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Redes Sociais dos Indivíduos em Situação de Pobreza - o caso de estudo em Matosinhos

Catarina Ferreira Fernandes

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Catarina Ferreira Fernandes Redes Sociais dos Indivíduos em Situação de Pobreza O caso de estudo em Matosinhos Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Fátima Loureiro de Matos e co-orientada pelo(a) Doutor(a) Teresa Sá Marques (a) Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 Redes Sociais de Pobreza O caso de estudo de Matosinhos Catarina Ferreira Fernandes Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica e Ordenamento do Território orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Fátima Loureiro de Matos e co-orientada pelo(a) Professor(a) Doutor(a) Teresa Sá Marques Membros do Júri Professor Doutor Alberto Gomes Faculdade de Letras - Universidade Porto Professor Doutor Paula Guerra Faculdade LetrasUniversidade Porto Professor Doutor Teresa Sá Marques Faculdade Letras - Universidade Porto Classificação obtida: 18 valores 3 Tal como a Escravidão e o Apartheid, a Pobreza não é natural. É feita pelo homem e pode ser ultrapassada e erradicada pelas acções dos seres humanos. Nelson Mandela 4 Agradecimentos O trabalho de pesquisa nunca é um trabalho solitário. Deste modo muitas foram as pessoas que se envolveram nesta pesquisa e que colaboraram para o seu término. Em primeiro lugar à orientadora do projeto Professora Doutora Fátima Matos pelo acompanhamento e importantes retificações, à co-orientadora Professora Doutora Teresa Sá Marques pelo estímulo e incentivo. Um agradecimento muito especial pela colaboração e apoio no tratamento prático dos dados ao Diogo Ribeiro e Paula Ribeiro, as vossas orientações foram fundamentais. Importantes foram, ainda as contribuições da Câmara de Matosinhos, mais concretamente da Dra. Cristina Silva que implementou os inquéritos junto dos grupos selecionados. O meu agradecimento a todos os colegas de mestrado que partilharam comigo as suas dúvidas e incertezas, aos meus amigos que deram todo o seu apoio ao longo desta jornada. Um enorme agradecimento aos meus pais, por me incentivarem e mostrarem que por mais difícil que seja o caminho, desistir não é uma opção. Obrigada especialmente às minhas irmãs Telma e Daniela que, mais do que apoio ajudaram em todo o processo deste projeto sem nunca me deixarem desistir, sem vocês não seria possível. Obrigada ainda a todos aqueles com quem convivi durante o meu voluntariado, que tanto me ensinaram e mostraram que a pobreza vai além daquilo que se vê. 5 Resumo A pobreza é dos fenómenos mais estudados e analisados pela literatura seja na área da sociologia, economia, geografia e tantas outras. Aquele que é “pobre”, ou “excluído” é visto como alguém a quem falta alguma coisa, sendo quase sempre algo material ou ligada à falta de rendimentos. Sendo isto verdade, há que não esquecer que a Pobreza vai mais além deste quadro para abranger outras componentes que complicam ainda mais este processo como sejam, os seus afetos, as relações, as condutas e comportamentos dos indivíduos em situação de pobreza. É objetivo do presente estudo trazer as relações para o centro da análise, não excluindo os atributos responsáveis pelas situações de pobreza, uma vez que ambos se influenciam de forma continua. Para dar forma a este objetivo pretende-se enveredar por um estudo de Análise de Redes, associado às situações de pobreza de grupos como sem-abrigo e famílias em situação de pobreza elevada. Os estudos deste tipo são reduzidos mas já alvo de grande atenção internacional e são cruciais, uma vez que para compreender a dimensão relacional da pobreza é preciso compreender muito mais detalhadamente os padrões de relação que cercam os indivíduos. O principal método de recolha de informação foi o Inquérito, inicialmente a uma série de Instituições sociais para abrirem contato com o público alvo do presente estudo, sendo este alvo também de um Inquérito. Objetiva-se que no final do presente estudo se esclareça a influência que as Redes Sociais têm no entendimento dos processos de pobreza. Palavras-chave: Pobreza; Exclusão Social; Redes Sociais 6 Abstract Poverty is the most studied phenomena and analysed in the literature in the field of sociology, economics, geography among others sciences. One who is "poor" or "excluded" is seen as someone who lacks something, almost always something material or linked to the lack of income. This being true, we should not forget that poverty goes beyond this framework to include other components that further complicate this process like, emotions, relationships, conduct and behaviour of individuals that are in poverty. It is aim of this study bring relations to the centre of analysis, not excluding the attributes responsible for poverty, since they both influence each other continuously. To give shape this goal is intended to go down with a Network Analysis study, associated with poverty of groups such as the homeless and families in high poverty. Studies of this type are reduced but already the subject, of much international attention and are crucial to understand the relational dimension of poverty and in a much more detail the relationship patterns that surround individuals. For gathering information, we used a survey that were initially do to a number of social institutions for open contact with the target audience of this study, which is also the target of another survey. The objective of this study is to clarify the influence that social networks have on the understanding of poverty processes. Keywords: Poverty; Social Exclusion; Social Networks 7 Índice Geral Resumo ............................................................................................................................... 5 Abstract ............................................................................................................................... 6 Índice de figuras .................................................................................................................. 8 Índice de Quadros ............................................................................................................. 10 1. Introdução ..................................................................................................................... 11 Capítulo 2 – Desconstruindo o conceito de Pobreza ......................................................... 13 2.1 - Pobreza e Exclusão Social: antónimos, ou sinónimos? ........................................ 16 2.2 - Quem são e onde estão os pobres em Portugal: um percurso entre o nacional e o local ......................................................................................................................................... 20 2.3 Do nacional para o local: o caso de Matosinhos ..................................................... 30 2.4 - Tipologia Indicadores de exclusão/inclusão social ........................................... 35 Capítulo 3 - Redes Sociais: contribuições teóricas ........................................................... 38 3.1 - Análise de Redes (ARS) ....................................................................................... 42 3.2 A aplicação das Redes ao estudo da Pobreza .......................................................... 51 Capítulo 4 – Metodologia ................................................................................................. 53 Capítulo 5 – Voluntariado: uma metodologia de trabalho de campo ................................ 58 Capítulo 6 – Discussão de Resultados .............................................................................. 62 Referências bibliográficas ................................................................................................. 73 Anexos .............................................................................................................................. 75 Anexo I ......................................................................................................................... 76 Anexo II ........................................................................................................................ 81 8 Índice de figuras Figura 1 - Conceito de Pobreza e Exclusão Social ........................................................... 19 Figura 2 - Taxa de risco de pobreza após transferências sociais segundo o sexo e o grupo etário, Portugal, 2011. Fonte: INE, acedido a 18 Março 2015 .................................................... 21 Figura 3Taxa risco de pobreza após transferências sociais: por nível de escolaridade .. 22 Figura 4Modos de afetação dos fatores de exclusão. ...................................................... 23 Figura 5 - População Desempregada por Nut II em Portugal Continental, no ano de 2011. ............................................................................................................................................ 24 Figura 6 - Beneficiárias /os do Rendimento Social de Inserção, Portugal Continental ..... 25 Figura 7 – Índice de envelhecimento por NUTs II em Portugal Continental, 2011. .......... 26 Figura 8 – Tipologias dos sem-abrigo ............................................................................... 27 Figura 9População presente sem-abrigo em Portugal Continental, 2011 ....................... 28 Figura 10– Densidade Populacional no concelho de Matosinhos (2011).......................... 31 Figura 11População residente no concelho de Matosinhos, por freguesia em 1991, 2001 e 2011 .......................................................................................................................................... 32 Figura 12– População residente no concelho de Matosinhos, por freguesias em 2011. . 33 Figura 13 População Residente no Concelho de Matosinhos, por grupos etários e por freguesia, 2011. ........................................................................................................................... 33 Figura 14População desempregada por Sexo, no concelho de Matosinhos, por freguesia 2011. ............................................................................................................................................ 34 Figura 15Representação cartográfica da população desempregada, no concelho de Matosinhos, segundo dados dos Censos 2011, INE. ................................................................... 35 Figura 16 – O problema das sete pontes de Konisgsberg. ................................................. 38 Figura 17Escolhas de amizades de crianças do 4º ano de escolaridade .......................... 39 Figura 18Linha do tempo relativa à evolução da utilização do conceito Rede, segundo vários autores. ............................................................................................................................. 42 Figura 19Elementos básicos de uma Rede. ..................................................................... 43 Figura 20Elemento básicos de uma Rede ....................................................................... 43 Figura 21 - Centralidade numa rede .................................................................................. 44 9 Figura 22 - Subgrupos numa rede ..................................................................................... 45 Figura 23Nós proporcionais ao in-degree. ...................................................................... 45 Figura 24Nós proporcionais ao out-degree ..................................................................... 45 Figura 25 - Grafo com representação de nós proporcionais à sua centralidade de acordo com o grau de intermediação (betweenness) ............................................................................... 46 Figura 26Representação dos nós com tamanho proporcional ao grau de proximidade (closeness) ................................................................................................................................... 46 Figura 27Tamanho dos nós proporcionais à centralidade pagerank ............................... 47 Figura 28 - Tamanho dos nós proporcionais à centralidade eigenvector. ......................... 47 Figura 29Nós que possuem maior número de conexões na rede (hubs) ......................... 47 Figura 30Grafo de alta densidade (esq.) grafo de baixa densidade (dirt). ..................... 48 Figura 31Diagramas das redes de Paul Baran ,1964 ...................................................... 49 Figura 32Representação de uma Díade (1) e Tríade (2) ................................................. 50 Figura 33 - Etapas de realização de um Inquérito ............................................................. 54 Figura 34 – As esferas da sociabilidade ............................................................................ 56 Figura 35Representação de dados em ambiente NodeXL. ............................................. 58 Figura 36Pilares do voluntariado, adaptado de (CES,2012) .......................................... 58 Figura 37Expressividade do voluntariado nos países da União Europeia, 2011. ........... 61 Figura 38 – Redes sociais construídas a partir dos dados recolhidos em inquérito. ........ 63 Figura 39 - Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria a partir do NodeXL. ........................................................................................................ 64 Figura 40Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria com recurso NodeXL ...................................................................................................... 66 Figura 41Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXl. .................................... 67 Figura 42Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria com recurso ao NodeXL.................................................................................................. 68 Figura 43Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXL. .................................... 69 Figura 44Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXL .................................... 69 16 correntes” (Costa, 2008: 42) Para Eduardo Marques, a tradicional visão sobre a pobreza, de responsabilização dos comportamentos individuais e atributos não é suficiente, ainda que, não devam ser descartados. Este autor considera que, a dinâmica das condições sociais é produzida por processos complexos que envolvem não apenas o mercado de trabalho como também, as políticas estatais e transformações significativas de natureza demográfica, sendo necessário ter em atenção as dinâmicas relacionais dos indivíduos em situação de pobreza. Escapando aos conceitos de pobreza absoluta e relativa as abordagens de Eduardo Marques e Esping-Andersen apresentam-se mais completas e menos redutoras. Andersen, citado por Marques, considera que o bem-estar de cada individuo só pode ser assegurado a partir de três esferas: i) Estado; ii) Mercados; iii) Comunidade/Sociabilidade. Será o acesso a estas três esferas que ditará a forma como os indivíduos dispõem as suas redes sociais, os seus padrões e integração ou isolamento espacial. A ação positiva destes domínios, conjuntamente com a existência de atributos individuais, permitirá controlar e diminuir os casos de pobreza (Marques, 2007 a). 2.1 - Pobreza e Exclusão Social: antónimos, ou sinónimos? Os conceitos de pobreza e exclusão social foram, e são alvo de um acesso debate nos meios académicos e das políticas sociais. Em virtude disto divergem as opiniões, algumas encarando os mesmos como complementares, outros como conceitos divergentes, apesar de discordâncias quanto à forma e conteúdo dos fenómenos referidos, sob um aspeto todos os autores concordam, a pobreza e exclusão social têm de ser erradicados. Segundo Bruto da Costa a noção de “pobreza” começou por ser trabalhada, de forma mais intensa no Reino Unido, e a ideia de “exclusão social”, surge por volta da década de 60 na cultura francófona começando a ser amplamente estudada pelos especialistas. Nesta altura a pobreza era estudada a partir de uma visão piramidal, ou seja os que têm mais estão no topo desta pirâmide e os que têm menos encontram-se na base. Pelo contrário, o conceito de exclusão adota uma perspetiva inside out, analisando sobretudo os laços sociais entre a pessoa e os grupos e/ou sociedade. Ainda segundo Bruto da Costa todo o cidadão tem de ter acesso a cinco sistemas essenciais, aos quais 17 designou como sistemas sociais básicos: social, o económico, o institucional, o territorial e o das referências simbólicas. A questão que se coloca é o nível, satisfatório ou não de acesso a estes sistemas sendo que isto definirá o grau de exclusão. Segundo o autor, a noção de graus de exclusão vem esclarecer que nem todas as formas de exclusão significam uma falta de acesso a todos os sistemas sociais básicos, uma família e/ou pessoa pode encontrar-se excluída a nível do domínio territorial, porque habita num bairro degradado, mas ter, acesso ao mercado de trabalho e não está, por isso excluída do domínio económico. Assim, a exclusão social é encarada pelo autor como um processo, gradual e nem sempre total no que toca aos diferentes domínios. Neste sentido é pertinente falar em exclusões sociais, pela complexidade do fenómeno e diversas tipologias. (Costa, 1998) (Quadro 1). Quadro 1Exclusão Social. Exclusão Social De origem económica Pobreza como privação de recursos (más condições de vida; baixos níveis de instrução e qualificação; desemprego) De Origem Social Exclusão situa-se no âmbito dos laços sociais. Privação tipo relacional (isolamento),pode ou não estar com a privação de recursos De Origem Cultural Fenómenos como racismo, xenofobia e/ou certas formas de nacionalismos. De origem Patológica Situação de exclusão social derivada de problemas psicológicos ou mentais (sem-abrigo) Origem em comportamentos autodestrutivos Situações de exclusão e auto-exclusão (toxicodependentes, alcoólicos, prostitutas) Fonte: Adaptado de (Costa, 1998) Hilary Silver (citada por Costa, 2008 : 60) começou o debate sobre pobreza e exclusão 18 em 1960, na França, mas o desafio começa quando o termo exclusão social surge pela primeira vez num documento oficial da União Europeia em 1980, a partir daqui a destrinça destes dois conceitos deixa de ser apenas uma discussão entre ingleses e franceses para ser uma preocupação europeia (Costa, 2008). Peter Townsend e Robert Castel, um inglês e um francês respectivamente por coincidência ou não, foram convidados para o primeiro grande debate organizado pela Comissão Europeia sobre a temática, O que é a exclusão social? Em que difere da pobreza em 1989. Ainda que não se tenham alcançado grandes conclusões neste seminário, mostra a importância que esta temática começa a suscitar no contexto europeu, clarificando e difundindo pela Europa as ideias das escolas inglesas e francesas sobre esta temática. Enquanto que a escola inglesa debruça-se mais no estudo dos aspetos distributivos – pobrezaa francesa privilegia sobretudo os aspetos relacionais – exclusão social (Costa, 1998). José Pereirinha considera que no conceito de pobreza devem salvaguardar-se as questões relacionadas com a organização social (problemas ligados à escassez de recursos materiais), enquanto no conceito de exclusão social devem encerrar-se as questões ligadas aos mecanismos relacionais da integração/desintegração social. (Pereirinha, 1996) Serge Paugam (Paugam,2012) questiona o que fazer quando se é pobre, nada mais do que pobre? O que fazer quando não há outro status para definir um indivíduo?, e afirma que a exclusão do indivíduo advém da sua situação de pobreza que o coloca excluído do mercado de trabalho, obrigando-o a recorrer ao sistema de assistência social. Chegado a esta situação é accionado o processo de desqualificação social, que tem como consequência a criação e enraizamento do estigma de ser pobre. A análise do conceito de exclusão social, na literatura, tem seguido por uma de duas vias, uma focada na questão dos direitos de cidadania (civis, sociais e políticos), remete para o funcionamento das instituições, que na sua própria gestão das politicas sociais excluem os indivíduos negando-lhes os seus direitos de cidadania (Pereirinha,1999). A exclusão é, ainda, estudada segundo outra conceção ligada à noção de rutura de laços entre o indivíduo e a sociedade. Robert Castel segue esta linha de pensamento através do seu conceito de desfiliação, conceito que o autor usa como substituto do termo exclusão social que ele considera perdeu a sua capacidade explicativa, que significa a ruptura/ insucesso na manutenção dos laços sociais entre o individuo e a sociedade a que pertence. Castel analisa a conexão entre o lugar ocupado pelo indivíduo na divisão social do trabalho e na participação nas redes de sociabilidade. Elabora, assim três zonas i) zona de integração, existe uma inserção e coesão social fortes; ii) zona de exclusão (desfiliação), ausência de participação social, 19 isolamento; iii) zona intermediária, vulnerabilidade social, precariedade laboral e fragilidade dos suportes de proximidade (Castel,1998). Nos longos e vários debates sobre a destrinca entre pobreza e exclusão social o parecer de Bruto da Costa parece ser o mais assertivo: o termo pobreza não deve, nem pode ser substituído pelo de exclusão social, isto seria prejudicial quer para os grupos desfavorecidos, quer para os grupos que estudam estas questões. Se por um lado, estes conceitos não podem ser substituídos, a verdade é que também não designam a mesma realidade, ainda que reportem a fenómenos semelhantes (privação de) 3 . O conceito de pobreza remete para a vertente mais económica e monetária dos grupos desfavorecidos, para a privação de recursos materiais, situações de desemprego, é um encarar a pobreza como a forma mais extrema de desigualdade social. Por outro lado, o conceito de exclusão social apresenta-se como um processo de rutura de laços, a privação de recursos materiais é apenas uma dimensão do processo de exclusão, nem sempre sendo a mais importante. Assim, se é certo que a pobreza resulta da privação de recursos, existem formas de exclusão que não derivam da pobreza como afirma (Jacques Delors citado em (CESIS, 2005:11) todos os pobres são excluídos; nem todos os excluídos são pobres (Figura 1). Fonte: (CESIS, 2005) Figura 1 - Conceito de Pobreza e Exclusão Social 3 Ver sobre esta temática o capítulo Exclusões sociais de Bruto da Costa (1998:21-25) Exclusão Social Pobreza 20 2.2 - Quem são e onde estão os pobres em Portugal: um percurso entre o nacional e o local Nos diversos estudos académicos e relatórios institucionais, no estudo da pobreza continua a sobressair a utilização dos indicadores de ordem monetária. É certo que estes desempenham um papel importante, tendo em conta a facilidade com que permitem quantificar o fenómeno e estabelecer comparações no tempo e no espaço, mas revelam-se insuficientes para os objetivos do presente estudo. O objetivo, ainda que não seja possível fugir à utilização dos indicadores monetários, é privilegiar indicadores que permitam compreender os laços e /ou relações sociais dos indivíduos em situação de pobreza. Não é também intenção deste estudo elaborar uma caracterização profunda e sistemática do estado da pobreza em Portugal, mas sim, apresentar as linhas gerais que permitam compreender e enquadrar o comportamento da pobreza e a sua ligação com as redes sociais dos indivíduos que se enquadram na categoria de pobres e/ou excluídos. Assim, procede-se a seguir a uma caracterização geral do estado da pobreza em Portugal, com recurso a variados indicadores. Em Portugal, a pobreza é um fenómeno social, que faz parte da história do passado e do presente, abrangendo vários sectores da população e apresentando das taxas mais altas da União Europeia, tendo em conta, a pobreza relativa e analisando o indicador taxa de risco de pobreza 4 (Quadro 2). Quadro 2 – Taxa de risco de pobreza: antes e após transferências sociais Fonte: Portal Eurostat, acedido a 15 de Março de 2015 4 Em Portugal e na União Europeia estabelece-se a linha de pobreza na base dos 60% do rendimento mediano por adulto equivalente. Grupos/ Países Antes de qualquer transferência social Após transferências sociais Anos 1995 2013 1995 2013 UE28 0 44,4 0 16,6 PT - Portugal 37,0 46,9 23,0 18,7 21 Como se observa no quadro 2, ainda que a taxa de risco de pobreza tenha diminuído desde 1995, em Portugal, relativamente à União Europeia esta taxa manteve-se, e ainda se mantém superior, com 18.7 no ano de 2013 por oposição à média da União Europeia 16.6, no mesmo ano. O indicador taxa de risco de pobreza pode ainda ser usado para averiguar quais os grupos etários mais afetados, por sexo. Pelo que se observa na figura 2, as mulheres são o grupo mais vulnerável (18.2 %) bem como as crianças e idosos com uma percentagem de 21.7% e 17.4 %, respetivamente. Figura 2 - Taxa de risco de pobreza após transferências sociais segundo o sexo e o grupo etário, Portugal, 2011. Fonte: INE, acedido a 18 Março 2015 Ainda, recorrendo ao indicador taxa de risco de pobreza, mas agora aplicado ao nível de escolaridade, é visível na figura 3 que o grau de escolaridade é proporcional ao risco de pobreza. Em 2013 aqueles que possuíam o ensino pré-escolar ou básico apresentavam uma taxa de risco de pobreza na ordem dos 23.9 %, enquanto os indivíduos que possuíam o ensino superior, no mesmo ano apresentavam um valor de 4.0 %. 22 Figura 3Taxa risco de pobreza após transferências sociais: por nível de escolaridade Fonte: Portal Eurostat, acedido a 18 de Março 2015 Vários coeficientes podem ser utilizados para medir o grau de pobreza e/ ou desigualdade de um país, sendo usado frequentemente, em estudos Estatísticos, o Coeficiente de Gini 5 . É possível, pelo quadro 3, observar que de 2010 a 2013 as desigualdades nos rendimentos da população em Portugal foram superiores na ordem dos 4 % à média das desigualdades de rendimentos a nível comunitário, tendo sido o ano de 2012 o mais crítico com um valor 34.5%, por oposição aos valores de 30.4% da União Europeia. Quadro 1 - Índice de Gini em Portugal e na EU 28 de 2010 a 2013 Fonte: Portal Eurostat, acedido a 18 de Março de 2015 5 O coeficiente de Gini mede numa escala entre 0 e 100 a desigualdade na distribuição do rendimento da população. O coeficiente de Gini teria o valor mínimo de 0 caso toda a população ficasse com o mesmo rendimento e o valor máximo de 100 caso todo o rendimento fosse para a mesma pessoa. Índice de Gini Anos EU 28 Portugal 2010 30,5 33,7 2011 30,8 34,2 2012 30,4 34,5 2013 30,5 34,2 23 Quanto à pergunta quem são e onde estão os pobres em Portugal, esta pode ser respondida através do esquema de Luís Capucha sobre os Modos de afectação dos factores de exclusão (Capucha, 2005) e o documento da Carta Social (2005), (figura 4). Através da figura 4 é possível ter uma ideia daqueles que são os grupos que se encontram numa situação de maior fragilidade perante o fenómeno de exclusão. Dentro dos grupos com handicap específico, contam-se as pessoas com deficiências múltiplas e variadas, especialmente vulneráveis às situações de pobreza dado as suas limitações físicas e à forma negativa como são encaradas socialmente. Verifica-se que, a nível nacional, dominam as deficiências de grau entre 60 a 80%, sendo que a nível regional o Norte sobressai como a região com maior número de deficientes. Luís Capucha considera que mesmo que a situação de pobreza possa ser resolvida por intermédio de familiares, que prestem auxílio ou por apoios da segurança social, estes indivíduos encontram-se estigmatizados e excluídos no que diz respeito ao acesso à educação, emprego, constituição de família, e outros, ficando vetados à condição de assistidos (Capucha, 2005). Fonte: (Capucha, 2005) Figura 4Modos de afetação dos fatores de exclusão. Integrantes deste primeiro grupo são, também os imigrantes, que devido a várias circunstâncias (falta da habilitações, problemas de adaptação cultural e processos de segregação), se encontram numa posição vulnerável no que aos fenómenos da pobreza e exclusão social dizem respeito. No que ao Grupo de desqualificados diz respeito, Luís Capucha identifica, os desempregados de longa duração, os trabalhadores com baixas qualificações, os idosos e as famílias beneficiárias de Rendimento Social de Inserção. 1Grupos com "handicap" especiífico 2Grupos "desqualificados" 3Circulos de Pobreza instalada 4Grupos "marginais" 24 O desemprego é dos principais factores de exclusão social, o facto deve-se à importância que o trabalho desempenha na vida dos indivíduos como estatuto e papel social, para além da importância e necessidade do rendimento que deste advém. Para além das consequências a nível económico, a ausência de emprego gera problemas no âmbito emocional (desmotivação, inexistência de rotinas, criação de hábitos de alcoolismo e associados) para além de quebrar com os laços sociais necessários para uma vida social saudável. Em Portugal, o Norte do pais é quem mais sofre com o desemprego 38 a 40 % da população total, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo com a segunda maior percentagem de desemprego , 15 a 37 % (Figura 5). Figura 5 - População Desempregada por Nut II em Portugal Continental, no ano de 2011. 25 Com a falta de emprego, consequentemente existe falta de rendimentos e uma das formas de sobrevivência de muitas famílias/indivíduos é o Rendimento Social de Inserção 6 . Na figura 6 destaca-se a região Norte com um total de 123103 beneficiários registando o Algarve o valor mais baixo com 10818 beneficiários. Figura 6 - Beneficiárias /os do Rendimento Social de Inserção, Portugal Continental Os idosos são mais um grupo vulnerável, sobretudo, quando se associam perda de autonomia e isolamento, que dificultam ainda mais as suas condições de vida. O índice de envelhecimento 7 , analisado por Nuts II mostra-se mais acentuado na região do Alentejo com 187 e mais reduzido na Área Metropolitana de Lisboa com 129 ( Figura 7). 6 Atual designação para o anterior Rendimento Mínimo Garantido 7 Relação entre a população idosa e a população jovem, definida habitualmente como o quociente entre o número de pessoas com 65 ou mais anos e o número de pessoas com idades compreendidas entre os 0 e os 14 anos x 100, e lê-se por cada 100 jovens existem X idosos. 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 (em mil) Fonte: Ine, Censos 2013 Beneficiários/as do Rendimento Social de Inserção, da Segurança Social Beneficiários/as do Rendimento Social de Inserção, da Segurança Social 32 passando a população residente 11 de 151682 em 1991 para 175478, ou seja, um crescimento de 24 %. Pela análise da figura 11 a sede de concelho, Matosinhos sobressai em, em termos numéricos, com um crescimento de 1186 residentes ao longo das três décadas representadas. Figura 11População residente no concelho de Matosinhos, por freguesia em 1991, 2001 e 2011 Guifões apresenta-se como a freguesia onde se regista uma evolução negativa desde 1991 até 2011 (-1430 residentes). Esta evolução poderá ser explicada pelo carácter mais rural da mesma, apesar de na década de 80, ter-se registado um crescimento que se confirma na década de 90, devido ao boom de construções clandestinas 12 A figura 12 expressa cartograficamente a distribuição da população residente no concelho de Matosinhos em 2011. As freguesias de Senhora da Hora e de Matosinhos destacamse como as mais habitadas. 11 Pessoas que, independente de estarem ausentes ou presentes no momento de observação, habitam na maior parte do ano com a família na unidade de alojamento. Isto não é necessário dizer 12 Ver Matos, F.L. (1990), A construção clandestina em Vila Nova de Gaia - O caso dos bairros do Picão e da Madalena Nascente, Revista da FLUPGeografia, 1ª série, VI: 149-280, onde a autora desenvolve uma análise deste assunto para os concelhos do Grande Porto. 0 50000 100000 150000 200000 População residente (em mil) Fonte:INE, Censos População residente no concelho de Matosinhos, por freguesia em 1991, 2001 e 2011 1991 2001 2011 33 Figura 12– População residente no concelho de Matosinhos, por freguesias em 2011. Analisando a população residente por faixa etária, figura 13 verifica-se que a maior percentagem de população dos grupos etários 0-14 se encontra na sede de concelho Matosinhos e na freguesia da Senhora da Hora. Já as freguesias que concentram maior número de população idosa são S. Mamede de Infesta e Matosinhos. Figura 13 População Residente no Concelho de Matosinhos, por grupos etários e por freguesia, 2011. 0 20000 40000 60000 80000 100000 120000 140000 160000 180000 200000 em mil Fonte: INE, Recenseamento da População e Habitação de 2011 População Residente no Concelho de Matosinhos, por Grupos Etários e por Freguesia, 2011 > 65 anos 25 - 64 anos 15 - 24 anos 0 - 14 anos 34 Relativamente à população desempregada, figura 14, esta encontra maior expressão na sede de concelho, como seria de esperar tendo em conta que detém o maior número de população residente, aqui a diferença entre homens e mulheres é reduzida, sendo o desemprego masculino superior em 4% ao feminino. Santa Cruz do Bispo regista os menores valores. A nível concelhio, o desemprego é ligeiramente mais significativo no sexo feminino. Relativamente a valores percentuais, figura 15, confirma as conclusões da figura anterior. Matosinhos é a freguesia com a maior taxa de desemprego (17%) e Santa Cruz do Bispo regista a menor percentagem de desemprego com 3%. Figura 14População desempregada por Sexo, no concelho de Matosinhos, por freguesia 2011. 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 (em mil) Fonte: INE, Recenseamento da População e Habitação, 2011 População desempregada por Sexo, no concelho de Matosinhos, por freguesia, 2011 HM H M 35 Figura 15Representação cartográfica da população desempregada, no concelho de Matosinhos, segundo dados dos Censos 2011, INE. 2.4 - Tipologia Indicadores de exclusão/inclusão social Para o estudo das redes sociais, concretamente dos indivíduos em situação de pobreza, é necessário analisar as condicionantes para o comportamento das redes e sociabilidade dos indivíduos. Assim, e recorrendo à Tipologia de Indicadores de Exclusão e Inclusão da Rede Social, têm-se três domínios que podem, graças aos dados estatísticos disponíveis, esclarecer o comportamento das redes sociais dos indivíduos que residem no concelho de Matosinhos. Assim a primeira dimensão a ser analisada será a Desfiliação, onde se tenta compreender o enfraquecimento dos laços sociais, através de quatro subdimensões: i) Institucionalização; ii) estruturas familiares; iii) criminalidade; iv) Imigração (Quadro 5) 36 Quadro 5 - Dimensões relacionadas com o processo de Desfiliação, e respetivos indicadores, segundo o relatório do Instituto da Segurança Social ( 2005). A ruptura ou enfraquecimento dos laços sociais pode também, segundo a Rede Social (2005), ser preconizada pela Desqualificação social objectiva, que engloba todos os domínios que de alguma maneira levam o indivíduo a sentir-se desqualificado e /ou desvalorizado (Quadro 6) Quadro 6Dimensões relacionadas com o processo de Desqualificação social objetiva, segundo o relatório da Rede Social (2005). Desqualificação social e objetiva Indicadores Escolarização População com escolaridade menor ou igual à obrigatória Taxa de analfabetismo Taxa abandono escolar Emprego e Desemprego Taxa de desemprego População com profissões desqualificantes Condições de habitação Pessoas residentes em alojamentos não clássicos Alojamentos sobrelotados Handicaps pessoais População com deficiência Desfiliação Indicadores Institucionalização Taxa de pessoas institucionalizadas Estruturas familiares Idosos em famílias de 1 pessoa Famílias monoparentais Famílias de avós com netos Criminalidade Taxa de criminalidade Imigração Estrangeiros na população residente 37 Por fim, mas não menos importante, considere-se a dimensão de Privação económica. A falta de poder económica gera, em muitas situações quebras nos relacionamentos sociais, quer sejam com a família, os amigos e/ou com a sociedade (Quadro 7). Quadro 7 - Dimensões relacionadas com o processo de Privação económica, segundo o relatório da Rede Social (2005) Privação económica Indicadores Rendimentos Percentagem poder de compra Famílias com 5 ou mais pessoas Protecção Social Beneficiários RSI Número de pensionistas 38 Capítulo 3 - Redes Sociais: contribuições teóricas Atualmente o termo Rede é amplamente utilizado em vários contextos e áreas do saber, no entanto este conceito não é recente, sendo utilizado em variados estudos desde o século XVII. Desde então o seu significado foi-se alterando e alargando a vários domínios, fugindo das áreas do saber originais Antropologia Social e Sociologia. Desde o fim da década de 90 que diversos autores defendem o aparecimento de uma nova ciência das redes, definido por Duncan J. Watts, que utiliza o conceito rede para compreender as conexões do mundo contemporâneo. A importância crescente do estudo de redes prende-se com a compreensão de que estas possibilitam responder de diversas formas a diversos problemas. Mas afinal o que se quer dizer quando se fala de redes? Se optarmos por uma definição simplista poderemos dizer que se trata de um “agrupamento de pontos (ou nós) que se ligam a outros pontos por meio de linha" (Costa & Martinho, 2003:15). Considere-se, ainda que se trata de “um grupo de indivíduos que, de forma agrupada ou individual, se relacionam uns com os outros, com um fim específico, caracterizando-se pela existência de fluxos de informação, podendo ter muitos ou poucos atores e uma ou mais relações de categorias entre pares de atores (Alejandro & Norman, 2006 :7) Mas, recuando na linha do tempo verifica-se que as primeiras alusões à noção de rede, surgem, com mais força, quando Leonard Euler tenta dar resposta ao conhecido problema das pontes de Konigsberg, fornecendo as bases para a elaboração de Grafos, que nada mais são do que a representação simplificada de uma rede, como demonstra a Figura 16. Fonte: (Franco, 2009) Figura 16 – O problema das sete pontes de Konisgsberg. 39 Os pioneiros nos estudos de redes sociais provêm da psicologia social, sociologia e antropologia. De fato as primeiras publicações surgem na década de 1920 com os estudos de Freeman sobre a influência do contexto social e padrão de relacionamentos no comportamento das crianças, nos Estados Unidos 13 . Jacob Moreno é considerado o fundador da sociometria, psicólogo social, Moreno compreendeu que podia medir as relações pessoais, dentro de pequenos grupos. Para representar isto criou os sociogramas, que nada mais são do que representações gráficas para avaliar as relações entre um limitado número de nós (Wasserman & Faust,1997). Na Figura 17 é possível observar um dos primeiros sociogramas realizado por Jacob Moreno, neste estão representadas as escolhas de amizade feitas por crianças, do 4º ano de escolaridade, sendo que os círculos representam as meninas e os triângulos os meninos. Pela elaboração deste sociograma é notória uma segregação das escolhas por sexo, sendo que apenas um menino escolheu uma menina como amiga, já elas não escolheram nenhum menino como amigo. Fonte: (Moreno, 1934) Figura 17Escolhas de amizades de crianças do 4º ano de escolaridade 13 Ver, (Freeman, 1979) 40 Barnes em 1960, trabalhando a ideia de Radcliff-Brown, distingue dois tipos de redes: i) redes sociais totais, onde a rede é encarada como uma abstração da realidade, e contém toda a informação possível relativa à totalidade da vida social da comunidade correspondente; ii) redes parciais, onde são privilegiados elos sociais de apenas um tipo específico. Barnes estudou, em uma comunidade piscatória na Noruega, a influência das interações individuais na composição da estrutura social comunitária. Assim e para compreender as conexões dos indivíduos o autor isolou dois campos : o territorial e o industrial. No entanto estes dois campos revelam-se insuficientes para compreender os comportamentos relacionais dos indivíduos e assim formula um novo campo, baseado nos laços de parentesco, amizade e conhecimentos, formulando assim redes de relações. (Portugal,2007). Em 1970 o conceito rede passa a ser utilizado como uma ferramenta para estudar e compreender os relacionamentos das pessoas com seus elos pessoais, em diferentes contextos, a percursora deste método de investigação foi a antropóloga Elisabeth Bott. Esta desenvolveu uma das características da análise de redes a Conexidade, que traduz o grau de extensão de conhecimento entre os indivíduos, que a autora considera que, dentro de uma rede, nem todos os indivíduos têm relações sociais uns com os outros (Portugal,2007). Os antropólogos britânicos preocuparam-se sobretudo com questões formais, enquanto a tradição americana debruçou-se sobre as formas das redes. Desta última seguiram-se duas vias: i) uma mais formalista, inspirada em Simmel, centrada na morfologia das redes e a sua influência nos comportamentos 14 ; ii) outra mais estruturalista, elaborada por Wellman 15 e Berkowitz, onde definem a relação como o elemento base de toda a estrutura social. Wellman apresenta o conceito de comunidade pessoal, que trata do conjunto de laços de ajuda e companheirismo, que ultrapassam os limites geográficos da vizinhança. O trabalho de Wellman vai mais longe e tenta estabelecer uma ponte entre os comportamento individuais e as características das redes de relações, ou seja tenta perscrutar de que maneira os modelos relacionais condicionam o comportamento individual. (Portugal,2007). Manuel Castells considera que redes “são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede” (Castells, M., 2005:19). Este considera, ainda 14 Exemplos da abordagem formalista podem ser encontrados na obra de Samuel. L (Leinhardt,1977). 15 Para aprofundar o tema consultar o trabalho clássico de Barry Wellman, Network as Personal Communities, 1985 41 que o modo de organização em redes, (forma de organização social presente ao longo da história), apresenta uma dualidade de efeitos. Por um lado, considera que a adaptabilidade e a flexibilidade são a forma organizacional mais eficiente para, a evolução e desenvolvimento das estruturas sociais humanas, por outro, considera que as organizações em rede não conseguem potenciar os recursos necessários para a elaboração de projetos, para além de uma determinada dimensão. (Castells, 2005) Com a chegada dos anos 2000, o tema a nível internacional ganhou maior força e dimensão. Exemplos disto são publicações como o Academy Journal que em 2004 lançou uma edição especial sobre redes aplicadas às organizações. Eduardo Marques, apologista da sociologia relacional, considera que as redes funcionam como mecanismos relacionais na causa e reprodução das situações de pobreza. O princípio básico na análise de redes sociais, segundo Marques é que as relações sociais são as unidades básicas e não os atributos dos indivíduos (Marques, 2007 a) A Figura 15 sintetiza-se, numa timeline, a evolução histórica do uso do conceito de rede, por diversos autores. Freeman (psicologia social) primeiros estudos envolvendo redes. 1920 1930 1960 1970 1990 2000 Jacob Moreno estuda relações sociais em pequenos grupos Radcliffe Brown rede como simbologia para entender a estrutura social. J.A. Barnes distingue redes sociais totais e redes sociais parciais. Elisabeth Bott conceito de rede como uma ferramenta para a análise de relacionamentos entre pessoas e os seus elos pessoais em múltiplos contextos Sociologia Relacional, Eduardo Marques; Manuell Castells Nova Ciência das redes (Duncan Watts) Academy Journal (redes interorganizacionais) 48 Medidas de rede: i)- Densidade: é a medida que explica a quantidade de conexões entre os nós de um grafo, relativamente ao número total de conexões possíveis dentro desse mesmo grafo (Recuero,2014). ii)- Coeficiente de Clusterização: relaciona-se igualmente com a conexão dos nós da rede, sendo que o cluster se refere ao conjunto de nós mais densamente conectados em relação à restante rede (Recuero,2014). Figura 30 iii)- Centralização: foca-se “em torno de quais os pontos focais” a coesão de um grafo está organizada, ou seja, no “quão centralizado um grafo está em torno de determinados nnós”(Recuero,2014:11) (Figura 31). iv)- Fechamento (Closure) – refere-se à interconexão de uma rede. Quanto mais fechada é rede, ou seja, as relações entre os atores, mais conectada é a rede (Recuero,2014) v)- Coesão – medida que indica se a conexão entre os nós é mais forte ou mais fraca, ajudando a entender quais os nós que mais conectam e desconectam a rede (Recuero,2014) vi)- Modularidade – consiste no agrupamento de nós (criação de módulos), organizandoos em grupos segundo as suas conexões. Esta medida “tende a separar os clusters da rede, quanto menos clusterizada, maior a quantidade de módulos” (Recuero,2014) Fonte: (Recuero,2014:11) Figura 30Grafo de alta densidade (esq.) grafo de baixa densidade (dirt). 49 Fonte:(Ferreira & Filho, 2010:9). Figura 31Diagramas das redes de Paul Baran ,1964 As redes podem ser classificadas segundo o objectivo do estudo, atores e relacionamentos. Se o objetivo for estudar redes inteiras de um determinado assunto então tratam-se de redes totais, ou egocentradas se a pesquisa se centrar nas relações diretas do indivíduo (Ego). Os atores da rede quando pertencem à mesma categoria considera-se o estudo sob uma perspetiva one-mode, ou two-mode quando ocorrem ligações entre atores de diferentes categorias. A partir dos relacionamentos, entre os atores é possível verificar se a rede baseia-se numa ligação direta entre os pares (díade, figura 32), ou se porventura a rede se forma através da ligação entre três ou mais pares, de forma direta ou indirecta ( tríade, figura 32). (Quadro 8) 50 Quadro 8 Classificação das Redes (Ferreira & Filho, 2010) Tipos de Redes Perspetiva dos atores Perspetiva dos relacionamentos Totais (estudo de parcelas ou redes inteiras de determinado contexto) One-mode (ligação entre atores da mesma categoria, exp. Investigadores) Díade (base da formação da rede ocorre a partir da ligação direta entre os pares) Pessoais (ego-centradas – quando se considera apenas as relações diretas do ego; pessoais – não se limita a extensão da rede, considerando as relações do ego e os vínculos entre quem se relaciona diretamente com ele. Two-mode (ligação entre atores de diferentes categorias, p.ex. relação entre investigadores e instituições) Tríade (base da formação da rede ocorre a partir da ligação direta, ou indireta, entre três atores. Fonte: (Ferreira & Filho, 2010) Figura 32Representação de uma Díade (1) e Tríade (2) 51 3.2 A aplicação das Redes ao estudo da Pobreza No estudo e análise de situações de pobreza muitos são os fatores e processos a serem tomados em consideração. Para estudar a pobreza de uma forma relacional, que é o objetivo do presente estudo, Marques considera que os padrões relacionais dos indivíduos devem ser incorporados nos sistemas explicativos de reprodução da pobreza e apesar de existirem várias referências às redes, no caso da pobreza, estas referem que as relações importam mas não desenvolvem os efeitos que têm alguns padrões de relações sobre as condições de vida em geral ou para a pobreza (Marques, 2013) Se em décadas passadas o estudo da pobreza passava muito por análises capitalistas, focadas na existência, ou não de rendimentos, e em atributos individuais como formas de contornar a pobreza, evoluiu-se para novos entendimentos como a incorporação da noção de espaço, como agente promotor das situações de pobreza. Com isto refira-se, concretamente, os estudos sobre a segregação espacial e a sua relação com a pobreza como a obra de Briggs (2003) ou Paugam (2005), ou que defendem a importância de elementos sociais de origem coletiva e superiores ao indivíduo, portanto fatores muito além dos económicos, como explicativos nas situações de pobreza. Um dos primeiros estudos a relacionar as redes com fenómenos de pobreza foi Wilson (1987) onde o autor estudou a conexão entre o isolamento social e espacial com o aumento da pobreza nos ghettos negros americanos. Este alargar de horizontes explicativos, no que aos processos de pobreza dizem respeito, têm conduzido à incorporação de processos coletivos e sociais, levantando discussões sobre os efeitos de vizinhança, role model effects e os peer group effects 16 e o seu impacto nas situações de pobreza (Marques,2009) Vários autores como Lin (1999) relacionam redes e a obtenção de status (emprego, escolaridade, rendimento, hierarquia social, etc.). Diagnósticos sociais mais recentes sobre o tema estabelecem conexões entre capital social e redes. 16 Sobre isto ver artigo Marques, E. (2009) 52 Porquê recorrer à analise das redes sociais para estudar a pobreza? Eduardo Marques responde a esta questão afirmando que a forma como as redes condicionam o acesso a recurso materiais e imateriais, favorecem a consolidação das situações de privação e desigualdade social (Marques,2009). No estudo às situações de pobreza, sob uma perspetiva em rede, são essenciais duas dimensões: os atributos e as relações. Senão vejamos, o acesso diferenciado dos indivíduos às diferentes oportunidades, que os colocam em maior ou menor grau de pobreza, é condicionado pelos padrões de relação que estes têm com outros indivíduos e com as organizações. Também em diversos estudos sobre acesso ao mercado de trabalho se evidencia que as redes sociais nas quais os indivíduos se inserem têm consequências no grau de acesso a um emprego (Marques,2007). Briggs nos seus estudos explora as redes como elementos importantes quer para a coesão social (bonding), quer para a construção de conexões e de integração social (bridging) (Marques,2009) Incorporando as metodologias das redes, no estudo da pobreza, abrem-se novas possibilidades na construção de novas análises sobre as causas e processos ligados à pobreza, que não coloquem a tónica na responsabilização do pobre pela sua condição, mas antes que se integrem os processos macroestruturais que ajudam a explicar este fenómeno. Entenda-se que a importância das redes no entendimento dos fenómenos da pobreza prende-se com o facto de explicarem o acesso dos indivíduos às diversas estruturas de oportunidades. Não desconsiderando os fatores clássicos (rendimento, escolaridade, emprego), inserir as relações sociais como fator explicativo, lança um novo olhar sobre as condições associadas à pobreza e sua reprodução (Marques,2007) 53 Capítulo 4 – Metodologia Todos os trabalhos de pesquisa exigem o seguimento de um processo rigoroso e cuidado de recolha e tratamento da informação. Assim, foram seguidas as seguintes etapas, segundo Lima (1981): Definição de um problema ou pergunta de partida; Estudo exploratório – recolha de informações sobre o tema escolhido; Definição da hipótese de trabalho (baseado na produção teórica já existente); Definição das técnicas e instrumentos a usar; Análise da informação recolhida e elaboração de conclusões A par destas etapas deve tomar-se em consideração as seguintes técnicas de pesquisa: Técnicas documentais – pressupõe a observação e análise de documentos, nomeadamente a análise da sua semântica, e conteúdo. No presente estudo foram analisados documentos, na sua maioria escritos de bibliografia específica sobre a temática abordada. Técnicas não documentais - inclui-se a recolha de informações através da observação/experimentação. Dentro desta considere-se a observação participante e não participante. Para o estudo em concreto recorreu-se aos dois tipos de observação. O primeiro concretizado através da experiência de voluntariado em uma Instituição de Solidariedade Social, e a segunda forma de observação concretizou-se através de Inquéritos, por questionário. Os inquéritos são utilizados como metodologia por várias áreas de investigação como forma de recolher dados (matemática; marketing; politica, ciências sociais, entre outras). A sua utilização, como todas as técnicas de pesquisa, apresentam vantagens e desvantagens, como exemplifica o Quadro 9. A pesquisa por inquérito, segundo o portal de Produtos e Serviços de Estatística, realizase em sete etapas, demonstradas na figura 33. 54 Quadro 9 Vantagens e Desvantagens da utilização de Inquéritos como metodologia de análise. (Alves, 2006) Vantagens Desvantagens Forma eficiente de recolher informação grande número de inquiridos; Dependem da motivação, honestidade e capacidade de resposta dos inquiridos; São flexíveis quanto ao tema, podem ser utilizados para estudar atitudes, valores, crenças; Não são apropriados para estudar fenómenos sociais complexos; São relativamente fáceis de administrar Se a amostra não for representativa da população então as características da população não podem ser inferidas Fonte: Alves (2006:4) Fonte: Alves (2006:6) Figura 33 - Etapas de realização de um Inquérito Planeamento do Inquérito Recolha de dados Acesso aos dados Preparação dos dados Análise dos dados Produção do Relatorio Divulgação dos resultados 55 A primeira metodologia usada no presente trabalho foi o Inquérito, por Questionário. Foi realizado um inquérito inicial, a 18 de Março de 2015, a Instituições de Solidariedade Social (IPSS), pertencentes à Área Metropolitana do Porto. Estas foram selecionadas a partir da lista de IPSS da Segurança Social e destas foram consideradas as que mais se adequavam ao estudo em questão, tendo em conta os seus grupos alvo. Os questionários foram gerados na plataforma Lime Service e enviados para 80 instituições e/ou representantes de instituições, intitulado Redes Sociais para a inclusão social. A opção por um inquérito online surge por uma questão de facilidade na gestão dos conteúdos, pela rápida disseminação (via e-mail), bem como pelo todo o acompanhamento que pode ser feito durante o processo. O Lime Service apresenta-se como uma plataforma de inquéritos gratuita, versátil e eficaz, sendo por isso a escolha para a disseminação deste primeiro inquérito. Quanto à estrutura do inquérito foram elaboradas nove perguntas, com vista a compreender a forma de funcionamento da instituição (a nível de respostas sociais, e grupos alvo), bem como compreender o nível de integração da instituição em redes de apoio (Quadro 10) 17 . Quadro 10 - Estrutura de perguntas do Inquérito Redes Sociais para a inclusão social. 17 Para ver estrutura completa do inquérito consultar Anexo 1. 1Identificação da Instituição 2A instituição trabalha com que grupos 3Em que Programas de apoio ao desenvolvimento social a instituição participa 4A sua instituição que respostas sociais desenvolve 5Qual é a frequência com que presta os seus serviços 6Qual é a área geográfica de intervenção 7Diga as 5 Instituições com quem mais trabalhou no último Quadro Comunitário 8Diga as 5 Instituições com quem mais gostaria de trabalhar no próximo Quadro Comunitário 9Relativamente às seguintes estratégias, avalia a sua importância (de 1 a 10, sendo o 10 o mais relevante) 56 Seguidamente realizarem-se mais dois Inquéritos, por questionário. Os alvos aqui são já os indivíduos em situação de pobreza, e não as instituições. Estes dois inquéritos destinaram-se a dois grupos diferenciados: famílias em situação de pobreza, e sem-abrigo. Delimitaram-se dois grupos distintos de modo a existir termo de comparação dentro do grupo indivíduos em situação de pobreza. O objetivo dos inquéritos é compreender a rede de relações daqueles que se encontram em situação de pobreza, com quem se relacionam, se existe alguma relação entre a sua condição - de desabrigado – e o número de relações que estabelecem. Os parâmetros usados para compreender este fenómeno foram os também usados por Marques (2007) na sua pesquisa de Redes sociais de pobreza, em São Paulo, como expressa o figura 34. Fonte: Marques (2007) Figura 34 – As esferas da sociabilidade Os inquéritos para os dois grupos igualam-se nas questões relacionadas com as esferas de sociabilidades, distinguem-se nas perguntas de âmbito espacial, uma vez que são grupos de 57 realidades diferentes no que ao comportamento espacial diz respeito 18 . A análise dos resultados dos inquéritos será feita com recurso ao programa NodeXL 19 , uma ferramenta que permite visualizar os dados através da representação de grafos. Existem, a nível metodológico, duas formas de investigar a relação entre os padrões de vínculos e a sociabilidade, a partir de Redes Totais, que permite estudar parcelas ou redes inteiras estudando de contextos sociais específicos, ou através das Redes pessoais que inclui os contactos sociais de cada indivíduo (Marques,2007). A opção metodológica para o presente trabalho foi optar pelo estudo das redes pessoais, onde a investigação se centra nas redes individuais de indivíduos concretos, os designados egos. Esta opção abrange relações estáveis, mas evolutivas, formadas por familiares, amigos, colegas de trabalho, relações comunitárias e a participação em organizações (Sluzki,2000). A vantagem do estudo das redes sociais pessoais prende-se com o facto de estas se centrarem no indivíduo e no sistema relacional, abrangendo assim dados quantitativos e qualitativos dotando, assim a rede de mais substancialidade. De modo a aumentar a amostra dos dados recolhidos partiu-se para uma metodologia de trabalho de campo, em modo de voluntariado, tendo-se obtido registos sobre indivíduos semabrigo e algumas famílias carenciadas. Os dados recolhidos foram listados e organizados em tabelas Excel e depois de tratados e organizados, introduzidos na ferramenta NodeXL. Esta última apresenta-se como uma ferramenta de fácil utilização, desde que os dados sejam introduzidos corretamente. Para começar o processo é pedido que o investigador defina os seus Vértices e os seus Relacionamentos (Figura 35). Posto isto é ainda possível definir diferentes cores e formas para os diferentes nós e ligações, de forma a tornar os fenómenos pretendidos mais percetíveis. Esta possibilidade torna esta ferramenta atrativa para representar redes de relacionamentos, uma vez que permite, de forma dinâmica e fácil, apresentar (através de grafos) visualmente fenómenos complexos. 18 Para analisar as estruturas de ambos os inquéritos ver Anexos I e II. 19 Para melhor compreender o funcionamento desta ferramenta consultar o portal, nodexl.codeplex.com. 64 Tipos de relacionamento Intensidade Figura 39 - Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria a partir do NodeXL. Associações Inquiridos Alimentação Apoio financeiro Despesas Saúde Material Escolar Mobiliário Renda da Casa Vestuário 65 De notar, ainda, a forte presença do relacionamento Alimentação e Vestuário. Esta rede permite compreender dois aspetos fundamentais no comportamento das redes pessoais dos indivíduos em situação de pobreza, no que a associações diz respeito: i) as redes são essencialmente locais, uma vez que a maior parte dos inquiridos (18) recorre a ajudas da Junta de Freguesia; ii) o relacionamento estabelecido entre os inquiridos e as associações são sobretudo de caracter assistencialista, predominando a ajuda alimentar e de vestuário, demonstrando também estes dados que o tipo de valências predominantes das associações direcionam-se para suprir as necessidades primárias existindo, assim pouco suporte para necessidades como Despesas com a saúde (apenas 3 associações fornecem este suporte). 2Rede Indivíduos que recorre à assistência de Associações, dentro e fora do seu local de residência A construção desta rede foi realizada, não através de dados diretos (resultantes das respostas dos inquéritos) mas por aferição e cruzamento de duas informações: a localização de residência do inquirido e a localização das associações a que recorre. Assim foi possível averiguar que distâncias percorrem os indivíduos para obterem ajuda (Figura 40). 66 Figura 40Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria com recurso NodeXL Começando por analisar o in-degree (Figura 41), que corresponde ao número de inquiridos que referiu recorrer a associações dentro ou fora da freguesia de residência, verificase que as associações dentro da freguesia de residência são as que possuem um valor de indegree mais elevado (36), ou seja este é o nó que estabelece mais conexões entre os inquiridos. Analisando ainda as métricas globais da rede, têm-se: 52 vértices e 60 relações únicas. O subgrafo de ambos os nós permite comprovar visualmente a densidade de cada Nó. 67 Figura 41Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXl. Pelo que se observa na rede acima representada os indivíduos em situação de pobreza, na sua maioria, procuram associações dentro da sua freguesia, do que se pode concluir: i) as redes apresentam um carácter local, sendo que apenas 10 inquiridos, num total de 52, estabelecem conexões com associações dentro e fora da sua freguesia de residência; ii) a construção desta rede atesta a representada anteriormente (Figura 41), em que a maior parte dos inquiridos afirmou recorrer, essencialmente a ajudas da entidade Junta de Freguesia; iii) é expectável que não exista uma mobilidade espacial ampla, no que à procura de ajuda diz respeito, uma vez que encontrando-se em situação de pobreza e com baixos rendimentos, os indivíduos não apresentem capacidade monetária para se conseguirem deslocar-se. 3Redes de relacionamentos de famílias em situação de pobreza Observando esta nova rede (Figura 42), através do seu in-degree, sobressai de imediato o valor de in-degree associado ao Relacionamento Família. Analisando as métricas globais da rede tem-se: 69 vértices; 97 ligações. 68 Figura 42Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree. Elaboração própria com recurso ao NodeXL Um dos principais objetivos deste trabalho é compreender a composição das redes sociais dos indivíduos em situação de pobreza. Esta rede permite ilustrar vários comportamentos/realidades (Figura 42): i) a influência da esfera familiar, o que é espectável e ao mesmo tempo revelador de comportamentos, dado que os vínculos primários e locais são os predominantes na vida diária destas pessoas; ii) a esfera colegas de trabalho é também reveladora da condição da maioria dos inquiridos, mais de 60% dos mesmos encontram-se em situação de desemprego (segundo as respostas aos inquéritos), portanto esta reduzida representatividade atesta estes mesmos valores, iii) os Vizinhos apresentam o segundo maior valor de in-degree (17) comprovando mais uma vez o localismo das redes dos inquiridos (Figura 43). 69 Figura 43Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXL. 4Redes de relacionamentos de indivíduos Sem-Abrigo Analisando o número de vértices nesta rede contam-se 32 e 39 ligações únicas, o Nó Associação destaca-se como aquele que estabelece mais relações entre os inquiridos assumindo assim uma posição central no grafo (Figura 44 e Figura 45). Figura 44Representação dos nós da rede proporcionais ao seu In-degree, com demarcação dos subgrupos. Elaboração própria, com recurso NodeXL 70 Figura 45Rede de relacionamentos dos indivíduos sem-abrigo. Elaboração própria, com recurso NodeXL É ao mesmo tempo curioso e esclarecedor comparar as redes de relacionamento das famílias carenciadas com a mesma rede mas da população sem-abrigo: i) se na primeira rede o nó dominante era a família na presente este nó ocupa uma posição de baixo-relevo. É inevitável não associar a situação de isolamento dos sem-abrigo às suas relações familiares, a quase ausência das relações primárias demonstram a causa, e simultaneamente o efeito da condição de sem-abrigo; ii) as associações e igreja destacam-se no conjunto da rede, com um valor de indegree de 15 e 10, respectivamente, demonstrando o papel que estas têm não só como, prestadoras de cuidados básicos mas também, como suporte emocional e social. 71 Capitulo 7 - Considerações finais Ao longo dos últimos capítulos foram apresentados os debates teóricos que giram à volta dos conceitos de pobreza e exclusão social. Ficou totalmente claro que pobreza e exclusão, apesar de serem por vezes tratados como sinónimos, não caracterizam o mesmo fenómeno. A pobreza implica, tal como afirma Bruto da Costa uma privação material. A exclusão representa uma realidade mais ampla, podendo o indivíduo encontrar-se numa situação de exclusão económica, social cultural, portanto há uma distinção que pode e deve ser feita entre estes dois conceitos, como afirma Pereirinha (1999) “pobreza relaciona-se com a escassez de recursos e a exclusão com os mecanismos relacionais de integração/desintegração social”. Para responder à pergunta Quem são e onde estão os Pobres em Portugal, rcorreu-se a alguns autores e aos índices disponíveis nas plataformas de estatística do INE e do Eurostat. A resposta surge inequívoca: as mulheres, as crianças, os idosos, as famílias beneficiárias de RSI, as famílias monoparentais, os casais com mais de três filhos, os imigrantes, os desqualificados, os desempregados de longa duração, os sem-abrigo, são os grupos mais vulneráveis à situação de pobreza. Estes encontram-se sobretudo nas áreas urbanas e periurbanas, com um aumento do fosso entre litoral e interior. Matosinhos surge como um caso de análise, visto que deste concelho surgiram a maioria das respostas aos inquéritos implementados. São considerados alguns indicadores para compreender o comportamento das situações de pobreza, como por exemplo a população desemprega, que atinge aqui os valores de 2297 pessoas, sem emprego. Ainda que se pretendesse obter mais indicadores para a compreensão do paradigma de pobreza neste concelho, a falta de outros dados à escala concelhia impossibilitou o aprofundamento da análise. O termo rede tem vindo a ganhar força em várias áreas do saber. No entanto, esta popularidade do conceito não é um fenómeno do presente mas que já vem do passado, desde o século XVII. O seu significado foi-se alterando, difundindo-se a compreensão de que as redes poderiam ajudar a compreender as conexões do mundo contemporâneo, bem como, possibilitar a resposta a vários problemas. A metodologia de Análise de Redes possibilita uma explicação, do comportamento social baseado nas interacções sociais. Naturalmente, esta metodologia foi evoluindo ao longo do tempo, do simples sociograma à representação gráfica de grafos. 72 Mais do que um instrumento de pesquisa a metodologia ARS afigura-se como, um instrumento analítico que considera família, amigos, empresas e Estados, como pontos conectados por linhas, que formam redes. Porquê estudar os fenómenos da pobreza, através da análise de redes? Porque a forma como as redes condicionam o acesso a recursos, materiais e imateriais, favorecem a consolidação de situações de privação e desigualdade social. Por norma, as questões da pobreza são estudadas sob uma perspetiva económica, contudo, recentemente outros modelos explicativos têm sido incorporados como as relações dos indivíduos com as estruturas de oportunidades. Para estudar a pobreza sob uma perspetiva em rede é necessário ter em consideração duas dimensões – os atributos e as relaçõesque determinam o acesso diferenciado dos indivíduos às diferentes oportunidades. Os resultados dos Inquéritos por questionário, ainda que reduzidos em termos de amostragem, respondem às perguntas lançadas no inicio do presente projecto de investigação: Como são as redes sociais dos indivíduos em situação de pobreza? É possível relacionar o nível de padrão de sociabilidade dos indivíduos com a sua situação de pobreza? Estas perguntas foram respondidas com a Análise de redes efetuada com os dados recolhidos. Quando comparadas as redes de sociabilidade das famílias carenciadas com os semabrigo, percebe-se que, estas últimas são menos densas e menos variadas em termos de sociabilidade em relação às primeiras. As primeiras ainda que, se apresentem mais variadas no que diz respeito à sociabilidade, revelam-se mais locais concentradas nas esferas família e vizinhos. É notória a relação entre o nível de padrão de sociabilidade dos indivíduos em situação de pobreza com a sua condição. Os sem-abrigo apresentaram uma rede muito menos densa, variável e coesa do que as redes de famílias carenciadas. O que permite concluir duas coisas: i) dentro do grupo de pobres a sociabilidade revela-se diferente; ii) o número de vínculos sociais revela-se como um factor influenciador na condição de segregação e pobreza dos indivíduos, uma vez que, aqueles que possuíam um maior número de ligações revelaram estar numa posição mais favorecida. Contudo para estas conclusões serem devidamente validadas seria necessário aumentar a amostra em número e em território. No entanto, fica explanado o método para futuras investigações de âmbito mais alargado. A amostra não permitiu elaborar o estudo pretendido inicialmente, nem em termos numéricos nem em termos espaciais. 73 Referências bibliográficas Alejandro, V. Á., & Norman, A. G. (2006). 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A sua família recebe Rendimento de Inserção Social? Sim  Não  81 Anexo II Redes Sociais dos Indivíduos em Situação de Pobreza (sem-abrigo) 1Idade: _______ Sexo:________ 2Recurso a instituições sociais de apoio: Finalidade: Escrever o nome das Instituições (de IPSS, Seg. Social, Junta de Freguesia, Paróquia,...) a que recorre: Alimentação - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. Vestuário - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - 82 Alojamento .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. Apoio financeiro para pagar despesas com a saúde - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. ........................................................ - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. 83 3. Recorre também à Família ou aos Amigos ? Para quê? Alimentação? Apoio Financeiro (de que tipo) Família - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. Amigos - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. - .................................................................. 4. Em que zona/s costuma dormir? (zona, nome de rua, ou ponto de referência) _______________________________________________________________________ 4. Normalmente passa o seu tempo aonde? 84 a. Na área onde dorme  b. Outra:...................................................................... 5. Desenvolve alguma atividade para obter rendimentos? Se sim, o quê? E Onde? _______________________________________________________________________ 6. Em termos de relacionamentos pessoais, quem é mais importante para si? - Família  - Amigos  - Igreja  - Associações  7. Quem são as pessoas mais próximas de si?