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Tradução de contos de Ernest Hemingway

Isabel Maria de Eça Ferrão Oliveira Lopes

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FACUL DADE DE LET R A S U NIVE RSIDADE DO PO RTO Isabel Maria de Eça Ferrão Oliveira Lopes Tradução de contos de Ernest Hemingway 2012 Orientadora: Prof. Dra. Fátima Vieira Tese de Mestrado de Estudos Anglo-Americanos Variante: Tradução Literária Versão definitiva 2 Abreviaturas APT – Alexandre Pinheiro Torres JCR – José Correia Ribeiro MLO – Maria Luísa Osório 3 Índice Agradecimentos..………………………………………………………...........................4 Resumo/Abstract………………………………………………………………………...5 1.Introdução…………………………………………………………………………..….6 2.Teorias de Tradução……………………………………………………...…………....9 3. Os contos de Ernest Hemingway 3.1. O conto até aos dias de Ernest Hemingway………………………………..…...…14 3.2. Principais características nos contos de Ernest Hemingway………………………17 4. Análises de tradução 4.1. “Hills Like White Elephants” Interpretação…………………………………………………………………………....19 Análise da tradução…………………………………………………………………….26 4.2. “A Simple Inquiry” Interpretação……………………………………………………………………………28 Análise da tradução…………………………………………………………………….30 4.3. “A Canary for One” Interpretação…………………………………………...……………………………….35 Análise da tradução…………………………………………………………………….38 4.4. Análise da tradução de “The Undefeated”………………………………………..42 4.5. Estrangeirismos nos contos de Ernest Hemingway………………………………..47 5. Tradução e interpretações de conto sem título……………………………………....50 6. Conclusão……………………………………………………………………………52 7. Bibliografia...………………………………………………………………………...53 8. Traduções “Colinas como Elefantes Brancos”…………………………………………………….54 “Um Simples Interrogatório”…..………………………………………………………58 “Um Canário para alguém”………..………………………………………………...…61 “Os Invencíveis”……………………………………………………………………….66 4 Agradecimentos Em primeiro lugar agradeço à Senhora Professora Doutora Fátima Vieira, minha orientadora da tese de mestrado, por todos os conselhos, apoio e tempo que disponibilizou durante a elaboração deste trabalho. Agradeço também a todos os professores do Mestrado de Estudos Anglo Americanos pela maneira simpática e paciente com que transmitem conhecimento aos seus alunos, assim como às minhas muito prestáveis colegas de mestrado e licenciatura, principalmente às que entretanto se tornaram também boas amigas, pelo bom humor, por terem esclarecido as minhas dúvidas e pela partilha de material de pesquisa. Volto por este meio a agradecer a todos os meus amigos e familiares que contribuíram com uma interpretação especial para o meu trabalho. Estou muito grata aos meus pais, por todo o incentivo e apoio que me deram e também por terem enchido o meu quarto de livros, que de tão pesado que ficou, correu o risco de colapsar. Agradeço à minha avó, por sempre me ter incentivado a ler e que ainda hoje, aos 98 anos, mantém o seu hábito de leitura, agradeço ao meu irmão e agradeço a toda a minha grande família, aos que cá estão e aos que já partiram. Agradeço principalmente ao Duarte d’Orey por me ter acompanhado durante todo o processo de elaboração da tese, por ter apaziguado o meu nervosismo, pela paciência com que me ouviu ler excertos em voz alta vezes sem conta e por tantas vezes ter feito o jantar. Fugindo um pouco aos agradecimentos habituais, gostaria também de agradecer a todos os escritores que encheram e encherão a minha mente de conhecimento, lições de vida e fantasia e que conseguiram fazer o meu coração transbordar de sentimentos através do uso das palavras. Um especial obrigado a Ernest Hemingway por ter sido Ernest Hemingway. 5 Resumo Esta dissertação de mestrado trata a tradução dos contos “Hills Like White Elephants”, “A Canary for One”, “A Simple Inquiry” e “The Undefeated”, da autoria de Ernest Hemingway, para a língua portuguesa. Numa primeira instância foi feita uma contextualização acerca da vida e obra do autor, com especial foco na sua escrita de contos, e elaborada uma curta exposição das teorias de tradução que considerei mais relevantes para o meu trabalho. Numa segunda parte foi realizada uma interpretação dos contos, assim como uma exposição e análise das dificuldades e soluções encontradas durante o processo da tradução, sendo estas ainda comparadas com soluções de traduções já existentes. Abstract This master degree dissertation addresses the translation of the short stories “Hills Like White Elephants”, “A Canary for One”, “A Simple Inquiry” and “The Undefeated”, by Ernest Hemingway, into the portuguese language. First of all, a contextualization about the life and work of the author, with special emphasis on his short stories, was made, followed by a short exposition of the translation theories that I considered to be more relevant for this work. On a second part, I wrote an interpretation of the short stories, along with a presentation and analysis of the difficulties and solutions that I encountered during the translating process, followed by a comparison with other previously performed translations. 6 1. Introdução A presente dissertação oferece uma proposta de tradução dos contos “Hills Like White Elephants”, “A Simple Inquiry”, “ A Canary for One” e “The Undefeated” de Ernest Hemingway, assim como uma curta exposição e análise detalhada de algumas dificuldades encontradas no ato da tradução e as propostas para sua solução. As propostas foram por sua vez comparadas com as traduções de Maria Luísa Osório, Alexandre Pinheiro Torres e José Correia Ribeiro. Com especial foco nas teorias de tradução do século XX, que me ofereceram várias bases e conhecimento da área, foi elaborado um pequeno texto que visa salientar a importância que as questões culturais têm na tradução, bem como referir alguns aspetos que considero relevantes na área da tradução literária, pelos quais me procurei guiar durante o processo da tradução. Visto que considero a interpretação um aspeto bastante relevante que contribui para que uma boa tradução seja efetuada, elaborei também uma interpretação dos contos, sem deixar de referir outras possíveis interpretações. Nesta questão procurei manter-me o mais objetiva possível ao traduzir os contos de Hemingway, visto que muitos tradutores caem facilmente no erro de traduzir as obras como as interpretam, o que naturalmente as distancia das originais. Os contos que me propus traduzir fazem parte da coleção de contos Men Without Women, publicada pela primeira vez em 1927. Optei por escolher contos que tratassem de temas diferentes, mas, acima de tudo, que revelassem os aspetos principais da escrita de Hemingway. Podemos encontrar as traduções de “Hills Like White Elephants”, “A Canary for One” e “A Simple Inquiry” em Torrentes da Primavera/Um Gato à Chuva, primeira edição de 1975, traduzidos por Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres.“The Undefeated”, traduzido por José Correia Ribeiro, faz parte de As Neves de Kilimanjaro, editado em 2005. Traduzi ainda um curtíssimo conto sem título de Hemingway, tendo pedido a diversas pessoas que fizessem uma pequena interpretação do mesmo, de forma a conhecer a variedade de interpretações possíveis. Antes de iniciar a tradução dos contos de Hemingway dediquei-me a uma das atividades que mais prazer me dá quando leio textos narrativos, nomeadamente fazer uma análise e interpretação dos elementos que os constituem. Considero os contos de 7 Hemingway particularmente fascinantes pelos temas que apresentam, pelo realismo que os caracteriza e pelas técnicas de escrita que usa, que chegam a ser um estímulo para que o leitor use a sua imaginação e as suas experiências para refletir sobre o que fica por contar, ou até mesmo preencher esses espaços vazios. Penso que o facto de já ter lido outras obras do autor poderá ter contribuído para o processo de tradução, visto que estou familiarizada com os temas que aborda e o seu estilo de escrita. Não sei quantas vezes li e reli os contos para este trabalho, talvez acima de dez vezes cada um, e apesar de já os conhecer tão bem, sou sempre surpreendida pela arte que é a escrita de Hemingway, a cada leitura que faço. Passo a focar o autor dos contos, Ernest Hemingway, referindo os aspetos da sua vida e da sua atividade como escritor que considero mais relevantes para este trabalho. No prefácio de Miguel Sousa Tavares da série “A minha vida deu um livro”, em que podemos ler a biografia de Hemingway da autoria de Hans-Peter Rodenberg, lê-se: Hemingway foi tudo isso: soldado, jornalista, correspondente de guerra, viajante, aficionado de touros, caçador, pescador, praticante de boxe, apaixonado e mulherengo, amigo dedicado e, por vezes, torcido. E, acima de tudo, um grande, enorme escritor, a quem a sua formação inicial como jornalista, repórter de cidade, ensinou para sempre a escrever simples, absurdamente simples. (Miguel Sousa Tavares, em Rodenberg, 2011, p. 8) Miguel Sousa Tavares resume a vida de Hemingway em duas frases, e no entanto, a sua vida dava para escrever um extenso romance, repleto de eventos fascinantes passados nos locais mais recônditos, de figuras famosas e intrigantes, de acontecimentos excitantes e dramáticos, e de romances apaixonantes. Hemingway viveu a vida a fundo, e usava o que conhecia e observava nela na sua escrita. Ernest Hemingway nasceu a 21 de Julho de 1899 em Oak Park, Illinois, no seio de uma família conservadora e austera. O pai de Hemingway, Dr. Clarence Hemingway, era um médico extremamente religioso e rígido na educação dos seus filhos. Hemingway não teria tido uma boa relação com o seu pai, contudo foi com ele que aprendeu a pescar e a caçar, atividades que manteve ao longo da sua vida. Dr. Clarence Hemingway terá tido uma vida infeliz e sofria de perturbações psicológicas, o que o levou a cometer suicídio em 1928. A mãe, Grace Hall Hemingway, dedicava-se à 8 música e tinha uma personalidade bastante diferente do pai, embora fosse bastante dominadora. Habituado à vida sossegada de Oak Park e aos bosques de Michigan, em 1917 Hemingway foi trabalhar para o Kansas City Star por um período de 7 meses. Esta foi uma fase bastante importante para a forma como a escrita de Hemingway se desenvolveu. Quando começou a trabalhar foi-lhe entregue o guia de estilo Kansas Star, um guia com uma série de regras que ditavam a forma como deveria escrever para o periódico. O próprio Hemingway afirmou várias vezes que a sua experiência como jornalista foi fundamental para o seu estilo de escrita. Hemingway decidiu alistar-se como voluntário na primeira guerra mundial, e em Maio de 1918 tornou-se condutor de ambulâncias em Itália. Dois meses depois, quando ia fazer uma entrega a soldados que combatiam nas trincheiras, um projétil caiu junto de si, causando-lhe um grave ferimento na perna, tendo sido submetido a várias operações. Hemingway voltou então para os Estados Unidos, primeiro para casa dos pais, depois para Chicago, onde começou a conviver com escritores. Lá conheceu Hadley Richardson, com quem casou em 1921 e nesse mesmo ano, partiram rumo a Paris. Uma vez em Paris, viu-se rodeado de artistas e escritores famosos, rodeado de obras de arte, pessoas, cafés, festas e todo o tipo de eventos que lhe serviam de inspiração e começou a escrever, tornando-se parte do grupo que Gertrude Stein apelidou de Lost Generation. Para quem conhece tanto a obra, como a vida de Ernest Hemingway, torna-se inevitável não fazer uma ligação entre ambas. Podemos ler em várias obras suas, situações que remetem o nosso pensamento para as vivências de Hemingway. O próprio afirmou que um escritor deve escrever sobre o que conhece, e que passava muito tempo a observar as pessoas à sua volta. Estes aspetos contribuíram para que a sua escrita fosse tão diferente do tipo de escrita a que os leitores estavam habituados e que as suas obras se salientassem pelo enorme realismo presente. Em 1926 é editado o seu primeiro romance, The Sun Also Rises. A crítica do The New York Times é um bom exemplo da positiva receção que a obra teve: No amount of analysis can convey the quality of The Sun Also Rises. It is a truly gripping story, told in a lean, hard, athletic narrative prose that puts more literary English to shame. Mr. Hemingway knows how not only to make words be specific but how to arrange a collection of words which shall betray a great deal more than is to be found in the individual parts. It is 9 magnificent writing. ( The New York Times review of The Sun Also Rises, 31 October 1926). A partir de então, para além de uma carreira de sucesso, Hemingway foi o primeiro escritor a gozar o estatuto de uma estrela de Hollywood, recebendo enorme atenção por parte das entidades de comunicação social. Ao longo da sua vida foi colecionando aventuras como jornalista (estando presente em episódios históricos como o desembarque da Normandia e a Libertação de Paris), como revolucionário, como caçador, entre outras. Por volta de 1950 a sua vida de excessos e a sua tendência para acidentes tinha peso na sua saúde, que já estava debilitada. No âmbito da escrita a sua vida também não lhe corria da melhor maneira, visto que os últimos trabalhos que tinha publicado, haviam recebido péssimas críticas. Em 1951 Hemingway escreve The Old Man and the Sea, e em 1952 ganha o Pulitzer Prize. Dois anos depois, Ernest Hemingway recebe o Prémio Nobel da Literatura. A partir de então até ao fim dos seus dias, Hemingway leva uma vida triste, atormentada pela doença, pelo alcoolismo e pela incapacidade de escrever. A 2 de Julho de 1961, Hemingway decide por fim à sua existência como ser humano, visto que como escritor, vive ainda hoje através das suas obras. 2. Teorias de Tradução De acordo com o que se conhece da história, o homem já se dedica à tradução há cerca de 4000 anos. No ocidente, a primeira tradução de relevo foi a Septuagina, uma versão da Bíblia hebraica traduzida para o grego koiné entre o terceiro e primeiro século a.C., e a primeira tradução literária deu-se por volta do ano 250 a.C., quando Lívio Andrónico elaborou a tradução da Odisseia de Homero para latim.Foi na antiguidade clássica que as práticas e teorias de tradução começaram a ser discutidas. Nessa altura as opiniões já se dividiam entre tradução literal (metáfrase) e tradução livre (paráfrase). Cícero e Horácio, duas figuras de relevo da antiguidade clássica, não confiavam na técnica de traduzir palavra por palavra, e defendiam a tradução livre. A partir destes conceitos foram-se formando as primeiras teorias de tradução. Como é natural, as teorias vão evoluindo ao longo do tempo, revelando as posições mais distintas, relativamente a qual seria o método correto de efetuar uma 16 publicados. O conto tornou-se então bastante popular, o que fez com que aparecessem novas formas do género. A partir dessa altura foi publicada uma maior diversidade de contos, tais como os contos satíricos, os contos cómicos, os contos policiais, os contos de ficção científica, entre outros. É neste panorama que vão surgindo cada vez mais contos modernos, ou modernistas, tendo como principais figuras escritores como Katherine Mansfield, James Joyce, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Adrian Hunter, em The Cambridge Introduction to the Short Story in English, refere um episódio bastante curioso, que demonstra a reação de Thomas Hardy ao caráter enigmático de um conto modernista de Katherine Mansfield. When Thomas Hardy finished reading Katherine Mansfield’s story ‘The Daughters of the Late Colonel’, one day in 1921, he assumed that there would be a sequel. He didn’t recognize the ending as an ending, or the story as complete in itself. He told Mansfield as much. She was bemused. ‘I put my all into that story’, she wrote to a friend, ‘and hardly anyone saw what I was getting at…As if there was any more to say!’ (Mansfield, como citado em Hunter, 2007) Na verdade a reação de Hardy não seria muito diferente da reação de um leitor que se depare com um conto modernista, não estando familiarizado com os aspetos que o caracterizam. Os contos modernistas definem-se como contos episódicos, sem enredo, enigmáticos, que possuem normalmente um final em aberto e provocam o leitor. É um género de conto cujas características se aproximam bastante das que encontramos nos contos de Anton Chekov. James T. Farrell refere a influência que a originalidade de Chekov teve nos seus escritores contemporâneos. Chekhov raised the portrayal of banality to the level of world literature. He developed the short story as a form of literary art to one of its highest peaks, and the translation of his stories into English has constituted one of the greatest single literary influences at work in the short story of America, England, and Ireland. This influence has been one of the factors encouraging the short-story writers of these nations to revolt against the 17 conventional plot story and seek in simple and realistic terms to make of the story a form that more seriously reflects life. (Farrell, 1952). De facto muitos escritores de contos modernistas admiravam Chekov. Ernest Hemingway citou-o várias vezes como um dos escritores que mais influenciou a sua escrita (“Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turgenev, Tolstoy, Dostoyevsky, Chekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, the good Kipling, Thoreau, (…)” The Paris Review, 1958). Principais Caraterísticas nos contos de Ernest Hemingway George Plimpton comentou numa entrevista para a Paris Review que quando Ernest Hemingway não escrevia, permanecia um observador constante à procura de material para usar nas suas obras. Hemingway confirmou-o com as seguintes palavras: Surely. If a writer stops observing he is finished. But he does not have to observe consciously nor think how it will be useful. Perhaps that would be true at the beginning. But later everything he sees goes into the great reserve of things he knows or has seen. If it is any use to know it, I always try to write on the principle of the iceberg. There is seven-eighths of it underwater for every part that shows. Anything you know you can eliminate and it only strengthens your iceberg. It is the part that doesn’t show. If a writer omits something because he does not know it then there is a hole in the story. (The Paris Review, 1958) A resposta que Hemingway deu, revela não só o método que usava na escrita dos contos, mas também a sua filosofia de escrita em geral. Os seus contos caracterizam-se por um estilo de escrita aparentemente simples, em que utiliza vocabulário corrente, frases curtas, numa prosa direta e sem adornos. Independentemente de ser participante ou não-participante, não é comum haver qualquer tipo de sinais de subjetividade e emoção por parte do narrador. O tom mantem-se neutro e não exprime as emoções; parece mesmo prende-las ou reprimi-las, o que resulta muitas vezes no efeito oposto. Se por um lado tais características fazem com que a sua narração seja bastante acessível ao 18 leitor, por outro lado, longe de possuir o carácter simples e transparente que aparenta, torna-se comum o leitor sentir uma espécie de provocação ao deparar-se com complexos simbolismos e frases intrigantes. Hemingway tornou-se perito em economizar nas palavras, através de uma cuidadosa seleção, e ao escrever apenas o essencial. Na narrativa de Hemingway, a frase mais curta e mais simples pode ser a mais poderosa, carregada de tensão. Como o próprio descreve, referindo-se à teoria do icebergue, Hemingway escrevia sobre o que conhecia, e quando um autor escreve sobre o que conhece, pode omitir certos detalhes da história, o que torna o seu impacto mais forte no leitor. Na verdade, o estilo de escrita de Hemingway quase que obriga o leitor a prender-se ao texto. Em Death in the Afternoon, da sua autoria, o escritor explica de forma semelhante o efeito da teoria do icebergue. “If a writer of prose knows enough about what he is writing about he may omit things that he knows and the reader, if the writer is writing truly enough, will have a feeling of those things as strongly as though the writer had stated them. The dignity of movement of the iceberg is due to only oneeighth of it being above water.” (Hemingway, 1932) O que Hemingway escrevia nos contos corresponde à parte do icebergue que se mantem acima da superfície. Contudo, como afirma, para cada parte à superfície existem sete oitavos debaixo da água, pelo que será pertinente referir a ideia de que o leitor é obrigado a de certa forma envolver-se no conto, a “ler nas entrelinhas”. É através desta técnica que Hemingway provoca os leitores dos seus contos, incitando-os a interrogarem-se e a fazerem uma interpretação acerca do que leem, e, também, do que não leem. Encontramos uma forte simbologia em muitas das suas obras, no entanto Hemingway sempre negou haver simbolismo nos seus romances e contos. Na mesma entrevista é-lhe feita a pergunta se admite haver simbolismo nos seus romances, contudo penso que a resposta de Hemingway é apropriada também aos contos, visto que o escritor sempre defendeu não usar simbologia na sua prosa. I suppose there are symbols since critics keep finding them. If you do not mind I dislike talking about them and being questioned about them. It is hard enough to write books and stories without being asked to explain them 19 as well. Also it deprives the explainers of work. If five or six or more good explainers can keep going why should I interfere with them? Read anything I write for the pleasure of reading it. Whatever else you find will be the measure of what you brought to the reading. (The Paris Review, 1958) Esta alia-se às suas curtas descrições, repletas de imagens e sensações cinéticas que transmitem uma forte noção de realismo ao leitor. Hemingway escrevia sobre a vida. Muitos dos temas que aborda na sua obra estão relacionados com vivências pessoais e vivência alheias que conhecia. Nos contos de Hemingway, tal como nas narrativas, é frequente depararmo-nos com temas como a separação, o aborto, a guerra, a solidão, e outras questões, ao mesmo tempo comuns e trágicas, que afetam a vida do ser humano. O escritor tinha como hábito observar o comportamento humano de modo a exprimi-lo o mais autenticamente possível. Hemingway era também considerado um “mestre dos diálogos”. Os diálogos hemingwayanos são simples, coloquiais, e captam a essência do tom casual e conversacional da forma como as pessoas falam na vida real. Estes desempenham um papel importante e eficaz na construção de personagens e situações apresentadas nas suas narrativas. Em grande parte dos contos de Hemingway, é através da interação das personagens que o leitor se apercebe do tema do conto ou da situação que vivem. Essa perceção dá-se tanto através dos diálogos como da falta destes, ou melhor dizendo, do silêncio. Tal como acontece com a escrita de Hemingway, relacionada com a teoria do icebergue, muitas vezes as personagens exprimem-se ao não falar. Talvez mais do que um mestre dos diálogos, Hemingway foi um mestre da sugestão. 4. Interpretação e análise da tradução dos contos “Hills Like White Elephants”- Interpretação “Hills Like White Elephants” é um dos contos mais aclamados e mais complexos de Ernest Hemingway, sendo um conto de referência que exemplifica tanto a sua habilidade no uso da técnica do icebergue, como na sua habilidade para escrever diálogos realistas. Numa primeira instância apresento uma interpretação do conto e análise da simbologia presente no mesmo. 20 A ação de “Hills Like White Elephants” passa-se numa estação de comboios, em Espanha, na região do vale do Ebro. No início do conto é feita uma descrição da paisagem e da estação onde um casal, um homem americano e uma “rapariga”, espera pela chegada do comboio proveniente de Barcelona, rumo a Madrid. O casal está sentado a uma mesa à sombra, abrigando-se do calor, no exterior do edifício. Desenvolve-se um diálogo entre ambos, que compõe a maior parte da ação. Tal como em vários outros contos de Hemingway, a aplicação da técnica do icebergue é percetível. Neste conto, em particular, há a presença de uma forte sensação do que “fica por dizer”, tanto nas descrições como nas falas dos personagens, o que força o leitor a refletir e a fazer a sua própria interpretação do conto. À medida que o diálogo se desenvolve, torna-se gradualmente claro o tema em discussão. O tema é referido de forma indireta como uma operação, o que leva o leitor a deduzir que a operação em questão é um aborto. O americano e a rapariga, Jig, decidem beber uma cerveja enquanto esperam pelo comboio. A sua conversa, aparentemente trivial, rapidamente conduz ao conflito entre ambos. A rapariga faz certas observações, aludindo à aparência das colinas e do sabor a alcaçuz do anis, que o americano toma como provocações ou indícios de ressentimento relativamente à situação em que se encontram. Jig está grávida e é pressionada pelo companheiro americano a fazer um aborto. A situação não é clara desde o início, sendo exposta de forma gradual, através do diálogo entre ambos, das descrições e da simbologia. Pouco é dado a conhecer sobre as personagens. Trata-se de um casal que viaja bastante, o que ficamos a saber através da descrição das suas malas, e que parece levar uma vida despreocupada, de lazer, passando o tempo a experimentar novas bebidas e a observar o que os rodeia. A gravidez de Jig veio destabilizar as suas vidas. Para o americano, a gravidez é um entrave, pelo que procura convencer a rapariga de que a operação é muito simples e de que assim que se virem livres do que os incomoda, da situação que os torna infelizes, voltarão a poder voltar a ter a vida que tinham, a ser felizes. O americano afirma não querer pressionar ou obrigá-la a fazer algo contra a sua vontade, o que parece bastante hipócrita, tendo em conta a sua insistência e pressão que é exercida sobre a rapariga. Para um leitor que tenha conhecimento das leis relativamente ao aborto em Espanha, o comportamento do americano poderá parecer ainda mais egoísta e irrefletido, visto que nesse País o aborto era considerado um ato criminoso até 1983. O conto foi na verdade publicado, numa época de grande conservadorismo. Apesar de não 21 haver alusão ao tipo de relação que as personagens têm, podemos partir do princípio de que são casados, numa altura em que do ponto de vista social, moral e religioso da época, um relacionamento consumado que não envolvesse casamento era considerado uma transgressão. A situação do casal é agravada pelo facto de a rapariga ter engravidado. Para além de o americano estar a propor-lhe cometer um crime, um aborto acarreta sempre certas consequências físicas, sociais e psicológicas que podem deixar marcas permanentes numa mulher. Longe de ser uma operação simples, como o americano afirma, o aborto sempre foi causa de morte de muitas mulheres. Jig mostra-se ressentida pela natureza dos comentários do seu companheiro, e apesar de afirmar que irá em frente com a operação para lhe agradar, revela vontade de não pôr fim à gravidez. As falas e linguagem corporal da jovem refletem uma atitude submissa em relação ao homem americano. A própria afirma que fará o aborto porque não se importa com ela mesma, o que demonstra o seu desejo de agradar o companheiro. De certa forma parece que, independentemente da escolha, um deles sairá a perder. O final do conto é em aberto. Não sabemos que decisão tomará Jig, (a sua atitude é bastante intrigante), mas existem alguns elementos no conto que podem ser considerados como fortes indícios da decisão das personagens. “Hills Like White Elephants” apresenta de facto uma simbologia subtil mas poderosa. Há uma curiosa ligação entre os personagens e o espaço que os rodeia. No lado do vale onde a estação se encontra, talvez na área de Saragoça, uma área normalmente bastante seca e quente devido à escassa precipitação, a paisagem é árida, sem vegetação, contrastando com a paisagem do lado oposto. A caracterização do lado em que as personagens se encontram sugere a ideia de infertilidade, pois a natureza não se desenvolve, o que se pode associar ao homem americano e à sua vontade de que Jig faça um aborto. Jig contempla as colinas e a paisagem do outro lado da linha. Vê o rio, símbolo de fertilidade, uma paisagem com árvores e campos, onde há vida, o que reflete a sua vontade de não por fim à sua gravidez. A própria forma das colinas ou montanhas remete para a imagem da barriga protuberante de uma mulher grávida. As colinas, como elementos da natureza estacionários, podem ser também vistos como símbolos de barreiras, obstáculos que não podemos remover da nossa frente, mas das quais nos podemos desviar. De uma determinada perspetiva, as colinas podem simbolizar a necessidade de estabilidade que se opõe ao estilo de vida de ambos, e que contraria a vontade e os planos do americano. Esta ideia é reforçada pela fala de Jig, quando, olhando para as colinas, afirma que podiam ter tudo aquilo, alusão que o americano não 22 compreende. A rapariga compara as colinas a elefantes brancos, uma expressão bastante simbólica. “Elefante branco” é uma expressão idiomática para uma posse rara e valiosa, mas que também é vista como um fardo, de que o seu proprietário não se pode livrar1. Neste caso, o elefante branco é a vida gerada por Jig, que representa um fardo na vida de ambos. No entanto, Jig tem a capacidade de imaginar um elefante branco nas colinas. Mesmo que possa ser um encargo, Jig vê algo valioso e único na sua gravidez, e uma hipótese para mudar o estilo de vida de que parece estar saturada e em que não encontra já significado. O americano afirma nunca ter visto um elefante branco, nem tão pouco se mostra interessado na paisagem. Para ele, a gravidez de Jig não passa de um obstáculo, e não tenta sequer compreender que está a privá-la de obter o seu “elefante branco”. Por implicar um grande custo, não é proporcional ao seu valor ou utilidade. O termo tem origem na simbologia que envolvia os elefantes albinos. Estes eram considerados sagrados e eram mantidos por monarcas do Sudoeste Asiático. Receber um elefante branco como presente era uma honra, mas também um grande encargo devido aos custos necessários para o manter. Tal como em “A Canary For One”, encontramos neste conto uma conotação simbólica atribuída ao comboio e aos carris. Pela forma como o conto está elaborado, parece que a espera do casal pelo comboio no exterior da estação é a espera por uma decisão, um momento de reflexão após o qual embarcam no comboio e seguem o caminho das suas vidas. A estação encontra-se no meio de dois carris e simboliza a situação de impasse em que ambos se encontram. As duas trilhas representam duas direções opostas, os dois lados contrastantes da paisagem revelam figurativamente a vontade das personagens, de facto, o cenário reforça o conflito, mas a sua importância no conto vai mais além do simbolismo, pois é através de uma análise do cenário e da interação das personagens com este que podemos encontrar um fio condutor lógico que nos permite desvendar o fim em aberto do conto. Ao longo do conto o número dois é uma constante. Os dois elementos que formam o casal, as duas linhas, as duas paisagens, os dois carris e o ato da rapariga ao pegar em duas fiadas de missangas de bambu. As personagens estão habituadas a viver uma vida a dois, uma vida cujas circunstâncias não são favoráveis nem adequadas a que surja um terceiro elemento. A cortina de missangas de bambu é um elemento que os 1 Por implicar um grande custo, não é proporcional ao seu valor ou utilidade. O termo tem origem na simbologia que envolvia os elefantes albinos. Estes eram considerados sagrados e eram mantidos por monarcas do Sudoeste Asiático. Receber um elefante branco como presente era uma honra, mas também um grande encargo devido aos custos necessários para o manter. 23 isola, que os separa da mulher do bar da estação e das pessoas que nele se encontram, esperando pelo comboio. Pode, contudo, ser interpretada como algo que os une, ou a vida que resultou da sua união, se tivermos em conta a conotação simbólica que o bambu possui2. Como foi já referido, para fazer uma interpretação de “Hills Like White Elephants” é importante analisar as personagens, assim como o seu comportamento e interação com o cenário que os rodeia. O modo como as personagens são expostas ao leitor é contrastante. De certa forma, o autor quase nos compele, por vários motivos, a sentir maior empatia com a rapariga, que demonstra uma maior profundidade psicológica do que o seu companheiro. Apesar de o conto estar escrito com um vocabulário neutro, sem qualquer conotação emotiva, o simbolismo tem uma conotação fortíssima, e aliado a certas partes do diálogo resulta numa provocação emocional e reflexiva, no leitor. O homem americano permanece anónimo no conto, fator que de certa forma o distancia do leitor. Ao leitor, é dado a conhecer o seu estilo de vida e a sua vontade de que a rapariga faça um aborto. O americano, ao não ser capaz de perceber as alusões que a rapariga faz e o conflito interior que a alimenta, mostra ser uma personagem supérflua. A sua conduta para com a rapariga deixa, de facto, transparecer um enorme egoísmo, falta de compreensão e até mesmo desconhecimento, quando se refere ao aborto como “uma operação muito simples. A rapariga, cujo nome é dado a conhecer numa fala do americano, apresenta uma dimensão psicológica associada a uma dimensão espacial simbólica, e como personagem passa por um processo evolutivo. A atitude da rapariga é, inicialmente, uma atitude de submissão perante o homem. Inserese num estereótipo da mulher passiva, habituada a deixar-se subjugar às vontades e decisões do homem. O estilo de vida boémio a que estão habituados, - sempre a viajar e provar novas bebidas -, parece ter-se tornado em algo que perdeu significado para a rapariga, mas que o americano quer manter a todo o custo. Jig mostra-se incapaz de formular o que verdadeiramente pensa e sente em relação ao aborto. É curioso que Hemingway tenha escolhido o termo “rapariga” em vez de “mulher”, pois reforça ainda mais a ideia da sua submissão, insegurança e falta de assertividade. A sua inabilidade para confrontar diretamente o americano vê-se espelhado na forma como se exprime no início do conto, recorrendo a uma linguagem 2 Em vários países da Ásia, o bambu é símbolo de vida e longevidade. Existe ainda a lenda de que a humanidade teve origem no bambu. 24 figurativa, ao sarcasmo e ao silêncio perante a insistência e ignorância do seu companheiro. A sua atitude revela também, de uma forma irónica, quer ao leitor, quer ao homem americano, o enorme egoísmo da personagem masculina. Ao aperceber-se disso, o americano muda o seu tipo de abordagem, reconhecendo que a rapariga deverá seguir em frente com a gravidez se for essa a sua vontade. A rapariga afasta-se do seu companheiro, levantando-se e caminhando até ao fim da plataforma, onde observa pela primeira vez a rica, fértil e simbólica paisagem do outro lado do rio. Num sentido figurativo, a rapariga contempla o que a paisagem representa: a vida, a vontade de manter a sua criança. Há um paralelismo linguístico e simbólico entre a descrição que abre o conto e a descrição dessa paisagem, que fortalece o dilema da rapariga e o conflito do casal. Podemos observar uma mudança na sua atitude após a contemplação. A rapariga parece ter sofrido uma revelação da sua própria vontade, daquilo que realmente quer. Quando volta para junto do americano, regressa para o lado da estação onde a paisagem é seca. O companheiro retoma a sua tendenciosa conversa de que aceitará e dará o seu apoio à rapariga independentemente da decisão que ela tome, sem no entanto deixar de a pressionar. A rapariga tenta agora persuadi-lo de que a sua gravidez poderia ter significado para o americano e de que poderiam viver bem com a presença de uma criança, mas mais uma vez a posição oposta de ambos colide na tentativa de chegarem a um consenso. A rapariga reage contra a pressão e hipocrisia do companheiro com subtil assertividade, quando em forma de pedido, ordena ao americano que se cale, repetindo “por favor” sete vezes. O americano olha para as malas e para os autocolantes de todos os hotéis onde tinham estado. As malas simbolizam o estilo de vida despreocupado que tinham, mas é também possível fazer uma outra interpretação do que a frase sugere a relação sexual e descomprometida que tinham e, que sofrerá uma transformação com a chegada de uma criança. O americano começa de novo a falar, mas a rapariga fá-lo calar-se num tom de ameaça. O facto de o americano olhar para as malas, e o que diz a seguir, levam a crer que finalmente compreendeu o que a rapariga sente e deseja. Existem diversas interpretações do final do conto. A interpretação mais comum é de que a rapariga cede à insistência do seu parceiro. Outra interpretação comum é de que a rapariga, para além de se aperceber de que quer ir em frente com a gravidez, apercebe-se também da futilidade e hipocrisia do americano, pelo que a separação do casal, apesar de nada o indicar diretamente, é inevitável. Numa primeira leitura, a minha interpretação foi igual à mais comum. No entanto, depois de ter procedido a uma análise 25 mais profunda do conto, e tendo em conta todos os fatores referidos, concluo que a atitude do americano leva a crer que é ele quem cede à vontade da rapariga. No final do conto, há quase uma inversão dos papéis de cada um. A senhora do bar avisa-os de que o comboio chegará dentro de breves instantes. A rapariga oferece-lhe um sorriso radiante, em agradecimento. O uso do adjetivo assume um papel importante: se interpretarmos o sorriso como algo mais do que uma atitude de gratidão para com a senhora do bar, é uma afirmação por parte da rapariga, de que resolveu o seu dilema e poderá viver em paz. O americano leva as malas para o outro lado da estação, o lado associado à rapariga. Este simples ato pode ser tomado como um sinal de que o americano desiste de controlar a vida de ambos, oferecendo-lhe “as rédeas” da relação, e, consequentemente, da sua vida. Quando o americano volta para acabarem as bebidas, passa pelo bar e bebe um copo de anis sozinho. Esta ação parece indicar que se está a habituar à ideia de que não vai poder continuar com o estilo de vida que tinham “a dois”. O americano observa que as pessoas esperam “razoáveis” pelo comboio. Num sentido figurado, as pessoas esperam e aceitam o destino que a vida lhes reserva, sem o recearem, ao contrário dele. O homem americano volta para a mesa onde se encontra a rapariga e pergunta-lhe como se sente, ao que a rapariga responde que se sente bem e que não há nada de errado com ela. Estamos perante um final tão intrigante como o de “A Simple Inquiry”. Contudo, ao contrário desse conto, Hemingway dá várias pistas ao leitor para que possa interpretar o final de “Hills Like White Elephants”. De certo modo, a forma como o conto até na estrutura permite fundamentar as três possibilidades de interpretação acima referidas. Penso contudo que existe de facto uma lógica, um fio condutor quase impercetível, que levou a que me sentisse mais inclinada a fazer a interpretação de que no final a rapariga opta pela vida da criança, pela sua vontade, e em que o americano, embora contrariado, respeita a sua decisão. Como já foi referido, diálogo entre Jig e o americano é apontado como um dos diálogos em que melhor se comprova a mestria de Hemingway em observar a forma como as pessoas dialogam e interagem e a captá-la na sua escrita de um modo bastante realista. As frases são curtas, repetitivas e oferecem ritmo ao diálogo. Mesmo com uma economia de palavras, Hemingway prova que é capaz de pintar um cenário realista, de utilizar a palavra certa no momento certo, e de deixar a imaginação do leitor divagar pelo conto, preenchendo os espaços vazios das palavras e conceitos que Hemingway opta por omitir. 32 e estrutural. De modo a conferir maior fluidez, optei por inverter certas palavras e orações. While he worked at the papers he put the forgers of his left hand into a saucer of oil and then spread the oil over his face, touching it very gently with the tips of his fingers. He was very careful to drain his fingers on the edge of the saucer so there was only a film of oil on them, and after he had stroked his forehead and his cheeks, he stroked his nose very delicately between his fingers. Enquanto tratava dos papéis, punha os dedos da mão esquerda num pires com azeite e espalhava-o pela cara, tocando-lhe suavemente com as pontas dos dedos. Tinha o cuidado de escorrer bem o azeite dos dedos na borda do pires para ficar apenas com uma fina camada, e depois de o ter aplicado na testa e nas bochechas, aplicava no nariz, por entre os dedos, com muita delicadeza. Na solução apresentada na tradução de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, as frases do texto de partida sofrem várias alterações estruturais e léxicas. Podemos observar que parte da segunda frase é inserida na primeira, e em ambas encontramos omissões, inclusões e alterações de expressões. Sempre a estudar os seus papéis, mergulhava os dedos numa tacinha cheia de azeite, escorria-os bem de encontro ao rebordo e depois untava a cara toda. Massajava a testa e as faces e em seguida o nariz com tal precaução que mais parecia acariciá-lo. Ao traduzir a primeira frase dos exemplos abaixo enunciados, deparei-me com a expressão to get through, que não possui equivalente na língua portuguesa, pelo que optei por procurar equivalentes a nível semântico. A segunda frase sofreu alterações devido à impossibilidade de traduzir o tempo verbal em que o verbo to read se encontra conjugado, o que automaticamente implica a necessidade de modificar a sua estrutura. Operou-se também uma extensão da frase devido à impossibilidade de traduzir a expressão until it was done. 33 He had too much paper-work to get through. He could not enjoy reading until it was done. Tinha muita papelada para tratar. Não conseguia entregar-se ao prazer da leitura antes de tratar de tudo. Na tradução “Um Simples Interrogatório” dá-se uma junção das frases e a omissão de until it was done, o que modifica o seu sentido, pois pode dar a entender que o personagem simplesmente não tem prazer na leitura, quando no conto original está explícita a ideia de que este não tem prazer na leitura enquanto não terminar o seu trabalho. É utilizado o termo “expedir”, o que não transmite de forma adequada a expressão to get through. Havia muita papelada para expedir e não tinha nenhum prazer na leitura. Ao contrário do caso acima enunciado, é possível traduzir a expressão abaixo para “Sê cuidadoso, Pinin”, o que se assemelha ao original. Contudo, penso que tal solução não exprimiria o sentido pretendido, para além de que conferiria à expressão um carácter formal que não existe no texto de partida. “Be soft, Pinin” Com cuidado, Pinin. O sentido da expressão foi apresentado de forma semelhante na tradução “Um Simples Interrogatório”. No entanto foi-lhe atribuída maior expressividade através do sinal de exclamação que não consta no texto de partida. Cuidado, Pinin! Passo a focar um problema, do qual me procurei esquivar, que torna “A Simple Inquiry” bastante complicado de traduzir, nomeadamente o da interpretação. Nas minhas soluções de tradução, procurei escolher termos que me parecessem ter uma carga mais neutra ao traduzir o diálogo entre o Major e Pinin, tendo em conta as 34 diferentes interpretações possíveis que se pode fazer do texto. Apresento no seguninte passo as minhas soluções: – Ele não consegue ouvir – disse o major. – Tens a certeza de que amas uma rapariga? – Tenho. – E – o major olhou-o bruscamente, – de que não és corrupto? – Não percebo o que quer dizer com corrupto. – Tudo bem – disse o major. – Não precisas de te armar em superior. Pinin olhou para o chão. O major olhou para ele de cima a baixo, para a face castanha e para as suas mãos. Depois continuou, sem sorrir. – E não queres mesmo… – o major interrompeu-se. Pinin olhou para o chão. – Que o teu grande desejo não é mesmo… Pinin olhava para o chão. O major voltou a encostar a cabeça no saco cama e sorriu. Estava mesmo aliviado: a vida no exército era demasiado complicada. Na tradução de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, as opções de tradução que foram aplicadas seguem uma tendência de interpretação, o que faz com que o mistério e a intriga que envolvem a sua leitura se percam, em particular na forma como o diálogo entre o Major e Pinin foi traduzido, que facilmente conduz o leitor à ideia de que o Major manifesta interesse sexual por Pinin. As diferentes possibilidades de interpretação são praticamente inexistentes aquando a leitura da tradução “Um Simples Interrogatório”. Por vezes, as escolhas dos tradutores implicam consideráveis modificações na estrutura e conteúdo do conto, a nível de omissão ou inclusão de expressões que não constam no texto de partida. O exemplo que se segue abaixo demonstra como MLO e APT lidam com a mesma parte do texto: – Ele não ouve – disse o major. – Mas estás convencido do teu amor por uma rapariga? – Inteiramente convencido! – E… – O major deitou-lhe uma rápida olhadela de soslaio. – Tu tens a certeza de não te deixares perverter? – Eu não percebo meu major… O que é perverter? 35 – Ora, ora! – replicou o major. – Escusas de te fazer espertalhão! Pinin baixou os olhos. O major estudou-lhe o rosto bronzeado, mediu-o dos pés à cabeça e parou nas mãos. Depois continuou, sem sorris: – Mas, de verdade, tu não queres?... O major susteve-se. Pinin continuava com os olhos cravados no chão. – Mas tu, sinceramente, não tens um grande desejo?... Pinin não desapegava os olhos do chão. O major enterrou a cabeça no seu saco de viagem e sorriu, sentindo-se burlado: a vida no exército é complicadíssima! De uma forma geral, “A Simple Inquiry” é o conto mais simples em vários aspetos, comparativamente aos restantes contos analisados, exceto na sua interpretação. Quer nas descrições, quer nos diálogos, este conto apresenta uma linguagem e estrutura frásica bastante simples. De um modo geral, a nível lexical e estrutural, as dificuldades de tradução com que me deparei, relacionam-se com a impossibilidade de traduzir expressões à letra. Procederam-se também a alterações de modo a que o texto conservasse a sua fluidez na língua de chegada, mas o objetivo principal foi que a essência da tradução estivesse fiel, que fosse transmitida ao leitor do texto de chegada de forma a provocar a mesma reflexão e possíveis interpretações que provoca o texto de partida. “A Canary for One”- Interpretação A ação de “A Canary for One” decorre a meio de uma viagem de comboio até Paris e desenrola-se à volta de um casal americano e uma senhora americana, que partilham um compartimento-quarto. A conversa dá-se entre ambas as mulheres, havendo apenas uma intervenção por parte do homem americano. A senhora americana, que leva um canário para a sua filha, rapidamente revela alguns tópicos íntimos relacionados com a sua filha e um jovem suíço por quem esta estava apaixonada. Do ponto de vista da senhora americana, nenhum homem que não fosse americano seria capaz de fazer a sua filha feliz, e por isso decidira levá-la para longe, apesar de saber que esta sofria. Após o comboio terminar a viagem, o homem revela que ele e a sua mulher vieram a Paris para se estabelecerem em residências separadas. 36 Ao longo do conto, há uma alternância entre momentos de descrição e diálogo, sob o ponto de vista do narrador-personagem participante, um homem americano. A mensagem do conto não é explícita até à última frase, em que nos é revelada a grande ironia de toda a situação. O conto apresenta uma estrutura bastante curiosa, na forma como o narrador foca aspetos que observa ao longo da viagem, tais como as paisagens por onde o comboio passa, a senhora americana e a conversa que esta tem com a sua mulher. Temse a sensação de que o narrador apenas observa. As descrições das paisagens ou estações por onde o comboio passa refletem um distanciamento do narrador em relação ao que lhe está mais próximo, quer numa esfera física, quer numa esfera psicológica. Apesar de este não ter uma intervenção que pareça relevante na ação, é precisamente essa atitude não participativa que é relevante para a interpretação do conto. O conto vai gradualmente focando o cerne da questão, havendo uma alternância entre cenas exteriores e interiores. Numa primeira instância, é dada ao leitor informação através das descrições dinâmicas e algo sinestéticas do narrador, primeiro acerca das paisagens, seguida de informação acerca da senhora americana e do seu canário. Volta a haver um enfoque no exterior, nomeadamente nas estações por onde passam, seguido do diálogo entre a mulher e a senhora americana. É através dos diálogos e do que o narrador “escolhe” divulgar que o leitor vai obtendo informação acerca das personagens e é só no final que toda a situação, que inicialmente se parece focar apenas na senhora americana, se torna clara. A teoria do icebergue insere-se perfeitamente em “A Canary for One”. É um conto conciso, de mensagens implícitas, escondidas sob a superfície, repleto de simbolismos ligados ao percurso da vida e as suas inevitáveis tragédias. O próprio título sugere a solidão em que os personagens se encontram. O canário, animal que deveria estar livre na natureza, encontra-se fechado numa gaiola. A história inicia com a descrição da paisagem por onde o comboio passa. No conto, o comboio simboliza a vida, e as paisagens por onde este passa poderão ser interpretadas como representativas das diferentes fases da vida pelas quais as pessoas passam. É de salientar que o tema de comboios ou linhas de comboios são um tema bastante comum e simbólico nas obras de Hemingway, pois simbolizam a vida e os seus percursos e escolhas. A senhora americana fecha a cortina e tira ao narrador a vista do mar, de uma natureza alegre, tirando-lhe também a sua forma de escape perante a sua situação, pelo 37 que este olha para a outra janela, e assiste a paisagens desoladas. Há uma série de aspetos acerca da senhora americana que se vão associando à atitude repressora que esta tem para com a sua filha, como o facto de ter fechado a cortina, fazendo com que o compartimento se torne um espaço ainda mais isolado, assim como o seu canário, preso na gaiola. É curiosa a forma como Hemingway constrói, através da voz do narrador, a personagem da senhora americana e o seu estatuto na sociedade, através do que esta compra na estação de Marseilles e da sua curta descrição (“…looking very wholesome and middle-aged and American…”Hemingway, 2004.), que parece algo irónica. Há também alguma ironia no facto de a senhora americana ser bastante surda, e no entanto, conseguir ouvir o cantar do canário, que muito admira. Este aspeto pode ser ligado ao facto de ser incapaz de ouvir a sua própria filha e lhe dar a oportunidade de ser feliz, preferindo dar ouvidos a uma pessoa que afirmou que só os homens americanos podem ser bons maridos. As descrições que se seguem de por onde o comboio passa estão carregadas de simbolismo. Há a descrição dos últimos raios do sol sobre a água, que simbolizam os últimos resquícios de esperança na vida. Segue-se a descrição de uma casa em chamas, símbolo de tragédias da vida, a que as pessoas assistem, passivas e indiferentes. O facto de a senhora americana não ser capaz de dormir à noite com medo de que haja um acidente de comboio, sugere que esta tem medo da vida, ou de mudanças que possam ocorrer na sua vida, medo este que impõe à sua própria filha, com quem se preocupa, mas a quem não permite que faça as suas próprias escolhas. Na manhã seguinte, parece haver um ambiente mais alegre a bordo do comboio, que vai gradualmente desaparecendo à medida que este se aproxima do seu destino. Paris. A senhora americana faz uma observação, dizendo que o canário canta, o que na realidade não acontece. Visto que a senhora é surda, a sua atitude é algo estranha, o que leva a crer que talvez não queira admitir a sua fraqueza, - a surdez-, e que a tenta escondê-la. A descrição que se segue refere uma floresta bem cuidada por onde o comboio passa. Esta alusão, que implica a intervenção do homem na natureza, pode ser associada à situação do canário, um animal preso na gaiola, que por sua vez está associado à filha da senhora americana, que no fundo vive sem liberdade para fazer as suas próprias escolhas. Segue-se uma descrição de edifícios situados na periferia de Paris, o que indica que o fim da viagem se aproxima. 38 A senhora americana e a mulher dão início a uma conversa. O narrador faz a sua primeira aparição/intervenção ao informar a senhora de que é americano, quando esta o tomava por inglês. A senhora americana revela então a situação da sua filha se ter apaixonado por homem em Vevey. A senhora americana, por um conhecido lhe ter dito que apenas os homens americanos dão bons maridos, levou a filha para longe de Vevey. Apesar de aparentemente se preocupar com a filha e saber que ela sofre, a senhora americana não põe em causa a opinião da pessoa conhecida, nem questiona a atitude que tomou. O tema da conversa muda para algo supérfluo, o que contribui para a caracterização da senhora americana, quando esta revela encomendar a sua roupa numa loja de Paris apesar de morar (numa zona chique) de Nova Iorque. Após o comboio entrar em paris, as descrições apresentam uma simbologia mais negativa. O comboio passa por uma carruagem envolvida num acidente, que remete para os eventos trágicos e inevitáveis que surgem na vida das pessoas. A senhora americana e a mulher voltam a conversar, chegando à conclusão que ambas já tinham estado no mesmo hotel na Suíça. O hotel aparece como elemento de união, que une um passado em comum que todas as personagens tiveram, e também como elemento de separação, da separação que a senhora americana impõe à filha, do homem que ama, e , da separação do casal de americanos. O comboio chega então Gare de Lyons. É lá que termina a simbólica viagem dos personagens. Depois de alguns momentos de descrição, o americano revela a separação da sua mulher. “A Canary for One”- Análise da Tradução “A Canary for One” trata-se de um conto que não apresenta muitas dificuldades de tradução, à exceção de algumas passagens descritivas, que por estarem repletas de elementos simbólicos e metafóricos, exigem uma especial atenção no sentido de estes elementos serem transmitidos na tradução, dando assim vida à mensagem do texto de partida. O primeiro parágrafo do texto, abaixo indicado, é especialmente difícil de traduzir devido a uma confusa sobreposição de ideias, que criam uma sensação relacionada com o movimento do comboio. Perante a dificuldade que a descrição apresenta, fiz algumas modificações na tradução, para que a descrição se assemelhasse o mais possível à do texto de partida, sem contudo perder o seu sentido e o efeito cinético que reflete o movimento do comboio. 39 The train passed very quickly a long, red stone house with a garden and four thick palm trees with tables under them in the shade. On the other side was the sea. Then there was a cutting through red stone and clay, and the sea was only occasionally and far below against rocks. O comboio passou a grande velocidade por uma casa comprida, de pedra vermelha, com um jardim e quatro palmeiras grossas com mesas por baixo, à sombra. Do outro lado havia mar. Depois houve um caminho por pedra vermelha e barro, e só se via o mar ocasionalmente e muito lá para baixo, contra as rochas. A sensação do movimento do comboio perde-se em certas descrições da tradução de MLO e APT, como podemos observar no primeiro parágrafo do conto, que por se encontrar estruturado de forma a refletir essa dinâmica, torna a sua tradução num autêntico desafio. Os tradutores optam por suprimir a referência ao caminho com muro de pedras e barro por onde o comboio passa, e modificam o sentido de uma das frases traduzindo on the other side por “atrás”. O comboio passou célere em frente de uma grande casa de pedras vermelhas com um jardim onde havia quatro grandes palmeiras, à sombra das quais se encontravam algumas mesas. Atrás ficava o mar. Por fendas existentes no muro, viam-se as ondas, lá muito ao fundo, batendo nas rochas. Em certos casos apresentados no texto, como podemos observar no exemplo seguinte, escolhi eliminar no texto de chegada certas palavras cuja tradução não faria sentido e seria desnecessária, inestética e redundante. It was very hot in the train and it was very hot in the lit salon compartment. Estava muito calor no comboio e estava muito calor no lit salon. 40 Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres optam também pela omissão do termo compartment, mas modificam a estrutura da frase, omitindo a sua construção repetitiva, aspeto que não altera o conteúdo de uma forma que seja significativa, mas que faz com que tal marca de estilo de escrita do autor não esteja presente na tradução. Estava quentíssimo, sobretudo no lit salon. A complexa e repetitiva estrutura da frase abaixo enunciada constituiu um verdadeiro desafio translatório. Era de todo impossível elaborar uma tradução que fizesse sentido sem recorrer a tais modificações, quer por não haver equivalentes para a expressão in the night, quer pela própria estrutura confusa da frase no texto de partida. No entanto houve uma tentativa de preservar o seu sentido e estrutura repetitiva. In the night the American lady lay without sleeping because the train was a rapide and went very fast and she was afraid of the speed in the night. À noite a senhora americana, deitada, não dormia, pois o comboio era um rapide e andava muito depressa, e ela receava a velocidade à noite. Na tradução de MLO e APT frase foi elaborada de forma mais simples e acessível para o leitor. Deparamo-nos com uma adaptação da frase em que a repetição que abre e termina a frase se perde, e o seu sentido sofre uma alteração. Pela forma como a frase está estruturada, dá a entender ao leitor que a americana receava a velocidade em qualquer condição, quando no texto de partida é explícito que a americana receava a velocidade quando viajava durante a noite. MLO e APT recorrem também a uma típica expressão portuguesa. Apesar de não achar a sua utilização adequada nesta frase, penso que é positivo o uso de expressões tipicamente portuguesas por parte dos tradutores, visto que mantêm coerência nas suas traduções ao recorrerem várias vezes a estas. A americana não pôde pregar olho toda a noite porque o comboio era um rápido que deslizava com enorme velocidade e ela tinha um medo terrível. 41 Considero que a tradução de o título de um conto é bastante importante, não por ser um meio de identificação, mas porque normalmente os títulos dos contos Hemingway refletem bastante do que é tratado nos mesmos. Optei por fazer uma tradução quase literal do título original, dando o nome “Canário para um” à tradução da minha autoria. Na tradução de MLO e APT, o título do conto é alterado para “A Viagem de Um Canário”. Esta alteração concede maior enfoque no canário do que uma adaptação (“Canário para um”) do título original, “A Canary for One”.O título original exprime a ironia que encontramos no conto, quer na questão do isolamento da filha da senhora americana, quer na separação do casal americano, o que transmite a ideia de que no fundo o ser humano é tão condenado à solidão como um canário numa gaiola. Curiosamente com o título “A Viagem de um Canário” pode-se criar uma ideia semelhante, na medida em que a solitária viagem do canário, preso na gaiola, a bordo do comboio, serve de metáfora para a viagem dos passageiros pela vida. Na tradução de MLO e APT encontramos alterações em vários aspetos. No geral podemos observar uma tendência em simplificar a estrutura e linguagem do conto, tornando a sua leitura mais acessível e familiar ao leitor. Nas descrições, essas simplificações, que resultam em junções de frases, omissões, inclusões, são notáveis. Se por um lado transmitem uma mensagem de certa forma mais poética e mais clara ao leitor, por outro lado a mensagem do texto original nem sempre se encontra presente na tradução. Em “A Viagem de um Canário” lêem-se certos estrangeirismos que foram mantidos na língua francesa, como lit salon ou toilette, e expressões traduzidas dos estrangeirismos presentes no texto de partida, como “vagão-restaurante” e “empregada”. Os nomes referidos das empregadas foram também adaptados para a língua portuguesa. Não me parece apropriada a falta de coerência relativamente a tradução dos estrangeirismos, pois penso que um tradutor deve optar por traduzi-los a todos ou utilizar os termos originais. De um modo geral “A Canary for One” apresenta uma escrita frontal, refinadamente simples, mas poderosa. Pode-se mesmo dizer que é de uma simplicidade complexa. As descrições, apesar de estarem cheias de simbolismos, apresentam um vocabulário que é a maior parte das vezes neutro, desprovido de emoção. Contudo, podemos encontrar vocabulário com conotação negativa em algumas descrições, que criam uma ideia de presságio relativamente à inevitabilidade das tragédias que ocorrem na vida. Os diálogos têm ritmo, quase como se seguissem um padrão. Na escrita de 48 “A Simple Inquiry” é-nos apresentado um Major italiano em tempos de guerra, numa paisagem gelada, pelo que tendo em conta toda a obra e vivências pessoais de Ernest Hemingway se supõe que a ação se desenrola algures na Europa durante a Primeira Guerra Mundial. Nos contos “Hills like White Elephants” e “A Simple Inquiry”, o autor recorre pouco ao uso de palavras noutro idioma, nomeadamente no espanhol e italiano. A sua utilização ajuda a contextualizar a ação e não prejudica o leitor, na medida em que não causa nenhuma dificuldade à compreensão do conto. Em “A Simple Inquiry”, deparamo-nos apenas com o termo em italiano Signor Maggiore, que, neste caso, será de fácil compreensão devido à sua semelhança com o termo equivalente na língua portuguesa, para além de que no texto de partida o autor utiliza também o termo Major para designar o personagem em questão. Dá-se uma situação idêntica em “Hills like White Elephants” com as palavras dos cervezas. No conto “A Canary for One” podemos encontrar várias palavras em francês, o que provavelmente não seria problemático para alguns leitores de uma tradução para a nossa língua há cinquenta anos atrás, visto que a língua francesa tinha maior importância no panorama sociocultural português dessa altura do que nos dias de hoje. Vemos pois como uma tradução literária pode ser facilmente influenciada por valores do contexto sociocultural do país da língua de chegada. Apesar de também ter origem no Latim, a língua francesa já se distancia um pouco mais da língua portuguesa do que a língua espanhola. Certos termos como rapide, couturier e vendeuse são relativamente fáceis de associar aos seus equivalentes na língua portuguesa devido às suas semelhanças, o que já não acontece, por exemlo, com lit-salon. No caso de “The Undefeated”, testemunhamos um vasto uso de estrangeirismos, o que pode dificultar a leitura e compreensão do conto, quer no texto de partida, quer no texto traduzido. Hemingway utiliza várias palavras na língua espanhola de uma terminologia específica, nomeadamente a inserida no contexto de corridas de touros. Fazendo touradas ou corridas de touros fazem parte de apenas algumas culturas, não há sequer uma tradução equivalente de alguns termos para o inglês, e, em alguns casos, nem do espanhol para o português. Tendo pesquisado em alguns glossários de terminologia técnica, pude observar que termos de origem espanhola foram “adotados” pela língua portuguesa, como se passa com o termo faena. Há contudo casos em que não existe um equivalente, ou pelo menos não é comum os termos em causa serem utilizados numa abordagem corrente do assunto, como por exemplo paseo ou peon. 49 Ernest Hemingway chega mesmo a submeter o verbo em espanhol picar a uma transformação para a língua inglesa, declinando-o de acordo com as regras verbais da gramática inglesa, pic-ing. Esta transformação não impõe dificuldades na tradução para a língua portuguesa, devido às semelhanças do verbo e da sua declinação; contudo, a forma como Hemigway transforma o verbo espanhol para o inglês, é uma marca da sua escrita que passará despercebida na língua portuguesa… Para o público de língua inglesa, há uma barreira linguística de maior dimensão. Na verdade, embora essas expressões, por um lado, confiram um carácter mais realista à obra, por outro lado causam uma sensação de estranhamento ao leitor que as desconhece. No texto de partida o uso da língua espanhola, ou, de uma forma geral, de uma língua que não a inglesa, pode constituir um entrave à compreensão do conteúdo por parte do leitor, sendo que neste caso essa dificuldade é acrescida por se tratar de vocabulário bastante específico, que poderá confundir ainda mais um leitor que não tenha conhecimentos nessa área. A tradução dos contos para a língua portuguesa diminui essa barreira linguística que existe no texto de partida, pois sendo ambas as línguas - a espanhola e a portuguesa - provenientes do Latim, e uma vez que em ambas as línguas a terminologia tem semelhanças, mesmo não estando o leitor familiarizado com essa gíria específica, existe uma maior possibilidade de adivinhar o seu significado. Pelas mesmas razões, torna-se mais fácil um leitor português que não saiba francês e italiano deduzir o significado das palavras do que um leitor de língua inglesa ao ler o texto de partida. A utilização de estrangeirismos confere um carácter realista aos contos, o que pode aproximar o leitor da ação se este estiver familiarizado com os estrangeirismos em questão, mas também pode provocar um certo estranhamento se o leitor não os compreender. Optei por manter os estrangeirismos no conto, recorrendo a notas de rodapé para que um leitor que não tenha conhecimentos das línguas espanhola, italiana ou francesa ou dos termos técnicos em questão não seja prejudicado na leitura e compreensão dos contos, contudo, a minha opção atenua o efeito pretendido de Hemingway ao utilizar estrangeirismos. 50 5. Tradução e interpretação do conto sem título de Hemingway ‘For sale: baby shoes, never worn.’ “Vende-se: sapatos de bebé, nunca usados.” Reza a lenda que Hemingway foi abordado por amigos ou conhecidos que apostaram em como não seria capaz de escrever uma história em seis palavras. O resultado foi este conto sem título. Um conto que Ernest Hemingway afirmou ser a sua melhor obra de sempre. Existe uma versão diferente de o que terá levado o conceituado autor a escrever esta simples frase com um complexo conteúdo. Diz-se que Hemingway teria a intenção de provocar ou até mesmo incitar outros escritores com um desafio literário. É admirável como um conto tão simples pode ter uma mensagem tão poderosa. Contudo, ao lê-lo, não se fica a saber nada, a não ser o que está escrito. Hemingway consegue provocar o leitor a imaginar ou tentar descobrir qual o motivo de o par de sapatos de bebé, nunca usado, estar à venda. Movida pela curiosidade de testar tais reações e conhecer diversas interpretações que as pessoas poderiam fazer do conto, decidi enviá-lo a alguns amigos e familiares, de diferentes idades e áreas de estudo ou profissão, pedindo-lhes que fizessem uma curta interpretação da frase ou imaginarem qual o motivo de os sapatos estarem à venda. Pude constatar que as interpretações foram variadas. Há quem faça uma interpretação pesada, que envolve questões como o aborto, morte do bebé e infertilidade, questões que eu própria tomei em consideração como possíveis interpretações quando li pela primeira vez o conto. Contudo, e para minha surpresa, houve também várias interpretações que não envolveram uma situação tão trágica. Os sapatos poderiam estar à venda por não se adequarem ao sexo do bebé, ou por não lhe servirem; ou mesmo porque um sapateiro que faz sapatos de bebé os quer vender. Fiz questão de elaborar uma tabela, a consultar na página que se segue, para possibilitar a leitura das várias interpretações. A interpretação que fiz do conto assemelha-se à interpretação que a maior parte das pessoas fez. A primeira ideia que me veio à cabeça envolveu um aborto espontâneo ou a morte da criança no parto. Penso que minha interpretação está relacionada com a forma de como automaticamente me lembrei da obra de Hemingway A Farewell to Arms, que envolve uma história de amor, que termina na trágica morte da personagem feminina e do bebé durante o parto. 51 Diferentes interpretações do conto: For sale: baby shoes, never worn Idade Área académica/ profissional Interpretação 23 Estudos AngloAmericanos “Perhaps the mother had an abortion and does not want to keep bad memories” 25 Medicina “A minha interpretação é que alguém, provavelmente uma mulher, que queria ter filhos, por qualquer razão não os teve. Agora é tarde e ela quer-se ver livre do que tinha comprado.” 25 Bioquímica “A minha é talvez óbvia, alguém teve um aborto e está a livrar-se das coisas…” 18 Canto lírico “Acho que está relacionado com a história de um bebé que nasceu com os pés grandes demais para os shoes que os pais lhe compraram…” 23 Ensino “1The baby never existed. The woman probably wanted a baby and made the shoes with her own hands, but later found out she was unable to have a child. 2The woman was pregnant, but had a miscarriage. 3It is a man who makes shoes and it is trying to sell some baby shoes he made. 4A woman bought a pair of pink shoes... the baby was male so instead she wants to sell the pink shoes to buy some blue shoes. 5The child is now all grown up and wants to sell the shoes that he/she wore when he/she was a baby.” 25 Enfermagem “A minha primeira interpretação envolve aborto, não sei porquê, mas mal li aquilo senti uma energia negativa e triste nas palavras...never worn...fica-se a pensar...a mulher queria um filho, abortou e provavelmente não pode ter mais filhos. Foi ao psicólogo e ele aconselhou-a a vender as coisas, porque é "saudável" livrar-se das memórias que a roupa podia trazer. Depois desta interpretação óbvia...veio-me outra ideia. Uma simples mulher (tipo a minha mãe que adora fazer croché), financeiramente dependente do marido, ou com dívidas, resolve criar o seu pequeno negócio on-line e vende sapatinhos de bebé (de croché, claro).” 23 Bioquímica “É alguém que os vende, para tentar ganhar algum dinheiro com os sapatos, uma vez que não fazem falta. Pode ser também alguém que sofreu um aborto e quer vender o que tinha comprado, uma mulher que ficou muito traumatizada e triste.” 26 Medicina “É a história de uma menininha a quem os avós ofereceram os sapatos. Só que nunca lhe serviram. Então ela cresce, encontra os sapatos, e decide pô-los à venda para que algum bebé os possa usar!” 60 Ensino “Ou estão à venda porque alguém ofereceu sapatos que nunca viriam a servir, ou, tragicamente, o bebé morreu e nunca pode usá-los.” 29 Fotografia “Penso que alguém quer vender os sapatos de um bebé que morreu…” 52 6. Conclusão Através das interpretações dos contos, tradução e análises de tradução dos mesmos chego à conclusão para traduzir Hemingway é preciso conhecer o estilo de escrita e das técnicas que utiliza, que conferem um carácter único aos seus contos. É importante um tradutor dedicar-se à interpretação dos seus contos, preferencialmente de forma objetiva, para poder reconhecer as diferentes linhas de interpretação que estes oferecem, e transmiti-los ao leitor na tradução. É essencial que este se aperceba que especialmente na escrita de Hemingway, cada palavra é um precioso detalhe do conto, e deve, por isso, ser traduzida da forma mais fiel possível. Com auxílio de todas as leituras que fiz de teorias da tradução, penso ter conseguido uma tradução dos contos que, seguindo o meu objetivo, mantem um grande grau de fidelidade relativamente aos aspetos referidos. Na comparação que fiz com as traduções de MLO e APT, há que ter em conta que as traduções foram editadas em 1975, à quase 40 anos atrás, o que as distancia das traduções da minha autoria, não só no tempo, mas também no vocabulário, e, na preocupação para com o estilo de escrita do autor. Penso que o facto de traduções de obras literárias não serem feitas regularmente é algo bastante negativo a vários níveis, pelo que considero que deveriam ser elaboradas traduções de dez em dez anos, de forma a manterem uma linguagem atual e de forma a obter maior recetibilidade por parte de público mais jovem. No momento em que acabei de ler The Sun Also Rises fiquei estupefacta e triste. Foi o meu primeiro contato com Ernest Hemingway. Por um lado desejava que a história continuasse, pois não queria ser obrigada a sair daquele “mundo” só porque as palavras terminavam ali. Por outro lado, senti uma lufada de ar fresco, uma espécie de alívio por ter lido um livro sobre a vida, um livro triste, mas infinitamente interessante. Optei por escolher os contos de Hemingway para este trabalho porque felizmente, até agora, tudo o que leio do autor me tem transmitido sentimentos semelhantes. Espero de algum modo, ter feito jus à sua arte. 53 8. Bibliografia BASSNETT, Susan, LEFEVERE, André, Translation, History and Culture, London and NewYork: Pinter, 1990. FARRELL, James T, The League of Frightened Philistines and Other Papers, Vanguard,1952. HEMINGWAY, Ernest, Men Without Women, London: Arrow Books, 2004. HEMINGWAY, Ernest, Death in the Afternoon, EUA, Scribners, 1932. HEMINGWAY, Ernest, As Neves do Kilimanjaro, (Trad. de José Correia Ribeiro, Alexandre P. Torres e Virgínia Mota), Lisboa: Livros do Brasil, 2005. HEMINGWAY, Ernest, As Torrentes da Primavera/ Um Gato à Chuva, (Trad. de Maria Luísa Osório, Alexandre Pinheiro Torres), Lisboa: Livros do Brasil, 2002. LAFFITTE,Sophie, Chekhov, 1860-1904, Angus & Robertson, 1973. NIDA, Eugene, Language and Culture-Contexts in Translation, Shanghai: Shanghai Foreign Language Education Press, 2001. NORD, Christiane, Translating as a Purposeful Activity – Functional Approaches Explained. Shanghai: Shanghai Foreign Language Education Press, 2001. ROSENBERG, Hans-Peter, Ernest Hemingway, em A Minha Vida Deu Um Livro, (Trad. Ana Mendes), Expresso, 2001. PLIMPTON, George (1958, Spring, Nr. 18) Ernest Hemingway, The Art of Fiction No.21,The Paris Review. VENUTI, Lawrence, The Translation Studies Reader, London, Routledge, 2004. 54 COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS As colinas do outro lado do vale do Ebro eram compridas e brancas. Do lado de cá não havia sombra nem árvores e a estação ficava ao sol entre duas linhas de carris. Junto à parede da estação havia a sombra quente do edifício e uma cortina, feita de fiadas de missangas de bambu, pendia pela porta aberta que dava para o bar, impedindo que as moscas entrassem. O americano e a rapariga que estava com ele estavam sentados numa mesa à sombra, no exterior do edifício. Estava muito calor e o expresso de Barcelona chegaria dentro de quarenta minutos. Parava nesta junção por dois minutos e seguia para Madrid. – O que vamos beber? – perguntou a rapariga. Tirara e pousara o chapéu em cima da mesa. – Está muito calor – disse o homem. – Vamos beber cerveja. – Dos cervezas – disse o homem na direção da cortina. – Das grandes? – perguntou uma mulher da porta. – Sim. Duas grandes. A mulher trouxe dois copos de cerveja e duas bases para copos em feltro. Pôs as bases e os copos de cerveja na mesa e olhou para o homem e para a rapariga. A rapariga olhava para a linha das colinas. Eram brancas ao sol e a região era toda castanha e seca. – Parecem elefantes brancos – disse ela. – Nunca vi um. – O homem bebia a sua cerveja. – Não me parece que tenhas visto. – Podia ter visto. – Disse o homem. – Só porque dizes que não te parece que tenha visto não prova coisa nenhuma. A rapariga olhou para a cortina de missangas. – Pintaram ali alguma coisa – disse ela. – O que é que está escrito? – Anis del Toro3. É uma bebida. – Podemos prová-la? O homem chamou “Faz favor” através da cortina. A mulher saiu de dentro do bar. – Quatro reales. – Ele quer dois Anis del Toro 3 Marca de um licor de anis, bebida bastante popular em Espanha. 55 – Com água? – Queres com água? – Não sei – disse a rapariga. – Fica bem com água? – Não fica mal. – Querem com água? – perguntou a mulher. – Sim, com água. – Sabe a alcaçuz – disse a rapariga e pousou o copo. – É assim com tudo. – Sim – disse a rapariga – Tudo sabe a alcaçuz. Especialmente as coisas por que esperamos por tanto tempo, como por exemplo o absinto. – Oh, para com isso. – Tu é que começaste – disse a rapariga. – Eu estava a divertir-me. Estava a passar um bom bocado. – Bem, vamos tentar passar um bom bocado. – Tudo bem. Eu estava a tentar. Disse que as montanhas pareciam elefantes brancos. Não foi um comentário interessante? – Sim, foi. – Quis experimentar esta bebida nova. É o que estamos sempre a fazer, não é? Olhar para as coisas e experimentar bebidas novas? – Suponho que sim. A rapariga olhou para as colinas. – São colinas encantadoras – disse ela. – Não se parecem lá muito com elefantes brancos. Referia-me apenas à sua cor, por entre das árvores. – Pedimos outra bebida? – Está bem. O vento quente soprou fazendo a cortina de missangas bater contra a mesa. – A cerveja está boa e fresca – disse o homem. – Está ótima – disse a rapariga. – É de facto uma operação bastante simples, Jig – disse o homem. – Na verdade, nem é sequer uma operação. A rapariga olhou para o chão, onde as pernas da mesa assentavam. – Eu sei que não te irias importar, Jig. Não é nada. É só deixar entrar ar. A rapariga não respondeu. 56 – Vou contigo e fico lá o tempo todo. Eles apenas deixam o ar entrar e depois é tudo perfeitamente natural. – E o que fazemos depois? – Depois vai-nos correr tudo bem. Tal como era antes. – O que te leva a pensar assim? – Isso é a única coisa que nos aborrece. Foi a única coisa que nos tornou infelizes. A rapariga olhou para a cortina de missangas, estendeu a mão e pegou em duas fiadas. – E tu achas que vai correr tudo bem e que vamos ser felizes. – Sei que vamos. Não tens de ter medo. Conheço muitas pessoas que o fizeram. – Também eu – disse a rapariga. – E depois ficaram todas muito felizes. – Bem – disse o homem, – se não quiseres não tens de o fazer. Não te ia obrigar se não quisesses. Mas sei que é muito simples. – E tu queres mesmo? – Acho que é o melhor que temos fazer. Mas não quero que o faças se não quiseres mesmo. – E se fizer ficas feliz e as coisas voltam a ser como eram e tu vais-me amar? – Já te amo. Tu sabes que te amo. – Eu sei. Mas se o fizer, volta a ser engraçado eu comparar coisas a elefantes brancos, e tu vais achar piada ao comentário? – Vou achar muita piada. Já acho agora, mas não consigo pensar nisso. Sabes como fico quando estou preocupado. – Se eu o fizer não voltas a ficar preocupado? – Não me vou preocupar com isso porque é mesmo simples. – Então vou fazê-lo. Porque não quero saber de mim. – O que queres dizer com isso? – Não quero saber de mim. – Bem, eu quero saber de ti – Oh, sim. Mas eu não quero saber de mim. E vou fazê-lo e depois vai ficar tudo bem. – Não quero que o faças se é isso que sentes. A rapariga levantou-se e caminhou até ao fim da plataforma da estação. Do outro lado havia campos de cereais e árvores ao longo das margens do Ebro. Ao longe, 57 para além do rio, havia montanhas. A sombra de uma nuvem movia-se através do campo de cereais e ela viu o rio por entre as árvores. – E podíamos ter isto tudo. – disse ela. – E podíamos ter tudo e a cada dia que passa tornamo-lo mais impossível. – O que disseste? – Disse que podíamos ter tudo. – Podemos ter tudo. – Não, não podemos. – Podemos ter o mundo inteiro. – Não, não podemos. – Podemos ir a todo o lado. – Não, não podemos. Já não é nosso. – É nosso. – Não, não é. E depois de no-lo terem tirado, nunca mais o poderemos reaver. – Mas não o tiraram. – Vamos ver. – Volta para a sombra. – disse ele. – Não te devias sentir assim. – Não me sinto de forma alguma. – disse a rapariga. – Sei apenas como as coisas são. – Não quero que faças uma coisa que tu não queres fazer. – Nem isso é bom para mim – disse ela. – Eu sei. Podemos beber outra cerveja? – Tudo bem. Mas tens de perceber … – Eu percebo – disse a rapariga. – Talvez pudéssemos parar de falar? Sentaram-se à mesa e a rapariga olhou as colinas no lado seco do vale e o homem olhou para ela e para a mesa. – Tens de entender – disse ele – que eu não quero que o faças se tu não queres. Estou perfeitamente disposto a ir em frente com isso se tiver assim tanto significado para ti. – E para ti não tem significado? Podíamos lidar bem com isso. – Claro que tem. Mas não quero mais ninguém a não ser tu. Não quero mais ninguém. E sei que é muito simples. – Sim, tu sabes que é muito simples. – Podes dizer o que quiseres, mas sei perfeitamente. – Podias fazer uma coisa por mim agora? 64 Eu não ia permitir que ela casasse com um estrangeiro. – Fez uma pausa. – Alguém, uma pessoa muito amiga disse-me: Nenhum estrangeiro pode dar um bom marido para uma rapariga americana. – Pois – disse a minha esposa, – suponho que não. A senhora americana admirou o casaco de viajar da minha esposa, e chegou-se à conclusão de que a senhora americana comprava roupa há vinte anos na mesma casa de couture7, na rue Saint Honoré. Tinham lá as suas medidas, e uma vendeuse8 que a conhecia, e aos seus gostos, escolhia os vestidos para ela, e eram-lhe enviados para a América. Iam para o posto dos correios perto de onde ela vivia, na parte chique de Nova Iorque e nunca eram extravagantes, porque abriam os vestidos lá no posto dos correios para os avaliar, e eram sempre bastante simples e sem renda dourada ou ornamentos que lhes pudessem dar a aparência de serem caros. Antes desta vendeuse, chamada Thérèse, houvera outra vendeuse, chamada Amélie. Ao todo tinha havido apenas estas duas, durante vinte anos. Era sempre o mesmo couturier9. Contudo, os preços haviam subido. Apesar disso, o câmbio compensava a diferença. Tinham também as medidas da filha. Era adulta e não havia muita hipótese de agora mudarem. O comboio entrava agora em Paris. As fortificações eram planas, mas não tinha crescido relva. Havia muitas carruagens estacionadas nos trilhos - carruagensrestaurante e carruagens-cama de madeira castanha que seguiriam para Itália às cinco horas daquela tarde, se é que o comboio ainda saía às cinco; as carruagens estavam assinaladas com Paris-Roma, e carruagens com assentos na cobertura, que andavam para trás e para a frente nos subúrbios a certas horas, pessoas em todos os assentos e na cobertura, se é que ainda as faziam assim, e ao passar havia paredes brancas e muitas janelas de casas. Ninguém tomara o pequeno-almoço. – Os americanos dão os melhores maridos – disse a senhora americana à minha mulher. Eu estava a pôr as malas no chão. – Os homens americanos são os únicos homens no mundo com quem casar. – Há quando tempo deixou Vevey?– perguntou a minha esposa. – Farão dois anos este Outono. Sabe, é para ela que levo este canário. – O homem pelo qual a sua filha se apaixonou era suíço? 7 Casa de costura, modista. 8 Vendedora. 9 Costureiro. 65 – Sim – disse a senhora americana – Era de uma boa família de Vevey. Ia ser engenheiro. Conheceram-se lá. Costumavam dar longos passeios juntos. – Conheço Vevey – disse a minha mulher. – Estivemos lá na nossa lua-de-mel. – Estiveram mesmo? Deve ter sido um encanto. É claro que eu não fazia ideia que ela se ia apaixonar por ele. – Era um sítio mesmo encantador – disse a minha mulher. – O velho hotel é tão agradável – disse a senhora Americana. – Sim – disse a minha mulher – Estivemos num quarto muito agradável e no Outono a região estava encantadora. – Estiveram lá no Outono? – Sim – disse a minha mulher. Estávamos a passar por três carruagens que haviam tido um acidente. Estavam despedaçadas e as coberturas tinham cedido para dentro. – Olhem – disse eu – Houve um acidente. A senhora Americana olhou e viu a última carruagem. – Estive toda a noite com receio precisamente disto – disse ela – Por vezes tenho pressentimentos terríveis acerca de coisas. Nunca mais viajarei à noite num rapide. Deve haver outros comboios confortáveis que não andem tão rápido. Depois o comboio entrou na escuridão da Gare de Lyons e depois parou e os bagageiros vieram às janelas. Entreguei malas pelas janelas, e saímos para a escura, longa plataforma, e a senhora Americana pôs-se no comando de um dos três homens da Cook’s que disse: – Um momento, madame, vou procurar o seu nome. O bagageiro trouxe um carro para a bagagem e empilhou-a, e a minha mulher despediu-se, e eu despedi-me da senhora Americana, cujo nome tinha sido encontrado pelo homem da Cook’s numa página escrita à máquina, num molhe de páginas datilografadas que voltou a guardar no seu bolso. Seguimos o bagageiro com o carro pela longa plataforma de cimento, ao pé do comboio. Havia uma cancela na extremidade e um homem ficava com os bilhetes. Voltávamos a Paris para nos estabelecermos em residências separadas. 66 OS INVENCÍVEIS Manuel Garcia subiu as escadas até ao escritório de Don Miguel Retana. Pousou a mala e bateu à porta. Não houve resposta. Manuel, parado no corredor, sentiu que estava alguém na sala. Sentiu-o através da porta. – Retana – chamou, escutando. Não houve resposta. “Está lá, com certeza”, pensou Manuel. – Retana – disse e bateu à porta. – Quem está aí? – disse alguém no escritório. – Sou eu, o Manolo – disse Manuel. – O que é que queres? – perguntou a voz. – Quero trabalhar – respondeu Manuel. Algo na porta deu vários estalidos e ela abriu-se. Manuel entrou, carregando a sua mala. Um homem pequeno estava sentado por detrás de uma secretária no lado mais afastado da sala. Por cima da sua cabeça havia uma cabeça de um touro, empalhada por um taxidermista de Madrid; nas paredes havia fotografias emolduradas e cartazes de touradas. Um homem pequeno sentou-se, olhando para Manuel. – Pensei que te tivessem matado – disse. Manuel bateu com os nós dos dedos na secretária. O homem pequeno olhava-o do outro lado da secretária. – Quantas corridas tiveste este ano? – perguntou Retana. – Uma – respondeu. – Só aquela? – perguntou o homem pequeno. – Só. – Li sobre isso nos jornais – disse Retana. Recostou-se na cadeira e olhou para Manuel. Manuel olhou para o touro empalhado. Já o vira várias vezes. Sentia um certo interesse familiar por ele. Matara o seu irmão, o promissor, cerca de nove anos antes. Manuel lembrava-se desse dia. Havia uma placa de latão no escudo de carvalho onde a 67 cabeça do touro fora montada. Manuel não conseguia lê-la, mas imaginou que fosse em honra do seu irmão.“Bem, ele fora um bom rapaz.” A placa dizia: “ O Touro – “Mariposa” do Duque de Veragua, que suportou 9 varas de 7 caballos10 e foi causou a morte de Antonio Garcia, Novillero11, a 27 de Abril de 1909.” Retana viu-o olhar para a cabeça do touro. – O lote que o Duque me mandou para domingo vai causar um escândalo – disse, – São todos ruins das pernas. O que dizem deles no café? – Não sei – disse Manuel – Acabei de chegar. – Pois – disse Retana – Ainda trazes a tua mala. Olhou para Manuel, encostando-se por detrás da grande secretária. – Senta-te – disse – Tira o chapéu. Manuel sentou-se sem o chapéu, a sua expressão mudara. Estava pálido e a sua coleta12 amarrada à frente na sua cabeça, para que não se visse debaixo do chapéu, dava-lhe um aspeto estranho. – Não pareces bem – disse Retana. – Acabei de sair do hospital – disse Manuel. – Ouvi dizer que te tinham amputado a perna – disse Retana. – Não – disse Manuel – Ficou boa. Retana inclinou-se para a frente sobre a secretária e empurrou uma caixa de cigarros na direção de Manuel. – Tira um cigarro – disse. – Obrigado. Manuel acendeu-o. – Fumas? – disse, oferecendo o fósforo a Retana. – Não – Retana acenou com a mão. – Nunca fumo. Retana observou-o enquanto fumava. – Porque não procuras um emprego e deitas mão à obra – disse. – Não quero trabalhar – disse Manuel – Sou um toureiro. – Já não há toureiros. – disse Retana. 10 Cavalos. 11 Novilheiro. 12Trança de cabelo que os toureiros espanhóis usam na parte posterior da cabeça. O acto de cortar a coleta simboliza deixarem de ser toureiros. 68 – Sou um toureiro – retorquiu Manuel. – Sim, enquanto lá estás. Manuel riu-se. Sentado, sem dizer nada, Retana olhava para Manuel. – Ponho-te numa corrida noturna, se quiseres – ofereceu Retana. – Quando? – perguntou Manuel. – Amanhã à noite. – Não gosto de substituir ninguém. – disse Manuel. Foi assim que morreram todos. Foi assim que Salvador morreu. Bateu com os nós dos dedos na mesa. – É tudo o que tenho – disse Retana. – Porque não me pões numa para a semana que vem? – sugeriu Manuel. – Não ias atrair ninguém – disse Retana – Só querem o Litri e o Rubito e o La Torre. Esses miúdos são bons. – Também iriam ver-me fazê-lo. – disse Manuel esperançoso. – Não iam não. Já nem sabem quem és. – Tenho muito para mostrar. – disse Manuel. – Ofereço-me para te pôr amanhã à noite. – disse Retana. – Podes trabalhar com o jovem Hernandez e matar dois novilhos depois do Charlots13. – De quem são os novilhos? – perguntou Manuel. – Não sei. Os que tiverem nos currais. Os que os veterinários não aprovam para as corridas de dia. – Não gosto de substituir. – disse Manuel. – É pegar ou largar – disse Retana. Inclinou-se para a frente sobre os papéis. Já não estava interessado. O interesse que Manuel lhe suscitara por um momento quando pensou nos bons velhos tempos desaparecera. Gostava de o pôr como substituto do Larita porque saía barato. Podia arranjar outros que fossem baratos. No entanto gostaria de o ajudar. Já lhe dera uma hipótese. Agora era com ele. – Quanto recebo? – perguntou Manuel. Ainda jogava coma ideia de recusar. Mas sabia que não ia recusar. – Duzentas e cinquenta pesetas. – disse Retana. Tinha pensado em quinhentas, mas quando abriu a boca saiu-lhe duzentas e cinquenta. 13 Charlots, Charlie Chaplins ou charlotada é o nome de um espetáculo burlesco em que artistas parodiavam as touradas. Estes espetáculos decorriam nos intervalos das touradas. 69 – Pagas sete mil ao Villalta – disse Manuel. – Tu não és o Vilalta – disse Retana. – Eu sei – disse Manuel. – Ele atrai-os, Manolo – explicou Retana. – Claro – disse Manuel. Levantou-se. – Dá-me trezentas, Retana. – Está bem – acedeu Retana. Tirou uma nota de cinquenta pesetas do livro de bolso e pousou-a, esticada, na mesa. Manuel pegou nela e pô-la no bolso. – E quanto à cuadrilla14? – perguntou. – Há os rapazes que trabalham sempre para mim à noite – disse Retana – São razoáveis. – E os picadores? – perguntou Manuel. – Não são grande coisa –Retana admitiu. – Tenho de ter um bom pic15 –disse Manuel. – Então arranja um –disse Retana – Vai arranjar um. – Não com este dinheiro – disse Manuel – Não vou pagar a cuadrilla nenhuma com sessenta duros. Retana nada disse, mas olhou para Manuel do outro lado da secretária. – Sabes que tenho de ter um bom pic– disse Manuel. Retana não disse nada, mas olhou para Manuel, à distância. – Não está certo – disse Manuel. Retana ainda o julgava, inclinando-se para trás na sua cadeira, julgando-o a uma grande distância. – São os pics do costume. – ofereceu. – Eu sei – disse Manuel – Conheço os teus pics do costume. Retana não sorriu. Manuel soube que a conversa tinha terminado. – Tudo o que quero é uma oportunidade justa. – disse Manuel, argumentando – Quando estiver lá quero poder tomar as minhas próprias decisões quanto ao touro. Só preciso de um bom picador. Falava com um homem que já não o escutava. 14 Quadrilha, grupo de pessoas que assistem o toureiro durante a tourada 15 Diminutivo de picador; em português picador. O autor utiliza o termo espanhol, tanto para designar o picador como para a ação; picar. 70 – Se queres alguma coisa extra – disse Retana, – arranja-a tu. Lá vai estar a cuadrilla do costume. Traz os picadores que quiseres. A charlotada acaba lá para as dez e meia. – Está bem – disse Manuel – Se é isso que queres. – É o que quero – disse Retana. – Vemo-nos amanhã à noite – disse Manuel. – Vou lá estar – disse Retana. Manuel olhou para trás. Retana estava sentado para a frente, a olhar para uns papéis. Manuel puxou a porta firmemente até fazer clique. Desceu as escadas e saiu pela porta para a claridade quente da rua. Estava muito calor na rua e a luz nos edifícios brancos bateu-lhe, ferindo-lhe os seus olhos. Desceu a rua íngreme pela sombra em direção à Puerta del Sol16. A sombra pareceu-lhe envolvente e fresca como água a correr. O calor surgiu de repente quando atravessou o cruzamento. Manuel não viu ninguém conhecido entre todas as pessoas por quem passou. Pouco antes da Puerta del Sol, virou e entrou num café. O café estava sossegado. Havia uns poucos homens sentados nas mesas encostadas à parede. Numa mesa quatro homens jogavam cartas. Na sua maioria os homens estavam sentados, a fumar encostados à parede, com chávenas de café e copos de licor vazios nas mesas. Manuel atravessou a sala grande até uma sala pequena nas traseiras. Um homem dormia sentado a uma mesa, no canto. Manuel sentou-se a uma das mesas. Um empregado entrou e parou junto da mesa de Manuel. – Tens visto o Zurrito? – perguntou-lhe Manuel. – Esteve cá antes do almoço – respondeu o empregado – Não volta antes das cinco. – Traz-me café e leite e um copo com o do costume. – disse Manuel. O empregado voltou à sala transportando um tabuleiro com um grande copo de café e um copo de licor. Na sua mão esquerda trazia uma garrafa de conhaque. Colocouos na mesa e um rapaz que o seguia deitou café e leite de dois jarros brilhantes, com grandes pegas, no copo. 16 Praça em Madrid, Espanha. 71 Manuel tirou o chapéu e o empregado reparou no rabo-de-cavalo amarrado à frente na sua cabeça. Piscou o olho ao rapaz do café enquanto deitava conhaque no pequeno copo colocado junto do café do Manuel. O rapaz do café olhou com curiosidade para a cara pálida de Manuel. – Andas a tourear por cá? – perguntou o empregado, pondo a rolha na garrafa. – Sim – disse Manuel. – Amanhã. O empregado deixou-se ficar no mesmo sítio, segurando a garrafa na anca. – Estás com os Charlie Chaplins? – perguntou. O rapaz desviou o olhar, envergonhado. – Não, na normal. – Pensei que íamos ter o Chavez e o Hernandez – disse o empregado – Não. Sou eu e outro. – Quem? O Chavez ou o Hernandez? – O Hernandez, acho eu. – O que se passa com o Chavez? – Foi ferido. – Onde ouviste isto? – Retana. – Ei, Looie – o empregado gritou para a outra sala – O Chaves foi cogida17. Manuel tirara o papel dos torrões de açúcar e deitara-os no café. Mexeu-o e bebeu-o, doce, quente e aqueceu-lhe o seu estômago vazio. Bebeu o conhaque de uma só golada. – Dá-me outro copo disso – disse ao empregado. O empregado tirou a rolha da garrafa e encheu o copo, entornando a bebida no pires. Outro empregado surgira em frente à mesa. O rapaz do café já não estava lá. – O ferimento do Chaves é grave? – perguntou o segundo empregado a Manuel. – Não sei – disse Manuel – O Retana não disse. – Ele está-se nas tintas! – disse o empregado alto. Manuel não o tinha visto antes. Devia ter surgido naquele momento. – Nesta cidade, se alinhares com o Retana, tens a vida feita – disse o empregado alto – Se não alinhas com ele, mais vale dares um tiro na cabeça. 17 Apanhado pelo touro. 72 – Tu bem o disseste – disse o outro empregado que tinha entrado – Tu bem o disseste na altura. – Pois disse, sim – disse o empregado alto – Eu sei do que estou a falar quando falo daquela ave rara. – Olha o que ele fez pelo Villalta – disse o primeiro empregado. – E não é tudo – disse o empregado alto. – Olha o que ele fez pelo Marcial Lalanda. Olha o que ele fez pelo Nacional. – Bem dito, rapaz – concordou o empregado baixo. Manuel olhou para eles, de pé, a falar em frente à sua mesa. Tinha bebido o seu segundo conhaque. Tinham-se esquecido dele. Não estavam interessados nele. – Olha para aquele monte de camelos – continuou o empregado alto. – Alguma vez viram o Nacional II? – Vi-o domingo passado, não vi? – disse o primeiro empregado. – É uma girafa. – disse o empregado baixo. – O que é que vos disse? – disse o empregado alto – Esses são os miúdos do Retana. – Dá-me outro copo disso – disse Manuel. Enquanto falavam, bebia o conhaque o empregado entornara no pires e bebido. O primeiro empregado encheu-lhe o copo mecanicamente, e os três saíram da sala a falar. No canto afastado o homem continuava a dormir, ressonando levemente ao inspirar, a cabeça encostada à parede. Manuel bebeu o conhaque. Sentiu-se sonolento. Estava demasiado calor para ir à cidade. Para além disso, não tinha que fazer. Queria ver o Zurito. Dormiria enquanto esperava. Deu um pontapé à mala, debaixo da mesa, para ter a certeza de que lá estava. Talvez fosse melhor pô-la de novo por baixo da cadeira, encostada à parede. Dobrou-se e empurrou-a. Depois inclinou-se sobre a mesa e adormeceu. Quando acordou havia alguém sentado do outro lado da mesa. Era um homem enorme, com uma cara muito morena como a de um índio. Já lá estava sentado há algum tempo. Acenara ao empregado dispensando-o, e lia um jornal, olhando ocasionalmente para Manuel, que dormia com a cabeça pousada na mesa. Lia o jornal laboriosamente, formando as palavras com lábios à medida que as lia. Quando se cansava, olhava para Manuel. Estava sentado na cadeira, pesadão, o chapéu preto de Córdoba tombado para a frente. 73 Manuel endireitou-se e olhou para ele. – Olá, Zurito – disse. – Olá rapaz – disse o homem robusto. – Estava a dormir. – Manuel esfregou a testa com as costas do punho. – Achei que estivesses. – Como vão as coisas? – Bem. Como vão as coisas contigo? – Não vão lá muito bem. Ficaram os dois em silêncio. Zurito, o picador, olhou para a cara pálida de Manuel. Manuel olhou para as enormes mãos do picador dobrando o jornal para o guardar no bolso. – Tenho de te pedir um favor, Manos – disse Manuel. Manosduros18 era a alcunha de Zurito. Nunca a ouvia sem pensar nas suas mãos gigantescas. Pousouas na mesa conscientemente. – Vamos beber um copo – disse. – Está bem – disse Manuel. O empregado entrou e saiu e entrou novamente. Saiu da sala a olhar para trás, para os dois homens sentados à mesa. – O que é que se passa, Manolo? – Zurito pousou o copo. – Eras capaz de picar dois touros para mim amanhã à noite? – perguntou Manuel, olhando para Zurito do outro lado da mesa. – Não – disse Zurito – Não pico. Manuel olhou para o copo. Tinha esperado aquela resposta; agora já a tinha. Bem, já a tinha. – Lamento, Manolo, mas não pico. – Zurito olhou para as suas mãos. – Tudo bem – disse Manuel. – Estou velho demais – Zurito disse. – Só te fiz uma pergunta – disse Manuel. – A noturna é amanhã? – Sim, é isso. Pensei que se tivesse um bom pic me pudesse safar. – Quanto vais receber? – Trezentas pesetas. 18 Mãos duras. 80 aceitáveis, terminando num recorte bastante Belmontístico, que mereceu aplausos do público habitual, e entramos no tercio25 da cavalaria.” Montado no cavalo, Zurito, calculava a distância entre o touro e a ponta da vara. Enquanto o fazia, o touro posicionou-se e investiu, os olhos fixos no peito do cavalo. Quando baixou a cabeça para atacar, Zurito cravou a ponta vara, e, na corcunda inchada do músculo acima do ombro do touro, apoiou todo o seu peso na vara e com a mão esquerda, puxou o cavalo para o ar, as patas da frente pontapeando, e balançou-o para a direta ao mesmo tempo que empurrou o touro, fazendo-o baixar-se e atravessar para que os cornos passassem sem perigo por baixo da barriga do cavalo, e o cavalo desceu, tremendo, a cauda do touro roçando-lhe o peito no momento em que investia contra a capa que Hernandez lhe oferecia. Hernandez correu de lado, levando o touro para longe com a capa, na direção de outro picador.Distraiu-o com um movimento da capa, mesmo diante do cavalo e do cavaleiro, e afastou-se. Quando o touro viu o cavalo, investiu. A vara do picador escorregou-lhe pelas costas, e quando o choque da investida elevou o cavalo, o picador já estava parcialmente fora da sela, levantando a perna direita para fora do perigo assim que falhou com a vara, e atirando-se para o lado esquerdo para manter o cavalo entre ele e o touro. O cavalo, levantado no ar e ensanguentado, estatelou-se com o touro a investir contra ele, o picador empurrou o cavalo com as botas e pôs-se em segurança, à espera de ser levantado e puxado para fora e posto de pé. Manuel deixou o touro atirar-se ao cavalo caído; não tinha pressa, o picador estava a salvo; para além disso, fazia bem um picador daqueles afligir-se. Para a próxima ficaria mais tempo. Que nojo de pics! Olhou para Zurito, do outro lado da areia, um pouco afastado da barrera, o cavalo à espera, rígido. – Eh! – chamou o touro. – Tomar! – segurava a capa com ambas as mãos para chamar a atenção do touro. O touro soltou-se do cavalo e investiu na capa, e Manuel, correndo de lado e mantendo a capa esticada, parou, girou nos calcanhares e fez o touro virar-se bruscamente de frente para Zurito. “Campagnero levou com um par de varas pela morte de um rosinante26, com Hernandez e Manolo nos quites27…” escreveu o crítico do El Heraldo. “Fez pressão no 25 As touradas espanholas encontram-se divididas em tercios ou três fases. 26 Termo usado para designar um cavalho velho. 27 Passes que um toureiro realiza com a capa ou muleta durante a corrida de touros. 81 ferro e mostrou claramente não ser um amante de cavalos. O veterano Zurito ressuscitou alguns dos seus velhos truques com a vara, é de notar a suerte28 …“ – Olé! Olé! – gritou o homem sentado ao seu lado. O grito perdeu-se no bramido do público e o homem deu uma palmada nas costas do crítico. O crítico levantou a cabeça para ver Zurito, mesmo por baixo dele, inclinando-se para fora do cavalo, o cuomprimento da vara elevando-se num ângulo agudo por baixo da sua axila, segurando a vara quase pela ponta, suportanto todo o seu peso, afastando o touro, o touro a empurrar e atirar-se para atingir o cavalo, e, Zurito, inclinado para fora, em cima dele, a segura-lo, segura-lo, segura-lo e a vagarosamente rodando o cavalo contra a pressão, para que este estivesse em segurança. Zurito apercebeu-se do momento em que o cavalo estava em segurança e o touro podia passar, diminuiu a pressão e a ponta de ferro triangular da vara rasgou o alto do músculo do ombro quando o touro se soltou para encontrar a capa de Hernandez diante do seu focinho. Investiu às cegas contra a capa, e o rapaz conduziu-o para o meio da arena. Zurito afagava o cavalo e olhava para o touro investindo contra a capa que Hernandez lhe agitava sob a luz brilhante enquanto o público gritava. – Viste aquilo? – disse a Manuel. – Foi uma maravilha – disse Manuel. – Apanhei-o naquela vez – disse Zurito – Olha para ele agora. Na conclusão de um passe próximo da capa, o touro escorregou, ficando de joelhos. Pôs-se imediatamente de pé, mas ao longe, do outro lado da arena, Manuel e Zurito viram o brilho do fluxo de sangue bombeado, suave, contrastando com o negro dos ombros do touro. – Apanhei-o naquela vez – disse Zurito. – É um bom touro. – disse Manuel. – Se me dessem outra hipótese com ele, matava-o. – disse Zurito. – Vão alterar os tércios connosco – disse Manuel. – Olha para ele agora – disse Zurito. – Tenho de lá ir. – disse Manuel, e começou a correr para o outro lado da arena, onde os monos29 conduziam um cavalo pela rédea na direção do touro, batendo-lhe nas pernas com varetas e todos, numa procissão, tentavam puxá-lo em direção ao touro, que 28 Outro termo para as diferentes fases da tourada. 29 Empregados da praça de touros. 82 baixando a cabeça, batendo com a pata, não saia do sítio, incapaz de se decidir se havia ou não de investir. Zurito, sentado no cavalo, conduzindo-o até à cena, sem perder nenhum detalhe, franziu o sobrolho. Por fim o touro investiu, os homens que puxavam o cavalo correram para a barrera, o picador golpeou-o muito atrás e o touro pôs-se debaixo do cavalo, levantouo, atirou-o por cima das costas. Zurito observava. Os monos, de camisas vermelhas, corriam para arrastar o picador em segurança. O picador, agora de pé, praguejava e agitava os braços. Manuel e Hernandez estavam preparados com as suas capas. E o touro, o grande touro negro, com um cavalo às costas, os cascos a bambolear, a rédea presa nos chifres. Touro negro com um cavalo às costas, cambalear, de patas curtas, depois arquear o pescoço e levantar, empurrar, investir para fazer o cavalo deslizar para fora, o cavalo deslizando pra o chão. Depois o touro a lançar-se numa investida à capa de Manuel, estendida para ele. Manuel sentiu que agora o touro estava mais lento. Sangrava muito. Um brilho de sangue descia-lhe pelos flancos. Manuel ofereceu-lhe outra vez a capa. Ali vinha ele, feio, de olho na a capa. Manuel deu um passo para o lado e levantou os braços, apertando a capa à frente do touro para a verónica. Agora estava de frente para o touro. Sim, a cabeça descaia-lhe um pouco. Trazia-a mais abaixo. Fora Zurito. Manuel abanou a capa; “Aí vem ele”; deu um passo lateral e efetuou outra verónica. “Está com demasiada pontaria”, pensou. “Está farto de lutar, por isso agora observa. Agora caça. Tem os olhos postos em mim. Mas eu dou-lhe sempre a capa.” Abanou a capa para o touro; “Aí vem ele”, deu um passo para o lado. “Desta vez esteve perto de mais. Não quero lidar tão perto dele.” A extremidade da capa estava molhada com sangue, onde tinha roçado pelas costas do touro ao passar. “Muito bem, aí vem a última.” Manuel, de frente para o touro, tendo rodado com ele a cada investida, ofereceu a capa com ambas as mãos. O touro olhou para ele. Olhos fitando-o, cornos apontados para a frente, o touro olhava para ele, observando-o. 83 – Eh! – disse Manuel. – Toro30! – e inclinando-se para trás, sacudiu a capa para a frente. “Aí vem ele.” Deu um passo ao lado, agitou a capa por trás, e girou, e por isso o touro seguiu o movimento da capa e ficou sem nada, entorpecido pelo passe, dominado pela capa. Manuel balouçou a capa debaixo do focinho com uma mão para mostrar que o touro estava estável e afastou-se. Não houve aplausos. Manuel caminhou pela areia em direção à barrera, enquanto Zurito cavalgava para fora da arena. Tinha soado a trompete para mudar o ato para crava dos banderillos31 enquanto Manuel estivera a lidar o touro. Não a reconheceu conscientemente. Os monos estendiam lona sobre os dois cavalos mortos e espalhavam serrim à volta deles. Manuel aproximou-se da barrera para beber uma golada de água. O homem do Retana entregou-lhe uma caneca pesada e porosa. Fuentes, o cigano alto, estava de pé a segurar um par de banderillos, segurava-os juntos, varas vermelhas, finas, com pontas de anzol. Olhou para Manuel. – Vai para ali – disse Manuel. O cigano saiu a correr. Manuel pousou a caneca e ficou a ver. Limpou a cara com o lenço. O crítico do El Heraldo pegou na garrafa de champanhe quente que tinha entre os pés, deu um gole, e terminou o parágrafo. “… o velho Manolo não conseguiu arrancar um aplauso por uma série vulgar de lances com a capa e entrámos no tercio das estacadas.” O touro estava sozinho, ainda controlado, no centro da arena. Fuentes, alto, de costas direitas, a caminhar arrogantemente na sua direção, os braços abertos, as duas varas finas e vermelhas, uma em cada mão, seguras pelos dedos, as pontas para a frente. Fuentes caminhou em frente. Atrás dele, de um dos lados, estava um peon com a capa. O touro olhou para ele, já não estava desatento. Os seus olhos observavam Fuentes, de pé, parado. Inclinava-se agora para trás, provocando-o. Fuentes rodou os dois banderillos e a luz nas pontas de aço chamou a atenção do touro. A sua cauda elevou-se e investiu. 30 Touro. 31 Bandarilhas. 84 Vinha em linha reta, os olhos fixos no homem. Fuentes permaneceu parado, inclinado para trás, os banderillos apontados para a frente. Quando o touro baixou a cabeça para o colher, Fuentes inclinou-se para trás, juntou os braços e ergueu-se, as suas mãos tocando-se, os banderillos, duas linhas vermelhas descendo, e inclinando-se para a frente cravou as pontas no ombro do touro, inclinado muito acima dos cornos do touro e girando sob as duas varas verticais, as suas pernas juntas, o seu corpo dobrando-se para um lado para deixar o touro passar. – Olé! – veio do público. O touro atirava a cabeça selvaticamente, saltando como uma truta, as quatro patas fora do chão. Os cabos vermelhos dos banderillos agitavam-se quando saltava. Manuel, da barreira, reparou que ele olhava sempre para a direita. – Diz-lhe para deixar cair o próximo par do lado direito – disse ao rapaz que começou a correr na direção de Fuentes com novos banderillos. Uma mão pesada caiu-lhe no ombro. Era Zurito. – Como te sentes, rapaz? – perguntou. Manuel observava o touro. Zurito inclinou-se para a frente na barrera, suportando o peso do corpo nos braços.Manuel voltou-se para ele. – Estás a portar-te bem – disse Zurito. Manuel abanou a cabeça. Não tinha nada que fazer até o próximo tercio. O cigano era muito bom com os banderillos. No próximo tercio o touro havia de chegarlhe em bom estado. Era um bom touro. Fora tudo fácil até agora. A questão do final com a espada era tudo o que o preocupava. Na verdade não se preocupava. Nem pensava nisso. Mas ali parado, estava com uma pesada sensação de apreensão. Olhou para o touro, planeando a sua faena, o seu trabalho com o pano vermelho era dominar o touro, torná-lo manobrável. O cigano caminhava novamente em direção ao touro, calcanhar e ponta dos pés, insultuosamente, como um dançarino de salão, os cabos vermelhos dos banderillos agitando com à medida que caminhava. O touro observava-o, já não estava confuso, à caça, mas à espera de estar suficientemente perto para se certificar de que o apanhava, que lhe espetava os cornos. Enquanto o Fuentes andava em frente o touro investiu. Fuentes correu por um quarto de círculo enquanto o touro investia e quando passou a correr para trás, parou, lançou-se para a frente, pôs-se em bicos de pés, braços esticados para a frente e afundou 85 os banderillos diretamente no alto entre os grandes músculos do ombro, no momento em que o touro falhou na sua tentativa. O público estava doido. – Este miúdo não há-de ficar muito tempo nestas coisas à noite – disse o homem de Retana a Zurito. – Ele é bom – disse Zurito. – Olha para ele. Observaram-no. Fuentes estava encostado à barrera. Dois elementos da cuadrilla estavam atrás dele, com as capas preparadas para saltar por cima da vedação para distrair o touro. O touro, com a língua de fora, agitando o casco, observava o cigano. Pensava que o ia apanhar. Contra as tábuas vermelhas. Estava a uma pequena investida de distância. O touro observava-o. O cigano dobrou-se para trás, recuou os braços, os banderillos apontados para o touro. Chamou o touro, bateu o pé. O touro estava desconfiado. Queria o homem. Não queria mais farpas no ombro. Fuentes aproximou-se um pouco mais do touro. Dobrado para trás. Chamou-o de novo. Alguém do público gritou uma advertência. – Está perto demais – disse Zurito. – Olha para ele – disse o homem do Retana. Inclinado para trás, incitando o touro com os banderillos, Fuentes saltou, ambos os pés fora do chão. Quando saltou, a cauda do touro elevou-se e este investiu. Fuentes caiu em pontas dos pés, braços esticados, todo o corpo arqueado para a frente e moveu os cabos para baixo enquanto desviava o corpo do corno direito. O touro foi contra a barrera, onde as capas, agitando-se, lhe tinham chamado a atenção quando perdeu de vista o homem. O cigano veio a correr pela barrera na direção de Manuel, recebendo o aplauso do público. Tinha o colete rasgado no sítio em que não se conseguira desviar da ponta do corno. O rasgão deixava-o feliz, exibindo-o aos espectadores. Deu uma volta à arena. Zurito viu-o andar, sorrindo, apontando para o colete. Sorriu também. Alguém espetava o último par de banderillos. Ninguém prestava atenção. O homem do Retana enfiou uma vara dentro do pano vermelho da muleta, dobrou o pano, e entregou-o por cima da barrera a Manuel. Pegou na caixa da espada, 86 tirou-a, e segurando-a pela bainha de couro, entregou-a por cima da vedação a Manuel. Manuel puxou a lâmina pelo cabo vermelho e a bainha caiu, mole. Olhou para Zurito. O homem grande viu que ele estava a suar. – Apanha-o, rapaz – disse Zurito. Manuel acenou com a cabeça. – Ele está em boa forma – disse Zurito – Mesmo como o queres – assegurou-lhe o homem do Retana. Manuel acenou. O trompetista, debaixo do telhado, deu o toque para o ato final e Manuel caminhou atravessando a arena na direção onde, em cima, nos camarotes escuros, o presidente deve estar. Nos lugares da fila da frente o crítico de touradas substituto do El Heraldo deu um longo gole no seu champanhe quente. Decidiuque não valia a pena escrever uma reportagem em partes e que havia de escrever sobre a corrida no escritório. “Afinal o que raio era aquilo? Apenas uma corrida noturna.” Se lhe escapasse qualquer coisa poderia ler nos jornais matinais. Deu mais um gole no champanhe. Tinha um encontro no Maxim’s à meia-noite. “Afinal quem eram estes toureiros? Miúdos e vagabundos. Um monte de vagabundos.” Pôs o bloco de papel no bolso e olhou para Manuel, sozinho na arena, a gesticular com o chapéu numa saudação em direção ao camarote acima que não conseguia ver na praça escura. O touro estava imóvel na arena, olhando para o vazio. – Dedico este touro a si, Sr. Presidente e ao público de Madrid, o mais inteligente e generoso do mundo – era o que Manuel estava a dizer. Era uma fórmula. Disse-a toda. Era um pouco comprida demais para ser usada numa corrida noturna. Fez uma vénia para a escuridão, endireitou-se, atirou o chapéu por cima do ombro e, transportando a muleta na sua mão esquerda e a espada na direita, caminhou em direção ao touro. Manuel caminhou em direção ao touro. O touro olhou para ele, os seus olhos eram velozes. Manuel reparou na maneira como os banderillos estavam pendurados do seu ombro esquerdo e no brilho uniforme do sangue das picadas de Zurito. Reparou na posição das patas do touro. À medida que andava para a frente, segurando a muleta com a mão esquerda e a espada com a direita, observava as patas do touro. O touro não conseguia investir sem juntar as patas. Estava agora com elas alinhadas com o corpo, sem reação. 87 Manuel caminhou na sua direção, observando as patas. Estava tudo bem. Conseguia faze-lo. Tinha de lidar de forma a que o touro baixasse a cabeça, para poder passar pelos cornos e matá-lo. Não pensou na espada, nem em matar o touro. Pensou numa coisa de cada vez. Contudo, o que estava para vir afligia-o. Caminhando para a frente, observando as patas do touro, viu sucessivamente os seus olhos, o seu focinho molhado e a larga envergadura dos seus cornos apontados para a frente. O touro tinha círculos claros e torno dos olhos. Os seus olhos observavam Manuel. Sentia que ia apanhar este pequenote de cara branca. Imóvel e esticando o pano vermelho da muleta com a espada, a ponta perfurando o pano para que a espada, agora na sua mão esquerda, esticasse a flanela vermelha como a vela de um barco, Manuel reparou na ponta dos cornos do touro. Uma delas estava lascada de ter embatido na barrera. A outra estava afiada como os picos de um porcoespinho. Manuel reparou, enquanto esticava a muleta, que a base branca do corno estava manchada de vermelho. Enquanto reparava nestas coisas não perdera de vista as patas do touro. O touro observava Manuel fixamente. “Está agora na defensiva”, pensou Manuel. “Está-se a preparar. Tenho de o provocar e fazer com que baixe a cabeça. Fazer sempre com que baixe a cabeça. Zurito fê-lo baixar a cabeça uma vez, mas ele recuperou. Há de sangrar quando eu começar a puxar por ele e isso há de fazer com que a baixe.” Segurando a muleta, com a espada na mão esquerda estendendo-a à frente dele, chamou o touro. O touro olhou para ele. Inclinou-se para trás insultuosamente e abanou a flanela esticada. O touro viu a muleta. Tinha um tom escarlate brilhante debaixo das luzes de arco. As pernas do touro juntaram -se. Aqui vem ele. Vuuush! Manuel rodou quando o touro passou e levantou a muleta para que passasse sobre os cornos do touro e se arrastasse pelas suas amplas costas, da cabeça à cauda. O touro atirara-se ao ar ao investir. Manuel não se mexeu. No fim do passe, o touro virou-se como um gato que dobra uma esquina e enfrentou Manuel. Estava de novo ao ataque. A sua lentidão tinha passado. Manuel observou o sangue fresco a brilhar pelo ombro negro e a escorrer pela pata do touro. Tirou a espada da muleta e segurou-a na mão direita. Com a muleta segura abaixo, na mão esquerda, 88 inclinado para a esquerda, chamou o touro. As patas do touro juntaram-se, os olhos na muleta. “Aí vem ele”, pensou Manuel. “Ha!” Girou com a investida, arrastando a muleta à frente do touro, os pés firmes, a espada a seguir a curva, um feixe de luz sob as luzes de arco. O touro voltou a investir assim que o pase natural32 terminou e Manuel levantou a muleta para um pase de pecho33. Atento, o touro aproximou-se do seu peito debaixo da muleta levantada. Manuel inclinou a cabeça para trás para evitar o chocalhar dos cabos dos banderillos. O corpo quente e negro do touro tocou-lhe no peito quando passou. “Foi perto demais”, pensou Manuel. Zurito, inclinado sob a barrera, falou rapidamente com cigano que trotava em direção a Manuel com a capa, Zurito puxou o chapéu para baixo e olhou para o outro lado da arena, para Manuel. Manuel enfrentava de novo o touro, a muleta em baixo e à esquerda. A cabeça do touro estava baixa enquanto olhava para a muleta. – Se fosse o Belmonte a fazer aquilo enlouqueciam – disse o homem do Retana. Zurito não respondeu. Observava Manuel no centro da arena. – Onde é que o chefe foi desencantar este tipo? – perguntou o homem do Retana. – A sair do hospital – disse Zurito. – É para onde ele há-de voltar daqui a pouco – disse o homem do Retana. Zurito virou-se para ele. – Bate nisso – disse, apontando para a barrera. – Opa, estava a brincar – disse o homem do Retana. – Bate na madeira. O homem do Retana inclinou-se para a frente e bateu três vezes na barrera. – Vê a faena – disse Zurito. No centro da arena, debaixo das luzes, Manuel estava ajoelhado em frente ao touro, e quando levantou a muleta com ambas as mãos o touro investiu, de cauda espetada. Manuel desviou o corpo e, quando o touro investiu, rodou a muleta fazendo um semicírculo que pôs o touro de joelhos. 32 Passe natural é um passe clássico, é um movimento que se dá com a muleta na mão esquerda, guardando distância do touro, durante a sua passagem. 33 Muitas vezes utilizado como complemento do passe natural, o passe de peito é um passe em que o toureiro segura a capa com a mão esquerda e faz o touro passar por esse mesmo lado. 89 – Muito bem, aquele é um grande toureiro – disse o homem do Retana. – Não é, não – disse Zurito. Manuel levantou-se e, com a muleta na sua mão esquerda, a espada na direita, agradeceu os aplausos da praça escura. O touro tinha-se erguera-se de novo em cima das patas, e esperava, a sua cabeça caída. Zurito falou com dois outros rapazes da cuadrilla e estes correram para se porem por trás de Manuel, com as suas capas. Estavam agora quatro homens atrás dele. Hernandez seguia-o desde a primeira vez que saira com a muleta. Fuentes observava, a capa junta ao corpo, alto, em repouso, a observar com olhos preguiçosos. Aproximaram-se ambos. Hernandez acenou-lhes para se posicionarem um de cada lado. Manuel estava sozinho, de frente para o touro. Manuel fez sinal aos homens com as capas para recuarem. Recuando cuidadosamente, viram que estava branco e a suar. Então não sabiam que tinham se de manter atrás? Queriam que o touro reparasse nas capas depois de estar dominado e preparado? Tinha o suficiente com que se preocupar sem aquele tipo de coisas. O touro, as quatro patas formando um quadrado, olhava para a muleta. Manuel enrolou a muleta na mão esquerda. Os olhos do touro observavam-na. O corpo pesavalhe nas patas. Tinha a cabeça para baixo, mas não demasiado. Manuel levantou a muleta para ele. O touro não se mexeu. Apenas os olhos observavam. “Está encaminhado”, pensou Manuel. “Está bem posicionado. Está bem enquadrado. Vai tentar.” Pensava em termos de tauromaquia. Por vezes, quando tinha uma ideia e uma parte particular da gíria não lhe vinha à cabeça, ele não conseguia concretizá-la. Os seus instintos e conhecimento funcionavam automaticamente, e o seu cérebro trabalhava devagar e com palavras. Sabia tudo sobre touros. Não precisava de pensar neles. Apenas fazia a coisa certa. Os seus olhos reparavam em coisas e o corpo fazia o que era necessário sem ter de pensar. Se pensasse sobre isso, estava feito. Agora, de frente para o touro, estava consciente de muitas coisas ao mesmo tempo. Havia os cornos, um lascado, outro bem afiado, a necessidade de se perfilar em direção ao corno esquerdo, lançar-se curto e direto, baixar a muleta para o touro a seguir, e, acima dos cornos, espetar a espada toda naquele pequeno ponto do tamanho