Responsabilidade Social Corporativa nos Clubes de Futebol Profissional - Comparação entre Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e Portugal.
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RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA NOS CLUBES DE FUTEBOL PROFISSIONAL – COMPARAÇÃO ENTRE ESPANHA, INGLATERRA, ALEMANHA, ITÁLIA E PORTUGAL por João Montes Passos Ribeiro Dissertação de Mestrado em Economia e Gestão do Ambiente Orientado por: Professor Doutor Manuel Emílio Mota de Almeida Delgado Castelo Branco 2015
ii Nota Biográfica do Autor João Montes Passos Ribeiro nasceu a 5 de Março de 1991, na freguesia de Santa Maria Maior, em Viana do Castelo. Em 2009 acabou o ensino secundário na Escola Secundária de Monserrate em Viana do Castelo. Em 2009 ingressou na Licenciatura em Geografia – Pré Especialização em Geografia Física na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo concluído a mesma no ano de 2013 com média de 12 valores. No ano de 2011, realizou um estágio curricular no Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em Lisboa. Nos anos letivos de 2013/2014 e 2014/2015 frequentou a parte curricular do Mestrado em Economia e Gestão do Ambiente na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, tendo obtido uma média final de 14 valores.
iii Agradecimentos Agradeço, em primeiro lugar, ao meu orientador Professor Doutor Manuel Castelo Branco por toda a disponibilidade, todo o entusiasmo e todo o saber que fez questão de partilhar na realização desta dissertação e, também, por todo o conhecimento que me transmitiu na parte curricular do mestrado. "Os Nortenhos (…) defendem o Norte em Portugal como os portugueses haviam de defender Portugal no mundo." Miguel Esteves Cardoso Neste sentido, agradeço o facto de ter nascido num “berço de ouro”, numa cidade e numa região que me formaram enquanto ser humano e enquanto cidadão com os valores da simplicidade, do trabalho, da honestidade, da luta pelos nossos ideais, do respeito e do orgulho pelas tradições seculares que nos precedem. Agradeço de uma forma particular a Viana do Castelo e a Ponte de Lima por este indescritível sentimento de pertença que me acompanha e acompanhará. Agradeço aos meus pais e irmã por todos os sacrifícios e todos os sonhos que colocam em mim. Agradeço a todos os meus amigos, àqueles que me acompanham diariamente mas também àqueles que a distância não permite tal situação. Uma palavra para os companheiros destes últimos dois anos na RUF, que tornaram esta caminhada mais fácil e muito mais feliz. Uma menção especial ao Samuel Pinho, ao Eduardo Ribeiro, à Suzy Paço, à Marta Gonçalves e à Valérie Vieira. "Além das aptidões e das qualidades herdadas, é a tradição que faz de nós aquilo que somos." Albert Einstein
iv Lista de Abreviaturas FIFA - Federation International de Football Association GEE – Gases de Efeito de Estufa RSC – Responsabilidade Social Corporativa UEFA – Union of European Football Associations
v Faculdade de Economia da Universidade do Porto Mestrado em Economia e Gestão do Ambiente Responsabilidade Social Corporativa nos Clubes de Futebol Profissional – Comparação entre Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e Portugal João Montes Passos Ribeiro Resumo: A responsabilidade social corporativa (RSC) é uma temática atual quer no mundo empresarial, quer no dia-a-dia das sociedades contemporâneas. Porém, os estudos realizados no que diz respeito à RSC em organizações desportivas, especialmente no futebol, são relativamente escassos e recentes. A crescente aposta em medidas sociais e ambientais tem sido um dos principais focos de clubes profissionais de elite, pretendendo aproveitar os movimentos de massas gerados pela paixão desportiva e clubística com a aposta e promoção de medidas ambientalmente sustentáveis e causadoras de bem-estar social. Os benefícios que advêm destas medidas são vários e podem ser atribuídos às várias partes envolvidas, o que torna a aposta em atividades do género além de positivas para a sociedade, desejadas pelos clubes. A comparação da comunicação de tais medidas por parte dos clubes de futebol nos cinco países que ocupam atualmente os cinco primeiros lugares no ranking da UEFA é um dos principais objetivos que se pretende alcançar, permitindo obter uma ideia abrangente das medidas existentes bem como das suas limitações e das suas potencialidades. Palavras-chave: RSC, desporto, futebol, ambiente, sustentabilidade.
vi Faculty of Economics, University of Porto Master in Environmental Economics and Management Corporate Social Responsibility in Professional Football Club - Comparison between Spain, England, Germany, Italy and Portugal João Montes Passos Ribeiro Abstract: Corporate social responsibility (CSR) is a current theme both in the business world. However, studies on CSR in sports organizations, especially in football organizations, are relatively scarce and recent. The growing investment in social and environmental measures has been a major focus of elite professional clubs, intending to take advantage of the mass movements generated by the sport and club passion with commitment and promotion of environmentally friendly measures and causing social welfare. The benefits that come from these measures are various and can be assigned to the various parties involved, which makes the investment in such activities not only positive to society but also desired by clubs. Comparison of the reporting of such measures by football clubs in the five countries that currently occupy the top five places in the ranking of UEFA is one of the main objectives of this work, allowing a comprehensive view of the existing measures, as well as their limitations potential. Keywords: CSR, sport, football, environment, sustainability.
vii Índice Nota Biográfica do Autor ................................................................................................. ii Agradecimentos ............................................................................................................... iii Lista de Abreviaturas ....................................................................................................... iv Resumo ............................................................................................................................. v Abstract ............................................................................................................................ vi Índice de Tabelas ............................................................................................................. ix 1. Introdução .................................................................................................................. 1 1.1 Enquadramento Geral ......................................................................................... 1 1.2 Motivações e Objetivos ...................................................................................... 3 1.3 Estrutura da Dissertação ..................................................................................... 4 2. Literatura Relevante .................................................................................................. 6 2.1 Responsabilidade Social Corporativa ................................................................ 6 2.1.1 A Evolução da Responsabilidade Social Corporativa ................................ 6 2.1.2 O Conceito de Responsabilidade Social Corporativa ................................. 7 2.1.3 O Papel da Comunicação na Responsabilidade Social Corporativa ........... 9 2.2 A Aplicabilidade da Responsabilidade Social Corporativa no Desporto ......... 11 2.2.1 O Contexto do Desporto na Responsabilidade Social Corporativa .......... 11 2.2.2 Relação entre a Responsabilidade Social, o Desporto e a Sociedade ....... 12 2.3 Responsabilidade Social Corporativa no Futebol ............................................ 15 2.3.1 O Futebol como elo de ligação entre os clubes e a comunidade .............. 15 2.3.2 Responsabilidade Social Corporativa no contexto do Futebol Europeu ... 17 2.3.3 Organizações Responsáveis pelo Futebol nos Países em Estudo ............. 18 3. Enquadramento Teórico e Desenvolvimento de Hipóteses ..................................... 22 4. Metodologia de Análise ........................................................................................... 28 4.1 Definição da Amostra ...................................................................................... 28 4.2 Recolha de Dados ............................................................................................. 28 5. Resultados e Discussão ............................................................................................ 29 5.1 Análise Descritiva ............................................................................................ 29 5.2 Análise Estatística ............................................................................................ 34 6. Conclusões ............................................................................................................... 39 7. Referências Bibligráficas ......................................................................................... 42
viii Anexos ............................................................................................................................ 52 Anexo 1 - Listagem de ocorrências de atividades de responsabilidade social: descriminação das alíneas relativas às Políticas Ambientais e de Sustentabilidade ... 52 Anexo 2 - Listagem de ocorrências de atividades de responsabilidade social: descriminação das alíneas relativas ao Envolvimento com a Comunidade ................ 53 Anexo 3 - Listagem de ocorrências de atividades de responsabilidade social: descriminação das alíneas relativas às Políticas Laborais e de Combate à Corrupção 53
ix Índice de Tabelas Tabela 1 – Definição da Amostra ................................................................................... 28 Tabela 2 – Premissas relativas às Políticas Ambientais e de Sustentabilidade .............. 30 Tabela 3 – Premissas relativas ao Envolvimento com a Comunidade ........................... 31 Tabela 4 – Premissas relativas às Políticas Laborais e de Combate à Corrupção .......... 32 Tabela 5 – Listagem de ocorrências de atividades de responsabilidade social por categorias ........................................................................................................................ 32 Tabela 6 – Valores relativos à tabela de coeficientes representativos da regressão linear múltipla relativamente às variáveis dependentes: Políticas Ambientais e de Sustentabilidade; Envolvimento com a Comunidade e Valores Totais .......................... 35
7 Recorrendo à análise de van Marrewijk (2003), pode-se constatar o aumento da presença da sociedade na balança relativa à importância entre o estado, o negócio e a referida sociedade. O aumento deste peso social vem acompanhado com o aumento do peso do negócio, contrastando com a diminuição do peso do estado. Esta análise é feita tendo como oposição a situação verificada no passado em que o negócio possuía uma relevância ligeiramente inferior quando comparado com o estado, estando o peso da sociedade bastante reduzido quando comparado com o estado e com a preocupação atual que se atribui à mesma. 2.1.2 O Conceito de Responsabilidade Social Corporativa A complexidade que existe na procura de uma definição consensual para a RSC advém do facto de esta não possuir um significado exato para todos os que analisam este tema (Okoye, 2009; Freeman e Hasnaoui, 2011). A grande questão, segundo Okoye (2009), prende-se com a diferença de opiniões relativamente ao facto de a RSC ser uma responsabilidade definida e imposta pela lei, ou então esta estar sujeita ao sentido ético de cada indivíduo ou sociedade em causa. Existem, no entanto, vários estudos que visam encontrar consensos nos conceitos e nos objetivos da RSC. Alguns, apesar de não entrarem a fundo na procura de um conceito, apresentam indicações que visam facilitar o entendimento sobre estas questões. O estudo dos autores Garriga e Melé (2004) pretende demonstrar que as principais teorias relativas à RSC estão inevitavelmente catalogadas em quatro grupos: “económico; político; integração social e ético”. Já Roşca (2011) refere que o desenvolvimento de medidas de RSC se deve centrar em três sectores: “económico; ambiental e social”. Tendo em conta as indicações anteriores, e ainda na procura por uma definição aglutinadora sobre RSC, é apresentada uma afirmação que, segundo Akansel et al. (2010) corresponde a uma ideia “formal e abrangente”. A definição em questão está presente no relatório para o World Business Council for Sustainable Development, e refere que “a responsabilidade social corporativa é um compromisso contínuo por parte das empresas para terem um comportamento ético e contribuírem para o desenvolvimento económico, melhorando simultaneamente a qualidade de vida dos seus trabalhadores e das suas
8 famílias, bem como da comunidade local e da sociedade em geral” (Holme e Watts, 1999). Existem inúmeras formas de atingir os objetivos propostos por Holme e Watts (1999), sendo possível assumir que os quatro grupos de aspetos abordados anteriormente por Garriga e Melé (2004) apresentam os pilares dessas medidas passíveis de serem aplicadas. A criação de programas e medidas de RSC nas empresas surge, também, com o intuito de fazer face a questões do quotidiano empresarial, como o posicionamento das empresas no mercado, a relevância institucional das mesmas, bem como responder a pressupostos éticos que, cada vez mais, são importantes num mercado de concorrência (van Marrewijk, 2003; Athanasopoulou et al., 2011). A pressão externa é também um fator importante na aplicação da RSC no mundo empresarial. Athanasopoulou et al. (2011) refere que, neste tópico, os principais fatores estão relacionados com as variáveis institucionais, nomeadamente o comportamento da RSC na indústria respetiva; variáveis económicas como o nível de concentração das empresas e as respetivas cotas de mercado e, por fim, variáveis de gestão como as questões da inovação. Relativamente aos fatores externos, estes englobam também questões ligadas aos clientes e ao que os mesmos procuram encontrar, grupos ativistas e legislação sobre a matéria (Athanasopoulou et al., 2011). Os benefícios destas medidas são, como já foi referenciado, positivos para ambas as partes (empresas e sociedade), desde a melhoria da performance financeira das empresas através do aumento da sua cota de mercado, até aos benefícios relativamente à perceção do consumidor sobre a matéria, nos casos das empresas, até às medidas de compensação ambiental ou de apoio a causas socias no caso das sociedades (van Marrewijk, 2003). A tendência para o alargamento das medidas de RSC a vários mercados e indústrias é algo que se tem vindo a verificar, sendo a RSC considerada, cada vez mais, como uma parte integrante dos modelos de gestão das empresas (Carroll, 1999; Athanasopoulou et al., 2011). O desenvolvimento da temática através exemplos de sucesso, bem como do aumento da investigação sobre o assunto, levou, mais recentemente, à expansão da
9 questão a áreas não tão expectáveis anteriormente, como é o caso do desporto num nível geral, e do futebol particularmente. 2.1.3 O Papel da Comunicação na Responsabilidade Social Corporativa É também importante salientar o papel da comunicação na questão da RSC, papel esse que tem sofrido uma influência importante de meios como a internet, fundamental na comunicação entre as várias partes (Kriemadis et al., 2010; Adams e Frost, 2004). De facto, a internet veio trazer a várias indústrias um leque de oportunidades ao nível da publicidade, do marketing, do merchandising e da comunicação entre as várias partes, revolucionando os mercados e desenvolvendo uma relação inovadora entre as duas partes, neste caso específico, os clubes e as comunidades (Kriemadis et al., 2010). Os métodos mais utilizados pelas empresas na divulgação de informação sobre as suas atividades de responsabilidade social sempre foram, preferencialmente, os seus relatórios anuais. No entanto, este método sempre foi restritivo no que diz respeito ao acesso da informação por parte da sociedade, visto estes relatórios serem preferencialmente dirigidos aos acionistas (Adams e Frost, 2006). Esta debilidade apresentada pelo meio de comunicação utilizado aliado ao crescimento verificado pela internet nas últimas décadas, que começou a permitir a difusão da informação com menos custos, e com um acesso mais rápido permitiu que esta última fosse cada vez mais utilizada na divulgação das atividades de responsabilidade social realizadas por parte das empresas, pois o número de pessoas que conseguia alcançar era muito mais elevado, tendo como fator importante a independência relativamente à localização geográfica (Felisberto, 2011). Segundo Cormier et al. (2005) a comunicação da responsabilidade social por parte das empresas é fundamental para que estas consigam alcançar o máximo rendimento das atividades que realizam e/ou que pretendam realizar, sendo a utilização dos websites um meio privilegiado para demonstrar o comprometimento das entidades com as referidas atividades. As funções e os objetivos que a internet permitiu atingir foram determinantes para a difusão e para o sucesso que a responsabilidade social atingiu nas décadas mais recentes. Esta afirmação tem como base o estudo de Esrock e Leichty (2000) onde é referida a preponderância que a internet registou na difusão das mensagens para os vários tipos de público, estreitando as relações com os seus clientes e com a sociedade em geral.
10 Esta informação, quase exclusivamente voluntária, relativa à responsabilidade social divulgada por parte das empresas é uma relação entre custo e benefício associado às mesmas (Belkaoui e Karpik, 1989; Hackston e Milne, 1996; Cormier et al., 2005), destacando-se o facto de, segundo a análise de Felisberto (2011), podermos classificar por categorias a informação voluntária divulgada pelas empresas em “ambiente, energia, recursos humanos, produtos e clientes e envolvimento com a comunidade”. No caso do desporto, e do futebol em particular pelas suas características específicas e diferenciadoras, a divulgação de informação relativa à responsabilidade social é recente e tem surgido de uma forma mais acentuada nos últimos anos, com um grande número de clubes a divulgarem através de meios como a internet de uma forma preferencial, as suas principais atividades (Slack e Shrives, 2008).
11 2.2 A Aplicabilidade da Responsabilidade Social Corporativa no Desporto 2.2.1 O Contexto do Desporto na Responsabilidade Social Corporativa A RSC atravessa, como foi possível verificar até então, várias extensões da sociedade. A expansão da aplicabilidade das suas ações levou a que, nos dias de hoje, medidas de RSC sejam aplicadas nos mais diversos meios empresariais (Breitbarth et al., 2011). A preponderância do desporto na sociedade contemporânea tem merecido destaque em várias áreas, desde a referência aos valores monetários das transferências de jogadores, ao crescente aumento dos valores despendidos em marketing e publicidade. A par desta situação, o desporto tem vindo a adquirir uma influência crescente na população, no seu modo de vida e no quotidiano de muitos adeptos (Brown et al., 2008; Walters e Tacon, 2011). Deste modo, as preocupações com a transparência e a responsabilidade social aumentam, sendo necessário criar meios organizados e equitativos de forma a fazer face a estas questões e às necessidades que delas advêm (Kolyperas, 2012). A RSC tem, no contexto desportivo, a oportunidade de aproveitar um meio com uma popularidade notável e um poder de distribuição de informação imenso de forma a promover e comunicar os seus programas para grandes audiências, facilitando a relação entre o clube e a comunidade (Smith e Westerbeek, 2007; Walters e Tacon, 2011; Panton, 2012). Dentro desta grande popularidade do desporto em geral, destaca-se uma franja da população ainda mais sensível a todo o fenómeno desportivo do que a restante, a camada jovem. A conexão entre esta franja da população e os programas de RSC poderão ser facilitados pela ajuda do desporto e das personalidades a ele ligados (Babiak e Wolfe, 2006; Walters e Tacon, 2011). No caso, então, do desporto, que é a variante que se pretende analisar, é possível afirmar que ainda existe muita matéria que necessita de ser estudada e compreendida sobre “a questão das atividades sociais organizadas pelos clubes, e dos benefícios atribuídos a essas mesmas organizações desportivas” (Walker e Parent, 2010). No entanto, e segundo Trendafilova et al. (2013), nos últimos anos foi possível registar um “aumento da adoção e implementação de medidas de RSC nas ligas profissionais de desporto nos Estados Unidos da América”. Este princípio, e esta “institucionalização da
12 RSC no desporto profissional” (Trendafilova et al., 2013) tornaram a “implementação da RSC integrada na gestão das equipas desportivas através de um departamento próprio ou de uma respetiva fundação” (Trendafilova et al., 2013). A crença na possibilidade de benefícios para os clubes desportivos na adoção de medidas de RSC permitiu que o interesse e a atenção dos clubes para com esta problemática registasse um aumento significativo (Kolyperas, 2012). Dessa forma, a conciliação destas medidas com a gestão própria de um clube desportivo permitiu aos clubes retirar proveitos em várias áreas através destas ações (Adcroft et al., 2009). Ainda segundo Trendafilova et al. (2013), as mais relevantes estão relacionadas com a “melhoria da imagem do clube em causa; o aumento da lealdade dos adeptos; o desenvolvimento desportivo e a venda de ingressos”. 2.2.2 Relação entre a Responsabilidade Social, o Desporto e a Sociedade De forma a atingir os resultados enunciados anteriormente, foram desenvolvidos estudos como o de Smith e Westerbeek (2007), que apontam para um conjunto de diretrizes que visam, através de uma articulação praticada pelo clube, privilegiar a relação entre o mesmo e a sociedade, ou o de Walker e Parent (2010) que serve de exemplo relativamente às principais medidas aplicadas por entidades diversas no mundo desportivo. Desse modo, Smith e Westerbeek (2007) abordam várias questões pertinentes como a questão do “fair-play, da igualdade, do livre acesso e da diversidade”, isto significa, de um modo geral, uma liberdade de oportunidades para todos relativamente à prática desportiva, assim como a importância da igualdade e do respeito entre todos os praticantes. A “segurança dos participantes e dos espectadores” funciona como uma responsabilidade física que o clube deve gerir, de forma a permitir que a proteção do público e dos espectadores seja uma prioridade. A “independência do fatores externos” é abordada como uma gestão que o clube deve ter em conta de forma a afastar-se de interesses externos ao jogo em si, como os jogos de apostas. A presença de uma “Gestão de Transparência” engloba vários fatores internos como a divulgação de informação, que devem ser tidos em conta pelas direções dos clubes. As questões de emprego e os processos que daí advém levam, em muitos casos, à contração de ex-jogadores para posições de direção. Estas contratações levantam, em muitos casos, suspeições de
13 promiscuidade. É importante que estas situações obedeçam a regras de transparência, de forma a fomentar a confiança na gestão do clube e no cumprimento de normas éticas e de transparência. Os “caminhos para a prática desportiva”, são abordados como forma de dever que o clube tem para com a sociedade, dever esse que consiste em fornecer meios para o desenvolvimento da prática desportiva, tanto no que concerne a indivíduos com idade sénior como também a crianças e jovens. O sentido de comunidade entra nesta análise de Smith e Westerbeek (2007) na forma de “políticas de relação com a comunidade”. Este ponto é importante no sentido em que pretende estimular a cooperação entre os clubes, as entidades governativas e as comunidades locais, com vista a descobrir as suas carências, necessidades e pretensões. Esta análise é significativa pois permite dotar o clube de conhecimento de causa sobre a situação da comunidade bem como dos principais pontos de intervenção. A “saúde e a atividade física” é um ponto importante para a sociedade e é um dos principais pontos que deve estar no âmbito de ação dos clubes, não só através da prática desportiva profissional como também noutras áreas com relevante interesse para a comunidade como as equipas de formação. Estes têm, também, o importante dever de fomentar a prática de exercício físico pela comunidade, assim como desenvolver políticas que promovam a saúde e o bem-estar. A “proteção ambiental e a sustentabilidade” abordada por Smith e Westerbeek (2007) deve ser, também ele, um dos principais focos dos clubes. Num âmbito mais geral, “o desenvolvimento de todos os participantes” sugere que os clubes devem tentar ao máximo potenciar as qualidades dos indivíduos tanto a nível físico como psicológico, fomentando várias atividades que permitam a integração dos mais desfavorecidos não só na atividade física mas também em atividades culturais, ambientais e sociais. Por fim, a importância de ter “treinadores e líderes acreditados” é uma ideia imperial para Smith e Westerbeek (2007) pois considera essa questão essencial para o sucesso da implementação de todas as medidas anteriores. Desde os inícios dos anos 1990, as organizações desportivas aumentaram as suas iniciativas de responsabilidade social (Panton, 2012). O potencial do desporto e a ligação que o mesmo possui com a sociedade motivou este aumento da preocupação social por parte das organizações, bem como a facilidade que os intervenientes desportivos tem em
14 chegar às comunidades locais em particular, e às sociedades em geral (Walters e Tacon, 2011; Panton, 2012). Segundo Smith e Westerbeek (2007), o desporto possui formas únicas de ligação para com a sociedade, desde logo o “poder de comunicação único”, causado em grande parte pela paixão que em inúmeros casos une os adeptos aos clubes; “apelo jovem” ou seja, facilidade comunicativa com as camadas mais jovens da sociedade; “consciência de sustentabilidade” e a “facilidade em obter resultados rápidos” tornam o desporto numa área única da sociedade. No estudo de Athanasopoulou et al. (2011), é referenciada uma proposta relativa a projetos de RSC para clubes profissionais, onde se defende que estes devem assentar os seus programas em quatro categorias: “filantropia; envolvimento da comunidade e iniciativas para a educação e para a saúde dos jovens”. Estes meios são passiveis de recolher resultados positivos a vários níveis e a uma escala que é difícil de ser comparada com outro meio empresarial. “A educação e a saúde dos jovens”, assim como o fomento da “prática desportiva” e ainda a “consciencialização ambiental” e o “enriquecimento cultural e social” são objetivos onde o desporto pode oferecer resultados positivos e relativamente imediatos (Panton, 2012). A ideia de RSC subentende, como já foi abordado anteriormente, uma existência de relações fortes entre as comunidades e as entidades promotoras das mesmas. O fortalecimento destas relações, não só trará benefícios para a comunidade, como também permitirá aos clubes obter uma maior ligação com a sociedade em que se insere, ligação essa a que pode acrescer o aumento de adeptos e sócios dos mesmos (Panton, 2012), assim como o aumento dos patrocínios (Athanasopoulou et al., 2011). Esta ligação poderá aumentar o aparecimento de outras valências como o aumento da legitimidade e da confiança nos clubes, assim como aumentar as vantagens competitivas e a melhoria da performance financeira (Panton, 2012). Estes objetivos assentam numa ideia de afirmação internacional através da possível projeção que os clubes podem obter com estas medidas, como abordou Hamil et al. (2010) no seu estudo relativo ao caso do FC Barcelona.
15 2.3 Responsabilidade Social Corporativa no Futebol 2.3.1 O Futebol como elo de ligação entre os clubes e a comunidade Nos dias de hoje, os clubes de futebol, devido à sua popularidade e à exposição a que estão sujeitos, podem ser considerados embaixadores das comunidades onde se encontram inseridos. Esta representação pode ser atribuída aos resultados obtidos dentro de campo, bem como a todo um conjunto de ações que são prestadas fora do mesmo, para com a respetiva comunidade e meio envolvente. Todas estas atividades representam uma forma de identificação da população para com o clube (Roşca, 2011; Panton, 2012). As pressões externas efetuadas por algumas entidades do panorama desportivo como as ligas (entidades organizadoras das competições nacionais), dos patrocinadores e das próprias comunidades locais, é relevante na organização dos programas de responsabilidade social nos clubes de futebol (Breitbarth et al., 2011). Esta pressão positiva é importante para encontrar as principais necessidades de uma comunidade, assim como ir de encontro a um melhor aproveitamento dos recursos existentes (Athanasopoulou et al., 2011). Esta ligação dos clubes com as suas comunidades pode acontecer, como já foi verificado, em várias vertentes. Os clubes, em muitos casos, adquirem o espírito, os ideais e as tradições das respetivas comunidades locais, regionais ou nacionais em que se inserem, dependendo do contexto da comunidade (Wynn, 2007). O exemplo do FC Barcelona, estudado por Hamil et al. (2010), ilustra de uma forma clara estes pressupostos. O clube adquire as tradições da sua região (Catalunha), sendo um dos principais meios de afirmação da mesma no contexto nacional (Espanha) e internacional. Uma forma de mostrar como a união existente entre a comunidade, o clube e os seus adeptos, leva, em casos particulares, a excessos criados pela paixão extrema produzida pelo futebol, pelos clubes e pelas entidades que o gerem, é relatado na obra de Foer (2011), onde são referidos momentos importantes da história mundial, em que os adeptos e, na maioria dos casos, as claques organizadas, possuíram papeis importantes no rumo das nações e na luta pelos ideais das regiões em causa. Casos como o desmembramento da antiga Jugoslávia, onde as claques dos clubes da Sérvia e da Bósnia desempenharam papéis de autênticos exércitos ao serviço dos ideais dos clubes,
16 demonstra o poder e a influência que estes podem ter sobre um número considerável da população e o papel importante que esse poder pode provocar. A questão da ligação entre as comunidades e os clubes de futebol, pode ser vista como uma relação entre duas partes onde, como já foi referido, ambas obtém privilégios importantes (Breitbarth et al., 2011). Roşca (2011) refere ainda que, quando os clubes tomam iniciativas em prol da comunidade, os laços entre ambas fica logicamente mais forte, ficando a comunidade mais permeável no apoio ao clube e às iniciativas do mesmo. Ainda neste contexto, é importante referir o exemplo presente no estudo de Roşca (2011) relativamente ao Arsenal FC, clube fundado no sudeste de Londres e que, em 1913 se mudou para o norte da cidade, após a construção do seu estádio. A adaptação do clube à comunidade local foi bastante positiva assim como a adaptação da população ao seu novo símbolo. Os bairros do norte da cidade de Londres “adotaram” o clube e, transformaram-se em adeptos do mesmo, pois viram no Arsenal FC uma forma positiva de representação daquela área da cidade. Apesar do Arsenal FC, nos dias de hoje, ser um clube com adeptos em todo o mundo, esta ligação com a comunidade do norte de Londres é transportada ainda para a atualidade, sendo a mesma uma das principais áreas onde o clube aplica os seus programas de responsabilidade social, tentando usar a sua força com vista a melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes. A grande maioria dos adeptos de qualquer clube é criada, principalmente, pela sua área de influência. Esta varia consoante a localização do mesmo, o contexto da região e do país e, também, pelos seus resultados desportivos. Esta área de influência pode ser local, regional, nacional e em muitos dos casos, internacional (Roşca, 2011). Sendo a FIFA (Fédération Internationale de Football Association), a entidade responsável pelo futebol mundial, a necessidade de criar mecanismos que defendam e promovam o bem-estar social, o desenvolvimento do desporto em áreas mais desfavorecidas, a difusão de campanhas com vista à promoção do respeito e contra a discriminação e o racismo, foram vistas pela organização como uma prioridade e como um foco necessário para o desenvolvimento da modalidade (Pallade et al., 2007; FIFA, 2007; Cleland e Cashmore, 2014). Tendo como pilares o “desenvolvimento do jogo; tocar o mundo; construir um futuro melhor”, a FIFA demonstra a importância que o futebol tem na sociedade, assim como incorpora na modalidade o sentido social que ela pode e
23 “política, a sociedade e a economia são inseparáveis e que as demonstrações económicas não podem ser analisadas de forma significativa sem considerar a estrutura social, política e institucional, no âmbito da qual a atividade económica se desenvolve” (Eugénio, 2010). De uma forma mais sucinta, Felisberto (2011) refere que a Teoria da Legitimidade deve ser analisada através da necessidade das empresas em atuar “dentro dos limites e normas da sociedade”, pretendendo com isto que “as suas operações sejam consideradas legítimas pela sociedade”. Existem várias considerações sobre a teoria da legitimidade. Suchman (1995) considera a legitimidade uma perceção que contextualiza se “as acções de uma empresa são desejáveis, próprias e apropriadas dentro de um sistema social de normas, valores, crenças e definições”. Esta ideia compreende o pressuposto de que a organização em causa será avaliada consoante as suas práticas comuns (Felisberto, 2011). Esta questão da legitimação de uma organização pode ser realizada com vista a atingir objetivos como alcançar, aumentar ou manter os níveis de legitimidade ou, em casos específicos contrariar ameaças ou uma perda de legitimidade por parte da organização (O’Donovan, 2002). Podemos então, denominar esta questão entre a sociedade e a legitimidade de uma organização de “contrato social” (Watson et al., 2002; Guthrie et al., 2004; Felisberto, 2011). Este “contrato” pressupõe o cumprimento por parte das organizações de várias premissas necessárias para o bem estar comum e para o cumprimento de questões elementares para a sociedade. Quando se pressente ou ocorre um incumprimento destas premissas por parte da organização a legitimidade da mesma fica posta em causa perante a sociedade e corre o risco de ser sancionada pela mesma. É, nestes casos, em que a sociedade se apercebe que as desvantagens para a própria são maiores que os benefícios que para ela advém, que se verifica um desfasamento da legitimidade (legitimacy gap) (Mundlak, 2009). Nestes casos, as organizações podem por em causa a dita legitimidade relativamente à utilização de recursos (Deegan et al., 2002), sendo importante referir que, segundo a perspetiva de Pimentel et al. (2004), as empresas não possuem um direito clarividente sobre estes mesmos recursos, estando sujeitas ao escrutínio da sociedade sobre a sua utilização. Pimentel et al. (2004) aprofunda ainda mais a questão e refere que a própria existência das organizações se deve à consideração por parte da sociedade da sua legitimidade para atuar.
24 A legitimidade de uma organização não é algo que seja constante, existem várias situações que podem levar a que a situação de uma organização sofra alterações relativamente a essa mesma legitimidade. Destaca-se o facto da visibilidade das empresas para com a sociedade variar significativamente, bem como algumas organizações estarem mais dependentes do apoio das sociedades do que outras (Warren, 2003). Neste âmbito, regista-se a importância da legitimidade das organizações como fator essencial nas ações dos consumidores na hora de adquirirem os respetivos produtos que a organização dispõe. É, no entanto, importante salientar o facto de que as ambições das sociedades podem alterar-se mediante fatores políticos, sociais e até económicos. Esta volatilidade confere as organizações a necessidade de possuírem a capacidade de alterar o “contrato social” sempre que assim seja necessário, com vista a não perderem cota de mercado e a conseguirem manter a legitimidade da organização em níveis aceitáveis (Deegan, 2002; Warren, 2003). A divulgação das atividades de responsabilidade social torna-se importante como meio de “reforçar a reputação e a legitimidade” da organização (Felisberto, 2011). Esta divulgação irá permitir, em muitos casos, a perceção por parte da sociedade das várias preocupações da organização, quer a nível social e económico, bem como no que diz respeito às espectativas e aos objetivos que a empresa se propõe alcançar. A divulgação relativa às atividades de responsabilidade social possui uma relevância importante não só no que diz respeito à relação da organização com a sociedade, mas também é relevante entre as próprias organizações, pois o facto de uma organização divulgar as suas atividades poderá forçar as suas concorrentes a tomarem a mesma atitude com vista a não perderem mercado para as suas concorrentes (Petty e Cuganesan, 2005). Estas atitudes potenciam a criação de um ciclo que beneficiará tanto as organizações como a sociedade. Assim, e tendo em consideração o exposto anteriormente, foram formuladas três hipóteses de estudo que se referem à existência de associações entre certas variáveis relacionadas com a visibilidade social dos clubes de futebol e a aposta dos clubes em medidas socialmente responsáveis. A primeira hipótese que se pretende testar, pretende relacionar a aposta dos clubes em medidas socialmente responsáveis com a participação dos mesmos em competições europeias. É importantes destacar que, nos cinco países em análise, na época de
25 2014/2015 existiram um total de 33 vagas disponíveis para a participação em competições europeias (UEFA Champions League e UEFA Europa League), vagas essas que foram distribuídas para os primeiros classificados dos campeonatos na época 2013/2014 e para os vencedores da taça nacional do respetivo país 1 . Tendo em conta o exposto anteriormente, formulou-se a seguinte hipótese: Hipótese 1 (H1): Os clubes que participam em competições europeias apresentam um maior número de atividades de responsabilidade social. A segunda hipótese que se ambiciona testar, pretende relacionar a aposta dos clubes em medidas socialmente responsáveis com a presença dos mesmos em bolsas de valores. A cotização dos clubes de futebol em bolsas de valores surgiu em Inglaterra no ano de 1983 (Scholtens e Peenstra, 2009), através da entrada de vários clubes no mercado, com a espectativa de que seria um instrumento financeiramente positivo para os clubes. Atualmente, por várias razões, a bolsa de valores não se apresenta tão atrativa para os clubes, sendo vários os que optam por não entrar neste mercado. No entanto, a bolsa de valores apresenta-se como uma variável interessante, pois permite a obrigatoriedade de divulgação de alguma informação (especificidades de cada bolsa de valores) e da intenção do clube em ser parte ativa no mercado (Scholtens e Peenstra, 2009). Dessa forma, tendo em conta a informação anterior, procedeu-se à formulação da seguinte hipótese: Hipótese 2 (H2): Os clubes com presença na bolsa de valores apresentam um maior número de atividades de responsabilidade social. 1 Quando o vencedor da taça finaliza o campeonato nos lugares já destinados às competições europeias, a vaga que lhe foi destinada por vencer a taça passa para o finalista vencido da mesma. No caso de o mesmo suceder com esse clube, a vaga passará para o primeiro clube no campeonato que não conseguiu obter a classificação necessária para a referida participação europeia. Relativamente ao campeonato português e italiano, os 3 clubes melhor classificados participam inicialmente na UEFA Champions League e os restantes na UEFA Europa League. No campeonato espanhol, inglês e alemão, o número de clubes a participar na UEFA Champions League aumenta para 4, sendo os restantes destinados à UEFA Europa League.
26 A terceira hipótese que se pretende testar, encontra-se relacionada com a aposta dos clubes em medidas socialmente responsáveis tendo em conta o número de habitantes da localidade onde se encontram sediados. Esta hipótese pretende analisar se existe uma relação entre uma aposta em grande número de medidas de responsabilidade social quando o número de habitantes das localidades é elevado, ou se, pelo contrário, o número de habitantes das localidades não influencia o número de medidas de responsabilidade social que os clubes realizam. Verifica-se, também, que existem muitos casos onde a mesma localidade regista a existência de mais do que um clube, como o caso de Lisboa, Madrid, Londres e Roma, entre outras. Tendo em consideração a informação anterior, procedeu-se à formulação da seguinte hipótese: Hipótese 3 (H3): Existe uma relação entre o número de medidas de responsabilidade social praticadas pelos clubes e o número de habitantes das localidades onde estes se encontram Para além das três hipóteses derivadas da teoria da legitimidade, pretende-se testar uma quarta hipótese com basenuma teoria proposta em estudos como o de Maignan e Ferrel (2000), Chen e Bouvain (2009) e Jackson e Apostolakou (2010) relativamente à aplicação de medidas de responsabilidade social por parte de organizações anglosaxônicas e organizações da Europa continental. A análise em causa, prende-se com a ideia de que as organizações da Europa continental estão ao abrigo de uma legislação mais coordenada, onde as atividades realizadas no âmbito supra mencionado se efetuam fundamentalmente pela relação entre as leis existentes e a necessidade das organizações em cumpri-las (Jackson e Apostolakou, 2010). Relativamente ao caso das organizações anglo-saxónicas, as atividades de responsabilidade social desenvolvem-se de uma forma mais livre e através de uma vontade própria das organizações, não estando implícitos requisitos legais préestabelecidos em virtude de não se verificarem os mesmos requisitos que se verificam na
27 europa continental (Jackson e Apostolakou, 2010). É interessante, por isso, verificar se relativamente aos clubes de futebol, a situação é semelhante à das organizações tradicionais, ou se, porventura, a localização não influencia de sobremaneira o número de atividades de responsabilidade social desenvolvidas. Dessa forma, tendo em conta a informação anterior, procedeu-se à formulação das seguintes hipóteses: Hípotese 4 (H4): Os clubes provenientes de países anglo-saxónicos registam mais atividades de responsabilidade social do que os clubes que se localizam nos países da Europa continental.
28 4. Metodologia de Análise 4.1 Definição da Amostra O estudo que se pretende realizar, tem como base a análise de um vasto leque de medidas ambientais e sociais relativas à RSC aplicadas nos e pelos clubes de futebol das cinco principais ligas europeias segundo o ranking global da UEFA em Janeiro de 2015 e divulgados através dos meios próprios dos clubes, como os websites oficiais, dos websites das fundações apoiadas ou pertencentes aos mesmos e, no caso de existirem, de relatórios de atividades elaborados por qualquer uma das entidades anteriormente referenciadas. Primeiras Ligas Número de clubes analisados Portugal 17 Espanha 20 Inglaterra 20 Itália 20 Alemanha 18 Tabela 1 – Definição da Amostra Esta análise apresenta um total de 95 clubes, presentes na divisão mais alta de futebol dos seus respetivos países. Nos casos de Espanha, Inglaterra e Itália (La Liga, Premier League e Serie A) estamos perante um campeonato com vinte clubes cada, no caso de Portugal e Alemanha (Liga Portugal e Bundesliga) os campeonatos apresentam apenas dezoito clubes, sendo que no caso português, exclui-se deste estudo o Futebol Clube de Penafiel devido à inexistência de website oficial da organização. 4.2 Recolha de Dados De forma a realizar a análise comparativa dos clubes em causa, pretende-se que, para uma análise correta, coerente e equitativa, seja analisada apenas a informação divulgada nos websites dos clubes e das fundações apoiadas ou pertencentes aos mesmos, bem como, nos casos em que se verifique a existência, os seus relatórios de atividades, onde estão referidos os seus focos de intervenção e as suas atividades anuais, tal como foi
29 executado nos estudos de Slack e Shrives (2008) relativamente aos relatórios anuais, Akansel et al. (2010), Kolyperas e Sparks (2011) e Luz et al. (2012) no que diz respeito aos websites oficiais dos clubes, e Hamil e Morrow (2011) e Kolyperas (2012) relativamente a ambos, relatórios anuais e websites oficiais dos clubes. Desta forma, pretende-se que seja possível agrupar o maior número de atividades e focos de intervenção por parte dos clubes, para que a comparação seja mais fiável e concreta. Com vista a realizar o estudo de uma forma coerente e organizada, a informação a recolher para realizar o referido estudo será, na sua totalidade, de natureza secundária. Esta opção surge pela dificuldade de, no caso do contacto direto, obter as respostas necessárias, bem como no tempo necessário para viabilizar o estudo. Método estatístico 5. Resultados e Discussão Tendo em conta os resultados da análise efetuada aos websites dos noventa e cinco clubes dos campeonatos em questão, é possível constatar que a informação relativa à RSC presente nos mesmos é bastante variável e inconstante. Isto significa que é possível encontrar websites onde a informação sobre a temática é bastante detalhada, com uma abordagem pormenorizada às atividades do clube e da respetiva fundação (quando existente), como também é possível encontrar vários onde a informação é escassa, e em muitos dos casos inexistente. 5.1 Análise Descritiva A análise levada a cabo para a realização deste estudo permite obter uma imagem da informação disponibilizada por cada clube, individualmente, no que a ações de responsabilidade social diz respeito. A recolha da informação decorreu durante o mês de Maio do presente ano de 2015, pretendendo, nessa pesquisa, encontrar resposta a questões de várias áreas condizentes com a responsabilidade social em geral, bem como num contexto mais focalizado com a área desportiva e do futebol em particular. As áreas escolhidas para analisar o comportamento dos clubes foram bastante diversificadas estando categorizadas em três pontos principais: Políticas ambientais e de sustentabilidade do clube; Envolvimento com a comunidade e Políticas Laborais e de combate à corrupção.
30 A subcategorização destas áreas foi pensada com o objetivo de conseguir atingir as áreas de ação dos clubes com maior pormenor. Dessa forma, as questões analisadas na primeira categoria relativa às políticas ambientais e de sustentabilidade do clube assentam nas seguintes premissas: Políticas Ambientais e de Sustentabilidade Políticas e documentação Demonstrações reais de políticas ambientais com compromissos e metas concretos; Atividades conduzidas com o objetivo de promover as boas práticas ambientais nas várias faixas etárias; Declarações de conformidade das operações do clube relativamente a boas práticas ambientais; Apoio público a campanhas ambientais; Publicação de relatórios ambientais e/ou de sustentabilidade; Obtenção de prémios ambientais; Poluição e Recursos Desenvolvimento de atividades com vista à diminuição da poluição por parte dos adeptos/simpatizantes; Referência a atividades com vista à diminuição de poluição ao nível da emissão de gases, descargas de água e resíduos sólidos nas infraestruturas do clube; Referência a uma diminuição atual ou futura dos valores de poluição; Sustentabilidade Conservação de recursos e atividades de reciclagem; Referência à importância da sustentabilidade como meio de assegurar o futuro do clube assim como das gerações futuras; Referência a preocupações e/ou atividades que visem promover o desenvolvimento sustentável; Programas de incentivo à utilização do transporte público; Estética Ambiental Preocupação com a harmonia na conceção das instalações do clube com o meio envolvente; Contribuições do clube (em dinheiro ou em projetos específicos) com vista a melhorar as condições ambientais, nomeadamente no que diz respeito às áreas envolventes dos edifícios dos clubes; Restauro de edifícios e estruturas históricas; Energia Referência ao aproveitamento de resíduos para a produção de energia; Referência ao esforço do clube em reduzir os consumos de energia; Aplicação de energias renováveis nas infra estruturas dos clubes; Tabela 2 – Premissas relativas às Políticas Ambientais e de Sustentabilidade No que diz respeito à categoria relativa ao envolvimento com a comunidade, a subcategorização procedeu-se de forma semelhante, excetuando dois tópicos que pelas
31 suas especificidades não foram subcategorizados. Esses tópicos referem-se ao apoio ou participação do clube numa fundação de cariz social e à existência de pelo menos uma referência a um plano geral ou especifico relativamente à aplicação da RSC pelo clube em questão. As restantes premissas desenvolveram-se da seguinte forma: Envolvimento com a Comunidade Apoio ou participação do clube numa fundação de cariz social; Referência a um plano geral ou especifico relativamente à aplicação da RSC pelo clube em questão; Doações, caridade e cidadania Envolvimento do clube em doações em forma de dinheiro, bens alimentares ou outros objetos pertinentes para causas sociais; Apoio em atividades de cariz social através da ajuda de recursos humanos facultados pelo clube/fundação; Programas de participação de voluntários em atividades sociais dos clubes/fundações; Apoio em situações de desastres naturais; Apoio na integração ou subsistência de emigrantes, sem abrigo ou pessoas com deficiência nas cidades originárias dos clubes; Apoio através de projetos sociais em países que não o de origem do clube; Educação Participação, apoio ou organização de conferências ou seminários educativos; Apoio ou organização de atividades culturais (exposições de arte, concertos, museus); Apoio na criação/restruturação de escolas ou edifícios educativos; Criação de residências para jogadores, estudantes ou para os mais necessitados; Programas de apoio à educação e defesa do sexo feminino; Referência a visitas a escolas ou a outros locais de relevante interesse social com vista a promover o desporto, hábitos de vida saudável e o sucesso escolar; Áreas dentro do clube que promovam o sucesso escolar (explicações, tutores, entre outros); Saúde Programas de apoio à saúde pública (apoios à investigação, investimentos em serviços de saúde); Desporto Criação de escolas de futebol em países que não o oriundo do clube; Apoio ao desenvolvimento do desporto no sexo feminino; Fomento da prática desportiva em extratos sociais desfavorecidos; Tabela 3 – Premissas relativas ao Envolvimento com a Comunidade Relativamente à terceira e última categoria que aborda as políticas laborais e de combate à corrupção, a subcategorização procedeu-se do seguinte modo:
32 Políticas Laborais e de Combate à Corrupção Políticas Laborais Referência a processos de recrutamento transparentes; Áreas de apoio ao trabalhador (serviço médico, infantário, entre outros); Combate à corrupção Promoção através dos meios do clube da ações transparentes e da luta contra a corrupção no geral e no sector desportivo em particular; Tabela 4 – Premissas relativas às Políticas Laborais e de Combate à Corrupção É, então, com base nestas premissas que a análise aos websites dos clubes foi conduzida tendo como objetivo encontrar factos que comprovem o comprometimento dos clubes com estas questões. Dessa forma, e através da análise à divulgação de informação do universo de 95 clubes, os resultados atingidos relativamente aos tópicos principais foram os seguintes: Tabela 5 – Listagem de ocorrências de atividades de responsabilidade social por categorias Observando e analisando os resultados relativos ao primeiro tópico, respeitante às políticas ambientais e de sustentabilidade, podemos afirmar que o país que apresenta a percentagem mais elevada de ocorrências é a Alemanha, com 17,84%, fruto dos bons 22 6,81 9 2,37 53 13,95 9 2,37 61 17,84 5 4,90 1 0,83 15 12,50 3 2,50 10 9,26 3 5,88 1 1,67 13 21,67 2 3,33 9 17 5 7,35 3 3,75 15 18,75 2 2,50 23 31,94 1.4 - Estética Ambiental (3 itens) 7 13,73 2 3,33 3 5 1 1,67 1 1,85 2 3,92 2 3,33 7 11,67 1 1,67 18 33,33 49 15,17 137 36,05 179 47,11 59 15,53 99 28,95 2 11,76 14 70 18 90 525 950 1 5,88 5 25 420 420 10 55,56 17 16,67 46 38,33 58 48,33 25 20,83 31 28,70 22 18,49 39 27,86 49 35 14 10 27 21,43 0 0 5 25 14 70 420 950 7 13,73 28 46,67 36 60 7 11,67 13 24,07 1 1,96 13 21,67 8 13,33 16 26,67 0 0 0 0 1 2,5 7 17,5 8 20 0 0 1 5,88 12 60 1 5 8 40 0 0 Total de Ocorrências % Total de Ocorrências % Categorias de RSC Portugal Espanha Inglaterra Itália Alemanha Total de Ocorrências % Total de Ocorrências % % Total de Ocorrências 3.1 - Políticas Laborais (2 itens) 3.2 - Combate à Corrupção (1 iten) 1 - Políticas Ambientais e de Sustentabilidade (19 itens) 3 - Políticas Laborais e de Combate à Corrupção (3 itens) 1.3 - Sustentabilidade (4 itens) 1.2 - Poluição e Recursos (3 itens) 1.1 - Políticas e Documentação (6 itens) 1.5 - Energia (3 itens) 2 - Envolvimento com a Comunidade (19 itens) 2.1 - Fundação (1 iten) 2.2 - Plano de RSC (1 iten) 2.3 - Doações, Caridade e Cidadania (6 itens) 2.4 - Educação (7 itens) 2.5 - Saúde (1 iten) 2.6 - Desporto (3 itens)
39 6. Conclusões O crescimento registado nas últimas décadas relativamente às iniciativas de responsabilidade social por parte das empresas, abordado nos estudos de Breitbarth e Harris (2008), Breitbarth et al. (2011) e Freeman e Hasnaoui (2011) inclui também um crescimento exponencial no que ao futebol em geral e aos clubes em particular diz respeito. Sendo o desporto de um modo geral e o futebol em particular uma montra privilegiada no que ao envolvimento das massas diz respeito (Breitbarth e Harris, 2008; Breitbarth et al., 2011) e sendo um veiculo de comunicação desenvolvido e altamente atraente para a população em geral, as atividades de responsabilidade social assumem uma preponderância interessante. Através deste estudo, é possível apurar que o papel da comunicação dos clubes para com os seus sócios, adeptos, simpatizantes e a comunidade onde se insere assenta, preferencialmente na internet (Kriemadis et al., 2010). Os websites oficiais dos clubes são, nos dias de hoje, o meio principal de comunicação dos mesmos, sendo através deste meio que se processa a comunicação das várias atividades, nomeadamente as de responsabilidade social. Esta comunicação processa-se, sobretudo, através de uma divisão própria no website destinada para a responsabilidade social ou então através de uma divisão destinada às suas fundações de cariz social. A ligação entre a comunidade e os clubes de futebol é um meio fulcral com vista a conhecer as necessidades sociais, culturais e desportivas da primeira, as suas ambições e os seus anseios, bem como os meios que os clubes dispõem para corresponder as essas necessidades. A perceção por parte da comunidade da dimensão do clube é importante de modo a compreender as oportunidades que este pode criar para melhorar o meio em que se insere, bem como se insere de uma importância acrescida a realização por parte do clube de uma análise à sua comunidade com vista a perceber as suas necessidades. A elaboração deste trabalho por parte do clube traduzir-se-á num aumento da ligação existente entre um e o outro (Wynn, 2007; Roşca, 2011; Athanasopoulou et al., 2011; Foer, 2011; Panton, 2012). De um modo geral, o clube assume o espírito, os ideais e as tradições das respetivas comunidades locais, regionais ou nacionais em que se inserem (Wynn, 2007), existe, no entanto, clubes que extravasaram as suas fronteiras nacionais, sendo hoje clubes com adeptos em todo o mundo. Esta situação faz com que os clubes
40 necessitem de ajustar a sua forma de apoio às comunidades, passando também a necessitar de corresponder aos anseios da população além-fronteiras. As organizações que tutelam o futebol a nível mundial e ao nível europeu desenvolvem, como foi possível observar, várias atividades com vista a obter resultados importantes ao nível social. Estas atitudes, além dos proveitos relevantes que trazem à sociedade, demonstram uma atitude positiva e importante para promover este género de atividades nas organizações que tutelam o futebol nos respetivos países bem como para servir de incentivo e de exemplo para os clubes. Ao analisar a divulgação das atividades de responsabilidade social dos clubes pertencentes aos cinco países em discussão, é possível constatar que existem diferenças relativamente acentuadas entre eles. Numa primeira fase, destaca-se a Inglaterra e a Alemanha. No caso do primeiro é importante destacar que 90% dos clubes possui ou apoia uma fundação de cariz social com o mesmo nome do clube (anexo 2) esta situação pode ser considerada um dos principais fatores para que a Inglaterra seja o país onde existem mais atividades de responsabilidade social ao nível da categoria “envolvimento com a comunidade” (tabela 5). Na área das políticas ambientais e de sustentabilidade o destaque vai para a Alemanha onde lidera, incontestavelmente, no número de medidas relativas à sustentabilidade e à energia (anexo 1), esta situação vem de encontro ao estudo de Reiche (2014), onde as referências aos programas conjuntos de apoio ao transporte público e à adaptação dos estádios à poupança de energia são mencionados e foram comprovados através da pesquisa efetuada para a realização desta dissertação. Num nível que se pode classificar de intermédio, encontra-se a Espanha com bons resultados principalmente ao nível da categoria envolvimento da comunidade, com valores médios interessantes em algumas das subcategorias pertencentes ao envolvimento da comunidade (anexo 2). Neste país, destaca-se o facto de os clubes considerados de topo, tomarem um grande número de iniciativas socias quer no âmbito nacional, quer no âmbito internacional, destacando-se, pela sua preponderância ao nível mundial, o Real Madrid e o FC Barcelona. Relativamente ao caso de Portugal e da Itália, registam-se, de um modo geral, algumas ocorrências esporádicas. No caso de Portugal, mais vocacionadas para o âmbito das políticas ambientais e de sustentabilidade, nomeadamente no campo da
41 sustentabilidade e da estética ambiental (anexo 1). Em Itália, destacam-se as ações ligadas às políticas laborais e de combate à corrupção onde, apesar de nenhum país registar valores elevados, este ser o país onde mais se verifica esta preocupação (anexo 3). Podemos, à luz dos resultados encontrados, referir que sendo a amostra representativa da elite do futebol europeu, poder-se-iam esperar resultados mais elevados pois, analisando as categorias em evidência, as percentagens encontram-se, em todos os países e nas várias categorias, abaixo dos 50%. Esta situação pode sugerir que ainda existem melhorias que podem ser introduzidas pelos clubes nos seus planos relativos à responsabilidade social com vista a aumentar estes valores. Sendo, segundo Breitbarth e Harris (2008) e Breitbarth et al. (2011) a aplicação da responsabilidade em clubes desportivos uma temática relativamente recente, esta poderá ser outra das justificações para os valores encontrados. Este estudo contribui para o aprofundamento da pesquisa relativa à divulgação de informação de responsabilidade social, adicionando dados empíricos referentes aos clubes de futebol dos cinco campeonatos melhor classificados pela UEFA em Janeiro de 2015. É importante referir que este estudo tem uma limitação relacionada com a dimensão da amostra, seria interessante realizar um estudo comparativo semelhante com um número de clubes e países superior. Uma segunda limitação reside na metodologia de recolha dados, pois evidenciou-se, durante a recolha, a existência de websites onde as informações que se pretendiam obter não se encontravam facilmente disponíveis ou eram mesmo inexistentes, podendo obviamente, ter implicações na recolha correta das mesmas. As limitações referidas anteriormente constituem estímulos para possíveis investigações futuras. Estudos futuros poderão utilizar um número maior de clubes e países, bem como empregar uma metodologia de recolha de dados que possa abranger além dos websites entrevistas pessoais e outros métodos que permitam um melhor esclarecimento das atividades realizadas. Seria interessante também a realização futura de uma abordagem comparativa temporal, utilizando os dados deste estudo com dados obtidos no futuro.
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