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Histórias do 35

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Histórias do 35

Author: Rui Trindade
Year: 1998
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/21285/2/85005.pdf
a Página da
Educação
www.apagina.p
His ó ias do 35
O 35 é um desses au oca os que se pen eiam no ca ossel das uas do Po o. Le a-nos à es ação de Campanhã.
É o consolo dos e o mados nos passeios sob e a espuma dos dias ensola ados que os le a a é à Ma echal Gomes
da Cos a. Alimen a o co opio dos es udan es da Faculdade de Ciências en e os Leões e o Campo Aleg e. É o 35
que ans o ma o pe cu so en e os Clé igos e a Sé numa espécie de mon anha ussa que algumas a agens
b uscas ajudam a colo i . Nele já passeei com a Ta iana ainda bebé, já i, so i e penei ao pon o de me a e e a
pensa que Deus oi demasiado injus o com odos aqueles que êm de anda nesse au oca o, não po p esc e e
que, enquan o descenden es de Adão, e íamos de ganha o pão com o suo do nosso os o, mas po exigi que
pa a o aze i éssemos de apanha o 35 das ho as de pon a.
A minha in imidade com o 35 começou quando iaja a dia iamen e pa a a escola p imá ia si uada no Bai o do
Aleixo, onde abalhei dois anos lec i os consecu i os. Conheci gen e com quem nunca alei, ap endi a sen i a
ensão dos meus companhei os de iagem nos dias húmidos da cidade, deixei de ap esen a o passe aos
mo o is as com quem odos os dias me c uza a e impacien ei-me com os semá o os que, pa a meu aza , semp e
lhe engasga am a ma cha nos dias em que ia a asado.
Quando deixei o Aleixo, a nossa elação esmo eceu e passamos a e -nos espo adicamen e en e a oca de
buzinadelas na Rua D. Manuel II e a a essia das passadei as na P aça da Libe dade. O 35 oi-se o nando num
au oca o cada ez mais igual a odos os ou os au oca os da cidade. Mesmo nas a as ezes em que nos
encon á amos, acon ecia aquilo que é usual acon ece nos poucos jan a es de con í io com os an igos colegas de
cu so em que pa icipei: ado amos e e pessoas com quem pa ilhamos um dia cumplicidades adolescen es, mas a
magia do eencon o du a quase semp e a meia ho a que nos le a a conclui que nos o namos nuns
desconhecidos simpá icos que já pouco êm a dize uns aos ou os. Quando mui o, e ugiamo-nos nas eco dações
e pode se que consigamos ob e algum p aze nisso.
Num des es an eon ens que, de ez em quando, i emos, oi isso que julga a i acon ece quando ol ei a iaja no
35. Sen ei-me, como há alguns anos a ás, num dos luga es da cozinha. E a um 35 mais mode naço, mais
espaçoso e mais plás ico. Nem enho bem a ce eza se con inua a a se la anja. Abu guesou-se, al como eu, que o
oquei, apesa da minha e ó ica p ó-ecológica, po um ca o de gasolina sem chumbo. Nes e mis o de cu iosidade
e inquie ação, p óp ia dos eencon os en e gen e ou o a ín ima que deixou en e an o de se e , comecei a sen i
que es a a pe an e algo agamen e amilia . A dado momen o, ui-me ape cebendo de uma con e sa mais igo osa
cujo ema e a, nem mais nem menos, que o e e endo sob e a egionalização. A quan as discussões como aquela
já inha eu assis ido nou os 35? As amosas discussões nos au oca os do Po o que começando po se a dois, e
que podendo acaba a dois, não deixam ninguém indi e en e.
Naquele dia e àquela ho a discu ia-se, po an o, o e e endo sob e a egionalização no om apaixonado e o e que
os ipei os emp egam sem ebuço de a i ma o que lhes ai pelo pensamen o e na alma. Fui po isso ou indo, po
ezes so indo, conco dando e disco dando com os a gumen os que se iam con apondo e luiam nos meand os
das es a égias a gumen a i as de cada um dos o ado es. O au oca o inha indo suspenso daquela con e sa
pública en e uma jo em pela casa dos in e e cinco anos e um homem de meia-idade que naquele momen o imos
le an a -se b uscamen e pa a p oclama um sono o e ine i á el ão abalha , ase que em qualque 35 que se
p eze, signi ica que o deba e chegou ao im. Foi pois com um ão abalha an i- egionalis a que o homem ca egou
na campainha pa a sai . An es inham-se escu ado algumas das ideias que o Ma celo e o Po as o am
popula izando, in e ompidas aqui e ali pelo discu so mais ímido da mulhe que ia chamando a a enção, o melho
que podia e o seu pa cei o deixa a, pa a a impossibilidade dos p oblemas do país se em odos esol idos em
Lisboa. Mais mamões? Con apunha a ogan e o homem. Não é e dade, espondia-lhe a senho a, os go e nos
ci is ão se ex in os, as Comissões de Coo denação Regional êm pessoal em núme o su icien e pa a assegu a
as Jun as e as Assembleias Regionais. Quais Comissões qual ca apuça!... Comichões enho eu se os impos os
i e em que subi . Os mo cões nem que em dize onde ão ica as capi ais das egiões... qualque dia anda udo à
po ada. E pon o inal. A bandei a é só uma, já não chegou o que ize am ao que e a nosso em Á ica, a culpa é do
Pin o da Cos a e o que é p eciso é que alguém mande e saiba manda em Lisboa pa a a coisa anda sem
p oblemas. Tudo ases di as em ca adupa no melho dos so aques ipei o. O senho não passa de um
eaccioná io. Eu? E o bolacha Ma ia ambém é eaccioná io? Po que é que ele não que a egionalização? Sabe
po quê menina? Ele sabe melho que ninguém que nós não emos mui a gen e com capacidade pa a go e na .
Quem ai go e na T ás-os-Mon es? Algum pa olo, não? Po ugal não es á à enda. Ó senho , se isso osse assim
como é que explica que as Câma as enham ei o an a coisa de bom ? Isso é ou a coisa. A me da das Câma as
são coisa pequena e mesmo assim - pausa en á ica - po a! Diga-me en ão po que é que países mais
desen ol idos que o nosso êm egiões e o nosso não pode e ? Ó senho a não enha cá com as mode nices dos
ou os, os po ugueses não são os anceses. Ainda emos mui o pa a ap ende , isso da egionalização, ai e , é
só lá pa a os seus ne os. Vão abalha .
O au oca o deixou o homem na pa agem, imponen e e sa is ei o. A ancou e no b e e silêncio que se seguiu,
ou iu-se alguém, quase sussu ando, dize :
- E se i esse ha ido um e e endo pa a se decidi se se azia, ou não, o 25 de Ab il?
Sem sabe ainda, nesse momen o, quem ganhou ou quem pe deu o e e endo sob e a egionalização, sen i um
ape o no es ômago ao pensa na possibilidade de um al e e endo. Como se ia a campanha do não? Que
p e ex os é que i iam in en a pa a ecusa um sim à democ acia? O anal abe ismo dos po ugueses? A
conspi ação comunis a? A nossa incapacidade pa a disce ni e escolhe quem nos go e na ia? Á ica e a
p ese ação do impé io? Quais se iam os p e ex os a usa ? Des a ez oi o mapa, os no os caciques polí icos, a
c iação de con li os a i iciais en e os po ugueses, a despesa pública, a al a de in o mação e o medo do caos
polí ico em que o país me gulha ia.
A a agem do au oca o, jun o à pa agem onde de e ia sai , in e ompeu o cu so dos meus pensamen os.
Le an ei-me, alguém já inha ocado, pe co i a dis ância a é à po a e saí. O 35 já se inha a as ado quando decidi
esc e e es e es emunho. Tal ez po que, descon ando o a gumen o do mapa, odos os ou os a gumen os de que
eu me eco da a pode iam e sido usados, al como o o am ago a, no caso de um apelo ao não num e e endo
onde a pe gun a osse simplesmen e es a: "Conco da que se de ube o go e no che iado po Ma celo Cae ano pa a
ins au a um egime polí ico democ á ico em Po ugal ?"
Rui T indade
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação
Uni e sidade do Po o