Projeto Ócio- Media Colaborativo e participativo
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— Projeto Ócio Media colaborativo e participativo — Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Design da Imagem Cláudio Miguel de Abreu Rodrigues Orientação Professor Doutor Heitor Alvelos Co-orientação Mestre Daniel Brandão Porto, setembro de 2012
— Projeto Ócio Media colaborativo e participativo www.ócio.oof.pt — Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Design da Imagem Cláudio Miguel de Abreu Rodrigues Orientação Professor Doutor Heitor Alvelos Co-orientação Mestre Daniel Brandão Porto, setembro de 2012
O Ócio não existiria sem o apoio, participação e colaboração de toda a sua comunidade. A estas pessoas, que oferecem a este projeto os poucos momentos de tempo livre que têm, dedico um profundo agradecimento, assim como reafirmo e me comprometo a dar continuidade a todo este trabalho. A todas as pessoas que escrevem, comentam, partilham e conviveram connosco nos Encontros ociosos, um muito obrigado, e até já! Agradeço ao meu orientador, Professor Doutor Heitor Alvelos, por toda a compreensão e apoio prestados ao longo deste percurso; pelas sugestões, pela paciência, pela amizade. Muito obrigado. Agradeço ao meu co-orientador, Mestre Daniel Brandão, por me ter acompanhado em todo o projeto, desde a sua concepção. Foi uma sorte aqueles minutos de conversa no IPCA! Além do apoio incansável, ganhei um amigo! Um forte abraço, muito obrigado. Agradeço ao Pedro Morgado por partilhar, com amizade, compreensão, motivação e alegria, os últimos cinco anos da minha vida. Este projeto também é teu! Agradeço à minha família, em especial aos meus pais, Helena e João, e à minha irmã, Andreia. Obrigado por tudo. Agradeço a todas as pessoas que, por vários motivos, apoiaram ou influenciaram este projeto: Professor Doutor Adriano Rangel, Amílcar Correia, Ana Oliveira, Catarina Silva, Eduardo Nunes, Fernando Martins, Helena Garcia, Jorge Marques, João Rosmaninho, João Vasconcelos, José Martins, Ivo Rainha, Leonardo Pereira, Luís Octávio Costa, Manuel Anastácio, Marta Madureira, Nuno Alves, Nuno Martins, Nuno Miranda, Paulo Cunha, Pedro Candeias, Pedro Ribeiro, Rita Moreira, Samuel Silva e Sílvia Gomes. Agradeço, em especial e com um abraço forte, aos meus amigos de sempre: os de Guimarães e os que fiz em Barcelos, no Porto, em Viana em Braga. A minha personalidade tem sido construída, de forma colaborativa, por todos vós. Aos meus professores e colegas do Mestrado em Design da Imagem, em especial à Vera Martins, com quem partilhei diariamente o projeto, muito obrigado. Por fim, agradeço aos meus colegas de trabalho da OOF, do Reimaginar Guimarães, da VICE e do departamento de comunicação da Guimarães 2012, por compreenderem a importância que dediquei a este projeto e que, por isso, aceitaram o cansaço, os atrasos e as ausências. AGRADECIMENTOS
— 7 — Projeto Ócio Media colaborativo e participativo 11 Resumo 13 Abstract 15 Capítulo I O que é o Ócio? 17 Introdução 19 A plataforma digital 21 A página no Facebook 23 A comunidade 25 Capítulo II Porquê o Ócio? 27 Motivação 29 Questões de Investigação 31 Contextualização teórica e conceptual 32 Pensamento contemporâneo sobre media participativos 35 A realidade de Guimarães 37 Estado da arte 45 Capítulo III Como foi criado o Ócio? 47 Metodologia 49 Observação intuitiva 49 Análise de imagens 50 Inquérito 51 Entrevistas exploratórias 53 Entrevistas 53 Canal 180 54 Público P3 55 Porto 24, Dizer Design e Vice 59 A comunidade do Ócio 59 Convites 60 Encontros ociosos 63 A plataforma digital 63 Wordpress 63 Escolha do tema 64 Design 64 Organização dos conteúdos 65 Plugins 67 A página no Facebook 69 A divulgação 69 Pecha Kucha Night Guimarães 69 Jornal O Povo 70 Capital Cultural RUM 70 Encontros ociosos SUMÁRIO
— 8 — 73 Capítulo IV Considerações finais 75 Síntese 79 Sumário de resultados 81 Limitações encontradas 83 Desenvolvimentos futuros 85 Capítulo V Bibliografia 87 Bibliografia selecionada 89 Anexo 1 Pecha Kucha 91 Texto de candidatura 92 Apresentação Pecha Kucha 96 Imagens da apresentação 98 Vídeo da apresentação 99 Contributos recolhidos 105 Anexo 2 Entrevistas 107 Canal 180 116 Público P3 123 Anexo 3 Análises bibliográficas 125 A estrela-do-mar e a aranha 135 Comunicação Daniel Brandão 137 Comunicação Clay Shirky 141 Anexo 4 Análise visual, inquérito 143 Análise visual 156 Inquérito online 165 Anexo 5 Entrevistas concedidas 167 Jornal O Povo n.º 1644 169 Capital Cultural RUM
— 17 — O que é o Ócio? Capítulo I Ócio é a denominação do projeto de media participativo e colaborativo que reúne três características principais: uma plataforma digital, uma página no Facebook e uma comunidade formada propositadamente para o projeto que, através dos seus contributos, dinamiza as duas anteriores. Desenvolvido no âmbito do Mestrado em Design da Imagem este projeto pretende, por via da própria experiência quotidiana da sua comunidade, reequacionar a própria forma de pensar, viver e definir “cultura”, no contexto vimaranense. A plataforma digital, acessível através do endereço www.ocio.oof.pt, além dos contributos dos utilizadores da própria plataforma, permite o acesso a todas as funcionalidades criadas e desenvolvidas nesta investigação, assim como é considerada o ponto privilegiado de divulgação das atividades da comunidade e das características do projeto. Como sobrevive através dos contributos produzidos pelos utilizadores, foi necessária a constituição de uma comunidade, tendo sido, para isso, essencial desenvolver um conjunto de estratégias que pudesse formar este primeiro grupo. Uma das soluções encontradas, que possibilitava, também, a dinamização da própria plataforma digital e a divulgação dos objetivos do projeto, foi o desenvolvimento de uma página da comunidade na plataforma Facebook, tornando-se, também este, um local de criação, agregação e disseminação de conteúdos sobre cultura, que permitam uma discussão e reflexão sobre o tema, em conjunto com a oferta de um serviço público de divulgação e dinamização cultural a nível local. Tendo como ponto de partida uma realidade virtual, o projeto Ócio transforma-se diariamente de forma a adequar-se às necessidades da sua comunidade. Esta, atualmente, começa a organizar- -se para além do espaço virtual, promovendo inclusive eventos públicos com programação de atividades culturais. Além de um espaço de criação, partilha e discussão de conteúdos sobre cultura, o Ócio está a transformar-se num motivo impulsionador de uma nova visão da cultura, muito mais proactiva, muito próxima do quotidiano dos seus membros. INTRODUÇÃO
— 18 — Este projeto foi desenvolvido tendo em conta: - a escassez, em Guimarães, de publicações periódicas sobre cultura; - as potencialidades dos media digitais e dos baixos custos associados; - o sentimento de “vimaranensidade” como mote impulsionador para a criação de uma comunidade proactiva; - o impulso que Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura pode oferecer num projeto com estas características; - o contributo que um projeto académico pode ter no desenvolvimento de algo útil para uma comunidade.
— 19 — O que é o Ócio? Capítulo I O Ócio materializa-se numa plataforma digital, acessível online através do endereço www.ocio.oof.pt, onde é possível aceder a todas as ofertas e características do projeto: registar-se no projeto; produzir, agregar e visualizar conteúdos; entrar em contacto com a comunidade; aceder à página do Facebook. Sendo objetivo do projeto a criação de um espaço que permita a divulgação e discussão de conteúdos sobre cultura, o Ócio materializa-se numa plataforma digital onde é dado destaque aos conteúdos produzidos e agregados pelos autores (texto e hipertexto, vídeo, som e imagem). Por não possuir uma equipa editorial, o Ócio tem poucas normas para as contribuições: não publica comunicados de imprensa, procura perspectivas pessoais sobre os temas abordados e restringe-se, no que diz respeito aos conteúdos, ao espaço geográfico de Guimarães. A plataforma digital é, assim como o restante projeto, um lugar predisposto à mudança, transformando-se periodicamente – um observatório sobre o nosso quotidiano cultural. Disponibilizou o seu primeiro contributo a 19 de fevereiro de 2012, cerca de um mês depois da abertura oficial do programa “Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura”, que serviu de contexto e permitiu circunscrever o território de ação do estudo à região de Guimarães. Até ao momento em que está a ser redigida esta dissertação, a plataforma digital encontra-se em fase beta e, de forma a controlar o objeto de estudo, o registo é condicionado a autores convidados. Numa fase posterior, a possibilidade de registo livre na plataforma digital será aberto a qualquer utilizador. Numa fase inicial, os temas publicados pelos autores centram-se em sugestões de eventos futuros e textos de opinião crítica sobre espetáculos que tenham já acontecido em Guimarães – distribuídos pelas categorias Cinema, Concertos, Espetáculos, Exposições e Espaços –, assim como conteúdos sobre assuntos que não tenham espaço nas categorias anteriores, categorizados como Opções Especiais. Os autores são livres de publicarem aquilo que entenderem, pelo que as categorias vão-se transformando e adaptando progressivamente, em intervalos de tempo trimestrais. A plataforma digital contém, ainda, um formulário de contacto para o envio de sugestões ou conteúdos, para além da possibilidade de contacto através do endereço de correio electrónico heyocio@ gmail.com. Possibilita, ainda, a discussão dos conteúdos publicados pelos autores através da ferramenta de comentários do Facebook. A PLATAFORMA DIGITAL
— 20 — A plataforma digital Ócio tem, a 10 de setembro de 2012, 123 artigos publicados, e 24 utilizadores registados. Na página do Facebook, na mesma data, o Ócio tem 513 seguidores. Figura 1 Imagem da página principal da plataforma digital Ócio, disponível em www.ocio.oof.pt
— 21 — O que é o Ócio? Capítulo I O projeto prático desdobra-se, atualmente, em duas partes que se complementam entre si: a plataforma digital e a página no Facebook. Sendo certo que plataforma digital reúne, em si, todas as funcionalidades do projeto, considerou-se essencial a presença na rede social Facebook, de forma a disseminar os conteúdos produzidos pelos utilizadores, a par da divulgação dos objetivos do projeto. O Facebook reúne, na atualidade, uma comunidade de cerca de 910 milhões de utilizadores ativos (até março de 2012)1, que partilham entre si conteúdos originais e, sobretudo, hiperligações de outros conteúdos externos à plataforma. Este projeto não poderia ficar indiferente à rede social com mais utilizadores da atualidade, pelo que foi criada uma página do Ócio no Facebook, de forma aproveitar as potencialidades desta rede: incentivar a comunidade à participação, aumentar o interesse dos leitores pelos conteúdos disponibilizados, angariar novos autores, disseminar conteúdos e comunicar diretamente com a comunidade, no local de reunião privilegiado desta. Atualmente, a maioria dos projetos desenvolvidos na área dos media digitais dispõe de uma página no Facebook, geralmente homónima. Este canal de comunicação é muitas vezes ativado em conjunto com outros formatos e suportes, como, por exemplo, a disponibilização dos conteúdos em aplicações para tablets e smartphones. No final, é possível aceder ao mesmo conteúdo através de meios distintos, não havendo diferenças significativas nos conteúdos apresentados em cada um deles. Ao contrário do que identificámos no nosso estudo como habitual, o Ócio não se propõe, apenas, a disponibilizar os conteúdos da sua principal plataforma digital nas restantes plataformas e suportes, como as aplicações de tablets, smartphones e redes sociais. O Ócio tenta identificar as características principais dos utilizadores das diferentes plataformas de comunicação, como as redes sociais online, de forma a disponibilizar e a criar conteúdos que interessam às comunidades utilizadoras dessas plataformas. Nesse sentido, a página do Ócio no Facebook é atualizada de forma ligeiramente diferente da plataforma digital do projeto. Embora sejam partilhadas hiperligações para os artigos publicados na plataforma, é também neste local que os objetivos do projeto vão sendo revelados, convidando constantemente os leitores ao envio de conteúdos para a plataforma. 1—Disponível em www.newsroom.fb.com/content/default.aspx?NewsAreaId=22 A PÁGINA NO FACEBOOK
— 22 — Assim, os conteúdos publicados na página do Facebook não são apenas resultado da partilha dos conteúdos criados na plataforma, sendo também produzidos conteúdos propositadamente para esta página, tornando-se no local de acesso mais direto ao leitor. Desta forma, a comunicação acontece de uma forma mais dinâmica, espontânea e atualizada. Numa fase posterior do projeto, em que o registo na plataforma será de acesso livre, a página do Ócio no Facebook será o ponto de contacto privilegiado entre a comunidade de autores e leitores. Deverá ser considerada a presença noutras redes sociais, como, por exemplo, o Tumblr, o Twitter e Google Plus, de forma a ser possível captar utilizadores que não tenham presença no Facebook. A opção de iniciar a presença nas redes sociais através do Facebook foi tomada tendo em conta que, atualmente, esta é a principal porta de entrada na Internet da maioria dos utilizadores, fenómeno que se deve, quanto a nós, à grande popularidade da plataforma, às suas fortes características de sociabilização e à sua capacidade de agregação de conteúdos externos à própria plataforma, provenientes de toda a rede em geral. Sendo este um projeto em constante transformação, caso os seus seguidores no Facebook migrem para outra plataforma social, o Ócio deverá expandir-se para essa mesma rede. Figura 2 Imagem da página principal da página do Ócio no Facebook, disponível em www.facebook.com/heyocio
— 23 — O que é o Ócio? Capítulo I A criação da comunidade é um aspecto fundamental deste projeto, tendo sido, inclusive, o seu ponto de partida. Embora passe quase despercebida, a comunidade do Ócio é, efetivamente, aquilo que mantém o projeto a funcionar, tendo sido o processo mais complexo de todo o projeto. A criação da comunidade começou meses antes da abertura da plataforma digital, através dos convites efetuados a pessoas que consideramos ideais para se tornarem nos primeiros autores do projeto. O registo na plataforma apenas através do convite foi uma opção tomada deliberadamente, porque se entendeu que não havia, ainda, uma comunidade formada disponível para iniciar o projeto. Assim, em primeira estância, a plataforma digital foi iniciada em conjunto com a criação da comunidade, num processo de crescimento contínuo. No projeto Ócio o tema de partida é a “Cultura em Guimarães”, mote que, quanto a nós, é ainda muito abrangente, tornando difícil que as pessoas encontrem um interesse em comum. No entanto acreditamos que, se optássemos por circunscrever ainda mais o tema de partida — por exemplo “Concertos no Centro Cultural Vila Flor” —, o público alvo tornar-se-ia demasiado reduzido, fazendo com que o projeto não conseguisse utilizadores nem conteúdos suficientes para sobreviver num espaço temporal alargado. De forma a ultrapassar esta limitação – e como consideramos essencial, para os membros de uma comunidade, a identificação de interesses em comum –, foram criadas categorias que condensassem em si estes interesses, como “Cinema”, “Concertos” e “Exposições”, por exemplo. Neste caso, estando o Ócio condicionado geograficamente à área de Guimarães, facilmente se compreende que as categorias pretendem, nesse sentido, falar sobre “Cinema em Guimarães”, “Concertos em Guimarães”, “Exposições em Guimarães” e assim sucessivamente. No Capítulo III desta dissertação descrevemos com mais detalhe a criação desta comunidade, sintetizada nestes pontos: - convites individuais, enviados por e-mail; - reuniões individuais com os autores; - dinamização e convites para a página no Facebook; - reunião entre autores e leitores, no “Encontro Ocioso #1 — Fim de tarde ocioso”; - apoio ao desenvolvimento do evento promovido por autores da plataforma digital; - reunião entre autores e leitores, no “Encontro Ocioso #2 — Festa e picnic com brasas”; - criação de uma página de discussão na plataforma Facebook. A COMUNIDADE
— 25 — Porquê o Ócio? Capítulo II — Porquê o Ócio? Capítulo II
— 32 — Nesse sentido, ambicionou-se desenvolver uma plataforma de interação social com uma organização descentralizada, em que todos os participantes tivessem acesso às mesmas ferramentas e, à partida, aos mesmos poderes. Tomou-se como ponto de partida os modelos que iremos expor de seguida, de forma a ser possível testar, de forma prática, quais as potencialidades das sugestões apresentadas, e até que ponto é que estas sugestões poderiam ser implementadas tendo em conta o contexto em que nos propusemos trabalhar. Considerando o espaço temporal disponível para a realização deste projeto tornou-se inviável analisar, de forma exaustiva, todas as obras identificadas como relevantes para a sua sustentação teórica. Realizaram-se, ainda assim, análises da obra “A estrela-do-mar e a aranha” de Ori Brafman e Rod A. Beckstrom, e das comunicações “The Museum of All – Institutional Communication Pratices in a Participatory Networked World”, por Daniel Brandão, e “Clay Shirky e as intituições vs colaboração”, por Clay Shirky, análises essas que disponibilizamos em anexo. Dedicou-se, ainda, atenção às obras “Cognitive surplus” e “Eles vêm aí”, de Clay Shirky; “Free”, de Chris Anderson; “Everything is miscellaneous”, de David Weinberger; “Você não é um gadget”, de Jaron Lanier; e “O culto do amadorismo”, de Andrew Keen. Pensamento contemporâneo sobre media participativos O surgimento de projetos relevantes de media participativos está intrinsecamente relacionado com as potencialidades oferecidas, hoje, pelas plataformas e ferramentas de comunicação existentes online. Comparativamente, os modelos de distribuição mais antigos, como por exemplo, a impressão, apresentavam poucas ou nenhumas características participativas. Reduzindo consideravelmente os custos de produção e publicação, estas novas tecnologias permitiram uma relação mais competitiva de custo-benefício. Como conclui Shirky (2010), com o surgimento das novas tecnologias “o custo de publicar algo à escala global caiu acentuadamente”. Este facto, no entanto, não é causa única para o aumento de projetos de media participativos e colaborativos. Estes espaços digitais são mais que uma simples tecnologia. Eles alimentam-se através de uma comunidade de utilizadores, que operam segundo uma organização essencialmente cooperativa, que é apoiada pela própria plataforma e onde “os seus elementos podem recrutar-se entre si” (Shirky, 2010). A cooperação na infraestrutura é, aliás, essencial na manutenção dos baixos custos desta solução.
— 33 — Porquê o Ócio? Capítulo II Este tipo de coordenação, distante dos tradicionais modelos empresariais – que se constituíam tipicamente por um local físico, patrões, gestores, operários, entre outros –, permite o encontro e a comunicação direta entre os membros da comunidade, assim como a organização automática dos contributos recebidos por parte de cada membro – recorrendo ao tagging –, tornando todos os contributos facilmente acessíveis através de mecanismos de pesquisa. “Quando se constrói cooperação dentro da infraestrutura, que é a resposta Flickr, podemos deixar as pessoas onde elas estão e levar o problema aos indivíduos em vez de levar os indivíduos ao problema. Organiza-se a coordenação no grupo, e ao fazê-lo obtemos os mesmos resultados sem as dificuldades institucionais.” —“Clay Shirky e as intituições vs colaboração”, conferência disponibilizada online na página do TED (análise em anexo) Esta forma de gestão dos conteúdos permite a organização de grandes quantidades de informação, mas só resulta efetivamente caso seja produzida, também, “informação sobre informação”, ou “metadata” (Weinberger, 2007). Este facto é explorado na obra de David Weinberger “Everything is miscellaneous”, ao desenvolver o aparente paradoxo de que a solução para o excesso de informação é, precisamente, a criação de mais informação (“(...)the solution to the overabundance of information is more information.”) (Weinberger, 2007). “Uma das características fundamentais para a existência de participações, num projeto colaborativo, é a partilha de uma ideologia como ponto agregador da comunidade.” Esta ideia é defendida por Brafman e Beckstrom (2008), ao considerarem a ideologia como “o cimento que une as organizações descentralizadas”. Contudo, tal como assinala Lanier (2011), apesar da ideologia se constituir como elemento agregador, é fundamental que se estabeleça um equilíbrio entre o pensamento do grupo e a própria individualidade dos utilizadores. Neste contexto, o autor defende que, em vez de estimularem a eficiência da mentalidade de grupo, os projetos colaborativos devem “inspirar o fenómeno de inteligência individual”, contribuindo para o mais eficiente e gratificante aproveitamento das potencialidades de cada elemento. Considerando que “num sistema aberto o mais importante não é a liderança, mas o facto de o líder confiar nos seus membros o suficiente para deixar agir em liberdade” (Brafman e Beckstrom, 2008), conclui-se que é essencial oferecer ferramentas aos membros cooperantes de forma a que estes adquiram maior autonomia, aumentando
— 34 — assim, também, o sentimento de pertença ao projeto e a gratificação subjetiva pela sua participação. Como concluem Brafman e Beckstrom (2008), “desde que lhe seja concedida liberdade, desde que possam fazer o que entenderem, [as pessoas que contribuem] sentem-se satisfeitas”. No entanto, como exemplifica Andrew Keen (2007) a liberdade total poderá acarretar riscos, pois “a democratização da informação pode degenerar muito depressa num igualitarismo radical intelectualmente corrosivo”. Outra das estratégias discutidas pelos autores é a da revelação de um incentivo de forma a fomentar a participação na plataforma: “se lhes dermos um motivo mais do que plausível para fazer algo vão fazê- -lo mais frequentemente” (Shirky, 2010). Esta forma de participação colaborativa, em que todos os membros possuem um objetivo comum é uma das mais difícil de alcançar do que a participação resultante da simples partilha. No entanto, como defende Shirky, quando os problemas de coordenação são ultrapassados pode ser alcançado este nível de participação mais profundo, favorecendo todo o projeto (Shirky, 2010). Por forma a minimizar os problemas de coordenação, devem também ser oferecidos à comunidade plenos poderes de autorregulação, tentando não interferir com as suas decisões. A este propósito, Brafman e Beckstrom (2008) assinalam que “as normas, de facto, tornam-se a espinha dorsal do círculo. Ao compreenderem que, se não forem eles a respeitá-las, mais ninguém o fará, os membros obrigam-se mutuamente à observância dessas normas. Ao fazê-lo, eles mesmos começam a conhecê-las e a aceitá-las. Como resultado dessa auto-imposição, as normas podem tornar-se mais poderosas até do que as regras”. Estas normas decididas e auto-impostas pela comunidade resultam, também, em recompensas. Por exemplo, os utilizadores, que ultrapassam um determinado número de contribuições positivas, aumentam os seus privilégios na administração da plataforma. Shirky (2010) considera, aliás, que as recompensas são essenciais: “As recompensas e as restrições podem ser extremamente simples e pequenas, mas em grupos grandes com intervenientes relativamente anónimos, têm de estar presentes; caso contrário, o comportamento irá deteriorar-se com o tempo”.
— 35 — Porquê o Ócio? Capítulo II A realidade de Guimarães “A rede não se projeta a si própria. Nós é que a concebemos.” (Lanier, 2011) A tecnologia tem por obrigação adaptar-se à vontade da comunidade que a utiliza (Lanier, 2011). Dessa forma, é essencial compreender a realidade social e cultural dos habitantes vimaranenses; afinal, a maioria dos primeiros utilizadores da plataforma desenvolvida, assim como os potenciais leitores, são vimaranenses. Através de entrevistas exploratórias realizadas, no início do projeto, a potenciais colaboradores, compreendeu-se que havia, por parte dos entrevistados, para além de uma clara motivação, o compromisso em colaborar no projeto, caso existisse essa possibilidade, materializada numa plataforma digital. No entanto observou-se que, tal como acontece com outras realidades, existe uma enorme distância entre a intenção declarada e o compromisso real. Apresentamos de seguida um exemplo observado. Apesar de haver, em Guimarães, uma profusão de movimentos associativos, o número de associados destas comunidades é reduzido, tendo em conta o número de habitantes do concelho, exceptuando as associações que oferecem vantagens com periodicidade regular, em forma de eventos, tal como o Cineclube de Guimarães. Assim, e perante o que foi observado anteriormente, consideramos que a dificuldade em conseguir contributos deverá ser progressivamente colmatada através da oferta de incentivos reais. De modo a fomentar as colaborações, a estratégia também poderá recair sobre a criação de uma ideologia, mas a uma escala redimensionada à realidade local, e nunca como é usual nas plataformas colaborativas online, que estão assentes num modelo facilmente internacionalizável, típico da realidade norte-americana.
— 37 — Porquê o Ócio? Capítulo II Guimarães destaca-se no panorama nacional pela profusão de espaços e eventos de teor cultural e pela intensa participação dos seus habitantes em associações culturais e outras coletividades. Tal como revelamos de seguida, paradoxalmente, os meios de comunicação social locais não têm conseguido acompanhar essa dinâmica, limitando-se, na maior parte das vezes, a transcrever as notas de imprensa das entidades promotoras. Por outro lado, estes órgãos de comunicação têm investido pouco em plataformas digitais que permitam uma atualização diária, elemento fundamental quando se verifica, a nível local, a inexistência de qualquer publicação impressa de periodicidade diária. Num ano em que a cidade de Guimarães recebe o título de “Capital Europeia da Cultura”, multiplicando de forma exponencial a quantidade de eventos de âmbito cultural, as necessidades detectadas anteriormente tornam-se ainda mais evidentes, pelo que se considera imperativo o desenvolvimento de um projeto digital que possa responder as estas necessidades. A pesquisa de exemplos semelhantes ao projeto que nos propúnhamos desenvolver foi progressiva, tendo-se iniciado antes da construção da plataforma digital e prolongando até à atualidade. Estando em constante transformação, o Ócio, materializado, entre outros, na plataforma digital, tem lançado novos desafios ao longo da sua existência, pelo que a pesquisa não poderá ser interrompida, sob o risco de tornar obsoletas as funcionalidades e características desenvolvidas. Assim, foram identificados e analisados projetos de media digitais vimaranenses que, embora se aproximem daquilo a que o Ócio se propõe a fazer, apresentam todos eles várias limitações. Por outro lado, analisamos também projetos de media participativos de âmbito nacional, de forma a compreender as suas características, e dois projetos com dimensão internacional, por existirem diferentes plataformas com uma marca comum dedicadas a regiões diferentes, algo que poderá, no futuro, ser adoptado pelo projeto que nos propomos desenvolver. Esta pesquisa foi complementada, nos casos que consideramos relevantes, com entrevistas realizadas com os promotores dos projetos em questão, que analisamos no Capítulo III desta dissertação. ESTADO DA ARTE
— 38 — Guimarães Digital / Guimarães 2012 3 Agregador de notícias do “Guimarães Digital” (plataforma digital do Grupo Santiago), a secção “Guimarães 2012” funciona de forma automática, através da reunião de todos os conteúdos do website principal, distinguindo-se apenas pelo layout. Por outro lado, os conteúdos presentes neste website são sintéticos, apresentando poucas informações de relevo sobre o assunto em questão. Não existe nenhuma forma dos utilizadores do website comentarem as notícias nele publicadas. Casualmente, este website disponibiliza vídeo-reportagens sobre alguns dos assuntos tratados, que pela sua visualidade, pertinência e dinâmica se tornam numa mais-valia para o leitor, tendo a possibilidade, por exemplo, de ver excertos de eventos inseridos no programa oficial de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. No entanto, e tendo em conta a dinâmica cultural do concelho, bastantes eventos acabam por não ter referência, pelo facto de não estarem incluídos neste evento que ocorre, apenas, durante o ano de 2012. Top Guimarães 4 O “Top Guimarães” é um website que funciona como um diretório de lugares com atividades comerciais, como é perceptível , inclusive, através das suas categorias: “Pastelarias & Cafetarias”, “Restaurantes & Snacks”, “Bares & Discotecas”, “Hotéis & Alojamentos”, “Lojas” e “Experiências”. Pontualmente publica notas de imprensa de eventos incluídos no programa de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, assim como faz referência a outros eventos que aconteçam na cidade. Organiza campanhas de promoções em conjunto com os anunciantes da plataforma, assim como mantém um diretório de espaços museológicos e turísticos, com pequenas sinopses sobre os locais e os respetivos contactos. Em alguns destes textos existe a possibilidade de comentar. Guimarães Hip 5 O “Guimarães Hip” é um website com sugestões de locais para visitar: um guia que conjuga fotografias, texto e vídeo sobre os 3—Disponível em www.guimaraesdigital.com/guimaraes2012 4—Disponível em www.topguimaraes.com 5—Disponível em www.guimaraes-hip.com
— 39 — Porquê o Ócio? Capítulo II espaços e aquilo que estes têm para oferecer, distribuído pelas categorias “Comer”, “Lojas”, “Bares & Clubes”, “Arte & Cultura” e “Festas & Festivais”. O website é atualizado pontualmente, sendo desenvolvido por uma equipa fixa. Conta com uma pequena agenda com uma seleção de eventos, atualizada regularmente. A secção de notícias, denominada por “Hip! Apresenta”, é atualizada pontualmente, com conteúdos originais ou produzidos através de convite. Freepass Guimarães 6 O “Freepass Guimarães” é uma página no Facebook que se dedica à divulgação sugestões diárias dos eventos que vão acontecer em Guimarães. Os conteúdos são publicados de forma simples e descritiva: nome do evento, data e hora, local e preço. Pontualmente publica imagens dos eventos, com uma grande pertinência temporal, habitualmente durante ou imediatamente após os eventos ou os seus momentos de maior destaque, como inaugurações de exposições, por exemplo. Canal 180 7 O “Canal 180” tem sede no Porto, no Polo de Indústrias Criativas do Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, e iniciou as suas emissões a 25 de abril de 2011. João Vasconcelos, diretor executivo da OSTV (Open Source TV), proprietária do canal, define o Canal 180 como “o primeiro canal português open source e o primeiro canal especializado em cultura e criatividade”.8 Pensado numa lógica de minimização de custos, o Canal 180 não tem qualquer estúdio, câmara de filmar e apresentador, contando com uma equipa de 10 pessoas e assentando a sua atividade numa lógica de colaboração com uma rede de instituições culturais e pequenos parceiros que produzem e enviam os seus conteúdos para depois serem transmitidos naquele canal.9 Os conteúdos do canal centram-se, acima de tudo, em temáticas relacionadas com arte e cultura. 6—Disponível em www.facebook.com/freepassgui 7—Disponível em www.canal180.pt 8—Canal 180 é “boa ideia” mas “uma omeleta sem alguns ovos” [em linha] 2011, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/ Interior.aspx?content_id=1837274&page=%E2%80%9111/6> 9—180: um canal “colaborativo, permeável, horizontal” e feito a partir do Porto [em linha] 2011, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em http://www.porto24.pt/ ciencia-e-tecnologia/10062011/canal-180/
— 40 — Apesar de se definir institucionalmente como um canal open source, o Canal 180 é, na verdade, um agregador de conteúdos com licenças de domínio público, creative commons e outras semelhantes. Incentiva, também, à participação dos espectadores na produção de conteúdos, quer através da realização de concursos, tal como foi revelado na entrevista10, quer através de pedidos efetuados diretamente ao público, como aconteceu em eventos como o “Optimus Clubbing”, no Porto e o “Mi casa es tu casa”, em Guimarães. Público P311 O P3 é um projeto materializado essencialmente numa plataforma digital contida no website principal do jornal Público. Lançado a 22 de setembro de 201112 e com sede na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Porto, foi criado com o objectivo de alcançar um público jovem.13 O projeto agrega artigos de alunos, docentes universitários e jornalistas profissionais. Segundo Amílcar Correia, parte dos artigos são provenientes das redações do Público, do Jornalismo Porto Net e do Jornalismo Porto Rádio, assim como publica conteúdos enviados pelos próprios utilizadores do website. A homepage do website do P3 tem uma enorme presença a nível visual, num layout desenhado “em blocos” e caracterizado pela quase inexistência da possibilidade de scroll. Como explica Amílcar Correia, diretor do P3, esta opção foi deliberada, após ter sido realizado um estudo de eye tracking, que possibilitou identificar o percurso do olhar do utilizador quando visiona o website no ecrã do computador.14 Tal como já acontecia no projeto Jornalismo Porto Net, os artigos do P3 são compostos não só por texto e imagem, mas também com a incorporação de vários elementos multimédia, tais como sons e vídeos, assim como com a interligação com outras ferramentas, como o acompanhamento de uma hashtag do Twitter, por exemplo. Na página “Pquê?–Partilha”15 do website convidam à participação dos leitores através do envio de conteúdos através do e-mail. Na 10—Disponível nos Anexos. 11—Disponível em www.p3.publico.pt—Disponível em www.p3.publico.pt 12——Vídeos do P3 na programação do Canal 180 [em linha] 2012, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://blogues.publico.pt/publicolab/2012/04/23/videosdo-p3-na-programacao-do-canal-180/)> 13——O P3 arranca hoje à conquista de um público jovem [em linha] 2011, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.destak.pt/artigo/106750> 14——P3: “Vamos tratar o leitor por tu” [em linha] 2011, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.porto24.pt/vida/20092011/p3-vamos-tratar-o-leitor-por-tu/> 15—Disponível em www.p3.publico.pt/static/partilha
— 41 — Porquê o Ócio? Capítulo II plataforma digital o utilizador tem a possibilidade de agregar os conteúdos conforme as suas preferências, tendo no entanto de proceder ao registo. Porto 2416 O projeto “Porto24”, uma rede de informação online sobre o Grande Porto, nasceu a 10 de Dezembro de 2011, com o objectivo de participar num “debate contínuo sobre a cidade”.17 É um projeto pensado de raiz para a Internet e que quer tirar partido de todas as suas potencialidades: texto, áudio, vídeo e ligações a outros websites e redes sociais. O conceito “Porto24” poderá ser mesmo replicado noutras cidades. “A plataforma, baseada em software de código aberto, e os conceitos “Porto24” são possíveis de transportar para outras cidades”, entende Pedro Rios. O próprio “plano de expansão da Rede Porto24” prevê que, “após a solidificação do projeto atual”, se “evolua para outras redes noutras áreas urbanas, “através de parcerias com agentes locais”.18 O Porto24 “nasceu da vontade de dois jornalistas, Ana Isabel Pereira e Pedro Rios, e de um produtor multimédia, Pedro Candeias, de criar uma plataforma que agregasse a informação sobre esta área geográfica”.19 A rede social “OmeuP24”20 é o local onde a comunidade de utilizadores se encontrará para discutir os temas que mais lhes interessam. Aqui, cada utilizador terá uma página de perfil, onde encontrará, entre outras coisas, as notícias e reportagens que guardou para ler mais tarde e os locais que quer visitar. O utilizador poderá também recomendar conteúdos a outros utilizadores, criar grupos de interesse e seguir a atividade de outros membros da comunidade.21 16—Disponível em www.porto24.ptDisponível em www.porto24.pt 17——Porto 24: A rede de informação que quer debater a cidade [em linha] 2012, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.jpn.c2com.up.pt/2010/12/09/ porto_24_a_rede_de_informacao_que_quer_debater_a_cidade.html> 18—Idem 19——Rede de informação Porto24 online dia 10 [em linha] 2010, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.destak.pt/artigo/81946-rede-de-informacao-porto24-online-dia-10> 20—Disponível em —Disponível em www.comunidade.porto24lab.com 21——De: Pedro Rios - “Porto24 - Rede de informação local abre a 10 de Dezembro” [em linha] 2010, [Consultado a 3 de julho de 2012]. Disponível em WWW: <http://www.porto.taf. net/dp/node/7411>
— 48 — da a priori. Além destes processos que, em si, comportam inúmeros pontos distintos (convites, reuniões com autores e realizações de encontros entre a comunidade; tecnologia, layout, ferramentas e funcionalidades da plataforma), foi ainda desenvolvida uma estratégia de divulgação progressiva do projeto, a par de uma expansão da comunidade para a plataforma Facebook. Assim sendo, de forma sintetizada, temos: Fase de auscultação - observação intuitiva; - pesquisa; - entrevistas; - conversas com membros da comunidade. Fase de proposição - desenvolvimento da comunidade; - desenvolvimento da plataforma digital; - desenvolvimento da página no Facebook; - divulgação do projeto.
— 49 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III O projeto Ócio foi desenvolvido num processo de trabalho de campo constante, a par da investigação bibliográfica e da recolha e análise de dados que pudessem condicionar as suas características e suportes. Este método de investigação foi adaptado às circunstâncias detectadas durante o estudo, de forma a permitir ultrapassar as limitações que fossem encontradas ao longo do percurso descrito. A observação intuitiva iniciou a investigação e manteve-se até à atualidade, devido às características de transformação constante que o projeto comporta. É imperativo o contato direto e regular com os membros da comunidade envolvida no projeto, de forma a compreender as suas opiniões e realizar as transformações necessárias para que o projeto responda às solicitações da maioria dos utilizadores. Nesse sentido, é realizada uma monitorização constante da progressão das atividades da comunidade, dos seus anseios e dúvidas, das suas sugestões, das suas discussões, assim como de comentários na plataforma digital e na página do Facebook. Análise de imagens Este processo iniciou-se através de um projeto de pesquisa e análise de fotografias de Guimarães, de forma a compreender as transformações urbanas e sociais ocorridas ao longo das últimas décadas, centrado no centro cívico da cidade. Tendo como ponto de partida uma fotografia do Toural e Alameda de São Dâmaso, em Guimarães, este estudo permitiu criar um documento com registo de imagens anteriores e posteriores a esta, tendo sido ainda compreendidas que possíveis alterações poderiam ocorrer após as obras urbanísticas que estavam a ser projetadas para o mesmo local, iniciadas meses após esta análise. Através da comparação e interpretação de dezenas de registos fotográficos do mesmo local foi possível compreender, em parte, a forma de como as pessoas vivem o espaço público, além de ter sido possível verificar alterações ocorridas ao longo de décadas na forma de como os estabelecimentos comerciais da zona divulgavam a sua atividade, dando pistas de uma possível identidade gráfica local. Nas imagens analisadas era comum a existência de reclamos publicitários a produtos e a estabelecimentos comerciais, inclusive em suportes atualmente considerados com grande valor histórico, simbólico e identitário para a comunidade de Guimarães, como a torre da muralha onde se encontra a inscrição “Aqui Nasceu Portugal”. OBSERVAÇÃO INTUITIVA
— 50 — Na pesquisa de imagens para este estudo também se compreendeu a inexistência de um elemento agregador de este tipo de conteúdos, pois a maioria das imagens encontradas sobre o mesmo local estavam arquivados em locais e páginas web distintas. Além deste facto, era quase inexistente qualquer tipo de informação sobre as imagens e os seus conteúdos, tendo sido necessário recorrer ao apoio de um historiador para obter mais informações. Estas limitações justificaram ainda mais a necessidade que já havia sido detectada e a possibilidade de que estas limitações poderiam ser superadas com recurso a uma plataforma participativa desenvolvida por uma comunidade. Inquérito Este estudo de análise de imagens foi complementado com um inquérito online sobre conteúdos digitais dedicados à cultura e ao lazer, tendo sido obtidas 110 respostas válidas. No inquérito, para além de serem recolhidos dados passíveis de comparação, foi introduzido um espaço que possibilitava uma resposta mais alongada, assim como um comentário relativo ao tema em análise. Esta opção possibilitou uma auscultação abrangente e diferenciada sendo possível, através da sua análise, perceber a opinião de determinado público em relação à salvaguarda dos direitos de propriedade intelectual e às características que consideram essenciais num meio de comunicação sobre temas de cultura e lazer. Em termos globais a maioria dos respondentes que se intitularam como “produtores de conteúdos disponibilizados online”, referem a utilização de licenças “Creative Commons” como proteção para as suas obras. Referem ainda que não se sentem prejudicados quando os conteúdos dos quais são autores é reproduzido por outras pessoas e entidades, desde que lhe seja dirigido um agradecimento e/ou seja referida a sua autoria. Muitos defendem que o ganho em termos de conhecimento por os seus conteúdos serem disponibilizados gratuitamente é superior ao valor monetário que poderiam adquirir, pelo que defendem, também, a possibilidade do Domínio Público logo após a publicação online das suas obras. Relativamente a sugestões de características que consideram importantes para um website com conteúdos sobre cultura e lazer, a maioria das pessoas indicaram que o aspecto apelativo e um bom interface, boa interação e rapidez no carregamento do website era fundamental para um projeto de qualidade. Foi também referido, pela maioria, que os conteúdos deveriam ser sintéticos mas completos, que deveriam incluir bastante hipertexto e que deveriam ser complementados com imagens, sons e vídeos relativos aos as-
— 51 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III suntos tratados, assim como ter relevância temporal. Nos artigos deveriam ser adicionadas informações mais práticas, como hiperligações para as respectivas bilheteiras online e moradas, assim como deveria haver lugar para opiniões de outros leitores e possibilidade de pesquisa de conteúdos através de categorias. Além de ser mencionada a possibilidade dos conteúdos serem produzidos de forma colaborativa, houve quem entendesse que deveriam existir pessoas especializadas para cada tema, como se de editores se tratassem. Foi ainda referido que todos os conteúdos deveriam ser transponíveis para outros websites e plataformas, como smartphones e tablets. Entrevistas exploratórias O processo de observação intuitiva contou ainda com a realização de entrevistas exploratórias, realizadas de forma informal e sem recurso ao registo de áudio, de forma a compreender possíveis motivações que pudessem levar a que pessoas pudessem participar num projeto de media participativo. Aos entrevistados foi questionado se teriam vontade de participar num projeto deste género, quantas horas diárias poderiam despender e qual o motivo que os levava a dedicar tempo a este projeto e não a outros, tendo sido obtidas respostas bastante idênticas e coerentes em todos os respondentes: à partida, após explicado resumidamente o projeto, todos consideraram uma boa ideia, incentivando a iniciativa e dizendo-se disposto a participar. Estes resultados foram constantes ao longo de todo o projeto, tendo sido obtidas muitas mais reações semelhantes, em ocasiões distintas. No entanto, apesar de a maioria das pessoas incentivar o projeto e afirmar-se disposta a participar, o que acontece na realidade é que uma pequena minoria é que participa efetivamente, e de forma irregular. Este resultado não causa grande surpresa nem é considerado uma limitação, já havendo sido previsto através da pesquisa e observação de outros casos reais, para além de enunciada em obras de autores que se dedicam ao estudo dos media digitais participativos e sociais.
— 53 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III No decorrer do projeto, a par da fase propositiva, foram sendo realizadas entrevistas com e sem recurso ao registo áudio. Durante a realização das entrevistas com os promotores do Canal 180 e Público P3 compreendeu-se que, após terminada a gravação, havia uma maior sensação de conforto nos entrevistados, dando origem a comentários mais interessantes. Por se entender que a consciência de que não havia um registo da entrevista potenciava uma revelação não expectativa das respostas, as entrevistas aos promotores dos projetos Porto 24, Dizer Design e Vice Portugal foram realizadas desta forma, tornando-se numa mais-valia para o projeto de investigação. Os entrevistados foram selecionados pelos pontos em comum que poderiam ter com o Ócio, assim como de forma a prevenir e resolver limitações conceptuais e técnicas detectadas ao longo da execução do projeto. Esta recolha de informações junto de pessoas com experiência adquirida em projetos semelhantes, assim como a discussão de ideias relativas ao projeto Ócio, permitiu simplificar processos e avançar significativamente no desenvolvimento não só da plataforma digital, mas também em aspectos relacionados com a criação da comunidade e mesmo relativos à manutenção e dinamização da página do Ócio no Facebook. Canal 180 A entrevista com recurso a gravação de áudio aos promotores do Canal 180 – João Vasconcelos (diretor executivo), Nuno Alves (diretor de programação) e Rita Moreira (coordenadora editorial) – realizou- -se na tarde de 7 de fevereiro de 2012, nas instalações do projeto. Questionados sobre a necessidade da existência de um canal de televisão com aqueles moldes, João Vasconcelos considerou que a crescente oferta de eventos culturais não permite que a sua divulgação chegue, com a abrangência desejada, a meios tradicionais como a televisão, por se tratar de um meio com “outro ritmo, outros assuntos”. Enumera também as possibilidades que os avanços tecnológicos permitem – “os softwares são baratos” – sem esquecer a mais-valia que a “parte colaborativa” proporciona, por não serem obrigados a ter uma grande equipa e meios técnicos na obtenção de conteúdos. João Vasconcelos refere ainda a comunidade como receita para a obtenção das colaborações – “Tu para teres colaboração precisas de várias coisas: tens de ter uma comunidade identificada, precisas de ter uma motivação, precisas de ter alguma coordenação, precisas de ter uma marca...”. Curiosamente, esta fórmula é perfeitamente identificável nos modelos abordados por Brafman e Beckstrom (2008) na obra “A estrela-do-mar e a aranha – O fenómeno das organizações sem líder”. ENTREVISTAS
— 54 — Em relação aos conteúdos, explica que o diretor de programação Nuno Alves é que “vai contactando autores e recrutando obras para o Canal” que tenham a ver com a linha editorial definida, mas sendo sempre “conteúdos que existiam”, ou seja, não são produzidos programas de raiz. O próprio Nuno Alves justifica: “agregamos, mas acrescentamos valor com a nossa edição, com a nossa locução, com a linguagem que achamos ideal para ajudar a difundir esses eventos culturais”. Na entrevista foi também levantada a questão do financiamento do Canal 180, sobre a forma que teriam para a manutenção das despesas. O modelo de negócio foi sinteticamente explicado por João Vasconcelos, referindo as opções estratégicas tomadas na criação do projeto, relacionadas com organização empresarial, de forma a que possíveis clientes pudessem ser cativados com os serviços que o Canal 180 poderia prestar. A transmissão da ideia de que o Canal 180 era um projeto “sem fins lucrativos” justificava- -se com a necessidade de incentivar a participação gratuita dos espectadores, porque “no mercado português nunca daria para seguir um modelo non profit”, ao contrário de outros exemplos que também refere, como a Wikipedia e o Flickr. No decorrer da entrevista compreendeu-se uma limitação já identificada no que diz respeito às diferenças entre a realidade norte-americana, comummente descrita em obras sobre media participativos; e a realidade portuguesa, em que nos encontramos a trabalhar; os portugueses, apesar de concordarem e incentivarem este tipo de iniciativas, revelam-se pouco proactivos e colaboram de forma diminuta na sua execução. Público P3 A entrevista com recurso ao registo de áudio a Amílcar Correia (diretor) e Luís Octávio Costa (jornalista) decorreu na sede do P3 na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Porto, na tarde de 7 de fevereiro de 2012. Amílcar Correia começa por explicar em que consiste o projeto Público P3, contextualizando a necessidade deste novo suporte do jornal Público pela diminuição generalizada das vendas em papel. Nesse sentido, exemplifica com exemplos práticos as características técnicas e conceptuais em que o P3 é inovador: “do ponto de vista visual nós somos horizontais quando toda a gente é vertical; estamos muito mais próximos de uma linguagem “smartphone”; usamos hiperligações; recuperamos o som, que em termos de sites das rádios é maltratado – nós temos o áudio –; e, depois, temos uma “agenda” que é completamente diferente”.
— 55 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III Faz uma referência, ainda, à ideia de comunidade participativa, quando afirma que uma das principais características do projeto “é o “crowdsourcing”: os leitores para nós finalmente não são apenas leitores, são utilizadores, e mais que utilizadores eles são também produtores, eles fazem o jornal connosco”. Efetivamente, o P3 incentiva os seus leitores para que textos, imagens e vídeos para a Redação, de forma a poderem ser incorporados na página web. Além das contribuições dos utilizadores e dos conteúdos produzidos pela equipa do P3, o projeto agrega, também, conteúdos dos projetos parceiros – Público, JPN Jornalismo Porto Net e JPR Jornalismo Porto Rádio. No fundo, trata-se de uma rede complexa coordenada pela Redação, tal como afirma Amílcar Correia: “no fundo criamos uma comunidade de partilha, de colaboração entre jornalistas, editores, estudantes e docentes”. Com a realização desta conversa, além das questões relativas ao conceito do projeto e à sua forma de funcionamento, foi possível compreender de que modo os leitores são incentivados à colaboração, assim como a relevância da existência de uma marca para este efeito. É notória, também, a importância que a conjugação de diferentes formas de comunicação tem para transmitir uma ideia – combinando texto, imagem, vídeo, som, hiperligações e outras ferramentas, como o “live feed” do Twitter. Porto 24, Dizer Design e Vice As entrevistas a promotores dos projetos Porto 24, Dizer Design e Vice Portugal foram efetuadas de forma informal, como se de uma conversa se tratasse e, por esse motivo, sem recurso ao registo através da gravação de áudio. Ocorreram em alturas distintas do projeto, e foram fundamentais para a prevenção de eventuais limitações e resolução de problemas que surgiram durante a fase propositiva do projeto. Pedro Candeias é subdiretor do Porto 24; Eduardo Nunes é o autor do projeto Dizer Design, desenvolvido no âmbito do Mestrado em Design e Multimédia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra; e Nuno Miranda é diretor editorial da revista Vice Portugal. Um dos pontos de partida para o arranque no desenvolvimento da plataforma digital era a decisão sobre o tipo de tecnologia que poderia ser utilizada. Na atualidade, com a profusão de oferta de softwares opensource para gestão de conteúdos digitais (conhecidos como CMS – Content Management Systems) – como o Wordpress, Joomla e Drupal, por exemplo –, era essencial compreender quais as mais-valias de cada uma destas tecnologias de forma a optar pela que poderia ser mais vantajosa para o projeto.
— 56 — As discussões contribuíram para a opção da decisão final, que recaiu sobre a tecnologia Wordpress, por ter um backoffice extremamente fácil de compreender e utilizar, mesmo para utilizadores menos experientes. Esta ferramenta é utilizada por inúmeros projetos de comunicação, sendo inclusivamente a opção tomada pelos projetos Porto 24 e Dizer Design. Em comum, além da tecnologia Wordpress, estes projetos oferecem um conjunto de serviços complementares na plataforma digital, recorrendo à instalação de plugins como é exemplo o BuddyPress, que oferece ferramentas para os utilizadores discutirem conteúdos e trocarem mensagens entre si, como se de uma rede social se tratasse. Através das conversas informais com Pedro Candeias e Eduardo Nunes, a hipótese de incorporação desta ferramenta na plataforma digital do Ócio foi colocada de parte, apesar de ter sido uma das mais-valias identificadas inicialmente para o projeto, no sentido de fortalecer os laços entre a comunidade. Nos casos dos projetos Porto 24 e Dizer Design, esta funcionalidade encontra-se presente mas não resulta, como identificaram os promotores destes projetos, em nenhuma mais-valia efetiva, pois a maioria dos utilizadores já se encontra presente em outras redes sociais, e não demonstra grande interesse em trocar. Outras das questões abordadas ainda sobre a comunidade, era os contributos desta para a criação de conteúdo, ou seja, de que forma é que ela participava no projeto. Nos casos discutidos, compreendeu-se que, não havendo um incentivo, os membros da comunidade raramente tomavam a iniciativa de enviar contributos. Por outro lado, concluiu-se que era essencial explicar aos utilizadores da plataforma que existia essa possibilidade, assim como os passos para poderem fazer esse contributo. Já em relação ao próprio conceito do projeto, sobretudo relacionado com o seu conteúdo editorial, foi importante compreender o funcionamento do projeto Vice Portugal no que diz respeito à sua filosofia. Dedicado a um público jovem, este projeto editorial produz os seus conteúdos de uma forma não convencional a outros meios de comunicação. Não se preocupando com regras jornalísticas, os conteúdos da Vice são desenvolvidos de forma a que o autor do artigo quase comunique diretamente com o leitor, sendo muitas vezes redigido na primeira pessoa do singular. Esta opção é de extrema importância para um projeto como o Ócio, por fomentar o sentimento de comunidade que se considera essencial para a sobrevivência, a longo prazo, do projeto. Assim, os autores que produzem conteúdos para a plataforma digital do
— 57 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III Ócio são incentivados a escreverem livremente como se estivessem a conversar com amigos. Os pontos discutidos e as conclusões obtidas com estas entrevistas originou a necessidade de um maior investimento do projeto em meios que pudessem tornar mais amigável a participação da comunidade, como é exemplo a página do Ócio no Facebook que, de uma forma mais descomprometida, incentiva os membros da comunidade ao compromisso com o projeto.
— 64 — Design O design do projeto Ócio foi desenvolvido de forma a ser simples e facilmente adaptado às diferentes necessidades do projeto. O logótipo recorre apenas à utilização de tipografia, escrita com caracteres que permitem a reprodução através da técnica do stencil. O objetivo desta opção era a possibilidade de se poder reproduzir o logótipo numa superfície plana, recortar o interior dos caracteres e poder ver o que estava do outro lado, como se o Ócio fosse o meio para poder visualizar possíveis enquadramentos de uma realidade que existe e é acessível a todos. Organização dos conteúdos Todos os conteúdos publicados são organizados através da escolha de uma categoria e de várias etiquetas (tags), selecionadas pelos próprios autores. As categorias são definidas e redefinidas periodicamente, através dos próprios conteúdos da comunidade. O objetivo é que a plataforma se adapte aos conteúdos à medida que estes forem desenvolvidos. As categorias criadas possibilitam, de forma simples, que os temas transversais a vários conteúdos possam ser facilmente agrupados. De forma a que estas categorias transversais funcionem – “Cinema”, “Concertos”, “Espectáculos”, “Exposições”, “Opções Especiais” e “Espaços” – os autores devem selecionar apenas uma categoria, na altura da publicação da entrada. Por outro lado é dada a possibilidade aos autores que categorizem a entrada com as tags que entenderem, o que possibilita que os conteúdos fiquem agrupados com outros semelhantes. Por exemplo, um texto sobre “Cinema” e outro sobre “Exposições” podem ser agrupados na tag “Cineclube de Guimarães”, menos transversal. A plataforma permite, ainda, a agregação dos próprios conteúdos em páginas desenvolvidas de forma automática, disponíveis de várias formas. Em primeiro lugar, no menu principal da plataforma, é possível aceder a estas páginas através das categorias escolhidas pelos autores nas próprias entradas. Por outro lado, caso o leitor se encontre num artigo em específico, tem a possibilidade de consultar entradas semelhantes à que está a ler, que através da escolha de uma das etiquetas definidas pelo autor, quer através da opção “Pesquisa”, disponível de forma transversal em toda a plataforma, no canto superior direito e no fundo da página. Existe a possibilidade, ainda, de consultar todos os textos organizados por autor e por data. Estas páginas automáticas organizam os conteúdos de forma cronológica, colocando as entradas mais antigas em primeiro lugar.
— 65 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III Os artigos com conteúdos em vídeo são agregados com um destaque especial na página principal. Plugins De forma a complementar as necessidades iniciais identificadas foram adicionados plugins à plataforma digital, de forma a facilitar o registo dos utilizadores e monitorizar os visitantes. Foi ainda adicionado o plugin “Events”, que permite que qualquer leitor faça a sugestão de um evento e o remeta para aprovação pelos autores da plataforma, que é publicado online no dia do próprio evento. Este plugin permitiu a criação de uma “Agenda de Eventos” automática de publicação diária.
— 67 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III A página do Ócio no Facebook é fundamental quer para a manutenção e fortalecimento da comunidade como também para a percepção do funcionamento do projeto por parte do público. Iniciada a par da abertura da plataforma digital, a página no Facebook não se limita a ser um mero local onde são republicados os textos produzidos na plataforma, mas onde vão sendo explicadas, gradualmente, as caraterísticas do projeto. Uma vez que a possibilidade de registo na plataforma digital está limitada ao convite direto, a página no Facebook tem sido o local privilegiado para solicitar contribuições pontuais aos leitores, assim como explicar que a plataforma é livre e participativa, onde há lugar para todos. Numa fase posterior, em que a comunidade já esteja totalmente formada e onde já existam normas orientadoras da aceitação de novos membros no projeto, a página no Facebook poderá continuar a servir este propósito, explicando gradualmente as regras da plataforma e convidando os leitores ao registo e à produção de conteúdos. Pensada de forma autónoma da plataforma digital, pelas potencialidades que tem em poder acompanhar a comunidade de leitores e autores de forma mais assídua, têm sido desenvolvidos conteúdos específicos para esta página, em particular galerias de imagens. Os autores com acesso a esta página podem, ainda, republicar sugestões de outras páginas externas ao projeto Ócio que considerem ter interesse para a comunidade. A página do Ócio no Facebook funciona, assim, como a principal página de agregação de conteúdos dispersos sobre cultura na região de Guimarães. A PÁGINA NO FACEBOOK
— 69 — Como foi criado o Ócio? Capítulo III A divulgação do projeto Ócio foi desenvolvida de forma gradual, num processo contínuo e, nesta primeira fase, moderado. Pelo facto da plataforma digital ainda se encontrar numa fase inicial, onde as transformações são constantes e envolvendo grandes modificações, é do nosso interesse o que o público vá começando a perceber progressivamente a existência do Ócio e das suas características, familiarizando-se com o projeto. Nesse sentido, o Ócio tem vindo a ser explicado na plataforma digital e na página do Facebook, assim como em eventos como o “Pecka Kucha Night Guimarães”, onde foram reveladas as características conceptuais do projeto e, também, onde foi indicado que a plataforma se encontra em fase beta e que, por esse motivo, o registo livre de todos os utilizadores só acontecerá numa fase posterior. Pecha Kucha Night Guimarães A apresentação do projeto Ócio no Pecha Kucha Night Guimarães ocorreu no dia 31 de março de 2012, no Parque de Estacionamento da Mumadona. Nesta apresentação, que se encontra disponível em anexo, foram enunciadas as características principais do projeto, tendo sido dada ênfase à comunidade. Com exemplos práticos foi explicado o funcionamento e as possibilidades que a plataforma digital propunha, assim como revelada a disponibilidade para alterações conforme as sugestões da comunidade. De forma a acentuar esta possibilidade, essencial no desenvolvimento de todo o projeto, propôs-se à audiência do Pecka Kucha, no final da comunicação, que contribuísse com sugestões e críticas ao projeto, evidenciando assim as características participativas do Ócio e a abertura a novos participantes. Os conteúdos recolhidos, disponibilizados em anexo, serão utilizados, numa fase posterior, para a divulgação do projeto nas suas plataformas (plataforma digital e página no Facebook), de forma a anunciar uma novidade no projeto através da sugestão deixada pelos próprios utilizadores. Jornal O Povo A entrevista concedida ao jornal local “O Povo” constituiu um dos momentos de explicação do projeto, para além da apresentação já realizada durante o “Pecha Kucha Night Guimarães”. Embora a explicação do projeto também esteja revelada na plataforma digital e vá sendo revelada, repetidamente, na página do Facebook, considerou-se importante esta oportunidade, de forma a expandir a divulgação do projeto. A entrevista foi publicada na edição impressa n.º 1644 do jornal O Povo de 13 de abril de 2012, e pode ser consultada em anexo. A DIVULGAÇÃO
— 70 — Capital Cultural RUM Foi concedida, igualmente, uma entrevista ao programa “Capital Cultural”, da Rádio Universitária do Minho, com José Reis. Na entrevista foram explicadas, de forma sintética, as características do projeto sobretudo a nível conceptual, de forma a que os ouvintes tivessem a possibilidade de compreender o funcionamento o Ócio. Encontros ociosos A realização dos “Encontros ociosos” funcionaram como um motivo impulsionador para o conhecimento do projeto Ócio, proporcionando, também, um aumento dos acessos à plataforma digital e à página no Facebook. Os cartazes preparados para os dois eventos realizados foram amplamente partilhados pela comunidade de autores e leitores, onde era induzido o carácter comunitário do evento, tal como o é o projeto Ócio, na sua globalidade. Durante a realização dos encontros foi possível esclarecer, aos presentes, as dúvidas relativas ao projeto, assim como ouvir as suas sugestões.
— 73 — Considerações finais Capítulo IV — Considerações finais Capítulo IV
— 80 — • Considerando que o projeto desenvolvido se destina a uma comunidade local específica, a captação de potenciais utilizadores da plataforma digital encontra-se limitada. Em consequência, o crescimento do projeto ocorre de forma mais lenta tendo em conta a limitação geográfica dos seus potenciais membros e destinatários. Este ritmo de crescimento permite um acompanhamento regular do projeto, que culmina numa comunidade mais coesa, obtendo participações mais regulares e crescentes, equilibrando assim os picos iniciais de contributos. • O desenvolvimento de um projeto desta natureza, ainda que tenha uma dimensão iminentemente local e, por isso, relativamente pequena, necessita de grande disponibilidade por parte do promotor. Adicionalmente, as sugestões da comunidade devem ser ouvidas e interpretadas, originando respostas práticas no próprio projeto. Por estes motivos, o projeto mantém-se em constante atualização e desenvolvimento, não sendo possível, em nenhum ponto, considerar-se inteiramente concluído. • A pesquisa sobre projetos idênticos e o conjunto de propostas constantes da bibliografia sobre esta matéria não puderam ser colocados em prática de forma direta. Verificou-se a necessidade de adaptar as sugestões e propostas estudadas à realidade em que nos propusemos trabalhar, analisando e interpretando constantemente os resultados obtidos e adoptando métodos de resposta às dificuldades encontradas ao longo do processo. Conclui-se que, essencialmente, é importante testar, de forma prática, as ideias que vão surgindo de modo a ser possível observar os resultados. • Tal como os métodos para a criação de outras plataformas nem sempre se adequaram ao projeto Ócio, as soluções que apresentamos ao longo desta dissertação não deverão servir como um modelo a seguir passo-a-passo para a replicação desta plataforma digital noutras realidades geográficas, temáticas ou conceptuais. Os exemplos aqui apresentados deverão ser considerados como um conjunto de possíveis soluções para que se obtenham resultados positivos mas, dependendo dos contextos, estas soluções poderão ser falíveis. • Conclui-se ainda que é fundamental o conhecimento e o recurso à disciplina do Design de modo a comunicar, de forma mais direta e eficaz, os objetivos do projeto, assim como na sua divulgação. Consideramos que a existência de uma marca com a qual os utilizadores da plataforma digital e restante comunidade se identificam é fundamental para o sucesso do projeto.
— 81 — Considerações finais Capítulo IV O Ócio é um projeto essencialmente prático, pelo que as limitações relativas ao desenvolvimento do trabalho prático foram sendo resolvidas de forma contínua, adaptando progressivamente todos os meios às necessidades da comunidade. Ainda assim, importa salientar os pontos que, no espaço temporal relativo ao âmbito deste mestrado, foram impossíveis de resolver até ao momento de redação desta dissertação. Todo o projeto está em constante mutação, transformação, atualização. Este facto incontornável é, inclusivamente, um ponto chave para o sucesso da iniciativa, pois as atualizações, além de não poderem parar, devem ter, também, visibilidade, inclusivamente a nível gráfico. Nesse sentido, estão ainda por implementar inúmeras atualizações à plataforma digital, que deverão surgir progressivamente ao longo dos próximos meses. Este processo gradual exige uma enorme dedicação por parte da pessoa responsável pela manutenção e atualização da plataforma digital, pelo que acreditamos que, uma solução para a minimização deste problema poderia ser a criação de uma equipa estável para a manutenção do projeto. A existência desta equipa permitiria um amadurecimento mais rápido da plataforma digital possibilitando, por exemplo, reduzir consideravelmente a manutenção da obrigatoriedade do convite para o registo de novos autores. O projeto tem como objetivo, a médio prazo, libertar a possibilidade de registo a qualquer utilizador sem necessidade de introduzir um código que lhe foi transmitido para o efeito. Mas, para isso, é necessário iniciar, acompanhar e sistematizar uma discussão com toda a comunidade sobre o modelo de aceitação de novos membros, e quais as normas que as contribuições deverão ter, de forma a que seja mantido um nível de coerência entre todas as contribuições dos diferentes utilizadores. A criação e manutenção da comunidade foi, de facto, um dos processos mais complexos, obrigando a inúmeros cuidados. Abrir a possibilidade de entrada indiscriminada de novos membros, numa fase inicial, poderia ter fragilizado a comunidade já existente, e prejudicado todo o projeto. Assim, este processo deve ser desenvolvido de uma forma ponderada e cuidada, com uma monitorização constante. Uma das maiores limitações encontradas no desenvolvimento da comunidade prendeu-se com a elevada atenção que teve de ser prestada, individualmente, a cada membro. Este tipo de acompanhamento só foi possível fazer de forma gradual quando não existia uma equipa que pudesse assumir as várias frentes do projeto. LIMITAÇÕES ENCONTRADAS
— 82 — Outra das limitações detectadas foi a necessidade de desenvolver o projeto em diversas frentes simultâneas. No momento em que se desenvolveu a plataforma digital foi necessário criar a comunidade, de forma a poder adequar as características da primeira à segunda, e vice-versa. A par disto, foi necessário dar apoio técnico aos utilizadores para o uso das funcionalidades da plataforma, assim como ir divulgando resultados positivos que a prestação da comunidade foi conquistando. Para que este último ponto pudesse acontecer, foi imperativo o desenvolvimento de uma marca coerente e de estratégias de divulgação do projeto e do seu conteúdo para além da comunidade já existente, tais como a participação em conferências e a organização ou apoio de eventos em que se divulgou o projeto, de forma a captar novos utilizadores. E, no futuro, será importante voltar a repetir determinadas tarefas, porque nenhum destes processos se pode dar como concluído, sob pena de o projeto se tornar rapidamente desatualizado, colocando em risco todo o trabalho anteriormente desenvolvido. Assim, após uma reflexão sobre todo o projeto prático desenvolvido, inclusive sobre os seus problemas, formas encontradas para os ultrapassar e suas mais-valias, propomo-nos a perspectivar necessidades futuras que poderão abrir novos caminhos para o crescimento saudável do projeto.
— 83 — Considerações finais Capítulo IV Desde o início do projeto e, em particular, durante a apresentação realizada no “Pecha Kucha Night Guimarães”, temos vindo a verificar o interesse dos leitores em que a plataforma digital permita a abordagem de conteúdos sobre áreas geográficas para além de Guimarães. Esta possibilidade tem sido considerada, tendo-se iniciado uma reflexão sobre de que forma este processo poderia ser conduzido. Foram identificados exemplos de projetos de media digitais ou impressos com características semelhantes ao projeto que desenvolvemos, tais como o “Canal 180” ou a “Vice”, onde acrescentamos, neste momento, projetos como o “LeCool”24, o “Use-it”25, ou o “Pecha Kucha”26 que, em comum, têm o facto de terem versões distintas em diferentes zonas geográficas. Estes projetos, iniciados cada um num determinado local, depois de registados em termos legais, possibilitam a criação de projetos semelhantes noutros locais, através de um processo de disponibilização do uso da marca. Algo semelhante ao processo de franchising. Tendo em conta estes factos, estão a ser convidados habitantes fora da região de Guimarães, a integrar a comunidade Ócio, oferecendo a possibilidade do registo na plataforma digital, assim como o acesso a todo o projeto. Entendemos que estes utilizadores poderão ser, no futuro, os impulsionadores de novas plataformas digitais semelhantes ao Ócio, noutros territórios, criando novas comunidades. Não havendo um modelo rígido de criação deste projeto, deverá ser desenvolvida, também, uma série de conselhos técnicos, práticos e conceptuais para a criação de novas comunidades e plataformas digitais. A possibilidade de existência de desdobramentos do Ócio poderá dar origem a um conjunto extenso de comunidades com características comuns, mas com propostas individuais, que deverão influenciar o desenvolvimento do projeto Ócio. O Ócio poderá transformar-se, assim, numa enorme rede de plataformas digitais com conteúdos locais, atualizadas pelas próprias comunidades da região que, em conjunto, irão oferecer parte do seu tempo para a agregação, criação e divulgação de conteúdos sobre a sua própria comunidade. Desta forma, será possível, não só, construírem progressivamente um arquivo das vivências da comunidade, como também terão uma importância fundamental para o fomento e dinamização cultural da região em que se encontram. 24—Disponível em www.lecool.comDisponível em www.lecool.com 25—Disponível em www.use-it.travel/homeDisponível em www.use-it.travel/home 26—Disponível em www.pecha-kucha.orgDisponível em www.pecha-kucha.org DESENVOLVIMENTOS FUTUROS
— 85 — Bibliografia Capítulo V — Bibliografia Capítulo V
— 87 — Bibliografia Capítulo V Brafman, Ori; Beckstrom, Rod A.- A Estrela-do-Mar e a Aranha: O fenómeno das organizações sem líder. Lisboa: Editorial Presença, 2008. ISBN 9789722339599. Brandão, Daniel; Alvelos, Heitor; Martins, NunoThe Museum of All: Institutional communication practices in a participatory networked world.: The Endless End: The 9th International European Academy of Design Conference. Porto: Universidade do Porto, 2011. Keen, AndrewThe Cult of the Amateur. New York: Doubleday/ Currency, 2007. ISBN 978-0-385-52080-5. Lanier, JaronVocê não é um gadget: Gestão e Estratégia. Lisboa: Arcádia, 2011. ISBN 9789892800486. Martins, Nuno; Alvelos, Heitor; Brandão, DanielOncologiaPediatrica.org e TalkingAboutCancer.org: A importância dos media participativos na mobilização para a cidadania na luta contra o cancro.: Literacia, Media e Cidadania. Braga: Universidade do Minho, 2011. ISBN/ISSN 978-989-97244-1-9. Shirky, ClayEles Vêm Aí: O poder de organizar sem organizações. Lisboa: Actual Editora, 2010. ISBN 9789898101655. Shirky, ClayCognitive surplus: creativity and generosity in a connected age. New York: Penguin Press, 2010. ISBN 9780141041605. Silva, Catarina; Madureira, MartaWEB + LOG + BOOK + PRINT = BLOOK: Do media tradicional ao novo media participativo e o caminho inverso: II Congreso Internacional Comunicación 3.0. Salamanca: Universidad de Slamanca, 2010. TEDClay Shirky on institutions vs. collaboration: TEDTalks. United States: TED Talks, 2005. Disponível em WWW: <http:// www.ted.com/talks/lang/en/clay_shirky_on_institutions_versus_ collaboration.html>. Weinberger, DavidEverything is miscellaneous : the power of the new digital disorder. 1st. New York: Times Books, 2007. ISBN 9780805088113. BIBLIOGRAFIA SELECIONADA
— 89 — Pecha Kucha Anexo 1 — Pecha Kucha Anexo 1
— 96 — IMAGENS DA APRESENTAÇÃO
— 97 — Pecha Kucha Anexo 1
— 98 — VÍDEO DA APRESENTAÇÃO O vídeo da apresentação do Ócio realizada no Pecha Kucha Night Guimarães Vol. 2 encontra-se disponível no CD em anexo.
— 99 — Pecha Kucha Anexo 1 CONTRIBUTOS RECOLHIDOS Durante a apresentação do projeto Ócio no Pecha Kucha Night Guimarães Vol. 2 foi solicitado às pessoas presentes na conferência que procurassem, por baixo das cadeiras em que estavam sentadas, um lápis e um papel, onde poderiam escrever sugestões, ideias ou reclamações sobre o projeto Ócio, que tinham acabado de conhecer. Todas as sugestões recolhidas, no final da conferência, foram digitalizadas e podem ser vistas de seguida.
— 100 —
— 101 — Pecha Kucha Anexo 1
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— 103 — Pecha Kucha Anexo 1
— 105 — Entrevistas Anexo 2 — Entrevistas Anexo 2
— 112 — mus”, por exemplo, empresa que está habituada a trabalhar connosco – não [podíamos] ser a malta que vai fazer trabalho social. Não nos iam contratar para fazer projetos à volta dos “Optimus Discos”. Existem essas coisas formais que, parecendo que não, são muito importantes quando tens um negócio para gerir, clientes para servir e que tens que entrar nos processos deles, tens de perceber como é que eles funcionam, porque se lhes poes um problema da própria natureza jurídica da empresa podes estar lixado, que não vai acontecer nada. Podes ir la dizer “ai, meu deus, não é para ganhar, não é para mim, mas façam connosco”... “E a contabilidade? Nem sei como faço isso, como é o I.V.A....”, percebes? Há muitas coisas que depois são a realidade, portanto nós fizemos a empresa e, na verdade, as coisas funcionam. É isso que eu te digo, quando temos o Mike Mills; malta nacional, com gosto, a colaborar connosco... É porque o modelo funciona. Mas, como em tudo, não funciona com todos. CR: No meu caso, em que não existe propriamente uma estrutura, existo eu que estou a montar e a tentar formar uma comunidade mas nem sequer existe um espaço para as pessoas poderem reunir todos os dias ou discutirem os conteúdos. A comunidade tem de ser quase criada por ela mesma, tem de ser uma coisa quase em rede. Porque é importante existir a estrutura, mesmo que não tenha fins lucrativos, que faça a gestão da plataforma, que vá policiando e que esteja atenta ao que esta a acontecer, para depois aquilo não descambar. NA: Tens um modelo previsto para financiar essa estrutura? CR: A ideia do financiamento é não precisar de financiamento, ou quase. E que as pessoas não estejam com essa espectativa, que aquilo seja quase um “hobby”. JV: E pode ser muitas coisas, só tens é de pensar é: mais do que entrar na lógica do que é que as pessoas ganham ao colaborar comigo é, o que é que as pessoas ganham por isto existir? Porque se as pessoas ganharem por isso existir – que é o que nós ainda estamos a tentar fazer, porque não há nenhum canal português sobre cultura e criatividade, porque os canais tradicionais não tem a mesma capacidade de mobilizar e dar oportunidades a pessoas novas para filmar um determinado evento, porque não tem nenhuma forma de criar relações internacionais, porque não estão a olhar para novos fenómenos como novas bandas... Isso é um fator logo inicial, e se tu sentires que o teu objetivo tem muitos sinais que está certo, vais aprendendo. É mais arriscado
— 113 — Entrevistas Anexo 2 se tiveres a pensar logo “porque é que as pessoas vão colaborar comigo”. Isso, em si, pode ser um estudo interessante, académico – porque é que as pessoas aderem a movimentos, a casas causas e colaboram. Não é para montares um projeto real. É verdade, há uma parte de loucura porque acreditas em alguma coisa que faz falta. Temos de repensar todos os dias... Ainda agora, acabamos de oferecer uma merda de um bilhete para o ATP – All Tomorrow Parties. Um bem escaço, raro, uma merda especialíssima, e temos dois participantes, dois cromos, fizeram a merda de dois vídeos. O erro foi nosso, estamos a dar pérolas a porcos, entre aspas. Esforçaram-se... Só que não podemos repetir isso. Nós temos de adotar um filtro mais adaptado à colaboração. Se eu acenar com a coisa do All Tomorrow Parties e até lhe pago a viagem da Ryan Air – se calhar faço mais um esforço de 50 euros – e levo um jornalista a sério. E direciono, digo: “realizadores do mundo, quem é que quer ir a Inglaterra passar três dias ao melhor festival de música?” É colaborativo isto, aí estou a acenar mas estou a resolver o problema tático, é alimento para a nossa mecânica, não começa daqui o modelo. Nós também aprendemos... CR: Para perceber, foi um concurso? Rita Moreira (RM): Sim, foi um passatempo. Podíamos ter desafiado as pessoas a fazer algo de diferente, que implicasse mais trabalho, criatividade... Desafiámos a fazer um vídeo, e tinham muito que querer ir. NA: São três, quatro dias em Inglaterra, portanto não é “ai, vou concorrer, pode ser que vá ali jantar depois volto”... Não é isso. Tinha de ser mais, dificultámos. Tinham de filmar com o telemóvel ou assim, qualquer coisa que demonstrassem a vontade de ir. Tivemos dois candidatos, que recebemos 10 minutos antes do fecho do passatempo. Tecnicamente não tem nada de especial, criativamente não tem nada de especial, pronto. Mas realmente esforçaram-se minimamente. Imagino que muita gente quisesse aquilo só que o fato de [terem de] trabalhar, de fazer o vídeo... Ou a forma como comunicamos, de não ter chegado a muita gente... RM: A estratégia não foi a mais adequada... CR: Teria sido melhor, talvez, direcionar quase o pedido… Para ter alguma certeza que iria corre bem. JV: Temos de testar!
— 114 — NA: É garantido que ajuda a desenvolver a rede… Nós não podemos ter um site de bilhetes que oferece alguns de vez em quando, portanto tudo isto é uma lógica de desenvolver conteúdos colaborativamente, e aí devemos desafiar a rede que queremos que exista a participar. JV: Há aqui muitos fatores... Uma das hipóteses que pusemos foi ter uma própria marca, se não tens uma marca tens de ter uma ou uma comunidade, por exemplo a “Pitchfork” constrói-se como uma comunidade de referência. A malta de Nova Iorque sabe que está ao lado das bandas que vão ter sucesso porque estão num centro onde necessariamente há muitas bandas dali que vão ser famosas. Isso gera uma sensação no público de que eles adivinham, que são “oppinion makers”. E depois construíram a marca, “Pitchfork”, se o nome é bom ou mau não sei, mas a verdade é que correu tudo bem, eles entraram no momento em que havia a música Indie, etc.. e evoluiu de tal forma que são gigantes, e conseguem fazer tudo. Eles são convidados e pagos para ir a qualquer parte do mundo a todo o tipo de eventos, para irem fazer a cobertura. Mas o modelo de negócio veio a seguir. Se crias um bem escasso e és uma referência, o modelo de negócio vem a seguir. Ponto dois: se queres mobilizar pessoas, ou és já uma referência, ou tens uma causa, ou tens uma marca com quem queres colaborar. Por exemplo, o P3 tem o Público. Claro, faz toda a diferença! Qualquer tipo que tenha a ambição de ser jornalista clássico pensa, vou trabalhar para o Público, estou a dar umas aulas, vou escrever este artigo e até digo que sou colaborador do Público. É completamente diferente. CR: Portanto, se eu conseguir criar a minha plataforma, provar que tenho qualidade e conseguir uma colaboração com o P3 e com o Canal 180, vou valorizar a minha plataforma porque tenho duas entidades de referência que, de certa forma, dão crédito. JV: Foi o que nós fizemos, antes de começar o projeto contactamos Serralves, Casa da Música, Gulbenkian, fizemos apresentações... Durante um ano fizemos todo esse trabalho. Primeiro não te conhecem, depois conhecem-te, depois têm de perceber o projeto, depois vês o que fazes com eles, se te pagam ou não te pagam, e só depois é que começam a vir as partes boas. CR: Há bibliografia sobre criação de comunidades, mas é à escala norte-americana, ou seja, quando se começa é logo com milhares de pessoas, e socialmente e culturalmente são diferentes de nós...
— 115 — Entrevistas Anexo 2 JV: Um fator crítico, para ganhares calo: o tipo que fundou o Flickr disse que os primeiros dez mil utilizadores, é preciso seres tu, pessoalmente, a angariá-los. Depois, a forma como o grupo funciona, ou, por exemplo se fores ter com uma comunidade que já está interligada, facilita muito esse trabalho. Guimarães tem esse tipo de comunidade, o Porto tem menos... O Porto pode ser cinco vezes maior, mas tem menos essa comunidade, está menos ligada, partilha menos essas coisas.
— 116 — Transcrição da entrevista com Público P3 Entrevista com P3 07 de Fevereiro Cláudio Rodrigues (CR): Quais os objetivos da criação deste projeto, os objetivos iniciais? Amílcar Correia (AC): Queres um preâmbulo teórico? CR: Sim. AC: Quando estás a pensar lançar o site? CR: 15 de Fevereiro. AC: O P3 nasce do cenário que é generalizado no mundo ocidental de diminuição de vendas em papel e na tentativa de renovação de leitor. Os leitores envelheceram; a forma de ler mudou radicalmente, a forma de comunicar, também ela, mudou radicalmente, e essa revolução tecnológica deixou os jornais um bocadinho à deriva. Com o P3 nós queremos rejuvenescer os leitores do Público, queremos abrir caminho para um outro tipo de jornalismo, que é muito mais multimédia – porque há uma grande diferença entre a prática e a teoria: em teoria toda a gente acha que os sites devem ser multimédia, e depois as relações devem ser fundidas; na prática o Público ainda está um bocadinho longe disso e nós, com uma pequena equipa que somos, temos mais agilidade e capacidade em concretizar. Depois nascemos com esse objetivo de conquistar leitores num escalão etário mais baixo, uma vez que o leitor típico do Público ainda é essencialmente da minha idade, nos quarenta e qualquer coisa. Porque achamos que o público mais jovem está disposto a ler se os conteúdos forem feitos a pensar neles, quer em termos de apresentação, quer em termos de ângulo de tratamento. Depois do ponto de vista visual nós somos horizontais quando toda a gente é vertical, estamos muito mais próximos de uma linguagem “smartphone”, usamos hiperligações, recuperamos o som, que em termos de sites das rádios é maltratada – nós temos o áudio; e depois temos uma agenda que é completamente diferente. A nossa agenda não é uma agenda do Passos Coelho, não é a agenda do Futebol Clube do Porto, não é a agenda de todos os jornais. Todos os jornais têm em si uma espécie de mimetismo e acabam por se confundir uns com os outros, tal como as televisões, com as televisões de informação contínua acabam por repetir as mesPÚBLICO P3
— 117 — Entrevistas Anexo 2 mas histórias. Nós queremos falar das coisas das quais ninguém fala. Nós não temos uma intenção de “Última Hora”, e cenas “breaking news”, nós queremos falar de histórias de sucesso, do jovem designer que ganhou o prémio, do empreendedorismo de um atelier de arquitetura, etc. mas também dos problemas que afetam este “target”, como o trabalho, a emigração, etc. Esta é a primeira vez que um órgão de informação generalista sai da redação e faz um produto editorial em colaboração com a Universidade do Porto, com uma Universidade. É a primeira vez que uma entidade privada e uma entidade pública formam uma aliança deste género. E é a primeira vez também que há um site pensado para este público específico. É óbvio que existe o Blitz e outras publicações, há a Ragazza e essas coisas, mas não existia até à data nenhum site de informação generalista como este é. Tanto falar de economia como falar de design. Depois é também a primeira vez que o site é definido pelo público-alvo, para o público-alvo. Tivemos estudos de mercado feitos com entrevistas, e com inquéritos na net, aos quais questionamos sobre como deveria ser o site e que no fundo acabaram por ditar algumas mudanças no site. Depois temos outra característica que acho que é única que é o “crowdsourcing”: os leitores para nós finalmente não são apenas leitores, são utilizadores, e mais que utilizadores eles são também produtores, eles fazem o jornal connosco. E nós não temos uma relação tradicional, clássica, que é ir à redação e “tu escreves sobre Economia, tu escreves sobre Deporto”. Nós nunca nos cruzaremos num estádio de futebol nem nos meandros de uma cimeira europeia; aqui toda a gente faz um pouco de tudo e até coisas digamos mais para-jornalísticas, porque hoje o ato de distribuir aquilo que nós publicamos é um ato essencial à divulgação do nosso trabalho. O quiosque não mudou propriamente para o “tablet”, mudou para a forma como nós próprios divulgamos a nossa informação, seja através das redes sociais, ou através das nossas próprias redes de amigos. AC: Tá? CR: Acabou? AC: Queres mais? CR: Estava a gostar, acho que faz sentido com muitas das coisas que li... Li, por exemplo, que com o início da imprensa de caracteres móveis, ser escriba deixou de fazer sentido, porque não fazia
— 118 — sentido demorar cinco anos a reescrever um livro quando se podia imprimir numa semana. Se atualmente os jornais em papel estão com grandes problemas, provavelmente daqui a cem ou duzentos anos já desapareceram, porque, se calhar, não faz sentido estar a gastar dinheiro para se produzir uma coisa quando pode existir num suporte digital. AC: Está toda a gente a fazer “navegação à vista” mas não é verdade que os jornais estejam completamente a desaparecer do planeta. Se tu olhares para a Ásia, o consumo de jornais tem vindo a crescer bastante. E na América do Sul também. Nas sociedades ditas ocidentais, com este modelo de negócio, com este modelo de imprensa sim, as coisas estão a piorar, a publicidade foi-se embora, há variadíssimas razões. A publicidade deslocou-se para outros suportes, há uma nova geração de markteers, os administradores tem outra idade, preferem publicidade direta, preferem fazer uma árvore ali em baixo nos Aliados a pôr um anúncio no jornal a dizer que tem uma árvore de natal. Portanto aquilo dá-te para todo género, dá-te foto galerias, dá-te vídeos, por aí fora. Não diria que os jornais desapareçam completamente porque há sempre uma elite que irá... CR: Que os compra. AC: Sim... Até porque depois há negócios que tu tens negócios em ascensão que entram em queda e que depois podem voltar novamente a ser um negócio. Se não em ascensão, pelo menos a sobreviver. Os discos de vinil são um bom exemplo disso. CR: São direcionados para nichos, não é? AC: Sim mas voltam a conquistar uma pequena percentagem do mercado. Tu neste caso no atual mercado da música – existem algumas semelhanças com o mercado da imprensa – tu tens os Tokio Hotel hoje lançam em CD, vendem na net, lançam em vinil, tens uma caixa com uma t-shirt, dois discos, três discos, quatro discos, tens uma caixa com tudo, tens múltiplos suportes, dez polegadas, doze polegadas, sete polegadas, vinil com duplo... Hoje o que fazes é um somatório de nichos. Ninguém pode ter a veleidade de... Bem talvez a Madonna, mas a Madonna vai certamente fazer algo semelhante, estar nos vários suportes. Com jornais é um pouco a mesma coisa, nos andamos é à procura do efeito iTunes. Anda toda a gente à procura... Desesperadamente anda a fazer uma “order”. O New York Times: encontrar uma
— 119 — Entrevistas Anexo 2 forma de cobrar por uma notícia, por um texto de opinião ou por um jornal inteiro, ou por um arquivo, nos vários suportes que existem. Depois há outro caminho que poderá ter algum efeito interessante que é quando tivermos a fusão entre o ecrã de televisão e o computador e puderes ter interatividade entre aquilo que estás a ver na televisão e o consumo de informação: estás a ver um jogo e estás a ver uma janela com notícias que estejam a cair sobre aquele jogo ou sobre o comportamento de um determinado jogador. Mas isso é futurologia... CR: Em relação ao projeto em si, tentam captar colaborações externas? Alguns alunos de jornalismo fazem algumas peças, isso é pedido ou é proposto? AC: Quando lançamos o site a indicação que demos foi “Envia-nos os teus textos, envia-nos as tuas fotografias...” isso foi a bola de neve e agora temos um lote razoável de pessoas que nos enviam textos. Podem ser professores da universidade – do Porto e não só, mas geralmente tem sido do Porto –, podem ser alunos, da universidade e não só, ou podem ser pessoas que estão a estudar neste momento. Qualquer utilizador, desde que fotografe, faça vídeo e escreva com a qualidade e a decência e respeite as regras... Nós temos no site algumas explicações do tipo de textos e de formatos de vídeo que pretendemos, e qual é a nossa linha editorial, para explicar isso aos leitores. Publicamos aquilo tudo o que nos parecer interessante; “nós estamos todos em rede” – é um chavão do século vinte e um. Nós agrupamos conteúdos do Público, ou conteúdos do JPN/JPR (Jornalismo Porto Net/Jornalismo Porto Rádio) que são sites universitários, ou conteúdos dos leitores que nos cedem para publicar. Somos um site de partilha e somos um site colaborativo. Luís Octávio Costa [LC]: Passa tudo pelo nosso crivo, tentamos... – acho que respondemos a todos “sim” ou “não” – tudo é editado por nós e tudo é selecionado por nós. Se nós virmos que não tem a qualidade para ser publicado dizemos que não tem qualidade para ser publicado. Dificilmente passa tendo qualidade só porque é um utilizador nosso. Não fazemos o favor a ninguém. AC: Isso alarga o espaço de debate do Público, cria um espaço novo que estas pessoas poderiam ter eventualmente num blogue, mas que nunca teria a dignidade que tem num site com a chancela do Público. E escrever nos jornais ao lado de José Vítor Magalhães ou ao lado do Miguel Esteves Cardoso é algo que está vedado e que vai estar vedado durante os próximos trinta anos. Portanto a nossa forma; a forma como as pessoas tem de intervir na esfera
— 120 — pública dizendo aquilo que pretendem está limitada apenas aos seus próprios blogues e aqui nós temos, no fundo criamos uma comunidade de partilha, de colaboração entre jornalistas, editores, estudantes e docentes. LC: Ou tens uma pessoa, por exemplo, como este rapaz que tem vinte anos e que fez uma exposição no Bairro Alto agora, e que 2890 pessoas já viram que ele tem a exposição. Isto passa-te ao lado. Em dois meses autonomizamos – nós só tínhamos fotografia e vídeo – e autonomizamos a ilustração. Porque todas as semanas, ou duas/três vezes por semana, recebemos e-mails de pessoas que querem ter aqui os seus trabalhos. AC: A ilustração era muito popular no século dezanove quando ilustradores faziam uma viagem com o material de desenho às costas, para desenharem vales, rios e tribos que iam encontrando. A ilustração hoje, connosco, voltou a estar na moda, e temos utilizadores que nos enviam duas vezes/três vezes por semana propostas de publicação na galeria. Nós tiramos do passado aquilo que se tornou chique e estamos a apontar caminhos para o futuro. CR: O site está em constante mudança... AC: Sim, o site está em constante mudança. Partir do princípio que se faz um produto editorial e que ele se vai manter estático durante “xis” tempo num mundo que está em permanente mudança a uma velocidade superior aquela que é a nossa capacidade de o compreender é de loucos, e portanto o que nos pretendemos é atualizar o site de acordo com a agenda e o interesse dos nossos leitores e de aquilo que nos achamos que é melhor para o jornalismo e para o mundo em geral. LC: Agora temos uma “hashtag” do Egipto, e que podemos ter uma notícia que além do vídeo e dos sons tens um feed do Twitter; outra coisa, ontem ou anteontem podia ter isto, um .GIF animado. Todos os dias há pequenas coisas que as pessoas não sabem, mas no geral, um mês depois, podes dizer meia dúzia de coisas que foram implementadas a nível técnico. AC: O maior inimigo do jornalismo e o maior inimigo do jornalista é a sua, por vezes, vontade de acomodação e de dificuldade em gerir a mudança. E nós temos que saber gerir a mudança e acho que temos que saber gerir a mudança nomeadamente a par de termos mudado de redação para uma antiga sala de aulas e saber o que estamos a fazer e gerir a mudança é fundamental para continuarmos a fazer o site.
— 128 — 8.º Quando atacadas, as organizações centralizadas tendem a tornar-se mais centralizadas ainda. —Página 114 Pouco a pouco, o leitor vai conseguindo compreender quais as diferenças entre os diferentes tipos de organização, quais as vantagens e desvantagens entre elas e, também, quais as implicações que o impacto de uma tem na outra. Avançando na obra, os autores traçam três tipos de estratégia que se poderiam aplicar de forma a tentar combater organizações descentralizadas, quase que a oferecer uma solução para quem teme este tipo de estruturas. A primeira estratégia apresentada é a mudança de ideologia. No caso das editoras musicais, que após um século de indústria do domínio da reprodução musical, começaram a perder uma percentagem das vendas superior a 25%, a solução poderia estar, à partida, em convencer os consumidores que estes estavam a fazer algo condenável. Nesse sentido, as editoras musicais investiram fortemente, para além dos processos em tribunal, em campanhas publicitárias dirigidas aos mais jovens, que fracassaram porque a ideologia que tentavam transmitir era mais fraca que a ideologia de se poder ter acesso a música grátis. Os autores explicam o sucedido: “O processo é muito subtil e gradual. Por um lado, quem tentar massacrar- -nos com uma qualquer ideologia não conseguirá mais que uma reacção antagónica. Quando sentimos que alguém está a tentar manipular-nos ou controlar-nos, tornamo-nos defensivos e fechamo-nos.” — Página 122 Não negando as excelentes possibilidades de transformação de uma ideologia-estrela-do-mar através da mudança de ideologia da própria organização, os autores sublinham que é importante que essa nova ideologia que se pretende sobrepor seja, pelo menos, mais atractiva que a anterior. A segunda estratégia é a centralização, ou seja, conseguir com que uma organização descentralizada adquira uma hierarquia e, desta forma, perca a sua força obtida pela descentralização e se torne, apenas, numa organização concorrente (mais fácil de combater). Como exemplo os autores voltam a referir os Apache, que foram controlados pelos americanos após uma solução simples: a oferta de vacas aos Nant’ans (que funcionavam como catalisadores, termo que será explicado a seguir), que perderam o seu poder simbólico por ficarem na posse de um poder material, podendo assim “compensar e punir os restantes membros da tribo através da oferta ou negação deste recurso” — página 125.
— 129 — Análises bibliográficas Anexo 3 Ainda assim, esta segunda estratégia pode fracassar. No caso da indústria discográfica, esta já não vai a tempo de adoptar esta medida, porque actualmente já existem plataformas tão descentralizadas ao ponto de não ser possível criar qualquer hierarquia. Exemplo disso é o eMule, também abordado pelos autores, que surgiu após as editoras terem, através dos tribunais, encerrado o eDonkey. Tal como acontece a uma estrela-do-mar, após o encerramento obrigatório do eDonkey foi criado de forma colaborativa um novo software de partilha de conteúdos digitais, sem a possibilidade de encontrar o rasto aos seus autores e utilizadores. Assim, aquilo que era uma organização descentralizada deu origem a uma organização ainda mais descentralizada, ao ponto de restar apenas uma hipótese de combate às editoras discográficas, descentralizar-se. Esta é a terceira hipótese oferecida pelos autores, originando assim um novo capítulo na obra: a possibilidade de criar uma organização híbrida, que conjuga a participação de grupo obtida através da organização descentralizada com os lucros que só são possíveis de alcançar através de uma estrutura hierárquica: “Na revolução da descentralização, as velhas estratégias não funcionam. Uma empresa ou corporação tem de explorar novas opções, de forma a ser bem-sucessida no aparar de um ataque de estrelas-do-mar. Como iremos ver, por vezes o melhor é ir buscar recursos aos dois mundos, o centralizado e o descentralizado – aquilo a que chamamos “combinado especial”.” — Página 130. Assim sendo, os autores sugerem que a estratégia passe por uma determinada organização hierárquica disponibilize aos utilizadores ferramentas e liberdade suficiente de forma a que estes participem de livre vontade. Como exemplo, poderá sugerir-se que uma determinada organização com presidente e directores escute e aceite as propostas de todos os colaboradores, desde a funcionários a clientes. Esta medida implica uma grande confiança em todos os colaboradores e mais liberdade de acção a estes, pois é impossível gerir de forma rígida um número tão grande de opiniões. Assim, segundo os autores, a organização beneficiaria de uma maior criatividade e empenho por parte de todos os colaboradores, permitindo assim maior competitividade: “O ponto descentralizado de eficácia máxima é um ponto algures no continuum centralização-descentralização que permite a melhor posição competitiva.” — Página 154 *
— 130 — Na obra são, também, enumeradas as fundações de uma organização descentralizada. Nestes cinco tópicos, alinhados hierarquicamente entre si, são explicados os principais elementos comuns a qualquer organização descentralizada, em termos que depois são adoptados no resto do livro de forma a se compreender o discurso dos autores. Começando pelos Círculos, estes são aquilo a que podemos denominar comummente por grupos, que neste sentido adquirem características específicas. Em primeiro lugar refere-se o aspecto transversal a qualquer organização descentralizada: a ausência de hierarquia: “Tal é a característica dos círculos: uma vez admitido, é-se um entre os iguais. Cabe então a casa um contribuir com o melhor das suas capacidades.” — Página 75. No entanto outras características são comuns aos círculos, entre elas, a definição e cumprimento das normas. Acerca deste ponto, os autores acrescentam que “(...) a maioria das pessoas (...) deseja contribuir de forma positiva.” — Página 77, sendo esta afirmação resultado da análise de exemplos de comportamento dos utilizadores de plataformas colaborativas. Os autores explicam, ainda, o porquê da não adopção de regras, como é costume serem adoptadas em qualquer indústria: “As normas, de facto, tornam-se a espinha dorsal do círculo. Ao compreenderem que, se não forem eles a respeitá-las, mais ninguém o fará, os membros obrigam-se mutuamente à observância dessas normas. Ao fazê- -lo, eles mesmo começam a conhecê-las e a aceitá-las. Como resultado dessa auto-imposição, as normas podem tornar-se mais poderosas até do que as regras” — Página 76 Como Catalisador (abordado anteriormente neste resumo), os autores definem como a pessoa que inicia um círculo, ou seja, aquilo que dá origem à organização descentralizada: “Nas organizações abertas, um catalisador é uma pessoa que inicia um círculo, abandonando depois o primeiro plano. (...) Encontramos o mesmo padrão em todas as organizações descentralizadas: um catalisador inicia uma organização descentralizada e depois cede o comando da mesma aos seus membros.” — Página 78 No entanto, após a formação do círculo, o catalisador deve saber retirar-se, tratando da criação de novos círculos e de forma a potenciar o que de melhor existe numa organização descentralizada.
— 131 — Análises bibliográficas Anexo 3 “Ao deixar o posto de liderança, o catalisador transfere a responsabilidade e sentido de posse para o próprio círculo. (...) Um catalisador não espera, geralmente, elogios e louvores. Quando o seu trabalho chega ao fim, ele sabe que é tempo de seguir em frente.” — Página 79 Quanto à Ideologia, também já abordada neste resumo, esta é mais fácil de se perceber, embora não deva ser interpretada tal como uma ideologia tradicional, por norma mais fechada e abstracta. O termo ideologia, numa organização descentralizada, percebe-se como é aquilo que une as pessoas em determinado objectivo, que pode ser desde um objectivo solidário (por exemplo, defender os animais) até a um benefício pessoal (por exemplo, obter música grátis). Ou seja, não deve ser confundido apenas como a obtenção de determinada coisa, porque mesmo no caso da pirataria, as pessoas não só descarregam músicas como partilham aquilo que possuem à comunidade. “Não se trata apenas de comunidade, ou de conseguir algo gratuitamente, ou de liberdade e confiança. O cimento que une as organizações descentralizadas é a ideologia.” — Página 80 O quarto fundamento de uma organização descentralizada é aquilo a que os autores classificam como Rede Preexistente. É tido como rede preexistente, para além de possíveis organizações descentralizadas já existentes, grupos unidos pela mesma ideologia ou, também, alguma ferramenta tecnológica. Os autores alertam também que certas plataformas podem ser prejudiciais à organização descentralizada, tal como instituições coercivas, pois estas cairão sempre no erro de tentar controlar os acontecimentos: “Quase todas as organizações descentralizadas que triunfaram foram lançadas a partir de uma plataforma preexistente. (...) Mas as organizações centralizadas não são boas plataformas. Em primeiro lugar porque, se as ordens vêm de cima, os membros poderão segui-las mas não se sentirão inspirados a dar o máximo das suas capacidades. Em segundo, os líderes de organizações centralizadas querem controlar os acontecimentos, limitando consequentemente a criatividade. Em terceiro, e o que é mais importante, as organizações centralizadas não estão preparadas para lançar movimentos descentralizados. Sem círculos, não há uma infra-estrutura para as pessoas se envolverem e se apropriarem de uma ideia.” — Página 82 Por último, o Promotor. Assumindo um papel que, por vezes, poderia ser confundido com o de catalisador, o promotor tem tarefas bastante distintas. Em primeiro lugar não cabe a ele a criação de
— 132 — redes, ou seja, não está ligado à criação dos círculos. O promotor é algo para além disso, um diplomata, uma pessoa que transmita a ideologia do grupo: “O promotor é incansável na defesa de uma nova ideia. Os catalisadores são carismáticos, mas os promotores levam o combate ao nível seguinte. (...) Os catalisadores inspiram e põem naturalmente as pessoas em contacto, mas não há nada de subtil no promotor.” — Página 84 Recensão crítica Sendo vulgarmente associado a um livro de Gestão, a obra analisada é mais que isso. É, em primeiro lugar, uma reflexão sobre os nossos tempos, sobre a revolução que os media digitais trouxeram aos nossos dias. É, também, um glossário que ajuda a explicar aquilo que, por ser relativamente recente, é ainda difícil de explicar e compreender. É, ainda, um exercício de reflexão crítica sobre os temas mais discutidos na actualidade, sobretudo no que diz respeito à grande crise na indústria das editoras musicais. Começando por explicar, através de algumas histórias e metáforas, aquilo que os autores se propõe a analisar, o início do livro não traz nada de muito revelador para o leitor, podendo no entanto fazer com que este se aperceba melhor da realidade. Embora não havendo discussão, o início da obra abre caminho para o que se trabalha de seguida, ajudando os leitores menos informados a não se confundirem com o que se está a tratar. Começando verdadeiramente a reflexão, os autores começam por propor princípios gerais das organizações descentralizadas, assim como definem um guia de interpretação rápida para possíveis catalisadores, precavendo-os daquilo que poderão encontrar caso assumam esse papel. Na obra, percebe-se que Brafman e Beckstrom analisaram casos reais e retiraram, dessa análise, as conclusões que discutem, incutindo assim no leitor a percepção de que estes conselhos deverão ser, sem sombra de dúvida, tidos em conta. Além deste papel de apoio, ainda deixam conselhos a organizações centralizadas, de forma a conseguirem adaptar-se à nova realidade. No entanto, a forma como abordam a questão, dá a entender em parte que estas organizações tem algo de menos ético, sobretudo se comparadas com organizações descentralizadas. Tal facto acontece, em primeiro lugar, pelos exemplos adoptados: do lado das organizações centralizadas, surgem sobretudo as editoras musicais, quase apenas preocupadas com um lucro constante; do lado das organizações descentralizadas, abordam-se temas como a abolição da escravatura, o direito ao sufrágio pelas mu-
— 133 — Análises bibliográficas Anexo 3 lheres ou os grupos de Alcoólicos Anónimos. No entanto, no final, os autores diminuem o contraste entre capitalismo e intervenção social, propondo um modelo misto que cria a relação entre organizações centralizadas e organizações descentralizadas, permitindo assim a obtenção de lucros. Neste caso são citados exemplos como o Amazon ou o eBay, porque sendo locais que funcionam sobretudo com a participação colectiva e gratuita – colaboração descentralizada –, não sobreviveriam sem uma estrutura hierárquica que transmite uma sensação de segurança ao utilizador: as pessoas precisam de garantias ao trocar dinheiro por produtos. Assim, consideramos o livro interessante e um excelente ponto de partida para uma discussão mais alargada, interligando as conclusões, por exemplo, com mais perspectivas históricas. Afinal, a possibilidade de, actualmente, existirem um tão grande número de organizações descentralizadas, deve-se sobretudo à adopção em massa dos media digitais, da facilidade do seu uso e do seu baixo custo. Outras revoluções semelhantes aconteceram – como a invenção da prensa de caracteres móveis por Johannes Gutenberg – sendo por isso interessante poder continuar esta análise.
— 135 — Análises bibliográficas Anexo 3 Resumo da Comunicação “The Museum of All – Institutional Communication Pratices in a Participatory Networked World” por Daniel Brandão “The Museum of All – Institutional Communication Pratices in a Participatory Networked World” é o título da comunicação proferida por Daniel Brandão na conferência internacional The Endless End (Porto, 4 a 7 de Maio de 2011), da autoria de Daniel Brandão, Heitor Alvelos e Nuno Martins. Nesta comunicação o autor pretende discutir o posicionamento das instituições culturais em relação à forma de como devem comunicar, numa altura em que os meios de criação e difusão de conteúdos multimédia é acessível à maioria dos público destas. Assim, o objecto de estudo foi o Museu de Arte Contemporânea de Serralves por, segundo Daniel Brandão, “um dos autores do artigo ter uma relação profissional com a instituição”. Nesse sentido foram produzidos objectos de comunicação com o intuito de serem analisados posteriormente, como um vídeo produzido através da apropriação de vídeos com pessoas – jornalistas – a pronunciarem a palavra “Serralves” durante os seus programas de televisão, por exemplo. Segundo o autor, “estes exercícios permitiram entender a importância dos media participativos na construção de uma nova identidade institucional, através da apropriação de objectos multimédia registados e disponibilizados pelo público”. Assim, compreendeu-se que a instituição deveria empreender uma mudança de atitude, deixando de insistir apenas em tanta comunicação e adoptando uma estratégia de comunicação interactiva mais pessoal com os seus visitantes. Daniel Brandão et al analisam, ainda, a crescente popularização dos media participativos e algumas das repercussões que tem tido na actualidade. Citando autores como Clay Shirky ou Andrew Kenn, percebe-se que na actualidade existe, através das plataformas digitais, uma propensão das pessoas para a produção de conhecimento colectivo, quer voluntária quer involuntariamente. As pessoas, ao publicarem conteúdos em meios digitais, criam a “possibilidade da criação de novos conteúdos através da sua apropriação, manipulação e reordenação”, criando assim novas possibilidades de comunicação que, por se afastarem das mensagens tradicionais mais institucionais, criam uma “ligação afectiva entre o público e as instituições”. Actualmente, as instituições como Serralves tem a capacidade de potenciar estas novas possibilidades comunicacionais, mas segundo os autores raramente o fazem. Apesar do interesse em COMUNICAÇÃO DANIEL BRANDÃO
— 136 — adoptar algumas ferramentas de interacção social como o YouTube, o Facebook e o Twitter, Serralves continua a descurar a interacção com o seu público, não respondendo ao feedback recebido. Nos vários suportes transmite sempre a mesma mensagem, tal como costuma fazer com meios de divulgação onde é impossível a interacção com o receptor da mensagem, não conseguindo alcançar todos os resultados que estas ferramentas permite. Pode entender-se, assim, algum receio em instituições com esta envergadura em deixar de controlar totalmente a sua comunicação; no entanto, segundo os autores da comunicação, “este ambiente poderá conduzir ao declínio da função da instituição como intermediário único entre aquilo que tem para oferecer e a audiência”. Serralves deveria preparar-se para receber todo o tipo de comentários do público, desde os bons aos menos bons, criando assim um ambiente de liberdade que resultaria, no final, em mais sugestões positivas que negativas. Assim, a instituição deveria “adoptar o papel de catalisador”, de forma a potenciar a criação de círculos que permitissem uma maior participação do público. Os autores pretendem, através das etapas da investigação, inventariar o material recolhido e, com a sua análise, definir alguns padrões de comunicação institucional que permitam às próprias instituições oferecer maior visibilidade ao seu projecto cultural. No final, pretendem fornecer um estudo com um conjunto de recomendações passíveis de serem aplicadas no contexto cultural nacional e internacional, de forma a, por um lado, relembrar aos seus órgãos directivos a importância dos media participativos no sucesso da sua missão; por outro lado, aceitar a contribuição desta audiência na definição da identidade institucional, criando assim uma maior autenticidade na comunicação. Daniel Brandão termina a sua comunicação comentando o título do artigo. Relembra os primórdios do primeiro museu aberto ao público, o Louvre, em 1793, criando assim uma comparação entre a célebre frase “Um museu para todos”, e o título da comunicação, “Um museu de todos”. Na actualidade, em que a tecnologia já permite uma visita virtual a um museu através de um qualquer computador, as instituições culturais devem ter em conta o novo paradigma e evitar contrariar esta evolução natural. “De visitantes, o público das instituições culturais passou, também, a produtor de conteúdos”; é altura, então, de estas instituições aproveitarem estas criações na definição de um novo conceito, a ideia de um museu feito por todos. * Todas as citações foram proferidas por Daniel Brandão.
— 137 — Análises bibliográficas Anexo 3 COMUNICAÇÃO CLAY SHIRKY Resumo da Comunicação “Clay Shirky e as intituições vs colaboração” por Clay Shirky “Clay Shirky e as intituições vs colaboração” é o nome da comunicação disponível no website de conferências Ted Talks, proferida por Clay Shirky em 2005. O vídeo encontra-se disponível em http:// www.ted.com/talks/clay_shirky_on_institutions_ versus_collaboration.html. Shirky começa por questionar quais as motivações que possibilitam a contribuição do grupo perdurar no tempo, abordando a questão dos custos de coordenação. Este factor oferece, em geral, a resposta para a criação de uma instituição; “usa-se a instituição para coordenar as actividades do grupo”. No entanto, após o surgimento das plataformas digitais, estes custos de coordenação foram suprimidos, pois passou a ser possível “incluir a cooperação na ifraestrutura” de forma a coordenar os resultados do grupo “sem ter em conta modelos institucionais”. Tal como faz na obra “Eles vê aí – O Poder de Organizar Sem Organizações”, Clay Shirky recorre a alguns exemplos reais de forma a ilustrar as suas afirmações. Começa por referir o exemplo do Flickr, a plataforma social de partilha de fotografias (e, mais recentemente, vídeos). Esta plataforma adicionou uma funcionalidade denominada por tagging, que resumidamente permite a classificação individual dos conteúdos publicados. Com esta nova função, mesmo que um utilizador apenas disponibilize uma imagem sobre determinado evento na sua conta, esta poderá ser facilmente encontrada através da página de contribuições colectivas que reúne conteúdos com a mesma tag. Ou seja, esta nova possibilidade resolve um problema de coordenação, possibilitando que um enorme número de pessoas possam contribuir para um trabalho conjunto. Tal problema poderia tentar ser resolvido de forma institucional, através de uma equipa de editores, por exemplo; no entanto, a tarefa tornar-se-ia impossível no ponto em que não seria economicamente compensatório pagar um número suficiente de funcionários de forma a coordenar todos os contributos recebidos. “Quando se constrói cooperação dentro da infraestrutura, que é a resposta Flickr, podemos deixar as pessoas onde elas estão e levar o problema aos indivíduos em vez de levar os indivíduos ao problema. Organiza-se a coordenação no grupo, e ao fazê-lo obtemos os mesmos resultados sem as dificuldades institucionais.”
— 144 — anos de 1887 e 1911.1 O conhecimento deste elemento já circunscreve, em parte, a data da fotografia, mas decidiu-se continuar a pesquisa de elementos de forma a definir com maior exactidão a data do seu registo. Na imagem é perceptível a existência de estantes com objectos, provavelmente com o intuito da sua venda, pelo que se deduz que a fotografia foi registada num dia de Feira. Através do livro “Guimarães do passado e do presente” 2 foi encontrada uma imagem deste mesmo dia, registada do mesmo local e com os mesmos objectos, embora a uma hora diferente. Nesta publicação, a fotografia vem identificada como sendo registada num dia de Feira de 1908 – que, entre os anos em análise, aconteceria ao sábado. Outros elementos como os chapéus de sol que as pessoas, à varanda, usam e, também, o facto das árvores não se encontrarem despidas de folhas levam a concluir que, provavelmente, a fotografia foi registada durante os meses de primavera e verão. Foram também registados outros elementos na imagem que pudessem, talvez, ter alguma importância para a análise: as torres das igrejas (algumas já não existem na actualidade); a existência de 1—�Em 1887, com a inauguração da estátua afonsina, foi rebaptizado como Largo D. Afon-—�Em 1887, com a inauguração da estátua afonsina, foi rebaptizado como Largo D. Afonso Henriques. Com a saída do monumento ao rei Fundador, em 1911, passou a designar-se Passeio da Independência.” – António Amaro das Neves, in �Um largo com muitos nomes e nenhum (1)”, Memórias de Araduca, consultado a 3 de Junho de 2011 e disponível em http:// araduca.blogspot.com/2011/06/um-largo-com-muitos-nomes-e-nenhum-1.html 2—Organização de Joaquim Fernandes Guimarães, editado pela C�mara Municipal de Gui-—Organização de Joaquim Fernandes Guimarães, editado pela C�mara Municipal de Guimarães em 1985, pág. 186. 2. Imagem em análise 1. Estátua de D. Afonso Henriques 2. Estantes de feirantes 3. Chapéu de sol 4. Torres de igreja 5. Torre de igreja 6. Terreiro 7. Torre da Alf�ndega 8. Cavalo 1 2 8 3 4 6 7 5
— 145 — Análise visual, inquérito Anexo 4 um terreiro; a particularidade da montanha da Penha estar pouco arborizada; o facto da Torre da Alfandega ser mais baixa que actualmente e de, na sua fachada, ter inscrições tipográficas, ao invés do seu actual aspecto de muralha em granito com a inscrição “Aqui Nasceu Portugal”. Outro pormenor importante, embora menos notório, é a presença de um cavalo, seguido por uma multidão de pessoas, pelo que indicia que nesse dia poderá ter havido um desfile para além do habitual acontecimento da Feira. No entanto, pelas limitações na ampliação da imagem em análise, é impossível distinguir com clareza o que existe atrás do cavalo. Narrativa interna visível A análise à narrativa interna visível iniciou-se na descrição dos elementos visíveis na imagem. Ao fundo é notória a importância da montanha da Penha no enquadramento da fotografia. São visíveis, ainda, edifícios religiosos, edifícios de moradia da população, anúncios publicitários, tendas e estendais de comércio de rua, iluminação pública, calçada, passeios públicos, um terreiro e dezenas de pessoas, sendo impossível contabilizar um número concreto devido à fraca qualidade da imagem. Os elementos que dominam a imagem são, sobretudo, os edifícios de habitação pessoal e a Torre da Alfândega, localizados à esquerda, assim como as pessoas. A imagem é a preto-e-branco, com iluminação natural, perceptível através do reflexo da luz solar nos edifícios. O tom claro do céu contrasta com o negro da montanha, e a tonalidade da foto reflecte o desgaste das cores pela passagem dos anos. 3. Sobreposição da imagem presente no livro �Guimarães do Passado e do Presente” 4. Pormenor da imagem em análise, onde é visível um cavalo 5. Enquadramento 6. Pormenores inscritos na Torre da Alf�ndega
— 146 — Quanto à natureza da imagem, esta tem o intuito principal de registo de um determinado acontecimento da vida civil, sendo portanto, à partida, informativa. No entanto, pela sua antiguidade e pelas alterações do local que a imagem retrata, para algumas pessoas esta imagem pode adquirir um valor emocional superior ao seu carácter informativo, de registo. Relativamente ao enquadramento, os edifícios ocupam cerca de dois terços do total da imagem, assim como parte da Torre da Alfândega. O restante um terço da imagem é ocupado, principalmente, pela montanha da Penha e pelo terreiro. A fotografia foi registada a partir de um ponto alto, de forma a registar não só os edifícios e a montanha como, também, as pessoas, alcançando assim grande amplitude. Estes elementos preponderantes convergem para um elemento central – as torres da Igreja de São Dâmaso, assim como orientam a visão do espectador para o acontecimento que decorre na calçada que, por estar registado na diagonal, provoca alguma dinâmica ao registo. São distinguíveis mulheres, homens e crianças, vestidas sobretudo com cores escuras. Nas habitações são perceptíveis alguns padrões nas fachadas, concluindo-se que eram utilizados azulejos em conjugação com o granito. A maioria destes padrões e azulejos subsistiram até à actualidade, podendo fazer-se, num futuro estudo, uma análise aos respectivos azulejos e à sua dinâmica entre as diferentes propriedades. Na imagem destacam-se outros elementos com algum significado ao nível da Comunicação, como a presença de uma cartola gigante, anunciando uma chapelaria. Destaque também pela inscrição na Torre da Alfândega de palavras como “Castanheiro” e “Urgezes”, indicando que pelo menos parte dos anúncios pintados nesta parede tinham um alcance local. Outros elementos de destaque são os letreiros de identificação dos diferentes negócios da rua, como “Bernardino Jordão” ou “Hotel Avenida”, por exemplo. Narrativa interna invisível De forma a compreender-se a narrativa interna invisível, foram pesquisados e analisados, embora de forma mais sumária, outros enquadramentos do mesmo lugar. Estas imagens foram organizadas de forma cronológica, de forma a entender as alterações urbanísticas que ocorreram neste espaço. Em primeiro lugar, de forma a enquadrar um local, é apresentada a Planta de Guimarães, o registo topográfico mais antigo da cida-
— 147 — Análise visual, inquérito Anexo 4 de, datado de 1569.3 Através desta imagem é possível compreender a partir de que local foi registada a imagem, assim como qual a zona que estava a ser retratada. Noutra imagem, registada através do Largo do Toural no ano de 1867, é visível a existência de uma igreja no local onde, na fotografia em análise, se encontra o terreiro, assim como a existência de um edifício que, pela sua localização, estaria encostado à Torre da Alfândega. 3—�Planta de Guimarães de 1569” consultado a 5 de Junho de 2011 e disponível em http:// www.csarmento.uminho.pt/ TOURAL TORRE TERREIRO TORRE TERREIRO 7. Planta de Guimarães 8. Largo do Toural
— 148 — Através de outra imagem, registada através da zona de Couros, são visíveis os curtumes estendidos na parede, a secar; é visível a Capela-mor da igreja; e é possível observar, também, que aquela praça é apenas, ainda, um enorme terreiro, não existindo a estátua a D. Afonso Henriques. Esta imagem retrata com grande perspicácia quatro importantes elementos da vida citadina da época: as habitações da cidade e respectivo comércio; o centro cívico; a predominância da igreja; a principal indústria local da época, os curtumes. A terceira e quarta fotografias, em termos de enquadramento, são bastante semelhantes à imagem em análise, pese embora não apareça retratada a Torre da Alfândega. Nestas imagens são visíveis ainda os vestígios da demolição da igreja, pelo não arranjo entre a calçada e o terreiro. São datadas de 1908, pelo que deverão ter sido, portanto, fotografadas uns meses antes da imagem em análise. Analisando alguns elementos destas fotografias – o homem com a capa, a longa exposição da imagem (que indica que não haveria muita iluminação), o chão molhado e a ausência de folhas nas árvores, poderá especular-se que imagem foi registada durante o inverno, pelo que valida mais uma vez a possibilidade da imagem em análise ter sido registada provavelmente durante o verão. TOURAL ESTÁTUA TERREIRO 9. Zona de Couros 10. e 11. Alameda de São D�maso
— 149 — Análise visual, inquérito Anexo 4 Outra imagem do mesmo ano, que poderá ser anterior ou posterior à fotografia em análise por não ter nenhum elemento onde seja possível distinguir uma evolução temporal, apresenta o local da igreja demolida já arranjado, tendo um enquadramento bastante semelhante à foto analisada, embora não retrate nenhum acontecimento em particular. São visíveis cerca de 15 pessoas na praça – homens, mulheres e crianças – vestidas, igualmente à imagem em análise, em tons escuros. Nas pesquisas efectuadas foram encontrados, ainda, outros registos do mesmo dia, posteriores à imagem em análise. Estes registos de momentos posteriores permitiram uma melhor definição do contexto em análise, sobretudo na dúvida suscitada pela presença do cavalo e da multidão que lhe seguia. Fazendo uma aproximação a este elemento, é claramente identificável que este desfile se tratava de uma parada militar, pois são visíveis militares fardados e armados, que caminham alinhados e à mesma distância entre si. 12. Alameda de São D�maso 13. Alameda de São D�maso
— 150 — Na oitava imagem analisada já é notória uma considerável distância temporal entre esta e a imagem em análise. O local onde, na nossa análise, se encontrava um terreiro – originado pela demolição da igreja – encontra-se agora ajardinado e com plantas com já algum porte, além de ser perceptível um poste de transporte de comunicações de telégrafo. Através desta imagem é visível, com grande destaque, o Largo do Toural, assim como a sua igreja e parte do casario. Nesta imagem tem destaque, também, um conjunto de pessoas mais-ou-menos alinhadas, em pose para a fotografia. São possíveis identificar crianças e um homem, não sendo possível confirmar com exactidão de estaria presente uma mulher. Na nona imagem, que se pode enquadrar entre os anos 1908 e 1911, é visível o mesmo local da imagem anterior, embora fotografado do lado oposto. Pela boa qualidade da reprodução, é evidente a ausência de árvores na Montanha da Penha, tal como na imagem em análise. TOURAL ESTÁTUA 14. Alameda de São D�maso e Largo do Toural 15. Alameda de São D�maso
— 151 — Análise visual, inquérito Anexo 4 Na décima imagem analisada já é notória uma transformação do local em comparação com a fotografia em estudo. Além da alteração no desenho do jardim, é introduzido um novo elemento na estrada – um candeeiro público desenhado pelo pintor Abel Cardoso 4 – assim como é visível uma alteração no anúncio da Torre da Alfândega. Pela primeira vez são distinguíveis automóveis nas ruas, algo que não acontecia em nenhuma das anteriores imagens. Na análise de outros enquadramentos do mesmo lugar foram consideradas algumas imagens que, embora não tenham uma amplitude semelhante à imagem em análise, contribuem positivamente para a sua compreensão. Exemplo disso é a décima primeira imagem analisada, uma fotografia tirada a partir do início da Avenida D. Afonso Henriques na direcção da Torre da Alfândega, onde é possível verificar na totalidade o anúncio que lá se encontrava colocado. Nesta imagem, além do anúncio na torre, são perceptíveis anúncios de cartaz, colados num edifício localizado no lado esquerdo da fotografia, assim como os reclamos de uma loja, à direita. 4 António Amaro das Neves, in “Um largo com muitos nomes e nenhum (2)”, Memórias de Araduca, consultado a 3 de Junho de 2011 e disponível em http://araduca.blogspot.com/2011/06/um-largo-com-muitos-nomes-e-nenhum-2. html 16. Alameda de São D�maso 17. Torre da Alf�ndega, ao fundo. Registo através do início da Av. D. Afonso Henriques
— 152 — Foram recolhidas, também, imagens de pormenor do mesmo Largo, como é apresentado na fotografia à estátua de D. Afonso Henriques. Nesta imagem são visíveis ainda os edifícios entre este largo e o Campo da Feira, apenas demolidos em 1956. Na imagem ainda são visíveis homens, mulheres e crianças, assim como carros de bois. Com uma distância temporal considerável, a décima terceira imagem em análise mostra com detalhe o casario e a Igreja de São Dâmaso antes da sua demolição. Nesta imagem já se verifica a existência de um veículo automóvel. Em 1956, aquando da demolição do quarteirão, é registada a foto que se segue, onde é visível ainda uma das torres da Igreja do Campo da Feira e a montanha da Penha, já arborizada. 18. Alameda de São D�maso e estátua de D. Afonso Henriques 19. e 20. Igreja de São D�maso antes e aquando da demolição do quarteirão envolvente
— 153 — Análise visual, inquérito Anexo 4 Na décima quinta imagem, de 1970, embora a fotografia seja tirada de um ponto semelhante à imagem em análise, o espaço retratado já não é a Alameda de São Dâmaso, mas sim o Largo do Toural. Nesta fotografia já é possível observar o restauro da Torre da Alfândega, assim como a inscrição “Aqui Nasceu Portugal”, através de um tipo de letra condensado e não serifado. Observa-se também a já existência de autocarros, havendo no entanto pouco trânsito automóvel. Mais recentes são as décima quinta e décima sexta imagens analisadas – 2009 e 2010, respectivamente – já a cores e onde é possível verificar a inscrição “Aqui Nasceu Portugal”, tal como se encontra na actualidade. Na pesquisa efectuada por imagens mais actuais idênticas à fotografia em análise verificou-se que este local tinha perdido, em comparação com os registos mais antigos, o interesse por parte dos fotógrafos. 21. Largo do Toural e Torre da Alf�ndega 22. e 23. Torre da Alf�ndega