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Continuidade.Ruptura Dissertação de Mestrado Integrado Teresa Espinheira Rio FAUP 2014/15
Por opção da autora, manteve-se nesta Dissertação de Mestrado Integrado o antigo Acordo Ortográfico. As citações utilizadas encontram-se nas suas respectivas línguas originais para que se mantenha o rigor e sentido de cada expressão. Algumas das imagens apresentadas sofreram alteração para cor monocromática relativamente às originais.
Teresa Espinheira Rio Dissertação de Mestrado Integrado Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Orientação do Professor Arq. Nuno Brandão Costa Junho, 2015 Continuidade.Ruptura
A memória de um tempo é um dos temas desta dissertação. Em todos os passos, socorri-me dela para me reportar a um tempo que já passou, mas que pode ser projectado para um novo tempo. Para mim, memória é recordar um espaço, é recordar um homem cheio de tradição e costumes. Memória é comemorar uma vida que já passou, é o berço de uma vida. Por isso, como as memórias não têm sentido vividas a sós, agradeço à “família dos sete” (aos meus seis irmãos), à minha Mãe, pilar da minha vida. Aos meus amigos, com quem construí lembranças e recordações. Agradeço ao R. pela ajuda incansável. Agradeço ao Professor Nuno Brandão Costa pela disponibilidade, paciência e importantes contributos. Agradeço ao meu Pai, que embora memória de um tempo e de um espaço, será sempre o ponto de partida para o meu futuro. Agradecimentos
Esta dissertação centra-se no tema da Reabilitação de edifícios, nas diferentes abordagens possíveis e nas alterações a levar a cabo para conferir uma nova vida, um novo habitar a edifício já existente. Dentro do tema da Reabilitação, colocam-se em constante confronto a criação e/ou conservação de elementos construtivos no tempo e a possível ruptura com o passado, isto é, confrontam-se a Continuidade e a Ruptura. Neste trabalho, debatem-se questões sobre o património, a história que os edifícios transportam consigo no tempo, as estórias que encerram nas suas paredes e o significado que lhes foi dado noutro tempo, por outros actores, ou seja, o significado que tiveram em vivências passadas. Da generalidade do tema, parte-se para um problema em concreto: a reabilitação da Casa, situada no Marco de Canaveses. Esta construção, que actualmente se encontra desocupada, conta com mais de cinquenta anos de existência e espelha em vários dos seus elementos, características de épocas diferentes. O problema, a par da Reabilitação é a adaptação da casa a novas necessidades, é encontrar um equilíbrio, é definir quais os elementos a manter e quais as alterações a efectuar. Para perceber como seria possível reabilitar esta Casa, foi necessário perceber as suas características e que referências se debruçariam sobre elas. De factores físicos, como a Luz ou a própria estereotomia do edifício, a factores intangíveis, como a organização temporal da casa (construída em várias fases), o pormenor da chaminé-fumeiro - referenciada no Inquérito à Arquitectura Popular - ou a inserção da Casa num contexto rural, com claras implicações económicas na sua construção. Estes e outros factores condicionam todo o processo de escolha entre opções muitas vezes contraditórias, para se chegar a uma proposta de solução. Para cada dúvida foi necessário revisitar trabalhos e textos de referência, a fim de encontrar uma resposta exequível. Logo após o capítulo introdutório, apresentam-se várias definições de casa e de componentes suas, como a Luz, o enquadramento no Lugar ou no Tempo. Todos estes elementos são fundamentais para enquadrar a casa e o projecto nos estudos e trabalhos de referência deste tema. Os resultados obtidos não podem ser tomados como a única solução possível. Aliás, a Reabilitação não pode ser encarada como uma escolha absoluta entre a Continuidade e a Ruptura, mas antes como um continuum de soluções, no qual se deverá encontrar um equilíbrio entre as condicionantes da pré-existência e os requisitos do Cliente, sem descurar o Valor que a Arquitectura pode acrescentar à vida de um edifício e do Homem que a habita. Palavras-chave: reabilitação; continuidade-ruptura; património; autenticidade; temporalidade. Resumo
This dissertation focuses on the theme of building rehabilitation, the different possible approaches and changes to give a new life to an existing building. Within the Rehabilitation theme, there is always a constant confrontation between the creation and/or maintenance of constructive elements and the possible discontinuity with the past; there is a confrontation between Continuity and Rupture. In this essay is discussed the meaning of heritage, the history that buildings carry a long time, the stories that they hold between their walls and the meaning they had once in other lives and past experiences. From the generality of this theme, emerges a real problematic: the rehabilitation of a house located in Marco de Canavezes. This building, which is currently unoccupied, has over fifty years of existence and reflects in many of its elements the characteristics of different periods in time. The problem, along with the rehabilitation of the house, is it’s adaptation to new needs, finding a balance between which elements to keep and what changes to make. In order to understand how to rehabilitate this House, it was necessary to understand its characteristics and references. From physical factors such as light or the building’s own stereotomy, to intangible factors such as the house’s temporal organization (built in several phases), to the detail of the chimney - referenced in the “Inquérito à Arquitectura Popular” – and also the insertion of the House in a rural context, with clear economic implications on its construction. These and other factors affect the process of often choosing between contradictory options, to come up with a final solution. From a more practical point of view, it was necessary to revisit texts and reference works in order to find a reasonable response for each problematic. For example, the stairs with double height, developed as the solution that better organized the upper floor. As on the other hand, the preservation of the chimney no longer made sense, as it doesn’t respond to its original function, therefore it was removed. The final results can’t be taken as the only possible solution. Rehabilitation can’t be seen as an absolute choice between Continuity and Rupture, but instead as a continuum of solutions where a balance must be found between the pre-existing conditions and the customer requirements, while meeting the value that architecture can add to the life of a building and its inhabitants. Key words : Rehabilitation; continuity - break; heritage; authenticity; temporality. ABSTRACT
Índice 019_ Introdução 021 Objecto e Objectivos 023 Programa 024 Metodologia 033_ I A Casa. O Habitar transformado 047_ II Locus [o Lugar] 045 A história do Lugar 051 O Lugar da Casa 053 A Luz no Lugar 061 O Tempo no Lugar 067 Tectónico e Estereotómico 071 Importância do Lugar no Projecto 073 Interpretações do Lugar 075_ III Gênese do projecto 085 A Forma e a Função dos espaços 095 O projecto de Reabilitação. Construção do programa 101 Fases de projecto. Evolução da proposta 121_ IV Contingências do Projecto. Reabilitar no construído 121 Epígrafe 131 Arquitectura Popular Portuguesa. O Inquérito 139 A propósito de um Projecto. Referências 147 Estratégias. Soluções 143_ Considerações Finais 156_ Referências Bibliográficas 158_ Anexos 165_ índice de imagens
Pensar, desenhar, perceber, reflectir, interpretar, projectar, e construir. Estes são alguns conceitos inerentes à complexidade do Habitar. Compreender este contexto torna-se extenso e complexo. É possível definir-se por épocas, por modas, por estilos e correntes artísticas, como pelo género, pela idade, pelo número. Deste modo, torna-se interessante reflectir sobre o Habitar no Espaço Doméstico e de que forma a Arquitectura consegue corresponder às necessidades, às vontades, aos caprichos e luxos do Homem no Tempo. Encara-se este último exercício como o início de um caminho, como um livro em branco que se preenche de dúvidas e hipóteses de trabalho. Neste sentido, a escolha do tema geral surge em torno da Reabilitação, com o objectivo de perceber de que forma a memória e a identidade de um edifício podem permanecer na contemporaneidade. Por outro lado, a escolha do tema surgiu também para encontrar soluções arquitectónicas aquando do encontro de patologias de degradação e ruína, que caracterizam a vida do edifício. Decidiu-se que esta dissertação, mais do que um decorrer de textos em torno da reabilitação, fosse um manuscrito pessoal, um documento de método de trabalho para chegar a uma hipótese fundamentada. Ressalta-se a importância da referência e de modelos como método fundamental de pesquisa, pois perceber como os “outros pensaram” é uma forma de estudar e conhecer a pertinência das dúvidas encontradas. Não se desvaloriza a própria capacidade de escrever ou de pensar acerca de um tema, mas Introdução 019
1 PESSANHA, J. A. M., 1996. Os pensadores: Sócrates. São Paulo: Nova Cultural Editora, p.46. atende-se nas diversas leituras uma citação de Sócrates: “ Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” 1 OBJECT0 E OBJECTIVOS A Quinta Sta. Maria, localizada numa zona rural do Marco de Canaveses, é um Lugar que se dispõe no território através de suaves curvas de nível, onde está plantada uma extensa área de produção de vinha e um conjunto habitacional. É possível reparar nas ruínas da habitação, os aditamentos do espaço arquitectónico no tempo, a consequente mudança da função nos espaços, e perceber a simplicidade dos seus antigos habitantes. O projecto, uma Casa de fim-de-semana num contexto vinícola, no qual se desconhece a totalidade da origem exacta das suas partes arquitectónicas, sem que isso se torne um obstáculo, é considerado pelo cliente como um refúgio do alvoroço do dia-a-dia. Assim, a reabilitação da casa torna-se a única atitude a adoptar, de forma a apreciar a exuberante e calma paisagem agrícola que o Lugar detém. O objectivo é imaginar um projecto com o propósito de o construir num futuro próximo. (Re)Construir uma ideia para um espaço que já teve um tempo específico de vida, mas que neste momento não possui as características necessárias para o Presente. Pretende-se, perante o Lugar, compreender a autenticidade e a dinâmica do contexto rural no qual se insere o caso de estudo, e projectar um novo espaço que, por conseguinte, resultará num novo Habitar. Pretende-se com este projecto consolidar uma metodologia de pensamento e extrair conhecimentos acerca do acto de projectar, tendo como premissa uma pré-existência. Perceber quais os caminhos para alcançar uma solução que respeite as raízes do Lugar. Perceber o acto/implicações de Reabilitar, Reconstruir e Requalificar. Perceber na pré-existência a questão do Património na Arquitectura e da Arquitectura Popular Portuguesa. De que forma a memória caracteriza um tempo, um espaço e um Homem. 021
PROGRAMA A oportunidade de construir uma pré-existência e com isso delinear um novo habitar num espaço, onde o tempo de vida já foi o Presente, foi considerada de uma responsabilidade imensa. Por isso, a definição de objectivos concretos, a determinação de um programa que se adapte principalmente às grossas paredes de pedra existentes, é uma premissa essencial para o projecto. O programa teria não só de respeitar as necessidades do cliente, como principalmente de se adaptar à identidade do Lugar. Na tentativa de construir um programa coerente, o pensamento vagueou em torno de algumas palavras-chave, que ajudaram a perceber e caracterizar o objecto arquitectónico da seguinte forma: Casa-Património; Casa-Reabilitação; Casa-Mudança; Casa-Refúgio e Casa-Forma vs Função. A nível projectual, apresentam-se diferentes fases que caracterizam uma metodologia de pensamento que consiste na delimitação de uma atitude fundamental. Aborda-se o tema da reabilitação, que se desenvolve em torno da relação entre ruptura – continuidade – imitação. Esta atitude foi desenvolvida tendo como base uma premissa elementar: a estrutura da pré-existência deveria continuar presente na nova proposta, para mais tarde se conseguir perceber a analogia do Tempo no Espaço, ou seja, a fusão entre o antigo e o recente. E neste sentido, o avanço e recuo das fases do projecto caracterizam a intenção de encontrar o melhor espaço arquitectónico. Funcionalmente, não havia o que inventar. Apenas perceber as partes do edifício e adaptá-las às novas funções. Era necessário propor uma reformulação para “impor” uma nova dinâmica, que caracteriza o objecto como “Casa-Reabilitação”. A relação entre forma|função é desenvolvida e explorada, segundo o antes e o depois (antigo e recente) para se conseguir entender se o novo habitar se adequa ao espaço existente. 023
2 Dinâmica antiga_ A casa, no piso térreo, tinha uma cozinha com forno para fazer pão, sala de refeição, zona de dormir, adega, sequeiro / zona de animais. Wc no exterior. No piso superior tinha “três” quartos. 3 KIPLING, Rudyard, “The Elephant´s Child in Just so Stories” in CÓIAS, V., 2007. Reabilitação Estrutural de Edifícios Antigos, Alvenaria e Madeira: Técnicas Pouco Intrusivas. 2ª Edição ed. Lisboa: Argumentum e GECoRPA. Desenvolveu-se um programa definitivo, em parte parecido com o antigo, que se desenvolve entre a zona de confecção de alimentos, a zona de refeições, uma diversidade de zonas de estar, a zona de dormir e respectivos quartos-de-banho. Relativamente à adega: por questões de segurança acabaria por desaparecer.2 Em relação à conjugação do edifício com a sua envolvente, o processo de reabilitação iria reforçar a relação entre estes dois elementos. Tendo a quinta uma actividade vinícola em exploração, fazia todo o sentido mantê-la e criar um espaço domestico para permanecer. Assim, o efeito de casa-refúgio só faz sentido no projecto se for garantida a existência de uma dinâmica sensorial com a sua envolvente. METODOLOGIA Como esta dissertação pretende-se conjugar uma hipótese de projecto fundamentada com uma teoria arquitectónica, a metodologia de trabalho ambiciona, por este meio, clarificar os elementos apresentados. Toda a construção metodológica começou a partir de um poema de Rudyard Kipling intitulado como The Elephant´s Child in Just so Stories. “ I keep six honest serving-men (They taught me all I knew); Their names are what and why and when and How and Where and Who.” 3 O poema aguçou a curiosidade de saber: o tema da tese, o habitar transformado consequente do processo de reabilitação; a razão da escolha do lugar; perceber a questão do tempo na arquitectura; a questão de como podemos permanecer na contemporaneidade tendo como referência o passado; a importância do lugar na arquitectura; e perceber quem é o sujeito da arquitectura: o Homem. 025
i03 Esquissos. Processo de trabalho
4 Eduardo Souto Moura in LOPES, C. N. L., 2012. Arquitectura e modos de habitar: conversas com arquitectos. s.l.:Edições CIAMH. 5 LE CORBUSIER in ROSSI, A., 1994. Autobiography scientific: Landscapes and houses of Modern Greece. Atenas: Create University Press. A Casa. O habitar Transformado “ As casas são como as pessoas, (…) uma espécie de segunda pele. Quer dizer, as pessoas têm uma alma interior, mas também têm uma alma exterior. Não é por acaso que, quando eu faço assim ou assim, estou a incomodar-te e não te estou a tocar. Portanto, há uma atmosfera, uma energia em que as pessoas se revêem na sua identidade. Quer no corpo, quer na roupa, quer nas casas. Portanto, as casas são como as pessoas: diferentes, manipuláveis, mexem-se.” 4 “O território delimitado pelas paredes da casa é a extensão do corpo do individuo e a ilusão de liberdade total que o homem pode alcançar depende unicamente do seu corpo e a sua mente. A casa é o corpo fortalecido, o seu próprio esqueleto.” 5 033
i04 Gottfried Semper i05 Cabana primitiva de Oscar Niemeyer
6 BAEZA, A. C., 2005. A tua casa, o teu museu, o teu mausoléu. A minha casa, nem museu, nem mausoléu. Arquitectura Ibérica: Habitar, Volume Nº 10, p. 44. 7 O conceito de Tectónico vai ser explicado com mais clareza no capitulo seguinte intitulado como Locus [o Lugar] É reconhecível que as inúmeras definições da casa são e foram, ao longo da história da Arquitectura, muito frequentes. O retorno às origens envolve sempre um processo de reflexão sobre a existência das coisas. Pensar nas divergências do habitar é um dos objectivos de destaque deste exercício. Através do estudo da pré-existência, pretende-se compreender em que medida o espaço pode caracterizar o habitar do Homem e por conseguinte, o impacto que a reabilitação tem na mudança de um novo habitar (o habitar transformado). Numa vertente mais global, primeiramente é necessário perceber a origem da Casa e em que momento a Arquitectura aparece na vida do Homem. Mais tarde foca-se no caso em estudo, com maior solidez. Campo Baeza, referindo-se concretamente ao desenvolvimento da forma arquitectónica, explica a cronologia da casa de uma forma muito sucinta: primeiro a caverna, depois a cabana, e por fim, a casa. Primeiro a Caverna. “ O Homem, animal com uma clara racionalidade, embora pouco desenvolvida, pouco avançada, refugiou-se nas cavernas para se proteger do frio e da chuva e para se defender do ataque de outros animais irracionais. (…) e aquela racionalidade, com toda a sua capacidade de criação, deixou nas paredes as marcas da sua imaginação, da sua memória, naquelas paredes através da pintura. “ 6 Depois, surge a Cabana. “ O homem pensou que podia construir o tectónico.” 7 Compreendeu, embora inconscientemente, as leis da gravidade e construiu a cabana. Embora apenas para se refugiar e defender, pôde então com maior liberdade, escolher o sitio de implantação e a forma da habitação. A sua capacidade de criação, que na caverna se manifestava através da pintura, acabou por caracterizar a cabana como um elemento mais primitivo da arquitectura. Neste caso, o homem decide onde se fixar e construir a forma arquitectónica mais conveniente. Finalmente, a Casa. O carácter da defesa e do refúgio, próprios do homem da caverna e da cabana, transforma-se no habitar. Intrinsecamente relacionado com a Casa, o verbo habitar transforma o lugar para o qual foi pensado, segundo as circunstâncias do como, do porquê e do quando – efeito de transformação e metamorfose do elemento arquitectónico; no sentido em que o lugar se modifica para ser parte do homem (habitante) 035
Há casas com recantos para amar, Há outras onde o amor Se faz em cinco minutos E às vezes já é demais, Há casa como um dedal e geometria de abelhas, Casas de perfil atento Ao rumor das nascentes e das estrelas. Há casas como o cristal, casas de luz circular, Há casas onde não é possível Ouvir correr o silêncio, Há casas que as casas só têm o nome, Há casas que nem para os cães. Há casas tão inteligentes Que não consentem qualquer margem Para luxos e arrebiques, Casas onde a alegria se instala Sem tempo nenhum para a mágoa. Há casas onde o pão é triste E a roupa mal lavada, Há casas que são um rio, Há casas que são um baco, Outras têm pomares Onde os diospiros ardem, Há casas com terras de vinha e trigo E muros a toda a roda. Há casas que são um poema Para dar um amigo” 9 “Há casas Cuja beleza começa no projecto. Outras, e são talvez as mais belas, Existem só na cabeça do arquitecto. Há casas feitas à medida do homem, Outras há para andar de bicicleta, Há casas sobre cascatas Onde ao sortilégio da água Se junta a música de Bach. Há casas tão ajustadas Como fato por medida Ou um verso de Cesário, outras de tão confusas Não viram régua nem esquadro. Há casas de papel, casas de madeira, Casas de palha e de barro, Casas que trepam o céu, Casas que cheiram a Jasmim do Cabo, Há casas só para dormir Parecidas com um sudário. Há casas onde Habitar é o começo da morte, Há casas de pátios caiados Com varandas para o mar, Casas onde apetece estar sentado com um gato nos joelhos. E o coração sossegado.
8 BAEZA, A. C., 2005. A tua casa, o teu museu, o teu mausoléu. A minha casa, nem museu, nem mausoléu. Arquitectura Ibérica: Habitar, Volume Nº 10, p.53. 9 FUSCO, Renato. História da Arte Contemporânea. 1º Edição, Lisboa: Editorial Presença, 1988., p.34. e, reciprocamente, o homem fazer parte integrante do lugar. Com isto, Campo Baeza conclui que “ se o homem como animal se refugiou nas cavernas, e como ser racional construiu a cabana, o homem como ser culto, criador, concebeu a casa como morada do habitar. E é neste ponto que nos encontramos.” 8 Tal como Campo Baeza afirma, este é o momento do fenómeno da “Casa como morada do Habitar”. Explica e relaciona o espaço como consequência do habitar do Homem. E é, baseada nesta forma de ver a Casa, que se pretende analisar o caso de estudo. Eugénio de Andrade, no poema Há casas9, explica exactamente esta relação de que se fala, mas de uma forma generalizada. O autor descreve as possíveis Casas existentes, dentro do mundo da arquitectura. Ou seja, consegue descrever uma casa para o Eu, o Tu e para o Nós. Com a leitura deste poema chega-se a certeza destas palavras, pois embora seja possível perceber a casa em diferentes vertentes e interpretada com distintos habitares, o homem é o factor determinante do habitar. Assim, como metodologia de trabalho foi delineada uma linha de pensamento centrada no Homem, que deambula entre a Casa – Habitar – Reabilitação, resultando no Habitar Transformado. No esquema apresentado explica-se o caminho até ao habitar transformado, que resultou da hipótese da Reabilitação do espaço. |ver Esquema B| Tal como referido anteriormente, a relação que o homem estabelece com o seu refúgio - a casa - é o factor que transforma e caracteriza a essência do habitar. Diversos autores reflectiram sobre as vertentes possíveis de o ser humano se apoderar do espaço: uns desenvolveram a habitação mínima, aliada a uma simplicidade programática; outros defendem que a Arquitectura Popular é a base conceptual da casa-refúgio e o contrário de casa-objecto. No que diz respeito ao processo da reabilitação, o objectivo é perceber em que sentido e de que forma a transformação do espaço caracteriza o habitar. Relativamente ao caso de estudo, temos uma pré-existência, em que o habitar está relacionado 037
a Casa REABILITAÇÃO transformação do HABITAR Permanente Temporário anti-social Socialização Habitar com Identidade Habitar com Identidade Esquema C Adaptação da Casa de acordo com o novo habitante. Pré-existente vs novo Habitar Habitar Reabilitação Habitar X Esquema B Ideia conceptual da atitude a ter perante a pré-existência. Metodologia de pensamento Habitar YTransformado
com a actividade agrícola. Acrescentando a esse factor, temos um espaço que foi apoderado por uma família numerosa, que adaptou a casa às suas necessidades “à sua maneira”. Além destes factores, temos os efeitos de degradação do edifício, que constituem também uma das causas que justificam a reabilitação do espaço. Com uma descrição meramente sintética da realidade do cenário, surge a necessidade de modificar/adaptar o espaço, no qual o Cliente sonha com uma solução transformadora, “mais moderna”. Pretende uma casa de fim-de-semana – Habitar Temporário e Sazonal (actualmente: habitar permanente);. Uma casa para receber amigos, família e para descansar do stress citadino – Habitar Social (impossível nas condições actuais, dado que os antigos moradores abandonaram a casa porque o espaço era demasiado pequeno e desactualizado para a sua dinâmica familiar). Uma casa que estivesse em harmonia com o Lugar e com a actividade vinícola – Habitar com Identidade. |ver Esquema C| Em referência ao Habitar Temporário e Sazonal, a transformação baseia-se no seu oposto: o habitar permanente, que se caracteriza por uma dinâmica espacial própria, que o cliente não pretendia. Assim, para se conseguir definir e caracterizar esta dialéctica de significados, tentou-se relacionar o caso de estudo com o conceito de casa-refúgio. O caso da Casa-Refúgio, devido à condição de abrigo que oferece, é considerado como uma Arquitectura intimista, no sentido em que é pensado para ter espaços mais reservados. Aliada a estas características, a casa-refúgio distingue-se por ter dimensões reduzidas, resultante de um programa em que as diferentes funções se podem sobrepor. Algo similar à cabine de um barco ou de uma roulotte. Neste tipo de espaço é necessário aproveitar ao máximo as áreas disponíveis, onde o arquitecto pode, por exemplo, desenhar um mobiliário versátil (mesas dobráveis convertíveis em camas). O interior de Pizzigoni, em Bergamo, é um bom exemplo desta postura, que procura rentabilizar o espaço até ao último centímetro. É necessário perceber também que a incorporação de várias funções num espaço mínimo pode ter um efeito contrário ao pretendido, um efeito claustrofóbico. Este problema pode ser resolvido com uma série de recursos comuns, como é o caso da flexibilidade das divisórias ou a extensão do espaço interior para o exterior. 039
i08 Casa em Saint Cloud de Le Corbusier i07 Casa-Refúgio de Eugeen Liebaut i06 Glass House de Philip Johnson, 1949 i09 Casa em Baião de Eduardo Souto Moura
A fluidez espacial do interior para o exterior não é apenas um mecanismo de projecto para aumentar o espaço interior. As qualidades protetoras da Casa-Refúgio estão baseadas na concordância com o exterior, para que o Homem possa participar passivamente com a natureza que o rodeia e, concomitantemente, sentir- -se seguro nela. Ou seja, que utilize a casa como um miradouro do exterior. As aberturas podem ser diversas, entre os grandes envidraçados, como na Glass House de Philip Johnson ou a cúpula transparente da casa-refúgio de Eugeen Liebaut. Deste modo, a razão do habitar temporário e sazonal, comparado com a casa-refúgio, tem sentido se o homem se relacionar por exemplo com a actividade vinícola. O homem constrói então um habitar moldado pelo lugar, mas a casa-refúgio só pode ser considerada como tal se o lugar de implantação for uma premissa de projecto e uma referência à própria natureza. Com base neste facto, onde a natureza aparece como referência, pode-se distinguir duas posturas: o natural e o artificial. Fundamentados numa vertente mais poética, podemos encontrar implantações como a casa de Le Corbusier em Saint Cloud, onde a folhagem das árvores abriga a casa, desempenhando a segunda camada da casa; e a reconstrução da ruína em Baião de Eduardo Souto Moura, onde esta é semi-enterrada, agarrando-se ao próprio terreno. No entanto, a casa em estudo apresenta-se a uma cota superior em relação à paisagem. Esta característica dá-lhe um carácter de casa-objecto, pois existe uma oposição formal entre o natural (a natureza) e o artificial (a casa). Esta designação é apenas conceptual, não se podendo assim considerar que a natureza da implantação tenha seguido este pensamento. Relativamente ao Habitar Social, tal como já foi referido, a Casa não tinha espaço para “hospedar” esta função. A família tinha muitos filhos e os espaços comuns eram também ocupados como zonas de dormir. 041
i12 Ponte medieval de Marco de Canaveses, 1809, demolida i13 Igreja do Salvados do Tabuados, séc. XIII i14 Igreja Marco de Canaveses, Álvaro Siza
10 in http://www.cm-marco-canaveses.pt. As raízes históricas deste concelho estão ligadas à antiga vila de Canaveses, cujo senhorio pertenceu à família de D. Gonçalo Garcia, entre 1255 e 1384. Nesse ano, Canaveses foi entregue, por D. João I, a João Rodrigues Pereira. Já no século XIX, as suas terras foram integradas no município de Soalhães. Contudo, esta situação foi alterada em 1852, com a criação do concelho de Marco de Canaveses, que resultou da anexação dos concelhos de Benviver, Canaveses, Soalhães, Portocarreiro e parte dos de Gouveia e Santa Cruz de Riba Tâmega.” 10 049
i15 Esquissos. Lugar
11 Rui del Pino Fernandes in Trancoso, C., 2010. Replace. Dédalo: nº7, Maio. Ao entender que o território se torna uma premissa importante na criação da personalidade “individual”, existe uma ligação do edifício ao meio em que está inserido. A Casa, rodeada por uma extensa área de produção de vinha, torna-se um elemento peculiar de reduzidas dimensões, que nos remete para diversas interrogações em relação ao tempo das pré-existências, onde a memória da Ruína pressupõe um silêncio ao Lugar. O Tempo no Lugar deu voz à ruína do caso de estudo, onde outrora já houve um habitar individualizado e adaptado ao Homem. Assim, neste momento e neste contexto, pode ser vista a memória de um Espaço aliado a um Tempo. É neste desafio que se pretende caminhar, ou seja, no da adaptação de um espaço com memória a um novo Homem, tecnologicamente avançado e com gostos muito focados na dinâmica do Lugar. O terreno eleito é ermo e amplo com os seus 10 hectares, localizando-se num dos pontos mais baixos em relação à envolvente urbanizada, com uma vista magnífica para a vinha existente. Trata-se de uma localização privilegiada, imponente e silenciosa, cuja panorâmica representa um convite irresistível à contemplação. A interpretação do Lugar, ao longo dos tempos, talvez tenha sido encarada como memória de onde viemos. No entanto espera-se que este “ seja mais do que uma memória, mas um espelho de onde se encontra o caminho para o nosso futuro.” 11 O Lugar da Casa 051
i17 Panteão, Pintura Giovanni Panini, séc. XVIII i16 Black on Maroon, Mark Rotko, 1958
12 Campo Baeza in BAEZA, A. C., 2011. Pensar Com as Mãos. s.l.:Caleidoscópio, p. 53. Campos Baeza define a Luz como um material de Luxo da arquitectura. Escreve que “ a luz é o mais bonito, o mais rico e o mais luxuoso dos materiais utilizados pelos arquitectos. O único problema é que é gratuito, está ao alcance de todos e por isso não se valoriza suficientemente. Os arquitectos antigos usavam os mármores e os bronzes, e os arquitectos mais modernos usam o aço e os plásticos especiais e os vidros. Todos tentamos construir arquitecturas capazes de permanecer na memória dos homens, de permanecer no tempo. E só os arquitectos que valeram a pena, os mestres, compreenderam que a luz, precisamente a luz, é o principal material com que a arquitectura é capaz de vencer o tempo. Isso mesmo entendeu tanto Adriano quando construiu o Panteão, como Antémio de Trales ou Isidoro de Mileto quando ergueram Santa Sofia, ou Mies Van der Rohe quando pôs de pé a casa de Farnsworth.” 12 Neste sentido, surgiu a necessidade de perceber a Luz no Lugar e, consequentemente, na Casa. Perceber a dimensão das janelas, das portas, do olhar exterior que tenta entrar no interior e do olhar interior que tenta ver para o exterior. – Álvaro Siza pensa o efeito da luz como um factor primordial da arquitectura, pois defende que sem luz não existe arquitectura. Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa, o termo janela, define-se como uma abertura numa parede de um edifício com o intuito de deixar entrar a luz e permitir a ventilação dos espaços. É também considerada um ângulo de visão, pois permite a extensão do olhar entre o interior e o exterior. Numa vertente mais poética, a janela pode significar símbolo da consciência ou até portal para o inconsciente. As pinturas de Rothko interpretam exactamente a ideia do infinito, levando o espectador a prolongar o olhar nas janelas representadas. Na Arquitectura é desnecessário quantificar as janelas no sentido em que nada se relaciona com a quantidade, mas sim, com uma habitabilidade qualificada. No entanto, verificou-se que a casa tinha aberturas reduzidas e considerou-se abrir grandes envidraçados, sobre a paisagem diversificada. Chegou-se no entanto à conclusão que poderia ser um erro. Primeiramente, podemos afirmar que a luz está relacionada e doseada pelo seu oposto, a sombra. A combinação adequada entre luz e sombra é como a analogia entre o silêncio e o barulho, o belo e o feio, A Luz do Lugar 053
i18 Esquissos. Luz
13 Ibidem, p. 53-54. isto é, as quantidades de elementos opostos é determinante para a perfeição. Campo Baeza relaciona a quantidade da luz com a quantidade do sal – “ a falta de sal na cozinha deixa os alimentos insípidos e o excesso de sal arruína-os.” 13 Outra razão encontrada, e talvez a mais justificativa e peculiar, foi a relação entre o desenho das janelas e o impacto que a luz pode ter no espaço, nomeadamente numa construção em pedra. Entender as dimensões das aberturas e encontrar relações para o novo projecto. Numa fase primária procuraram-se alinhamentos às janelas para desenhar a organização da zona dos quartos. | ver: Fases do Projecto. Evolução da Proposta| Uma terceira consideração encontra-se na questão construtiva. O desenho de uma abertura, seja janela ou porta, determina a tectónica do edifício. Ou seja, a própria estereotomia pétrea acaba por preparar o momento da abertura, através do encaixe das pedras, e fazendo muitas vezes uma moldura em torno da janela. As dimensões das portas do sequeiro são disso exemplo. Qual seria, no presente, o benefício arquitectónico, de regularizar a dimensão destas duas portas ou até de abrir um grande vão envidraçado? As medidas existentes deveriam ser diferenciadas por alguma razão funcional, de cariz agrícola, na altura em que foram construídas. Então poder-se-ia responder que, tendo cessado a existência dessa função, é evidente a mudança da forma. Porém, surge outra questão: o encaixe das pedras. Poder-se-ia então idealizar situações de remate para o problema. Mas surge outra dúvida: Qual o limite para as mudanças? Porque uma vez inicializadas estas modificações - e, por instantes, a consciência pára a euforia - e já se fez um projecto quase novo! Conclui-se com uma última questão: onde está a identidade da pré-existência? Todo o desenho é invadido por dúvidas desta natureza: Não deveria respeitar a pré-existência, para que se consiga perceber a essência do Lugar? A memória, a autenticidade da construção irregular popular desvanece num capricho de remate? Será que as diferentes aberturas não vão permitir uma interessante e diversificada entrada de luz? 055
i19 Esquisso. Luz
14 Campo Baeza in BAEZA, A. C., 2011. Pensar Com as Mãos. s.l.:Caleidoscópio, p. 54 Podemos entender o envolvente como algo magnífico, mas se tivermos sempre a oportunidade de o ver, não se tornará uma banalidade? Qual a razão de invadir o interior de luz se, no verão, a sombra do interior é a única forma de proteger o Homem das vagas de calor? Neste sentido, as janelas na Casa permanecem com as suas peculiaridades, reservando ao edifício uma identidade própria. Entendeu-se as janelas como um organismo de captação da luz que leva o olhar para fora e traz a paisagem para o interior. “ No Panteão de Roma, a sabedoria do arquitecto leva-o a delimitar a máxima quantidade de luz com a máxima quantidade de sombra. E assim o óculo luminoso é cercado pela mais profunda sombra que torna ainda mais luminosa, se possível for, aquela luz divina vinda do alto. Em Santa Sofia de Istambul, os brilhantes arquitectos abrem uma coroa de altas janelas pelas quais não só entra luz directa, em jorros, como também a indirecta, reflectida nas suas profundas jambas brancas de tal modo que parece um milagre quando os raios de luz se cruzam no ar. Na Casa Farnsworth, o arquitecto, com a mesma sabedoria que os seus antecedores, mas conhecendo já o aço e o vidro, decide propor-nos a transparência absoluta. E ali a luz suspensa no ar evoca “o sopro da brisa suave” com que o profeta descreve a presença da divindade.” 14 057
i24 Pré-existência. Sequeiro
i25 Pré-existência. Porta do sequeiro. Estereotomia
17 FRAMPTON, K., 1998. Introdução ao Estudo da Cultura Tectónica. Lisboa e Matosinhos: Associação dos Arquitectos Portugueses e Contemporânea Editora, p. 45. 18 Ibidem, p.28-29. 19 Ibidem, p.29. Primeiramente torna-se importante clarificar os termos estereotómico e tectónico na Arquitectura, perceber que parte do edifício pertence à terra (estereotómico) e que parte se desliga dela (tectónico). É ainda importante considerar se todo o edifício trabalha em continuidade e concordância com as suas raízes – a terra - ou, pelo contrário, se estabelece apenas contacto ínfimo. Kenneth Frampton, baseado nos termos de Gotfried Semper, escreve: Partindo da hipótese do que se refere à relativa autonomia da arquitectura, as formas construídas eram tanto estrutura e construção como criação e articulação do espaço. “ Eu tento recuperar a noção do séc. XIX de tectónica, num esforço para resistir à tendência actual em ficar só nos efeitos cenográficos. (...) Para além destas distinções, Semper divide a forma construída em dois procedimentos materiais distintos: a tectónica da rede, onde as distintas partes se conjugam constituindo uma única unidade espacial; e a estereotómica, da massa que trabalha a compressão, que quando conforma um espaço fá-lo por sobreposição de partes iguais. O termo estereotómico provém do grego stereos, que significa sólido, e tomia, que significa cortar.” 17 No âmbito do primeiro termo, o tectónico, o material mais utilizado ao longo da história foi a madeira, ou os seus similares, o bambu, as canas. Quanto ao segundo, o esterotómico, o material mais empregado foi o tijolo, ou materiais similares que reagem bem à compressão, como a pedra ou adobe e, mais tarde, o betão armado. Neste sentido, entende-se por arquitectura tectónica aquela “ em que a força da gravidade se transmite de uma forma sincopada, num sistema estrutural com nós, com juntas, e onde a construção é articulada. É a arquitectura óssea, lenhosa, leve. A que poisa na terra como em bicos de pés. E a arquitectura que se defende da luz. (…) É arquitectura da casca. É, em suma, a arquitectura da cabana.” 18 “ Por contraste, entende-se como arquitectura estereotómica, aquela em que a força da gravidade se transmite de uma forma contínua (…) É a arquitectura maciça, pétrea, pesada. A que assenta na terra como se dela nascesse. É a arquitectura que busca a luz, que perfura as suas paredes para que a luz entre no seu interior. (…) É, em suma, a arquitectura da caverna.” 19 No entanto, uma arquitectura tectónica passou com o tempo, a ter um carácter estereotómico, partindo de uma arquitectura pétrea e maciça, para soluções mais recentes, com materiais mais leves. Tectónico e Estereotómico 067
Mies Van der Rohe, Crown Hall do IIt em Chicago, desenha o edifício unicamente com um carácter tectónico, onde a estrutura do edifício é também o seu revestimento. Campo Baeza escreve que a Luz na arquitectura “ constrói o tempo” e a arquitectura estereotómica procura luz, atravessa as paredes para captar a luz no seu interior. Pelo contrário, a arquitectura tectónica, pura ossada, tem necessidade e precisa de se proteger da luz. Podemos reflectir que a forma como o passado é contado pode deturpar, ocultar ou sublinhar aspectos da história que irão interferir directamente na memória e, consequentemente, na identidade de um lugar e de uma sociedade. Por isso, perceber a construção do edifício e as suas camadas, é a única forma fidedigna para compreender as diferentes vertentes do Lugar. 069
i26 Esquisso. “A Casa no Lugar”
20 João Álvaro rocha in ROCHA, J. Á., 2008. João Álvaro Rocha 2001 – 2007. AI25 Arquitectura Ibérica, p. 35. O Lugar reside assim como elemento primordial para a arquitectura, no sentido em que é a partir dele que o projecto começa. Quando isso não acontece, quando um projecto se pode construir em qualquer lado, estamos a falar de uma arquitectura de protótipos, de uma arquitetura de imagens. Quando o Lugar adquire uma importância imensa no projecto, seja uma reabilitação ou projecto de raiz, é o próprio que desenha a arquitectura. Ou seja, as premissas estão no terreno, o trabalho do arquitecto é saber interpretá-las. E é este caminho que se pretende percorrer! “(…) Lugar entendendo aqui lugar como sinónimo de paisagem, naquilo que ela representa enquanto acção transformadora do homem sobre a natureza. Também por isso o lugar acaba por ser condicionador do habitar. (…) O lugar através da relação que o objecto construído é capaz de estabelecer com ele, acaba por se tornar ele próprio determinante da diferença, fazendo com isso que o objecto se torne único e irrepetível – basta uma pequena ondulação do terreno, um ligeiro desnível, uma pedra solta ou a forma da casa do lado … Creio que independente do tempo, o habitar (ou a casa) ainda depende ou assenta em coisas mais ou menos prosaicas como a orientação da luz natural, a protecção e o aconchego necessários para descansar ou dormir, o despertar perante uma paisagem, o conforto indispensável para se estar bem sentado, o sentido de reunião e a magia ancestral que proporciona o fogo num fogão de sala e todas as outras coisas que, não sendo visíveis, acabam por ser essenciais ao carácter que se quer atribuir a um espaço. João Álvaro Rocha defende que arquitectura deveria ser reflexo de um tempo, e interroga-se que o “ fascínio que um raio de sol pode provocar ao deslizar sobre uma superfície de uma parede branca ou de um muro de pedra, revelando-nos por vezes presenças absolutamente inesperadas que provocam mutações espaciais completamente insólitas? Não será isto suficiente? … Ou será que o vazio não se constitui sempre como uma oportunidade para que as coisas possam acontecer – as presentes e as ausentes? 20 A Importância do Lugar no projecto 071
“ Se ouvirmos a Ruína, ouvimos o Sítio que foi lugar, e podemos perceber que as imagens são sempre construções do Homem. Enquanto houver Homem, há limitações para os seus lugares. Sem Homem, existe o eterno Sítio descomprometido. O contexto é o Homem.” 22 Ao reflectir o Presente acabamos por pensar no território em que nos desenvolvemos,percebendo assim o Lugar em relação ao meio em que este se insere. Cauquelin defendia que o “Lugar” é como um tempo sagrado da nossa existência, onde guardamos as nossas memórias. O respeito pela memória, que ao fim do cabo são também as suas memórias, como a rotina diária da habitação e a primazia pela funcionalidade, são factores decisivos para a criação ou preservação desta máquina afectiva de habitar. ruína temporalidade memória LUGAR QUESTÕES Lugar vs Identidade do arquitecto Pode ser entendido como elemento que intervém e condiciona o projecto ou ser negado pela arquitectura TÁVORA |SIZA (continuidade) Fundamental intervir em continuidade com o existente Relação entre Projecto - Lugar: o lugar é entendido com valor histórico e interpretado como possuidor de formas e significados Távora projecta a partir de uma observação atenta e cuidada da realidade “ As escolhas do arquitecto não devem criar formas “geniais” unicamente justificadas pelo egoísmo da sua individualidade” 23 REM KOOLHAS (ruptura) Autonomia da Forma, entendido como algo inovador ou radical “ A força dos meus edifícios reside no impacto imediato, visceral, que provoca no visitante. Para mim, isto é tudo o que importa em Arquitectura. Quero constituir um edifício que provoque sensações e não um que represente esta ideia ou aquela.” 24 Desvalorização do lugar como premissa do projecto, entendida numa sociedade marcada pela globalização atitudes Esquema E (possíveis) interpretações de Lugar
21 Jornal Expresso, 2014. Grandes Entrevistas da História: 1952-1970. Lisboa: Imprensa Publishing, p.69. 22 TRANCOSO, Carlos in Dédalo: Replace, nº7, Faculdade de Arquitectura Universidade do Porto, Maio 2010 . 23 Távora, F., 2006. Da Organização do Espaço. 6ª Edição ed. Porto: FAUP Publicações, p.26. 24 Jacques Herzog in TRANCOSO, Carlos in Dédalo: Replace, nº7, Faculdade de Arquitectura Universidade do Porto, Maio 2010 . Interpretações do lugar A premissa Lugar pode ser interpretada de variadas formas, e segundo autores diferenciados. O olhar do arquitecto e a sua arquitectura podem ser criticados, mas as razões de um determinado pensamento constitui um processo mais complexo, uma vez que faz parte da sua índole e identidade do próprio. Numa entrevista a Salvador Dalí perguntam-lhe como é que ele se auto-avalia. A resposta: “ - Tal como sou. O maior génio deste século. - Sente-se como tal? - Sem dúvida, e não há mais nenhum.” 21 No entanto, perante o terreno existiam duas atitudes possíveis para desenhar o projecto: a continuidade outra ou ruptura. A primeira refere-se e perceber o existente e relacioná-lo com o novo, enquanto a segunda cria a construção de um novo projecto. No entanto, como o processo referencial é considerado neste trabalho como uma forma de desenvolver uma metodologia de pensamento, desenvolveu-se um esquema em torno do assunto onde é possível perceber a dictomia de atitudes. |ver Esquema E| 073
Esquema G Processo Iterativo. Hipótese de projecto: antes e depois pré-existência proposta
Assim, surge uma hipótese projectual que consiste na demolição da parte que inclui a cozinha, com a substituição por um novo edifício. Esta nova parte, relaciona-se com o existente de uma forma muito ténue, pois o objectivo não é destacar o novo, mas sim exaltar a continuidade construtiva do edifício, relacionando os diferentes tempos de construção. |ver Esquema G| A segunda dúvida, intrinsecamente relacionada com a primeira, estava associada ao sistema construtivo original, desde a pedra da soleira da porta, o desenho da fachada de pedra, ao desenho da chaminé da cozinha, que corresponde a um tipo característico na zona, enumerado no livro Inquérito à Arquitetura Portuguesa. Todos estes elementos conferem ao edifício um carácter singular, pelo que não poderiam ser esquecidos. A solução adoptada surge na continuidade do material, a pedra granítica, mas com um encaixe diferente. No entanto, em relação às aberturas, a solução que pareceu mais sensível foi manter o desenho e as dimensões das já existentes. 081
i31 Proposta. A Casa
i32 Casa no Marco de Canaveses. Chaminé-Fumeiro i33 Pré-existência. Chaminé-Fumeiro i34 Pré-existência. Interior da cozinha
28 MENÉRES, A., 2006. Dos Anos Do Inquérito À Arquitectura Regional Portuguesa. Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, p.122-123. 29 Ibidem, p.114 O edifício em estudo, tal como já referido, caracteriza-se pela sua repartição por blocos|partes. Entretanto, relativamente ao desenho da chaminé da cozinha como um elemento de protótipo local, entendeu-se que a construção de um novo bloco iria permitir reorganizar o espaço interno – marcação da entrada principal da casa, a organização da zona da cozinha e zona de refeiçõesbem como possibilitar um maior número de quartos, conforme exigência do cliente. Poder-se-ia considerar que o desenho exterior da chaminé, a origem fidedigna da sua forma na importância da cultura arquitectónica em Portugal, e a importância da conservação do mesmo poderia ser uma hipótese de projecto. Hipótese essa, que consistia numa interpretação mais contemporânea da sua forma - |ver solução B e C| No entanto, esta atitude poderia ser interpretada como um processo puro de imitação, pondo em causa o significado de autenticidade da arquitectura. |ver definição de imitação no Anexo 1: glossário, pag. XXX| Optou-se, portanto, por um novo bloco com cobertura plana. |ver Esquema H| De acordo com o livro Arquitectura Tradicional Portuguesa, este tipo de chaminé aparece com grande frequência nos concelhos de Amarante, Marco e Cinfães e designa-se por chaminé-torre, uma “ vez que consiste numa (…) espécie de torre coberta por um vulgar telhado, no alto de cujas paredes se rasgam delgadas fendas para a saída do fumo. O tamanho destas chaminés, construídas assim por mero desejo de ostentação e vaidade, provoca uma tiragem ainda menor que nas outras, e a consequência de fuga de calor, (…) e tem por isso de ser apoiada sobre grossos pilares, ou mesmo em arcos que dão à cozinha um aspecto monumental.” 28 No âmbito do desenho exterior da chaminé, surgem dúvidas em relação às duas peças mais importantes da cozinha – a lareira e o forno. A lareira eleva-se do chão 20-25 cm (correspondente à espessura das lajes de granito), confundindo-se parcialmente com o pavimento. “ O forno servia para cozer as fornadas de broa e pão de centeio e assados em dias festivos. A sua construção era em abóbadas de tijolo coberto por uma camada espessa de barro.” 29 a forma e a função dos espaços 085
Esquema H Processo iterativo. Opções de desenho acerca do novo volume Solução A Solução B Solução C Solução E: proposta final Solução D: proposta final
30 Ibidem, p.114 31 http://www.priberam.pt/dlpo/ 32 TRIGUEIROS, Luís in Távora, F., 2006. Da Organização do Espaço. 6ª Edição ed. Porto: FAUP Publicações, p.18. 33 Ibidem, p.19. Curiosidade: “ Só mais tarde é que as lareiras se elevam do chão uns 60 cm, para maior comodidade de quem cozinha. Este exemplo foi frequente nos concelhos da Maia e Vila de Conde, nomeadamente nas cozinhas dos pescadores.” 30 Esquecendo o valor histórico da chaminé com a organização interna da cozinha e questionando o valor de autenticidade na arquitectura, surge a indecisão entre a ruptura ou a continuidade destes elementos - Porque não encarar uma ruptura projectual, que consista num desenho mais funcional e adaptado ao conhecimento dos seus habitantes? Neste sentido, é possível compreender, pensar e actuar na Arquitectura segundo uma nova perspectiva, caracterizada por uma nova realidade: a Ruptura. Ruptura pode ser definida como “ uma acção ou efeito de romper, cuja continuidade foi interrompida, divisão; anulação de obrigações sociais ou compromissos; acção de violar ou infringir um acordo; buraco ou abertura, fenda.” 31 Desde o século I a.C. foram escritos distintos tratados sobre metodologias de projecto, da composição e da construção, de como são exemplo o tratado de Vitrúvio [séc. I a.C.], de Vignola e Palladio [séc. XVI], de Diderot [séc. XVIII] e o de Le Corbusier [séc. XX]. O século XX foi o tempo da experimentação e utilização de novos materiais, da pré-fabricação, do moderno em contraponto com o passado e a tradição. Diversos autores reflectiram sobre o estado e a evolução da sociedade, sobre as formas do habitar como espelho de uma sociedade, focando-se na influência dos lugares, dos espaços e dos edifícios. W. Lescaze diz inclusive que a “ Arquitectura é a arte de fazer coincidir as formas de uma civilização com o seu conteúdo.” 32 Fernando Távora escreve que “ as casas de hoje terão de nascer de nós, isto é, terão de representar as nossas necessidades, resultar das nossas condições e de toda uma série de circunstâncias dentro das quais vivemos, no tempo e no espaço.” 33 087
i35 Casa em Briteiros, Fernando Távora i36 Casa B. Harley Bradley, Frank Lloyd Right
34 Ibidem, p.23. No entanto, a obra de Távora está intrinsecamente relacionada com o passado, “ evoca-o naturalmente quando recupera um edifício ou quando acrescenta algo de novo a uma velha construção, mas evoca-o também quando constrói de raiz (…) Arquitecto moderno, à sua modernidade sempre repugnou porém ignorar, esquecer ou destruir, pois na sua obra os valores desta modernidade sempre ombrearam, nostalgicamente, com os da tradição; é portanto no quadro duma relação dialéctica entre presente e passado que importa entender a progressiva inserção da arquitectura de Távora.” 34 Com isto, podemos relacionar a perspectiva de W. Lescaze e Távora com a Casa no Marco de Canaveses, mais especificamente no que se refere à chaminé (designada por chaminé-fumeiro ou chaminé-torre), ao forno a lenha e à lareira. A continuidade destes elementos poderia ter sentido se o novo homem os fosse utilizar com a mesma autenticidade e sabedoria. Neste sentido, a ruptura ou abolição destes elementos justifica-se pela inutilidade de função. A função do objecto determina e caracteriza a identidade e utilidade do objecto. Curiosidade: Marcel Duchamp designou por Ready Made peças escultóricas que consistiam em objectos banais da sociedade, descontextualizados da sua função e contexto usual [ ver: “A fonte”, 1917]. Por outro lado, o carácter social que inicialmente existia em torno da lareira na cozinha, transporta-se para a zona de estar. Frank Lloyd Wright, na casa B. Harley Bradley (1900), desenha um espaço de convívio confortável em torno da lareira, que proporciona à sala uma versatilidade de espaços e funções. Pretende-se, assim, que a sala de convívio se divida em partes e funções, para permitir uma maior versatilidade e conforto ao espaço. Por exemplo, uma zona em torno da lareira, uma zona de leitura e uma zona de descanso. |ver Esquema I| Outra particularidade interessante foi a organização da zona de dormir. A necessidade de espaço já era um aspecto importante a resolver. O facto de se ter de passar por um quarto para entrar noutro reflecte a simplicidade do habitar do homem. |ver i37| 089
i38 Pré-existência. Vistas das escadas interiores
37 Adolf Loos in SARNITZ, A., 2009. Adolf Loos 1870-1933. Arquitecto, Crítico Cultural, Dândi. s.l.:Taschen, p.55. devido a uma necessidade de armazenamento de produtos agrícolas. Mais tarde, constrói-se uma nova divisão para abrigar o caseiro da quinta, e uma adega e, por fim, os dois anexos que complementam as fases anteriores – casa de banho e cozinha. Em geral, a habitação caracteriza-se por ter dimensões modestas, com alguma falta de recursos e sobretudo uma organização funcional confusa. É neste contexto que surge a referência às experiências de Le Corbusier sobre a resolução dos problemas da Habitação Mínima, uma vez que, como as áreas existentes são reduzidas e compartimentadas por funções, é necessário tornar o espaço versátil e fluido, sem artifícios desnecessários e apenas com o essencial. Adolf Loos escreve também que “ na sua própria casa, o homem vive em dois níveis distintos, divide a sua vida em duas partes. A vida durante o dia e a vida durante a noite. Divide-a entre viver e dormir.” 37 Assim, delineia-se o programa consoante a recuperação da malha estrutural presente, que se caracteriza pela divisão da casa entre um andar mais social (cozinha, sala de refeições e sala de estar no piso térreo) e outro mais privado (zona dos quartos no primeiro andar). A nova organização interior tem as escadas como elemento organizador e de ligação. Pretende-se reorganizar o existente e não demolir por completo o seu interior, o que iria proporcionar, embora intencionalmente, novas orientações e alinhamentos. É a partir desta reformulação das escadas que o novo edifício vai procurar alinhamentos para se unir. O projecto desenvolveu-se da seguinte forma: A Casa recuperada, no piso térreo, com cozinha e zona de refeições (novo edifício) e zona de estar (antigo sequeiro), ficaria em pedra granítica no exterior e rebocada pelo interior. No piso superior, zona dos quartos, o sistema construtivo repete-se. Em relação à antiga adega, esta é transformada numa suite, pois a permanência da actividade, punha em causa a segurança do habitar da restante casa. Na zona da cozinha é utilizado o mesmo sistema construtivo para se igualar ao restante edificado, assegurando um efeito de continuidade. 097
38 João Andersen in ALPENDURADA, J. P., ANDRADE, P. R. & LENCASTRE, P., 2009. A Casa Ruben A., Obra de João Andresen - Arquitecto Português do Século XX. Porto: Civilizações Editora, p 34. “ De modo algum queremos negar épocas passadas. De ante mão sabemos que se o Rei D. Manuel tivesse erigido um monumento ao Infante D. Henrique, esse monumento teria como veículo, para a sua materialização, o estilo manuelino, e estava certo. E não ignoramos que se, essa homenagem tivesse sido prestada pelo Marquês de Pombal, teríamos hoje, e muito bem, um monumento pombalino. Não negamos, pois, o passado e mais do que isso, queremos que ele valide com o seu testemunho a nossa formação. A tradição não é sinonimo de paragem ou retrocesso. Tradição é evolução.” 37
1. O telhado da cozinha (novo edifício) e da adega, ao contrário do existente, que é em telhado de duas águas, é em cobertura plana. 2. As caixilharias, devido à degradação da madeira, são substituídas por umas novas, mantendo-se a utilização de caixilharias em madeira. Apenas se acrescenta uma portada, também em madeira, para efeitos de segurança. 3. No exterior, o espigueiro vê recuperada a sua estrutura, que ainda se encontrava em bom estado. O chão na zona de estacionamento e em torno da casa é em pavimento mineral. 4. Os percursos da quinta continuam em saibro e com a mesma medida (3 metros). 5. A economia é uma das principais condições para a realização da obra, pelo que esta será executada por um empreiteiro local. No entanto, ao longo do processo de desenvolvimento da proposta, existiram pormenores que suscitaram dúvidas quanto à forma dos espaços e à sua correspondente função e, consequentemente, na relação entre o construído e a proposta do novo. Com isto a mudança de funcionalidade de um espaço proporciona um novo carácter espacial. No caso específico da adega, que foi transformada numa suite, as aberturas não tinham proporção em relação à escala humana, no que diz respeito à sua altura. Por isso, sem negar a sua existência. Foram tapadas com pedra, mas emparelhada de forma diferente. Quanto à estereotomia do edifício, surge a necessidade de uniformizar a Casa através do material utilizado em toda a construção, a pedra de granito. Como o desenho da chaminé deixa de fazer sentido e existem patologias de degradação na pré-existência, optou-se por construir uma nova zona da cozinha, com estrutura em pedra realçada pelo exterior. No mesmo seguimento, o desenho de cobertura plana na cozinha marca uma nova fase construtiva para o edifício, que se destaca pela diferença, pela adaptação do lugar às novas necessidades. Todas estas dúvidas permaneceram durante o processo projectual, como um burburinho constante, como um entendimento claro que a arquitectura tem um tempo, uma memória, uma identidade. 099
i39 Esquissos. Conversa com o Orientador
“ O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo, o tempo tem.” Com a citação deste trava-língua explica-se que este trabalho é constituído por etapas de desenvolvimento, e que cada uma delas constitui o processo de trabalho. Assim, cada uma das seguintes fases apareceu num momento especifico, resultante de um pensamento característico de dúvidas próprias. Como metodologia houve necessidade de começar primeiro pelo esquisso do projecto, e foi com essa base que se construiu e escreveu acerca do tema do trabalho – a Reabilitação. Desenhar, fotografar o terreno e imaginar como teria sido viver naquela casa, as dúvidas surgiam e a dificuldade de conseguir construir uma proposta era cada vez maior. Esta pequena narrativa que se irá apresentar acerca do processo de trabalho reflecte muitas das dúvidas, decisões e críticas que surgiram ao longo do mesmo. Este relato intimista encurta e caracteriza sem enfado o processo de desenvolvimento. Neste procedimento percebeu-se que por vezes o desenho não se reflecte no espaço, o que pode indiciar que não estamos a seguir o melhor caminho. Tentou-se, portanto, ir ao terreno várias vezes para perceber in loco o impacto das decisões. Tal como já referido, o projecto desenvolveu-se por fases que se caracterizam por avanços e recuos por tentativa-erro, de forma iterativa. De seguida, explica-se a proposta segundo cada fase de trabalho fases de projecto. evolução da proposta 101
i40 Esquissos
“ Entretanto, parei de desenhar e fui pesquisar sobre arquitectura popular portuguesa para perceber a razão de algumas especificidades da pré-existência. No Inverno fui ao Marco de Canaveses e saí de lá com vontade de abrir grandes vãos. Já na Primavera, quando revisitei a arquitectura, percebi que a potencialidade dos jogos de luz-sombra poderiam ser caracterizadores para o projecto. Voltei ao projecto e redesenhei o que tinha posto de lado anteriormente: a dimensão das janelas. Olhei atentamente e percebi que tinham uma moldura ao seu redor, mas voltei a repugnar a forma de abertura, em guilhotina. Lembrei-me de quando era criança e fiquei com os dedos trilhados. Quem nunca se trilhou nestas janelas? Assim decidi, sem hesitação, que as dimensões e a madeira iriam permanecer no meu projecto, mas com uma abertura diferente. Na época das vindimas voltei ao Lugar. Queria perceber in loco a dinâmica da actividade agrícola, que ocupava grande parte da quinta. Nesse dia tive tempo para observar tudo ao pormenor e tentei então imaginar o meu desenho na casa. Desanimei por completo! No piso térreo, as escadas e a casa de banho encurtavam o espaço; na sala a mezanino que desenhei começou a estrangular-me o ar e a visão. Comecei a sentir aflição porque nada estava bem. Nem os alinhamentos, nem as sensações que tinha pensado quando estava a esquissar faziam sentido. Fui à cozinha e faltava espírito no meu desenho – naquela cozinha existia sem sombra de dúvida uma alma cheia de memória e vivência. Lembrei-me das “reuniões” que as minhas tias e a minha avó faziam em torno das panelas. Falava-se de tudo: das promoções do supermercado, do filho que não respeitava a mãe e do marido que não respeitava a mulher. Vivia-se com intensidade, com alegria e sofrimento. Algum problema devia existir porque a forma exterior já me era estranha e agora também o interior. Os meus olhos tentaram desenhar uma solução para o que já tinha desenhado. Assim se pensou em alargar a zona da cozinha, quase para o dobro. Subi até à zona dos quartos. As escadas voltaram a incomodar-me. Entrei num quarto, depois no outro e voltei a perceber a força das janelas. Voltei a encaixar o meu desenho na casa e foi então que consegui entrar na casa de banho, um pouco pequena, mas suficiente. 103
i41 Esquissos
Tentei também imaginar a visibilidade de uma suposta abertura na grossa parede de pedra, que dava para a sala. Pensei que se a sala tivesse pé-direito duplo conseguia ter uma amplitude do espaço. Conseguia ver as vinhas ou até chamar a minha irmã quando acabasse de tomar banho. A casa só tinha uma casa de banho! Consegui imaginar a estrutura de madeira do telhado a encaixar nas paredes. Desci as escadas para ir ao exterior e quase que me esquecia de “ver” o efeito do pé-direito das escadas. Este efeito amenizou a sensação das escadas, mas algo continuava lá. Pensei por alto: tenho de pensar noutra solução para as escadas, mas depois vê-se…. Dei duas voltas à casa e resolvi a diferença de cotas que havia entre a adega e o resto da casa. Ligação pelo exterior, mas principalmente uma ligação pelo interior. Desenhei umas escadas. A adega transformou-se numa sala de convívio, numa biblioteca; numa biblioteca onde se poderia beber uma boa garrafa de vinho e ler um livro. Parecia-me uma boa solução! Tirei mais fotografias, consegui fazer mais uns esquissos e esclarecer as dúvidas que tinha. Pensei: consegui falar com a casa. Longe do lugar regressei ao desenho. Reformulei as escadas graças ao pé-direito que tinha pensado para a zona da entrada. Aumentei a cozinha, mas tive dúvidas da sua forma. Tive dúvidas se devia encostar o construído com o novo. O encaixe ficaria bem? Não me pareceu, e por isso desenhei um novo edifício separado do existente. Assim, já que tinha aumentado em comprimento, aumentei também em altura. A zona dos quartos teve também possibilidade de aumentar, e pensei: consegui satisfazer uma necessidade do cliente, aumentar o número dos quartos. Pensa aqui, pensa ali e o desenho foi-se construindo. O orientador, Nuno Brandão Costa, questionou, entre muitas perguntas, qual era a verdadeira essência de separar os edifícios, já para não falar da “beleza” da planta. Repensei. Fui escrever e rever as referências que já tinha pesquisado acerca do assunto. Decidi juntar o novo com o construído e assumir uma ruptura com ligação, a qual designo por continuidade. Torno a debruçar-me sobre algumas dúvidas e tento aperfeiçoar a minha proposta. No fim, chego a uma solução que não sendo perfeita, concluí que só o tempo - a experiência - me poderá dizer qual seria a melhor solução.” 105
Plantas Fase II Plantas Solução 2.2 Plantas Solução 2.1 Piso Térreo Piso Superior Piso Superior Piso Térreo N Legenda 01 Hall 02 WC 03 Sala de Jantar 04 Cozinha 05 Sala de Estar 06 Adega 07 Quarto 08 Escritório 01 0304 05 0502 02 07 07 0702 01 0304 05 0602 02 07 07 08
A segunda fase surge com o desenvolvimento do projecto, no sentido em que existem pormenores que vão sendo aperfeiçoados e outros que deixam de fazer sentido. Exemplos disso é o acesso vertical, as escadas. Nesta fase desenha-se um módulo único, onde são conjugados num só lado as escadas e a casa de banho. Existe, portanto, um encaixe destes dois elementos, pois a solução anterior dava um efeito estrangulador à entrada. Ou seja, existia apenas um corredor de um metro de largura que separava as duas partes. Nesta fase tenta-se perceber a pré-existência com outro olhar e por isso é caracterizado por dois momentos. O primeiro momento ainda agarrado ao desenho da fase anterior evolui para um desenho diferente nas escadas e na sala, onde se desenvolve um mezanino. Esta caracteriza-se por ser um espaço de estar mais privado da sala mas com forte ligação com a zona dos quartos. Num segundo momento existe uma reviravolta no projecto, onde se começa a pôr em causa propostas relativamente às dimensões das aberturas (portas e janelas), ao pé direito da sala porque é preciso aumentar o número dos quartos. Em relação às dimensões chega-se á conclusão que a singularidade dimensional das aberturas poderia ser um factor caracterizante no projecto. Assim, mantém-se com o desenho inicial do sequeiro, em vez de abrir uma grande janela. Por outro lado, por se propor mais um quarto, a zona de estar estava pequena. A adega passa a ligar-se ao sequeiro pelo interior, com o objectivo de caracterizar o aumento do espaço com um carácter versátil. No entanto, também existem grandes modificações nos alçados do projecto. O novo quarto, na parte de cima da sala obriga a um aumento do pé-direito, e por isso é proposta uma uniformização dos blocos. Uniformiza-se o sequeiro à cota da outra zona dos quartos, e a adega à cota da cozinha. A cozinha, nesta fase, também pode ser interpretada como um elemento diferente do restante, por se apresentar com uma cobertura plana e revestida no exterior sem ser a pedra, por exemplo, em betão. Fase II 113
Plantas Solução 3.1 Plantas Solução 3.2 Plantas Fase III Piso Superior Piso Térreo Piso Superior Piso Térreo N Legenda 01 Hall 02 WC 03 Sala de Jantar 04 Cozinha 05 Sala de Estar 06 Adega 07 Quarto 08 Escritório 01 03 04 05 06 02 08 0707 07 02 02 01 03 04 05 05 08 0707 07 02 02
Caracteriza-se esta etapa do projecto como a fase da Ruptura. “Peguei numa nova folha e tentei esquecer o que já tinha feito para conseguir ver o projecto numa nova perpectiva.” Caracteriza-se a fase anterior como uma espécie de solução-imitação da pré-existência, por se tentar alterar o projecto justificando com o próprio projecto. Isto é, altera-se o desenho do sequeiro para se igualar ao edifício vizinho e interpreta-se a antiga chaminé-fumeiro com um olhar mais contemporâneo. A metodologia de pensamento da fase anterior parece agora um pouco descabida. Recomeça-se então pela continuidade do desenho do sequeiro, pela continuidade dimensional das janelas (1m de largura) e das portas (1,10 m de largura), até que se chega ao edifício da cozinha. Propõe-se assim um novo bloco, com dois pisos separado em parte do restante edifício, para marcar a diferença temporal construtiva. A cozinha é desenhada com uma área maior, onde se junta a zona de confecção de alimentos e zona de refeições. Em relação à união entre os edifícios, esta é conseguida segundo alinhamentos das escadas. O elemento vertical na zona da entrada é redesenhado e acaba também por organizar o piso térreo e, principalmente, modificar por completo o piso superior em relação à fase anterior. O piso superior, zona dos quartos, tem agora uma organização mais simples, mas ainda é possível distinguir a temporalidade dos elementos. O número de quartos é assim aumentado de dois para quatro. Nesta fase, procura-se também “ampliar” o espaço a partir do carácter do pé-direito dos espaços. Ou seja, a sala volta a ter pé-direito duplo tal como as escadas, mas estas numa escala mais reduzida e proporcional. Fase III 115
Plantas Solução 4.1 Plantas Solução 4.2 Plantas Fase IV Piso Superior Piso Térreo Piso Superior Piso Térreo N Legenda 01 Hall 02 WC 03 Sala de Jantar 04 Cozinha 05 Sala de Estar 06 Adega 07 Quarto 08 Escritório 09 Arrumo 01 04 03 05 02 02 08 07 09 0707 07 02 02 0707 07 02 02 01 04 03 05 02 02 08 07 09
Esta fase tem uma forte relação com a fase anterior no sentido em que continua a defender a nova perspectiva de pensamento: continuidade de alguns elementos e ruptura em relação a outros. No entanto, a escada acaba por ser mais uma vez o factor impulsionador das grandes modificações, pois a zona de entrada poderia ter mais amplitude. Esta premissa é conseguida quando se desenha as escadas com um único lanço e se reparte o espaço em partes. No piso térreo, divide-se a zona das escadas da casa de banho e no espaço vazio é possível fazer um pé-direito duplo. Em frente, o espaço livre transforma-se num escritório com possibilidade de se tornar um quarto. Na sala, como a ligação com adega não está bem conseguida relativamente ao seu desenho, elimina-se essa ligação. Assim, para conseguir dar à sala o carácter versátil do seu uso, esta é organizada em duas partes, pondo a lareira no meio. Numa parte podemos ter uma zona de leitura e outra zona de estar em torno da lareira. Relativamente ao piso superior, a situação agrava-se. Devido ao afastamento do edifício os quartos ficam muito pequenos, tornando o espaço claustrofóbico. Neste sentido, questiona-se as razões dos edifícios estarem separados. Por um lado, a maior razão da sua separação era marcar uma diferença construtiva, uma possível ruptura encarada como uma viabilidade de projecto. Por outro lado, esta separação tem pontos negativos onde se destaca o desenho das plantas e a falta de espaço na zona dos quartos. Assim, esta fase divide-se num novo momento: a junção dos edifícios. E talvez fosse possível unir os edifícios e distinguir na mesma o Tempo no edifício. Propõe-se assim um novo edifício com uma forma diferente do existente – efeito de ruptura, mas revestido também a pedra – efeito de continuidade. Nesta nova etapa, existem algumas transformações que constituem ao projecto uma mais-valia para o cliente e que se baseiam no aumento de espaço, na versatilidade de espaços de estar, no aumento de quartos e principalmente na amplitude que é conseguida com o pé-direito em alguns espaços. Existe, portanto, uma relação entre a pré-existência, entre o Espaço e o Tempo, ou seja, entre a Continuidade e a Ruptura. Fase IV 117
i42 Esquissos
119 i43 Esquissos
39 Campo Baeza in BAEZA, A. C., 2011. Pensar Com as Mãos. s.l.:Caleidoscópio, p.33. 40 Paul Ricoeur in FRAMPTON, K., 1998. Introdução ao Estudo da Cultura Tectónica. Lisboa e Matosinhos: Associação dos Arquitectos Portugueses e Contemporânea Editora, p. 13. Campo Baeza escreve que “ um dos pilares em que deve basear-se um criador quando faz a sua obra, um arquitecto quando concebe e ergue a sua arquitectura, é olhar para o futuro e descobrir o ponto- -chave da sua criação. Compreender claramente o tempo em que vivemos, que é também conhecimento profundo do passado, e com um pé no ar, e por vezes os dois, saltar para o futuro.” 39 Neste sentido, pretende-se perceber como “ ser moderno e retornar às origens, como revitalizar uma velha e dormente cultura e simultaneamente participar de uma civilização universal.” 40 A opção de (re)desenhar o construído, respeitando a identidade e autenticidade do edificado, torna-se a viabilidade actual do Lugar de intervenção. Neste campo de intervenção, podemos perceber o caminho da Reabilitação, do Restauro e da Conservação como um processo que ganhou, ao longo dos tempos, espaço e opinião na Arquitectura. No Renascimento, Alberti (1404-1474), com o desígnio de preservar a cultura clássica, intervém em edifícios existentes. Viollet-le-Duc (1814-1879) ficou famoso pela Unidade de Estilo que consiste numa teoria de articulação de elementos dispersos, tornando o Restauro monumental, numa disciplina autónoma da concepção arquitectónica. Camilo Boito (1835-1879) foi pioneiro do restauro científico. A partir de técnicas construtivas modernas, preservava o património onde contra argumentava a teoria de “morte do monumento”, defendida por John Ruskin. Com Luca Beltrani (1854-1933), surge o restauro histórico que consiste na identidade de cada contingências do projecto. Reabilitar no construído Epígrafe 121
Se já estiver “ morto” não é património. Um edifício está “morto” se a forma e a função não existirem ex_ Acrópole de Atenas é uma obra “morta”? 47 Todas as citações deste esquema foram retiradas no livro RAMOS, M. J., 2003. A Matéria do Património - Memórias e Identidade (Antropologia Avulsa nº2). Lisboa: Edições Calibri, p.79. Critérios Histórico - Cultural Estético - Social Técnico - Científico Tempo + Espaço(contexto) memória Preservação A preservação de um objecto vale enquanto ele constituir um testemunho/evocação do passado (valor histórico) Património é uma realidade que provém do passado Se isso não acontecer o objecto passa a ser Presente, então deixa de ser Património, pois só tem um valor estético classificação É preciso criar base de dados /registos para perceber analogias entre as obras É preciso criar base de dados /registos Vida do edifício Preservar gostos e gestos que actualmente, se perderiam ao longo do tempo, pois “ só sabe para onde vai, quem sabe de onde veio. “ Se não estiver a ser utilizado, reabilitar e conservar o edifício Para quê? Como?
Como ler o Património QUESTÕES sujeito Um objecto não é nada sem sujeito. As coisas estão sempre à espera de um sujeito que as descubra, ou que com elas se relacione Por isso, existem diferentes tipos de Património? R1 Repercussões sobre o sujeito é que é diferente. R2 Não significa que o Património seja diferente, o uso existencial que lhe damos é que difere. “ Todos os objectos de arte são arte, ontem ou hoje, o valor que lhe atribuímos, ou que reconhecemos na memória colectiva, é que diverge.” forma vs função Se não existe função a forma deixa de ter sentido, tendo o objecto apenas um valor estético ex. Marcel Duchamp, A fonte Valor estético vs histórico “ Aceitamos ou não que o Património seja um valor de memória? Daqui, chegamos à questão do que é um valor Nacional: o que é realmente o Património Português? “ Hoje, sentimos que há uma enorme proliferação de axiologias, de valores ideológicos, de atribuições possíveis por parte de cada comunidade: como geri-los de forma consistente sem que delapidemos alguns aspectos de um património, e possamos transmiti-los às comunidades futuras?” Esquema N Princípios de Caracterização do Edifício 129
i44 Pré-existência. Espigueiro i45 Pré-existência. Sequeiro i46 Pré-existência. Composição das paredes interiores i47 Pré-existência. Interior
48 BARATA, M., Novembro 1989. Arquitectura Popular Portuguesa. s.l.:Correios Telecomunicações Portugal, p. 10. 49 BARATA, Martins. Arquitectura Popular Portuguesa. Correios telecomunicações de Portugal, Novembro de 1989, p. 11. “ A casa popular é um dos mais significativos e relevantes aspectos da humanidade da paisagem, em que, na sua grande diversidade de tipos, afloram, com particular evidência, a áreas e grupos humanos que a constroem e habitam.” 48 Com isto, é possível caracterizar a Casa de Marco de Canaveses (objecto de estudo) como uma obra arquitectónica de valor patrimonial resultante de um período de construção erudita, de autor individual que reflecte um colectivo. Ou seja, é possível entender Arquitectura Popular como uma identidade ou como um elemento inserido nesse tipo de arquitectura. O primeiro caso refere-se a uma arquitectura que personaliza um determinado autor que se distingue por características muito próprias. O segundo caso, uma arquitectura inserida numa identidade, reporta-se a uma construção exclusiva de uma cidade e de um Lugar específico. Relativamente ao caso de estudo, por um lado, a obra carateriza-se por um autor individual, embora desconhecido, uma vez que não foram encontradas analogias com outros exemplos, quanto à forma, à tipologia e à organização espacial interior. Por outro, esta insere-se numa identidade própria do Lugar, Marco de Canaveses, nomeadamente na forma do seleiro, do espigueiro e da chaminé e na utilização constante da pedra. No que diz respeito ao Inquérito à Arquitectura Portuguesa, a Casa, localiza-se na zona 1: zona do Minho. Segundo Martins Barata, a Arquitectura Popular pode ser compreendida e descrita conforme os seguintes aspectos: ao Autores, os Materiais, o Carácter e o Ambiente. O primeiro termo, os Autores, embora “ instintivos, espontâneos e anónimos, é que conseguem encontrar tão justas relações de cheios e vãos, tão perfeitos usos dos materiais, tão correctas adaptações às exigências do clima e do terreno, tão gracioso e sóbrio uso do ornamento quando é caso disso, ou tão digno despojamento do supérfluo quando assim deve ser.” 49 “ Mas o construtor popular e anónimo – mesmo quando não é o próprio destinatário e utilizador! – está sempre próximo do sentir, do entender e do querer dos elementos da comunidade para quem constrói. (…) arquitectura popular portuguesa: o inquérito 131
i48 Pré-existência. Encaixe viga de madeira com a pedra i49 Pré-existência. Telhado, interior i51 Pré-existência. Cozinha, forno de lenha
50 BARATA, Martins. Arquitectura Popular Portuguesa. Correios telecomunicações de Portugal, Novembro de 1989, p. 12. 51 Ibidem, p. 17. 52 Ibidem, p. 21. 53 Ibidem, p. 31. Ele (pedreiro, mestre-de-obras, carpinteiro, etc), de geração em geração, constitui-se o repositório e a memória das experiências acumuladas acerca do que convém, é cómodo, é possível e é aceite como apropriado e reconhecível pela comunidade.” 50 (…) “ O autor é assim o porta-voz e o agente de algo que o transcende, porque vem de trás e será transmitido aos vindouros, e se traduz em tecnicidades. Mas estas tecnicidades não são mecânicas nem cegas: sobra um largo campo para a invenção, o engenho e a improvisação.” 51 Portanto, “ os autores espontâneos conseguem com o seu engenho simples elevar a Arquitectura a um alto grau de complexidade e singularidade. Revelam um conhecimento acumulado, não codificado cientificamente, mas nem por isso menos eficaz, que se traduz na admiravelmente forma de usar os materiais.” 50 Assim, o(s) Material(is), “ nas mãos do construtor espontâneo, não está solicitado a dar o máximo, não é solicitado até desafiar as raias da ruptura. Numa posição antagónica, Poisson, Euler e Hooke defendem que era necessário fundar abstractamente uma ciência dos materiais e da estática, abrir o caminho para um programa humano ambicioso que é o de chegar aos limites do material, vencer condições extremas de adversidade ou dificuldade, os maiores vãos, as maiores alturas, responder às maiores oscilações, obter a máxima economia de recursos.2 52 (…) “ Nas mãos do construtor espontâneo e popular, o material, qualquer que ele seja, está como que apenas ligeiramente deslocado da sua origem natural para que, sem esforço aparente e sem violentação da sua essência, cumpra amigavelmente a função construtiva que lhe é proposta. Assim, o material da obra dos “técnicos”, infalivelmente, é tenso, angustiado, como se tivesse que justificar permanentemente a sua razão de existir (…) – não pode, não consegue, não é já capaz de fugir àquilo que se tornou para ele já uma segunda natureza – calcular, dimensionar ao suficiente, economizar, racionalizar.” 53 133
54 Ibidem, p. 30 55 Ibidem, p. 41 56 Ibidem, p. 53 57 Ibidem, p. 59 58 Ibidem, p. 61 59 Ibidem, p. 65 (…) “ Na arquitectura espontânea o material é respeitado na sua própria forma de existir. Substantivo não adjectivo por feitios, receitas ou significados impostos, o material apenas “é”. Ele “É”, não representa.” Numa perspectiva diferente, “ o arquitecto projectista pode compor formas livres e ricas,(…) inventar vãos, cheios e coberturas – mas na construção, o que acontece é a transcrição de formas abstractas para a materialidade.” 54 (…) “ O construtor espontâneo na sua máxima genuinidade não faz “dizer” nada ao material: usa-o, com familiaridade e respeito (…) Não o obriguem a fazer gracinhas e gentileza – o granito não é para isso, e o constructor popular sabe-o. Poucos vãos e pequenos, pilares atarracados com enormes capitéis para distribuir as cargas, lintéis brutais … “ 55 (…) “ Para entender a arquitectura das casas populares é, pois, necessário entender o material, e o uso que dele é feito.” 56 (…) “ E no entanto … E no entanto vale a pena olhar com um longo e frio olhar para as velhas teorias descartadas e atiradas para um canto. Encontram-se tantas surpresas! Carácter! Um imponderável mal definido, sem dúvida: mas há que senti-lo, há que saber encontrá-lo para lá da análise metódica e científica.” 57 “ (…) de entre as manifestações do carácter de um povo, em todas as cambiantes que comportam, a arquitectura da casa é reveladora, privilegiada, enquanto é produzida directamente por esse mesmo povo. É a face mais legível do Ouxos, do ambiente criado por um modo de vida e perpetuador desse modo de vida. A estabilidade do material inerte da casa é adequada à função de suportar a continuidade temporal que é essencial à Identidade. As pessoas reconhecem-se assim, enquanto comunidade, nas casas que habitam.” 58
60 Ibidem, p. 65 61 Ibidem, p. 61 62 Ibidem, p. 73. 63 Ibidem, p. 79. 64 Ibidem, p. 89. (“ A movimentação dos volumes e o uso do ornato colorido, cheio de invenção, da casa algarvia evocam naturalmente a loquacidade alegre dos homens e mulheres do Algarve.“ 59) “ É porém demasiadamente fácil este estabelecimento de relações entre um imponderável mal definido – o “carácter” – e as formas construídas. O lugar-comum e a banalidade espreitam à esquina dos folclorismos não apoiados por sólida etnografia (…). Importa isso, sim!, entender que o traço comum do carácter português traduzido na arquitectura de raiz popular é, talvez, só a modéstia, a ausência de uma afirmação arrogante de personalidade, um sentido íntimo de decoro. São esses, sobretudo, os valores agora aferidos pela arquitectura popular mas desenraizada que invade o País, inicialmente atribuível aos emigrantes retornados, mas presentemente com bem mais complexa origem e significado sociológico.” 60 O Ambiente “ Se pode ser afirmada uma certa unidade de carácter na arquitectura de raiz popular portuguesa quanto ao modo de estar na paisagem e de enquadrar a paisagem humana das comunidades, há por outro lado que observar a diversidade de formas materiais, que a casa toma no território.” 61 “ A habitação humana acompanhou e adaptou-se às transformações do enquadramento físico. Enfrentar as condições adversas do habitat tanto é defender-se dela (as formas da habitação são disso testemunho) como procurar modificá-las (a humanização da paisagem não é outra coisa).” 62 “ Agricultura de minifúndio, com a sua diária variação e ritmos, configura a casa e o seu prolongamento nas instalações rurais: o espigueiro, a eira, o pátio das alfaias.” 63 Conclusão: Na grande variedade de relevos, microclima e condições gerais históricas que se encontram no território nacional, as variantes locais das formas com que o engenho dos construtores anónimos e espontâneos encontrou respostas aos desafios não deixam de causar admiração. 135
i01 O Lugar do Projecto. A envolvente próxima: contexto vinícola i52 Proposta. A Casa
72 Nuno Brandão Costa acerca do Projecto de Recuperação da Quinta de Bouçós em Friestas, Valença do Milho, Portugal in Ibidem, p.150. 73 Nuno Brandão Costa acerca do Projecto de Reconstrução de uma vivenda unifamiliar em Arga de Cima, Caminha, Portugal in Ibidem, p.130. voltarem ao sítio original, os frescos conservaram-se como tentos na pedra, que teimam em ficar para sempre, tudo empastado para ficar numa ruína consolidada. (...) A estrutura enterrada (sapatas de betão) e aérea (vigas metálicas)vai manter tudo assim sem mexer.” (...) O solar teve vários projectos, todos cheios de paredes e escadas, muito funcionais a tentar dar o ar século XVIII. Ficou o século XVIII na estrutura, toda à vista em estuques de gesso no piso nobre e pedra no piso das adegas.” 72 Génese de projecto Q. Como podemos encontrar um projecto numa pré-existência na qual aparentemente não existe nada? “ Encontramos no meio geométrico de uma aldeia torneada e rural, a ruína de uma pequena casa escura e densa, posta ao alto sobre uma escada com uma vista cortante sobre a serra. Perguntaram-me se naquela área seria possível uma casa, eu sem certezas mas cismado na textura das pedras disse que sim. Comecei o projecto e descobri uma casa, afinal grande, entre os muros e as espessuras de uma mescla de granito e xisto. Decidiu-se manter as paredes, por fazerem parte da história da aldeia. Mas construir por dentro, uma outra estrutura a apoiar uma laje plana para proteger os espaços e aparecer na fachada para marcar o projecto. (...) A sua presença, definiu os muros, as paredes, os pavimentos, interiores e exteriores. A sua ausência, desenhou as janelas, os vãos, as portas … e a casa ampliou-se, cheia de luz, e a vista sobre a Serra ficou ainda maior.” 73 Cesare Feiffer apontava que “ (…) dado que o monumento é visto como a simples sobreposição de sucessivas modificações e actualizações, entende-se que isso legitima que também nós, hoje, tenhamos como missão deixar a nossa marca. Surge assim um confronto entre passado e presente em que o primeiro se torna o simples pano de fundo para a celebração do segundo … o projecto é abordado como se de nova se tratasse, e este mal-entendido é contrário a uma projectualidade diferente, subordinada ao interview
74 CÓIAS, V., 2006. Inspecções e Ensaios na Reabilitação de Edifícios. Lisboa: IST Press, p.24. 75 Nuno Brandão Costa acerca da Remodelação de casa na Foz do Douro, Porto, Portugal in MAZA, R. M. d. l., 2009. TC Cadernos: Nuno Brandão Costa, Arquitectura 1998-2009. Valencia: Ediciones Generales de la Construcción, p.119. 76 Nuno Brandão Costa acerca da Remodelação de casa em Guerra Junqueiro, Porto, Portugal in Ibidem, p.113. existente, mais respeitosa e atenta ao construído.” 74 Q. Bruno Zevi diz que alguns “arquitectos” entendem a Conservação Arquitectónica como a preservação da fachada do edíficio, construindo de novo toda a sua malha interna. Qual o limite da intervenção do arquitecto na pré-existência? Demolir significa obrigatoriamente a ruptura com a pré-existência? “ A casa existente, um pastiche da típica casa do séc. XIX do Porto, feita nos anos 40, apresentava uma tipologia difícil de alterar dadas as aberturas dos vãos da fachada que era para manter. (...) Deixou-se ficar a fachada da rua, parte do ambiente urbano da Foz do Douro, e por dentro e atrás foi tudo abaixo para fazer de novo. Por dentro, manteve-se o corredor, mas abriram-se os espaços (...) O corredor sempre presente (mesmo depois de demolido) orienta toda a lógica espacial da casa e acaba por ser o espaço protagonista da sua vivência.” 75 Leitmotiv (motivo conductor) Q. Perante estas dúvidas, esta dicotomia na relação do arquiteto com a pré-existência e com os requisitos do cliente, como decidimos entre Continuidade, Ruptura ou um compromisso das duas? “A casa estava toda alterada. (...) Irreconhecível. Repôs-se a volumetria, a forma e os espaços, pelos desenhos de licenciamento de 1937 e pelo som oco do tijolo e pladur, a demolir. A obra ficou aberta e aparecem partes originais, excertos de rodapés guardas em mármore, uma escada em calcário, estuques recortados, e uma única caixilharia em 20 janelas. Isso deixou-se ficar, o resto pensou-se em repor, mas o orçamento não chegava. O projecto passou a ser: Por dentro, preencher o vazio, com argamassas e epoxis, para segurar as pedras originais. Por fora, assinalar as proporções dos buracos encontrados: Caixilharias em ferro nos vãos fixos e madeira nos vãos móveis, com desenho igual à janela encontrada.” 76 interview 145
77 CÓIAS, V., 2007. Reabilitação Estrutural de Edifícios Antigos, Alvenaria e Madeira: Técnicas Pouco Intrusivas. 2ª Edição ed. Lisboa: Argumentum e GECoRPA., p. 23. 78 INFANTE, – A segurança e a salvaguarda do Património Arquitectónico 10 anos após o Sismo dos Açores de 1 de Janeiro de 19801992. in indem, p.56. 79 FEIFFER, A. – “Conservazione e recupero”, nº 43/8, Janeiro/Fevereiro 2002, p.24 in INFANTE. – A segurança e a salvaguarda do Património Arquitectónico 10 anos após o Sismo dos Açores de 1 de Janeiro de 19801992. in idem, p.43. A Reabilitação é considerada um processo de compatibilização do valor da Função com os valores Histórico, Cultural e Arquitectónico, onde através da preservação e conservação do tempo do edifício, é possível reparar, alterar e acrescentar. Quando se fala de reabilitação, devemos associar também o valor de autenticidade ao processo, a qualidade de ser autêntico (genuíno, verdadeiro vs adulterado, imitado, falsificado). Na arquitectura, este conceito está relacionado, por um lado, com a forma e a função para as quais foi criada, e por outro, com a relação entre o material e a estrutura do edifício. No caso mais específico de intervenção em centros históricos, o carácter de autenticidade está quase sempre relacionado com o fachadismo 77, definição que surgiu no Século das Luzes, a propósito da preservação e estética das cidades. Sérgio Infante, em relação ao “fachadismo”, defende que “ não podemos aceitar a destruição ou substituição sistemática da substância física daquilo que pretendemos conservar. Caso contrário, o futuro que tentamos assegurar para esses testemunhos passará a estar alicerçado numa mentira. Um monumento na aparência semelhante mas construtivamente violentado. É ignorar o conhecimento da concepção global original, e tentar generalizar um tipo de intervenção que reduz o património a uma fachada.” 78 Este processo de Ver e (Re)Fazer Arquitectura, embora interpretado por diferentes autores, é defendido na maior partes das vezes, com a mesma índole de pensamento, ou seja, perceber a génese temporal do edifício, sem nunca esquecer que este é composto pela sobreposição de sucessivas modificações e actualizações. Cesare Feiffer defende que o confronto entre o passado e o presente do edifício legitima também o confronto entre o criador inicial e o que modifica mais tarde. Vai mais longe e diz que “ o primeiro se torna o simples pano de fundo para a celebração do segundo.” 79 Afirma, também, que o novo projecto deve ser subordinado ao existente, de forma respeitosa e atenta ao construído. António Lamas, na mesma linha de pensamento, argumenta que o conflito entre a ética da estratégias. Soluções
80 CHOAY, F., 2010. Alegoria do Património. s.l.:Edições 70. criação arquitectónica e do processo de reabilitação é resolvido por uma boa formação mas, sobretudo, pela maturidade profissional. Só assim é possível ter a humildade necessária para encarar o projecto como obra relevante de um autor passado. Fica assim encarregue o arquitecto de encontrar a melhor forma para gerir, identificar e resolver as várias exigências do projecto, arte de compromisso entre a segurança, a economia e a estética. Esta definição aplica-se quando temos em mente uma construção nova, mas quando se refere a uma intervenção, que possua valor enquanto património, aplica-se uma terceira exigência, a de respeitar os princípios da Conservação. Independentemente do valor patrimonial do edifício, a definição de uma estratégia de intervenção torna-se um processo indispensável que determina o grau de conhecimento que é necessário ter na construção. Relativamente a intervenções de construções sem grande valor enquanto património arquitectónico (diferença entre monumento e monumento histórico80), o processo é comandado segundo factores inerentes à própria construção do edifício, sejam eles o estado de conservação, a facilidade de adaptação às novas condições (de habitabilidade, conforto e segurança) e encargos futuros de manutenção. Contudo, este processo atende também a factores que lhe são externos: plano de salvaguarda aprovada para a localização, plano de negócios, rendibilidade permitida pela exploração, valor fundiário e valorização futura do investimento. Quando o edifício possui valor patrimonial arquitectónico, as intervenções adquirem o carácter de conservação, que o envolve com uma especificidade e complexidade maior do que as construções correntes. A aplicação inadequada de técnicas construtivas, soluções radicais e empobrecedoras para as intervenções da reabilitação, vai no sentido oposto ao da preservação e autenticidade do próprio edifício. Por exemplo, o uso abusivo do betão armado atenta à originalidade dos velhos edifícios. A estratégia dos edifícios de valor arquitectónico patrimonial pode basear-se numa abordagem observacional, na qual a eficácia das medidas é feita durante a intervenção, de modo a que essas medidas se ajustem à construção real. Neste sentido, esta abordagem específica requer um conhecimento histórico dos métodos 147
Edifício com pré-existência “A primeira pergunta parte da Observação” REABILITAR actuar de acordo com o valor histórico, cultural e arquitectónico do edifício atitudes RESTAURAR restabelecer o estado original do edifício; relacionado com referência a uma época RECUPERAR intervenção que privilegia a função inicial do edifício, relaciona-se com a conservação CONSERVAR prolongar a vida do edifício; prevenir a degradação; operação de manutenção PRESERVAR Manutenção duma estrutura no seu presente estado, eliminando ou minimizando eventuais processos de deterioração Segundo a Carta de Atenas, podemos ter 7 graus de intervenção prevenção da deterioração, preservação, consolidação, restauro, reabilitação, reprodução, reconstrução do edifício problemas Segurança estrutural Envolvente do edifício levantamento do estado da estrutura do edifício perceber | criar sistema de saneamento e águas pluviais responder ás exigências de salubridade e durabilidade do edifício requisitos da conservação do património níveis de reabilitação reabilitação ligeira reabilitação média reabilitação profunda reabilitação excepcional valor arquitectónico valor de antiguidade valor histórico Esquema O Requisitos de Conservação do Património
81 CÓIAS, V., 2006. Inspecções e Ensaios na Reabilitação de Edifícios. Lisboa: IST Press, p. 45. 82 Tese de mestrado in http:///C:/Users/Teresa%20Rio/Desktop/OUTROS/Reabilitacao%20de%20edificios%20tradicionais.pdf, p. 23-26. construtivos tradicionais para uma conjugação com os novos critérios. Com esta conjugação delimitam- -se os Requisitos da Conservação do Património, onde quanto maior for a margem de erros, maiores os estragos provocados na integridade e na autenticidade. |ver Esquema N| De acordo com a avaliação de propriedade com interesse histórico, podemos enumerar três partes: i) valor de antiguidade; ii) valor arquitectónico e iii) valor histórico. i. Valor de antiguidade corresponde ao valor atribuído face à idade da propriedade, associado à sua singularidade como representante do passado. ii. Valor arquitectónico é aquele que resulta da integridade arquitectónica do edifício, como exemplo de um período, de um estilo ou do trabalho de um arquitecto. iii. Valor histórico é conferido à propriedade pela relação com uma personagem histórica ou pela ocorrência de um acontecimento histórico.81 De acordo com a forma de preservação e reabilitação de um edifício, poder-se-á considerar diferentes níveis de reabilitação: i) reabilitação ligeira, ii) reabilitação média, iii) reabilitação profunda e iv) reabilitação excepcional. 82 i. Reabilitação ligeira consiste em pequenas reparações. ii. Reabilitação média consiste numa intervenção mais significativa (ex. substituição de caixilharias; reforço de alguns elementos estruturais; reparação de redes eléctricas, redes de água e esgotos, reorganização de espaços). iii. Reabilitação profunda, para além dos itens anteriormente referidos, também contempla a reorganização espacial do edifício que implique demolições e resoluções de problemas estruturais. É nesta definição de reabilitação que se pode enquadrar a proposta apresentada iv. Reabilitação excepcional consiste numa reconstrução total do edifício. Em geral, a elaboração do projecto de reabilitação consiste na concepção, verificação e pormenorização das alterações a introduzir no edifício que permitem corrigir as insuficiências existentes, face aos requisitos de referência. Para construções novas, uma vez escolhida a localização, apenas é necessário recolher informação sobre a topografia e as características do terreno. Mas para intervenções de reabilitação é necessário um conhecimento mais centrado na geometria do edifício, do estado de conservação da construção, dos materiais que o constituem e das acções a que estão submetidos. Só assim se consegue conservar tanto a integridade e a autenticidade, como os valores que tornam único o edifício em estudo. 149
i53 Pré-existência. Sinais de degradação
83 Rodrigues, J. M., 2010. Teoria e Crítica de Arquitectura - Século XX. Lisboa: Ordem dos Arquitectos - Secção Regional do Sul, p.27. Por isso, a estratégia que se pretende abordar, com o intuito de fundamentar a Continuidade de alguns elementos com valor arquitectónico, foi perceber as anomalias estruturais do edifício; a composição construtiva das paredes; a forma compositiva das diferentes partes do edifício para, no seu todo, compreender que elementos deveriam permanecer no tempo. Perceber a forma da chaminé da cozinha e a sua autenticidade; perceber as fases de construção, a origem de cada uma das partes e a ligação entre o todo edificado; perceber o desenho e a forma de abertura das caixilharias e das portas, e respectivas medidas. Compreender as relações entre a actividade vinícola e a habitação. Relacionar o edifício com o Homem e, consequentemente, as suas necessidades. Perceber como se pode permanecer no tempo … Por outro lado, quando se encara a Reabilitação com predominâncias de Ruptura é importante perceber as razões da transformação, da modificação da pré-existência – do novo. Redesenhar uma organização espacial, modificar espaços e funções, demolir uma pré-existência e propor um novo corpo arquitectónico, representa uma nova etapa construtiva do edifício. Esta atitude, embora interpretada de forma radical, baseia-se na articulação entre a forma construtiva, a forma arquitectónica e o tempo de vida do edifício, com a intenção de alcançar um entendimento fidedigno sobre a origem, a tradição e a identidade. No entanto, não se pretende com esta última abordagem apresentar uma nova habitação, mas sim,exaltar o valor arquitectónico do edifício, prolongar a vivência do homem no espaço doméstico através da adaptação do espaço às suas necessidades. Não se pretendendo a ruptura, interpretada a partir do esquecimento da pré-existência, o novo edifício vai ser também revestido a pedra pelo exterior. Segundo Otto Wagner “ (..) as distintas formas foram desenvolvidas e configuradas pelos povos segundo os seus conhecimentos, a sua maneira de se expressar e a sua visão do mundo, até corresponder ao ideal de beleza da época respectiva.” 83 A forma como o passado é interpretado e contado pode deturpar, ocultar ou sublinhar aspectos da história que irão interferir directamente na memória e, portanto, na identidade de uma sociedade. Por isso, pretende-se com a proposta de projecto, contar uma história que relaciona o passado e o presente, de forma a alcançar a permanência de um futuro sereno. 151
“ Persigo o sonho de uma casa viva, versátil, silenciosa, que se adapte continuamente à multiplicidade da nossa vida, e até a estimule, com centenas de recursos que nós, arquitetos, ensinaremos, enriquecendo-a, com paredes e móveis leves; uma casa variável e, ao mesmo tempo, cheia de lembranças, de esperanças e de aceitação corajosa; uma casa ‘para ser vivida’ na felicidade e até na melancolia, com o que há de imóvel e fiel, e com o que há de variável e aberto, descerrando-se as janelas à sua volta para que entrem o sol, a luz e outras estrelas, e tudo é movimento, que sai e que aumenta no mistério do crescimento, e quem sabe que coisa virá? Dirijo-me a vocês perseguido pela imagem de uma nova sociedade humana. Essa imagem não é uma miragem inatingível, e cabe a nós sonhar com ela para acessá-la, porque não se consegue nada que antes não tenha sido sonhado.” 84 84 Gio Ponti in Galfetti, G. G., 2005. Casas Refúgio, Private Retreats. 5ª Edição ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili S.A, p.43
85 Fernando Távora in Távora, F., 1947. O Problema Da Casa Portuguesa - Cadernos de Arquitectura I. Vol. Série I ed. Lisboa: Editorial Organizações, Lda, p. 13. Fernando Távora escreve “ o passado é uma prisão de que poucos sabem livrar-se airosamente e produtivamente.” 85 O projecto apresentado nesta dissertação em tudo se identifica com estas palavras de Távora. A complexidade da proposta apresentada reside em decifrar quais os elementos que dão um carácter singular ao edifício; perceber “as formas” do espaço para conhecer a Identidade e o Valor do edifício. Neste sentido, poderíamos ter várias formas de actuar na pré-existência. Por um lado, a Continuidade: a exaltação exacerbada da mesma, correndo o risco de uma perfeita imitação de como era o edifício. Por outro, a Ruptura: a abolição da essência da pré-existência, com o intuito de criar um novo edifício. A influência das palavras de Távora permitiu perceber que a concordância entre a Continuidade e a Ruptura poderia ser a base para a melhor solução. E foi assim que o projecto se desenvolveu, entre o passado e o presente, entre a permanência do existente e a procura do novo, entre o aproveitamento das formas construídas e a construção de um novo edifício. Paralelamente a Távora, as palavras intimistas de Peter Zunthor expressam que: “ Quando eu tento identificar as intenções estéticas que me motivaram no processo de projectar edifícios, eu chego à conclusão que os meus temas variam entre o lugar, o material, a energia, a presença, as recordações, as memórias, as imagens, a densidade, a atmosfera, a permanência e a concentração. (…) eu tento dar a estes termos abstractos, conteúdos concretos relevantes à cessão afectiva, mantendo na minha cabeça que estou a construir algo que irá fazer parte de um lugar, parte de um circundante, que irá ser usado e amado, descoberto e legado, abandonado, e porém até detestado – em suma, que irá ser considerações finais 153