Estudo sobre fenómenos de fronteira de palavra sob as perspetivas da Fonologia Generativa e da Fonologia Declarativa
Full text
FACUL DADE DE LETRAS U N I V E R S I DA DE DO P O R T O Marcela Faria 2º Ciclo de Estudos em Linguística Estudo sobre fenómenos de fronteira de palavra sob as perspetivas da Fonologia Generativa e da Fonologia Declarativa 2012 Orientador: Professor Doutor João Manuel Pires da Silva e Almeida Veloso Classificação: Ciclo de estudos: 16 valores Dissertação: 15 valores
ii Índice Agradecimentos ........................................................................................................... iv Resumo / Palavras-chave ............................................................................................. v Abstract / Key-words .................................................................................................... v Principais abreviaturas/símbolos utilizados e convenções seguidas neste trabalho ........ vi Introdução ..................................................................................................................... 1 I - Algumas considerações sobre os conceitos de palavra e grupo clítico ................. 5 1.1 Problematização do conceito de palavra… ....................................................... 6 1.1.1 …nos vários modelos da fonologia generativa ............................... 8 1.1.2 …na fonologia declarativa..............................................................10 1.1.3 …nos vários domínios de análise ...................................................11 1.2 Problematização do conceito de grupo clítico ............................................ 14 II - Alguns aspetos relacionados com os fenómenos de fronteira de palavra ......... 16 2.1 A sílaba...................................................................................................... 17 2.1.1 A sílaba em português europeu .................................................... 19 2.2 A silabificação e a ressilabificação ............................................................. 23 III - Sândi .................................................................................................................. 26 3.1 O sândi no estudo da palavra ..................................................................... 27 3.2 Os fenómenos ........................................................................................... 30 3.2.1 Especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica ................................................................................................. 30 3.2.2 Velarização e desvelarização ...................................................... 31 3.2.3 Iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica . 32 IV - Modelos Teóricos .............................................................................................. 33 4.1 Fonologia Generativa ................................................................................ 34 4.1.1 Modelo SPE ............................................................................... 38 4.1.2 Modelo Autossegmental ............................................................. 39 4.1.3 Modelo Lexical ........................................................................... 40 4.1.4 Modelo Prosódico ....................................................................... 41 4.1.5 Modelo Métrico .......................................................................... 42 4.2 Fonologia Declarativa ............................................................................... 44
iii V - Aplicação dos modelos apresentados na análise dos fenómenos ...................... 49 5.1 Especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica ............................................................................................................. 50 5.2 Velarização e desvelarização ...................................................................... 56 5.3 Iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica ............... 59 Conclusão ................................................................................................................... 62 Bibliografia ................................................................................................................. 66
iv Agradecimentos Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, ao Professor Doutor João Veloso o auxílio na definição do tema de trabalho, a orientação cuidada e o facto de se mostrar sempre disponível para responder a todas as dúvidas que foram surgindo. Apresento aqui igualmente o meu sincero agradecimento a todos os professores que estiveram envolvidos na minha formação académica. Por fim, agradeço a todos os familiares, amigos e colegas de curso que tiveram um importante papel na minha vida durante este percurso.
v Resumo Este trabalho tem como objetivo analisar alguns fenómenos de fronteira de palavra do ponto de vista de duas distintas teorias fonológicas: a Fonologia Generativa e a Fonologia Declarativa. Após uma apresentação dos fenómenos de sândi externo a estudar, fazemos uma análise de cada um deles sob as óticas das teorias citadas acima. Esta decomposição serve para que consigamos perceber qual a produtividade científica das propostas apresentadas em cada teoria na problematização do fenómeno de sândi externo como uma das peças-chave na busca de uma maior aproximação a um conceito sustentado de palavra. Tendo em conta este facto, a apresentação e a análise dos fenómenos de sândi externo são precedidas de um capítulo no qual se reflete sobre a noção de sílaba e de um capítulo dedicado a algumas considerações sobre os conceitos de palavra e grupo clítico. Palavras-Chave: sílaba, palavra, grupo clítico, sândi externo, fonologia generativa, fonologia declarativa Abstract The purpose of this work is to analyze some of the phenomena that occur in words boundaries. The study is done considering two different theories: Generative Phonology and Declarative Phonology. We study the notions of syllable, word and clitic group at the beginning of our dissertation and then we do an analysis of the phenomena that is presented in chapter three. The analysis will show us, we think, something relevant that can be used in order to achieve a higher level on the study of the delimitation of the concept word in phonology. Key-words: syllable, word, clitic group, external sandhi, generative phonology, declarative phonology
vi Principais abreviaturas/símbolos utilizados e convenções seguidas neste trabalho A Ataque C Consoante Cd Coda cf. Confronte-se Nu Núcleo R Rima SPE The Sound Pattern of English V Vogal ∃ Quantificador existencial (“existe pelo menos) ∀ Quantificador universal (“para todo o”) ∧ E → Implica ~ (transcrição fonética/fonológica) Marca de nasalidade ~ (tradução lógica) Negação ¬ Negação x, y Variáveis ∂ Domina Vazio Precede imediatamente C Grupo clítico σ Sílaba ω Palavra prosódica # Fronteira de palavra prosódica $ Fronteira de sílaba Notas: 1. Todas as transcrições fonológicas e fonéticas presentes no nosso trabalho são feitas tendo em consideração os símbolos e convenções apresentados no Alfabeto Fonético Internacional ( International Phonetic Association (1999) - Handbook of the International Phonetic Association. A Guide to the Use of the International Phonetic Alphabet, Cambridge, Cambridge University Press). 2. Por dificuldade gráfica as marcas de nasalidade em transcrições fonéticas e fonológicas são indicadas com o símbolo ~ à direita do elemento que sofre nasalização.
Introdução
2 Segundo Cohn (2001), “It is this knowledge about sound structure – which sounds occur, what their distribution is, how they can be combined and how they might be realized differently in different positions in a word or phrase – that constitutes the study of phonology” (Cohn 2001:181). Para que se alcancem respostas para os problemas enunciados por Cohn, a pesquisa não deve parar e deve focar-se em especificidades que permitam que posteriormente se chegue a generalizações seguras. O estudo que desenvolveremos nesta dissertação comporta exatamente uma parte de uma das problemáticas pertencentes aos ensaios fonológicos: dentro da temática respeitante à noção de palavra, deter-nos-emos na análise de fenómenos que ocorrem em fronteira de palavra. O tema deste trabalho surgiu da constatação de que, efetivamente, a estruturação interna da palavra e a sua delimitação constituem uma problemática bastante atual nos estudos fonológicos. Se a fonologia procura, como refere a autora acima citada, um conhecimento mais real da estrutura e combinação dos sons da língua, é, com certeza, importante que se analise quais os processos que se desenrolam internamente, que relações se podem estabelecer ou não entre estes e quais os que surgem em fronteira de cada grupo fonológico. Daqui percebemos que seria bastante relevante analisar um processo que se relacionasse com esta temática. O processo de sândi pareceu-nos, para além da sua riqueza “natural” como processo presente em diversas línguas e como substrato de uma reordenação que espelha, de certa forma, uma concatenação inicial, um caminho bastante interessante, na medida em que se apresenta relacionado com conceitos “omnipresentes” nas análises fonológicas, tendo em conta a importância que desempenha na descodificação dos quadros fonológicos das línguas. A análise do processo referido é tomada segundo perspetivas dissemelhantes, não só no que diz respeito às crenças apresentadas nas mesmas, como também na abrangência e apoio que suportam. Se, por um lado, olhamos através da teoria generativa – estudada, repensada, reformulada, fonte de diversos modelos/correntes fonológicas-, por outro, olhamos através de uma teoria relativamente recente e pouco discutida, alvo ainda de poucas reflexões – a teoria declarativa. O facto de a última ser uma teoria ainda pouco estudada, no entanto defensora de propostas bastante divergentes daquilo que temos vindo a conhecer, fez com que a nossa atenção a si se prendesse e que o nosso estudo não passasse ao lado de uma tentativa de análise segundo os pressupostos enunciados na mesma. Assim, chegámos à ideia central para este estudo: analisar alguns dos
3 fenómenos que ocorrem em fronteira de palavra tendo em conta as propostas de duas teorias fonológicas dissemelhantes. O nosso trabalho encontra-se dividido em cinco capítulos: 1Algumas considerações sobre os conceitos de palavra e grupo clítico; 2 - Alguns aspetos relacionados com os fenómenos de fronteira de palavra; 3 - Sândi; 4 - Modelos Teóricos; 5 -Aplicação dos modelos apresentados na análise dos fenómenos. Do primeiro capítulo fazem parte, tal como o título do mesmo indica, algumas conceções sobre os conceitos de palavra e de grupo clítico. Neste capítulo, faremos uma breve resenha sobre aquilo que são as principais ideias apresentadas sobre a noção de palavra nos diversos modelos da gramática generativa (modelo SPE, modelo autossegmental, modelo lexical, modelo prosódico, modelo métrico), na teoria declarativa e ainda nos diferentes domínios de análise linguística (domínio sintático, fonológico, morfológico e respetivas interações) e problematizaremos ainda a noção de grupo clítico. Este primeiro capítulo para além do facto prático de servir como enquadramento geral, na medida em que a particularidade que aqui estudamos – os fenómenos de fronteira de palavraé parte do estudo maior que é o estudo da noção de palavra, serve ainda, no que à conceção de palavra diz respeito, para licenciar teoricamente, o estudo que levamos a cabo. O estudo do grupo clítico toma no nosso trabalho bastante relevância na medida em que este domínio, ainda não totalmente aceite, como veremos mais adiante, se mostra fulcral no estudo de determinados fenómenos de fronteira. O segundo capítulo do nosso trabalho é dedicado a algumas noções que não poderiam deixar de ser, no nosso ponto de vista, repensadas e reanalisadas antes de se partir para um estudo como o que aqui avançamos: as noções de sílaba, silabificação e ressilabificação. A importância destes conceitos será abordada ao longo do capítulo referido, assim como será elaborado um apanhado daquilo que são as principais linhas de descrição das conceções mencionadas. O terceiro capítulo prende-se com a apresentação, divisão e estudo do processo pós-lexical sândi. Apresentaremos, primordialmente, uma breve síntese daquilo que é englobado pelo conceito referido e ainda uma resenha daquelas que são as principais ligações entre este processo e o estudo da palavra. No segundo ponto do capítulo, enunciaremos os fenómenos recetores da nossa mais cuidada atenção. A indicação dos
10 propriamente do ponto de vista “interno”, isto é, não se efetuam grandes avanços sobre questões relacionadas com as fronteiras de palavra e restrições/regras que possam regular as ocorrências nesses locais, mas sim sobre aspetos relacionados com as estruturas que suportam a criação da palavra como constituinte hierárquico superior (cf. Matzenauer 2005:69). Se acima argumentámos que a visão da fonologia lexical se encontrava, de certo modo, quase que do lado oposto ao da visão da teoria autossegmental, no sentido em que se encontrava num distinto ponto de perspetiva de análise, podemos, em relação à fonologia prosódica, mencionar que esta se encontra, tendo em conta a perspetiva geral que elabora sobre os constituintes prosódicos, efetivamente, no ponto oposto ao da teoria autossegmental. No subsistema 10 da fonologia prosódica, desenvolvido especialmente no trabalho de Nespor e Vogel (1986), a noção de palavra assume um papel de destaque. Segundo as autoras, a palavra fonológica representa a interação entre os componentes fonológicos e morfológicos da gramática (cf. Nespor e Vogel 1986:109). No entanto, deixam claro que a noção de palavra prosódica pode não coincidir com o retrato morfossintático a ela associado (cf. Nespor e Vogel 1986:142) e problematizam essa questão usando exemplos concretos de diferentes línguas (cf. Nespor e Vogel 1986:109-141). As autoras defendem, ao contrário de autores como, por exemplo, Booij (1983), que o domínio da palavra prosódica apenas pode ser igual ou menor do que o elemento terminal da árvore sintática (cf. Nespor e Vogel 1986: 110). A posição que defendem é a base da apresentação da existência do grupo clítico, noção que abordaremos no ponto 1.2 deste capítulo. 1.1.2 … na Fonologia Declarativa A noção de palavra na Fonologia Declarativa é apresentada de uma forma bastante geral uma vez que esta noção não se mostra muito relevante numa teoria que prescinde de diferentes estratificações, ao contrário do que acontece em modelos como o modelo prosódico 11 (Nespor e Vogel 1986). Numa perspetiva distinta do que é enunciado no referido modelo, no livro Phonologie Déclarative, onde encontramos a proposta de Jean-Pierre Angoujard, a noção de palavra é apresentada como passível de 10 Ver classificação dos modelos como subsistemas em Nespor e Vogel (1986). 11 Sobre o modelo prosódico ver na nossa dissertação o capítulo IV ponto 4.1.4.
11 suportar em si mesma tanto a presença como a ausência de clíticos (cf. Angoujard 2006:51). Nas palavras do autor: “ le type mot (pour “mot phonologique”) inclut les clitiques et que, si nécessaire, il pourra être fait reference au seul radical (lui-même de type mot). Toute sequence réalisée (fût-elle constituée d`un mot unique) est analyzable en un ou plusieurs syntagmes phonologiques (de type phrase, noté logique)” (Angoujard 2006:51-52) Como podemos atestar das palavras acima transcritas, a problematização do conceito de palavra é residual, na medida em que apenas toma importância a restrição do conceito até ao nível fonológico deixando de parte a problemática interna sobre um possível código para a aceitação ou não de determinados candidatos para obtenção do estatuto de palavra fonológica. No entanto, apesar do facto de não pretender alcançar uma noção sustentada e delimitada de palavra, este quadro teórico analisa algumas ocorrências relacionadas com fronteiras de palavra como, por exemplo, o fenómeno liaison 12 em francês (cf. Angoujard 2006: 51-53) 1.1.3 …nos vários domínios de análise A noção de o que é uma palavra é, como referimos anteriormente, dependente do domínio de análise por detrás do qual se olha o conceito. Assim, podemos, segundo Bisol (2004), com o vocábulo palavra referir-nos a uma palavra fonológica ou a uma palavra morfológica (Bisol 2004:59). A mais básica distinção entre as duas reporta-se ao facto de a palavra morfológica estar relacionada com os fatores lexicais, morfológicos enquanto a segunda, a palavra fonológica, se relaciona com as temáticas do acento (cf. Bisol 2004:59-61). John A. Goldsmith (1995), no prefácio de um livro de que é organizador, reflete sobre, entre outras coisas, o que é uma palavra fonológica e sobre as regras fonotáticas das línguas, referindo que um dos objetivos mais tradicionais da fonologia é, de facto, a procura daquilo que poderá definir o que é uma palavra bem formada (cf. Goldsmith 1995:1-21). É certo que unidades fonológicas menores deverão ser agrupadas segundo determinadas regras para que se atinja a noção de palavra, porém, certo também é o facto de que na atualidade essas regras não foram ainda formuladas (cf. Goldsmith 1995:1-21). Os diferentes modelos teóricos tentam avançar 12 Sobre o fenómeno liaison em francês ver Angoujard (2006:103-124).
12 com elementos capazes de descodificar, a diferentes níveis, por vezes, alguns parâmetros que consideram estar envolvidos na elaboração de um conceito mais concreto. Como vimos, os modelos que derivaram da análise generativa, primeiramente apresentada no SPE, tomam caminhos distintos, mas, de certo modo, complementadores, no sentido em que as suas análises podem, efetivamente, ser alvo de estudos simultâneos 13 . A noção de palavra fonológica ou palavra prosódica comummente aceite pela comunidade linguística é, assim, resultado de investigação e exame das várias propostas de tratamento de cada especificidade dos diferentes modelos científicos que ao longo dos tempos foram apresentadas. A palavra fonológica é, como referem Nespor e Vogel (1986:108), o constituinte mais baixo da hierarquia prosódica que suporta a interação entre a morfologia e a fonologia. Daqui se retira, e lembrando o princípio Strict Layer Hypothesis 14 , que as noções de sílaba e pé se encontram, por esta mesma ordem crescente, contidas na estruturação da hierarquia prosódica por serem constituintes da palavra (cf. Bisol 2004: 61; McCarthy e Prince 1986:244). Há que referir que, por vezes, a palavra prosódica tem a mesma forma da palavra morfológica, mas isto não sucede sempre (cf. Cohn 2001:188; Bisol 2004:62) O tamanho da palavra prosódica e a sua ligação com o tamanho/ estrutura de um elemento sintático terminal são questões que criam muita discórdia (cf. Bisol 2004:63-69). Para Nespor e Vogel (1986) só existem palavras fonológicas com igual ou menor tamanho do que o elemento sintático relativo e dão como exemplos para o primeiro caso as línguas grega e latina e, para o segundo caso, a língua italiana 15 (cf. Bisol 2004:63; Nespor e Vogel 1986:110). O caso que não é considerado por Nespor e Vogel, a existência de palavras fonológicas maiores do que o seu relativo sintático, surge quando estamos perante ressilabificação 16 (cf. Bisol 2004:65). Por outro lado, quando nos deparamos com um composto como, por exemplo, “guarda-redes” estamos perante uma única palavra morfológica, um nó sintático final, mas duas palavras fonológicas, no sentido em que as duas possuem acento próprio (cf. Bisol 2004:65). Segundo Bisol 2004, para Booij (1983) a palavra fonológica desempenha três funções: é portadora de relações de proeminência, é 13 Ver Goldsmith (1976:160) sobre a importância das interações entre domínios. 14 Ver sobre Strict Layer Hypothesis Nespor e Vogel (1986) e Selkirk (1982), (1984). 15 No grego e no latim os membros de um composto pertencem sempre ao mesmo domínio prosódico e em italiano existem prefixos, nomeadamente os que terminam em vogal, que por si só são palavras fonológicas (cf. Bisol 2004:63-64). 16 Sobre este conceito ver na nossa dissertação o capítulo II ponto 2.2; Bisol (1996:159-168); Bisol (2000:319-330);entre outros.
13 domínio de aplicação de regras fonológicas e é domínio de restrições fonotáticas (cf. Bisol 2004:65-66; Booij 1983:270-271). Neste sentido, e como refere Bisol (2004), pode ser entendida como expoente de proeminência, entidade rítmica e domínio de aplicação de regras (cf. Bisol 2004:65-66). No entanto, há que clarificar que só é entendida, como referimos acima, por Nespor e Vogel como domínio de regras tomando tamanho igual ou inferior ao seu relativo sintático, de outra forma, ou seja, tomada como maior do que o seu relativo, encontramo-nos já no nível pós-lexical, no qual se situam ocorrências como a ressilabificação, acima também já mencionada (cf. Bisol 2004:66 e ss.). Neste sentido, se tomarmos uma visão mais genérica, abrangendo o léxico e pós-léxico, consentiremos, como Booij (1983), a existência de palavras fonológicas maiores do que o respetivo sintático (cf. Bisol 2004:66-69). Associadas à noção de palavra fonológica encontramos algumas restrições relacionadas, nomeadamente, com os limites esquerdo e direito de palavra. Em português, o início de palavra é marcado por restrições que impossibilitam o surgimento de segmentos como //, // ou // e de combinações como /ts/, /kt/, entre outras. Da mesma forma, existem também restrições no que toca ao final de palavra 17 como, por exemplo, a impossibilidade de existência de ocorrências como, por exemplo, codas finais em que estejam presentes quaisquer realizações que não //, // ou /l/ (que sofrerá, tendo em conta a proposta mais aceite, pós-lexicalmente, velarização 18 ). Como referimos anteriormente, a noção de palavra fonológica não pode dissociar-se da consciência da noção de acento pois a segunda ideia é parte integrante da constituição da primeira. Neste sentido se entende a palavra fonológica como domínio de aplicação das regras de atribuição de acento e corpo da projeção desse mesmo acento (cf. Bisol 2004:61). Por outro lado, se olharmos do ponto de vista morfológico perceberemos que o que é entendido como palavra nada tem que ver com a noção de acento, mas sim com o facto de a unidade palavra ser o output das regras morfológicas ligadas aos processos de derivação, composição e flexão. A palavra morfológica é entendida como uma “unidade individualizada no léxico da língua, portadora de significado lexical/referencial ou de função gramatical, relativamente amovível dento da frase, 17 Ver sobre as restrições do limite direito de palavra a proposta de Veloso (2009:87-88). Veloso (2009) propõe a designação de “tolerância prosódica de limite direito de palavra” para nomear o fenómeno linguístico que permite a ocorrência, em limite direito de palavra, de uma das seguintes realizações: i) consoante nasal /n/, ii) sequências /ks/ou /ps/, iii) sequência /VGN(S)/. 18 Sobre a problemática que envolve este conceito ver na nossa dissertação o capítulo III ponto 3.2.3.
14 objeto de um e um só processo de flexão no máximo e detentora de classe gramatical” (cf. Veloso 2012:2) Em relação à noção de palavra do ponto de vista do domínio sintático, entendemos que existem dois pontos essenciais a assinalar: o facto de ser o input para as regras sintáticas e o facto de ser núcleo dos constituintes sintáticos. Como refere Rosa (2006:80) “a sintaxe forma constituintes, frases, mas não palavras. (…) a estrutura interna não é da alçada da sintaxe, mas da morfologia”. A palavra sintática pode ser constituída por mais do que uma palavra morfológica e mais do que uma palavra fonológica, ou seja, possuir mais do que, em traços gerais, uma unidade lexical, detentora de classe gramatical, e mais do que proeminência acentual primária, tomando a classificação acentual apresentada pelo modelo métrico. 19 A incapacidade de a categoria englobada pelo conceito de palavra na hierarquia prosódica albergar realizações nas quais se encontram presentes unidades de comportamento mutávelpor vezes dependentes, por vezes independentes das unidades constituintes do conceito palavra - levou a que se considerasse a existência de um nível intermédio na estruturação hierárquica entre os constituintes palavra e sintagma fonológico – o grupo clítico. 1.2 Problematização do conceito de grupo clítico O comportamento problemático dos clíticos deriva da sua natureza híbrida (cf. Nespor e Vogel 1986:145). Nas palavras de Crystal (1980:64), citadas pelas autoras, um clítico é “a form which resembles a word, but which cannot stand on its own as a normal utterance” (cf. Nespor e Vogel 1986:145). Os clíticos podem tomar esta designação em termos sintáticos e/ou em termos fonológicos. As autoras abordaram, tal como aqui faremos, apenas a noção de clítico que se liga às questões fonológicas da língua (cf. Nespor e Vogel 1986:145). Neste sentido, referem que a ocorrência mais comum é a de se olhar os clíticos ora como pertencentes à palavra fonológica, como afixos, ora como partes do sintagma fonológico, semelhantes a palavras independentes (cf. Nespor e Vogel 1986:145) As autoras propõem, tal como Hayes (1989), que existe um nível intermédio entre palavra fonológica e sintagma fonológico devido à existência 19 Sobre o modelo métrico ver capítulo IV ponto 4.1.5; Collischonn (2005:135-142); Matzenauer (2005:68-73).
15 de um comportamento diferente de certos clíticos, o qual é dissemelhante do comportamento dos afixos e das palavras independentes (cf. Nespor e Vogel 1986:145). Um dos argumentos apontados para a existência deste constituinte na hierarquia prosódica é o facto de ser domínio de aplicação de determinadas regras fonológicas (as autoras apontam exemplos enunciados por Hayes tendo em conta o inglês) (cf. Nespor e Vogel 1986: 150). O comportamento distinto de determinadas regras, dependendo do domínio de aplicação tomado, é também um dos argumentos mencionados no trabalho de Nespor e Vogel (1986) (cf. Nespor e Vogel 1986:157). Como perspetiva, em certos pontos, divergente em relação àquela que é defendida em Nespor e Vogel (1986) encontramos a proposta de Vigário (2006), que sugere a reedição do conceito de grupo clítico, tendo em conta a fragilidade que este constituinte tem vindo a demostrar em diversas análises (cf. Vigário 2006:673). A autora propõe que essa reedição passe pela renomeação do constituinte, expondo como hipótese a designação grupo palavra prosódica (cf. Vigário 2006: 673/679). Esta proposta de renomeação é legitimada pelo facto de a autora defender que são palavras prosódicas que se encontram agrupadas no constituinte e não clíticos (cf. Vigário 2006:679). A autora apresenta algumas evidências do português europeu e de outras línguas românicas para sustentar aquilo que defende.
16 II - Alguns aspetos relacionados com os fenómenos de fronteira de palavra
17 2.1 A sílaba Dado que o nosso estudo é sobre fenómenos de fronteira de palavra, é necessário que nos detenhamos, neste ponto, sobre um dos constituintes sem o qual a noção de palavra, em línguas como o português, não existe: o conceito de sílaba. A afirmação que acabámos de expressar é, desde logo, polémica pois a existência deste constituinte não é tomada como verdadeira por muitos dos autores que se debruçaram sobre este tema. Kohler 1966 defende que a sílaba é “an unnecessary concept (…) or an impossible one (…) or a harmful one” (cf. Kohler 1966:207). Por outro lado, autores como Fudge (1969), Selkirk (1982), entre outros, defendem a existência deste constituinte e apresentam argumentos 20 bastante válidos que procuram sustentar a noção do referido elemento. Todavia, há que ressalvar o facto de que, embora a sílaba possa não ver por alguns reconhecido o seu estatuto fonológico, ninguém poderá negar que ela faz parte do conhecimento fonológico implícito dos falantes, que possui caráter intuitivo (cf. Lowenstamm 1981:576). Neste sentido pode falar-se numa dicotomia teórico/intuitivo no que diz respeito à noção de sílaba, sendo que a noção teórica se vê alvo de muita discórdia e estudo e a noção intuitiva se constata simplesmente e se comprova com recurso às realizações dos falantes (cf. Lowenstamm 1981:576). De ressalvar ainda que do nosso estudo não faz parte a noção mais “fonética” de sílaba, ou seja centrar-nosemos em análises baseadas nos princípios que regem a organização silábica e não em argumentos de caráter mais físico do que propriamente estrutural. 21 A noção de sílaba começa a ser discutida mais acesamente depois de vários estudiosos criticarem a ideia, apresentada no modelo SPE, de que as palavras eram apenas sequências de conjuntos de consoantes e vogais, componentes de um modelo linear (cf. Mendonça 2003:21). No entanto, Blevins (1995) refere que existem mesmo antes do trabalho de Chomsky e Halle, que viria a despoletar o pensamento sobre a sílaba, alguns estudos importantes sobre esta temática (cf. Blevins 1995:206-207). A partir de 1969, com o trabalho de Fudge (1969), o tema sílaba viu-se alvo de um estudo 20 Ver mais sobre as motivações para a existência da sílaba em Clements e Keiser (1983:186); Kenstowicz (1994:250-252). 21 Ver uma possível definição de sílaba em fonética em Barbosa (1994): “Operaremos neste trabalho com um conceito auditivo, de acordo com o qual se entenderá a sílaba como o segmento fónico suscetível de ser precedido e seguido de uma interrupção da fonação, isto é, de uma pausa virtual.” (Barbosa 1994:131).
18 mais detalhado e mais apropriado na medida em que se começou a perceber que este estudo era, de facto, essencial nas análises fonológicas das línguas e, consequentemente, na descoberta linguística em geral (cf. Mendonça 2003:22). A análise mais detalhada da sílaba e dos seus constituintes internos, bem como de outras unidades e fenómenos fonológicos não segmentais (tom, acento, entre outros), hierarquicamente organizados, levou a que a hipótese unilinear fosse colocada de lado e a proposta dos modelos nãolineares ganhasse espaço na discussão da estruturação fonológica. Assim como referimos acima, existem alguns argumentos que procuram provar a necessidade de se pensar a fonologia de uma língua tendo em atenção a noção de sílaba. O facto de a sílaba ser um domínio de restrições fonotáticas, o facto de se explicar mais eficazmente, através da análise silábica, determinadas ocorrências das línguas (como, por exemplo, as restrições mínimas e máximas de cada língua), o facto de o estudo de ocorrências de seleção segmental ser apenas explicado tendo em conta a noção de sílaba, o facto de nas fronteiras de sílaba surgir a aplicação de regras específicas, os fenómenos de lapsus linguae 22 , o facto de serem, morfologicamente, alvo de processos de reduplicação, entre outros, são alguns dos argumentos apresentados por diversos autores (cf. Anderson 1969:141; Lowenstamm 1981:576; Selkirk 1982:328-337; Clements e Keyser 1983:186; Kenstowicz 1994:250-252; Blevins 1995:207-210; Spencer 1996:173; entre outros). Dos estudos sobre a sílaba resultaram diferentes propostas sobre a sua estruturação interna. Alguns modelos apresentaram soluções para a estrutura interna da sílaba relacionadas com a noção de peso silábico (como, por exemplo, as propostas desenvolvidas por McCarthy e Prince 1986 e Hayes 1989a sobre o estudo das moras 23 ), outros apresentaram soluções mais voltadas para as noções de restrições e concordância entre os constituintes internos da estrutura (como, por exemplo, Fudge 1969, Selkirk 1982). Os modelos silábicos mais estudados e debatidos foram, segundo Blevins (1995:212): o modelo de estruturação linear sem subconstituintes (Anderson 1969; Kahn 1976; Clements and Keyser 1983); o modelo baseado no estudo das moras (Hyman 1985; McCarthy and Prince 1986; Hayes 1989a); o modelo bipartido nos conjuntos corpo-coda e corpo-ataque-núcleo (McCarthy 1979); o modelo tripartido 22 Ver exemplos de lapsus linguae em português e inglês em Mateus e Andrade (2000:38). 23 Sobre o conceito de mora e a teoria de moras ver Broselow (1995:203); Hayes (1989a:352-363); McCarthy (1979 :245); Clements e Keyser (1983:198); Lass (1984:253-262); Fikkert (1994:35-41).
19 (Hockett 1955) e, por fim, o modelo bipartido (entre outros, gramáticas tradicionais chinesas, Pike and Pike 1947; Fudge 1969; Selkirk 1982) 24 . Dos diferentes modelos apresentados acima, tomamos como mais completo o modelo bipartido Ataque - Rima, seguido, entre outros, por Blevins (1995), na medida em que permite uma análise mais capaz das problemáticas envolvidas no estudo da estruturação silábica. Neste seguimento, apresentaremos, com base neste modelo, uma breve resenha sobre as caraterísticas da sílaba em português europeu. 2.1.1 A sílaba em português europeu A sílaba em português começou a ser estudada desde o século dezasseis por Oliveira (1536) e por Barros (1540) e passou por diferentes análises, segundo diferentes moldes teóricos, até à atualidade (cf. Mateus e Andrade 2000:39). Como referem Mateus, Frota e Vigário (2003), e tal como constatamos da existência dos diferentes modelos acima referidos, a sílaba tem “uma estrutura interna hierarquicamente organizada” (Mateus, Frota e Vigário 2003: 1038). Este constituinte prosódico é entendido como unidade multidimensional, composta por uma ramificação que se divide em dois componentes: o ataque e a rima (cf. Mateus e Andrade 2000:38). Do ataque faz parte a consoante (ou consoantes) que antecede a rima e desta fazem parte as vogais (e semivogais) como núcleo e a consoante que surge em coda silábica, no caso de estarmos perante uma sílaba fechada (cf. Mateus, Frota e Vigário 2003:1038). Os ataques em português podem ser, a existirem, de dois tipos: simples ou ramificados (cf. Mateus, Frota e Vigário 2003:1039). Todas as consoantes do português podem formar ataque de sílaba simples à exceção de //, // e // em início de palavra (cf. Mateus, Frota e Vigário 2003:1039). No que diz respeito aos ataques complexos em português, existem algumas restrições que respeitam o Princípio de Sonoridade 25 e a Condição de Dissemelhança 26 tais como, por exemplo, a impossibilidade de ocorrência de sequências /bd/ ou sequências /dk/ (cf. Mateus, Frota e Vigário 2003:1040-1044). De facto, em português, os ataques ramificados não marcados são aqueles que se formam pela junção de uma consoante oclusiva com uma líquida (por exemplo, “preto”, 24 Ver mais sobre modelos de sílaba em, por exemplo, Fikkert (1994:19). 25 Ver sobre o princípio de sonoridade Selkirk (1984) e Vigário e Falé (1994:472-473). 26 Ver sobre a Condição de Dissemelhança Vigário e Falé (1994:473-474).
26 III - Sândi
27 3.1 O sândi no estudo da palavra Como referimos acima, depois de terminado o processo de silabificação pode ou não ocorrer o processo pós-lexical de ressilabificação. O referido processo faz com que existam alterações fonológicas nas estruturas silábicas que foram formuladas lexicalmente. Nesse momento estamos perante um fenómeno sândi. Estes fenómenos são caracterizados por alterações fonológicas, após ressilabificação, de dois tipos: alterações fonológicas internas ou externas à palavra 39 . Às alterações que se registam no interior de uma mesma palavra dá-se o nome de sândi interno 40 enquanto às alterações que se comprovam em fronteira de palavra se dá o nome de sândi externo 41 . Tendo em conta o enquadramento e o objetivo do nosso estudo, debruçar-nos-emos apenas sobre as questões que se prendem com o último tipo mencionado. Dessa forma, tomaremos em análise o sândi externo como resultado da reestruturação silábica levada a cabo pelo processo pós-lexical de ressilabificação. Bisol (2002) refere que o ponto de partida dos fenómenos de sândi é o “desaparecimento de uma sílaba e imediata ressilabação dos elementos flutuantes que passam a ser agregados à sílaba remanescente” e que tomando em consideração a regra do licenciamento prosódico, o segmento tem de pertencer a uma sílaba para que não seja “apagado pela regra universal de apagamento do elemento extraviado” (cf. Bisol 2002:55-57) Dentro das ocorrências de sândi externo poderemos encontrar diferentes alterações fonológicas tendo em conta os elementos envolvidos. Por um lado, podemonos deparar com sândi vocálico, tendo em conta que os componentes deste fenómeno são apenas as vogais, por outro lado podemos encontrar um tipo de sândi externo no qual as partes envolvidas não se restringem a esta categoria de sons, mas se alastram à classe das consoantes. Acreditamos que a designação mais admissível será a de sândi externo consonântico 42 . 39 Tomamos aqui a noção de palavra como sinónimo de “sílaba ou sequência de sílabas, fonologicamente bem estruturada, possuidora de um único acento fonológico e correspondente a uma entidade morfológica reconhecida”. 40 Como exemplo de sândi interno podemos apresentar a disparidade presente nos exemplos “gato” [`] e “água [`]. 41 Como exemplo do que acabámos de mencionar, podemos apresentar a disparidade presente em: “casas” [`] ; “amarelas” [`] e “casas amarelas” [``]. 42 Como não nos deparámos, ao longo das nossas leituras, com uma proposta de designação deste tipo de sândi, decidimos designá-lo desta forma por entendermos que é, de facto, a designação mais próxima da ideia que se pretende transmitir. “casas pobres” [``] e “casas bonitas” [``] são exemplos abrangidos pela designação que acima apresentámos.
28 Bisol (1996) refere que o sândi vocálico externo, fazendo uma análise do português brasileiro, pode apresentar distintos contextos de aplicação, nomeadamente: degeminação 43 , elisão 44 ou ditongação 45 (cf. Bisol 1996:56-57;Tenani 2004:225-226). A degeminação pode ocorrer quando duas vogais idênticas se encontram e são, respetivamente, final de palavra fonológica (tomam lugar no núcleo simples e à sua direita a coda encontra-se vazia) e início de palavra fonológica (o ataque da palavra encontra-se vazio) (cf. Bisol 2002:64-65). Para que a degeminação tome lugar é necessário que uma das três hipóteses, a seguir apresentadas, se concretize: ia segunda sílaba não ser portadora de acento (como, por exemplo, “chá ácido” *[] ); iiambas as sílabas não sejam sílabas fortes em relação ao pé respetivo (como, por exemplo, “casa azul” [] ) e iiia primeira sílaba seja forte e a segunda fraca (como, por exemplo, “chá amarelo” []) (cf. Bisol 2002:64-67). A elisão ocorre, em português do Brasil, em casos como “casa estranha” 46 (cf. Bisol 2002:57-59). Este fenómeno consiste no apagamento da vogal baixa quando a vogal seguinte apresenta caraterísticas labiais, ou seja, se for arredondada (como por exemplo, “camisa usada” [] 47 ). Nestes casos poderá ainda surgir outro fenómeno em lugar da elisão – a ditongação. Se assim for estaremos perante uma realização como [], ou seja, o elemento que poderia ter sofrido elisão adquire lugar na estruturação silábica fazendo com que o [u] se transforme na glide [w] (cf. Bisol 2002:57-59). Em português europeu o exemplo referido acima “camisa usada” pode representar as mesmas opções – elisão ou ditongação – diferindo, no entanto, das realizações do português brasileiro na questão da altura da vogal. O fenómeno ditongação para além do facto de poder surgir num contexto também favorável a outro fenómeno – elisão – pode ainda mostrar-se presente em 43 Sobre o fenómeno degeminação ver também Abaurre (1996:41-50); Bisol (1996:166-167). 44 Sobre o fenómeno elisão ver também Abaurre (1996:41-50); Bisol (1996:164-165); Bisol (2000:319330). 45 Sobre o fenómeno ditongação ver também Abaurre (1996:41-50); Bisol (1996:165-166); Veloso (2003:339-346). 46 Em português europeu, casos como o que apontámos, “casa estranha”, comportam uma análise mais complexa tendo em conta a problemática relacionada com o fonema //. A realização em português europeu de “casa estranha” será [] enquanto em português brasileiro a existência de [] não cria quaisquer problemas teóricos que vão além daquilo que é traçado para exemplos como “camisa usada”. 47 Exemplo retirado de Bisol (2002:58).
29 contextos caraterizados pela presença de vogais altas não acentuadas (cf. Bisol 2002:5964). Vejam-se os exemplos apontados por Bisol (2002:60): 1- “Verde amarelo” ver[]marelo 2- “Come ostra” co[]stra Uma adaptação da análise apresentada por Bisol (2002) para o português europeu comportaria algumas dissemelhanças, como facilmente se depreende da existência de uma grande disparidade entre as duas variedades no que diz respeito, por exemplo, aos graus de abertura das vogais. Assim, algumas das realizações que em português brasileiro apresentam o fenómeno ditongação, como, por exemplo, “come ostra” apresentam em português europeu elisão ( [] ). No que diz respeito ao sândi externo consonântico, encontraremos realizações como “mar azul” ([``]), “olhos azuis” ([``]), “animal amigo” ([``]), entre outras. Tendo em conta as possibilidades de que o português dispõe para o preenchimento da coda silábica, por nós já relembradas no capítulo anterior, todas as realizações possíveis, em coda, farão obrigatoriamente parte de um conjunto /L/, /R/ ou /S/. No nosso trabalho analisaremos, dos conjuntos enunciados, apenas as ocorrências que fazem parte dos conjuntos /L/ e /S/, assumindo, desde logo, que as realizações como “mar azul”, ou seja, pertencentes ao conjunto /R/, apesar de serem alvo, como as demais enunciadas acima, do processo de ressilabificação, não criam, em português europeu, contextos passíveis de análise pormenorizada, dado que sofrem alterações na posição que ocupam em sílaba mas estas modificações não albergam mudanças segmentais. A este estudo acrescentar-se-á a análise das realizações que envolvem mais do que uma classe de sons 48 , ou seja, as ocorrências que suportam um processo de ressilabificação no qual estão presentes vogais e consoantes. Os fenómenos de sândi que abordaremos mais pormenorizadamente no próximo capítulo do nosso trabalho, farão, pensamos, com que o estudo do conceito de palavra 48 Com exceção dos fenómenos de iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica.
30 se torne mais claro, no sentido em que se tornará mais fácil delinear os limites de palavra após uma análise dos fenómenos que ocorrem nessas mesmas fronteiras, ou seja, quando nos depararmos com um determinado fenómeno de sândi seremos capazes de reconhecer as características das fronteiras de palavra naquele caso específico e poderemos tentar chegar a generalizações que nos conduzirão a um elenco global das especificidades das fronteiras de palavra. As especificidades que referirmos servir-nosão de marcadores numa posterior tentativa de delimitação da noção de palavra. Neste sentido, cremos que um estudo sobre noção de palavra passará obrigatoriamente por estas questões fronteiriças, todavia não marginais. A relevância destes fenómenos é já apresentada em trabalhos como os de Leda Bisol (1992;1996), Brenda Veloso (2003), Peperkamp (1997). 3.2 Os fenómenos Apresentaremos, de seguida, os três fenómenos a que faremos menção neste trabalho, como realizações concretas da problemática envolvida no estudo do sândi em português europeu, e procuraremos fazer uma breve descrição dos mesmos, relegando para mais tarde uma decomposição e análise mais detalhadas. 3.2.1 Especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica Um dos fenómenos que vamos analisar é o que tem que ver com as diferentes realizações do arquifonema 49 /S/, correspondente, por exemplo, ao morfema de plural “- s” em português 50 . O arquifonema /S/ pode realizar-se de três formas distintas consoante o contexto em que é produzido 51 . Se à direita da sua ocorrência, quando final de palavra, encontrar uma vogal surgirá realizado como [z], se à direita surgir uma consoante sonora realizarse-á como [] (por exemplo, “rosmaninho”) e se, por fim, à sua direita surgir uma 49 Ver sobre a noção de arquifonema/arquissegmentos, entre outros, Chomsky e Halle (1968:166), Barbosa (1994:126). 50 Nos casos em que não se apresenta como morfema do plural como, por exemplo, em ocorrências como “lápis” em “A Rita tem um lápis” ou “simples” em “A Rita é uma rapariga bastante simples”, o arquifonema comporta-se de igual forma, isto é sofre as mesmas alterações que são acima referidas. 51 Ver sobre as diferentes ocorrências Barbosa (1994:152).
31 consoante surda será realizado como [] (por exemplo, “costura”) 52 . De notar, desde já, que apenas a sua realização como [z] se relaciona obrigatoriamente com as noções de fronteira de palavra e ressilabificação. 3.2.2 Velarização e desvelarização Antes de apresentarmos o fenómeno propriamente dito, é essencial que reflitamos um pouco sobre a dicotomia, para uns, existente, para outros, irreal, velarização/desvelarização. Autores como Spencer (1996) e Mateus (2003) acreditam que no nível profundo da língua existe um fonema /l/, portanto não velarizado, e que este é alvo de uma regra capaz de o tornar velar quando se encontra como parte de uma coda silábica (cf. Spencer 1996:214-215; Mateus 2003:1016). Por outro lado, há autores que defendem que fonologicamente o que sucede é bem diferente do que acabámos de referir (cf. Spencer 1996:214-216). O conceito de desvelarização surge da defesa da ideia de que o real fonema da língua é velarizado - // (cf. Spencer 1996:214-216). Seguindo esta conceção, o que acontece fonologicamente não é a velarização de um segmento originalmente não velarizado quando se encontra presente em coda silábica, mas a desvelarização do fonema // em ataque de sílaba. Esta problemática insere-se no grupo de estudos relativos à determinação das formas subjacentes, sobre os quais apenas se debruçam as teorias, como, por exemplo, a generativa, que defendem a existência de um nível profundo e de um nível de superfície. Defendendo um outro ponto de vista, as teorias que não consideram a existência destes dois níveis principais, como a teoria declarativa, não apresentam, por esta mesma razão, qualquer tipo de argumentação em relação a estas teorizações. Do que referimos se explica a ausência da teorização da conceção de fonema ou alofone dentro do quadro declarativo. Pondo de parte a discussão sobre a existência ou não de um fonema velarizado, apresentaremos as análises relativas às duas colocações distintas como parte integrante da sílaba, ou seja, uma análise que referencie o que sucede em ataque de sílaba e uma outra análise que demonstre aquilo que ocorre quando o elemento se encontra em coda silábica. O que podemos afirmar, sem tomarmos qualquer perspetiva sobre a dicotomia referida, é que, 52 Tomamos, salvo exceções devidamente assinaladas, em todo o trabalho a norma padrão do português europeu na transcrição e análise dos fenómenos aqui estudados.
32 de facto, em coda silábica 53 encontramos a realização [ɫ] (como, por exemplo, “calças” ou “animal”) e em ataque de sílaba a realização [l] (como, por exemplo, “laca” ou “pala”). No final da análise, procuraremos contribuir para o esclarecimento das questões apontadas acima. Para além destas ocorrências, encontraremos contextos um pouco distintos na medida em que, apesar de resultarem à superfície de igual forma, envolvem mais modificações estruturais 54 . 3.2.3 Iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica O caso da iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica é bastante diferente dos fenómenos acima referidos porque, se nos casos supra mencionados, tínhamos a existência de ocorrências (não só, mas também) ao nível da palavra como, por exemplo, a velarização em coda silábica 55 sem que esta fosse final de palavra, neste caso isso não acontece. Quando retratamos este fenómeno, subimos um degrau na hierarquia prosódica, pois não tomamos apenas a noção de palavra, mas a noção de grupo clítico, mesmo que esta não seja ainda possuidora de uma definição conclusiva/ comummente aceite, tal como vimos no primeiro capítulo (ponto 1.2) da nossa dissertação. Abordaremos este fenómeno tendo em conta as propostas de Nespor e Vogel (1986) e de Vigário (2006). O que tentaremos perceber mais adiante é de que forma é que cada teoria/modelo abordado no nosso estudo poderá contribuir para uma análise mais pormenorizada e esclarecedora da realidade dos fenómenos apresentados. Iremos, como anteriormente mencionámos, procurar explanar os pontos mais relevantes de cada análise tendo sempre em vista a hipótese mais frutífera para a construção solidificada de ideias que possam ser base de maiores estudos. 53 Ver sobre a classificação “clear vs dark /l/” e a posição distinta em que surgem as ocorrências Anderson (1969:140) e Spencer (1996:214-216) e ver Veloso (2008:11) sobre a velarização em coda em português europeu. 54 Referimo-nos aos casos em que surge o processo de ressilabificação. Neste processo a velarização presente em coda silábica final de palavra poderá perder-se caso o segmento a que se encontra associada assuma o lugar de ataque na palavra que imediatamente se segue na construção (sendo uma construção propícia a este acontecimento). 55 Tomamos aqui a velarização de coda silábica apenas como exemplo, seguindo a ideia primordialmente apresentada nos estudos sobre o fenómeno. Não queremos, no entanto, com isto afirmar que é de facto o que sucede e que não defendemos/acreditamos na teoria que defende a existência de um processo de desvelarização. Retomaremos essa discussão depois da apresentação das análises apresentadas no capítulo V da nossa dissertação.
33 IV - Modelos Teóricos
34 4.1Fonologia Generativa O artigo, publicado em 1956, On Accent and Juncture in English, escrito por Chomsky, Halle e Lukoff foi, segundo Anderson (1985:313), o primeiro trabalho que abalou algumas das suposições do Estruturalismo Americano. O autor refere que a descrição feita no artigo, baseada na aplicação de regras, retratava ainda os diferentes níveis de constituintes e as derivações que relacionam as formas subjacentes e as de superfície (Anderson 1985:314). É, no entanto, o trabalho realizado por Chomsky, em 1955, na elaboração da sua tese de mestrado The Logical Structure of Linguistic Theory, que é apontado por Anderson 1985 como o ponto de partida para a elaboração da teoria generativa, dado que é nesta obra que podemos encontrar enunciadas muitas das principais ideias desta teoria (cf. Anderson 1985:315). A partir da segunda metade da década de sessenta, a teoria generativa começa a ser estudada em departamentos e cursos centrados nos estudos linguísticos e é tomada como uma clara, e cada vez mais forte, opção à teoria estruturalista (cf. Anderson 1985:317-318). Porém, como refere Anderson 1985, são notórios alguns aspetos comuns entre as duas (como, por exemplo, a questão da linearidade), resultantes das influências dos estudos com Roman Jakbson e dos estudos realizados na Escola de Praga (cf. Anderson 1985:322-323). Por outro lado, as noções da existência de regras e de um novo objeto de estudo, ideias-chave na teoria generativa, são elementos que apartam as teorias (cf. Anderson 1985:323-327). Chomsky e Halle afirmam que “The goal of the descriptive study of a language is the construction of a grammar” (Chomsky e Halle 1968:3). No entanto, a palavra gramática tem, a partir exatamente desta afirmação, aceções distintas. Se por um lado nos podemos referir a gramática como um conjunto de convenções impostas, por outro podemo-nos referir a gramática no sentido de nomear a capacidade humana no que diz respeito à faculdade da linguagem (cf. Chomsky e Halle 1968:3). Assim, constatamos a existência de duas gramáticas: a que corresponde a um sistema de regras mentais, internas, e a que corresponde ao resultado da descrição das realizações que um falante produz após operações linguísticas que têm como elementos parcelas do dito sistema de regras (cf. Chomsky e Halle 1968:3-4). Este conhecimento interno é parte da competência do falante, em oposição à realização de enunciados que é parte da performance. Os conceitos de competência e performance são apresentados pelos autores na distinção entre aquilo que é intrínseco ao falante e aquilo que é alterável
35 segundo variadíssimas causas (Chomsky e Halle 1968:3). A dicotomia competência/performance aparece associada à existência de um diferencial entre aquilo que é produzido pelo falante e aquilo que por ele é entendido, ou seja, o facto de sermos capazes de perceber/ajuizar a boa formação de enunciados produzidos na nossa língua relaciona-se com o facto de estes estarem de acordo com as regras presentes na nossa gramática interna e essa percepção nada tem que ver com a capacidade de produzirmos ou não enunciados com, por exemplo, igual complexidade (cf. Matzenauer 2005:14-15). É importante ressalvar o facto de que o falante enunciado na teoria generativa 56 é em si mesmo uma abstração, um “idealized speaker-hearer” na medida em que não existe nenhum falante/ouvinte que domine completamente a sua língua (cf. Chomsky e Halle 1968:3). Neste sentido percebe-se claramente que aquilo que é tomado em consideração na teoria generativa é o que o falante sabe da sua língua e não os juízos que faz sobre esse conhecimento. O conceito de regra 57 é outra das noções apresentadas inauguralmente por esta teoria (cf. Chomsky e Halle 1968:7-ss). É através da aplicação de regras que é possível passar-se do nível em que podemos encontrar os elementos que constituem o conhecimento implícito, o nível subjacente, para o nível em que estes tomam formas físicas, o nível de superfície (cf. Chomsky e Halle 1968:6-14; Kenstowicz 1994:89). A distinção entre a Fonética e a Fonologia 58 toma aqui um lugar importante. Se por um lado a Fonética se relaciona, como ciência que estuda a materialidade dos sons (questões acústicas, articulatórias e percetivas), o som como propagação de ondas mecânicas, com o nível de superfície, a Fonologia, por outro lado, relaciona-se com o nível subjacente. Enquanto neste último nível estão presentes os fonemas das línguas (unidades abstratas, imateriais, meras representações mentais de um conjunto delimitado de realizações de superfície), no outro nível, o de superfície, estão presentes os fones, que correspondem às realizações físicas efetivas, às produções mecânicas efetuadas pelo aparelho fonador do falante. Os fonemas eram, segundo Troubetzkoy, “ (…) unités phonologiques qui, au point de vue de la langue en question, ne se laissent pas analyser en unités phonologiques encore plus petites et sucessives (…)” (cf. Troubetzkoy 1949:37) e eram tomados como unidades mínimas de análise em 56 Sobre as questões de estudo desta teoria ver também Kenstowicz (1994:57). 57 Sobre o conceito de regra e sobre a capacidade finita do cérebro ver também Kenstowicz (1994:60) 58 Ver Troubetzkoy (1949:3) sobre a distinção entre Fonética e Fonologia.
42 sentido, a fonologia prosódica avançou com uma teoria baseada na hierarquização de constituintes, os quais são domínio universal de regras específicas. Desta forma, importa aqui deixar esclarecida a noção de constituinte prosódico, que se encontra na origem de todo o estudo prosódico: “unidade linguística complexa, cujos membros desenvolvem entre si uma relação binária de dominante/dominado, precisamente uma relação de forte/fraco ou vice-versa (Bisol 2005:255) ”. Como em muitas das demais subáreas da fonologia, não existe um consenso sobre os constituintes pertencentes à dita hierarquia, todavia, referiremos aqui os que até ao momento vigoram na maior parte dos estudos realizados. Segundo Nespor e Vogel (1986) a hierarquia prosódica é constituída por, de forma ascendente: sílaba (σ), pé (Σ), palavra prosódica (ω), grupo clítico (C), sintagma fonológico (ϕ), sintagma entoacional (I) e enunciado (U) 77 . De todas estas noções, as que tomam um lugar mais destacado no nosso trabalho são a sílaba, a palavra prosódica e o grupo clítico pelo facto de contribuírem mais diretamente para a base do estudo que levamos a cabo no nosso trabalho. Como referimos acima, existem, efetivamente, algumas propostas diferentes da que foi apresentada por Nespor e Vogel (1986) nomeadamente a proposta de Vigário (2006), que sugere a reedição do conceito de grupo clítico 78 , tendo em conta a fragilidade que este constituinte tem vindo a demostrar em diversas análises (cf. Vigário 2006:673). Este modelo teórico procura, como podemos constatar, mais a solidificação das definições dos constituintes do que a análise de fenómenos de que estes são domínio. 4.1.5 Modelo Métrico A fonologia métrica tem como objeto de análise as questões relacionadas com o acento e o ritmo (cf. Hayes 1989; Abaurre 2006:54). Adotando um sistema hierárquico, que recolheu do surgimento das fonologias não lineares, este modelo procura alcançar novos patamares em relação às ligações entre as questões silábicas e o acento (cf. Matzenauer 2000:68-69). Os três principais tipos de acento que o modelo apresenta são o acento primário, o acento secundário e o acento principal, tomando, desde logo, uma referência à noção de palavra na medida em que os dois primeiros se relacionam com o 77 Ver sobre os constituintes da hierarquia prosódica as propostas de Selkirk (1984) e (1996). Embora tenha uma posição semelhante à de Nespor e Vogel, Selkirk apresenta algumas diferenças, por exemplo, no que diz respeito ao constituinte grupo clítico. 78 Sobre grupo clítico ver capítulo I ponto 1.2
43 conceito de uma única palavra enquanto o terceiro tipo de acento, o acento principal, se liga à ideia de uma sequência de palavras (cf. Matzenauer 2000:69). A fonologia métrica considera, ao contrário do que era, por exemplo, apresentado no modelo SPE, que o acento é uma propriedade da sílaba e não um traço que pode estar ativado ou desativado (cf. Matzenauer 2000:70-71). Das relações que se estabelecem entre os diferentes elementos prosódicos, dispostos hierarquicamente, resulta uma proeminência mais forte que é, segundo esta teoria, considerada o acento (primário) (cf. Matzenauer 2000:71-72; Liberman e Prince 1977: 267). Liberman e Prince (1977), autores que avançaram algumas ideias sobre a relação entre a estruturação hierárquica e a proeminência, criaram um sistema de “medição métrica” através do qual calculam a hierarquia métrica tendo em conta uma regra por eles estabelecida: a Regra de Projeção de Proeminência Relativa (cf. Matzenauer 2000:71; Liberman e Prince 1977: 316). Esta regra define que de um constituinte composto por dois nós, um fraco e um forte, o mais forte será metricamente superior em relação ao outro (cf. Matzenauer 2000:71; Liberman e Prince 1977: 316). A apresentação de dois sistemas de análise distintos, a árvore métrica ou a grelha métrica, mas, ao mesmo tempo, um pouco semelhantes, tendo em conta que parte da informação que se poderia retirar de uma análise era já conhecida da aplicação do outro sistema, fez com que houvesse uma divisão marcada no seguimento de cada uma das propostas (cf. Matzenauer 2000:71). Bruce Hayes (1989), por exemplo, seguiu o modelo arbóreo enquanto Selkirk (1984) elaborou estudos tendo em conta o sistema de grelha métrica (cf. Matzenauer 2000:72-73). Collischonn (2005) apresenta dois modelos desenvolvidos no seguimento do estudo sobre os diferentes sistemas acima enunciados: o modelo de Halle e Vergnaud (1987) e o modelo de Hayes (1991) (cf. Collischonn 2005: 135). O primeiro modelo, recorrendo ao sistema de grelha métrica, procura acrescentar dados no estudo de noções tão importantes como a extrametricidade e o peso silábico (cf. Collischonn 2005: 136139). A extrametricidade 79 , apresentada primeiramente por Liberman e Prince (1977), mostra-se determinante nas análises feitas sobre a regra de acento em várias línguas, tal como a noção de peso silábico se mostra relevante nas análises de línguas onde a diferenciação entre sílabas pesadas ou leves 80 se interliga com a presença ou não de 79 Sobre este assunto ver também Spencer (1996:190). 80 Sobre sílabas pesadas e leves e a noção de mora ver, entre outros, Kenstowicz (1994: 291-298).
44 acento (cf. Collischonn 2005: 136-139). No modelo apresentado por Hayes (1991), o peso silábico é refletido na existência do pé métrico 81 (cf. Collischonn 2005: 139). Para Hayes (1991) existem três tipos de sistema de acento: “ios sistemas insensíveis ao peso silábico, com constituintes binários de cabeça à esquerda, iios sistemas sensíveis ao peso, com constituintes binários de cabeça à esquerda e iiios sistemas com constituintes binários de cabeça à direita.” (Collischonn 2005:140) Aos primeiros corresponde o troqueu silábico, aos segundos o troqueu mórico e aos terceiros o iambo (cf. Collischonn 2005:140). As maiores diferenças entre os dois modelos prendem-se com o facto de o modelo de Hayes apresentar tipos de pés métricos distintos e regras e parâmetros que possibilitam uma explicação mais eficaz da disparidade que podemos constatar nas marcações de acento de diferentes línguas 82 . 4.2Fonologia Declarativa Este quadro teórico toma o nome de Fonologia Declarativa pelo facto de o seu principal traço ser, exatamente, a apresentação, sob a forma de uma notação, daquilo que é visível à superfície da única estrutura que este modelo concebe. Como o seu objetivo é o de explanar as ocorrências e não de as interligar segundo hierarquias estabelecidas tendo em conta níveis distintos e derivações (caraterísticas presentes nas teorias generativas não-lineares) não se enquadra 83 nas teorias fonológicas “tradicionais”, mas numa conceção bastante diferente de análise fonológica (cf. Scobbie, Coleman e Bird 1996:701). A fonologia declarativa é um modelo de pesquisa motivado, em parte, pela necessidade de teorias fonológicas que pudessem ser implementadas em computadores e desenha-se através de uma chave da teoria das ciências computacionais, na qual existe a tradição de distinção entre a declaração de um problema e o procedimento que alberga a solução do problema (cf. Bird, Coleman, Pierrehumbert, Scobbie 1992:1). Segundo os mesmos autores, a fonologia declarativa é, na sua essência, um modelo que procura 81 Sobre a definição de pé ver Kenstowicz (1994:48); Spencer (1996:176); McCarthy and Prince (1986:245 e ss.). 82 Ver sobre a disparidade referida, por exemplo, as ocorrências distintas em português e árabe do Cairo, no que diz respeito ao Parâmetro do Pé Degenerado e à dicotomia “proibição forte /proibição fraca” (cf. Collischonn 2005:141). 83 Sobre o enquadramento da teoria declarativa e as principais disciplinas a que se anexa ver Scobbie, Coleman e Bird (1996:701-704).
45 abandonar as ideias de derivação ordenada e de regras de derivação, conceções apresentadas na teoria generativa (cf. Bird, Coleman, Pierrehumbert, Scobbie 1992:1). Acrescentam também que a existência de uma similaridade acentuada entre as formas lexicais e as regras fonológicas é uma das fragilidades da teoria generativa e que o conceito de Preservação da Estrutura 84 apesar de central, não apresenta ainda uma definição clara (cf. Bird, Coleman, Pierrechumbert and Scobbie 1992:10). Esta teoria aborda também algumas questões relativas à interação entre fonologia e sintaxe. Para além disto, no modelo declarativo a relação entre fonologia e fonética é entendida como um caso de denotação, no sentido em que as representações fonológicas são descrições da realidade fonética e uma determinada série fonológica denota uma realização fonética (cf. Bird, Coleman, Pierrehumbert, Scobbie 1992:1-2). Esta teoria recolhe e acolhe alguns conceitos já apresentados na literatura como a noção de restrição, explorando, como referem Scobbie, Coleman e Bird, ao máximo esta ideia, mas sem a relacionar com a problemática dos rankings apresentada pela Teoria da Otimidade 85 (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:685). Segundo o modelo declarativo, todos os elementos da fonologia são restrições e, por essa razão, deve-se somente caracterizar a interação entre as mesmas (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:685). O referido modelo apresenta, ainda, a ideia de que a teoria das restrições deve ser o mais simples possível. Neste sentido, este modelo sugere que todas as restrições devem ser compatíveis, aplicadas de igual forma e satisfeitas (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:686). Esta é a solução inovadora que apresenta a teoria declarativa no que diz respeito ao problema da interação entre entradas lexicais, regras que governam as alterações e restrições nas formas de superfície (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:685-686). Neste modelo teórico, que pretende ser o centro de uma análise empírica dos sistemas de sons, é, assim como em teorias anteriores, defendida a ideia de que as teorias fonológicas devem ser restritivas o suficiente para que possam fazer previsões sobre os dados (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:705).Os autores acreditam que a implementação de gramáticas computacionais, o teste entre gramáticas computacionais e dados de corpora; estudos sobre dados empíricos através de ensaios fonéticos e de trabalhos de informantes e a implementação fonética de representações 84 Sobre o Princípio da Preservação da Estrutura ver Kiparsky (1985:92-94); Bisol (2005:85 e ss.). 85 Sobre a Teoria da Otimidade ver Prince e Smolensky (1983); Schwindt (2005:257-278); Abaurre (2006:54-56) , entre outros.
46 fonológicas são essenciais para qualquer programa fonológico (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:705). A fonologia declarativa entende os segmentos fonológicos como resultado de uma composição de elementos (cf. Angoujard 2006:36). A noção de elemento foi recolhida do quadro teórico da Fonologia dos elementos 86 . Esta conceção prende-se, em linhas gerais, com a ideia de que existe um número determinado de particularidades que se combinam na realização de um som da língua. Expomos a seguir a lista dos elementos 87 aceites na obra de Angoujard (2006:38) 88 : @ = dorsal A = abertura I = anterioridade U = labialidade h = ruído Ɂ = oclusão l = lateral N = nasal L = vozeado H = não-vozeado aspirado R = coronal Apresentaremos a análise dos dados sob a perspetiva declarativa, no capítulo que dedicamos à análise dos fenómenos abordados neste trabalho, tendo em conta a lista de elementos acima enunciada. Ainda em relação às dissemelhanças presentes na teoria, em comparação com os demais modelos apresentados acima, surge a disparidade presente na apresentação da temática da sílaba, por esta teoria apresentada como modelo rítmico (cf. Angoujard 2006:40-46). Angoujard (2006) refere que depois do trabalho de Kahn (1976) a sílaba passou a ser reconhecida como essencial pela fonologia generativa standard e que a 86 Ver mais sobre a fonologia dos elementos e a noção de elemento em Kaye, Lowenstamm e Vergnaud (1985:303-326). 87 Os quatro elementos iniciais assumem valor definidor de ponto de articulação quando entram na composição de sons consonânticos. 88 Lista retirada (e adaptada) de Angoujard (2006:38).
47 maior parte das teorias atuais vê a sílaba como resultado da composição entre um ataque, um núcleo e uma coda, sendo que os dois últimos formam o constituinte rima (cf. Angoujard 2006:40-41). A Fonologia Declarativa, como referimos acima, apresenta a noção de modelo rítmico (tendo em conta uma grelha rítmica) composta por três posições: início (position initiale), pico (sommet), fim (fin) (cf. Angoujard 2006:40-41). Angoujard (2006) refere que esta perspetiva se distingue das análises silábicas mais tradicionais na medida em que não possibilita análises monossilábicas de realizações como [stʁikt] e analisa como um único modelo rítmico sequências como [bal] ou [tʁwa] “trois” (cf. Angoujard 2006:41-43). O uso de um código matemático coerente e o objetivo de construir gramáticas que descrevam todas e apenas as possíveis realizações são apontados como duas marcas generativas presentes na teoria declarativa, sendo a última vista como seguidora, nestes pontos específicos, do modelo derivacional generativo (cf. Bird, Coleman, Pierrehumbert, Scobbie 1992:10). A notação utilizada na declaração daquilo que é apresentado pela teoria segue os seguintes pontos: consistência interna, descrição de um objeto fonológico correspondente a cada produção fonológica na língua e possibilidade de cada objeto poder ser descrito como produção (cf. Scobbie, Coleman, Bird 1996:688). Em termos de notação, são utilizados nesta teoria os conetivos lógicos and (∧), or (v), implies (→) e not (¬)/(~) como nos exemplos seguintes 89 : 1- ∃ x onset(x) 2- ∃ xy onset (x) ∧ rime (y) ∧ ∂ (x, “p”) ∧ ∂ (y “i”) 90 3- ∀ x onset (x) → ∃ y syllable (y) ∧ ∂ (y,x) Para além do uso da tradicional notação usada nos mais diversos estudos lógicos, a análise sob a perspetiva da fonologia declarativa pode ainda ser elaborada através de uma notação específica, que podemos encontrar na totalidade em obras como Phonologie Déclarative, que se apresenta nos seguintes moldes 91 : 89 Exemplos retirados de Scobbie, Coleman e Bird (1996:688). 90 Exemplo que toma como modelo a palavra inglesa “pea”. 91 Esquema retirado e adaptado de Angoujard (2006:43).
48 SEG: seg SEG: [b] POS: 1 1 POS: 1 init init SEG: [] SEG: [a] init POS: 1 POS: 1 som SEG: [i] mod POS: 2 som mod mot A representação acima transcrita pretende apenas ilustrar o esqueleto base deste modo de estruturação dos dados. Esta pequena exposição sobre os principais traços em que se define a teoria declarativa funciona, tal como as exposições dos modelos generativos acima citados, como enquadramento teórico geral das análises que serão apresentadas no capítulo final do nosso estudo.
49 V - Aplicação dos modelos apresentados na análise dos fenómenos
50 A análise que fazemos nesta última parte da nossa dissertação surge no seguimento de todos os pressupostos que por nós foram discutidos nos capítulos anteriores. Neste sentido, iremos analisar os fenómenos que brevemente apresentámos no capítulo III, tomando em consideração as noções de sílaba e ressilabificação apontadas no segundo capítulo, segundo as perspetivas dos modelos/teorias expostos no quarto capítulo da nossa tese. Tudo isto com o intuito de contribuir com informação importante no estudo de uma das noções das quais partimos no capítulo inicial: a noção de palavra. Apresentaremos apenas as análises que consideramos relevantes e justificáveis, deixando de parte análises segundo determinados modelos que não se mostrem adequados à realidade específica de cada fenómeno. 5.1 Especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica Para que possamos analisar a especificação de vozeamento e o ponto de articulação de /S/ em coda silábica, consideremos as construções: 1. Os marajás antigos faziam grandes festas. 2. Os marajás bonitos vieram à festa. 3. Os marajás pobres vieram à festa. Criámos em cada uma das frases o contexto necessário para a análise que pretendemos fazer. Assim, em 1. temos a expressão marajás antigos que nos possibilitará um estudo da ocorrência /S/ + Vogal; em 2. temos a expressão marajás bonitos que nos permitirá analisar a ocorrência /S/ + Consoante vozeada e, por fim, em 3. a expressão marajás pobres como exemplo da ocorrência /S/ + Consoante não vozeada. Comecemos pela análise da primeira ocorrência. A transcrição fonética da frase número 1. será, tendo em conta as realizações próprias dos dialetos centro-meridionais 92 : “Os [~] (a) vieram à festa”. Se estivéssemos perante realizações isoladas teríamos “marajás” [`] e “antigos” [~`]. No entanto, estamos na presença de um fenómeno de sândi 92 Sobre os dialetos do português europeu ver Cintra (1971) e Cunha e Cintra (2005:10-19).
51 (externo), ou seja, estamos perante a ocorrência de um fenómeno que é resultado de uma reestruturação silábica. A ressilabificação surge do choque entre as duas palavras prosódicas “marajás” e “antigos”, mais especificamente entre a sílaba final da palavra mais à esquerda (“-jás”) e a primeira sílaba da palavra seguinte (“an-”). As palavras prosódicas referidas fazem parte de um mesmo constituinte superior na hierarquia prosódica pelo que estão sujeitas a este choque caraterístico exatamente de constituintes que partilham igual perfilhação. A reestruturação na sequência “marajás antigos” pode apresentar, para além da realização que apresentámos acima, uma outra realização – [~] (b) – no caso de se tomar como base alguns subdialetos setentrionais (por exemplo, os dialetos transmontanos e alto-minhotos 93 ). Apresentamos, na sequência seguinte, aquilo que se passa ao nível da estruturação/reestruturação silábica nos dois casos enunciados: ω1 ω2 σ σ σ A R A R A R Nu Cd Nu Cd Nu Cd N t 93 Classificação de acordo com o que é proposto em Cunha e Cintra (2005).
58 abertas e uma fechada para a totalidade de sílabas abertas. Apresentamos, seguidamente, em esquema a reestruturação referida: ω1 ω2 σ σ σ A R A R A R Nu Cd Nu Cd Nu Cd ω1 ω2 σ σ σ A R A R A R Nu Cd Nu Cd Nu Cd O fenómeno velarização pode ainda ser analisado segundo a perspetiva declarativa. A teoria declarativa, como mencionámos na breve resenha que fizemos sobre o modelo teórico, tem como base princípios não derivacionais e, dessa forma, apresenta uma análise bastante distinta daquela que a fonologia generativa propõe. De acordo com o paradigma declarativo, a ocorrência deste fenómeno pode ser transcrita através da seguinte esquematização:
59 []1 (C)1 v ∧ []2 ( V)2 Seg _ l _ I Seg _ l _ I Ou, em tradução lógica: 1- ∀ x ((soante (x) ∧ contínuo (x) ∧ anterior (x) ∧ coronal (x) ∧ lateral (x)) ∧ ∃ x coda (x)) ∃ x (velarizado (x)) 2- ∀ x ((soante (x) ∧ contínuo (x) ∧ anterior (x) ∧ coronal (x) ∧ lateral (x)) ∧ ∃ x ataque (x)) ∃ x (¬ velarizado (x)) Ou seja, existem dois elementos distintos que não derivam de qualquer ancestral comum, mas são eles mesmos realizações concretas e singulares. Esta análise não entende portanto a existência quer de velarização quer de desvelarização, mas sim a presença de um elemento velarizado num determinado contexto (no esquema, marcado com o índice 1) e de um outro, não velarizado, noutro contexto específico (no esquema, marcado com o índice 2). 5.3 Iodização e apagamento de [] em final de palavra morfológica Vejamos as seguintes construções: a) Compre os bilhetes. b) Compre-os. Em análise fonológica de constituintes (tendo em conta o modelo prosódico 101 ): a.1) (Compre)ω (os bilhetes)C b.1) (Compre-os)C 101 Referimo-nos ao modelo prosódico abordado/defendido em Nespor e Vogel (1986).
60 Em relação ao conjunto de construções que têm exemplo em a)/a.1) 102 podemos referir que é o facto de [] fazer parte de um constituinte prosódico diferente daquele em que [os] se encontra inserido que faz com que a realização final seja [~]. O que sucede internamente é o preenchimento do núcleo onde surgia [] por parte da vogal inicial do constituinte seguinte e a diminuição consecutiva do número de sílabas da construção (das seis sílabas restam, após reestruturação, cinco sílabas). Isto só acontece no caso de as sílabas envolvidas neste processo não fazerem parte do mesmo constituinte prosódico. Mesmo no caso de estarmos perante duas palavras prosódicas o processo desenrola-se de igual forma, mostrando que, de facto, a relevância se coloca na não partilha de um mesmo constituinte fonológico (por exemplo, em “compre osciladores” [~]). Em relação ao que se encontra exemplificado em b)/b.1), podemos constatar que a inserção de uma glide no lugar da vogal recuada menos acentuada se justifica pelo facto de ambas as estruturas (“compre” e “os”) pertencerem fonologicamente ao mesmo constituinte. A inserção de glide representa, desta forma, uma possibilidade de generalização na identificação de fronteiras de constituintes prosódicos. Resumidamente e segundo uma transcrição baseada no modelo SPE: / C # C[V / VC Consideremos, de seguida a análise baseada no modelo declarativo: 1 (kV ∧ 2 ( V)k2 Seg_ kfronteira de constituinte prosódico 102 Por conjunto de construções referimo-nos a construções idênticas como, por exemplo, “Alugue as casas”, “Amarre as cordas”, “Desligue as luzes” entre outras compostas por “verbo da primeira conjugação no modo imperativo (afirmativo) + artigo definido (plural ou singular)”.
61 Dado que a análise declarativa não considera a realização [], o segmento correspondente será a existência de uma não especificação em elementos, ou seja, . Assim, surgirão duas realizações possíveis (marcadas com os dois indíces distintos): 1a realização propriamente dita da vogal (V), definida, por exemplo, por (A, I) – [] – e que é parte do constituinte prosódico que se segue imediatamente ao constituninte prosódico que tem em fronteira ; 2a realização de uma glide adjacente à vogal que faz, neste caso, parte do mesmo constituinte prosódico.
62 Conclusão
63 Tal como havíamos referido no início do nosso estudo, entendemos que a nebulosa que envolve a noção de palavra, mais especificamente, a delimitação daquilo que é ou não uma palavra (tendo em conta as diferentes aceções que o vocábulo pode tomar) necessita, de acordo com a importância da mesma, de uma urgente clarificação. Tentámos ao longo do nosso estudo, tomando a análise de fenómenos que ocorrem em fronteira de palavra como um dos caminhos possíveis para o efeito, contribuir para a teorização que envolve a referida temática. Acreditamos ter desenvolvido alguns apontamentos sobre cada uma das temáticas pelo que deixamos, seguidamente, as principais ideias que abordámos e que consideramos ser necessário ressalvar. Quanto ao estudo que fizemos sobre a especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica, cremos ter apontado análises relevantes no estudo das delimitações de fronteira de palavra. O que acabámos de assegurar baseia-se nas seguintes ideias que pensamos ter deixado expostas: i-analisámos e explicámos as reestruturações internas que tomam lugar quando /S/ se encontra em final de palavra e é seguido de uma outra estrutura independente (e o que acontece especificamente a /S/ dependendo do contexto que encontra à sua direita); ii-avançámos com propostas de explicação para o surgimento de determinadas ocorrências e do não surgimento de outras, interrelacionando as ideias que adiantámos com pressupostos teóricos comummente aceites e legitimados; iii - acrescentámos ainda uma análise baseada nos pressupostos teóricos da fonologia declarativa que pretendeu, acima de tudo, em relação à especificação de /S/, atestar, embora segundo princípios bastante distintos da teoria generativa, a existência dos diferentes contextos de realização; iv-acreditamos que a certificação daquilo que sucede na especificação de vozeamento e ponto de articulação de /S/ em coda silábica sustenta a ideia de que, de facto, poderemos tomar as especificidades apresentadas como regra geral e, neste sentido, partir daqui para agrupar/prever parte das ocorrências registadas numa língua, no caso o português (europeu). Quanto à problemática da existência ou não da dicotomia velarização/desvelarização e das particularidades que podem ajudar a desvendar o referido problema – distintos contextos de ocorrência de [] e [] -, acreditamos ter contribuído para a defesa da teoria de que o que acontece, efetivamente, é a velarização em coda silábica. A velarização em coda pode associar-se não só ao final de sílaba, mas
64 também ao final de palavra fonológica e, neste sentido, funciona, em parte, como uma restrição. De ressalvar é ainda o estudo do fenómeno de ressilabificação nos casos relacionados com a velarização em coda. De facto, este processo, que tem o fenómeno de sândi como consequência, mostra-nos que as ocorrências que se registam podem ser enganadoras, no que à origem das estruturas diz respeito, revelando uma vez mais que, por vezes, aquilo que surge à superfície é resultado de processos internos mais complexos. Em oposição a estes apontamentos, eclode a opinião declarativa, que se baseia na transparência superficial e estuda os dois segmentos, [] e [], como realidades possíveis e legítimas da língua selecionadas de acordo com o contexto, isto é, se na língua se pretende preencher a posição de coda silábica não final o segmento escolhido é o [] e se, por outro lado se pretende preencher uma coda silábica final a escolha repartir-se-á tendo em conta a existência ou não de lugares vazios à direita: a existirem selecionar-se-á [], caso não existam selecionar-se-á []. Em relação à discussão que apresentámos sobre o apagamento ou iodização de [] em final de palavra morfológica, pensamos ter contribuído para a demonstração de que, de facto, e tal como foi já apresentado noutros estudos, a existência de um grupo superior à palavra é teoricamente licenciada, por exemplo, pela ocorrência de determinados fenómenos dependentes do constituinte em que estão inseridos os elementos em análise. Entendemos, numa perspetiva mais geral, que a nossa dissertação é apenas uma das partes que se enquadram nos estudos sobre as temáticas com as quais os conceitos de palavra, sílaba, fronteira de palavra, sândi estão relacionados. Estes estudos procuram, como já avançámos anteriormente, mais um pormenor, mais um elemento novo a considerar com o objetivo de se chegar um pouco mais perto de mais algumas generalizações capazes de explicar fenómenos com os quais nos deparamos ao olharmos a língua. A partir de análises como a que aqui deixámos poder-se-á partir para mais comprovações/contestações/reavaliações das teorias já apresentadas e das propostas mais recentes com um olhar mais amplo, observador e pormenorizado. Este tipo de estudo pode, para além da teorização envolvente e da possibilidade de surgimento de novas ideias intrinsecamente relacionadas com a área e o tema, despoletar ideias novas noutros campos de estudo. A questão da delimitação dos contextos de palavra poderá contribuir bastante em questões de, por exemplo, tradução automática. Ora se análises
65 como as que aqui foram feitas permitirem encontrar padrões regulares que possibilitem algum tipo de registo de frequência poder-se-ia apostar mais ainda na credibilidade das traduções computacionais. Se de alguma forma se interligassem os resultados das análises “tradicionais” com as normas de codificação declarativa, mais adaptadas à teoria computacional, poder-se-ia, quem sabe, atingir um novo nível de investigação. As aplicações em termos psicolinguísticos e de aquisição da linguagem fazem também, pelo facto de se associarem ao estudo mais interno e embrionário da linguagem, parte do conjunto de ramificações que podem irromper de estudos como o que aqui apresentámos.
66 Bibliografia
67 Abaurre, M. B.M. 2006. Fonologia e Fonética. In: Guimarães, Eduardo; Zoppi-Fontana, Mónica (orgs.) Introdução às Ciências da Linguagem – A Palavra e a Frase. Pontes Editores: Campinas, SP, 39-74 Anderson, J. M. 1969. Syllabic and non-syllabic phonology. Journal of Linguistics 5: 136-42 Anderson, S. R. 1985. Phonology in the Twentieth Century. University of Chicago Press Angoujard, J. 2006. Phonologie Déclarative. Paris: CNRS Editions Aronoff, M.; Janie Rees-Miller (org.) 2001. The Handbook of Linguistics Oxford: Blackwell Azuaga, L. 1996. Morfologia. In: I. H. Faria et al (org.). Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 215-244 Barbosa, J. M. 1994. Introdução ao Estudo da Fonologia e Morfologia do Português. Coimbra: Almedina. Barros, J. de 1540. Grammatica da língua portuguesa com os mandamentos da santa madre igreja. Lisboa: Luís Rodrigues Bird, S.; Coleman, J.; Pierrehumbert, J.; Scobbie J. 1992. Declarative Phonology. Proceedings of the XVTH International Congress of Linguistics. Université Laval, Québec Bisol, L. 1996. O Sândi e a Ressilabação. Letras de Hoje. Porto Alegre: EDIPUCRS, v.31, n.2, 159-168 Bisol, L. 2000. A elisão, uma regra variável. Letras de Hoje. Porto Alegre: EDIPUCRS v.35, n1, 319-330 Bisol, L. 2002. Sândi externo: o processo e a variação. In: Kato, Mary (org.) Gramática do Português Falado. Campinas, UNICAMP, v.5, 55-96 Bisol, L. 2004. Mattoso Câmara Jr e A palavra prosódica. DELTA. São Paulo: PUC-SP, n.20 ESPECIAL, 59-70, Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/delta/v20nspe/24261.pdf (Acedido em 22.02.2012) Bisol, L. 2005. Fonologia Lexical In: Bisol, Leda (org.). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. EDIPUCRS, 83-100 Bisol, L. (org.) 2005. Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. EDIPUCRS