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Avaliação da satisfação com o trabalho dos médicos anestesistas vs médicos não anestesistas do Centro Hospitalar do Porto

Susana Andreia Silva Pinto

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Avaliação da satisfação com o trabalho dos médicos anestesistas vs médicos não anestesistas do Centro Hospitalar do Porto Dissertação MESTRADO INTEGRADO EM MEDICINA 2013/2014 Artigo de Investigação Médica Susana Andreia Silva Pinto Porto, 2014 I Avaliação da satisfação com o trabalho dos médicos anestesistas vs médicos não anestesistas do Centro Hospitalar do Porto Dissertação submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto para obtenção do grau de Mestre em Medicina Susana Andreia Silva Pinto, aluna do 6ºano do Mestrado Integrado em Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto Orientador Prof. Dr. Humberto José da Silva Machado, Diretor do Serviço de Anestesiologia do Centro Hospitalar do Porto e Professor Associado Convidado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto II Resumo Introdução: A satisfação com o trabalho (ST) pode ser considerada como um sentimento global sobre o trabalho ou como uma constelação de atitudes relacionada com vários aspetos ou dimensões do trabalho. Nos anestesistas, é apresentada como uma variável dependente da qualidade das condições de trabalho e outros fatores de stress, que são prevalentes entre anestesistas portugueses. Por outro lado, estão descritos baixos níveis de ST nos médicos não anestesistas. Objetivo: Avaliação e comparação do nível de ST dos médicos anestesistas com o dos médicos não anestesistas e dos médicos de medicina interna com o dos médicos de cirurgia geral do Centro Hospitalar do Porto (CHP). Métodos: Estudo transversal analítico realizado nos serviços de Anestesiologia, Medicina e Cirurgia Geral do CHP. Foram incluídos 100 médicos anestesistas e 100 médicos não anestesistas (cirurgia geral e medicina interna), durante o período de julho a dezembro de 2013. O questionário utilizado é constituído por dados demográficos e Minnesota Satisfaction Questionnaire (MSQ) – Short Form (versão adaptada e validada para a população portuguesa). Resultados: Os anestesistas apresentam uma elevada ST (77,3±8,3) e os não anestesistas uma média ST (70,5±10,2). Os anestesistas casados/união de facto têm em média uma ST elevada (79,2±7,2), assim como os solteiros (75,6±9,6), enquanto os divorciados/viúvos têm uma satisfação média (71,6±5,4), p<0,05. Nos anestesistas, verifica-se que há diferenças na dimensão extrínseca da ST sendo que os fumadores têm um score de 30,5±4,6 e os não fumadores 32,9±4,1, p<0,05. Conclusões: Os anestesistas têm uma satisfação com o trabalho significativamente superior em relação aos não anestesistas, sendo que esta diferença é significativa no MSQ total e suas dimensões: intrínseca e extrínseca. Nestes, o estado civil tem impacto significativo no score total do MSQ, assim como na sua dimensão intrínseca, e o consumo de tabaco influencia a sua dimensão extrínseca. Não foi encontrado impacto significativo das variáveis em estudo na ST, dos não anestesistas. III Palavras-Chave: satisfação com o trabalho; Minnesota Satisfaction Questionnaire; anestesiologia; medicina interna; cirurgia geral; burnout; stress. IV Abstract Introduction: The job satisfaction (JS) can be considered as an overall feeling of work or as a constellation of actions related to various aspects of the work or dimensions. In anesthesiologists, JS is dependent on the quality of work conditions and other stress factors that are prevalent among Portuguese anesthesiologists. On the other hand, low levels of JS in non-anesthesiologists are described. Objective: Evaluate and compare the level of JS anesthesiologists with nonanesthesiologists and internal medicine physicians with general surgery of Centro Hospitalar do Porto (CHP). Methods: Analytical cross-sectional study in Anesthesiology, Medicine and Surgery CHP services. 100 anesthesiologists and 100 non-anesthesiologists (general surgery and internal medicine) were included in this study from July to December 2013. The questionnaire consists of demographic data and Minnesota Satisfaction Questionnaire (MSQ) - Short Form (adapted and validated for the Portuguese population version). Results: Anesthesiologists have a high JS (77.3 ± 8.3) and non-anesthesiologists an average JS (70.5 ± 10.2). Anesthesiologists married/unmarried have a high JS (79.2 ± 7.2) as well as the singles (75.6 ± 9.6), while the divorced/widowed have an average satisfaction (71.6 ± 5.4), p <0.05. In anesthesiologists, there are differences in the extrinsic dimension of JS. The smokers have a score 30.5 ± 4.6 and non-smokers 32.9 ± 4.1, p <0.05. Conclusions: Anesthesiologists have a job satisfaction significantly higher compared to non-anesthesiologists. This difference is significant in total MSQ and its dimensions: intrinsic and extrinsic. In anesthesiologists, marital status has a significant impact on the total score of the MSQ, as well as its intrinsic dimension. Tobacco consumption influences their extrinsic dimension. Significant effects of the JS variables studied in non-anesthesiologists were not found. Key words: job satisfaction; Minnesota Satisfaction Questionnaire; anesthesiology; internal medicine; general surgery; burnout; stress. V Agradecimentos Ao Prof. Dr. Humberto Machado por ter orientado este trabalho de forma empenhada e entusiasta, ter mostrado disponibilidade absoluta, sempre que precisei da sua ajuda, e por me ter incutido o gosto pela investigação. Ao Prof. Rui Magalhães pela colaboração no desenho e análise estatística do estudo. Aos secretariados dos serviços de Anestesiologia, Medicina e Cirurgia pela distribuição do questionário utilizado neste estudo. Ao Nuno pelo apoio prestado de forma incondicional. Aos meus pais e irmã por estarem sempre presentes. Índice Resumo..................................................................................................................................... II Abstract .................................................................................................................................. IV Agradecimentos ....................................................................................................................... V Índice........................................................................................................................................ 1 Lista de abreviaturas ................................................................................................................. 2 Lista de tabelas ......................................................................................................................... 3 Lista de figuras ......................................................................................................................... 4 Introdução................................................................................................................................. 5 Material e métodos.................................................................................................................... 7 Resultados .............................................................................................................................. 10 Discussão................................................................................................................................ 18 Referências bibliográficas ....................................................................................................... 21 Anexos ................................................................................................................................... 24 Anexo 1 .............................................................................................................................. 25 Anexo 2 .............................................................................................................................. 28 Anexo 3 .............................................................................................................................. 29 2 Lista de abreviaturas DP – Desvio-padrão CG – Cirurgia Geral CHP – Centro Hospitalar do Porto HGSA – Hospital Geral de Santo António JS – Job satisfaction MI – Medicina Interna MSQ – Minnesota Satisfaction Questionnaire MSQI – Dimensão intrínseca do Minnesota Satisfaction Questionnaire MSQE – Dimensão extrínseca do Minnesota Satisfaction Questionnaire NA – Não se aplica SNS – Serviço Nacional de Saúde SPSS –Statistical Package for the Social Sciences ST – Satisfação com o trabalho SU – Serviço de Urgência 3 Pág 12 13 14 15 16 17 Lista de tabelas Tabela I – Média ± DP dos scores MSQ total, MSQE e MSQI distribuídos por grupos: anestesistas, não anestesistas, medicina interna e cirurgia geral. Tabela II – Descrição dos resultados obtidos e relação das variáveis demográficas entre anestesistas vs não anestesistas. Tabela III – Relação dos scores MSQ Total, MSQE e MSQI dos anestesistas vs não anestesistas e medicina interna vs cirurgia geral. Tabela IV – Relação entre os scores total MSQ, MSQE e MSQI com as variáveis demográficas dos anestesistas e não anestesistas. Tabela V - Relação da média do score de cada item do MSQ entre os grupos anestesistas vs não anestesistas. Tabela VI – Modelos de regressão logística univariados estudados. 10 Resultados De acordo com os critérios de exclusão, foram incluídos neste estudo 100 médicos anestesistas (73 especialistas e 27 internos) e 100 médicos não anestesistas (21 especialistas de CG, 16 internos de CG, 28 especialistas de MI e 35 internos de MI).A taxa de participação foi de 82,5% (n = 165): i) anestesiologia – 85% (n = 85), ii) MI – 79,4% (n = 50), iii) CG – 81,1% (n = 30). Relativamente aos médicos anestesistas: 76,5% (n=65) são especialistas e 23,5% (n=20) são internos. A distribuição por sexos foi díspar, sendo 34,1% (n=29) do sexo feminino. Em relação à carga de trabalho semanal: 88,2% (n=75) trabalham no SU, sendo que, destes, 69,3% (n=52) trabalham mais de 12 horas por semana; 29,4% (n=25) trabalham no privado, com 80,0% (n=20) destes a trabalharem 12 horas ou menos por semana; e, no CHP, 24,7% (n=21) trabalham mais de 42 horas e 75,3% (n=64) trabalham 42 horas ou menos. Distância residência-hospital: 65,9% (n=56) 15-30 minutos, 25,9% (n=22) < 15 minutos e 8,2% (n=7) > 30 minutos. A variável estado civil tem a seguinte distribuição: casado/união de facto 57,7% (n=49), solteiro 34,1% (n=29), divorciado/viúvo 8,3% (n=7), sendo que 56,5% (n=48) dos anestesistas têm filhos. Em relação a atividades fora da área da saúde, 45,9% (n=39) dos anestesistas têm atividades, com a seguinte distribuição: artística 20,5% (n=8), voluntariado 10,3% (n=4), desporto 69,2% (n=27) e hobby 20,5% (n=8). No que diz respeito a hábitos, tabaco 17,6% (n=15), álcool 42,4% (n=36), ansiolíticos 7,1% (n=6) e antidepressivos 4,7% (n=4). Em relação aos médicos não anestesistas, 46,3% (n=37) são especialistas e 53,8% (n=43) são internos, sendo que 62,5% (n=50) são do sexo feminino. Dos médicos não anestesistas, 87,5% (n=70) trabalham 42 horas ou menos por semana no CHP, sendo que 74% (n=57) dos que trabalham no SU, trabalham mais de 12 horas por semana neste serviço. Dos médicos que trabalham no privado, 72,4% (n=21) destes trabalham 12 horas ou menos por semana. Distância residência-hospital: 57,5% (n=46) 15-30 minutos, 23,8% (n=19) < 15 minutos e 18,7% (n=15) > 30 minutos. A variável estado civil tem a seguinte distribuição: casado/união de facto 52,5% (n=42), solteiro 46,3% (n=37), divorciado/viúvo 1,3% (n=1), sendo que 38,8% (n=31) dos não anestesistas têm filhos. Em relação a atividades fora da área da saúde, 46,3% (n=37) dos não anestesistas exercem atividades com a seguinte distribuição: artística 24,3% (n=9), voluntariado 16,2% (n=6), desporto 70,3% (n=26) e hobby 18,9% (n=7). No que diz respeito a 11 hábitos, tabaco 11,3% (n=9), álcool 45,0% (n=36), ansiolíticos 1,3% (n=1) e antidepressivos 3,8% (n=3). A figura 1 apresenta a descrição dos resultados obtidos. Figura 1 – Descrição dos resultados obtidos: anestesistas vs não anestesistas 4 6 36 15 39 48 7 49 29 7 56 22 5 20 25 52 23 75 21 64 7 78 56 29 20 65 3 1 36 9 37 31 1 42 37 15 46 19 8 21 29 57 20 77 10 70 8 72 30 50 43 37 0 20 40 60 80 100 Antidepressivos Ansiolíticos Álcool Tabaco Atividades fora da área da saúde Filhos Divorciado / Viúvo Casado / União de facto Solteiro Distância residência hospital > 30… Distância residência hospital 15-30… Distância residência hospital < 15… Privado > 12 horas Privado ≤ 12 horas Privado SU > 12 horas SU ≤ 12 horas SU CHP > 42 horas CHP ≤ 42 horas Mestrado Licenciatura / Mestrado Integrado Masculino Feminino Interno Especialista Não anestesistas Anestesistas 12 A descrição dos resultados no que diz respeito aos médicos de cirurgia geral e medicina interna está apresentada no anexo 3. O score MSQ total dos anestesistas é 77,3±8,3 e dos não anestesistas é 70,5±10,2 (figura 2). Os resultados dos scores de MSQE e MSQI por grupos são apresentados na tabela I. De acordo com Weiss, Dawis, England e Lofquist, os anestesistas apresentam uma elevada satisfação com o trabalho e os não anestesistas, tanto médicos de cirurgia geral como medicina interna, uma satisfação média. Figura 2 – Histograma da frequência do score total MSQ dos anestesistas vs não anestesistas. Tabela I – Média ± DP dos scores MSQ total, MSQE e MSQI distribuídos por grupos: anestesistas, não anestesistas, medicina interna e cirurgia geral. Procurou-se encontrar relações estatisticamente significativas entre as variáveis demográficas e os grupos: anestesistas vs não anestesistas, que se apresenta na tabela II. Anestesistas Não anestesistas MI CG MSQ Total 77,3±8,3 70,6±9,9 70,3±11,0 70,5±10,2 MSQE 32,5±4,3 28,1±5,5 29,3±5,3 28,5±5,4 MSQI 44,8±4,7 42,5±5,3 41,1±6,6 42,0±5,8 13 Tabela II – Descrição dos resultados obtidos e relação das variáveis demográficas entre anestesistas vs não anestesistas. Valor de prova obtido através do teste estatístico qui-quadrado p*: anestesistas vs não anestesistas Verificou-se que há diferença estatisticamente significativas entre anestesistas e não anestesistas no que diz respeito à categoria profissional, dado que 76,5% dos Anestesistas Não anestesistas p* n % n % Categoria Profissional Especialista Interno 65 20 76,5 23,5 37 43 46,3 53,8 <0.001 Sexo Feminino Masculino 29 56 34,1 65,9 50 30 62,5 37,5 0.754 Grau Académico Licenciatura/Mestrado pós-bolonha Mestrado pré-bolonha 78 7 91,8 8,2 72 8 90,0 10,0 0.694 Carga trabalho semanal CHP ≤ 42 horas 64 75,3 70 87,5 0.045 >42 horas 21 24,7 10 12,5 Trabalhar no SU 75 88,2 77 96,3 0.056 ≤12 horas 23 30,7 20 26,0 0.521 >12 horas 52 69,3 57 74,0 Trabalhar no setor privado 25 29,4 29 36,3 0.349 ≤12 horas 20 80,0 21 72,4 0.516 >12 horas 5 20,0 8 27,6 Distância residência hospital < 15 min 15-30 min >30 min 22 56 7 25,9 65,9 8,2 19 46 15 23,8 57,5 18,7 0.162 Estado Civil Solteiro Casado/União facto Divorciado/Viúvo 29 49 7 34.,1 57,7 8,3 37 42 1 46,3 52,5 1,3 0.034 Ter f ilhos 48 56,5 31 38,8 0.029 Ter atividades fora da área da saúde 39 45,9 37 46,3 0.962 Hábitos Tabaco 15 17,6 9 11,3 0.244 Álcool 36 42,4 36 45,0 0.732 Ansiolíticos 6 7,1 1 1,3 0.064 Antidepressivos 4 4,7 3 3,8 0.761 14 anestesistas são especialistas e 53,8% dos não anestesistas são internos (p<0,05). Há igualmente diferença entre os grupos no que concerne o estado civil e o facto de terem ou não filhos (p<0,05). Não houve diferenças em relação às restantes variáveis. Averiguou-se a relação entre os scores MSQ total, MSQE e MSQI nos grupos: anestesistas vs não anestesistas e medicina interna vs cirurgia geral. Deste modo, verificou-se que os anestesistas apresentam uma maior ST (77,3±8,3) em relação aos não anestesistas (70,5±10,2) (p<0,01), sendo a diferença significativa no MSQ total, MSQE e MSQI. No que diz respeito à comparação dos scores médios MSQ Total, MSQE e MSQI entre medicina interna e cirurgia geral, não se verificaram diferenças significativas (tabela III). Tabela III – Relação dos scores MSQ Total, MSQE e MSQI dos anestesistas vs não anestesistas e medicina interna vs cirurgia geral. *Valor de prova obtido por teste t-student Estudou-se a hipótese de alguma variável demográfica influenciar significativamente os scores MSQ Total, MSQE e MSQI nos anestesistas (tabela IV), tendo-se verificado que há diferenças estatisticamente significativas entre os scores e os diferentes estados civis: os anestesistas casados ou em união de facto têm maior probabilidade de terem satisfação elevada, apresentando um score médio de 79,2±7,2, assim como os solteiros (75,6±9,6), enquanto os divorciados/viúvos têm em média uma satisfação média (71,6±5,4), p<0,05. No que diz respeito ao score da dimensão intrínseca desta variável, este, também, traduz diferenças significativas (p=0,013), no entanto no score da dimensão extrínseca não se encontra diferenças (p=0,128). MSQ Total MSQE MSQI Média±DP Valor de prova* Média±DP Valor de prova* Média±DP Valor de prova* Anestesistas 77,3±8,3 p<0,01 32,5±4,3 p=0,01 44,8±4,7 p<0,01 Não anestesistas 70,5±10,2 28,5±5,4 41,9±5,8 MI 70,6±9,9 p=0,924 28,1±5,5 p=0,295 42,5±5,3 p=0,346 CG 70,3±11,0 29,3±5,3 41,1±6,6 15 Tabela IV - Relação entre os scores total MSQ, MSQE e MSQI com as variáveis demográficas dos anestesistas e não anestesistas. Anestesistas Não anestesistas MSQ Total MSQE MSQI MSQ Total MSQE MSQI Categoria Profissional Especialista 76,4±8,3 32,1±4.1 44,3±4,9 70,5±13,3 28,8±6,4 41,7±7,6 Interno 80,4±7,7 33,8±4,7 46,6±3,7 70,5±6,7 28,3±4,5 42,2±3,7 Sexo Masculino 77,6±7,7 32,5±3,9 45,1±4,6 70,3±8,9 28,3±5,1 42,0±5,3 Feminino 77,2±8,7 32,5±4,5 44,7±4,8 70,6±11,0 28,7±5,6 41,9±6,1 Grau Académico Licenciatura / Mestrado pós-Bolonha 77,7±7,7 32,6±4,1 45,1±4,4 70,4±9,8 28,4±5,4 42,1±5,5 Mestrado pré-Bolonha 73,0±13,2 31,1±6,3 41,9±7,2 70,8±14,3 30,0±6,1 40,8±8,4 Carga trabalho semanal CHP ≤ 42 horas 76,1±8,1 32,8±4,4 45,3±4,4 70,7±10,4 28,5±5,5 42,4±5,9 CHP > 42 horas 74,9±8,5 31,6±3,9 43,3±5,3 69,0±9,5 28,4±4,8 40,6±5,5 Trabalhar no SU 77,3±8,7 32,4±4,5 44,9±4,9 70,7±10,3 28,6±5,5 42,1±5,9 ≤ 12 horas 80,0±9,0 33,6±4,4 46,4±5,1 71,8±6,8 28,8±3,7 43,0±4,0 >12 horas 76,1±8,4 31,8±4,4 44,3±4,8 70,3±11,4 28,6±6,0 41,7±6,4 Trabalhar no setor privado 74,9±6,5 31,2±3,2 43,7±4,2 71,1±11,5 28,3±6,2 42,8±6,5 ≤ 12 horas 74,6±6,8 31,1±3,0 43,5±4,6 70,5±14,0 27,9±5,6 42,7±6,5 >12 horas 76,4±5,6 31,8±4,4 44,6±1,7 72,8±14,0 29,5±7,8 29,5±7,8 Distância residência hospital** < 15 min 74,5±9,0 31,6±4,2 42,9±5,2 74,7±6,4 30,6±3,4 44,1±4,0 15-30min 78,6±8,0 32,8±4,4 45,8±4,3 69,6±9,8 28,2±5,2 41,3±5,6 >30min 76,4±7,1 32,4±3,1 43,7±4,3 68,2±14,0 26,9±7,3 41,3±7,9 Estado civil** Solteiro 75,6±9,6* 32,0±4,8 43,6±5,2* 71,5±10,2 28,8±6,1 42,8±5,2 Casado/União de facto 79,2±7,2* 33,1±4,0 46,0±4,1* 69,5±10,4 28,2±4,9 41,2±6,4 Divorciado/Viúvo 71,6±5,4* 29,9±3,3 41,7±4,4* NA NA NA Ter filhos 78,4±7,5 32,8±3,6 45,6±4,5 70,0±11,2 28,6±4,8 41,4±7,0 Ter atividade fora da área da saúde 77,4±7,9 32,2±4,1 45,2±4,4 71,2±8,8 28,9±5,2 42,3±5,0 Hábitos Tabaco 74,0±8,5 30,5±4,6* 43,5±4,9 71,9±11,5 30,6±5,0 41,3±7,0 Álcool 77,2±8,6 32,4±4,6 44,8±4,8 68,9±9,2 28,0±4,5 40,9±5,6 Ansiolíticos 75,7±8,7 31,7±2,9 44,0±6,7 NA NA NA Antidepressivos 72,5±5,8 31,0±2,5 41,5±4,5 71,0±3,0 29,0±6,6 42,0±3,6 Valor prova obtido por teste t-student **Valor de prova obtido por ANOVA *p < 0,05 NA – não se aplica 16 Por outro lado, os anestesistas fumadores têm uma satisfação média (74,0±8,5), enquanto os não fumadores têm uma satisfação elevada (78,0±8,2). Apesar de não haver diferenças estatisticamente significativas nesta variável, no que concerne o MSQ Total, quando se averigua a sua dimensão extrínseca, verifica-se que há diferenças, tendo os fumadores um score médio significativamente inferior (MSQE 30,5±4,6 vs não fumadores 32,9±4,1, p<0,05). Em relação aos médicos não anestesistas não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os scores MSQ total, MSQE e MSQI e as variáveis demográficas. Analisando cada item do questionário MSQ – short form corroboram-se diferenças entre os grupos anestesistas vs não anestesistas, exceto em 4 itens da dimensão intrínseca (atividade, serviço social, autoridade e utilização das capacidades) e 2 itens da dimensão extrínseca (estatuto social e valores morais) como se pode analisar na tabela V. Tabela V – Relação da média do score de cada item do MSQ entre os grupos anestesistas vs não anestesistas. MSQ Anestesistas (Média ± DP) Não Anestesistas (Média ± DP) Valor de prova* “Ser capaz de me manter ocupado(a) durante todo o tempo” 4,1±0.7 4,0±0,9 0.722 “Possibilidade de trabalhar de modo independente no meu cargo” 4,1±0,7 3,6±0,8 <0.01 “Oportunidade de fazer coisas diferentes de tempos a tempos” 4,1±0,9 3,7±1,0 0.018 “Oportunidade de “ser alguém na vida” “ 4,1±0,8 3,9±0.9 0.226 “Modo como o meu superior lida com os seus subordinados(as)” 3,9±0,7 3,4±1,0 <0.01 “Competência do meu supervisor na tomada de decisões” 3,9±0,7 3,6±1,0 0.009 “Possibilidade de fazer coisas que não vão contra a minha consciência / valores” 4,0±0,8 4,1±0,7 0.460 “Segurança / estabilidade que o meu emprego me oferece” 3,9±0,8 3,4±1,0 0.002 ”Possibilidade de ajudar outras pessoas” 4,4±0,6 4,5±0,6 0.764 “Possibilidade de dizer às pessoas o que fazer” 3,8±0,7 3,9±0,9 0.837 “Possibilidade de fazer algo em que faça uso das minhas competências” 4,3±0,7 4,1±0,9 0.108 “Forma como as políticas da instituição são implementadas” 3,1±0,9 2,5±1,0 <0.01 “Meu salário e da quantidade de trabalho que realizo” 2,6±0,9 2,0±1,0 <0.01 “Possibilidade de progressão profissional” 2,9±1,1 2,5±1,1 0.011 “Possibilidade de tomada de decisões por mim próprio(a)” 4,0±0,6 3,8±0,9 0.023 17 “Possibilidade de utilização dos meus próprios métodos para realização do meu trabalho” 4,1±0,5 3,7±0,8 <0.01 “Condições de trabalho” 4,1±0,5 3,2±1,0 <0.01 “Modo como os meus colegas se relacionam entre si” 4,0±0,6 3,7±1,0 0.005 “Reconhecimento por fazer um bom trabalho” 3,8±0,7 3,3±1,0 <0.01 “Sentimento de realização pessoal que obtenho no trabalho” 4,1±0,7 3,9±1,0 0.029 *Valor de prova obtido por teste t-student Por fim, foram construídos modelos de regressão logística univariados, tendo-se transformado o score MSQ numa variável dependente dicotómica, que pode assumir “satisfação média” ou “satisfação elevada”. Verificou-se, deste modo, que os anestesistas têm uma probabilidade 4,34 vezes superior (OR=4,34, IC 95% de 2,23 a 8,43) de ter uma satisfação elevada do que os não anestesistas. O modelo estudado é apresentado na tabela VI. Tabela VI – Modelos de regressão logística univariados estudados. *p < 0,05 OR IC 95% Não anestesista vs Anestesista* 4,34 2,23 – 8,43 Interno vs Especialista 1,53 0,81 – 2,90 Feminino vs Masculino 1,04 0,54 – 1,98 Mestrado pré - Bolonha vs Licenciatura / Mestrado pós-Bolonha 1,28 0,44 – 3,71 Carga de trabalho semanal CHP: > 42 horas vs ≤ 42 horas 1,44 0,75 – 2,78 SU : > 12 horas vs ≤ 12 horas 1,40 0,09 – 22,76 Privado : > 12 horas vs ≤ 12 horas 1,60 0,67 – 3,78 Distância residência hospital < 15 min 15-30 min >15 min 1 1,28 2,23 0,60 – 2,73 0,77 – 6,44 Estado Civil Solteiro Casado / União de facto Divorciado / Viúvo 1 0,78 1,28 0,42 – 1,52 0,30 – 5,54 Não ter f ilhos vs Ter filhos 1,17 0,63 – 2,18 Não ter a tividades fora da saúde vs Ter atividades fora da saúde 1,03 0,55 – 1,92 Não fumador vs Fumador 1,20 0,49 – 2,93 Não beber á lcool vs Beber álcool 0,71 0,38 – 1,33 Não tomar ansiolíticos vs Tomar ansiolíticos 0,93 0,20 – 4,30 Não tomar a ntidepressivos vs Tomar antidepressivos 0,93 0,20 – 4,30 18 Discussão Neste estudo, que englobou 85 médicos anestesistas e 80 médicos não anestesistas do Centro Hospitalar do Porto, verificou-se que os médicos anestesistas têm uma maior ST do que os médicos não anestesistas. Para além disso e de acordo com Weisset al, constatou-se que os anestesistas apresentam uma elevada satisfação com o trabalho e os não anestesistas têm uma satisfação média, assim como quando analisando separadamente os dois grupos, cirurgia geral e medicina interna. Os resultados de Chiron et al não revelaram níveis elevados de exaustão emocional e despersonalização em anestesistas franceses, que são explicados, segundo os autores, por autoridade no trabalho e elevada ST. Apesar de Morais et al terem encontrado alta prevalência de despersonalização nos anestesistas portugueses, Pereira et al averiguaram baixa percentagem de burnout nos anestesistas do CHP, o que, agora, vai ao encontro da elevada ST, aferida no presente estudo. Em relação aos não anestesistas, a literatura não corrobora todos os resultados aqui apresentados. Ao contrário dos nossos resultados, Ramirez et al demonstraram que os médicos de cirurgia geral expressam um nível elevado de ST que assim, possivelmente, protege-os do burnout, tendo concluído o mesmo Harmset al. No entanto, estes estudos foram realizados em Inglaterra e Estados Unidos da América, respetivamente, pelo que as diferenças encontradas nos resultados podem ser devidas às condições de trabalho diferentes nestes países. Segundo Shanafelt et al, o burnout é mais comum nos médicos do que noutros profissionais e as especialidades com maior risco são aquelas que estão na linha da frente no acesso aos cuidados de saúde, nomeadamente, a medicina interna. Desta forma, dado o nível médio de ST nos não anestesistas, o presente estudo abre portas para futuras investigações sobre burnout nos médicos não anestesistas do CHP. A literatura descreve que o facto de ser casado e/ou ter um ou mais filhos é fator protetor para burnout e conduz a maior ST.3 De facto, os anestesistas casados/união de facto têm elevada ST, seguindo-se os solteiros com pontuação no limite inferior da ST elevada e, por fim, os divorciados/viúvos têm uma ST média. Estes resultados do MSQ total refletem, sobretudo, a diferença significativa relativamente à dimensão intrínseca da ST. Por outro lado, os anestesistas que têm filhos apresentam uma maior ST, mas esta diferença não é significativa. 19 Da mesma forma, os anestesistas fumadores têm menor ST do que os não fumadores, sendo esta diferença significativa na dimensão extrínseca. Num estudo que incluiu anestesistas do CHP, a despersonalização é correlacionada com a toma de fármacos antidepressivos e sedativos. Contudo, não foi investigada a correlação entre tabagismo ou outros hábitos e burnout.15 Também, já foi reportado por Kluger et al que os anestesistas admitem que os colegas reagem ao stress, com elevada utilização de álcool e outras drogas. Desta forma, investigações futuras deverão averiguar a relação do tabagismo e outros hábitos com a ST nos anestesistas portugueses. Apesar de não haver diferença significativa entre a ST dos internos e dos especialistas de anestesiologia neste estudo, Chiron et al comprovaram que a ST é maior à medida que a idade aumenta, o que é explicado pelo facto do salário aumentar com a idade e pela concretização dos objetivos inicialmente traçados. Esta circunstância pode ter sido atenuada, neste estudo, devido à atual situação económica de Portugal com consequentes efeitos em todas as categorias da carreira médica. De salientar o facto do item 13 do MSQ – short form, referente ao pagamento pela quantidade de trabalho realizado, ser o item deste questionário que tem menor score tanto nos anestesistas, como nos não anestesistas, apontando de forma clara um fator que parece influenciar negativamente a ST das várias classes médicas do CHP. Relativamente à influência do género na ST, no nosso estudo não se verificam diferenças entre sexo feminino e masculino, contrariamente aos resultados de Morais et al que relataram níveis de stress mais elevados em anestesistas portugueses do sexo feminino, tal como Kluger et al verificaram nas mulheres anestesistas australianas. Também, Chiron et al constataram maior nível de exaustão emocional e menor ST no sexo feminino nos anestesistas franceses. No entanto, os nossos resultados são corroborados pelo estudo de Kinzl et al, onde explicam que, atualmente, homens e mulheres têm um papel igualitário na vida familiar, pelo que o género, agora, pode não refletir diferença na ST. Também, Morais et al mencionaram que os anestesistas que só trabalham no SNS têm maior nível de stress do que os que trabalham no SNS e no setor privado. No nosso estudo, apesar de não haver diferenças significativas, os anestesistas que só trabalham no CHP apresentam uma maior ST. Isto pode ser justificado à luz da carga de trabalho semanal total, ou seja, quem trabalha só no CHP, provavelmente irá trabalhar menos 26 27 28 Anexo 2 29 Anexo 3 Descrição dos resultados obtidos: medicina interna vs cirurgia geral 1 1 21 6 23 17 0 23 27 12 25 13 3 17 20 30 19 49 1 49 4 46 17 33 28 22 2 0 15 3 14 14 1 19 10 3 21 6 5 4 9 27 1 28 9 21 4 26 13 17 15 15 0 10 20 30 40 50 60 Antidepressivos Ansiolíticos Álcool Tabaco Atividades fora da área da saúde Filhos Divorciado / Viúvo Casado / União de facto Solteiro Distância residência hospital > 30 min Distância residência hospital 15-30 min Distância residência hospital < 15 min Privado > 12 horas Privado ≤ 12 horas Privado SU > 12 horas SU ≤ 12 horas SU CHP > 42 horas CHP ≤ 42 horas Mestrado Licenciatura / Mestrado Integrado Masculino Feminino Interno Especialista Cirurgia Geral Medicina Interna