado a despedi -me.” (C.P.).
Es e ipo de disc iminação em apoia a ideia, p esen e no discu so de odos os
en e is ados, de que o consumo de d ogas é mal is o de uma o ma ge al, e que a sua
e elação pode á p o oca eações des e ipo. Daí mui os pa icipan es des e g upo
ela a em que, po exemplo, em si uações de en e is a de emp ego, ou mesmo no seu
pos o de abalho, omi em o seu passado de consumido es:
“Po exemplo, eu es i e a abalha num esc i ó io de ad ogados, como
adminis a i a. Toda a gen e me ado a a e con ia a em mim. Mas se me ade daquelas
pessoas soubessem que eu já inha sido consumido a, não ala am comigo da mesma
o ma de ce eza.” (D.S.).
Um dos pa icipan es az e e ência à es igma ização po pa e dos p óp ios deale s
ela i amen e aos consumido es, a i mando que “as pessoas ão lá gas a dinhei o e eles
a am as pessoas mesmo abaixo de cão”. Is o em da supo e à noção de que es es
consumido es – os p oblemá icos – são uma igu a não só p o undamen e es igma izada,
48
pouco con encional, odos os pa icipan es e e em que esconde o es a u o de consumido
é algo essencial pa a p ese a uma boa imagem jun o de colegas e mesmo do emp egado
ou pa a, numa si uação de en e is a de emp ego, não da uma imagem nega i a de si: o
consumo não é enca ado como uma ca ac e ís ica posi i a, a i mando um dos en e is ados
que “não é algo que gos e de e em elação a mim, que es eja associado ao meu abalho
e à minha pessoa”.
O consumo de he oína, no g upo dos consumido es não p oblemá icos só acon ece,
como já se e e iu, num caso. É no ó ia, ainda assim, uma di e ença en e o consumo des a
subs ância e o consumo de ou as d ogas, ha endo uma maio p eocupação de esconde o
consumo de e cei os:
“E a mesmo desma cado, nós íamos pa a a casa de banho e da a semp e es ondo,
ica a lá o chei o a emédio e o pessoal às ezes opa a.” (V.C.).
A e elação do es a u o de consumido , no caso dos consumido es p oblemá icos,
acon ece apenas jun o das es e as mais p óximas do indi íduo, nomeadamen e com a
amília nuclea . Há, con udo, uma exceção – um dos en e is ados e e e que pa ilha,
habi ualmen e, es a in o mação com ou as pessoas, “ ipo desca go de consciência em
ela a esse meu passado. E ambém pa a jus i ica um pouco a minha i ó ia. Passei po
isso e ago a, a é e , es ou bem”. Nes e caso, a expe iência ganha – mais conc e amen e a
“ i ó ia” sob e a dependência – é enca ada como um mo i o de o gulho e não de e gonha.
No caso do g upo dos consumido es não p oblemá icos, a e elação dos consumos
oco e ambém em condições especí icas, endo sido possí el apu a que a maio pa e dos
en e is ados az uma ges ão cuidadosa des a in o mação. P a icamen e odos os
en e is ados e e em que a sua amília mais chegada – nomeadamen e os pais (o pai ou a
mãe, ou ambos) – sabem dos consumos de algumas subs âncias, salien ando-se aqui a
cannabis como a d oga mais acei e (o consumo de ou as d ogas só é e elado à amília
po pa e de um en e is ado). A cannabis é ambém apon ada como a d oga que causa
menos p oblemas em e mos de ges ão da imagem em público: á ios en e is ados
e e em que “não êm p oblema nenhum” em consumi haxixe “em qualque lado” – uma
das pa icipan es a i ma mesmo que “p a icamen e oda a gen e sabe que umo e não enho
nenhum p oblema em elação a isso”.
Nas es e as sociais mais p óximas (po exemplo, jun o do g upo de amigos) a maio
pa e dos en e is ados a i ma que não sen e necessidade de esconde os consumos. É
ambém apon ada uma maio cumplicidade jun o de ou os consumido es – a pa i do
momen o em que se pe cebe que o ou o ambém consome d ogas, deixa de ha e a
49
necessidade de esconde o p óp io consumo. Uma pa icipan e com um abalho, nas suas
pala as, “a ípico” (ge en e de um es abelecimen o no u no) e e e que não sen e a
necessidade de esconde os consumos dos seus colegas de abalho, uma ez que es es
ambém são consumido es de cannabis e ou as subs âncias ilíci as. Dois en e is ados
des e g upo apon am ainda que p ocu am ansmi i aos ou os a noção de que o consumo
de d ogas é ela i o e não de e ia se enca ado como algo de e ado, não endo p oblemas
em “demons a que enho conhecimen os sob e isso […] seja com que ipo de d oga o ”.
Imagem pessoal
Os consumido es p oblemá icos azem uma dis inção bas an e acen uada en e e
“bom” ou “mau” aspe o – o “mau aspe o” é associado ao consumo de d ogas, e é enca ado
como um denunciado des e mesmo:
“Quando es ou o a da d oga, só quem sabe é que me pode disc imina , po que
ando na ua e sou uma pessoa no mal… Quando ando o a de d ogas no malmen e ando
com bom aspe o e não sei quê…” (A.F.)
É de salien a o ac o de o en e is ado e e i “sou uma pessoa no mal” quando não
consome d ogas – aqui se e ela a in e io ização do es igma: quando consome d ogas,
deixa de se “no mal”, passando a se um adic o, um “aga ado”.
Um ou o aspe o bas an e apon ado é a pe da de peso – o emag ecimen o que a d oga
p o oca é apidamen e associado pelos ou os ao consumo de d ogas, se indo ambém
como um indicado do es a u o de consumido . A componen e compo amen al é ambém
impo an e: a pos u a, o “anda mais s essado” pode se i , de aco do com os
en e is ados, como um indicado dos consumos pe an e os ou os. Uma das en e is as
apon a ainda o isual – a o ma como se a anja a na al u a em que consumia – como um
elemen o que a associa a de imedia o ao consumo de d ogas, e elando a impo ância que
o impac o isual em na in e ação com os ou os:
“Eu e a mais disc iminada pela minha apa ência, po que eu usa a mui os pie cings
e inha as as no cabelo odo, a uagens… E a mais disc iminada po isso do que po
ou a coisa.” (D.S.).
En e os consumido es não p oblemá icos, a ques ão da apa ência ísica é igualmen e
salien ada:
“E ínhamos o cabelo comp ido, o aspe o não inha mui o a e com a cidade onde
eu i ia… […] E em B aga ambém. Só pelo aspe o. Acho que isso já nem é a d oga, é
mesmo pelo aspe o – bas a e es o aspe o de quem é aga ado” (V.C.);
50
“P o a elmen e pelo isual, sim. Pelo aspe o, sim. E isso, lá es á, já de si e ela um
bocado e há pessoas com de e minada apa ência, com de e minado aspe o que às ezes
a é podem não consumi nada, mas o es e eó ipo de que se pa e é que consomem alguma
coisa. E acho que no meu caso, po não e um isual ão comum como mui as pessoas, as
pessoas quando olham pa a mim essa é uma coisa que pensam, sem dú ida nenhuma.”
(I.P.)
Os elemen os, no isual do consumido , que o associam a uma subcul u a ju enil, ou
pu a e simplesmen e o di e enciam de uma apa ência “no mal”, con ibuem pa a a sua
es igma ização – al como a en e is ada acima apon a, a pessoa pode a é nem se
consumido a, mas se i e um aspe o que a associe de alguma o ma ao “mundo da d oga”,
pode á se julgada enquan o al. Assim, pie cings, a uagens ou mesmo o cabelo comp ido
(no caso dos homens) pode á se um a o de es igma ização, po si só.
De es o, em e mos compo amen ais a maio pa e dos consumido es não
p oblemá icos e e e que consegue esconde bas an e bem o ac o de es a sob a in luência
de alguma d oga, embo a seja apon ado o e ei o especí ico da cannabis – deixa os olhos
“ aiados” (inje ados de sangue) – como algo bas an e di ícil de esconde e, assim, como um
elemen o que denuncia o consumo des a d oga. Um dos en e is ados apon a um a o
impo an e em e mos de imagem pessoal – a capacidade que cada consumido em de
econhece ou os consumido es, pa indo da pos u a da pessoa ela i amen e às d ogas:
“É semp e ácil de e a po que […] mesmo que seja alguém que consome mui o
ocasionalmen e dá semp e pa a de e a que em um ní el de con o o com o ema e com
ou os consumido es e mesmo isualmen e com as d ogas que as ou as pessoas nunca êm
an o.” (B.C.).
Relação com igu as de au o idade
Os consumido es p oblemá icos ap esen am, cu iosamen e, mais e e ência posi i as
à elação es abelecida com polícias e ou as igu as de au o idade do que os consumido es
não p oblemá icos. Fo am egis adas algumas e e ências nega i as, en e as quais uma
si uação de iolência policial sob e um g upo de consumido es:
“No bai o do Aleixo en a am lá os polícias na usga e oda a gen e que es a a lá e
inha ocos na mão le ou na cabeça. Ha ia pessoal que es a a lá que es a a a uma e
eles chega am lá e le ou udo.” (A.F.).
Há mais algumas e e ências a si uações des e ipo, mas não i idas pelo
en e is ado – ela os p esenciais, sob e udo. Há ambém quem apon e maus a os e bais,
51
em e mos de linguagem u ilizada – “o pala eado oi assim um bocadinho g ossei o” –
ou de humilhação – uma en e is ada e e e que, na al u a em que oi de ida “já es a a a
ica um bocado o e, e ele [agen e] começou com piadinhas sob e o meu aspe o ísico”.
Apesa des es ela os, mui os en e is ados e e em que nunca o am al o de maus a os
po pa e da polícia, mesmo na al u a em que consumiam d ogas.
Con udo, são ambém apon ados á ios episódios posi i os na elação es abelecida
com a au o idade, especialmen e com polícias, sendo que alguns en e is ados des e g upo
azem uma dis inção en e a al u a em que consumiam (em que a elação com a au o idade
e a sob e udo nega i a, e as igu as de au o idade enca adas como uma ameaça) e a al u a
p esen e, no caso dos que se encon am abs inen es, em que a elação com a au o idade é
bem mais pací ica. É impo an e e em conside ação, nes e caso, que as espos as dadas
pelos consumido es p oblemá icos pode ão e sido in luenciadas po alguma
desejabilidade social, uma ez que, como já se e e iu, o con ex o onde as en e is as
o am conduzidas oi um con ex o de consul a, bas an e o mal.
En e os consumido es não p oblemá icos p e alecem as e e ências nega i as na
elação com a au o idade, egis ando-se apenas uma alusão posi i a ao e ei o secu izan e
que a p esença de polícias ou segu anças em num ambien e no u no. De es o, as igu as
de au o idade não são is as como um aliado, mas an es como uma ameaça:
“Não, sin o-me comple amen e insegu a na p esença de um polícia ou de um
segu ança endencialmen e […] endo em con a a legislação e en o em con a a sociedade
em que i emos, acho que é no mal os consumido es de alguma subs ância, seja ela qual
o , sin am isso em elação à polícia. P o egidos, nunca, não.” (I.P.)
São ambém apon ados episódios de iolência po pa e da polícia:
“Um de nós (es á amos 7 pessoas) es a a a uma um cha o. […]Le ei dois socos
que só não ombei pa a o lado po que sou g ande e já le ei mui os na ida e p on o, sei
le a um soco.” (J.P.);
“Aí es á, le ei no ocinho da bó ia lá em Pa edes.” (V.C.).
A ep esen ação que os en e is ados des e g upo ap esen am de segu anças p i ados
é ambém mui o nega i a – um dos en e is ados chega a e e i -se a es es como “uma
má ia”, e e indo que são pessoas iminen emen e iolen as, pouco einadas pa a esol e
con li os de o ma pací ica. No e-se que es es segu anças são indi íduos que abalham em
con ex o de di e são no u na, e não du an e o dia, endo po isso ine i a elmen e que lida
com indi íduos al e ados que pelo álcool, que pelas d ogas.
52
4. Discussão
Faupel (1991), in oduzindo a sua ob a, e e e-se à condição de exclusão a que os
consumido es de he oína são subme idos: “The li es o hese indi iduals a e in mos ways
no di e en om hose o hei iends and neighbo s who do no use he oin. Many he oin
addic s wo k a legi ima e jobs. They ha e amilies. They enjoy many o he same ypes o
ec ea ional ac i i ies as hose o us who do no use he oin. Ye he wo ld o he oin use is
qui e seg ega ed om he day- o-day li es o mos Ame icans. Consequen ly, nume ous
s e eo ypes o he oin addic ion ha e been cul i a ed, many o which bea li le
esemblance o he expe ience o mos addic s” (Faupel, 1991, p. 16).
A expe iência da he oína, mais do que uma expe iência ísica é, po an o, uma
expe iência social (Faupel, 1991). É in e essan e eco da , nes e pon o, aquilo que um dos
en e is ados do p esen e es udo apon a, a dada al u a: aquelas subs âncias cujos e ei os
isí eis são acilmen e con undidos com álcool são as que p oduzem menos
es igma ização do consumido , p ecisamen e po es e pa ece es a sob o e ei o de uma
subs ância legal. Po ou o lado, a igu a do junkie, consumido de he oína po excelência,
é apon ada pelos pa icipan es como aquela que mais é es igma izada e ma ginalizada.
Assim, não é a in oxicação em si que p oduz seg egação, mas sim a subs ância es i a, o
“ u o p oibido”.
De ac o, ao longo des a monog a ia oi possí el in e i es a mesma conclusão: o
es a u o diminuído dos consumido es de he oína p ende-se não com as pa icula idades
especí icas des a subs ância, mas com as condições, ou o meio, que a odeia – a he oína az
pa e de um mundo social a as ado da sociedade no ma i a, que cons i ui uma e dadei a
subcul u a com ca a e ís icas p óp ias. Faupel (1991) e e e-se às condições em que é
possí el ob e he oína, apon ando-as como o p incipal a o pa a a es igma ização e
ma ginalização dos seus consumido es: con a iamen e a ou as subs âncias psicoa i as
(po exemplo, os medicamen os), a he oína apenas pode se adqui ida de um modo ilegal e
em ci cui os a as ados da sociedade ge al, algo que em um p o undo impac o na ida do
consumido . A ime são no submundo “da d oga” a as a o consumido cada ez mais dos
ci cui os no ma i os, eme endo-o pa a uma condição cada ez mais ma ginalizada e
es igma izada, algo que não acon ece no caso, po exemplo, da dependência de álcool, uma
d oga legal (Faupel, 1991). Nas en e is as conduzidas com consumido es e ex-
consumido es de he oína no âmbi o da p esen e monog a ia oi e e ida á ias ezes es a
ime são na subcul u a associada a es a d oga, após a dependência es a ins alada, mesmo
po pa e de u ilizado es sem amigos ou conhecidos consumido es. Es a pe ença é is a
53
como algo nega i o – um dos pa icipan es chama a es e meio “A Liga dos úl imos”, em
om dep ecia i o – po implica uma diminuição do es a u o social: a pessoa deixa de se
“no mal”, passando a se “olhada de lado” e “ a ada abaixo de cão”, inclusi e po quem
lhe ende o p odu o que ai consumi .
Go man (1988) apon a que uma das o mas mais e icazes de lida com um a ibu o
po encialmen e es igma izan e é o con olo da in o mação, que é conseguido a a és da
di isão do mundo social em duas ca ego ias: o g upo de pessoas que sabem do “seg edo”
(ge almen e um g upo pequeno, da con iança do sujei o es igma izado) e o es o do mundo
social onde o es igma izado se encon a inse ido. Ao longo das en e is as oi possí el
apu a , que jun o de consumido es p oblemá icos, que de consumido es não
p oblemá icos, que ocul a os consumos é algo enca ado como absolu amen e necessá io
pa a a manu enção de uma imagem pública a o á el, u ilizando os en e is ados es a
mesma écnica de di isão do mundo social: o g upo de pessoas a quem o consumo de
d ogas é e elado é ela i amen e pequeno, sendo cons i uído essencialmen e pela amília
nuclea e amigos mais p óximos (no caso dos consumido es não p oblemá icos es e g upo
é um pouco mais ala gado, algo que pode e en ualmen e deno a uma meno
es igma ização).
Thompson e al. (2003) apon am es e mesmo dado numa amos a de dança inas
e ó icas ( opless dance s): as en e is adas des e es udo di idem cuidadosamen e o seu
mundo social en e as pessoas que conhecem a sua p o issão e as que não conhecem.
Su ge, en e as en e is adas des e es udo, um e ei o que ambém oi isí el no discu so de
alguns pa icipan es: o e ei o “nós e sus eles”, ha endo uma maio cumplicidade en e
dança inas e, no caso dos en e is ados no âmbi o des a monog a ia, en e consumido es –
é apon ada á ias ezes uma maio empa ia pa a com ou os consumido es de d ogas. A
imagem pessoal su ge ambém como um elemen o ele an e no que conce ne à
es igma ização: como imos nos esul ados ob idos, a p esença de de e minados elemen os
isuais pode le a , po si só, à exclusão do indi íduo. No caso dos consumido es
p oblemá icos, é apon ada mui as ezes a isibilidade dos consumos: os e ei os ou
“ma cas” que a he oína deixa no consumido são mui as ezes apon ados como algo
pe ce í el a qualque pessoa. Is o o na-se pa icula men e ele an e se i e mos em con a
que o consumo des e ipo de d oga é p o undamen e es igma izado: ao não se possí el
esconde o consumo, o consumido e á que lida , ob iga o iamen e, com as ensões do
quo idiano, na de inição de Go man (1988).
54
5. Conside ações inais
Lipo e sky (1989), epo ando-se ao azio exis encial dos empos mode nos,
ein en a o mi o de Na ciso: es e já não se encon a imobilizado dian e da sua imagem
ixa, não ha endo já imagem, nem mais nada pa a além de uma in e miná el busca de si. A
au oconsciência eio subs i ui a consciência de classe, a consciência na císica eio
subs i ui a consciência polí ica – a au o abso ção pe mi e, a a és da desa ecção da es e a
pública, uma adap ação uncional ao isolamen o social. O na cisismo dos empos
mode nos p oduz ambém, segundo o au o , um azio exis encial: quan o mais se in es e
no Eu, maio es são as ince ezas e as in e ogações, o nando-se o Eu “um espelho azio à
o ça de “in o mações”, uma ques ão sem espos a” (Lipo e sky, 1989, p.53).
A indi idualização se ia, des e modo, não um dado a p io i mas sim um p ocesso
con ínuo de p odução de si mesmo e de c escimen o indi idual, ans o mando-se a
pe sonalização e a undação do indi idualismo, po si só, numa ideologia. A
indi idualização se ia ainda uma lu a con a a des uição do sujei o, acon ecendo aquilo
que Lipo e sky (1989) desc e e como uma deses abilização das iden idades sociais e da
p óp ia pe sonalidade: o na -se agen e de si mesmo de e acon ece independen emen e de
odos os obs áculos, não sendo nunca uma me a de ini i amen e alcançada. É p ecisamen e
es a díade de cons ução e sus des uição de si que se encon a p esen e nos consumos de
d ogas desde o séc. XIX, encon ando-se a oxicodependência e o ce ne da sociedade
democ á ica in imamen e elacionados a a és da con adição es u u al en e o laço social
e a libe dade de cada um. A oxicodependência pode á, des e modo, se in e p e ada
an opologicamen e como uma en a i a de esolução das ensões e pa adoxos associados
ao exe cício da libe dade mode na, sendo es a ao mesmo empo on e de c iação e
alienação pa a o indi íduo (Fa ela, 1991, como ci ado em Tinoco, 2005).
Ao de ini , na “gue a con a as d ogas”, o consumido como al o p e e encial,
iniciou-se um p ocesso de es igma ização des es indi íduos que culminou na sua exclusão
(Ba a a, 1990). A o ma como o “p oblema” das d ogas é a ada a ní el social possui uma
eno me in luência no modo como o consumo de subs âncias é concep ualizado e,
consequen emen e, no modo como os consumido es são a ados. Vá ios au o es êm indo
a apon a c í icas a polí icas ep essi as ace ao consumo de d ogas, a i mando que es a
pos u a p oibicionis a aba ca mais cus os do que bene ícios em e mos p á icos. Ba a a
(1990) eco e a concei os da sociologia mode na pa a explica os p ocessos a a és dos
55
quais a ep essão do consumo de d ogas p oduz a exclusão de quem o az: o eo ema de
Thomas es abelece que, quando a i mamos epe idamen e uma de e minada ep esen ação
da ealidade, es a a i mação p oduz e ei os eais co esponden es. No caso da d oga, a
eação social c iminalizan e e ma ginalizan e p oduziu, po si mesma, a ealidade que a
legi ima – Kaminski (1990) apon a, a espei o des e enómeno que “La oxicomanie es sa
p op e ép ession. Une boucle se e e me elle un se pen qui se mo d la queue” (Kaminski,
1990, p.195). A eo ia de Robe Me on pode ambém se aplicada ao caso das d ogas: a
ep esen ação da d oga que se encon a na o igem das polí icas ep essi as e que é
u ilizada pelos agen es mo ais na cons ução de um p oblema social associado à d oga é,
nes e sen ido, uma p o ecia que se au o cump e, de aco do com o mecanismo p opos o po
Me on. O p óp io consumido acaba po co esponde isicamen e àquilo que ace ca dele
se p o e izou: su gem sin omas de ansiedade, isolamen o e mesmo pe u bações de
pe sonalidade associadas ao uso de d ogas – es es são ap esen ados como e ei os p imá ios
do uso de d ogas quando, no undo, cons i uem e ei os secundá ios des e mesmo uso,
esul an es da sua c iminalização (Ba a a, 1990).
Es es agen es mo ais se iam, de aco do com Be and (1986), di e sos g upos de
pode e/ou in luência, apon ando-os como os culpados da pe manência de um modelo
p oibicionis a ace às d ogas: a despenalização do consumo de d ogas (não a
desc iminalização ou despenalização do á ico de d oga, mas a sua egulação das
subs âncias po pa e do Es ado, como acon ece no caso das d ogas legais – po exemplo,
com o álcool) a ia uma sé ie de p oblemas aos in e esses des es g upos. A classe médica
deixa ia de se a única “ esponsá el” pela adminis ação de á macos, endo o seu pode
diminuído; as en idades p odu o as de d ogas legais (sejam elas a indús ia a macêu ica ou
as companhias de abaco, inho e ce eja) e iam, mui o possi elmen e, p ejuízos
económicos; as o ças policiais pe de iam um p e ex o pa a jus i ica a sua ação em p ol da
manu enção da “o dem social”.
Assim, a oxicodependência é, acima de udo, uma cons ução social, um discu so –
pa a Kaminski (1990), os consumido es de d ogas são pessoas que consomem d ogas, ao
passo que os oxicodependen es são uma ein e p e ação des es úl imos num campo
pu amen e ep essi o. Mais, a c iminalização do cená io associado à oxicodependência
se e um impo an e p opósi o: des ia as a enções de de e minações es u u ais de um mal-
es a pa ilhado po odos nós – econhece-se, no p odu o (d oga), o mal e a causa des e
mal (Kaminski, 1990). A d oga ans o ma-se, po es e meio, em bode expia ó io do mal-
es a social ou, como lhe chamou Fe nandes (2009), num dela o da e osão da no ma.
56
Assim se o na comp eensí el a ep odução da igu a do oxicodependen e como doen e:
sac i ica-se o sujei o em p ol da manu enção de uma o dem social – a sua “doença” é ú il
pa a explica , po exemplo, a delinquência (em de imen o da pob eza e de ou os a o es
es u u ais de maio dimensão) e legi ima o seu “ a amen o” (Kaminski, 1990). Daí que a
p á ica clínica seja mui as ezes acusada de ep oduzi es e es a u o de en e mo do
oxicodependen e: mui as ezes, em ez de se en a abalha no sen ido de melho a a
condição social do indi íduo, abalha-se p ecisamen e no sen ido con á io, ao ea i ma a
sua “doença” (Cohen, 1990).
Tal como B ochu (1997) apon a, a espei o des a ques ão, é p eciso não cai na
a madilha de uma solução exclusi amen e médica dos p oblemas de oxicodependência: o
po encial dependógeno de uma subs ância não pode medi -se unicamen e pelos e ei os do
consumo abusi o des a, de endo em ez dis o se comp eendido como a combinação de
um indi íduo excluído com uma d oga num con ex o de u u a social. Assim, e endo em
con a que as pessoas não i em no azio, é e ado espe a qualque ipo de esul ado
signi ica i o com medidas que in e enham apenas a ní el indi idual, o nando-se
necessá ia a in e enção a ní el social, uma ez que a sociedade, no seu conjun o, é
pa cialmen e esponsá el pelo consumo abusi o de subs âncias do sujei o. A pob eza, a
exclusão, a desag egação da amília, o desemp ego es u u al (especialmen e nos es a os
sociais mais baixos e independen emen e da escola idade do indi íduo) são elemen os que
êm a as a os elemen os das classes mais des a o ecidas da sociedade “no mal”. Uma
consequência des e a as amen o e da ausência de on es de sa is ação exis encial que ele
aca e a é, p ecisamen e, a p ocu a de um escape – como já se iu, a p óp ia
oxicodependência em sido associada ao “ azio do Eu” que ca ac e iza o indi idualismo
mode no. Na conceção de B ochu (1997) o consumo de d ogas cons i ui p ecisamen e um
eículo de uga a uma ealidade injus a, pelo que a gue a que se em a ado con a as
d ogas de e ia, ao in és dis o, se a ada con a as desigualdades sociais e con a os
a o es de exclusão que pe sis em na nossa sociedade.
Numa in es igação conduzida no Eas Ha lem, em No aYo k, Phillipe Bou gois
(1995) dedicou-se ao es udo das dinâmicas do á ico de c ack. En e as conclusões que o
au o apon a, uma das mais impo an es é p ecisamen e o ac o de a exclusão social
p oduzi , em con ex os p o undamen e es igma izados e ma ginalizados, uma maio adesão
à economia pa alela aumen ando, po exemplo, o á ico de d ogas. No caso do Eas
Ha lem, a seg egação acial, a pob eza, o desemp ego es u u al, a ausência de apoio social
à população – em suma, aquilo que o au o apelida de “exclusão do in e io ” (a classe
57
média/al a no e ame icana conseguiu, com sucesso, e ugia -se nos subú bios das g andes
cidades, deixando o cen o da cidade en egue a es a os sociais mais baixos) – são a
p incipal causa do desen ol imen o do me cado de c ack. A enda de d oga su ge não só
como uma o ma de subsis ência, po pe mi i con o na a pob eza ex ema em que es a
população i e, mas ambém como um meio de en a ecupe a um es a u o pe dido: o
pa ia ca da amília ( igu a impo an e nas cul u as hispânicas, p edominan es no “El
Ba io”) pode ia, assim, e de ol a pa e do seu papel social.
Apesa da dis ância geog á ica que nos sepa a do con ex o es udado po Bou gois
(1995), es a conclusão aplica-se à ealidade po uguesa a ual: ao exclui cada ez mais
populações já de si ma ginalizadas, es á-se a epe cu i um ciclo de es igma ização e
ma ginalização que conduz apenas a um ag a amen o de ques ões sociais como o consumo
de d ogas e a delinquência. No caso da amos a es udada nes a monog a ia, é apon ada po
odos os pa icipan es (consumido es p oblemá icos e não p oblemá icos de d ogas ilíci as)
a eno me di iculdade de inse ção no me cado de abalho (po ou as pala as: a ejeição,
po pa e das en idades emp egado as, des es indi íduos), uma ez conhecido o es a u o de
consumido , ou mesmo de ex-consumido (no caso dos p oblemá icos). O a, sendo es a
di iculdade em g ande pa e de ida à conjun u a económica a ual – Po ugal em,
a ualmen e, uma axa de desemp ego de 14,9% (www.agencia inancei a.iol.p /economia,
em: 19/06/2012), es a p ende-se ambém com o es igma que cada um des es consumido es
ca ega consigo, mesmo quando deixam de o se e se o nam “ex-consumido es”. Es e ipo
de seg egação, pa a além de inco e o, ai p ecisamen e no sen ido in e so da in eg ação e
da igualdade de opo unidades de acesso a indi íduos ma cados po um es igma, que
social, que indi idual (ou uma junção de ambos, no caso do consumo de d ogas).
Como no a inal, gos a ia de apon a que, embo a a legislação a ual em Po ugal
enha já despenalizado o consumo de subs âncias ilíci as, há ainda um caminho longo a
pe co e no sen ido da in eg ação dos consumido es de d ogas, pa icula men e dos
consumido es de he oína e cocaína, mais excluídos e es igma izados. É necessá io um
es o ço na in eg ação des es indi íduos, po exemplo, no me cado de abalho, algo que se
o na pa icula men e di ícil com a conjun u a económica a ual – pa a além do aumen o do
núme o de desemp egados, a ecen e ex inção do Ins i u o das D ogas e da
Toxicodependência pode á e implicações sé ias no es o ço in eg a i o (ou ausência des e)
dos he oinómanos na “nossa” sociedade. Rea i mando aquilo que p ocu ei ansmi i nas
páginas des a monog a ia, a p oblemá ica es udada – o es igma associado ao consumo de
64
Anexo 1: Guião da en e is a
Pe gun as iniciais/ inais (Ca ac e ização)
1. Que d ogas já consumiu?
2. Qual a idade do p imei o consumo/p imei a subs ância consumida?
G upo 1:
1. Qual/quais a/s subs ância/s que consome habi ualmen e?
2. Qual a egula idade com que as consome?
3. Qual a ia de consumo?
4. Qual/quais o/s con ex o/s onde cos uma consumi ?
5. Acha que consumi d ogas pode disc imina as pessoas?
6. Que d oga lhe pa ece disc imina mais as pessoas?
G upo 2:
1. A u ilização da subs ância (expe iência de consumo) em sido posi i a?
2. Lemb a-se de alguma má expe iência associada ao seu consumo?
3. O que é que o consumo ouxe à sua ida?
G upo 3 (ESTIGMA):
1. Lemb a-se de um episódio em que enha sido mal a ado po consumi d ogas?
2. Como se sen e quando ai a uma en e is a de emp ego?
3. Como se sen e quando se di ige ao cen o de saúde ou ou o es abelecimen o des e
géne o?
4. Sen e que ocul a o consumo de d ogas é an ajoso em algumas si uações? Se sim,
quais?
G upo 4 (MANIPULAÇÃO DA IDENTIDADE DETERIORADA):
1. Como é que lida publicamen e com o consumo de d ogas?
2. Sen e que é a ado de o ma di e en e po consumi d ogas?
3. Conside a que as pessoas pe cebem que consome d ogas?
3.1) A sua amília em conhecimen o dos consumos que az?
3.2) No seu abalho sabem que consome? Como lida/lidou com a si uação?
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4. Sen e-se mais segu o na p esença de um polícia ou segu ança (agen es da au o idade em
ge al)?
4.1) Alguma ez sen iu que a au o idade o a ou mal po consumi d ogas?
4.2) Lemb a-se de um episódio especí ico que enha sido mal a ado po consumi d ogas?
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Anexo 2: G elha de análise de con eúdo
Ca ego ias
Subca ego ias
Indicado es
Expe iência de
consumo
(E)
Expe iências
co po ais (Ec)
Expe iências pessoais elacionadas com a
i ência dos e ei os da d oga a ní el co po al.
Re e ências a al e ações senso iais (ex.
do mência) ou o gânicas (ex. omi a )
deco en es do uso de d ogas.
Expe iências
psicológicas (Ep)
Expe iências pessoais elacionadas com a
al e ação de p ocessos psicológicos
deco en es da u ilização de d ogas.
Re e ências a al e ações de consciência,
expe iências pe ce i as, comp eensão de
enómenos, in e p e ação do discu so de
e cei os, expe iências do o o emocional
deco en es do uso de d ogas.
Consequências
do consumo
(C)
Plano pessoal (Cp)
Consequências do consumo a ní el pessoal.
Re e ências ao impac o que a expe iência do
consumo e e na ida pessoal, a ní el
indi idual. Ex.: consequências a ní el da
saúde ísica.
Plano in e pessoal
(Ci)
Consequências do consumo a ní el
in e pessoal. Re e ências ao impac o que a
expe iência do consumo e e na elação com
os ou os. Ex.: consequências do consumo na
ida amilia .
Es igma
(ES)
Noções ge ais de
es igma (ESn)
Re e ências à es igma ização deco en e do
uso de d ogas em si uações gené icas, is o é,
que não se e i am à expe iência i ida
(indi idual ou em g upo), mas an es a
si uações hipo é icas – po exemplo: “Uma
pessoa que consome d ogas é mal is a”.
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Acon ecimen os
indi iduais (ESi)
Episódios em que a pessoa se encon a a
isolada e sen iu que oi al o de maus a os.
Acon ecimen os em
g upo (ESg)
Episódios em que a pessoa es a a em g upo e
sen iu que oi al o de maus a os.
D ogas consumidas
(ESd)
Quando o es igma é associado di e amen e a
uma d oga especí ica.
Espaços (ESe)
Con ex os/espaços ísicos associados ao mal-
es a , i.e., onde a pessoa sen iu que oi
mal a ada.
Manipulação
da iden idade
de e io ada
(M)
Ges ão da
in o mação pessoal
(Mg)
Re elação ou encob imen o dos consumos.
Imagem pessoal
(Mi)
Au o e hé e o pe ceção: o ma como se ê e
pe ceção daquilo que os ou os pensam de si
( o ma como conside a que os ou os o/a
êm).
Relação com igu as
de au o idade (M )
Fo ma como se sen e na p esença da
au o idade e modo como in e age com
agen es da au o idade.