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Sobre a realidade social e a autonomia do desenho - da ESBAP à política de habitação nos projectos SAAL de Siza Vieira

Maria Inês de Araújo Silva Gomes

Abstract

A presente dissertação irá incidir na revisão do Movimento Moderno, na mudança de pensamento sobre o habitante enquanto parte integrante de um contexto cultural diverso, para o qual a resposta universal da arquitectura não satisfez a complexidade das diferentes identidades. Neste caso, o estudo apresenta os resultados de experiências exteriores, mas irá centrar- se, sobretudo, no contexto portuense, antes e após o 25 de Abril de 1974, mais precisamente no ensino da ESBAP, na influência do Inquérito à Arquitectura Popular, no processo SAAL e nos vários métodos para a edificação da habitação social. Para uma melhor abordagem dos temas, propõe-se a sua análise e observação a partir dos projectos dos bairros da Bouça e de S.Víctor, do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Pretende-se explorar a variabilidade da arquitectura enquanto disciplina mais ou menos dependente de forças políticas, opções económicas e sociais, na procura da concretização do sentido crítico do arquitecto. Por outro lado, explora-se o confronto da autonomia do desenho com a participação dos futuros utentes, a informação facultada por inquéritos e por outras metodologias para a edificação da habitação social, na formalização das ideias para os projectos, com o objectivo de adequar o desenho do habitat ao indivíduo.

Full text

Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Da ESBAP à política de habitação nos projectos SAAL de Siza Vieira FAUP, Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, 2014/2015 Maria Inês de Araújo Silva Gomes Orientação por: arq.to Manuel Montenegro Co-orientação: arq.to Sergio Fernandez À minha família, em especial à minha mãe, pelo carinho e atenção constantes. À Margarida Linhares, à Manoela Prata e à Helena Moreira, pela amizade e presença desde infância. À Daniela Fardilha, pela assistência técnica e emocional. Ao arquitecto Manuel Montenegro, pela orientação e dedicação na concretização da presente prova. Ao arquitecto Sergio Fernandez pela colaboração e pelo testemunho prestado. Por fim, a todos aqueles que me acompanharam ao longo deste percurso académico. A presente dissertação irá incidir na revisão do Movimento Moderno, na mudança de pensamento sobre o habitante enquanto parte integrante de um contexto cultural diverso, para o qual a resposta universal da arquitectura não satisfez a complexidade das diferentes identidades. Neste caso, o estudo apresenta os resultados de experiências exteriores, mas irá centrar-se, sobretudo, no contexto portuense, antes e após o 25 de Abril de 1974, mais precisamente no ensino da ESBAP, na influência do Inquérito à Arquitectura Popular, no processo SAAL e nos vários métodos para a edificação da habitação social. Para uma melhor abordagem dos temas, propõe-se a sua análise e observação a partir dos projectos dos bairros da Bouça e de S.Víctor, do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Pretende-se explorar a variabilidade da arquitectura enquanto disciplina mais ou menos dependente de forças políticas, opções económicas e sociais, na procura da concretização do sentido crítico do arquitecto. Por outro lado, explora-se o confronto da autonomia do desenho com a participação dos futuros utentes, a informação facultada por inquéritos e por outras metodologias para a edificação da habitação social, na formalização das ideias para os projectos, com o objectivo de adequar o desenho do habitat ao indivíduo. 1 ROSSI, Aldo. “La arquitectura de la ciudad”. 10ª ed -Barcelona: GG, 1999. p.64 This work is based on the revision of the Modern Movement, more precisely on the shift of reflecting on the tenant’s role, as part of a diverse and complex cultural context, to which the universal and rational way of thinking architecture wasn’t able to answer to. In this case, the study shows briefly the results of other architectural experiences in foreigner countries, but it will focus particularly on Porto’s social and architectural context, before and after the revolution of 25th of April of 1974. On the influence of the Inquiry on the Popular Architecture, on the SAAL process and other methods that eased the construction and planning of social housing. For a better understanding of this theme, we purpose the analisys of Álvaro Siza Vieira’s projects for Bouça and S.Víctor. On one hand, the goal we’re aiming to reach is verifying and exploring the architecture’s less or more dependence on political, economical and social forces. In other words, the architect’s possibility to enhance his autonomy. On the other hand, we confront this power of choice with the tenants’ participation on their future house, and also with the information provided by social researches. To sum up, we will observe the influence of these methods on the project design and on the adjustment of the dwelling to people’s individuality. Hay en realidad un continuo proceso de influencias, de intercambios, a menudo de contraposiciones entre los hechos urbanos tal como se concretan en la ciudad y las propuestas ideales. Yo afirmo aqui que la historia de la arquitectura y de los hechos urbanos realizados es siempre la historia de la arquitectura de las clases dominantes; había que ver dentro de qué limites y con qué êxito las épocas de revolución contraponen un modo propio y concreto de organizar la ciudad.1 766 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Introdução Objecto Abstract As circunstâncias em que um projecto de arquitectura é edificado quase nunca permitem a sua materialização de modo autónomo, quer por imposições de gosto do cliente, quer por condições económicas, políticas ou sociais que se sobrepõem ao traço do arquitecto. Neste caso, o objectivo do trabalho é observar as virtudes e vicissitudes da autonomia disciplinar e da inclusão dos moradores no debate sobre a habitação colectiva e, neste caso, social. Pretendemos clarificar também que, apenas quando o contexto cultural, político e económico se conjugam neste sentido, é que é possível, de facto, intervir com maior autonomia. Assim sendo, o trabalho inicia-se com uma análise da ESBAP e com o sentido do discurso arquitectónico portuense antes do 25 de Abril, de modo a entender as circunstâncias sociais que despoletaram e apoiaram o SAAL Norte, bem como as ideias de arquitectura que o definiram e que influenciaram os projectos de Álvaro Siza. No primeiro capítulo analisa-se o ensino na ESBAP e o sentido que Fernando Távora adopta do legado de Carlos Ramos, principalmente no estudo do Movimento Moderno e na introdução da arquitectura popular no âmbito disciplinar. Aborda-se também a influência deste reconhecimento na doutrina de outros docentes, nomeadamente Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo, pela relevância que demonstraram para o estudo da História e Teoria. Levantam-se questões que pretendem reflectir as diferenças de método nas várias disciplinas dos respectivos professores, nomeadamente a interpretação de cada um relativamente à arquitectura popular portuguesa, referente formalização dos alunos aos exercícios propostos, e ainda, a posição do corpo discente mediante este ensino. Acrescenta-se ainda, e porque julgamos que está de algum modo relacionado com esta conjuntura, uma iniciativa participativa, por parte de Sergio Fernandez, enquanto aluno, e comparamos a atitude de Siza Vieira, uma década depois e enquanto profissional. No segundo capítulo, introduz-se o estudo do Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, juntamente com outras iniciativas influentes na Objectivo obra de Álvaro Siza e apresenta-se o sentido do discurso europeu, nomeadamente dos CIAM, contextualizando-se também a posição da Escola do Porto neste encontro. Da pesquisa do meio português encontraram-se duas posições, uma que pretendia ser sobretudo disciplinar, com o objectivo de complementar o conhecimento da prática e outra que incidia na consciencialização do papel do arquitecto e no reconhecimento social. Para uma melhor adaptação desta problemática ao tema do SAAL Norte, expomos as “ilhas”, segundo estes parâmetros e abordamos a sua descrição tipo-morfológica e social. Desta informação e do conhecimento disciplinar do arquitecto, analisamos a dualidade entre a arquitectura popular e a erudita, a partir da reinterpretação que Siza Vieira faz nos projectos da Bouça e de S.Víctor. No terceiro capítulo introduzem-se, inicialmente, pesquisas e soluções, concretizadas num contexto exterior ao país e que aprofundaram a temática sobre a relação do utente com o habitat, procurando uma maior aproximação entre ambos. Desta exposição introduz-se o trabalho de Nuno Portas enquanto arquitecto, investigador e político, nomeadamente a formulação da metodologia para a edificação da habitação social , a proposta para a “Habitação Evolutiva” e ainda o “Despacho SAAL”. Iniciativas que consideramos influentes no desenho e construção dos programas SAAL, mas também para abordagens posteriores do arquitecto Siza quando confrontado com problemáticas de características semelhantes. No entanto, como o presente trabalho é referente somente ao contexto português e de revolução, incidiremos unicamente no contributo destas ideias nos projectos da Bouça e S.Víctor. Finalmente, propõe-se retirar desta análise ensinamentos pessoais e conceitos disciplinares importantes, enquanto método para um melhor e mais adequado desenho da habitação e planeamento urbano. Frisamos também que esta opção não tem como intuito a mimetização do passado, pois consideramos que a actualidade portuguesa não se equipara às circunstâncias anteriores e posteriores ao 25 de Abril e, portanto, as considerações finais sugerem somente uma reinterpretação da metodologia, como possível resposta para os requisitos habitacionais e urbanos da actualidade. Após a apresentação dos problemas, passaremos a expor a organização do trabalho e os meios a que recorremos para a sua concretização. Tratando-se de uma pesquisa teórico-histórica, socorremo-nos à leitura de publicações, livros e entrevistas referentes às décadas de 60 e 70 no contexto português e portuense, e ainda, do panorama internacional. Considerando que o estudo realizado visa propósitos disciplinares da prática da arquitectura, procuraremos observar no desenho e nos projectos de Siza, anteriores e durante o processo SAAL, a reflexão do arquitecto relativamente aos preceitos estudados. Uma vez que a temática em causa tem sido abordada e debatida recentemente, valemo-nos também de informação disponibilizada em exposições, conferências e entrevistas para um aprofundamento mais consciente do tema. Entre estes acontecimentos encontram-se: a exposição de Serralves, o simpósio “SAAL: em retrospectiva”, o colóquio organizado pela Universidade de Coimbra, “74-14 O SAAL e a Arquitectura”, conferências organizadas no âmbito da “Estratégia Urbana” e da exposição “Bairros do Porto - Memórias/Tempo de Futuro”. Relativamente às entrevistas, apontam-se as colaborações de Sergio Fernandez, António Madureira e de Fernando Cardoso, morador do Bairro da Bouça. A metodologia da presente dissertação não procurou ser um processo estanque, pelo contrário, passou pela conjugação de diferentes informações e opiniões para dar resposta ao impasse existente entre o desenho e a realidade a intervir. Assim sendo, e embora o índice exponha uma ordem que, conceptualmente apresenta o impasse e reflexão (“A Recusa e Urgência de Desenho”), seguida da resposta ao dilema formal (“A Arquitectura Popular no Movimento Moderno”) e a conjugação da identidade do indivíduo com a forma da habitação colectiva (“O Método para a Edificação da Habitação”), consideramos que, na prática disciplinar, o percurso inverso é igualmente possível. A organização tripartida não tenciona conduzir o leitor a concluir que a solução definitiva se resume, sistematicamente, à inclusão dos aspectos sociais na forma, mas sim induzir à rotaMetodologia tividade da estrutura, para uma revisão constante do processo de projecto e da atitude crítica do arquitecto. Para exemplificar, concluindo que a estratégia adoptada de aproximação ao utente não permite manobrar o desenho com autonomia, o arquitecto pode optar por questionar a proeminência dos factores sociais no projecto e relevar os modelos disciplinares ou vice-versa. O objectivo fundamental será encontrar um sábio equilíbrio entre a autonomia disciplinar e os fenómenos sociais, para a edificação de uma habitação e planeamento de um urbanismo mais inclusivo. Quanto à organização dos capítulos, também estes estão dispostos segundo uma estrutura tripartida, sendo que os pontos a. correspondem a preceitos da prática que sustentam as iniciativas desenvolvidas em b., relacionadas com experiências de aproximação à realidade, quer de projecto ou de análise social e c. corresponde à formalização em desenho e matéria da conjugação destes dois pontos, nos projectos para os bairros de S.Víctor e da Bouça. Finalmente, o layout do trabalho tenta tirar o máximo partido da informação disponível nas imagens e opera, muitas vezes, por comparação de elementos para analisar semelhanças e contrastes. Para tal, esta informação é complementada pelo texto, cuja proeminência e destaque variam conforme a importância da imagem, podendo, inclusivé, servir apenas enquanto legendagem nalgumas temáticas abordadas. Desta iconografia fazem parte fotografias e esquissos, mas também plantas, cortes e alçados que foram seleccionados com propósitos específicos, sendo que alguns desenhos foram redesenhados, com o fito de aprofundar e analisar determinadas ideias. 98 98 Introdução Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho 111010 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Índice Introdução 7 A Recusa e a Urgência 12 de Desenho a.1 O legado de Carlos Ramos e o Inquérito à Arquitectura Popular 15 b.1 Fernando Távora e a disciplina de “Composição da Arquitectura” 19 b.2 Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo nas disciplinas de “Arquitectura Analítica”, “História” e “Teoria” 23 c. A Recusa e Urgência de Desenho 27 c.1 A Participação e a Autonomia no CODA de Sergio Fernandez 30 c.2 A Participação e a Autonomia nos projectos SAAL de Siza Vieira 33 A arquitectura popular no 40 Movimento Moderno a.1 O CIAM X e o projecto da Escola do Porto 43 a.2 Duas das directrizes do Inquérito à Arquitectura Popular 48 b.1 A reinterpretação da arquitectura popular 50 b.2 Das “Ilhas” da cidade Oitocentista à “Ilha Proletária” do pós-25 de Abril 55 c. Nos projectos SAAL de Siza Vieira c.1 A revisão dos Modelos Modernos 61 c.2 A reinterpretação da Arquitectura Popular 66 O Método para a Edificação 80 da Habitação a.1 Os contributos dos Team X, John Turner, Henri Lefebvre e INA CASA 83 b.1 Proposta da Metodologia para a Edificação da Habitação Social 88 b.2 Habitação Evolutiva 91 b.3 Despacho SAAL 94 c. Nos projectos SAAL de Siza Vieira c.1 A inclusão dos fenómenos sociológicos nos projectos de habitação 96 c.2 O Direito ao Lugar e à Apropriação da Casa 102 c.3 A Autonomia do Arquitecto e a Organização Social da Procura 108 Conclusão 115 Bibliografia 121 Iconografia 123 I. Le Corbusier, “Villa Besnus”, Vaucresson, França, 1922 II. Interior de uma habitação popular portuense, 1974 A recusa e urgência de desenho A Brigada não acredita - nem admite - que a urgência dos problemas possa constituir um limite à qualidade ou poesia.2 2 VIEIRA, Álvaro Siza, “Linha de acção dos técnicos enquanto técnicos” in “A Questão do Alojamento 1”, Jornal de Arquitectos, nº204. Lisboa, 2002. p.17 A minha formação, na Escola do Porto, coincide com o período de elaboração do Inquérito. (...) a geração a que pertenço “entrou venerando Le Corbusier” e, sem abdicar da modernidade, “acabou por rever-se numa espécie de proposição mais humanizada e próxima, decorrente do contacto com a arquitectura popular”3. Da direcção e ensino de Carlos Ramos na ESBAP resultou um conhecimento profundo sobre os autores do Movimento Moderno e os modelos arquitectónicos internacionais Fig.1, aspectos que se reflectiram na doutrina de outros professores, como Fernando Távora Fig.2. A informação era recolhida a partir de livros e revistas que serviam de inspiração e exemplo para os estudantes de arquitectura que, acompanhados pelos docentes, iam desenvolvendo diferentes experiências de projecto. Verificou-se que nas propostas dos estudantes e nas obras dos ateliers, a linguagem empregue era na sua maioria demasiado abstracta e raramente reinterpretava os costumes de construção portugueses, baseando-se na adopção dos preceitos dos modelos internacionais. Contudo, do legado de Carlos Ramos não restou apenas o conhecimento académico, mas também acções de carácter extra-escolar e o conceito de “máxima liberdade, máxima responsabilidade”4, possibilitando que arquitecto e aluno estendessem o campo disciplinar a novas ideias. Neste sentido, surgiu a vontade de conhecer a realidade, para ampliar o conhecimento arquitectónico, fundamentado nos modelos modernos, e alarga-lo ao entendimento da cultura 3 FERNANDEZ, Sergio. “Comunicações, Sessão I”; in Joelho #02. Universidade de Coimbra: EDARQ, Abril/2011. p.39 4 TÁVORA, Fernando. “Evocando Carlos Ramos” in Revista Arquitectura, 0, Outubro/1987. p.76 Fig.2 Fernando Távora, “Bairro de Ramalde”, Porto, 1952-1960 Fig.1 Le Corbusier, “Villa Besnus”, Vaucresson, França, 1922 1515 A Recusa e a Urgência de Desenho A.1 O legado de Carlos Ramos e o Inquérito à Arquitectura Popular portuguesa. Tirando partido da liberdade que o ensino disponibilizava, realizou-se o Inquérito à Arquitectura Popular, do qual dois membros responsáveis por este projecto faziam parte do corpo docente da ESBAP: Fernando Távora e Octávio Lixa Filgueiras, que teriam um papel fundamental no futuro do ensino. É certo que a minha assistência a esses congressos – visto que as intervenções foram sempre mínimas, mercê de uma certa timidez que tenho comigo – foi de resultados muito limitados junto dos meus colegas já profissionalmente feitos. Mas estou convencido que, apesar de tudo, através da acção como professor, a experiência aí colhida teve uma certa importância na gente nova. Porque, evidentemente tendo tido importância em mim, teve também reflexos neles.5 A presença destes professores no CIAM X também seria muito influente para os alunos da Escola, enquanto testemunho do debate sobre o futuro do Movimento Moderno e transmissão das conclusões pessoais desta experiência. Se, por um lado, as referências e intérpretes do racionalismo europeu, da arquitectura internacional e do “objecto arquitectónico”, apresentados por Carlos Ramos, continuavam presentes na metodologia pedagógica, também se alertava os alunos para a apreensão da realidade e para a importância da história e dos valores que destas advêm, aspectos que a concretização do Inquérito também tinha evidenciado. A preponderância do Movimento Moderno seria reposicionada na Escola e adoptar-se-iam preceitos de outras tendências, como da Arquitectura Orgânica Fig.3, do Neo-Realismo italiano Fig.4 e ainda do Brutalismo Fig.5. A integração dos signos culturais na arquitectura, através das formas e dos materiais, sem, no entanto, recusar ser Moderno, era o aspecto comum a estes movimentos e à nova prática disciplinar do ensino. Esta directriz daria origem a um novo instrumento para projecto, que até então era apenas sustentado pela prática e observação de obras internacionais, através da criação das disciplinas de História e de Teoria. O propósito destas cadeiras era estudar o objecto para além da sua funcionalidade, isto é, o significado 5 TÁVORA, Fernando cit. por CARDOSO, Mário. Revista Arquitectura, nº123, 1971. p.153 Fig.3 Álvaro Siza Vieira, “Casa de Chá da Boa Nova”, Leça da Palmeira,1963 Fig.4 Fernando Távora, “Mercado da Vila da Feira”, Santa Maria da Feira, 1959 Fig.5 Álvaro Siza Vieira, “Pisicina das Marés”, Leça da Palmeira, 1966 da sua forma, dos materiais pelo conteúdo e a prevalência no tempo. Neste âmbito, dar-se-ia também continuidade ao estudo desenvolvido no Inquérito, por iniciativa dos alunos, que se deslocavam para lugares remotos, para o aprofundamento deste conhecimento. Foi o caso do CODA realizado por Sergio Fernandez Fig.6, cujo objectivo era observar as construções realizadas à luz das necessidades e de acordo com o meio cultural dos indivíduos, sem a imposição de condicionamentos especulativos ou intervenção de outrem, para além do próprio utente e do arquitecto. Posteriormente, teremos oportunidade de abordar mais detalhadamente esta experiência e respectivos projectos 6. Alunos e professores desenvolveram novos campos da acção disciplinar, para tornar mais independente a reflexão teórico-prática da Escola, tanto dos preceitos internacionais, como da tecnocracia dos investimentos construtivos do país, destinados ao turismo e especulação imobiliária, sob o controlo de grandes grupos financeiros que impunham desadequados modelos arquitectónicos, enquanto a construção de habitação clandestina aumentava. Ou seja, era apologia da Escola adoptar uma resposta que não mantivesse uma posição neutra face à situação da arquitectura em Portugal, ou que se limitasse a corresponder às necessidades de mercado e, portanto, o ponto de partida essencial era a análise dos problemas em causa. 6 Ver p. 30 Fig.6 Foto de Sergio Fernandez, “Uma rua em Rio de Onor”, 1963 Alves Costa admite que o que estaria em cima da mesa eram essencialmente dois modelos da escola: um preconizado por Lixa Filgueiras, outro preconizado por Fernando Távora. Ou seja, um primeiro modelo mais estruturado nas pedagogias analíticas e científicas e um segundo modelo mais centrado no ensino do projecto e do desenho que acabaria por vingar. 7 Esta imersão da Escola nos problemas reais teria duas linhas orientadoras distintas, que em vários momentos se cruzariam. A primeira, desenvolvida no âmbito das disciplinas de Arnaldo Araújo e Octávio Lixa Filgueiras, partia do envolvimento pessoal e trabalho de campo nos lugares, do qual consideramos o CODA de Sergio Fernandez, um exemplo aproximado a esta doutrina, pelo empenho revelado na pesquisa sociológica Fig.7. A segunda metodologia, mais orientada por Fernando Távora, baseava-se no desenho e na aprendizagem de projecto para alteração da realidade, um pouco à semelhança do ensino Moderno, mas complementado pela informação sobre a arquitectura popular portuguesa. Da formalização deste modelo destaca-se o projecto da “Casa de Chá da Boa Nova” de Siza Vieira, cujo desenho será analisado, posteriormente, no presente trabalho8, para observação da influência do Inquérito à Arquitectura Popular no trabalho do arquitecto. 7 BANDEIRA, Pedro. “Escola do Porto: Lado B, 1968-1978 (Uma História Oral)”. Guimarães: A Oficina, CIPRL Sistema Solar (Documenta), 2014. p.95 8 Ver p. 52 1716 1716 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.7 A rotina da povoação de Rio de Onor,, Inquérito à Arquitectura Popular em Trás-os-Montes e Alto Douro, 1961 Fig.8 Casa vernacular assente em pilotis, Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 Segui a lição de Carlos Ramos e mostrei aos alunos a importância do seu trabalho 9 No ensino de Fernando Távora privilegiava- -se a relação entre a pedagogia e a prática profissional, através da contínua transmissão dos problemas que surgiam no atelier e do confronto com as ideias desenvolvidas na Escola. Como iremos verificar na concretização do Inquérito, o arquitecto orientou este seu trabalho segundo as suas dúvidas pessoais quanto à prática disciplinar, procurando na arquitectura popular obras exemplares do racionalismo local e da conjugação dos programas com o espaço e soluções construtivas fig.8. O objectivo de Fernando Távora era garantir que, na Escola, enquanto instituição autónoma, havia oportunidade de rever a condução da prática através de outras experiências de projecto e de investigação. Na reforma de ensino de 68 e 69, Távora promoveu uma relação mais próxima entre alunos e professores, com o intuito de criar uma Escola participativa e democrática, diluindo a gestão centralizadora e alargando-a a docentes e discentes. Nesta experiência visou-se reestruturar as matérias num sentido mais integrado e adequado a projecto, com uma base teórica sólida, que até então não era incluída no plano de estudos. Fernando Távora defendia que o arquitecto, enquanto profissional, deveria ter um conhecimento variado sobre um conjunto de matérias que incluíssem a História, Construção, Teoria e ser capaz de sintetizar esta informação, segundo a sua capacidade crítica, na concretização do Projecto. Assim sendo, o arquitecto e professor aproximava os alunos aos problemas da realidade 9 TÁVORA, Fernando cit. por MONIZ, Gonçalo Canto, “Ensino Moderno da Arquitectura, A Reforma de 57 e as Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931-69)”. Julho/2011 - Coimbra: FCTUC. p.46 concreta, cuja procura da qualidade espacial e de novas formas deveriam ser facultadas pelo desenho, enquanto ferramenta auxiliar. Num balanço à sua doutrina, pode-se afirmar que procurou que os alunos consolidassem a formação académica, através do legado de Carlos Ramos, da apreensão da diversidade de projectos e de tendências da arquitectura erudita que então surgiam, com a cultura e arquitectura popular portuguesa. Ou seja, orientava-se a educação segundo o conhecimento técnico e plástico, de formação académica, consolidando-a com a formação moral, de modo a consciencializar os alunos para os problemas do contexto português. Mas, contra o que o homem por vezes pensa, as formas que ele cria, (...) os espaços que ele organiza não são criados ou organizados em regime de liberdade total, mas antes profundamente condicionados por uma soma infinita de factores (...) O número destes factores e a sua importância relativa são difíceis de apontar (...), até porque as formas artificiais ou de criação humana, (...), contam como factores condicionantes de cada nova forma criada, pois acontece que o espaço organizado pelo homem é condicionado na sua organização mas, uma vez organizado, passa a ser condicionante de organizações futuras (...)10 Nos exercícios propostos para a disciplina de “Composição da Arquitectura”, Fernando Távora procurou que os alunos se confrontassem com a maior variabilidade possível de situações, incluindo contextos urbanos e rurais, programas diversos, desde instalações agrícolas a centros recreativos Fig.9, Fig.10, conventos e escolas Fig.11,Fig.12. 10 TÁVORA, Fernando. “Da Organização do Espaço”. 3ª edição, Porto: FAUP publicações ,1996, p.21 1918 1918 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho B.1 Fernando Távora e a disciplina de “Composição da Arquitecura” Esta experiência participativa é anterior ao SAAL e ao projecto de Sergio Fernandez para o Bairro do Leal e, por isso, seria extremamente influente para o arquitecto pela aprendizagem pessoal, nomeadamente no modo de lidar com os moradores, no equilíbrio entre aceder às necessidades dos utentes e o próprio sentido crítico. No entanto, desta prática o arquitecto refere que o projecto da “Casa do Povo” Fig.26, enquanto objecto arquitectónico, produto de desenho, ficou um pouco aquém das expectativas, salientando que o conhecimento do arquitecto e a sua capacidade crítica, isto é, a autonomia disciplinar não deve ser secundarizada na elaboração de um projecto, ainda que participado. Das conclusões finais redigidas no CODA22, Sergio Fernandez revela que a equipa optou por uma atitude sociológica, nomeadamente na realização dos inquéritos e considera que esta posição não deve ser generalizada a toda e qualquer actuação do arquitecto, em problemas deste alcance. No entanto, acrescenta que estas bases teóricas de reconhecimento do lugar e dos modos de vida são importantes para a construção de projectos comunitários, para responder à especificidade do local. Cremos que estas conclusões aproximam o trabalho de Sergio Fernandez ao trabalho teórico realizado nas disciplinas de Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo, ainda que o desenho da “Casa do Povo” revele a influência dos modelos de arquitectura moderna que se estudavam na Escola e do Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa. No entanto, esta experiência seria um importante exemplo para o desenvolvimento do SAAL Norte e para a adopção do método participativo, pois tal como em Rio de Onor, o trabalho junto dos moradores das “ilhas” exigia o conhecimento de uma situação urbana específica e o seu propósito era também a reconstrução de uma vida em comunidade. #2, 2011, p.49 22 FERNANDEZ, Sergio. “CODA ESBAP, Recuperação de Aldeias, equipamento colectivo, Rio de Onor, Bragança”; 1965 Fig.24 Pequenos arranjos nas habitações de Rio de Onor, Sergio Fernandez, 1965 C.2 Participação e Autonomia nos projectos SAAL de Siza Vieira Em minha opinião estas modalidades de participação são acima de tudo processos críticos para a transformação do pensamento, não só da ideia que os habitantes têm de si, mas também dos conceitos do próprio arquitecto. 23 A participação dos moradores deveu-se, por definição no Despacho, ao dever das populações se organizarem para procurarem o acompanhamento de uma brigada e de contribuírem na solução de problemas administrativos ou burocráticos, como a exproriação dos terrenos. Fig.27 Porém, a intervenção destes indivíduos alargou- -se à discussão de ideias sobre as suas futuras casas, para lhes dar a oportunidade de serem incluídos no debate sobre a cidade que habitam. Esta experiência possibilitava, por um lado, que o arquitecto revesse a prática e o desenho das habitações, para os adequar ao cliente em questão e, por outro, permitia que os moradores se sentissem integrados e que desenvolvessem um sentimento de apropriação pela futura casa, devido ao empenho e tempo empregues nestes debates. 23 VIEIRA, Siza cit. por FRAMPTON, Kenneth “Profésion poética: Profissão poética, Álvaro Siza Vieira”, trad. Santiago Castán...[et al.]; Barcelona: Gustavo Gili, 1988. p.12 Fig.26 Alçado da “Casa do Povo” em Rio de Onor, com espaços de transição em sombra Fig.25 Reunião do “concelho” dos habitantes de Rio de Onor, Sergio Fernandez, 1965 Fig.27 Reunião da Associação de Moradores de S.Víctor 3332 3332 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho A participação tinha a ver com a revelação e interpretação dos modos de vida para chegar ao realismo dos programas, nem abstractos nem visionários.24 Apesar da citação anteriormente transcrita ser apenas referente ao contributo da experiência participativa na edificação do Bairro do Leal, exemplifica o que expusemos anteriormente. A participação permitiu rever os pressupostos modernos do habitat, cimentados e formulados à luz da idealização de uma sociedade melhor, mas sem partir da realidade em si para estudo e concretização das propostas. Os projectos SAAL, considerando a opinião dos moradores e o contexto das operações de cada brigada, reformularam o conceito, a conjugação dos programas habitacionais e a disposição das dependências da casa, como também redefiniram a extensão da vida doméstica ao exterior, desenhando cuidadosamente o espaço público, criando situações de transição e programas comunitários. Muitas das minhas propostas não as teria podido defender sem o apoio da gente que participava na discussão, a população ou sectores da população do bairro, porque eram propostas não aceites pela administração, inclusive, em alguns casos, pelos arquitectos, por meros preconceitos. Se consegui realizá-las, e creio que foi bom realizá- -las, foi graças à abertura de gente que discutia sem esse peso da importância cultural e, portanto, muito mais aberta ao raciocínio. 25 No caso de S.Víctor, a participação revelou o interesse dos moradores em manter o local de morada, mas com as condições necessárias para a sua vivência diária26 e ainda, a preferência pela 24 PORTAS, Nuno, “Das casas às pessoas e vice-versa” in “Só nós e santa tecla: a casa de Caminha de Sergio Fernandez”, Porto: Dafne, 2008. p.53 25 SIZA, Álvaro in “Fragmentos de uma Experiência – Conversas com Carlos Castanheira, Pedro de Llano, Francisco Rei e Santiago Seara”, “Álvaro Siza: obras e projectos”. Madrid: C.G.A.C., 1995. p.34 26 “We are interested in living here and it is here that we want to have conditions to live as human beings that we are (...)” in MOTA, Nelson, “An Archeology of the Ordinary: Rethinking the Architecture of Dwelling from CIAM to Siza”. Delft: TU 2014. p.223 preservação dos pátios, pequenos espaços privados ou semi-privados, ao invés da construção de grandes áreas e habitações colectivas27. Esta posição dos utentes, juntamente com a reconhecida importância da arquitectura popular e da necessidade de se restruturar a malha da cidade do Porto, devido às variadas alterações e demolições que até então se tinham realizado e que teriam descaracterizado certas áreas urbanas, conduziria Siza Vieira a ponderar a preservação das “ilhas”, enquanto elemento base do tecido urbano28 29. Fig.28 27 “The existence of patios, small private or semi-private open spaces was colectively cherished as having a major significance and importance.” in Ibidem, p.225 28 VIEIRA, Álvaro Siza, “A Ilha Proletária como Elemento Base do Tecido Urbano” in Lotus Internacional nº13, Milão, 1976, p.80 29 COSTA, Alexandre Alves, “A Ilha Proletária como Elemento Base do Tecido Urbano. Algumas Considerações sobre um Título Enigmático” in “A Questão do Alojamento 1”, Jornal de Arquitectos, nº 204, Lisboa, 2002, p.9 Fig.28 Demolições das “ilhas” em S.Víctor Este conceito foi inicialmente muito polémico e originou diversas posições entre os arquitectos, mas a subversão de um preconceito, que fora sempre conotado às más condições de salubridade destes conjuntos, só se tornou passível de ser alterado, devido à vontade dos moradores em manter o local de morada, à sua preferência por espaços de morfologia semelhante aos destes núcleos, pela preponderância destas tipologias na malha da cidade, bem como todo um conhecimento teórico sobre a valência da arquitectura popular e o significado das suas formas. Foi da conjugação da participação e dos anos da “Recusa do Desenho”, que na “Urgência do Desenho” surgiu a vontade de tornar a “ilha” uma nova estrutura, integrada e aceite na sociedade urbana. Fig.29 Fig.30 Fig.29 Desenho de Siza Vieira para as habitações baseadas na morfologia urbana das “ilhas” Fig.30 Bloco da Srª das Dores entre as reminiscências das ocupações anteriores 3534 3534 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho das Dores organizou-se, no auditório da ESBAP, uma simulação, com cadeiras e com o material que se encontrava disponível, de um modelo à escala 1/1. Contudo, a “Urgência do Desenho”, imposta pelas condições políticas, pelo ambiente efervescente e rapidamente mutável do pós 25 de Abril, deu consciência da importância do conhecimento disciplinar para desenvolver as propostas e para proceder à sua construção. Os estudantes que fizeram parte da brigada de S. Víctor, voltaram para a Escola para aprenderem soluções de projecto, construção, pormenorização32, para complementarem o trabalho realizado junto dos moradores. É na “Urgência do Desenho” que inserimos o projecto da Bouça, uma vez que já existia o estudo de Siza Vieira para o “Terreno do tribunal de menores” e, por isso, apenas se procedeu à adequação do projecto às necessidades e números apresentados pelos moradores. Alteraram-se as tipologias T5 para T3, pois os aglomerados familiares tinham, em média, 5 a 6 elementos; reduziram-se as áreas interiores, de 120m2 para os 97m2, para aumentar o número de fogos (de 140 unidades para 158) e acrescentou-se programa para usufruto da comunidade: lavandaria, biblioteca, sala de estudo e um posto de transformação. Fig.31 Fig.32 A construção do projecto foi iniciada em 1976, contudo apenas se edificou a primeira fase do projecto. Procedeu-se ao realojamento, ainda sem o fornecimento de electricidade e água, e o acesso a estes bens só se obteria através da luta e insistência da Associação. Durante vinte anos, o projecto ficou por concluir e os moradores continuariam a lutar pela sua finalização, impedindo, entretanto, a construção de outros empreendimentos públicos na área disponível e a progressiva degradação do edificado, através dos meios de que dispunham. Fig.33 Fig.34 Em 2002, por insistência da Associação junto da Câmara Municipal do Porto, retomaram- -se as obras e foi pedido ao arquitecto Siza que contribuísse na conclusão do projecto. Nesta revisão, o arquitecto foi confrontado com novas necessidades, como o direito a lugar de garagem ou estacionamento ao ar livre, e ainda, a redes de comunicação, como internet e telefone. 32 Ibidem, p.33 Os caluniados anos de “recusa do desenho”, embora não me arrependa das razões, não foram anos perdidos. Traduziram-se numa maior capacidade de compreender a história (compreender o presente) e foram o suporte fundamental para a reformulação que uma prática aberta recente, prepotentemente interrompida, exigiu e orientou. É este o património de que dispomos. Os passos dados não têm de ser repetidos: nem recusa ao desenho nem reaparecimento dos apelos aos modelos abstracta e delicadamente apresentados sob o lema “bom senso e competência”.30 Foi através de “bom senso e competência” e do rigor da linha de acção dos técnicos, que Siza Vieira desenvolveria a experiência participativa em S. Víctor. Por um lado, debatia-se com intensidade ideias de arquitectura, de estética, de ambiente e problemáticas urbanas, por outro lado, o seu alter ego, enquanto “Salazar de S. Víctor”, como os moradores o apelidavam, impedia-o de aceder a opiniões, cuja capacidade crítica, enquanto arquitecto, não permitia. Sobre a diversidade de ideias dos moradores, Siza concluiria, posteriormente: Este facto vejo-o como uma indicação claríssima de que a arquitectura é um tema escamoteado aos cidadãos por detrás do simulacro do mistério, quando na realidade é um tema discutível por todos e com vantagens evidentes. 31 A participação, do mesmo modo que os inquéritos ou outras experiências semelhantes de aproximação à realidade e conhecimento da identidade dos utentes, permite questionar a direcção da prática disciplinar, de por em causa preceitos cimentados pelo tempo, por legislações ou pela arquitectura erudita. A participação pode ser um método aplicado para rever conceitos, para a adequação dos modelos arquitectónicos. No caso de S. Víctor, organizaram-se debates, realizaram-se maquetas para tornar menos abstracta a forma dos espaços. Para as primeiras unidades construídas, do Bloco da Srª 30 SIZA, Álvaro cit. por FERNANDES, Manuel Correia; “ESBAP/Arquitectura anos 60 e 70, Apontamentos”. 2ª edição, Porto: FAUP publicações,1988; p.52 31 SIZA, Álvaro in “Fragmentos de uma Experiência: Conversas com Carlos Castanheira, Pedro de Llano, Francisco Rei e Santiago Seara”. Álvaro Siza: obras e projectos (...)”. Madrid: C.G.A.C., 1995, p.34 Fig.31 Planta do projecto da Bouça para o FFH, 1972-1973 Fig.32 Planta do projecto da Bouça para o SAAL, 1974 - 1978 Fig.33 Escada metálica improvisada pelos utentes, foto do morador Fernando Cardoso Fig.34 Conclusão da 1ª fase do projecto da Bouça, estado de degradação das habitações, foto do morador Fernando Cardoso 3736 3736 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Embora na Bouça, o processo tenha sido mais autónomo, devido à existência do estudo prévio para o FFH, Siza Vieira não dispensou a apresentação dos desenhos das habitações à Associação de Moradores, justificando inclusivé a escolha da cor do recuado, enquanto homenagem a Bruno Taut. Na segunda fase de construção do bairro, o processo continuava a ser participado, uma vez que a iniciativa para a sua conclusão tinha partido da Associação e do seu esforço para a manutenção do edifício. Da experiência de 1974 a 1976, poder-se-á afirmar que a participação contribuiu para a tentativa de formalização de um modelo arquitectónico capaz de expressar a cidade, enquanto direito e sinónimo de uma sociedade sem classes ou interclassista, de conjugar a arquitectura erudita com a arquitectura popular, as tipologias modernas com as locais, de responder às necessidades e opiniões da população, num processo de sobreposição de ideias, que permitia complexificar o projecto e dotá-lo de qualidade. Em 1974, as condições de vida e os meios económicos dos moradores eram muito diferentes, assim como as exigências de conforto e de privacidade eram mínimas ou praticamente inexistentes. Na conclusão da obra, Siza Vieira revestiu as paredes do projecto com capoto, para garantir algum isolamento; redesenhou os espaços exteriores, diferenciando os percursos pedonais da circulação de carros e os espaços privados dos espaços públicos, concebendo jardins e diferentes tipos de pavimento para os arranjos. Garantiu também a construção de um estacionamento coberto, outro exterior, redesenhou as varandas dos fogos superiores, convertendo-as em marquises Fig.35,Fig.36, a pedido da Associação de Moradores, e reconfigurou os jardins dos quartos do piso térreo, para lhes atribuir maior colectividade. Fig.37,Fig.38 Face a uma situação deste género, o arquitecto pode assumir duas atitudes. Pode assentir, de modo a evitar tensões. Mas esta posição é puramente demagógica e, neste caso, é vã a intervenção do arquitecto. Na hipótese contrária, o arquitecto pode deparar-se com conflitos; estes são inevitáveis, dado o modo de distribuição de informação na nossa sociedade.33 A urgência em construir e os longos debates dos arquitectos e moradores colocavam os técnicos no difícil equilíbrio entre o paternalismo, que o processo implicava e a arrogância, que a sua experiência profissional podia gerar. No desenho dos projectos o que estava em causa era a maior ou menor tendência para a reinterpretação da arquitectura popular e conjugação dos modelos eruditos da arquitectura, ou para a cópia do pitoresco e recusa do papel do arquitecto. Em S. Víctor, estes factores foram constantemente confrontados. Por um lado, a participação, as opiniões dos moradores, as pré- -existências e as ruínas; por outro, a autonomia, os modelos eruditos e a capacidade inventiva, a possibilidade de reconstruir e assegurar qualidade habitacional, através da conjugação das duas faces da moeda. 33 VIEIRA, Álvaro Siza cit. por FRAMPTON, Kenneth “Profésion poética: Profissão poética, Álvaro Siza Vieira”, trad. Santiago Castán...[et al.]; Barcelona: Gustavo Gili,, 1988, p.12 Fig.36 Alteração das varandas para marquises Fig.35 As varandas no fim da conclusão da 1ª fase do projecto Fig.38 Desenho actual dos jardins e do pavimento Fig.37 Apropriação dos jardins pelos moradores 3938 3938 A Recusa e a Urgência de Desenho Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho IV Álvaro Siza Vieira, “Bairro da Bouça”, após a construção da 1ª fase III Alexandre Alves Costa, “Ilha” do Porto, 1974 A Brigada acredita que a sua formação e as suas ideias, nos limites concretos da reconstrução do “habitat”, em relação à dialéctica com as ideias actuais da população para quem trabalha, estão na base de um mundo físico criado por - e para - uma sociedade que se deseja sem classes.34 A arquitectura popular no Movimento Moderno 34 VIEIRA, Álvaro Siza.“Linha de acção dos técnicos enquanto técnicos” in “A Questão do Alojamento 1”, Jornal de Arquitectos, nº204. Lisboa, 2002. p.17 Fig.39 Le Corbusier,“Plan Voisier”, Paris, 1925 - construção de alta densidade e libertação do solo Urbanism considered and developed in the terms of the Charte d’Athenes tends to produce “towns” in which vital human associations are inadequately expressed. To comprehend these human associations we must consider every community as a particular total complex. In order to make this comprehension possible, we propose to study urbanism as communities of varying degrees of complexity.35 A aplicação dos preceitos da “Carta de Atenas”36 Fig.39 permitiu uma rápida reorganização do território e construção de habitação após a II Guerra Mundial, bem como a garantia de uma certa estabilidade económica dos países europeus. Contudo, ultrapassadas as necessidades mais urgentes da edificação de habitação, impostas pelos estragos causados pela guerra e pelo grande número de desalojados, passou a questionar-se a importância da identidade urbana, das relações interpessoais dos utentes e da importância dos espaços, enquanto signos de uma rotina específica de habitar. Uma vez que, as propostas dos CIAM visavam um urbanismo e arquitectura uniformizados, realizar-se-ia um debate sobre a “Carta do Habitat” no CIAM IX37, no sentido de propor soluções para a situação da arquitectura da década e de substituir a “Carta de Atenas”. Assim sendo, foi apresentado um conjunto de projectos, nos quais os arquitectos tentaram assimilar situações particulares do desenvolvimento urbano e da habitação, através do melhor entendimento dos elementos fundamentais para a constituição 35 MUMFORD, Eric, “The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960” Cambridge, Mass.: The MIT Press, 2002. p.240 36 Cartilha de arquitectura redigida por Le Corbusier, no contexto do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna, realizado em Atenas, Grécia, em 1933 37 Congresso Internacional de Arquitectura Moderna, realizado em Aix-en-Provence, França, em 1953 4343 A arquitectura popular no Movimento Moderno A.1 O CIAM X e o projecto da Escola do Porto Fig.40 Projectos de “Habitação para o Maior Número”, CIAM IX, Aix-en-Provence, 1953 construção baixa, de alta densidade e ocupação 4544 4544 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho do ambiente cultural de alguns povos. Entre as propostas apresentadas destacou-se o grupo que desenvolveu o tema sobre “O Habitat Marroquino”38 Fig.40, por se tratar de uma iniciativa que partia da observação das habitações vernaculares, dos novos residentes na cidade de Casablanca. Particular functions would now be studied within “their appropriate ecological field”, as aspects of each “total problem” of human association.39 As conclusões e experiências do CIAM IX conduziriam ao debate exaustivo da reorganização do habitat no CIAM X, inclusivé dos aspectos influentes na constituição do ambiente envolvente e comunidades dos respectivos habitantes. Para tal, foi sugerido aos participantes que o estudo precedente fosse realizado no lugar do projecto, de modo a proporcionar uma melhor compreensão das particularidades do sítio e das relações interpessoais da comunidade, cujo intuito final seria a concretização de uma proposta para um conjunto de habitações, localizadas num meio específico, explorando o desenho do espaço de convívio da casa e da comunidade. Neste congresso, os trabalhos foram agrupados por comissões com temas específicos. A Comissão B.6, organizada por Bakema, cujo tópico era “Mudança e Crescimento” correspondeu ao trabalho já apresentado por Candilis no CIAM IX, dando oportunidade aos intervenientes de explorarem os temas da participação e da autoconstrução nos seus projectos. Esta iniciativa tinha o objectivo de apresentar soluções para a possível transformação do habitat, concedendo 38 Neste projecto, o grupo constituído por Bodiansky, Candilis e Emery, procedu inicialmente à análie da condição da habitação em Marrocos e dos problemas provocados por um rápido crescimento demográfico. Entre estes encontravase a incapacidade em garantir um mínimo de condições de habitabilidade que correspondessem ao progressivo aumento da população. A proposta desenhada pelos arquitectos consistia num conjunto de três grelhas semelhantes às da Unidade de Habitação, mas adaptadas às exigências de privacidade e intimidade das convenções islâmicas, também proporcionando ao habitante a possibilidade de lhe atribuir mais divisões e de a tornar mais desenvolvida. 39 “MUMFORD, Eric, “The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960”Cambridge, Mass.: The MIT Press, 2002. p.241 Fig.41 Habitat Rural, painel 2, CIAM X, 1956 Duas povoações dos arredores da proposta liberdade de acção ao indivíduo que pretendesse alterar a sua casa. O conceito de participação surgiu nos CIAM enquanto método que permitia respeitar a identidade dos utentes, considerando a possibilidade de evolução do desenho da casa, a construção para o maior número e a alteração desta consoante a expressão espontânea e as necessidades dos habitantes. Em suma, os arquitectos participantes no CIAM X auxiliaram-se do entendimento da realidade, através do estudo da particularidade dos lugares, da especificidade das relações humanas, das construções vernaculares de culturas diferentes e formularam a hipótese dos moradores alterarem livremente o seu habitat. At the same time, in the 1960s some of these approaches began to overlap with explicitly anti-CIAM directions such as the idea of advocacy planning, self-build, and user participation, as part of the the effort to redefine architecture in ways to be more responsive to the real needs of its future users..40 Nesta época, também se questionava a identidade da arquitectura em Portugal, no seguimento do confronto da tradicional “Casa Portuguesa” com o Movimento Moderno.41 Neste sentido, o Inquérito à Arquitectura Popular tinha então sido iniciado, com o intuito de justificar o emprego de determinados elementos construtivos e a especificidade das construções vernaculares de diferentes regiões do país. No seguimento desta pesquisa, interessou aos membros responsáveis pela concretização do Inquérito à Arquitectura Popular nas regiões do Minho e Trás-os-Montes e Alto Douro42, a sua participação no CIAM X, juntamente com Viana de Lima, delegado português nos congressos CIAM. O trabalho “Habitat Rural, Nouvelle Communauté Agricole” dos arquitectos portugueses consistiu numa proposta para um novo povoamento e respectivas habitações, numa localidade 40 Ibidem, p.268 41 Referência às publicações de Raúl Lino, “A nossa casa : apontamentos sobre o bom gôsto na construçäo das casas simples”, 1923 e de Fernando Távora, “O problema da casa portuguesa”, 1947 42 Nomeadamente Fernando Távora, Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo entre Bragança e Rio de Onor. No primeiro painel, o grupo apresentou a implantação de duas comunidades que exemplificavam e sustentavam as escolhas dos arquitectos para a organização do povoamento. Fig.41 Este localizava-se estrategicamente entre outras seis comunidades próximas e era composto por três áreas agrupadas por funcionalidades, tal como estava explícito na “Carta de Atenas”. No centro da comunidade foi desenhado um largo, constituído pelo centro cívico e a “venda”, conectado à margem oposta do rio, onde se localizava a igreja. 4746 4746 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.42 Habitat Rural, painel 2, CIAM X, 1956 Organização do programa da povoação Fig.43 Habitat Rural, painel 3, CIAM X, 1956 Organização da casa em torno da lareira Um pouco mais distante e situado numa localização mais elevada, encontrava-se um agrupamento cooperativo do qual faziam parte a escola, um serviço de saúde e edifícios de dimensões mais alargadas para auxiliar a produção agrícola. A unidade habitacional era organizada em torno da lareira, símbolo da reunião e do convívio familiar. A partir desta divisão foram distribuídos os quartos, a varanda, restantes espaços de transição e a instalação sanitária.Fig.43 Foram também desenvolvidas duas tipologias principais, a M1 para uma família sem filhos e as M2 e M3, que incluíam mais quartos.Fig.44 Tal como noutros estudos apresentados no CIAM X, também a equipa portuguesa sugeriu que o habitante pudesse alterar a habitação. A utilização dos materiais do lugar como o xisto, a ardósia e a madeira, permitiam que o habitante, familiarizado com o tratamento destes materiais, pudesse alterar as áreas livres da unidade, consoante os números do agregado familiar. Ainda que o estudo se baseasse na organização funcional proposta pela “Carta de Atenas” (habitação, lazer, trabalho e transporte), é possível observar a influência do conhecimento do lugar na formulação do programa para o povoamento e para a habitação, bem como a escolha dos materiais. No trabalho da equipa portuguesa, elementos como a “venda”, a igreja e o largo tinham bastante relevância na forma do povoamento, enquanto pontos fundamentais de convívio e de vivência do dia-a-dia dos indivíduos. Também a utilização dos materiais do lugar, a preservação das varandas como espaço de reunião dos habitantes da casa e a organização do programa em torno da lareira Fig.45 revelam uma maior consciência dos arquitectos sobre as especificidades da arquitectura popular e da importância das diferentes formas de apreensão do espaço habitacional. Fig.44 Habitat Rural, painel 3, CIAM X, 1956 Proposta para a evolução das unidades Fig.45 Habitat Rural, painel 3, CIAM X, 1956 O material, os espaços de luz e sombra das varandas A participação da Escola do Porto no CIAM X, associada à experiência do Inquérito, foi uma influência condicionante no ensino da Escola, conduzindo alunos e arquitectos a procurar a autenticidade local, através do conhecimento da arquitectura popular, da reinterpretação das construções vernaculares e à formulação, por Nuno Portas, de um método para a construção da habitação, baseado na “Habitação Evolutiva” e na autoconstrução. Também no trabalho de Siza Vieira, a crítica aos pressupostos formulados pelos CIAM expressaram-se no desenho e na vontade de recuperar a História, a identidade urbana dos projectos da Bouça e S.Víctor, nomeadamente na valorização das tipologias populares e na revisão dos modelos Modernos anteriores à Guerra. 4948 4948 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho A.2 Duas directrizes do Inquérito à Arquitectura Popular Fig.46 Alçado e planta da “Casa da Lavoura”, Balazar, Guimarães, “Arquitectura Popular em Portugal”, 1961 Fig.47 Uso da madeira para a construção da “Casa da Lavoura” “Arquitectura Popular em Portugal”, 1961 A casa popular fornercer-nos-á grandes lições quando devidamente estudada, pois ela é a mais funcional e a menos fantasiosa, numa palavra, aquela que está mais de acordo com as novas intenções.43 A casa rural fora especificamente seleccionada para objecto de estudo e de análise no Inquérito, uma vez que se tratava de um exemplo construtivo que, devido à sua remota localização, não sofrera alterações de influência exógena, nem tão pouco fora condicionada por políticas de habitação ou por modelos de arquitectura e, como tal, correspondia directamente às necessidades e modos de vida dos seus utentes. As suas soluções arquitectónicas são também as mais sedimentadas, pois a conjugação das formas e dos métodos construtivos foram alvo de inúmeras adaptações, sobreposição de saberes e de experiências readaptadas, consoante exigências climáticas, geográficas e respectivas ocupações. Partindo deste pressuposto, o trabalho do Inquérito foi distribuído por equipas responsáveis pelo estudo da arquitectura popular em diferentes regiões de Portugal, sendo relegado a cada grupo o critério e o processo do estudo. Do reconhecimento da arquitectura da região minhota, chefiado pelo arquitecto Fernando Távora44, destaca-se os objectos em análise, exemplos populares de qualidade espacial e plástica, que comprovam a existência de uma relação forma/função, próximos dos preceitos da arquitectura moderna. Fig.46 Também a análise do uso de diferentes materiais e métodos construtivos, Fig.47 consoante a variação da localização da habitação ou do cliente, demonstram um elevado cuidado na apreensão da singularidade das construções 43 TÁVORA, Fernando; “O Problema da Casa Portuguesa”, Lisboa 1947, p.11 44 Juntamente com Rui Pimentel e António Menéres Fig.49 Fotografia, alçado interior e planta, Montes, “Arquitectura Popular em Portugal”, 1961 Fig.48 Interrior de uma casa, Montes, “Arquitectura Popular em Portugal”, 1961 Por isso, para cada caso, procuraremos reconhecer o seu ambiente natural, saber da sua gente, como vive e de quê, entrar no espaço das suas casas e descobrir a ordem que lhes puseram, compreender os materiais dominantes sob as formas em que os talharam.45 Por outro lado, no Inquérito em Trás-osMontes e Alto Douro, os autores Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo46 observaram atentamente o interior das casas, sobretudo os objectos que as preenchiam, o modo como se dispunham as áreas programáticas, muitas vezes circunscritas a um único espaço, cujas dependências se diferenciavam pela materialidade empregue. Entre a informação exposta neste capítulo encontram-se inúmeras fotografias do interior das casas, dos elementos que as preenchiam e são também retratados alguns momentos da vida diária dos habitantes. Fig.48 Este interesse pela rotina está também expresso nos desenhos dos levantamentos, no apontamento dos objectos e a sua disposição no interior, que muitas vezes não teria valor enquanto espaço arquitectónico, mas antes enquanto ambiente vivido, preenchido pelos signos do dia-a-dia. Fig.49 A diferença de metodologia e de interesses repercutiram-se no ensino da Escola, estendendo-se até ao culminar do processo SAAL, experiência que permitiu a coexistência de uma análise direccionada à qualidade espacial e técnica da arquitectura e de outra orientada sob a observação da identidade e das relações sociais. Por um lado, uma análise tipo-morfológica das construções vernaculares, preconizada por Fernando Távora e que justificou o seu estudo para objectivos fundamentalmente disciplinares, para a reformulação dos modelos da prática da arquitectura. Por outro lado, a presença de uma ideologia que se baseou no aprofundamento do papel social do arquitecto e conhecimento da identidade da população. 45 “Arquitectura Popular em Portugal”, 2ª edição, Lisboa: Associação Arquitectos Portugueses, 1980. p.118 46 Em colaboração com o arquitecto Carlos Carvalhos Dias 5150 5150 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho B.1 A reinterpretação da Arquitectura Popular A nossa Arquitectura e o nosso Urbanismo atravessam uma crise porque não são modernas – isto é, porque não realizam exactamente a síntese das nossas necessidades e das nossas possibilidades, não constituindo desse modo a tradução perfeita do homem português na multiplicidade das sua relações.47 Em Portugal, e tendo por referência os anos entre 1948 e 1955, não se tinham construído, até então, as estruturas socioeconómicas necessárias para se justificar a reestruturação da arquitectura num sentido universal e racional, capaz de retratar o desenvolvimento industrial e as respectivas consequências culturais da estandardização. O país estava ainda muito enraizado nas tradições rurais, na especificidade dos lugares, provocado pelo lento e tardio progresso da produção em série, tornando inoperável actuar segundo estes pressupostos. As obras construídas trataram-se maioritariamente de encomendas isoladas, edifícios de excepção, e a estagnação da indústria da construção, ainda presa ao artesanato, impedia a garantia de uma maior eficiência e aperfeiçoamento das técnicas. O caminho formal encetado pelo Movimento Moderno, no sentido de uma transformação radical para servir o Homem universal, fruto das supostas necessidades homogéneas, não davam lugar às especificidades culturais e étnicas. Por vezes, o Estilo Internacional em Portugal, repercutira-se somente na utilização da sua gramática formal, como a presença do “brise soleil” enquanto elemento decorativo, a construção da janela horizontal, contínua e na falta de investimento em materiais locais como o tijolo, madeira, pedra, etc. 47 TÁVORA, Fernando cit. por COSTA, Alexandre Alves “Dissertação expressamente elaborada para o concurso de habilitação para a obtenção do titulo de professor agregado”, prefácio de Álvaro Siza, 2ª edição, Porto, ESBAP, 1982, p.25 Neste sentido, foi no estudo e compreensão das construções populares que se procuraram os fundamentos da arquitectura portuguesa, as razões e necessidades que justificam os seus métodos construtivos e formas, de modo a facultar e desbloquear o sentido da prática disciplinar. A transversalidade da arquitectura popular, no sentido de que a sua construção advém da sobreposição de experiências de tempos diferentes, também permite justificar a sua eficácia funcional e formal, fundamentando a empregabilidade e adaptação da sua função/forma à arquitectura erudita. A catalogação dos casos de estudo presentes no Inquérito segundo “tipologias”, devido à constatação da sua repetição em determinadas regiões, prova a importância do estudo destas sínteses mais harmonizadas das necessidades, soluções técnicas, concepções de beleza individuais e colectivas de sociedades específicas. Fig.50 Esta conclusão seria preponderante no SAAL Norte, pois conduziria arquitectos e estudantes a procederem a trabalhos de campo e de reconhecimento rigoroso das “ilhas”, enquanto tipologia que reflectia o modo de viver da classe trabalhadora. Em suma, a publicação do Inquérito provou aos arquitectos que era possível auxiliarem-se das formas da arquitectura popular na prática disciplinar, demonstrando que o conhecimento não se adquiria somente nos periódicos ou no abstraccionismo formal das escolas, mas que este deveria também partir da análise da realidade, em si. Como tal, passa a ser relevante expor a influência da publicação do Inquérito nos projectos de Siza, nomeadamente na Casa de Chá da Boa Nova, enquanto exemplo do percurso do arquitecto na interpretação da arquitectura popular no Moderno. Há mesmo assim na Casa de Chá “ideia” logo desde a incrustação no sítio – recusa de exibir uma construção “modernaça” mas recusa de a desfazer num mimetismo ruralizante – pontuada pelos volumes de canto e de chaminé; ideia na maneia de entrar que faz chegar a uma esplanada árida, trepar entre rochas, “baixar a cabeça” sob o alpendre, penetrar e descer entre o denteado de um tecto (...)48 48 PORTAS, Nuno in VIEIRA, Álvaro Siza “Casa de Chá da Boa Nova – Boa Nova Tea House, 1958-1963”, s/p. Fig.50 Catalogiação de tipologias do Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 6564 6564 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.73 Siza Vieira, desenho do bloco da Sra das Dores - o uso da cobertura plana e comparação com a envolvente Fig.76 Siza Vieira, esquisso do projecto da Bouça, 1973-1977 - uso do ângulo agudo para desenhar a transição entre a implantação e a estrutura urbana da rua da Boavista Fig.75 Siza Vieira, esquisso do projecto da Bouça, 1973-1977 - desenho da curva e procura da forma nais, assemelhando-as à morfologia dos pátios ou praças semiprivadas, assegurando também a continuidade das estruturas viárias envolventes. Embora estes espaços exteriores sejam idênticos na sua configuração, as escadas do pátio central permitem originar situações de maior convívio entre os moradores, enquanto os restantes espaços exteriores respondem às necessidades de privacidade. Na volumetria dos edifícios é mantida a planimetria das paredes dos modelos modernos, facto que é enfatizado pelo uso da cobertura plana no bloco da “Sra das Dores”, Fig.73 no prolongamento das fachadas da Bouça, de modo a esconder a cobertura de duas águas e pela exploração dos planos, através da desconstrução do volume.Fig.74 São também usadas diversas formas geométricas, não só as mais normalizadas e rectangulares, mas também ângulos agudos e curvas, para conferir qualidade espacial e compositiva aos espaços, desenhar momentos de tensão nas intersecções. salientando também a relevância do aspecto estético, e não apenas da importância da racionalidade no planeamento urbano e do uso da malha rectangular. Fig.75 Fig.76 A curva no projecto da Bouça apresenta-se também como uma continuidade das estruturas urbanas, tanto da pré-existente como da nova, recordando a sinuosidade dos limites irregulares da envolvente e do crescimento espontâneo da cidade, na tentativa de não sobrepor o planeamento geométrico na malha urbana, contudo necessário para uma resposta operativa e global Fig.74 Siza Vieira, esquisso da Bouça, 1973-1977 J.P. Oud, casas na Strandboulevard, Scheveningen, 1917 - Desconstrução do volume e da planimetria 6766 6766 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.78 J.P.Oud, Hoek van Holland, Roterdão, 1928-1930 Siza Vieira, esquisso do bloco da Srª das Dores, 1974-1976 - uso da curva para enunciar passagem. Fig.77 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 2004 - 2006 . uso da curva para desenhar a continuidade da planimetria no desenho da habitação colectiva. J.P.Oud também utiliza este elemento nos planeamentos para “Hoek van Holland” e “Kiefhoek”. Fig77 No primeiro, a curva é utilizada enquanto elemento orgânico, capaz de quebrar a rigidez do desenho simétrico, um pouco à semelhança do bloco da “Sra das Dores”, onde também está presente, de certo modo, esta composição clássica, na qual a curva enuncia a passagem do espaço público para as traseiras das unidades. Fig.78 Elsewhere in the plan, too, Oud tried to correct irregularities of the plan by dint of symmetrical arrangements, such as the free-standing dwellings terminating the elongated blocks lining the main streets.66 Tal como J.P.Oud, Siza também desenha volumes independentes que permitem conformar e individualizar áreas, tanto no projecto para a “Sra das Dores”, como na Bouça. É também importante referir que, para destacar a diferenciação planimétrica das fachadas e atenuar o sentido abstracto da parede branca, Siza utiliza a cor, à semelhança dos projectos de Bruno Taut Fig.79. Ainda, a necessidade de tornar menos dispendiosa a edificação do projecto da Bouça, para corresponder aos meios disponíveis no contexto do programa SAAL, conduziu à construção do projecto em alvenaria de blocos de betão Fig.80 e à redução da altura dos volumes mais altos das extremidades do terreno, por imposições estruturais Fig.81, para quatro pisos, correspondentes à sobreposição de dois fogos. Para tornar mais operativo o alojamento dos moradores, Siza reduziu as áreas de circulação e diferenciou maioritariamente as zonas de uso diurno e nocturno, reduzindo a frente dos módulos para 4m, à semelhança do bloco da “Sra das Dores”67. Algumas contradições dos projectos da Bouça e de S. Víctor, nomeadamente as que correspondem a um afastamento dos modelos Modernos, justificam-se pela capacidade de Siza Vieira 66 BAKEMA in TAVERNE, Ed, “J.J.P. Oud : the complete works : 1890-1963” Ed Taverne, Cor Wagenaar, Martien de Vletter ; contrib. Dolf Broekhuizen ...[et al.]. Rotterdam: Nai Publishers, 2001, p.277 67 ver p.37 Fig.79 Bruno Taut, Bohnsdorf, Berlim, 1929-1933 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 2004-2006 - uso da cor para diferenciar planos e acentuar a identidade do lugar Fig.80 Construção da 1ª fase da Bouça, 1977 - sobreposição dos blocos de betão Fig.81 Corte do estudo para o FFH do projecto da Bouça, 1973 - desenho de 6 pisos nos volumes extremos da implantação em concilia-los com a identidade local. Estas condições influenciaram o arquitecto a realizar um percurso inverso ou, talvez, precursor, e a optar pelos modelos Modernos anteriores à publicação da “Carta de Atenas”, mais inclusivos e cuidadosos com a qualidade espacial urbana. Uma vez mais, estava em causa o balanço entre a arquitectura popular e a participação dos moradores, factores influentes na reformulação de determinados preceitos do modernismo. Contudo, era sobretudo preponderante a autonomia do arquitecto, isto é, a sua capacidade em adoptar um processo algures entre a abstracção e a objectividade. 6968 6968 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho C.2 A reinterpretação da Arquitectura Popular Fig.82 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 2004-2006 Manuel C. Teixeira, “ilha” em S.Víctor - comparação da morfologia do espaço exterior do projecto e das “ilhas” Finally, one most consider a central area in the extension of the city to the North, with the most important nuclei of “ilhas” in Bouça, Lapa, Leal-Fontinha and Rua da Duqueza de Bragança.68 A morfologia do Bairro da Bouça é anterior à reformulação da zona de S.Víctor e ao processo SAAL, no entanto, cremos que o projecto recorda a presença secular das “ilhas” nas áreas circundantes, reinterpretando a sua organização e disposição no terreno, impondo-se na cidade pela escala urbana, aspecto que não é característico das tipologias anteriores. Ou seja, também na implantação da Bouça, as habitações estão organizadas em fileiras de duas unidades sobrepostas, intercaladas por corredores exteriores ampliados, rematados por um muro 69, neste caso, colocado junto à via férrea, enquanto que nas “ilhas”, este elemento esconde-as do espaço público da rua. Fig.82 Porém, é identificável no projecto a existência de percursos de escalas menores, mais privados, passagens na sombra dos edifícios, que recorda as entradas que permitem o acesso ao corredor das “ilhas”. Fig.83 Fig.84 68 TEIXEIRA, Manuel C. “The Development of 19th century working-class housing – The “ilhas” in Oporto, Portugal”, Architectural Association School of Architecture, 1988. p.190 69 MONTENEGRO, Manuel, DAVIDOVICI, Irina; “Aspects of urban integration in Oporto SAAL housing” in “Colóquio Internacional, 74-14 – O SAAL e a Arquitectura”, Coimbra, Novembro, 2014 Fig.83 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 2004-2006 Manuel C. Teixeira, “ilha” em S.Víctor - percursos semi-privados do projecto de Siza e das “ilhas” Fig.84 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 2004-2006 Manuel C. Teixeira, “ilha” em S.Víctor - enfatização da luz e da sombra na Bouça 7170 7170 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.87 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 - Proeminência da presença das escadas no acesso às habitações rurais Fig.85 Siza Vieira, alçados do projecto da Bouça, 1973-1977 - fachada mais planimétrica, mais relacionada com a linguagem do Movimento Moderno Fig.88 Esquisso de Siza Vieira para um monumento em homenagem à Associação de Moradores da Bouça, 1976 Fig.86 Siza Vieira, alçados do projecto da Bouça, 1973-1977 - fachada mais densa e preenchida, recorda a arquitectura popular A enfatização das unidades, conseguida pelas paredes que separam as varandas dos quartos dos últimos pisos e pela presença das escadas no pátio central, não só atribuem um ritmo incisivo e mecânico, semelhante ao que poderia ser uma linguagem capaz de expressar o modo de vida da classe operária, como também é metáfora da integração do proletariado na vida da cidade. Fig.85 Fig.86 A inclusão das escadas para aceder às áreas comuns recordam o trabalho do Inquérito, mais precisamente a importância destes elementos como percurso cerimonial para a entrada na casa rural, usados também como local de paragem e de convívio entre membros da comunidade. Fig.87 Fig.88 7372 7372 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.89 A zona de S.Víctor em 1865 e em 1892 - expansão da ocupação das “ilhas” Locationally, there were two main types of “ilhas”: “Ilhas” in the built-up areas developed in the first decades of the nineteenth century; and “ilhas” built in areas of Oporto that for some reason were still vacant in the second half of the century. In the first case, the largest group in Oporto, the “ilhas” were predominantly built in the back gardens of middle-class properties. In the second case, the construction of “ilhas” gave these areas an unmistakable working-class character.70 A participação e debate de ideias com os moradores durante o processo SAAL, juntamente com o envolvimento da Escola no levantamento de vários núcleos de “ilhas” no Porto, conduziu ao reconhecimento da sua preponderância enquanto tipologia fundamental para a estrutura e história da cidade e também para a identidade dos seus moradores. Em S. Víctor, estes elementos apresentam-se em quantidade numerosa nos logradouros das casas burguesas, devido à localização desta zona numa área que, durante vários anos do século XIX se manteve desocupada e, portanto, o ambiente gerado pela presença da classe trabalhadora tornou-se próprio do lugar. Fig.89 Neste sentido, e incluindo a vontade dos moradores em manter o local de residência, Siza optou por uma estratégia urbanística que consistia em recuperar as unidades e garantir melhores condições de salubridade, preencher os terrenos vazios com novas habitações, mas operando com os vestígios da anterior presença das “ilhas”, símbolos e reminiscências da permanência da classe trabalhadora neste local. Fig.90 No entanto, era também importante atender à integração dos moradores na cidade, uma vez que a disposição destes núcleos no interior dos quarteirões contribuía para o isolamento da classe trabalhadora. Tornou-se necessário desenhar opções de atravessamento dos quarteirões, de conexão às estruturas urbanas existentes, através de percursos estreitos, com escalas contidas, isto é, de morfologia semelhante aos corredores das “ilhas”; por entre os vãos reminiscentes das ruínas e os vestígios dos seus muros, criando espaços de convívio e de circulação, integrados no tecido circundante. Fig.91 70 TEIXEIRA, Manuel C. “The Development of 19th century working-class housing – The “ilhas” in Oporto, Portugal”, Architectural Association School of Architecture, 1988. p.187 Fig.90 Esquissos de Siza Vieira para S. Víctor, 1974-1976 - Possibilidades de desenho para manter as reminiscências das “ilhas”: pórticos, muros e redesenho dos edifícios préexistentes Esta intervenção foi resultado de um processo complexo que envolveu o estudo das condições das habitações existentes, jogando com a possibilidade de agrupamento de unidades ou de acrescento de um piso superior, para aumentar a área interna; e ainda a análise das paredes que ofereciam possibilidades de restauro e das potencialidades dos terrenos livres. Tratou-se de uma intervenção cirúrgica na malha existente, que envolveu a recuperação de edifícios e da circunscrição de novos volumes entre as ruínas, como no caso da “Sra das Dores”. 7574 7574 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.91 Esquissos de Siza Vieira para S. Víctor, 1974-1976 -Possibilidades de desenho para o espaço público e de conexão das “ilhas” à cidade Fig.92 Siza Vieira, bloco da “Srª das Dores”, 1974-1976 - desenho das zonas de transição entre o interior e exterior Fig.93 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 - tratamento das zonas de transição na habitação vernacular No bloco da “Srª das Dores” (correspondente a a1)71, Siza optou por conceber um projecto com volumetria e linguagem modernas, mas respeitou a escala das construções populares e atribuiu somente dois pisos às habitações. Também o desenho dos espaços de transição, momentos de luz e de sombra, configurados na extracção de volume nas fachadas Fig.92 e no desenho das varandas, são elementos que a concretização do Inquérito tinha revelado como imprescindíveis nas construções populares portuguesas, consequência do meio e das condições meteorológicas mediterrâneas. Este cuidado no tratamento da passagem do interior para o exterior Fig.93, está também presente no projecto da Bouça, mais precisamente na individualização das entradas do terceiro piso do pátio central e nas varandas. (...) the dwelling was internally partitioned into a living-room which doubled as a sleeping-room, a small sleeping room or alcove, and a kitchen.72 Nos interiores do bloco da “Sra das Dores”, na recuperação das unidades de “S.Dionísio” (correspondente a c2)73 e também nos fogos desenhados para o “Bairro da Bouça”, a tipologia das “ilhas” é reinterpretada, mantendo a conexão do espaço da sala com o exterior, assim 71 Ver p.105 72 TEIXEIRA, Manuel C. “The Development of 19th century working-class housing – The “ilhas” in Oporto, Portugal”, Architectural Association School of Architecture, 1988. p.185 73 Ver p.105 7776 7776 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.94 Siza Vieira, Bairro da Bouça, 1973-2006 - quarto junto à galeria Fig.95 Siza Vieira, unidades de “S.Dionísio”, em S.Víctor, 19741976 - a centralidade da cozinha e a localização do quarto como a existência de um quarto no piso correspondente à utilização diurna, também este mais próximo do espaço público e da zona comum da casa. Nas habitações da “Sra das Dores”, o quarto dispõe de uma janela que permite a visibilidade do espaço semi-privado que antecede a entrada na casa. Na “Rua de S.Dionísio” e no “Bairro da Bouça” conjuga-se a possibilidade de este compartimento abrir-se para o corredor exterior contíguo às fachadas e de carácter mais pessoal, que na Bouça se materializa na galeria de distribuição do terceiro piso. O desenho de um quarto mais exposto às zonas de convívio da casa e a hipótese da sua ligação ao exterior Fig.94 demonstra a capacidade de Siza em adaptar os modelos das unidades do Movimento Moderno, divididas em funções nocturnas e diurnas, ao modo de habitar do utente em questão, cujas necessidades de privacidade não eram as mais rígidas, uma vez que os moradores das “ilhas” estavam familiarizados com a vida em comunidade. A cozinha é das dependências de maior importância na arquitectura popular, principalmente nas “ilhas”, cuja cultura e desenvolvimento era ainda marcadamente rural, facto que conduziu Siza a dedicar mais empenho no desenho deste compartimento, nos projectos do processo SAAL. Na recuperação das unidades convertidas em estúdio, o interior da “ilha” é reformulado a partir da cozinha Fig.95, sendo consideranda o ponto central da reorganização do espaço, que delimita a zona comum e distingue-a da área Fig.97 Siza Vieira, operação de S.Víctor, 1973-1976 - fachada das habitações na rua “S.Dionísio” Fig.96 Siza Vieira, habitações da Bouça, 1977 - desenho do espaço de reunião da casa privada, permitindo a distribuição das restantes dependências em meios-pisos. Ainda que, nos interiores sejam empregues algumas técnicas modernas para suprir as dificuldades impostas pelos condicionalismos das áreas reduzidas, como é o caso do mezanino, a localização da cozinha no centro da habitação demonstra a sua importância no dia-a-dia dos seus utentes. Nos desenhos para as unidades da “Sra das Dores”, a cozinha é conjugada com a escada e os arrumos são colocados no espaço sobrante, situado na parte inferior deste acesso. Na Bouça as cozinhas das unidades que ocupam o terceiro e quarto pisos assemelham-se à descrição anterior, excepto pela maior proximidade que mantêm com o espaço exterior ou com a varanda, e pelo espaço de reunião que Siza desenha na continuidade do balcão de apoio da cozinha Fig.96 assemelhando-se um pouco ao “core” que se procurava no CIAM, ao espaço de reunião familiar, simbolizado pela zona do fogo na arquitectura popular do Inquérito. Fig.98 Dado que, uma das estratégias da operação de S.Víctor consistiu na recuperação das estruturas existentes, nas unidades de “S.Dionísio” foram mantidas as arquitraves das fachadas e os rodapés de pedra das construções anteriores, ambos no seu estado naturalmente desgastado pelo tempo. Fig.97 Por outro lado, na “Sra das Dores” e no “Bairro da Bouça”, o desenho dos pormenores construtivos é realizado sem os constrangimentos de estruturas precedentes. Contudo, Siza mantém a verticalidade das 7978 7978 A arquitectura popular no Movimento Moderno Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.98 Planta de uma habitação vernacular, Inquérito à Arquitectura Popular em Trás-os-Montes e Alto Douro, 1961 Le Corbusier, “Maison de week-end”, La Celle-Saint-Cloud, França, 1934 - centralidade da zona de fogo na habitação, enquanto local de reunião Fig.99 Siza Vieira, operação de S.Víctor, 1973-1976 Barragán, “Casa-estúdio Luis Barragán”, Cidade do México, 1948 - a reinterpretação da arquitectura popular na pormenorização janelas, típica da arquitectura portuense, ao invés de empregar a horizontalidade dos vãos modernos. Na pormenorização é igualmente visível esta preocupação em evocar as técnicas de construção da cultura portuguesa, na utilização do caixilho em guilhotina em S.Víctor e na divisão reticulada do vidro, que também permitia economizar a construção. Na Bouça, a espessura da pormenorização dos caixilhos, a presença de portadas que permitem que o utente manobre a iluminação do espaço interior e o contacto com o exterior, são pormenores que relembram a arquitectura popular catalogada no Inquérito, na qual as casas também ofereciam opções diversificadas de manipulação deste elementos. Estas ideias estavam presentes também nas estratégias de outros arquitectos que emergiram com a crise do Movimento Moderno. Fig.99 Para Siza, a noção de transformação em arquitectura implica um vasto e complexo campo de acção, cujo raio vai da modificação ditada pelas circunstâncias (e logo orgânica) dos modelos racionais esquemáticos recebidos em herança, às sucessivas transformações físicas de um contexto concreto urbano ou rural através de uma intervenção específica.74 74 VIEIRA, Siza; cit. por FRAMPTON, Kenneth “Profésion poética – Profissão poética, Álvaro Siza Vieira”, trad. Santiago Castán...[et al.]; Barcelona, Gustavo Gili,, 1988. p.10 Fig.100 Siza Vieira, 1974-1976 - Pormenor sobre o confronto A reinterpretação das “ilhas” enquanto elemento fundamental da organização da cidade, foi diversificadamente formalizada no trabalho de Siza. Na Bouça, e tendo a oportunidade de planear um projecto de habitação num terreno livre, providenciado pelo Fundo de Fomento de Habitação, o arquitecto readapta as “ilhas” à escala urbana. O projecto integra esta morfologia no ambiente urbano, através da sua conjugação com os modelos Modernos do ante-guerra, estendendo o interior do quarteirão à cidade e permitindo o seu atravessamento. Na operação de S. Víctor, o processo densifica-se porque é iniciado a partir de estruturas já existentes e do confronto dos seus fragmentos com novos edifícios. A morfologia das “ilhas” é mantida e a estas é sobreposta uma malha que redesenha a conexão destes núcleos às estruturas urbanas, pelo aproveitamento das ruínas e vestígios da ocupação anterior. No bloco da “Sra das Dores”, o edifício surge entre as ruínas e contrasta com a rugosidade dos muros, pela planimetria presente nas suas paredes e pela inserção no espaço, que reaproveita os vestígios para conformar os espaços exteriores. O estudo para a Bouça foi idealizado pelo arquitecto, com base na sua capacidade crítica e autonomia, de que resulta um projecto excepção na malha urbana, que conjuga a realidade com uma idealização, uma morfologia vernacular com um modelo Moderno. Na operação de S. Víctor, ambicionou-se tornar o debate mais complexo, através da oposição de opiniões entre arquitecto e moradores, partindo do confronto entre a realidade e o desenho, para a reformulação de ambos. A operação de S. Víctor simula a complexificação e o crescimento da cidade, que se constrói na coexistência de tempos diferentes, na contradição de ideias e de necessidades, pela sobreposição e oposição de fragmentos. Fig.100 V Foto da cortesia de Fernando Cardoso, membro da Associação de Moradores da Bouça, 1976 VI Álvaro Siza Vieira, Esquisso para o bloco da Nossa Srª das Dores , 1975 O método para a edificação da habitação social (...) o controlo das zonas degradadas deverá caber às populações que habitam, no sentido de apropriação e recuperação, controlo que, logo à partida, deverá necesseriamente ser alargado à própria cidade e à sua envolvente.75 76 VIEIRA, Álvaro Siza, “Linha de acção dos técnicos enquanto técnicos” in “A Questão do Alojamento 1”, Jornal de Arquitectos, nº204. Lisboa, 2002. p.17 8382 83 O método para a edificação da habitação social 82 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho A.1 Contributos dos Team X, de John Turner, Henri Lefebvre e da iniciativa INA CASA Fig.101 Alison e Peter Smithson, “Golden Lane Housing Competition”, 1952 Fig.102 Giancarlo di Carlo, “Villagio Matteotti”, Itália 1975 A realização dos últimos CIAM e a apresentação dos respectivos trabalhos foram influentes e pioneiros no percurso disciplinar de vários arquitectos, preocupados em desenvolver uma prática socialmente informada e morfologicamente conhecedora, adequada às prioridades da edificação da habitação social. Após o fim dos CIAM, os TEAM X empenhar-se-iam na revisão e na reorientação teórica e prática dos preceitos Modernos do pós-guerra. Deste grupo faziam parte Jacob Bakema, de quem dependia a gestão do trabalho a realizar, os britânicos Alison e Peter Smithson, o francês Geroge Candilis, o italiano Giancarlo di Carlo e o holandês Aldo van Eyck, arquitectos participantes nos últimos debates dos Congresso Internacionais. Conscientes da necessidade de explorar novos métodos, capazes de facultar um trabalho mais inclusivo e adaptável aos utentes, o grupo iria desenvolver experiências permeáveis à mudança, através da autoconstrução e da extensão do interior, designadamente no projecto desenvolvido pelos Smithson para o “Golden Lane Housing Competition” Fig.101 e do confronto da participação dos moradores com a capacidade crítica do arquitecto, na construção do projecto “Villagio Matteotti” de Giancarlo di Carlo. Fig.102 Os TEAM X actuavam a partir do real, da observação das características de determinadas circunstâncias, da recolha de factores culturais e condicionalismos locais, para os confrontar com novas soluções, que visavam outras estratégias de projecto, mais integradas e ajustáveis. Entre los conceptos propuestos por el concurso estaban la racionalización, modulación, tipificación, crecimiento progresivo, flexibilidad y función.76 76 HUIDOBRO, Fernando García; TORRITI, Diego Torres; 9796 9796 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho C.1 A inclusão dos fenómenos sociológicos nos projectos de habitação Fig.110 Distribuição das entradas nas unidades e momento de convívio entre os moradores no corredor Fig.111 Siza Vieira, Conjunto habitacional da Bouça, 1973-1977 - densidade visual ritmada da habitação Fig.112 Conjunto habitacional da Bouça, 1973-1977 - uso da galeria enquanto elemento de distribuição das unidades A unicidade da família pode ainda ser expressa com mais vigor, dada a escala necessariamente mais “próxima” (...); a comunidade é sugerida nos caminhos do espaço em função das coisas comuns ou dos locais de encontro.111 No primeiro subtema da “Proposta para a Metodologia da Habitação Social” são apresentadas soluções cujos agrupamentos definem a configuração dos espaços exteriores, sendo possível optar-se por um acentuado carácter unifamiliar, através da simples sobreposição de unidades, como é o caso dos blocos habitacionais; ou ainda em conjuntos de expressão contínua, com unidades justapostas. Identificámos rapidamente as “ilhas” do Porto enquanto exemplo destes últimos, agrupando as unidades de modo denso e ritmado, dando oportunidade a lugares de convívio nos corredores que distribuem as entradas. Fig.110 No entanto, a densificação apresentava-se de forma acentuada nestas habitações e a sua relação com a área útil disponível para os moradores era desequilibrada, isto é, o espaço construído era reduzido para o número de indivíduos de cada uma destas comunidades. Contudo, nos projectos para o SAAL, as brigadas técnicas iriam tentar reajustar esta relação e reinterpretar o modelo das “ilhas”. Como expusemos anteriormente, no projecto do bairro da Bouça, no momento da sua inclusão no processo SAAL, a frente dos fogos foi reduzida, permitindo adequar o método construtivo aos meios económicos disponíveis e também condicionar a vivência do espaço, através 111 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.95 Fig.113 Siza Vieira, Conjunto habitacional da Bouça, 19732006 - uso dos pátios para convívio entre os moradores Fig.114 Esquisso de Siza Vieira da operação de S.Víctor, 19741977 - traseiras do bloco da Srª das Dores Fig.115 Esquisso de Siza Vieira, “Srª das Dores”, 1974-1977 - representação da apropriação do muro pelos moradores da aglomeração de um maior número de unidades, da elevada expressão rítmica das aberturas, das paredes que individualizam as varandas e das escadas do piso térreo do pátio central. Fig.111 Ainda a escolha da galeria para aceder às habitações do piso superior – “(...) nos caminhos do espaço (...)” - e os espaços que intercalam os volumes, – “(...) dos locais de encontro.” – configuram lugares de passagem Fig.112 e de estar que, ainda hoje em dia, permitem a confraternização dos moradores, como a celebrada festa são joanina. Fig.113 Na reduzida fracção que foi construída no bloco da “Sra das Dores”, e incluindo o antigo muro que configurava um pequeno corredor, proporcionou-se um local de passagem, mais exposto à vida urbana, enquanto que, nas traseiras do edifício Fig.114 foi concebido um espaço que promovia maior privacidade e convívio, através da contiguidade e extensão da sala para o exterior. As unidades têm também uma frente reduzida de 4m, equivalente à das “ilhas”, e as aberturas, as sombras das entradas e os muros que prolongam a sua individualização, contribuem para a densificação visual do espaço. A diferença mais significativa que observamos entre os dois projectos é a escala adoptada. Ainda que, o Bairro da Bouça não se assemelhe aos volumes massivos das típicas unidades de habitação, o projecto tem uma escala mais alargada relativamente à morfologia típica das “ilhas”. Como tal, utilizaram-se elementos que permitem readequar o espaço e proporcionar momentos de maior familiaridade entre os moradores, como por exemplo, as escadas de acesso às unidades do rés-do-chão, bem como o percurso que permite o atravessamento dos pátios. No bloco da “Sra das Dores”, e ainda que as dimensões sejam idênticas às das “ilhas”, foram desenhados alguns elementos, como os muros baixos que definem a entrada como espaço de transição entre o público e o privado, permitindo que os utentes o apropriem e possam conviver com os vizinhos. Fig.115 A problemática da individualização da entrada e do seu desenho, remete-nos para outro aspecto que Nuno Portas também apresenta na sua metodologia. 9998 9998 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.116 Dan Graham, “Homes for America”, “Arts Magazine”, 1966 Fig.117 Siza Vieira, corte de um dos volumes do conjunto habitacional da Bouça, 1973-2006 - diversidade de soluções para os espaços de tranO problema que aqui se nos põe é sobretudo o da extensão exterior do jogo na massa do conjunto, das possibilidades maiores ou menores de individualização que a fórmula de agrupamento lhe permite e, logo, da intensidade como ele se liga aos outros e traduz as relações de vizinhança e a unidade do conjunto.112 Na composição quantitativa são apontadas as opções de justaposição contínua que ofereciam menos oportunidades de aglutinação; a sobreposição, de dois a três pisos, disponibilizando terraços ou pátios no piso térreo, acesso individual às unidades através de uma escada ou do desenho da entrada e ainda, o agrupamento em pátio, segundo uma malha que define a disposição das unidades e que Nuno Portas iria desenvolver posteriormente para a formulação da “Habitação Evolutiva”. O que salientamos neste parâmetro é sobretudo a generalização dos efeitos da construção de qualquer bloco habitacional. Para exemplificar, o arquitecto compara esta situação com a edificação de moradias idênticas entre si, igualmente descaracterizadoras. Fig.116 Ou seja, o problema que, para muitos, consistia na quantidade excessiva de células agrupadas, residia antes na falta de desenho e caracterização do momento de conexão das células com o exterior, do modo de agrupamento e das relações de vizinhança que permitia manter. No Bairro da Bouça a diferenciação das unidades está presente não só na disposição do 112 Ibidem, p.101 programa, que se altera entre as habitações inferiores e superiores, como também no momento de entrada nas habitações e diferentes opções de extensão do interior para o exterior. Nas unidades do rés-do-chão, localizadas no pátio central, a entrada é definida pelas escadas de tiro, que promovem o convívio entre os moradores, enquanto que nos fogos do terceiro piso e nas restantes entradas do piso térreo, foram concebidas reentrâncias no volume, que disponibilizam um momento de sombra e de ventilação para a casa, também presente no bloco da “Sra das Dores”. Fig.117 Neste último, a individualização é ainda acentuada através dos pequenos muros que anteriormente enunciámos. Olhando para as plantas, são perceptíveis intenções de compatibilizar modos de vida que já então percebíamos serem contraditórios entre si e, com os metros quadrados exíguos que o orçamento permitia.113 No capítulo referente à “Organização Interna da Célula Familiar” é apresentada a relação entre a família e o respectivo programa da casa, demonstrando como a conjugação das diversas dependências influenciava a vida familiar e comunitária. Por exemplo, Nuno Portas elabora um esquema síntese, no qual expõe as possibilidades de combinação da sala com a cozinha e 113 PORTAS, Nuno,“A Habitação Colectiva nos Ateliers da Rua da Alegria” in “Jornal dos Arquitectos - A Questão do Alojamento 1”, Lisboa: Ordem dos Arquitectos, nº204, 2002. p.51 Fig.119 Nuno Portas, esquema sobre as possibilidade de conjugação da sala com a cozinha e zona de trabalho Fig.118 Siza Vieira, corte do módulo do bloco da “Srª das Dores”, 1973-1977 - desenho da cozinha e extensão do espaço de estar no exterior uma zona de trabalho/reunião. Nos desenhos é explorada uma maior ou menor variabilidade de dependência entre estes programas, que permite entender como a sua conjugação pode contribuir para os hábitos do utente, explorando a possibilidade de a cozinha e/ou o espaço de trabalho estarem integrados ou separados da sala, e ainda, a hipótese de cada uma destas peças serem dispostas de forma independente. Fig.118 É importante salientar que estas preocupações se encontram presentes no trabalho de Nuno Portas, no projecto elaborado com Nuno Teotónio Pereira no conjunto Olivais-Norte. O desenho do programa interior tentava corresponder aos novos modos de vida, isolando a cozinha e permitindo que esta adquirisse um recanto para servir as refeições, isolando a zona de estar da desordem que as tarefas diárias implicavam. Provavelmente para melhor gerir as áreas disponíveis, Siza Vieira iria incluir as dependências previstas para a zona de comer, de preparação da refeição, de trabalho e de lazer num espaço comum, diferenciadas pela presença de pequenas subtilezas de mobiliário ou de espaço. Na Bouça, a cozinha encontra-se sob a escada ou seguida do pé direito da mesma, conectada à marquise ou ao pátio. A zona de preparação é configurada pela banca e por um balcão de apoio que serve a área de refeição, que também podia ser usada como local de trabalho ou de reunião, enquanto a sala ou zona de estar encontra-se mais distanciada e junto à entrada desta divisão comum. Na “Sra das Dores” o esquema repete-se, aproveitando também o vão da escada para desenhar a cozinha e os arrumos, mas, neste caso, a zona de estar está conectada ao espaço privado das traseiras, de convívio com os vizinhos. Fig.119 101100 101100 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.120 Siza Vieira, esquisso para um tanque comunitário em S.Víctor, 1973-1977 Fig.121 Siza Vieira, conjunto habitacional da Bouça, 1974-1977 - definição do programa dos remates da implantação (....) considerando aí a instituição familiar como dupla charneira articulante da vida individual que se desenvolve no âmbito da família e da vida colectiva que relaciona as famílias entre si (...) Nesta hipótese radica a moderna noção de habitat que ultrapassa a casa para se estender a todo o espaço descrito pela família enquanto tal na sua vida própria e necessidades quotidianas.114 A extensão da vida do indivíduo ao espaço público foi uma das mais importantes ideias desenvolvidas por Nuno Portas na “Proposta para a Metodologia da Edificação da Habitação Social”. O debate deste tema, relativamente à sua densificação, desintegração e descaracterização, esteve muito presente nas problemáticas do processo SAAL. Na operação de São Víctor, Siza propôs manter a malha urbana das “ilhas”, sobrepondo-lhes uma estrutura de vias e espaços públicos que proporcionasse a sua integração na vida urbana da cidade. Nos seus desenhos é também possível encontrar algumas ideias sobre a edificação de alguns pontos de convívio entre os moradores, tais como o tanque comunitário Fig.120, ou ainda, na readaptação do projecto da Bouça para o SAAL. 114 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.62 Nesta fase, o arquitecto desenhou os topos que rematam os longos volumes das unidades habitacionais e atribuiu-lhes programas adicionais: lavandaria, biblioteca e creche. Esta ideia não só proporciona a extensão pública do programa habitacional, como fomenta o uso dos pátios que intercalam os edifícios, enquanto locais de encontro das famílias e de recreio para as crianças. Fig.121 Fig.122 Desenho dos módulos do bloco da Srª das Dores, escala 1/200 - planta do r/c e primeiro piso Fig.123 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 Também no desenho das unidades habitacionais do bloco da “Srª das Dores”, as áreas contíguas ao logradouro são simétricas, apesar do restante fogo manter-se inalterado. Esta subtileza de desenho, permite espelhar a zona da lavandaria, promovendo o contacto entre os vizinhos durante a execução desta tarefa doméstica e incentivar a convivência dos utentes dos quartos superiores, de dois fogos diferentes, através da partilha e usufruto da mesma varanda. Fig.122 Esta ideia vai de encontro a um breve apontamento presente no CODA de Nuno Portas, no qual é referido que as famílias confraternizavam tendencialmente duas a duas115 e também corresponde à pesquisa do Inquérito à Arquitectura Popular, onde este factor é igualmente constatado. Fig.123 Os elementos de projecto que expusemos nos bairros de Siza Vieira para o SAAL, são reflexo da consciencialização do arquitecto para o desenho, uso e conjugação dos elementos arquitectónicos disponíveis, em prol de uma melhor adequação e correspondência à vida do futuro morador em questão. 115 “Os patamares e acessos em geral, o equipamento comum do prédio, se o há, as próprias varandas e janelas tornamse então locais de paragem e relação. No entanto, vão-se estabelecendo preferências e, em imóveis de habitação da região de Paris, os sociólogos repararam que as famílias em geral se aproximavam duas a duas, sobretudo quando a forma de agrupamento permitia uma escolha suficientemente vasta entre os vizinhos.” in Idem, p.111 103102 103102 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho C.2 O Direito ao Lugar e à Apropriação da Casa (...) alojar os habitantes no sítio onde viviam, sem passar pela “gentrificação” dos bairros antigos com a correspondente ejecção do povo para a periferia. Foi, avant la lettre, a aposta do SAALNorte, aposta de afrontamento à consolidação da renda fundiária e ao modelo civilizacional e social dos grandes gabinetes de planeamento da cidade capitalista.116 No Porto, a população mais carenciada vivia em condições de segregação devido a duas situações urbanas distintas. Por um lado, a habitação colectiva que então se tinha construído, como o Bairro da Pasteleira, encontrava-se em áreas urbanisticamente subdesenvolvidas, contribuindo para o isolamento dos seus moradores, assim como a implantação dos volumes originou espaços livres, intersticiais e pouco definidos, que não correspondiam à natureza morfológica da restante cidade. Por outro lado, no arranque das operações, observar-se-ia que as alterações a efectuar seriam maioritariamente no centro da cidade, lugar onde esta facção da população mais carenciada residia nas “ilhas”, escondidas por um portão que dava continuidade às fachadas das ruas ou pela frente do edifício que se lia no espaço público. Esta disposição das “ilhas” nos logradouros contribuía para a segregação das respectivas comunidades, cuja imagem visual, espacial era repudiada por não corresponder aos níveis de higiene e de salubridade das restantes habitações 117 e por se encontrarem em situação de marginalidade relativamente à vida na cida116 GOMES, Paulo Varela, “Arquitectura, os últimos vinte e cinco anos”, in História da arte portuguesa”, vol.3., Lisboa: Temas e Debates, 1999. p.558 117 COSTA, Alexandre Alves, “A Ilha Proletária como Elemento Base do Tecido Urbano. Algumas Considerações sobre um Título Enigmático” in “Jornal dos Arquitectos - A Questão do Alojamento 1”, Lisboa: Ordem dos Arquitectos, nº204, 2002. p.12 de. No entanto, a disposição urbana das “ilhas” encontra-se mais próxima de um sistema usual e integrado na morfologia da cidade, pois distribuem-se segundo ruas, becos e lugares contidos, ao invés de se organizarem em espaços livres por entre blocos de habitação, como no Bairro da Pasteleira, cuja sobre-dimensão do desenho levava à dispersão da densidade 118. É também importante acrescentar que, no SAAL, e também por esclarecimento e definição no seu Despacho, dever-se-ia manter as populações no seu local de residência, independentemente do valor imobiliário do terreno e sua localização. Esta opção deveu-se não só à contenção de custos, ao evitar a mobilização destes para a periferia, mas também por proporcionar igualdade de acesso e de direitos sob a cidade, entre as classes. O deslocamento das comunidades das “ilhas”, de forma massiva e sem critério de selecção, já teria causado danos suficientes, tais como o isolamento dos moradores, alienação, conflitos relacionais e mau ambiente doméstico. Neste sentido, no SAAL Norte, a estratégia adoptada consistiu na preservação e reabilitação das “ilhas”, tentando dotar estes lugares de maior acessibilidade e de estruturas urbanas que evitassem o seu isolamento e promovessem a sua integração na cidade. Passaremos a expor as opções de Siza Vieira para os casos de S. Víctor e da Bouça. A outra face da estimulante vida comunitária da ilha é – como a própria palavra indica – a separação da população em pequenas unidades isoladas. (...) Mas repudiar tal imagem e o que ela implica de segregação e miséria não significa necessariamente recusar o sistema de adaptação topográfico, com o que tem de positivo para essa vida comunitária.119 As áreas edificadas nas “ilhas” se encontravam-se desajustadas relativamente a ocupação. 118 “Espaços densos serão portanto, no primeiro sentido, aqueles que se podem aproximar de serem cem por cento usados, (...)” in PORTAS, Nuno , PORTAS, Nuno; DIAS, Francisco Silva. “Habitação Evolutiva” in “Arquitectura(s) Teoria e Desenho, Investigação e Projecto”, Porto: FAUP publicações, 2005. p.187 119 SIZA, Álvaro, “Tres intervenciones en la ciudad de Oporto”, in Proyecto y Ciudad histórica, I Seminario Internacional de Arquitectura en Compostela, p.101 A sua escala, a proximidade espacial e o ritmo do agrupamento das habitações contribuíam para o sentido de comunidade dos moradores, marcadamente influente no seu dia-a-dia, assim como a sua inserção na topografia dos terrenos, através de estreitos e íntimos acessos. Seriam precisamente estas características que Siza Vieira consideraria vantajosas na vida das “ilhas” e que acabaria por integrar nos projectos, defendendo, inclusive, a evolução urbana através da exploração desta cidade oitocentista, oculta nas traseiras das casas burguesas. Na intervenção de S.Vítor, Siza concluiu que aos fragmentos de uma evolução urbana cheia de contradições era possível sobrepor uma malha que, sem as obscurecer, garantia, não só a unidade desejada ao todo, como a clareza tipológica das novas intervenções pontuais. Essa matriz deveria ser elaborada no diálogo criativo com o contexto tal como encontrado e não a partir de soluções universais ou invenções subjectivas.120 Estudam-se, neste momento, as possibilidades de aumento de áreas mediante agregações de células ou por superposição de um piso de acordo com as dimensões standard pré-estabelecidas. Estudam-se também as possibilidades de comunicação entre as várias ilhas através de percursos no interior dos quarteirões, considerando a ilha como possível suporte da evolução da cidade.121 Antes do início do SAAL, no Bairro de S.Víctor procedia-se ao desalojamento dos indivíduos e posterior destruição das “ilhas”, para a construção de um parque de estacionamento. Quando a operação foi iniciada, algumas já teriam sido demolidas, mas a brigada de Siza Vieira ira proceder ao levantamento e avaliação das condições das restantes “ilhas”, para as preservar, reconstruir ou edificar novas unidades de organização e morfologia semelhantes. Fig.124 O princípio orientador deste projecto era manter os moradores de S.Víctor no local de residência e os seus hábitos domésticos, que estavam então vinculados a estes espaços, movendo os que viviam em piores condições para habitações 120 COSTA, Alexandre Alves, “Textos datados”, Coimbra:Edarq,2007. p.49 121 VIEIRA, Álvaro Siza; “L’isola proletária come elemento base del tessuto urbano”, Lotus Internacional, nº 13, 1976. p.86 temporárias – o caso das unidades da “Sra das Dores” - para posterior realojamento nas novas unidades no mesmo local. O trabalho desenvolvido passou pela observação e planeamento urbano cirúrgicos das situações urbanas, concretizando-se em quatro tarefas distintas, todas referentes a terrenos disponíveis e/ou reconstrução de casas: avaliação de áreas disponíveis no interior dos quarteirões ou onde nunca se tinha construído, estudo de fundações e paredes semi-destruídas que definiam os quarteirões e recuperação de edifícios existentes. A complexidade do trabalho desenvolvido acabaria por ser contraproducente, por exigir mais tempo de construção e de negociação para a cedência dos terrenos. Do projecto foram apenas edificadas as habitações da “Sra das Dores”, implantadas entre as ruínas das “ilhas”. Fig.125 104104 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho 1 Fig.124 1 - Planta tipológica da “ilha”, cujas dimenões usuais variam entre os 4m x 4m; 1/299 2Planta das unidades do bloco da Srª das Dores; 1/200 3Alçado das unidades do bloco da Srª das Dores; 1/200 4Planta de um dos módulos do Bairro da Bouça; 1/200 Embora, este valores correspondam a uma estimativa média das dimensões das “ilhas”, é possível verificar que Siza adopta esta estrutura para organizar as habitações, segundo a agrupação de vários módulos de 4m x 4m e, assim, desenhar o conjunto da unidade. Verifica-se também uma subdivisão dos espaços de transição em múltiplos de quatro. Esta necessidade justifca-se também pelas integração na malha do lugar. Nas unidades do Bairro da Bouça, o desenho foi readaptado e aproximado ao da Srª das Dores, por imposições constrtutivas que levaram à redução das frentes para 4m e necessidade de redução de áreas. 2 34 Fig.125 Desenho de Siza Vieira, implantação urbana e planta de interiores dos projecto para a zona da Srª das Dores Planeamento da operação: aConstrução em terreno livre, dentro do quarteirão bEm terrenos onde nunca se construíu cReconstrução e exploração de fundações de edifícios semi-destruídos dRecuperação e adaptação de edifícios desocupados b6 a1 c2 b7 c5 a4 d2 107106 107106 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.126 Francisco Guedes, Perspectiva do conjunto habitacional da Bouça para o FFH, 1973 É na (...) abertura permeável à cidade envolvente que o Bairro da Bouça enuncia os objectivos da sua arquitectura enquanto parte da cidade.122 No Bairro da Bouça, as circunstâncias para o início do projecto foram diferentes das que se sucederam em S. Víctor. Neste caso, a brigada reaproveitou uma área livre, ampla e próxima da zona, onde fosse possível construir residências para os habitantes das “ilhas” das ruas da Boavista e da Bouça. Foi no “Terreno junto ao Antigo Tribunal de Menores” que a brigada encontrou as melhores condições de implantação para as novas habitações e a mais valia da existência de um projecto prévio de Siza Vieira, elaborado entre 1972-73, desenhado por requisição da Câmara Municipal do Porto, para a construção de uma habitação para os guardas do tribunal, no âmbito do programa do Fundo de Fomento da Habitação. Fig.126 Com conhecimento da existência deste estudo, foi proposto a Siza, a adaptação dos desenhos aos preceitos do SAAL e às necessidades dos habitantes, pois o número de utentes excedia a área útil disponível nas “ilhas” e a falta de condições não permitia a sua recuperação, sendo obrigatório edificar as habitações numa área contígua ao local. O estudo sofreu algumas 122 MACHADO, Carlos; “Anonimato e Banalidade – Arquitectura popular e arquitectura erudita na segunda metade do século XX em Portugal”. Porto : FAUP, 2006. p. 287 alterações para poder ser integrado na operação, mas as suas principais formas e organização mantiveram-se. Apesar de ter sido elaborado nos anos anteriores ao SAAL, o seu desenho enuncia a vontade de abrir o quarteirão tipicamente portuense à cidade, proporcionando a livre circulação, bem como o direito de apropriação e acesso aos espaços urbanos. Fig.127 Fig.128 Fig.128 Planta do 2º piso do conjunto habitacional da Bouça, escala 1/700 Fig.127 Implantação do projecto da Bouça - abertura do quarteirão para a cidade 109108 109108 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho C.3 A Autonomia do Arquitecto e a Organização Social da Procura Fig.129 Siza Vieira juntamente com os moradores da Bouça, na inauguração do projecto É sobretudo – e este é um ponto essencial – um debate “sem limites”, ou seja, que não implica um quadro predeterminado de gestão e rentabilização do solo urbano.123 A iniciativa dos moradores, no âmbito das intervenções SAAL, era indispensável para dar início às operações e para objectivar o trabalho das brigadas e dos técnicos. Como tal, era legalmente exigido que os utentes se organizassem em associações ou cooperativas para reivindicarem as suas necessidades, junto dos órgãos estatais indicados, com o intuito de obterem auxílio e acompanhamento de uma brigada124. Também a sua cooperação com os arquitectos era importante para procederem ao desbloqueamento de burocracias, cedência de empréstimos pelo FFH, debate de ideias com os restantes utentes e selecção das famílias que mais urgentemente precisassem de ser realojadas. No caso da Bouça, a associação de moradores intercederia junto de Siza Vieira para colaborar no projecto e utilizar o estudo já realizado para o FFH, para construir as mesmas habitações, mas no âmbito do programa SAAL. Entretanto, realizar-se-iam inquéritos, por parte dos interessados, para apurar que utentes deveriam ter prioridade no realojamento e proceder-se-ia a negociações com a Câmara do Porto, para a cedência do terreno. Tal facto não se teria verificado, caso moradores e arquitectos não tivessem a liberdade de acção necessária para proceder 123 MACHADO, Carlos; “Anonimato e Banalidade – Arquitectura popular e arquitectura erudita na segunda metade do século XX em Portugal”. Porto : FAUP, 2006. p.279 124 “3. Partindo estas iniciativas dos moradores – que para a sua gestão se organizam em associações ou cooperativas -, as câmaras municipais deverão ter fundamentalmente um papel de contrôle urbanístico da localização e cedência de solo e de interlocutores directos da organização dos interessados, designadamente na arbitragem das prioridades em face dos recursos disponíveis – aliás sempre insuficientes – e na garantia dos empréstimos previstos na legislação.” in “Livro branco do SAAL / Serviço de Apoio Ambulatório Local : 1974-1976.” [S.l.] : Conselho Nacional do SAAL, 1976. p.64 à adaptação do projecto às necessidades dos utentes. Ou seja, a interacção entre habitantes e arquitectos realizou-se sem qualquer intervenção de terceiros Fig.129 ou de imposições económicas, para além do simbólico empréstimo de 90 contos (correspondente a 450 euros) por fogo. Neste sentido, Siza reuniu com os moradores e apresentou-lhes o projecto. A principal exigência dos interessados foi a inclusão de sanitário e chuveiro privados no programa da casa. Bastou então adequar os fogos aos agregados familiares, maioritariamente constituídos por um casal e três filhos, substituindo o inicial T5, enquanto tipologia normalizada no projecto, pelo T3. Foi também inevitável aumentar o número de fogos para corresponder à quantidade de famílias, reajustar as áreas interiores e procurar uma solução construtiva que permitisse optimizar os empréstimos disponíveis. É, provavelmente, neste aspecto que se verifica uma maior relevância da experimentação desenvolvida no SAAL, assente na capacidade inventiva e autonomia de decisão dos membros da brigada para encontrar novas soluções de projecto. A proposta construtiva para as habitações da Bouça consistia no uso de um sistema estrutural simplificado125, com paredes resistentes de blocos de betão, podendo o volume conter até 4 pisos, caso os vãos entre as paredes de suporte fossem reduzidos para 4m, substituindo os iniciais 6m. 125 Testemunho do arquitecto António Madureira, colaborador na construção do Bairro da Bouça Fig.130 Siza Vieira nos terrenos da Srª das Dores Auto-nomear-se, determinar-se, eram condições essenciais de qualquer interacção social e política. Uma arquitectura que fosse apenas o reflexo ou sintoma de um qualquer poder ou processo histórico não poderia ser política, era apenas um produto da política, não um actor, não tinha, por assim dizer voto. 126 A utilização de um sistema estrutural elementar e a sua combinação com um projecto de autor, de certo destaque, no centro da cidade, é um aspecto que exemplifica a máxima autonomia de que os arquitectos foram detentores no processo SAAL. Esta concretiza-se sobretudo na oportunidade de alteração e experimentação nos projectos, praticamente sem constrangimentos, e da validação das suas posições políticas face à situação da classe trabalhadora em Portugal, no pós 25 de Abril. Isto é, os arquitectos procuravam uma solução que, por via do desenho, subvertesse a sobreposição do capitalismo nas cidades e desse prioridade às ideias de arquitectura, enraizadas nas iniciativas sociais e debruçadas sobre o debate directo com os futuros moradores, sem intervenções de outrem. O projecto da Bouça é uma construção que surgiu mais do predomínio da autonomia e capacidade crítica do arquitecto, do que pela participação dos moradores, devido à readaptação do estudo anterior ao processo SAAL, cuja morfologia estava então praticamente toda 126 MORENO, Joaquim “Aprendizagem Revolucionária – Uma pedagogia da Arquitectura SAAL” in “Simpósio SAAL : Em Retrospectiva”, Porto: Serralves, Maio/2014 concebida. Contudo, a possibilidade de realojar esta população em habitações com o grau de qualidade e de desenho deste projecto, só se tornou passível de realizar pelas circunstâncias geradas na “Organização Social da Procura”. Esta oportunidade não se proporcionaria caso a encomenda fosse da iniciativa de outra qualquer instituição governamental, sob a hipótese das prioridades económicas prevalecerem. Na operação de S.Víctor, a integração do realojamento destas comunidades no programa SAAL deveu-se à iniciativa dos estudantes da ESBAP, à sua persuasão junto dos moradores e também dos técnicos, por influência do trabalho de campo que tinham realizado no âmbito académico. Os quarteirões junto à rua de S.Víctor estavam densamente ocupados, habitados por 1200 indivíduos, entre os quais, pelo menos 40% assinaram o documento que determinaria a sua inclusão no programa SAAL.127 A brigada inicial, por sua vez, era constituída por Siza Vieira, Domingos Tavares e pelos alunos Eduardo Souto de Moura, Adalberto Dias, Edgar Castro e Manuela Sambade, responsáveis pelo aprofundamento dos levantamentos do terreno e das tipologias, reconhecimento fotográfico do lugar e análise das condições de vida dos habitantes. A participação revelou a preferência dos moradores em manter o local de morada e a sua recusa em serem realojados na periferia, por certas implicações que esta operação acarretava, tais como os gastos em transportes e a ruptura das relações de vizinhança 128. O vínculo da população à zona de S. Víctor e a necessidade de expropriação de um grande conjunto de terrenos, conduziria Siza a optar por uma atitude transformadora que não implicasse projectar apenas a partir do vazio, da “tábua rasa”, mas da realidade em si, incluindo todos os fragmentos e contradições que desta faziam parte. Fig.130 Nas imagens da operação de S. Víctor observa-se Siza a analisar as possibilidades de construção nos terrenos, deslocando-se por entre os escombros da ocupação anterior, das reminiscências da vida secular dos trabalhadores naquela área. 127 MOTA, Nelson; An Archeology of the Ordinary: Rethinking the Architecture of Dwelling from CIAM to Siza” Delft: TU Delft.2014. p.223 128 Idem 111110 111110 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.131 Planeamento dos trabalhos a realizar pela Brigada e Associação de Moradores de S.Víctor Fig.132 Estudo das possibilidades programáticas da recuperação das “ilhas” e dos objectivos dos levantamentos Fig.133 Exploração da possibilidade de aglomeração de unidades de “ilhas” 113112 113112 O método para a edificação da habitação social Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Fig.134 Siza Vieira, Bloco da Srª das Dores, 1974-1977 - Contraste da planimetria da parede com a rugosidade das ruínas Para a primeira fase do projecto, foram projectadas 102 casas unifamiliares, dispostas em blocos, baseadas nas tipologia das “ilhas”, conformadas pelos pátios no interior dos quarteirões. O demorado processo de expropriação, bem como a má condição de alguns terrenos e blocos conduziria ao faseamento da obra, dando prioridade de edificação nas plataformas desocupadas, das quais hoje reconhecemos a área da “Sra das Dores”. Paralelamente ao trabalho de estirador, os laços entre os elementos da brigada e os moradores enraizavam-se, a par do sentimento de entreajuda. Os técnicos e estudantes apoiavam a associação na redacção dos estatutos para a sua legalização, cimentavam a consciência política e a sua importância social, ajudando a organizar, em simultaneidade, iniciativas de ocupação, reivindicação e de negociação com as instituições. Da operação de S.Víctor foram reconstruídas três casas na “Rua de S. Dionísio” e foi edificado parte do planeamento da “Sra das Dores”. Ambos os casos apresentam vestígios da situação anterior, quer na pormenorização dos primeiros, quer também nos muros que conformavam os espaços da “Sra das Dores”. Devido a dificuldades impostas por burocratização e expropriação dos terrenos, a operação não foi concluída, na medida em que não atingiu a totalidade dos objectivos pretendidos, restando nos esquissos de Siza a ideia do que ficou por concretizar, nomeadamente no desenho do espaço público e de conexão destas habitações à vida urbana, à integração das “ilhas” na cidade. Na operação de S.Víctor, da iniciativa da “Organização Social da Procura” e da sua autogestão, definiram-se os números e os objectivos da brigada, a constituição da associação, negociações de terrenos. Fig.131 Mas desta destaca-se sobretudo a revisão das ideias de projecto. Revolucionárias, não por partirem da idealização sem precedentes, mas da realidade em si mesma, da consideração das “ilhas” como elemento constituinte e organizador da nova cidade. Esta ideia aliada à autonomia de desenho e capacidade inventiva do arquitecto, em adaptar os modelos eruditos e a cultura vernacular, iria permitir criar habitação apropriada à situação da classe trabalhadora. Fig.132 Fig.133 Por entre a rugosidade das ruínas vernaculares, entreve-se no uso dos preceitos modernos nos blocos da “Sra das Dores”, a ambição do arquitecto Siza em aliar a obra à intemporalidade e permanência, sem reduzir o objectivo do projecto à correspondência das necessidades mais prementes dos moradores. Fig.134 115114114 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Conclusão A partir da exposição e conjugação das diferentes influências e circunstâncias relevantes para a concretização dos projectos SAAL de Siza Vieira, recolhemos algumas importantes ideias relativas à prática do arquitecto e à inclusão do seu papel disciplinar na alteração da sociedade, as quais consideramos preponderantes para uma melhor abordagem da temática da habitação, na actualidade, e também, na generalidade da actividade profissional e formação do arquitecto. Do ensino na ESBAP confirmou-se a importância de uma formação académica sólida, conhecedora de modelos arquitectónicos variados, para dar resposta a diferentes programas e exercícios de projecto, e ainda, a consciência das oportunidades da manipulação e domínio das ferramentas, nomeadamente do desenho e da proporção e clareza de abordagem que deste advêm. Foi a partir do conhecimento de uma grande variedade de referências que Siza elegeu os exemplos Modernos de habitação social para os projectos SAAL, com preocupações mais humanas e integradoras, como os projectos de J.P.Oud e de Bruno Taut. Ainda nesta Escola, passou a ser introduzido o estudo da História e da Teoria, como bases para uma arquitectura que inclui o valor das formas pelo seu significado e não somente o uso da forma pela forma. Legado que consideramos ainda presente na doutrina actual e que se revela de extrema relevância quando confrontado com os métodos de outras escolas europeias de arquitectura. Do ensino na pré-revolução fazia parte também uma investigação social, para além da tipo-morfológica, que alertava o corpo discente para a assimilação da realidade e dos problemas em causa. Esta directriz está mais diluída, hoje em dia, no empolamento dos exercícios de projecto, cujos programas, apesar de incluírem uma multiplicidade de circunstâncias, desde a casa unifamiliar, à habitação e equipamentos colectivos, dissolvem os problemas da realidade portuguesa, como o futuro dos centros urbanos, 129128 129128 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho 1973-1977 - fachada mais planimétrica, mais relacionada ao Movimento Moderno p.71 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.86 Siza Vieira, alçados do projecto da Bouça, 1973-1977 - fachada mais densa e preenchida, recorda a arquitectura popular e a classe operária p.71 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.87 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 - Proeminência da presença das escadas no acesso às habitações rurais p.70 “Arquitectura Popular em Portugal”, 2ª edição, Lisboa: Associação Arquitectos Portugueses, 1980, p.70 Fig.88 Esquisso de Siza Vieira para um monumento em homenagem à Associação de Moradores da Bouça, 1976 p.71 Fotografia da cortesia do morador Fernando Cardoso Fig.89 A zona de S.Víctor em 1865 e em 1892 - expansão da ocupação das “ilhas” p.72 TEIXEIRA, Manuel C. “The Development of 19th century working-class housing – The “ilhas” in Oporto, Portugal”, Architectural Association School of Architecture, 1988, p.256 e 257 Fig.90 Esquissos de Siza Vieira para S.Víctor, 1974-1976 - Possibilidades de desenho para manter as reminiscências das “ilhas”: pórticos, muros e redesenho dos edifícios pré-existentes p.73 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.91 Esquissos de Siza Vieira para S.Víctor, 1974-1976 - Possibilidades de desenho para o espaço público e de conexão das “ilhas” à cidade p.74 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.92 Siza Vieira, bloco da “Srª das Dores”, 1974-1976 - desenho das zonas de transição entre o interior e exterior p.75 http://www.moma.org/collection/artists/29732 Fig.93 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 - tratamento das zonas de transição na habitação vernacular p.75 “Arquitectura Popular em Portugal”, 2ª edição, Lisboa: Associação Arquitectos Portugueses, 1980, p.154 Fig.94 Siza Vieira, projecto da Bouça, 1973 -2006 - quarto junto à galeria p.76 Desenho da autora Fig.95 Siza Vieira, unidades de “S.Dionísio”, em S.Víctor, 1974-1976 - a centralidade da cozinha e a localização do quarto p.76 TESTA, Peter; “A arquitectura de Álvaro Siza - The architecture of ålvaro Siza” ; trad. José Quintão. Porto: FAUP, 1988. p.140 Fig.96 Siza Vieira, habitações da Bouça, 1977 - desenho do esaço de reunião da casa p.77 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.97 Siza Vieira, operação de S.Víctor, 1973-1976 - fachada das habitações na rua “S.Dionísio” p.77 http://www.moma.org/collection/artists/29732 Fig.98 Planta de uma habitação vernacular, Inquérito à Arquitectura Popular em Trás-os-Montes e Alto Douro, 1961 Le Corbusier, “Maison de week-end”, La Celle-Saint-Cloud, França, 1934 - centralidade da zona de fogo na habitação, enquanto local de reunião p.78 http://lh5.ggpht.com/_FkKgTDI7ngU/ TXZ37y-LOTI/AAAAAAAAODw/ 0cS1Mz-53jc/inq107_thumb1.jpg?imgmax=800 https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals /fe/80/5c/fe805cec68b6e16ef84733e386c93d54.jpg Fig.99 Siza Vieira, operação de S.Víctor, 1973-1976 Barragán, “Casa-estúdio Luis Barragán”, Cidade do México, 1948 p.78 - a reinterpretação da arquitectura popular na pormenorização “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” http://www.archreport.com.cn/ uploadfile/2014/0109/20140109102130231.jpg Fig.100 Siza Vieira, 1974-1976 - Pormenor sobre o confronto p.79 VIEIRA, Álvaro Siza, “Álvaro Siza : obras y proyetos,1954-1992”, edição José Paulo dos Santos; intr. de.Peter Testa e Kenneth Frampton; trad. Carlos Sáenz, Ana Rosa de Oliveira. Barcelona: GG, 1993, p.110 V Foto da cortesia de Fernando Cardoso, membro da “Associação de Mordaodres da Bouça”, 1976 p.80 Cortesia de Fernando Cardoso VI Álvaro Siza Vieira, Esquisso para o bloco da Nossa Sª das Dores, 1975 p.80 VIEIRA, Álvaro Siza, “Álvaro Siza : obras y proyetos,1954-1992”, edição José Paulo dos Santos; intr. de.Peter Testa e Kenneth Frampton; trad. Carlos Sáenz, Ana Rosa de Oliveira. Barcelona: GG, 1993, p.109 Fig.101 Alison e Peter Smithson, “Golden Lane Housing Competition”, 1952 p.83 http://www.grids-blog.com/wordpress/ wp-content/uploads/2013/05/ Smithson-goldenlane.png Fig.102 Giancarlo di Carlo, “Villagio Matteotti”, Itália 1975 p.83 http://aess.itc.cnr.it/mfc/fotografie/zoom/26537.jpg Fig.103 Projecto “Previ” em Lima, Peru, 1968 p.84 http://grahamfoundation.org/system/grants/images /2107/large/Land_PREVI.jpeg Fig.104 Aldo Rossi, “Quartiere Gallaratese”, Milão, Itália, 1967-1974 p.86 http://galeri3.arkitera.com/var/albums/Gorus-2/ cambazlik-notlari/4dort.jpg.jpeg Fig.105 Vittorio Gregotti, “Quartiere Zen”, Palermo, Itália, iniciado em 1969 p.86 https://premiodasud.files.wordpress.com/2011/07/41.jpg Fig.106 Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, Torre habitacional para o plano “Olivais-Norte”, 1958 http://bairrojardim.weebly.com/ p.87 uploads/6/9/0/3/690325/719482.jpg Fig.107 Nuno Portas, esquema sobre a metodologia para o habitat em devir p.89 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.91 Fig.108 Nuno Portas, evolução da habitação de lote estreito , a partir de um núcleo inicial p.92 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.212 Fig.109 Nuno Portas, esquema explicativo sobre as vantagens da proximidade entre a habitação, o equipamento e o local de trabalho p.93 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.199 Fig.110 Distribuição das entradas nas unidades e momento de convívio entre os moradores no corredor p.96 http://yoursporto.com/pt/wp-content/uploads/ sites/4/2014/01/Arquitectura-Filipa-5.jpg Fig.111 Siza Vieira, Conjunto habitacional da Bouça, 1973-1977 - densidade visual ritmada da habitação p.96 Foto da cortesia do moradore Fernando Cardoso Fig.112 Conjunto habitacional da Bouça, 1973-1977 - uso da galeria enquanto elemento distributivo p.96 Foto da cortesia do moradore Fernando Cardoso Fig.113 Siza Vieira, Conjunto habitacional da Bouça, 1973-2006 - uso dos pátios para convívio entre os moradores p.97 http://upload.spottedbylocals.com/Porto/normal/ bairro-social-da-bouca-porto-(by-maria-camps).jpg Fig.114 Esquisso de Siza Vieira da operação de S.Víctor, 1974-1977 - traseiras do bloco da Srª das Dores p.97 VIEIRA, Álvaro Siza, “Álvaro Siza : obras y proyetos,1954-1992”, edição José Paulo dos Santos; intr. de.Peter Testa e Kenneth Frampton; trad. Carlos Sáenz, Ana Rosa de Oliveira. Barcelona: GG, 1993, p.111 Fig.115 Essquisso de Siza Vieira, “Srª das Dores”, 1974-1977 - representação da apropriação do muro pelos moradores p.97 http://www.moma.org/collection/artists/29732 Fig.116 Dan Graham, “Homes for America”, “Arts Magazine”, 1966 p.98 https://p2.liveauctioneers.com/176/21504/ 7383334_1_l.jpg Fig.117 Siza Vieira, corte de um dos volumes do conjunto habitacional da Bouça, 1973-2006 - diversidade de soluções para os espaços de transição p.98 http://www.housingprototypes.org/images/Boca11b.jpg Fig.118 Siza Vieira, corte do módulo do bloco da “Srª das Dores”, 1973-1977 - desenho da cozinha e extensão do espaço de estar no exterior p.99 Desenho da autora Fig.119 Nuno Portas, esquema sobre as possibilidades de conjugação da sala com a cozinha e zona de trabalho p.99 PORTAS, Nuno; “A Habitação Social – Proposta para a metodologia da sua arquitectura”. 1ª ed. - Porto : Faup Publicações, 2004. p.167 Fig. 120 Siza Vieira, conjunto habitacional da Bouça, 1974-1977 - definição do programa dos remates da implantação p.100 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.121 Siza Vieira, esquisso para um tanque comunitário em S.Víctor, 1973-1977 p.100 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.122 Desenho dos módulos do bloco da Srª das Dores, escala 1/200 - planta do r/c e primeiro piso p.101 Desenho da autora Fig.123 Inquérito à Arquitectura Popular no Minho, 1961 p.101 “Arquitectura Popular em Portugal”, 2ª edição, 130130 Sobre a Realidade Social e a Autonomia do Desenho Lisboa: Associação Arquitectos Portugueses, 1980, p.155 Fig.124 - 2Planta das unidades do bloco da Srª das Dores; 1/200 p.104 3Alçado das unidades do bloco da Srª das Dores; 1/200 4Planta de um dos módulos do Bairro da Bouça; 1/200 Desenhos da autora Fig.125 Desenho de Siza Vieira, implantação urbana e planta de interiores dos projectos para a zona da Srª das Dores p.105 MOTA, Nelson; An Archeology of the Ordinary: Rethinking the Architecture of Dwelling from CIAM to Siza”. Delft: TU Delft.2014, p.230 Fig.126 Francisco Guedes, Perspectiva do conjunto habitacional da Bouça para o FFH, 1973 p.106 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.127 Planta do 2º piso do conjunto habitacional da Bouça p.107 Desenho da autora Fig.128 Implantação do projecto da Bouça - abertura do quarteirão para a cidade p.107 BANDEIRINHA, José António. “O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974”. Coimbra: EDARQ, 2007, p.416 Fig.129 Siza Vieira juntamente com os moradores da Bouça, na inauguração do projecto p.108 Foto da cortesia de Fernando Cardoso Fig.130 Siza Vieira nos terrenos da Srª das Dores p.109 http://www.moma.org/collection/artists/29732 Fig.131 Planeamento dos trabalhos a realizar pela Brigada e Associação de Moradores de S.Víctor p.110 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.132 Estudo das possibilidades programáticas da recuperação das “ilhas” e dos objectivos dos levantamentos p.110 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.133 Exploração da possibilidade de aglomeração de unidades de “ilhas” p.111 “drawing matter COLLECTIONS - Álvaro Siza” Fig.134 Siza Vieira, Bloco da Srª das Dores, 1974-1977 - Contraste da planimetria da parede com a rugosidade das ruínas p.112 http://www.moma.org/collection/artists/29732 Fig.135 Sobre a actualidade p.119 https://drscdn.500px.org/photo/56937574/m%3 D2048/025909c4cb03f0845bd854fd34efc2e4