Ser contemporâneo, sobrevivendo às classificações do pensamento sociológico
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SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO Augusto Santos Silva FEP, ISUP, Porto, Portugal Resumo O pensamento sociológico é muito influenciado por classificações de natureza dicotómica. Uma, especialmente influente, é a que se organiza em torno da categoria de modernidade, e que opõe quer moderno a pré-moderno, quer pós-moderno a moderno. Mas o que queremos dizer quando usamos estas categorias e fazemos este tipo de oposições binárias? Elas ainda fazem sentido hoje, para a teoria sociológica? Elas só podem ser empregues em dicotomias, ou há formas alternativas e mais produtivas? Este artigo procura responder a estas questões. Primeiro, mostra a enorme influência cultural e teórica da ideia de modernidade e das categorias que dela decorrem. Depois, que estas categorias devem ser consideradas na sua tensão relativa: ainda somos modernos e já não somos só modernos. Em seguida, que a redução dessa tensão à forma de uma dicotomia empobrece e enviesa a explicação sociológica. Finalmente, o artigo sugere um posicionamento ao mesmo tempo mais modesto e mais aberto, em matéria epistemológica: definirmo-nos apenas como contemporâneos, isto é membros da nossa circunstância, mas capazes de mobilizar todas as possibilidades que ela nos confere. Palavras-chave modernidade, conhecimento em rede. Abstract Sociological thinking is strongly influenced by dichotomous classifications. Especially influential is the one organised around the category ‘modernity’, opposing modern to pre-modern on the one hand and to post-modern on the other. Just what is it that we want to say when we use these categories and establish this kind of binary opposition? Do they still make sense in today’s sociological theory? Can they only be used in the shape of dichotomies, or are there other, more productive ways? This article seeks to answer these questions. It begins by demonstrating the huge cultural and theoretical influence of both the idea of modernity and the categories derived therefrom. It then shows how one should look at these categories in the light of the tension between them: we are still modern, and yet we are not just modern; before going on to say that reducing this tension to a simple dichotomy impoverishes and slants its sociological explanation. Finally, the article suggests a positioning that is simultaneously more modest and more open in epistemological terms: that we should simply define ourselves as contemporaneous – i.e. that we are part of our circumstances, but capable of mobilising all the possibilities they give us. Keywords modernity, networked knowledge. Résumé La pensée sociologique est très influencée par des classifications de nature dichotomique. Une classification particulièrement influente est celle qui s'organise autour de la catégorie de modernité et qui oppose aussi bien le moderne au pré-moderne, que le post-moderne au moderne. Mais que voulons-nous dire en utilisant ces catégories et en faisant ce genre d'oppositions binaires? Ont-elles encore aujourd'hui un sens pour la théorie sociologique? Peuvent-elles uniquement être employées dans des dichotomies ou bien y a-t-il des formes SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
alternatives et plus productives? Cet article cherche à répondre à ces questions. Il montre tout d'abord l'énorme influence culturelle et théorique de l'idée de modernité et des catégories qui en découlent, puis que ces catégories doivent être considérées dans leur tension relative : nous sommes encore modernes et nous ne sommes plus seulement modernes. Ensuite, que la réduction de cette tension à la forme d'une dichotomie appauvrit et biaise l'explication sociologique. L'article suggère enfin un positionnement à la fois plus modeste et plus ouvert sur le plan épistémologique : nous définir uniquement comme contemporains, c'est-à-dire membres de notre circonstance, mais capables de mobiliser toutes les possibilités qu'elle nous confère. Mots-clés modernité, connaissance en réseau. Resumen El pensamiento sociológico está muy influenciado por clasificaciones de naturaleza dicotómica. Una especialmente influyente es la que se organiza en torno de la categoría de modernidad, y que contrapone tanto lo moderno a lo pre-moderno, como lo pos-moderno a lo moderno. ¿Pero, qué se quiere decir cuando usamos estas categorías y hacemos este tipo de oposiciones binarias? ¿Ellas todavía tienen sentido hoy, para la teoría sociológica? ¿Ellas sólo pueden ser utilizadas en dicotomías, o hay formas alternativas y más productivas? Este artículo procura responder a estas cuestiones. Primero, muestra la enorme influencia cultural y teórica de la idea de modernidad y de las categorías que de ella devienen. Después, que estas categorías deben ser consideradas en su tensión relativa: aún somos modernos y ya no somos solamente modernos. A continuación, que la reducción de esa tensión a una dicotomía empobrece y distorsiona la explicación sociológica. Finalmente, el artículo sugiere un posicionamiento al mismo tiempo más modesto y más abierto, en materia epistemológica: definirnos apenas como contemporáneos, es decir como miembros de nuestra circunstancia, aunque capaces de movilizar todas las posibilidades que ella nos otorga. Palabras-clave modernidad, conocimiento en red. O problema, não a querela Asquerelasterminológicassãofúteis.Refletindosobreapertinênciaeutilidadede algumas das mais fortes categorizações do pensamento sociológico — aquelas que se estruturam em torno da contraposição entre “moderno” e “não moderno” — quero,nãoprolongar,massairdetaisquerelas.Acondiçãodesaídaéprecisamente escrutinar as categorizações.1 Osnomesvalemmuito,dãoidentidade àscoisas.Evalemaindamaisos nomes quedesignampontosdevista,ouportasdeentradanaobservaçãointerpretativados processos sociais, para todos quantos renunciarem ao conforto das epistemologias “fundacionistas” (a palavra pertence a Clifford Geertz, 1984: 273). 10 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482 1 Otextodesenvolvea conferênciaproferida noquadro doprograma dedoutoramento emsociologiadoISCTE-IUL,noanoletivode2013-2014.Agradeçooconvitedadireçãodoprogramaeos comentários dos seus participantes.
É certo que estas epistemologias são boas redutoras de complexidade. Fazem-no por duas vias fundamentais, que podem ser percorridas complementarmente.Aprimeiraé da ordem dotempo, a segunda sugere-nosuma representação noespaço.Aquelaexplica diacronicamente osfactos,numasequencialidadelinear que encadeia uns nos outros a título de origens e consequências, causas e efeitos, condições e desenvolvimentos. É a flecha do tempo que torna inteligível o curso dascoisas. Já a segunda viaasprojeta como partes de umedifício, ou componentes de um sistema, isto é, como elementos de um conjunto no qual seja possível distinguir o que está em cima e o que está em baixo, o que está no centro e o que está nos lados, dispondo-os por camadas ou em blocos, cada um dos quais se explica pelo jogo de forças com os demais. Linear ou estratigráfico, o modelo de explicação fundacionista supõe sempre odesenhodegrandeseixosdedeterminação.Muitasvezes,nasuaaplicação,oeixo temporal mostra determinações de superfície, a que o eixo estratigráfico vem depois conferir a espessura das determinações de profundidade, desvendando “causas primeiras”, “últimas instâncias” ou “configurações sistémicas”. E assim se procura ancorar a interpretação social na lógica de um qualquer fator essencial, seja ele a Razão ou a Troca, os Meios de Produção ou a Estrutura Social, a Matéria ouaEnergia,a CulturaouoSímbolo(usonovamentepalavras emaiúsculasdeGeertz, 1984, a que acrescento outras). Mascomopostularumarelaçãolineareunidirecionalqueorganizecadatotalidade social sem comprometer a apreensão da sua complexidade, abertura e dinamismo? E como distinguir de modo apriorístico ou simplesmente formal o princípio e o fim, a origem e a consequência, a estrutura e o estruturado senão por crença, anterior e transcendente ao trabalho específico de conhecer e compreender realidades múltiplas e, uma a uma, singulares? Não implicará, ao contrário, este trabalho uma abordagem intelectual bem mais modesta na ambição esquemática, mas menos esquecida das interdependências? Nessa abordagem, as realidades serão apercebidas, não como encadeamentos sequenciais ou camadas sobrepostas, antes como redes; ou, dito mais rigorosamente, as sequências e camadas tomarão lugar dentro de redes, isto é, de configurações complexas, abertas e dinâmicas, cujas lógicas de estruturação e desenvolvimentohãodesermatériadeinvestigaçãoempíricaenãodepressuposição abstrata e geral (não repetirei aqui o argumento de Silva, 1994: 47-51). Ressalvadas as devidas proporções, o que Italo Calvino (2002 [1990]: 89) disse da sua criação literária—eapropósito de As Cidades Invisíveis — poderíamos dizer muitos de nós, que recusamos as epistemologias fundacionistas, da nossa pesquisa: “construí uma estrutura multifacetada em que cada texto está próximo dos outros numa sucessão que não implica uma consequencialidade ou uma hierarquia, mas sim uma rededentrodaqualsepoderãotraçarmúltiplospercursoseextrairconclusõesplurais e ramificadas”. O modelo da rede melhora a nossa capacidade para ler o real na multilinearidade,mutabilidade e incompletude(mais talvezdoque infinitude) queo constituem; ao passo que a busca ansiosa de determinações macro ou últimas empobrece a compreensão do mundo. Mas, então, a explicação é coextensiva da descoberta, o SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 11 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
modo como vamos dando conta dos processos sociais está intimamente associado ao percurso que fazemos de observação e análise. Conhecer em rede é conhecer a partir de certos ângulos e pontos de entrada no que começa por ser um emaranhadoderelaçõesdeinterdependência.Cadainterpretaçãoécontingenteàperspetiva escolhida.Oquesignificaquesóavariaçãodasperspetivas,asondagemapartirde diferentespontosdeentrada,a pluralidade das interpretações (cada uma legítima, cada uma, em si mesma, parcelar e incompleta) é que enriquecem o conhecimento. Fora da sombra plácida das Grandes Causas, desenvolvemos abordagens intelectuais tentativas e contingentes: em aproximações sucessivas a realidades que são sempre mais compósitas do que as interpretações, inexauríveis por elas, irredutíveis a qualquer esquematização. A quem isto parecer demasiado fora de pé, só me restareplicaroconselho deCliffordGeertz(1984:276):“se queríamosverdadescaseiras, deveríamos ter ficado em casa”. Definiroângulo de observaçãodo real, está,pois,muitolonge de ser um problema de moda, filiação em escola, ou mera terminologia. É marcar uma perspetiva, logo uma representação. A questão não é se podemos não escolher, mas como havemos de escolher. A ciência social oitocentista e de grande parte de Novecentos sempre escolheu. Mas de um modo tão paradigmático que era quase naturalizado. Ciências do seutempo,a economia e a sociologia perfilhavamopontodevistadoseu tempo — europeu, ocidental, secular, nos termos de então “industrioso”. Como a economia era o estudo racional do comportamento racional de produtores e consumidores, assim a sociologia era a ciência moderna de análise das sociedades modernas. Mas o que é ser moderno? Como podemos entender e praticar a sociologia sem nos interrogarmos criticamente sobre a modernidade e (como escreveria Fernando Pessoa) o nosso ser moderno nela? Acresce que recusar o fundacionismo não é renunciar à explicação holística — e já ficam assim o leitor e a leitora prevenidos de que o caso não se vai resolver comnenhumamezinhapós-moderna.É,sim,procurartornarmaisadequadaeútil a explicação holística, preocupada com as configurações estruturais dos factos e sistemas que considera. Quanto menos essencialista e fechada ela for, mais produtivaserá(adotoeadaptoostermos,muitoimportantesnestaquestãoabsolutamente decisiva, de Mouzelis, 2008: 221-224). Explorando um todo sempre a partir de uma sua parte, não queremos circunscrever-nos à parte, tomando-a explícita ou implicitamente pelo todo. Queremos compreender o todo inquirindo a partir de diferentes partes (e cada parte como o todo que em si mesma é); queremos compreender por via da interpretação singular da singularidade de cada todo, e não por imputação apriorística de uma hierarquia ou encadeamento universal. Deixemos, portanto, os emblemas, mas não fujamos aos problemas. O que é ser moderno,emsociologia?Oqueéecomoévistoonãomodernoquesermodernopressupõe? E há alternativa a ser moderno? A nossa entrada analítica nos processos e estruturassociaisbeneficiaemalgumamedidacomesteououtrotipodecategorização? Já estamos fora de casa. Quem quisesse verdades caseiras não devia prosseguir viagem. 12 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
Todos somos (de alguma forma) modernos Porqueéquesentimos(quasetodosnós,os cientistas sociais, e muito especialmenteosquesededicamàsociologia)necessidadedeequacionarasclassificaçõesgeradas a partir da ideia de modernidade? Porque somos modernos. Eis a matriz. O sistema de conhecimento que cultivamos é originariamente devedor da transformação datável, no quadro europeu (insisto,europeu), do século XVII. Arevoluçãocientífica estabeleceu o grandeprograma intelectual a que ainda (para segui-lo ou criticá-lo) nos referimos: a aplicaçãodarazãoatodososdomínioshumanoseasuaemancipação,paraesseefeito,de determinações extrínsecas (de ordem política, religiosa e moral); as regras da observação e da prova e a dúvida metódica praticada individual e coletivamente; a ambiçãoexplicativa;a ligaçãodoconhecimentoaocontrolo danaturezaeàorganização da sociedade. Depois, enquanto sociólogos ou economistas, seguimos disciplinas forjadas para a análise e interpretação das sociedades ditas modernas, isto é, que de algum modo alargaram e institucionalizaram o equivalente de tal programa no desenho de Estados, administrações, mercados, locais de trabalho, comunidades, e na influência sobre os comportamentos e as interações. “Amodernidade é em si mesma profunda e intrinsecamente sociológica”, escreveu Anthony Giddens (1990: 43), parecendo-me exprimir bem o elo entre, digamos, o quadro cognitivo e o ordenamento social que se foram consolidando e impondo na Europa e no Ocidente dos séculos XVIII, XIX e XX. Claro que as e os colegas que pesquisam outros contextos enfatizam, por exemplo, a espantosa modernidade do conhecimento árabe do tempo correspondente ao que a taxonomia historiográfica chamou a Idade Média. Com toda a razão. Porém, a própria enunciação — “a modernidade” — revela a força categorial das representações que fomos construindo, nós os herdeiros da revolução científica seiscentista e do campo cultural oitocentista. Quando,em1863, um dos primeiros construtoresdaautonomia do campo cultural(sigo, claro, Bourdieu, 1996 [1992]: 67-138), o poeta Charles Baudelaire, usou a palavra modernité para designar a ideia que queria defender, não associou apenas uma e outra, ideia e palavra, à reorientação da criação para o presente. Fê-lo, decerto, e crucialmente: como apologia da atitude criativa que bebia inspiração na efervescência da “vida moderna”, quer dizer, coeva, e procurava exprimir o seu sentido e explorar o seu potencial poético, em vez de continuar aprisionada no cânon convencional, académico e clássico (Baudelaire, 1986 [1863]).Mas referia-se também à diferença que essaefervescênciamarcariaface ao passado (com a cidade, a multidão, a moda, os novos tipos e encontros sociais, no inventário baudelairiano) e faria do moderno outra coisa que não apenas a circunstância presente, ou forma transitória, de uma história no seu “caráter” essencial eterna. Assim, “moderno” não conota apenas proximidade (moderno porque nosso próximo, por contraste com antigo, porque transato). Igualmente importante é o conteúdo semântico de descontinuidade: a diferença deste próximo face a outros, SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 13 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
duplamenteafastados—longínquosediversos.Opontoestáemqueahistórianão sefazapenas incrementalmente,porgradualcomplexificação doquecomeçoupor sersimples e gradual diferenciação do que começou por ser sincrético, como ainda hoje creem certas variantes do evolucionismo; também opera por ruturas. Uma conceção descontinuísta da história precisou e precisa de usar categorias, como a de modernidade, que acentuem as quebras, evidenciando a natureza global das transformações. Assumo a lição de Giddens (1990). Não porque possa subscrever, duas décadas depois, a leitura eurocêntrica das “dimensões (institucionais) da modernidade” (o Estado, a administração, o industrialismo, o capitalismo); mas sim porque ele mostra bem a matriz generativa da modernidade. O primeiro vetor é a aceleração (do ritmo) e o alargamento (do escopo) das mudançassociais.Nãohásociedades (as que seriam não modernas) “paradas”: todas,mesmoas mais elementares, são realidadesdinâmicas. Avelocidade e o âmbito da mudança é que são qualitativamente diferentes—eamudança é concebida e apropriada, pelos atores, as instituições e os valores modernos, não como uma ameaça e sim como um fator de ordenamento e desenvolvimento social. O segundo vetor é a “distanciação”, como escreve Giddens, da ação social ao longo do espaço-tempo—eocorrelativo “desencaixe” dos sistemas sociais face aos contextos particulares. Este, por assim dizer, alongamento das estruturas sociaisimplicaaseparaçãodotempodo espaço, o incremento dos meios de simbolizaçãoe comunicação (das línguas à moeda) e a expansão dos sistemas de consolidação da confiança e da previsibilidade (do direito dos contratos às tecnologias, da disciplina ao profissionalismo). Mais uma vez, não se trata de dizer que estas sejam criações da modernidade (europeia); mas que foi ela que as articulou sistemicamente. Oterceirovetoréainstitucionalizaçãodareflexividade.Claroquetodaaação éreflexiva;todavia,aopassoque“atradição[era]ummododeintegraçãodaorientação reflexiva da ação na organização espácio-temporal da comunidade” (Giddens, 1990: 37), a modernidade institucionaliza uma reflexividade de segundo grau, nomeadamente no conhecimento científico e na tecnologia. Porconseguinte,oimpactodadialéticaentreomodernoeosseuscontrários no discurso sociológico não é apenas o efeito da hegemonia de uma representaçãointelectual.Claro quebastameditarumpouco nofactodealinguagem dacrítica ao moderno se fazer nos seus próprios termos (porque ao dizer que somos pós-modernos ou antimodernos, ainda estamos a designar-nos como modernos…) para perceber o efeito. Mas ele não é tudo. Somos, em cada momento, modernos, porque precisamos de exprimir uma proximidade (nomeando aquilo a que julgamos pertencer) e uma descontinuidade (separando-nos de outros universos de pensamento e ação). Neste plano, a ideia de modernidade pode ser formulada como um conceito — e bastante útil. Desde logo, está bem para lá das cronologias primárias, tão devedoras de conceções eurocêntricas e teleológicas da história. A sua definição sociológica já não se refere à sucessão de acontecimentos-clímax em que se havia baseado a 14 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
classificaçãooitocentista:aQuedadeRomaem476,aQuedadeConstantinoplaem 1453, a Tomada da Bastilha em 1789. E prevê várias modalidades de inscrição no espaço e no tempo: a modernidade pode ser balizada geográfica e historicamente deumaformaparaaEuropaeaAméricadoNorte,de outraparaa AméricaLatina, de outra para o Sudeste Asiático, e assim sucessivamente. O que significa — segundo aspeto a reter — que a concetualização da modernidade pode e deve escapar à imagem originária que a restringiu à Europa dos três ou quatro últimos séculos. Não é único o caminho para a modernidade, neméúnica a modernidade como destino oumarco.Asmodernidades são múltiplas(Eisenstadt,2001[2000]),distintasumasdasoutras,sendoamodernidade europeiaocidentalumentre casos; e, emsimesmos,sãosingularescadaprocesso de modernização e cada modernidade. Várias são as tipificações propostas, como a já resumida de Giddens, ou a de Eisenstadt (acentuando o “programa cultural e político” de autonomia e emancipação humana face à autoridade tradicional, domínio da natureza e reconstrução da sociedade, assim como as dimensões legais, administrativas e institucionais ligadas ao Estado-nação), ou a deMouzelis(definindoumconceito“nãoeurocêntrico”queassinalaasdinâmicasdemobilização e incorporação das populaçõesnocentro societal e, quanto à dimensão de integração sistémica, as dinâmicas de diferenciação institucional, cf. Mouzelis, 2008: 145-163) — para não recuar até às grandes interpretações da modernização construídas por Marx, Durkheim, Weber e Parsons. Não obstante, é possível elaborar um conceito sociológico de modernidade suficientemente geral para dar conta da diversidade das configurações concretas e suficientementeplástico para estabelecer,embases não eurocêntricas, oseu denominador comum. Assimsepreservaumacertaaberturateóricaefilosófica.Unsdistinguemprimeira e segunda modernidade, modernidade industrial e modernidade reflexiva; outros falam de modernidade tardia ou hipermodernidade para qualificar os desenvolvimentos mais recentes. Como Jeffrey Alexander sugeriu, num texto apropriadamente intitulado “Modern, anti, post and neo: how intellectuals explain ‘our time’” (Alexander, 2003: 193-228), as classificações não são apenas da ordem da epistemologia, mas também da ordem da escatologia, projetando visões e preferências de futuro. Ora, o mínimo que se pode dizer é que esse polvo de múltiplos braços a que nós vamos chamando “o moderno” se tem revelado ágil a sobreviver em vários e dissemelhantes habitats. Já não somos (só) modernos No texto em que recorre à palavra modernité, Charles Baudelaire (1986 [1863]: 11)escreveque, sendoesta a imersão na“vida presente” em vez do refúgio em arquétipos passados, de modo a retirar um novo sentido artístico da efervescênciadopresente(vivo,multitudinário,fugaz),étambém“otransitório,ofugidio, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável”. SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 15 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
Esta ideia de “metade” — abertura e incompletude, logo dinamismo — tambéméconsubstancialàmodernidadecomo“programaculturalepolítico”.2Por várias razões. A“emancipação” da razão humana (face aos artigos de fé, convenção e costume) e a secularização da ordem social implicam necessariamente a admissão e (nas melhores tradições liberais) a celebração do dissenso e do debate. Ainstitucionalização da reflexividade (de uma reflexividade de segundo grau) comporta necessariamenteada sua dimensãocrítica(asujeição dos enunciadosàprovaeaos argumentoscruzados).Estadimensãoéumacondiçãoessencialparaodesenvolvimento das formas seculares de regulação, desde os contratos voluntários até aos sistemas periciais. E enfim, como bem mostrou Pierre Bourdieu em As Regras da Arte, o eixo do programa moderno de definição de um campo cultural autónomo é a “institucionalização da anomia”, opondo à regra dogmática gerada e aplicada por uma autoridade académica central a pluralidade dos critérios e agentes de apreciação e valoração (Bourdieu, 1996 [1992]: 89). A modernidade não é pois, apenas, na fórmula baudelairiana, “metade da arte”, requerendo para ser plena a dialética com o que classicamente permanece; é ainda inerentemente crítica, pluralmente crítica, não só das convenções a que se opõe como de si própria. Heterogeneidade e confronto crítico marcam, portanto, o quadro moderno de representações, interpretações e ações no mundo. Os seus operadores intelectuais fundamentais alimentam a diversidade e a conflitualidade: várias modernidades que se desafiam, várias declinações do que é ser moderno e das suas consequências. Adistinção entre o individualismo cultural radical e o liberalismo económico, em que Daniel Bell (1977 [1976]: 45-89) identificou uma “contradição cultural do capitalismo”, é apenas uma entre várias. E o que é próprio da modernidade é recusar outra forma que não a imanente de regular essas tensões: pela comunicação argumentativa, pela troca mercantil, pelo contrato civil e social, pela representação parlamentar e o sufrágio, pelo escrutínio técnico e pericial, pela dialética das inovações e dos desafios — mas não pela evacuação por assim dizer administrativa da diversidade, submetida a uma ordem transcendente ou a uma hierocracia indisputável. Não se pode fazer a história ou a sociologia da modernidade sem ter em conta esta natureza multíplice e pluriforme. Vários programas modernos conflituam entre si: este é o panorama, olhemos do ângulo das artes, das ideologias, das religiões (e das “religiões seculares”), ou das ciências e humanidades. O “sistema” da modernidade comoumtodo(ouseja,oquadrocomumemqueaconflitualidadeocorre,seexprimee desenrola)vivetipicamente da confrontação entreprogramas, que se interpelam também na base de que uns são novos e outros antigos, uns heterodoxos e outros ortodoxos, uns orientados para o futuro e outros já tradicionalizados. É esta funcionalidade autopoiética que torna produtiva, ao olhar moderno, a “anomia”. 16 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482 2 Recorro à expressão de Samuel Eisenstadt, mas previno contra a sua reificação. O “programa” moderno não pode ser tratado como um sujeito histórico; é o que um anglófono designaria como framework, um quadro operatório que moldará vários sujeitos e várias ideias de sujeitos (por exemplo, o liberalismo e o socialismo, o secularismo e os neotradicionalismos, etc.).
Assim, a história social da modernidade é a história da recorrente crítica moderna damodernidade. Baste notar comoa economia marxista dialogoutensamente com a clássica e liberal; como as escolas compreensivas disputaram o terreno do positivismo; como as doutrinas socialistas desafiaram as bases censitárias e os princípios atomísticos do Estado liberal; como o pensamento de Walter Benjamin estabeleceu um claro contraste com o ascetismo adorniano; ou como, no imediato Pós-II Guerra, às teorias da modernização em via única (de um Rostow) logo se contrapuseram as teorias do desenvolvimento. Os exemplos poderiam ser multiplicados,nãosó nocampodopensamentoeda ciênciasocial,comonaesfera criativa ou na dimensão ideológica. Ao contrário do que as representações primárias da modernidade ditas anti ou pós-modernas, mas sempre caricaturais, querem fazer crer, ela foi um espaço plural e conflitual, esse sendo um fator fundamental da sua consolidação e hegemonia. Mais uma vez nos deparamos, pois, com uma matriz que não vale a pena denegar: por via dela, todos somos modernos, e somo-lo específica e enfaticamente quando somos críticos. Contudo,fazendousodeatitudesecategoriastipicamentemodernas,eporaí fortalecendo a razão moderna como razão crítica, o escrutínio e a interpelação foram colocando em causa, uma e outra vez, os alicerces mesmos da modernidade. Alternativa ou complementarmente, foram assinalando a sua exaustão e a sua violência. No primeiro caso, diagnosticando “contradições”, “incompletudes” ou “fragilidades”doseuprograma;nosegundocaso,eaindamais perturbadoramente, associando-lhe lógicas de controlo e dominação antagónicas dos princípios e compromissos racionais e humanistas de que havia feito bandeira. Numa das versões mais benevolentes, a de Karl Marx, a modernidade burguesa e capitalista estaria condenada, pelo desenvolvimento das forças históricas que libertava, ao esgotamento e ultrapassagem por outro tipo de ordem, moderna certamente,masradicalmentediversadaquehegemonizavaaEuropa e a sua colonização do mundo. Interpelações mais fortes e fundas identificarão uma contradição básica entre os chamados pilares modernos da emancipação e da regulação, denunciando a crescente subsunção daquele neste. De tal forma que romper com tal subsunção implicará ou a “radicalização da modernidade” (Giddens, 1990: 150), ou uma nova integração republicana universalista (Habermas, 1998 [1996]), ou a opção por “uma outra via da modernidade”, propriamente reflexiva (Beck, 2006 [1986]: 22), ou a escolha de uma orientação essencialmente diversa, numa pós-modernidadederesistênciaecrítica(Santos,1994:69-101).Eaindamaisfortee mais funda é a interpretação dos processos aparentemente não modernos da dita Idade Contemporânea como o desenvolvimento da própria modernidade. Semesqueceroutrasdemonstraçõesimportantíssimas—sejanoque respeita à formação do totalitarismo (por Hannah Arendt), seja no que toca às técnicas jurídicas, administrativas e práticas de disciplinação e biopolítica (por Michel Foucault),sejanoqueconcerneaotaylorismoindustrial(pelageneralidadedossociólogos das organizações) — importa ter em conta pelo menos as três abordagens seguintes. Uma é a caraterização, que devemos a Ulrich Beck, da sociedade moderna comosociedadede risco.Asociedadederiscoéumdesenvolvimentodasociedade SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 17 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
estrutural e do contingente e do macro e do micro que faz e muda as realidades sociais. Quer, em suma, constituir um inquérito racional mais denso e chegar a uma explicação mais ampla, menos esquemática, mais rica. Tal como está longe das grandes classificações formais, está também longe da renúncia, que muitos designamcomopós-moderna,aqualquerambiçãoexplicativaeaqualqueresforço intelectual de abstração e generalização, de interpretação holística dos processos sociais. Poderíamos, pois, dizer: nem inteiramente modernos — isto é, subordinados aoparadigmadasciênciasditaspositivasdeOitocentos,quetantosedemorou,em algumas ciências sociais, ao longo de todo o século XX — nem complacentemente pós-modernos — isto é, refugiados na narrativa e na descrição, por mais vívidas, dos factos, ou mesmo circunscritos a um discurso circular a seu pretexto; mas situando-nos bem para lá dessoutra dicotomia entre modelos de conhecimento que, fazendocristalizarostermosqueclassifica,adormeceemvezdeagitaranossainteligência. Aliás, porque não aplicar à luta de definição e (des)classificação entre modernidade e pós-modernismo o que Clifford Geertz (1984: 263) escreveu a propósito da contenda entre relativistas e antirrelativistas — que foi “uma batalha de ontem”, e os gritos de mobilização que nela fizeram sentido com ela passaram? Significa isto a irrelevância, para o nosso tempo, da constelação de categorias queseforamforjandonaestruturaculturalmodernaeapartirdaideiademodernidade? Que devemos passar uma esponja sobre as relações de articulação e tensão entre elas, que foram tão marcantes para o pensamento sociológico? Que as arrumemos no capítulo próprio da história social e intelectual da nossa disciplina? Não,porcerto.Porumlado,issoseriareproduzirpornossacontaamesmíssimalógicadeclassificaçãocategóricaedicotómicaqueacabávamosdecontestar,seriacometeromesmoerro,tãobemsintetizadoporT.Brook:“aosepararomoderno do pré-moderno, a história moderna desacreditou o pré-moderno como fonte de valorousentidocontemporâneo”(citadoporGoody,2012[2006]:129).E,poroutro lado, seria desistir da compreensão dos fundamentos e encruzilhadas da nossa própria estrutura cultural. Aquestão não é, insisto, dispensar as categorias — seria um absurdo lógico. A questão é usá-las como ferramentas, não como rótulos; servir-nos delas como de chaves que abrem portas, havendo de combinar várias para poder abrir as múltiplas portas de entrada na enorme diversidade dos processos sociais. A questão é valorizarascategoriasmaiscomoinstrumentosdecompreensãodoquedeclassificação; dispô-las em redes mais do que em oposições polares. Dispostas em oposições disjuntivas, as categorias da modernidade excluem-se: moderno é o que não é tradicional, e tradicional não é moderno; moderno contrapõe-se a antigo, e antigo não pode ser moderno; moderno distingue-se de clássico, e ou se é clássico ou moderno; e depois pós-moderno opõe-se a moderno, ou opõem-se entre si as várias “qualidades” ou tempos de modernidade, e por aí sucessivamente. Muros que dividem, arrumam, assinalam propriedades e dissuadem intrusos. Mas, colocadas em grelhas, em tabelas de variáveis linhas e colunas, colocadasem redes atravessáveisporvários caminhos, as categoriassãoformas de pensar,nomearecomunicarascoisasedeestruturaronossopensamentoacercaea 24 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 75, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
partir delas; e as classificações a que procedem, não constituindo produtos finais, são todavia recursos úteis. Moderno contrapõe-se a tradicional, seguramente: quando conota uma descontinuidade num percurso histórico e num padrão de relações (numa ordem social, em sentido analítico). Mas as tradições, enquanto padrões de identidade e ação que se formam, consolidam e transmitem, são geradas quer por sociedades simplesquer por sociedades complexas, quer por “comunidades”quer por “sociedades”,querpelo“pré-moderno”querpelo“hipermoderno”.E,semodernoconota o dinâmico, o que se move, o que muda, o que se transforma, então são bem modernas muitas tradições de tempos ou espaços anteriores ou exteriores ao que a classificação evolucionista descreve como modernidade: as tradições das sociedadessemescrita,oudassociedadesrurais, oudeenclaveseperiferias.Combinações de modernidade e tradição, irredutíveis a dicotomias básicas e absolutas. Modernocontrapõe-seaantigo,comoaovelhosecontrapõeonovoe o próximo ao distante. Porém, se moderno conota e bem o que julgamos mais novo, mais recente e próximo de nós, então o que é moderno agora será antigo num futuro maisoumenosimediato (o “paradoxo”assinaladoporJauss,1994[1978]:158-209). Essacaraterizaçãoapenasdesigna,pois,oprovisórioe“fugidio”decadamomento (voltamosaBaudelaire):é umnomerelativoe,por issonãopodefundar,ao contrário do que postulam as habituais teorias da modernização, nada mais do que o relativo. Por seu lado, é também moderno o que há de próximo, intelectual ou materialmente próximo de nós, em contextos às vezes cronologicamente distantes em milénios — por exemplo, o que está próximo de nós na Grécia Clássica ou as descobertasquevamosfazendodeelementosqueestãooudeviamestarpróximosde nós (o que quer dizer, nós deles) nas grandes civilizações antigas do Oriente e do Sul. Logo, podemos e devemos salientar a por vezes espantosa modernidade de muito o que, por outro critério, bem designaremos como antigo. Moderno contra antigo, sim: mas um moderno que se tornará antigo, e um antigo com tanto de moderno… Modernocontrapõe-sea clássico.Mas,seofaz comoavariedadeeavariabilidade se opõem ao que perdura, então clássicas são todas as obras criadas pela ação humana que passam o teste do tempo, incluindo as obras da modernidade. E porque passam esse teste senão porque nenhum uso particular delas é capaz de exauri-las; porque se pode generalizar a mais domínios o que Italo Calvino escreveu a propósito da literatura: “um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”, “uma obra que provoca incessantemente uma vaga de discursos sobresi,masquecontinuamenteselivradeles”(Calvino,1994[1991]:9,10)?3Ouseja: porquecontinuam modernas para lá da modernidade imediata do seu tempo, permanecem nossas contemporâneas para lá da sua contemporaneidade originária, circunstancial e já passada. SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 25 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482 3 Ou, noutro registo, o célebre dito que as coleções de ditos atribuem a André Malraux: “A Gioconda sorri porque todos os que lhe puseram bigodes estão mortos”.
Porém, se clássico é o moderno de amanhã, sobrevivendo ao moderno de hoje, clássico é também o padrão de aferição do moderno — e isso inverte a ideia moderna do progresso, já que sugere que o futuro e a orientação linear para o tempofuturonãoéocritérioúnicoounecessáriodevalor.Prezardestemodooclássico é introduzir um ponto de consciência crítica muito importante para a nossa estrutura cultural de cunho mais tecnológico e lúdico que humanístico: como diz George Steiner (1992 [1971]: 136-137), é ter bem viva a ideia de que o tempo—eoseu teste — não é necessariamente comandado pelo futuro. E, finalmente, o que é verdadeiramente o clássico senão aquilo que cada presente e a sucessão dos presentes — isto é, dos modernos — convenciona tratar como tal, dedicando-lhe, na frase irónica e certeira do misterioso Borges (1983 [1968]: 234-235), uma “misteriosa lealdade”? Tradicional, antigo, clássico, moderno — ou modernista, ou modernidade? O certo é que a exploração das múltiplas relações entre categorias que só se compreendem plenamente em tensão umas com as outras é bem mais promissora do queosimpleselencoemgrandes divisõesbinárias,comoasdicotomiasesquemáticas entre moderno e pré-moderno e entre pós-moderno e moderno. O que Simmel (1993[1909])disseacercadaaçãohumana—queligaoqueestáseparadoeseparao que está unido, que estabelece portas e constrói pontes — deve aplicar-se, por maioria de razão, à sua estrutura cultural. Nesta, o que se contrapõe não se contrapõe necessariamente aos pares, mas em configurações variadas (e aqui me afasto das análises de Alexander, 2003); e contrapor-se não é simplesmente dividir-se. Depois, acresce que cada estrutura cultural comporta múltiplas dimensões, não podendo a interpretação ignorá-lo. Portanto: não podemos ficar pelas dicotomias esquemáticas porque elas reduzem a complexidade pluridimensional de qualquer estrutura cultural e paradigmática a uma só dimensão; e porque elas reduzemacomplexidaderelacionalentreascategoriasaumasóforma,e amaisfrustre: a divisão binária. Quemfrequentar regularmente aliteratura há decertamente notar quãopróximo me encontro, neste ponto, da epistemologia associada a algum do grande romance novecentista, aquele que Calvino (2002 [1990]: 42, 127-128, 145) disse ser uma “procura de conhecimento”, um “método de conhecimento”, uma “rede de conexões entre os factos, as pessoas e os mundos”, “uma grande rede”. “Hoje em dia—continuaCalvino(2002[1990]:138,137)—jánãosepodepensarnumatotalidade que não seja potencial, conjetural e multíplice”; e, portanto, o conhecimento dela deve ser ele próprio concebido “como uma multiplicidade”. A aproximação que favoreço entre a indagação sociológica de realidades sociaiscomplexaseabertaseoquehádeconhecimentonarecriaçãoliteráriadestas não se destina, porém, a justificar (como faz algum pós-modernismo) qualquer renúncia à ambição de explicar e interpretar holisticamente, considerando as coisas como totalidades. Não é a circularidade sem fim de narrativas mais ou menos imaginosas que busco, mas ao contrário a progressão em espiral. Se, na bela frase de Calvino, cada totalidade já não o é senão em modo potencial, conjetural e multíplice, interpretá-la significa abordá-la uma e outra e outra vez, de cada vez partindo de um novo ponto de entrada e de um novo ângulo de observação, e percorrendo 26 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
analíticaeinterpretativamenteosfios possíveisapartir decadaponto ecadaângulo. Isso obriga frequentemente a reconstruir a interpretação. Mas cada reconstrução enriquece, acrescenta conhecimento. Como n’O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, que devia ser bibliografia fundamental nos cursos de epistemologiadasciênciassociais: os três primeirosvolumesiluminamdeformadiferentea mesma sucessão de acontecimentos e a mesma galeria de personagens, porque contrastam os pontos de vista; e é essa variação, culminada depois num desenlace de que o quarto volume dá conta, que permite aos leitores compreender o verdadeiroobjetodesteromanceprismáticoqueéa cidade de Alexandria. Também a sociologia pode ser “n-dimensional” (Durrell, 2012 [1962]: 204); e sê-lo pode fazê-la progredir,não na ilusória linearidade dospositivismostardios, mas em espiral envolvente, demorada… e ascendente. As dicotomias devem ser reputadas, pois, adversárias do conhecimento em redequepropugno.Oconhecimentoemredenãopodesermodelizadoeclassificado no quadro de uma dicotomia. Ser apenas contemporâneo As identidades precisam de nomes. Não o ignoro, nem à sua consequência: que nomeinvocarparaidentificaraposiçãoepistemológicaparaqueestouconvidando os meus leitores? Apenassugiroque,seanossacircunstânciacontinuaaexigiralgumarebeldia faceàsclassificaçõesdemasiadoestandardizadasetaxativas(orabem:categóricas) do pensamento sociológico—eemparticular face às classificações dicotómicas — então não podemos escolher para nosso nome um dos termos vinculativos que estruturam essas mesmas classificações, qualquer que ele seja (por exemplo: moderno ou pós-moderno). Devemos é escolher um nome que seja mais oblíquo, ou exterior, a tais dicotomias. Por isso me quero declarar apenas contemporâneo. Afirmação de modéstia, qualidade bem necessária ao trabalho intelectual: contemporâneoéoqueeunãopossodeixardeser,pertencendoàcircunstânciaque mecoubeemsorte.Nadamais.4Sesoumaismodernooumaispós-moderno,ouaté maispré-moderno, ouneomoderno(neobarroco,neoclássico,neotradicionalista,a lista dos rótulos, para quem os apreciar, é inesgotável), é coisa que já não sei dizer com propriedade, tão enviesadas me parecem essas “tabuletas de sinalização”. Oquesintoquandomebelisco para ter a certeza de que sou real, é o meusernasua circunstância: o meu ser no meu tempo. Há frases lapidares de filósofos que adornarão bem este ponto. SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 27 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482 4 Noutrossistemasdeclassificaçãoquenãoodopensamentosociológico,“contemporâneo”quer dizermais,denotaumgéneropróprio.Éoquesepassacomaartecontemporânea,oucomamúsicacontemporânea.Nãotenhoaquiespaçoparaconsiderarestaquestãoespecífica,mastenciono abordá-la noutra ocasião. Entretanto, os leitores interessados aprenderão muito, querendo, com as análises de Nathalie Heinich (por exemplo, 1999, 2009b).
Masele,queémuitoimportante,nãoéomaisimportante.Aoserdomeutempo, sou virtualmente de todas as possibilidades abertas no e pelo meu tempo. Não tenho de fechá-las à partida, para me encerrar nesta ou naquela história; não tenho de considerá-las necessariamente como alternativas, obrigando-me a escolhas liminares e pouco menos que definitivas. Posso tomá-las por ferramentas, cuja utilidade só pragmaticamente se testa—easmais das vezes nenhuma será útil só por si, mas sim em combinação com outras. AutorescomoNicosMouzelis,JohnParkereRuiPenaPirestêmpropostotratarateoriasociológicacomouma“caixadeferramentas”.Istonãosignificaignorar o modo como ela se declina em diferentes e contrastantes paradigmas; mas, pelo contrário,reconheceratéque,sendoesses paradigmas parcialmente incomensuráveis, a pluralidade é inevitável. Significa sim, acentuando o critério operatório, facilitar a intercomunicação, mostrando como as distintas ferramentas (heurísticas e interpretativas) podem ser aplicadas e adaptadas a observações e para teorizações específicas. Ora bem: alvitro que se estenda este empreendimento — que Pena Pires(2007)mostroutãoeloquentementepodersustentarareconstruçãode“árvores conceptuais”nateoriasociológicadaaçãoedaestrutura—aoplanoaindamaisgeral das categorias que organizam a nossa estrutura cultural. E, pelo menos, a essas categorias-chave do pensamento sociológico que gravitam em torno da ideia de modernidade. Em vez de rotulagens categóricas, designações mais frouxas e plásticas. Em vez da obsessão com a etiqueta, atenção à substância do pensamento. Em vez de querelas terminológicas e lutas de (des)classificação, articulações produtivas. Em vezdelealdadeàspressuposiçõesdevalor(otermoweberianoébastanteapropriado),investimentonaindagaçãointelectual,teóricaeempiricamenteinformada,da realidadehumana.Cadatempo é umentrelaçamentodetempos:eisprovavelmente a mais importante lição da história (Silva, 2013). Pois apliquemo-la também ao domínio do conhecimento: desenhando a grelha pedida por Goody, como alternativa às grandes dicotomias, em cujas linhas e colunas podemos dispor as múltiplas ordens de inteleção e as suas categorias principais, assim compreendendo melhor como não somos nem modernos nem pós-modernos porque somos simultânea e tensamentemodernos e pós-modernos, clássicos e modernos, modernos e antigos, vinculadosaonossopresente,aopassadoqueofezeaosfuturosqueeleabre.Etendo de olhar em todas as direções, ao contrário dos militantes de escolas, que nos querem orientados só para uma. Como dizia Balthazar a Darley, na Alexandria imaginadaporDurrell(2012[1962]:730):“emcadapontodotempovocêdefrontaa multiplicidade”. Recorro, para concluir, a um trecho de Walter Benjamin (1992 [1928]: 105-106): O marinheiro “devorou” a proximidade e já só o interpelam as nuances exatas. Ele pode mais facilmente distinguir os países pela forma de preparação dos seus peixes do que pela arquitetura e o décor da paisagem. Está de tal forma à vontade no detalhe que,parasi,asrotasemquesecruzacomoutrosnavios(ecomoapoiodesirenescumprimenta a sua própria firma) se transformam em estradas ruidosas em que é preciso 28 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
dar passagem. No mar alto habita uma cidade onde na Canebière marselhesa se encontra uma taberna de Port Said, obliquamente defronte de um bordel de Hamburgo e o Castel dell’Ovo napolitano se encontra na Plaza Cataluña de Barcelona. Para os oficiais,a sua cidadenatalaindatemaprimazia.Masparaogrumeteouofogueiro, as pessoas cuja força de trabalho transportada mantém contacto com as mercadorias no bojo do navio, os portos que cruzam já nem sequer são pátria, mas sim berço. E, se os escutarmos, compreendemos quanta mentira se oculta no viajar. Eisumaboaalegoria da indagação intelectualqueprefiro.Aceitoqueosoficiais do meu mister optem por exercê-lo a partir da cidade natal do seu Sistema — e assim distingam as coisas e as nossas responsabilidades perante elas de acordo com sucessivas dicotomias operadas por categorias básicas, estáveis e exclusivas. O Sistema tem a vantagem de uma topografia simples; e as rotas para percorrê-lo podem ser solidamente estabelecidas por deduções encadeadas, antes mesmo de começar cada viagem. Esse conforto parece, contudo, ter um custo, a muita mentira que se escondenaviagem,e resulta da redução do mundo ao mapa. Umapráticamaisvagabunda,intersticial,tentativa,menosfortalecidamastambémmenosaprisionada pelo Grande Esquema, há de perturbar a observação e o seu registo: mais sombras, labirintos, pontos de vista, tonalidades; mais efeitos da passagem, da ida e da vinda, do término e do recomeço, do avanço e do retorno. Com menos tabuletas de sinalização o caminho deixa de ser linear, previamente reconhecido, percorrido uniformemente por todos (e sujeito aos mais incríveis controlos institucionais!…). O risco de perder-se aumenta exponencialmente. Mas também a possibilidade de desbravar em várias direções as várias partes de vastos e complexos territórios, também a probabilidade da descoberta (e da serendipidade mertoniana). Em suma: não só cresce a capacidade de explorar e conhecer caso a caso, parcela a parcela,portoaporto,cidadeacidade,mascresceainda,ecrucialmente,avisãopanorâmica e a interpretação holística — já não fundadas agora na perspetiva de Sirius deumaGrandeTeoria,queaplanaoqueérugoso e despreza o chão vivido das coisas, mas pelo contrário calcorreando esse chão, ou (diria Benjamin) navegando os diferentes mares e perambulando pelos portos e escalas. Isto é: uma interpretação holísticaelaboradaapartir de comparações sistemáticasenãoetnocêntricas;apartirdenarrativaseexplicaçõesnãoteleológicas;apartirdo uso operatório e plástico dos múltiplos ângulos e instrumentos de observação e análise que vamos construindo e testando. Não estou longe, espero, desse “pensamento do meio-dia”, o “pensamento doslimites”que,logoem1951,AlbertCamusopunha ao sonho moderno do Absolutoeàameaçatotalitáriaqueelecomportava.Justamenteemnomedeumaleitura mais radical da modernidade, a que deduzia da sua consciência crítica (de “revolta”,os sociólogos de hojediriam de emancipação) aideia de limite (enão a suspensãodacríticaemfavordanovacausa, ou asuspensãodajustiçaemnomedajustiça futura,ambosgermes dostotalitarismosmodernos)(Camus,2008 [1951]:349-382). Adesconfiança “revoltada” (crítica) perante todos os absolutos e perante todas as utopias finalistas que julgam poder absorver as zonas de dúvida, dissidência, confrontação e criação — ou seja, tudo quanto faz a liberdade, intelectual e humana — SER CONTEMPORÂNEO, SOBREVIVENDO ÀS CLASSIFICAÇÕES DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO 29 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482
não é apenas essencial no plano da ação e organização social como também, para sê-lo efetivamente, há de pautar os elementos próprios das estruturas culturais e dosparadigmaseprogramascognitivos.Porque,comovimos,amodernidadearticulou esses três planos social, cultural e científico. Eis, pois, um pequeno kit epistemológico para sobreviver às classificações do pensamento sociológico: ceticismo perante as visões binárias do mundo e os quadros de entendimento construídos apenas sobre divisões categóricas; escrutínio permanente das grandes sínteses e firme denúncia dos seus pressupostos naturalistaseetnocêntricosedassuas reconstruções teleológicas; desprezo pelastécnicas de rotulagem e as lutas de escola. Isto do lado da negação. E do lado da afirmação: emprego operatório e instrumental das categorias; sua colocação em rede, permitindo interações a vários sujeitos e em várias dimensões; respeito por e aproveitamento do caráter plástico, adaptativo, polissémico das categorias da cultura e do pensamento; multiplicação das comparações, que fazem mudar o ponto de vista e as realidades observadas, e das interpretações holísticas estabelecidas a partir delas; exploração sistemática das possibilidades (em vez do culto quase religioso de Sistemasqueasfecham),aspossibilidades abertas por este jogo de interdependências, indeterminações e contaminações ou fecundações recíprocas entre ideias, categorias e quadros de pensamento. Estou muito convencido de que esta maleta de primeiros socorros ajuda a sobreviver às classificações. Mas talvez sirva para mais. Talvez seja um ponto de partida para a compreensão e a prática mais ágil e criativa das ferramentas sociológicas. Há uma maneira de pô-las sobre a mesa seguindo estritamente as respetivas instruções:faremostodosmaisoumenosdamesmamaneira,publicaremossegundo as mesmas regras e formatos, corroboraremos pela enésima vez a teoria que aplicamos ou registaremos a enésima “anomalia” kuhniana que tornará mais próximooseudesabamento.Maspodemossermenosdisciplinados,menosrepetitivos, mais desenvoltos, jogando as fichas nas múltiplas combinações e nas múltiplas possibilidades. O mais certo é que a “prosa do mundo”, que Hegel dizia ter começado com Roma e de que a instituição académica se está tornando uma das maislídimasepotentesexpressões,venhaaresmungar.MastalvezpossamosinvocarGeorgeSteiner(2012:219-222)epedirautorizaçãoparacultivar,pelomenosnas humanidades e ciências sociais, essa ligação essencial entre pensamento e linguagempoética.Oumesmosermosmaisatrevidosedizer dessa casa menos compacta mas mais aberta que é uma epistemologia não fundacionista nem classificatória, o queagrandepoetaEmilyDickinsondissedapoesia,emversosmemoráveis:I dwell in Possibility/A fairer House than Prose…5 30 Augusto Santos Silva SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 76, 2014, pp. 9-32. DOI:10.7458/SPP2014763482 5 OsleitoresinteressadosencontrarãoboastraduçõesportuguesasemDickinson(2010ae2010b).
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