Ma ia Adelaide Mi anda Pi es Lombo
Maus a os às c ianças:
Abusos e negligência
Es udo das ep esen ações de pedia as, psicólogos, p o esso es,
educado es de in ância e écnicos de se iço social
Uni e sidade do Po o
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
Ma ia Adelaide Mi anda Pi es Lombo
Maus a os às c ianças:
Abusos e negligência
Es udo das ep esen ações de pedia as, psicólogos, p o esso es,
educado es de in ância e écnicos de se iço social
Uni e sidade do Po o
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
Ma ia Adelaide Mi anda Pi es Lombo
Disse ação de Mes ado
em Psicologia, na Especialidade
de In e enção P ecoce
sob a o ien ação do
P o esso Dou o Ped o Lopes dos San os
Uni e sidade do Po o
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
ÍNDICE
In odução JQ
IPARTE:
i4
MAUS
TRATOS:
Abusos e negligência 14
1'
.Enquad amen o his ó ico e concep ual /j
2.
P e alência. jg
3.
De inição 27
3.
1 .Tipos de Mau T a o 22
3.1.1.Abusos
22
3.1.1.1.
Abuso ísico 23
3.1.1.2. Abuso sexual 25
3.
1. 1. 3. Abuso psicológico 30
3.1.2. Negligência 33
4. Fac o es de isco e ac o es
de
p o ecção do mau- a o 35
4.1.
O con ibu o da c iança 44
4.1.1.
Fac o es biológicos 44
4.1.2. Fac o es neu opsicológicos 45
4.1.21.
Tempe amen o 47
4.1.2.2. Vinculação 4g
4.2. Ca ac e ís icas Pa en ais <5/
4.3.
Con ex o Familia 53
4.3.1.
"S ess" da Família 55
4.3.2. Es u u a Familia (j§
5. Consequências dos Maus T a os JQ
6. Es a égias de p e enção e de in e enção SO
6.1.
Aspec os Básicos
dos
p og amas de T a amen o Familia 86
6.2. Ensino de Compe ências Pa en ais çj
IIPARTE
94
Es udo de algumas a iá eis associadas às concepções de maus a os
de
pedia as,
psicólogos, p o esso es, educado es de in ância e écnicos de Se iço social 94
In odução pj
Mé odo 97
Resul ados jgg
Discussão ..128
Conclusão jjy
Re e ências Bibliog á icas ..139
Anexos ]§j
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Ag adecimen os
Es ou mui o g a a ao Dou o Ped o Lopes dos San os po e acei e a
esponsabilidade de o ien a es a ese. Sem os seus as os conhecimen os e
expe iência, não me e ia sido possí el abo da es e ema.
Ag adeço ambém a odos os p o esso es do Cu so de Mes ado. O seu
sabe , apoio e dedicação, ao longo de odas as aulas e seminá ios cons i uiu
pa a mim uma on e inspi ado a.
Os meus ag adecimen os di igem-se ambém pa a a D .a Manuela
Sanches Fe ei a, pelos caminhos que me suge iu e pa a odos os di ec o es dos
Se iços de Pedia ia, pedia as, psicólogos, p o esso es, educado es e écnicos
de Se iço Social. O meu mui o ob igada a odos, pelo seu con ibu o pa a a
ealização da pa e empí ica des e abalho.
Às minhas ilhas, Liliana e Alexand a e ao meu ma ido, um
ag adecimen o mui o especial pelo empo que não pa ilhei com eles, po udo
quan o ica am p i ados du an e o pe íodo de elabo ação des a ese, pelas
suges ões que me de am, pelo incen i o e enco ajamen o que me
p opo ciona am nos momen os de maio desânimo.
Também não posso esquece a minha que ida amiga Ma ia do Ampa o
Fe nandes. Um mui o ob igado pela sua disponibilidade e enco ajamen o.
2
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Ao Eng. Dua e Piques e amília, ag adeço igualmen e odo o apoio
p es ado.
As pessoas que colabo a am na dis ibuição e p eenchimen o dos
ques ioná ios e mui o especialmen e à e apeu a Gló ia, pela sua
disponibilidade e pe sis ência.
E, po úl imo a odos quan os de uma o ma ou de ou a con ibuí am
pa a a iabilização des a ese.
3
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Resumo
Nes e es udo p opusemos analisa os maus a os in an is e explo a a
impo ância das ca ac e ís icas e das expe iências indi iduais e p o issionais,
nas concepções de abuso e negligência à c iança, de o ma pa icula , em
indi íduos que lidam com c ianças e com si uações de mau a o.
Numa p imei a pa e ealizamos uma e isão bibliog á ica ace ca dos
maus a os à c iança. Iniciamos com o enquad amen o his ó ico e concep ual
do p oblema, ap esen amos os á ios ipos de maus a os e desc e emos os
ac o es de isco que os po enciam. Ponde amos os e ei os dos maus a os no
desen ol imen o ísico, sócio-cogni i o, social, in e pessoal, emocional,
cogni i o e da linguagem. Finalizamos a pa e eó ica do es udo com a
ap esen ação de alguns elemen os elacionados com a p e enção e a
in e enção na p oblemá ica dos maus a os.
Na segunda pa e do abalho, le amos a cabo uma in es igação
explo a ó ia, a a és de um ques ioná io anónimo onde se pedia aos
pa icipan es (n=125), pe encen es a cinco g upos p o isssionais (pedia as,
educado es, p o esso es do Io Ciclo, écnicos de Se iço Social e psicólogos,
que co assem a impo ância de de e minados ac o es especí icos pa a a
a aliação de um ac o de mau a o e que a aliassem ac os especí icos de abuso
e de negligência desc i os em inhe as.
4
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Na a aliação dos ac o es, as es ima i as dos sujei os pa ecem depende
do es a u o ocupacional e se em independen es da sua idade, do núme o de
ilhos e da quan idade/di e sidade de expe iência com si uações de mau a o.
No que conce ne à a aliação de ac os de mau a o, oi econhecido
globalmen e um ca ác e mais se e o às inhe as incluídas nas ca ego ias de
abuso ísico e sexual. Pa ece ambém pode in e i -se que quan o maio o
núme o de si uações de mau a o conhecidas pelos pa icipan es e quan o mais
elhos es es ossem, meno e a a endência pa a a ibuí em ca ác e mal a an e
aos ac os de negligência e abuso psicológico.
5
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Abs ac
The pu pose o his s udy is o examine child mal ea men and
explo e o wha ex en indi iduals' own cha ac e is ics and p o essional
expe iences, pa icula ly hose in ol ing child ea ing and child mal ea men ,
in luence hei de ini ions o child abuse and neglec .
In he i s pa o his wo k i is p esen ed a bibliog aphic e ision o
child mal ea men . We began by a concep ual amewo k o he p oblem, we
men ioned se e al o ms o mal ea men and desc ibed isk ac o s ha may
gi e bi h o hem. We conside ed he e ec s o mal ea men on physical,
psychosocial, in e pe sonal, emo ional and cogni i e de elopmen , and also on
language. We inished ou heo e ical app oach o his s udy wi h a chap e
abou p e en ion and in e en ion on child abuse and neglec .
In he second pa we made an explo a o y esea ch by means o an
anonymous w i en ques ionnai e in which esponden s (n=125) ep esen ing
i e p o essional g oups (Pedia icians, p eschool and elemen a y school
eache s, psychologis s, and social wo ke s) we e asked o a e he impo ance
o speci ic ac o s in wha conce ns abuse and speci ic ac s ypical o abuse
which a e desc ibed in igne es.
On assessing hese speci ic ac o s, esponden s sha e he opinion he
es ima es depend mainly on he indi iduals' p o essional ac i i y and a e
6
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
os á ios ipos de maus a os e desc e e emos os ac o es de isco que os
po enciam (Ga ba ino, 1980; Belsky, 1984; Adjuko ic e ai, 1993).
Finalmen e conside a emos quais os e ei os dos maus a os no
desen ol imen o ísico, sócio-cogni i o, social, in e pessoal, emocional,
cogni i o e da linguagem e ap esen a emos alguns elemen os elacionados com
a p e enção e a in e enção nes a p oblemá ica.
Na segunda pa e, ap esen a emos os esul ados ob idos numa
in es igação explo a ó ia ace ca das concepções de mau a o po pa e de
di e sos g upos de p o issionais, incluindo a análise dos ac o es que êm maio
impo ância na a aliação do ca ác e mal a an e dos ac os.
Es as concepções o am in es igadas a a és do mé odo das inhe as
que enume am si uações hipo é icas de mau a o, escolhidas em unção do
enquad amen o eó ico ap esen ado ao longo da p imei a pa e.
13
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
I PARTE:
MAUS TRATOS: Abusos e negligência
I
14
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
1.Enquad amen o his ó ico e concep ual
A e idência his ó ica apon a pa a o ac o de que os maus- a os exis em
desde semp e, mui o embo a a é à segunda me ade do século XIX, a sociedade
os igno asse (Machado 1996). Foi ambém nes a época que a ida social se
pola izou em o no da amília e da p o issão. A mudança p o undamen e
cul u al, ealiza-se em simul âneo com o e o ço da amília nuclea , e mui o
especi icamen e em o no da exal ação do amo ma e nal como elemen o
es u u an e das elações amilia es. A c iança passa a desempenha um no o
papel na ida amilia , a que Badin e (in Machado, 1996), chama o " einado
da c iança". O ac o de se alo iza , en ão, mais a enção, a ec o e p eocupação
em elação à c iança, conduziu a que de e minados elemen os de endessem
uma a i ude mais ep essi a. A Ig eja e o Es ado in e ie am no p ocesso de
socialização e oi en ão que eme giu uma di e sidade de ins i uições des inadas
a p eenche o papel dos pais, quando es es se e ela am incapazes. Foi du an e
os inais do século XIX e du an e o século XX, que c esce am ou as o ças
pola izadas em o no da p o issão (pedia as, educado es, psicólogos, écnicos
de se iço social, e c) e ins i uições, leis ou cos umes, nas quais as c ianças
i am econhecidos os seus di ei os e os pais as suas esponsabilidades
(Rod igues, 1994, ci . in Sil a, 1997).
15
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Após a 2a Gue a Mundial, a Comunidade In e nacional despe ou pa a
a p oblemá ica da p o ecção e de esa dos meno es. Na década de 60, os maus-
a os ísicos o am os p imei os a se em econhecidos, p o a elmen e po
se em os mais ób ios. Na década de 70, o am os maus- a os psicológicos que
susci a am mais in e esse aos in es igado es (Cicche i & Olsen, 1990).
Kempe (1962), desc e eu pela p imei a ez o sínd oma da c iança
Ba ida (Ba e ed Child Synd ome), num a igo publicado no "Jou nal o he
Ame ican Medical Associa ion", pa a ala do g ande núme o de c ianças que
da a en ada na sua unidade de pedia ia com lesões não aciden ais p o ocadas
pelos pais (Kempe, Sil e man, S eele, D oegemuelle , & Sil e , 1962). As
concepções des es au o es quan o à e iologia dos maus- a os, a ibuíam luga
p oeminen e à condição psicopa ológica dos pais (Eme y, 1989). Ac ualmen e,
os in es igado es são quase unânimes em a i ma que não exis e um ipo
pa icula de psicopa ologia ou pad ão de pe sonalidade, capaz de desencadea ,
po si só, si uações de maus- a os (op. ci .), mui o embo a ou os au o es
(Bizoua d, e ai., 1991, ci . in Figuei edo, 1997), ac escen em que as deso dens
de pe sonalidade, os quad os de compo amen o an i-social, o alcoolismo e a
oxicodependência dos pais cons i uem um isco ela i amen e à oco ência de
si uações de abuso ou negligência.
Os modelos ecológicos de B on enb enne (1974), Belsky (1980),
Ga ba ino, ou o modelo de Cicche i & Olsen (1990), explicam os maus- a os
em e mos la os e apon am pa a a in e acção en e as ca ac e ís icas dos pais, da
16
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
c iança e as condições do meio en ol en e. Na óp ica de B on enb enne
(1974),
o abuso in an il em luga quando os sis emas de apoio da amília não
ac uam. No modelo de Belsky são omados em conside ação o con ibu o de
ês domínios que ge am in luências nas compe ências pa en ais e que pçdem
se conside ados subsis emas que ac uam en e si. São eles: as ca ac e ís icas da
c iança, as ca ac e ís icas pa en ais e os ac o es amilia es e sociais de s ess e
supo e. O modelo ecológico do mau a o in an il p opos o po Ga ba ino
(1980),
explica o enómeno a a és de á ios ac o es. Pa a além dos ac o es
de p edisposição de ipo indi idual, amilia , social e cul u al, e e e ainda
ac o es de mediação ep esen ados pelas edes de apoio e de ajuda social bem
como ac o es desencadean es que dizem espei o às di e en es e apas da ida,
às in e p e ações e às pe cepções que os sujei os êm dos acon ecimen os
susci ado es de s ess. Cicche i & Olsen, (1990) ale am pa a a necessidade de
se adop a uma isão in e ac i a na comp eensão do enómeno dos maus- a os,
baseando-se no modelo ansaccional de Same o (Same o
e
Chandle , 1975;
Same o e Fiese, 1990), onde se en a izam as a iá eis con ex uais e se
e idencia o papel da amília e em pa icula dos pais, des acando-os como a
componen e undamen al do con ex o ambien al p ecoce da c iança,
cons i uindo-se des e modo, as in e acções e ansacções ecíp ocas en e pais e
c iança como a base do seu desen ol imen o, o qual, ainda segundo es es
au o es, é causado po uma mul iplicidade de ac o es.
17
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
McGee & Wol e (1991) conside am os maus a os ac os comunica i os
desadap ados, que êm luga quando a comunicação pais- ilhos não se p ocessa
de o ma adequada.
Em suma, os au o es são unânimes quan o ao ac o de que os maus
a os são enómenos complexos não explicá eis a pa i de uma causa única.
2.
P e alência
Nos Es ados Unidos da Amé ica, Manly, e . ai., (1994) dizem que en e
1982 e 1991, o núme o de c ianças denunciadas po alegados maus a os
passou de 1,8 milhões pa a 2,7 milhões, de aco do com dados que ob i e am
do Na ional Cen e o Child Abuse and Neglec .
Segundo dados do Na ional Commi ee o P e en Child Abuse, 3 111
000 de c ianças o am, em 1995, sinalizadas aos se iços de p o ecção como
í imas de mau- a o (Lung & Da o, 1996). Desde a década passada, o núme o
de c ianças mal a adas aumen ou signi ica i amen e, ce ca de 49% de 1986 a
1995,
sendo ce o que mui as ou as não o am e e enciadas (Finkelho ,
1993).
A maio ia dos casos de abuso ou negligência, diz espei o a c ianças
com idades in e io es a 6 anos (Po wood 2000). Pa a Lung e Da o (1996), o
I
18
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
abuso sexual cons i ui somen e
11%
das denúncias de mau a o, a negligência
54%
e o abuso ísico 25%. Os dados do Uni ed S a es Depa men o Heal h
and Human Se ices (1993), indicam que mais de 3A dos casos in es igados
pelos se iços de p o ecção à c iança o am denunciados po hospi ais, escolas,
cen os de dia, se iços de saúde men al e se iços sociais. Pa indo de al
cons a ação, in e i -se-á que exis em insu iciências ao ní el da iden i icação e
denúncia po pa e das agências ou ins i uições di ec amen e enca egadas de
zela pelo cump imen o da lei.
Na República da C oácia, os p o issionais es ão de aco do, com a ideia
de que os maus a os à c iança excedem em mui o o núme o de casos
denunciados. Nes e país, du an e o ano de 1991 mais de 3500 c ianças,
ecebe am a amen o de ido a abusos ou negligência (Ajduko ic e ai., 1993).
Também em es udo epidemiológico ealizado em Espanha, na
Comunidade Au ónoma de Andaluzia, se admi e que ce ca de 14 c ianças em
cada 1000 são í imas de maus a os (A uaba ena e Paul, 1994).
Em Po ugal, como em odo o mundo, é impossí el conhece e a alia
ao incidência exac a das si uações de maus a os. Hoje em dia exis em
escassas in es igações sob e o ema e só chegam ao domínio público aqueles
dados que, pela sua g a idade, são no iciados ugazmen e nos meios de
comunicação social. Galla do (1994) ci ando ex ac os do Rela ó io Nacional
ap esen ado no Colóquio do Conselho da Eu opa sob e a iolência no seio das
amílias, diz que a ní el nacional, os ag egados amilia es nos quais oi
19
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
cons a ada iolência psíquica ou ísica con a c ianças são espec i amen e em
núme o, de 14,2 e 13,2 po 10000. A negligência em uma incidência maio ,
si uando-se em 29,6 po 10000.
No Kuwai , o cas igo ísico das c ianças não é conside ado do pon o de
is a legal uma o ensa. Não exis e aí nenhum se iço es a al ou p i ado que
possa p opo ciona se iços de p o ecção à c iança em caso de abuso ou
negligência. Conside a-se que o cas igo ísico, unicamen e diz espei o à
amília e não de e se objec o de in e enção médica. Tal como nou as
amílias á abes, no Kuwai , a p i acidade da amília é conside ada sag ada e
somen e alguns amigos mais ín imos e pa en es, es ão au o izados a in e i na
ida amilia . Con udo, o Minis é io dos Se iços Sociais zela pelas c ianças
abandonadas e pelas que não êm la (Qasem e ai. 1998).
S aus (1991) no seu es udo, e i icou que 90% dos pais ame icanos
usa am o cas igo ísico pa a co igi de e minados compo amen os. Nou os
países, o cas igo ísico é não só acei á el, como ambém apoiado pela Lei. O
Es ado mexicano econhece aos pais o di ei o de cas iga os seus ilhos (Co al
e ai. 1995). No Canadá, a Secção 43 do Código C iminal pe mi e o uso de
o ça azoá el, po pa e de um p o esso ou de um pai, como medida
disciplina (Cohen, 1995). Po ou o lado, exis em ou os países ais como a
Aus ália e a Escandiná ia onde exis em leis que p o egem as c ianças de
se em ag edidas (McClu e & Choona a, 1992).
20
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Apesa do abuso e da negligência, apa ece em o emen e associados à
pob eza, mui as c ianças que i em em condições sócio-económicas
des a o ecidas não são mal a adas e as si uações de maus- a os a a essam
odos os es a os sócio-económicos (Knu son, e ai., 1991).
Não obs an e o igo e o cuidado na ob enção dos dados pensa-se que
es es não co espondem à ealidade e que o enómeno dos maus a os assume
um olume maio .
3.
De inição
Nos EUA, segundo a Con e ência ealizada e 1989 pelo Na ional
Ins i u e o Child Heal h and Human De elopmen , o mau a o in an il pode
de ini -se como sendo um compo amen o di igido a ou a pessoa que es á o a
das no mas de condu a e que con ém um isco subs ancial de p o oca danos
ísicos ou emocionais (Mc C one e ai., 1994). As conclusões dessa mesma
con e ência es ipulam ainda que o mau a o se di ide em ac os de
come imen o (abuso ísico, sexual e emocional) e ac os de omissão de cuidados
(ine icácia emocional/psicológica e negligência ísica) (McC one e al., op.
ci .).
Pa a Lopes dos San os (1994), o mau a o consis e numa ca ego ia de
condu as di igidas in encionalmen e pa a a c iança e que ab ange ac os de
21
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
omissão ou de come imen o. Nos p imei os, cabem as si uações de negligência,
que dizem espei o à al a de p es ação dos cuidados mínimos e essenciais. Os
úl imos, aba cam casos múl iplos que implicam a acção de de e minados
compo amen os, onde se si uam as o mas de abuso sexual, as ag essões, a
o u a, a mu ilação, as queimadu as não aciden ais, e c.
3.
l.Tipos de Mau T a o
3.1.1.Abusos
Ti e (1993), ci ando o On a io Minis y o Communi y and Social
Se ices, 1984, Sec ion 37, diz-nos que naquele es ado Canadiano, a
esponsabilidade legal nos casos de abuso não diz apenas espei o a quem
in lige o dano, mas ambém àquele que endo a ca go a c iança alha em cuida
ou supe isioná-la adequadamen e. Em On á io a legislação conside a abuso a
pe seguição e explo ação sexual a pa de qualque ac o ou si uação suscep í el
de causa danos ísicos ou emocionais ( e elados po comp omisso do
desen ol imen o, ansiedade se e a, dep essão, apa ia, compo amen os au o-
des u i os ou ag essi os).
Os abusos às c ianças cons i uem uma o ma de iolência conscien e ou
inconscien e, que lhes p o ocam g a es danos psicológicos e ísicos. Pode
22
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
g upos de ac i idades que êm uma cono ação eligiosa, mágica ou
sob ena u al, e onde a e ocação des es símbolos ou ac i idades são epe idas
mui as ezes e usadas pa a assus a e in imida a c iança.
Es es au o es conside am ês sub ipos de abuso i ual: ue cul -based,
onde o abuso sexual é uma componen e do en ol imen o o al da c iança nos
cul os e c enças i uais; pseudo- i ualis ic, onde o abuso sexual é a ac i idade
p incipal e os cul os i uais são conside ados secundá ios
e
psychopa hological
i ualism, onde os adul os men almen e doen es abusam das c ianças
emp egando i uais idiossinc á icos. Po ou o lado há au o es que êm uma
de inição mais ab angen e de abuso i ualís ico e que o de inem como o abuso
sexual, ísico e psicológico, epe i i o e sis emá ico, em c ianças, e ec uado po
adul os como pa e de um cul o ou ene ação , (Kelly, 1988; Jones, 1991)
Adop ando o ipo de abo dagem seguido na a aliação do abuso ísico,
O' Toole e ai. (1997) p ocu am a e i a g a idade dos ac os de abuso sexual
a a és de uma escala que con empla os seguin es ní eis:
Ní el
1
"mos a imagens po nog á icas de o ma explíci a."
Ní el 2 "numa ocasião, pelo menos e ocado na nas pa es geni ais da
c iança."
Ní el 3 "suge i epe idamen e à c iança pa a e em elações sexuais"
Ní el 4 "Numa ocasião, pelo menos e -se en ol ido em con ac os
sexuais"
29
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
3.1.1.3.
Abuso psicológico
O abuso emocional, gene icamen e designado po mau a o psicológico
(c . B assa d, Ge main & Ha , 1987; Ga ba ino, Gu man & Seely, 1986;
Klosinsky, 1993) ab ange odos os aspec os a ec i os e cogni i os do mau a o
à c iança, incluindo os ac os de omissão e de come imen o.
O e mo mau a o psicológico oi o ulado po Lau y & Mee loo (1967)
de "c ueldade men a e po Lou ie & S e ano (1978) de "abuso emocional".
Em 1981, The Na ional Cen e o Child Abuse and Neglec , nos Es ados
Unidos da Amé ica (ci in klosinski, 1993), iden i icou as seguin es ca ego ias
de "mau a o emocional":
l)"ag essão e bal e emocional";
2)"deixa a c iança echada em si uações de isolamen o"
3 )"inadequada c iação/a eição";
4)" e conhecimen o de que a c iança enha compo amen o mal
adap a i o".
klosinski (1993) ci ando The Ame ican Humane Associa ion, (1980),
diz-nos que o abuso emocional é de inido como sendo um compo amen o
ac i o, in encional, dep ecia i o ou ou o compo amen o abusi o, di igido à
c iança, com e ei os sob e o bem es a emocional da c iança.
Já em 1987, B assa d e ai, ale a am pa a a lis a publicada pelo O ice
o he S udy o
he
Psychological Righ s o he
Child,
que menciona a se e
o mas p incipais de mau a o psicológico:
30
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
1.
" ejeição"
2.
"deg adação"
3.
" e o "
4.
"isolamen o"
5.
"co upção"
6. "explo ação"
7.
"ausência de espos a emocional".
Segundo Klosinski (op. ci . 1993), embo a se enham ei o a anços no
sen ido de uma cla i icação das di e en es o mas que o mau a o psicológico
aba ca, ainda não exis e um c i é io cla o pa a que se possa aze bem a
dis inção. Es e au o , a i ma es a de aco do nes a ques ão com McGee e
Wol e (1991) e ci a-os quando diz que o mau a o psicológico diz espei o a
qualque pad ão de comunicação que pode inibi e dani ica uma pa e
impo an e do desen ol imen o da c iança.
Bu ne (1993) ealizou um es udo que e e como um dos p incipais
objec i os iden i ica ambém compo amen os de adul os que se iam
conside ados de abuso psicológico. Fo am iden i icados no e ipos de condu a:
1.
Gua da echada uma c iança num espaço es i o
2.
Humilhação se e a em público
31
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
3.
Cinde ella Synd ome.1
4.
Abuso e bal se e o 2
5.
Enco ajamen o e inci ação à c iança pa a a delinquência.
6. Ameaça uma c iança.3
7.
Negação de e apia psicológica quando es a oi p esc i a po um
p o issional de saúde men al.
8. Não pe mi i à c iança o c escimen o emocional e social.
9. Não p opo ciona uma a mos e a de amo e de supo e.
Segundo C i enden e ai. (1994) exis em poucos es udos que ocam
o mau a o psicológico. Is o de e-se p o a elmen e ao ac o da de inição do
mau a o psicológico se p oblemá ica, com alguns in es igado es
ocalizados nas condu as pa en ais (Baily & Baily, 1986) e ou os nas
consequências ou sequelas p oduzidas nas c ianças (Abe & Zigle , 1981).
1 Es a o ma de abuso é mui as ezes designada pela exp essão Cinde ella Synd ome. Bu ne
(1993) e e e que na si uação em causa se obse am no á eis di e enças no modo como uma
c iança é a ada compa a i amen e com ou a i endo na mesma casa.
Whi ing, (1976), a i ma que es e ipo de abuso se e e e a c ianças que são ejei adas de o ma
explíci a, ejeição es a que as az sen i não amadas, ou quando são usadas como a ma ou
" ídiculo". Ou os au o es (Gio anni e Bece a, 1979; Baily e Baily, 1986; Mu phy e ai, 1979;
Bah , 1981; Ga ba ino e ai., 1986) desc e em igualmen e as ag essões e bais (abusos
e bais) como o ma de abuso psicológico.
Ameaças ei as à c iança com a mo e, com injú ias, com a pe spec i a de abandono ou com
compo amen os sexuais. Mille (1983), ac escen a ou as condu as, ais como a manipulação
da c iança a a és do sus o, ei a de al o ma in ensa que des ói ou impede a cu iosidade
na u al des a.
32
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
3.1.2.
Negligência
Mui os dos a en ados à in ância dizem espei o a lapsos na supe isão
pa en al. Es es lapsos denominam-se de ac os de negligência. (Feldman e ai.,
1993).
Exis em á ias de inições de negligência. Umas mais es i i as e ou as
mais ab angen es. Nas mais es i i as, ulga men e u ilizadas pelos se iços
de p o ecção in an il, encon a-se implíci o um sen ido de esponsabilidade e
po an o de culpabilização dos pais. Es as são ambém mais áceis de
ope acionaliza , po que es ingem o concei o e as possibilidades de
comp eende o enómeno.
As de inições mais ab angen es e e em odo o conjun o de en idades e
ins i uições que de e iam se esponsá eis pela sa is ação das necessidades
básicas da c iança. Ap esen am no en an o iscos, como o de absol e os pais
da sua esponsabilidade pa en al, a ibuindo-a à sociedade em ge al. São
ambém mais p oblemá icas pa a se em pos as em p á ica.
Pa a Kadushin & Ma in (1988), a negligência é um p oblema mui o
mais sé io que o abuso sexual e o abuso ísico. Ce ca de 85% das c ianças
expe iencia am du an e a sua in ância alguma o ma de negligência (Cook,
1991).
Ge almen e na de inição de negligência, a ên ase é pos a nos ac os de
omissão (Kau man, 1983). Segundo Polanski e al.(1975), a negligência é uma
condição na qual alguém esponsá el pela c iança, que delibe adamen e, que
33
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
a a és de al a de a enção ex ao diná ia, pe mi e que a c iança expe iencie
so imen o e i á el e/ou alhe em p opo ciona um ou mais dos ing edien es
ge almen e conside ados essenciais pa a o desen ol imen o ísico, in elec ual e
emocional.
Fo am já ei os á ios es udos, no sen ido de se de ini quando é que um
acon ecimen o pode se conside ado abusi o ou negligen e (Al e , 1985,
Snyde , & Newbe ge , 1986; Feldman e ai., 1993). Zellman, (1990), e e e no
en an o que pe manece ainda algum desconhecimen o quan o aos aciden es
oco idos na in ância mo i ados po negligência (Ma golin, 1990; Reese &
G odin, 1985).
Segundo Feldman e ai., (1993), as decisões do pessoal de saúde em
a ibui à negligência dos pais de e minados a ogamen os oco idos na in ância,
são g andemen e in luenciadas pela aça e pela classe socioeconómica das
amílias das í imas.
Snyde e Newbe ge , (1986), ealiza am um es udo que isa a sabe
qual a opinião de á ios p o issionais de se iço hospi ala quan o aos casos de
a ogamen o oco idos, que pode iam e sido mo i ados po negligência ou po
abuso. As assis en es sociais e as en e mei as julga am os casos de uma o ma
mais se e a, compa a i amen e aos pedia as e aos psiquia as. Num es udo
semelhan e ealizado po Feldman e ai (1993), ambém as assis en es sociais
e ela am a alia os casos mais se e amen e, embo a as en e mei as se
34
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
i essem mos ado menos se e as que os pedia as, con a iamen e aos dados
ob idos no es udo de Snyde e Newbe ge (1986).
4.
Fac o es de isco e ac o es de p o ecção do mau- a o
Fac o es de isco
E econhecido de o ma gene alizada en e os p o issionais, que uma
mul iplicidade de ac o es de isco e ac o es p o ec o es es ão associados à
oco ência / não oco ência de abuso e negligência à c iança (B own e ai.
1998).
A p esença de ac o es de isco múl iplos aumen a a p edisposição pa a
o mau- a o à c iança, al como oi encon ado em elação às deso dens men ais
na in ância (B own e ai. 1998); Ru e , 1979;
Same o ,
1989).
In es igações an e io es iden i ica am as qua o g andes classes de
a iá eis associadas ao isco de abuso à c iança: as a iá eis demog á icas, as
elações amilia es, as ca ac e ís icas pa en ais, e as ca ac e ís icas das c ianças
(Belsky & Vond a, in p ess).
O mau a o pa ece de e -se a uma conjugação de ac o es de o dem
indi idual, amilia , social e cul u al, sendo ambém consequência de um
35
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
conjun o de causas, o que oma di ícil, ob iamen e, iden i ica a e iologia
(Ci illo e Blasio, 1991).
Fala de mau a o implica en ão a a aliação dos ac o es que pode ão
con ibui pa a a sua se e idade e que po isso acili am ou di icul am a
in e enção, cons i uindo em pa alelo isco e iden e pa a o desen ol imen o da
c iança.
O modelo ecológico do mau a o in an il p opos o po Ga ba íno
(1980),
explica o enómeno a a és de á ios ac o es. Pa a além dos ac o es
de p edisposição de ipo indi idual, amilia , social e cul u al, e e e ainda
ac o es de mediação ep esen ados pelas edes de apoio e de ajuda social e
ac o es desencadean es que dizem espei o às di e en es e apas da ida, às
in e p e ações e às pe cepções que os sujei os êm dos acon ecimen os e ao seu
s ess.
O quad o seguin e p e ende esumi es e modelo ecológico.
36
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Modelo ecológico do mau a o in an il de J. Ga ba ino (1980)
Fac o es indi iduais Fac o es amilia es Fac o es sociais Fac o es cul u ais
es abilidade do casal
•pe cepção das •in e acção en e os • edes sociais o mais e
•a i ude ace à iolência
p óp ias expe iências memb os da amília in o mais
in an is •a i ude ace aos cas igos
•necessidades pa icu-•bem-es a ge al da
•p á icas educa i as la es de cada um dos
memb os comunidade •a i ude ace à educação
•saúde ísica e men al
•es u u a amilia •condições de habi abilidade •concepção de amília
• ole ância às us ações •in eg ação social • concepção de
• edes de elações amilia es sociedade
•como p ocede pa a a •es u u as de apoio da
solução do p oblema • iolência amilia comunidade •concepção das ins i uições
de apoio à amília
•capacidade de aze en e às • ecu sos económicos
di iculdades •signi icado a ibuído aos
•desemp ego concei os de mé i o,
•imagem de si mesmo indi idualismo, p og esso e
ecnologiaindi idualismo,
• con ole p og esso e ecnologia
1
Sis ema social de apoio/Rede social
G au de conexão e qualidade das elações in e pessoais da amília
Filiações em ins i uições e em o ganizações
2
Sucessos nas di e en es e apas da
ida In e p e ação dos ac os S ess subjec i amen e sen ido Mau- a o à
c iança
3
1) ac o es que p edispõem
2) ac o es de mediação
3) ac o es que p ecipi am
Não é a p esença de um ac o especí ico, mas an es o núme o o al de
ac o es de isco p esen es, que es ão elacionados com os ou comes mais
nega i os (Sei e ,
Same o ,
Baldwin, & Baldwin, 1992).
37
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Ko ch, e ai., (1995), num es udo e ec uado pa a es a o modelo
ecológico de mau a o, demons a am que e ecebido ajuda da Medicaid ,
ní el de educação ma e nal baixo, a p esença em casa de uma c iança
dependen e, dep essão ma e nal e a sepa ação p ecoce da mãe, são ac o es que
aziam p e e si uações de mau a o à c iança du an e os p imei os anos de
ida. Es es au o es pude am ambém e i ica que de e minados
acon ecimen os de ida endiam a aumen a ou a diminui o isco de denúncias
de mau a o, dependendo da p esença de supo e social. Resul ados
semelhan es o am obse ados nos 2 p imei os anos de ida (ko ch e ai.,
1997).
Es es es udos pe mi i am ambém conclui que o ní el de educação
ma e nal, os p oblemas psicossociais ma e nais ais como a dep essão,
sin omas psicossomá icos, o consumo de álcool, a pa icipação em p og amas
de supo e público ais como Aid o Families wi h dependen Child en (AFDC),
Food S amps, Special Supplemen al Food p og am o Women, In an s and
child en
(WiC,
o ac o de e ou as c ianças dependen es em casa, e o ac o de
a mãe e i ido só a é à idade de 14 anos com a sua p óp ia mãe, cons i uíam
ac o es que aziam p e e mau a o à c iança, a é ao 4o ani e sá io da c iança.
Os dados da in es igação indicam que a p e alência dos casos de abuso
e negligência é maio jun o das amílias de baixo supo e social (Ga ba ino,
1980;
S auss 1979; Whipple e al. 1991; Ko ch e al. 1999). Há no en an o,
e ei os de acúmulo en e es a a iá el e a oco ência de e en os de ida
s essan es ou a dep essão pa en al. É de ac o en e as amílias com ele ados
38
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Não obs an e, a p esença de índices ele ados de mau a o ísico, em
c ianças p ema u as, de icien es, ou de baixo peso (Whi e, Benedic ,
Wul ,
&
Kelley, 1987), es a endência não oi con i mada de o ma gene alizada em
odas as in es igações e ec uadas e os esul ados são inconsis en es ambém,
quando se a alia a saúde global, a u ilização de cuidados in ensi os ou a
p esença de handicaps ísicos. Apesa de udo, adop ando a pe spec i a
in e accional p econizada po Belsky é comp eensí el que ais ac o es de
ulne abilidade não cons i uam ac o es de isco em odas as si uações. Tal ez
se ap esen em como um isco, em amílias com pais ambém ulne á eis po
azões de ipo psicológico ou social.
Os es udos ambém apon am pa a o ac o de as apa igas es a em em
maio isco de abuso sexual do que os apazes (Jason, e ai., 1987, ci in B own
é al. 1998).
4.1.2.
Fac o es neu opsicológicos
Johnson & Mo se (1968), a i mam que 70% das c ianças de amílias
abusi as êm p oblemas ísicos ou de compo amen o an es do abuso e luga .
Numa in es igação e ec uada po Knu son e ai. (1993) que aba cou
uma amos a de 351 c ianças em idade p é-escola , com di iculdades de
45
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
comunicação associadas a p oblemas audi i os, de linguagem, bem como a
al a de ape i e, o am encon ados indícios de negligência e de abuso
emocional, bem como de abuso ísico e sexual. Segundo A uaba ena e Paul
(1994),
há dados que con i mam, que exis em mais p oblemas de
compo amen o, em c ianças mal a adas. Con udo, segundo Belsky (1993),
não pe manece cla o na ac ualidade se as c ianças ap esen am mais p oblemas
de condu a, ou se são unicamen e en endidas como mais p oblemá icas po
pa e dos pais, nem se ais p oblemas de condu a, no caso de exis i em, são
p é ios ou pos e io es à eme gência do mau a o ísico.
F ied ich & Bo iskin (1976); Knu son, Scha z, & Zaidi (1991),
encon a am sin omas de ADHD (Dis ú bio Hipe ac i o po Dé ice de
A enção), associados ao abuso. Con udo num es udo e ec uado po Whi mo e
e ai. (1993), em dois g upos de i mãos: um com sin omas de hipe ac i idade e
o ou o não ap esen ando es es p oblemas, não oi possí el encon a uma
elação posi i a en e o g au de hipe ac i idade/sin omas de ag essi idade e o
ní el de mau a o. Segundo Whi mo e e al. (op. ci .), o compo amen o
hipe ac i o da c iança não oi conside ado um ac o capaz de desencadea a
endência pa en al pa a o abuso. "Thus he hypo hesis ha hipe ac i e child en
would epo mo e physical punishmen , ha she discipline, less posi i e
pa en al con ac , and mo e pa en al ejec ion was no suppo ed."
46
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Mui os in es igado es que a i ma am exis i uma elação posi i a en e
hipe ac i idade e abuso, não incluí am nos seus es udos um g upo de i mãos
pa a con ola as a iá eis amilia es (Whi mo e e ai., 1993)
F odi (1980), es udou ambém as ca ac e ís icas in an is que
desencadeiam os maus a os pa en ais. Pôde e i ica que os compo amen os
ag essi os e desag adá eis, ais como o cho o es iden e e con ínuo das
c ianças, o a aso em adqui i o con olo dos es ínc e es e a epugnância pelas
e eições são compo amen os suscep í eis de ge a em maus a os ísicos nas
c ianças.
4.1.2 1. Tempe amen o
Segundo Chess & Thomas (1983), o empe amen o é o conjun o das
di e enças indi iduais ealçadas do compo amen o espon âneo e eac i o, que
se man êm ao longo da ida da c iança e que se julga e em in luência na sua
in e acção com os pais e na o ma como esponde a si uações no as.
Pa ece exis i uma elação en e o empe amen o do bébé e a in e acção
com a mãe. Belsky (1984), ci ando Campbell diz-nos que, se as mães
classi icam de di ícil o empe amen o do ilho aos ês meses de idade, êm
com es e uma in e acção de pio qualidade.
47
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Pa a Ca ey (1986), as si uações de abuso ou negligência não êm a e
somen e com a iá eis psicológicas ou sociais po pa e dos pais. Segundo a
au o a, o empe amen o do bébé desempenha ambém um con ibu o mui o
impo an e. A c iança em isco é pe cebida pelos pais como endo um
empe amen o di ícil.
Segundo Chess e Thomas (1983) exis em no e domínios undamen ais
no es udo do empe amen o na in ância. São eles:
• O ní el de ac i idade que diz espei o ao compo amen o mo o
obse ado du an e du an e o banho, nas e eições e du an e o sono.
• A i micidade que é e e en e à p edic ibilidade ou imp edic ibilidade
das unções biológicas.
• A ap oximação - e acção que diz espei o ao ipo de espos a a no os
es ímulos.
• A adap abilidade que se e e e às eacções a no as si uações.
• O limia de espos a que a alia o ní el de in ensidade da es imulação
que é necessá ia pa a que a c iança eaja.
• In ensidade da espos a que é e e en e à ene gia que a espos a con ém.
• Qualidade de humo que es á associado à quan idade de boa ou má
disposição do bébé du an e o dia.
• Dis ac ibilidade que es á ligada à acilidade ou di iculdade com que a
a enção do bébé so e pe u bações.
48
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
• Pe sis ência que a alia o g au de acilidade ou di iculdade com que a
c iança se consegue man e em de e minada ac i idade.
Pa ece ambém exis i uma in luência ecíp oca en e o empe amen o
da c iança, pad ões de inculação e supo e social. Quando os bébés são
acilmen e i i á eis e o con ex o social é de baixo supo e pa ece
desen ol e em-se de o ma mais equen e pad ões de inculação insegu a,
pois segundo C ockenbe g (1981), o ac o dos bébés se em acilmen e i i á eis
ocasiona nas suas mães uma maio endência pa a uma meno eac i idade o
que con ibui á pa a o apa ecimen o de um pad ão de inculação insegu a.
Belsky (1980), ambém conside a o empe amen o da c iança como um
dos ac o es de isco associados ao mau a o e a i ma que quando os pais
possuem pouca ou nenhuma expe iência em cuida de uma c iança e são
con on ados com um ilho de di ícil empe amen o, com de iciências ísicas
ou p ema u o, é mui o possí el que o mal a em, se não lhe o dado apoio po
um amilia ou amigo.
4.1.2.2. Vinculação
Es e concei o p opos o po Bowlby, (1969). Segundo es e, o
desen ol imen o des a ligação a ec i a elaciona-se com o desen ol imen o
49
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
cogni i o. A inculação é ca ac e izada po compo amen os que isam busca
ou man e a p oximidade espacial e o con ac o ísico. O compo amen o de
inculação é pa a Bowlby (1969) " is o como aquilo que oco e quando são
ac i ados ce os sis emas compo amen ais". Es e au o diz-nos ainda que os
sis emas compo amen ais que se desen ol em no bébé são u o da sua
in e acção com o meio ambien e e, mui o especialmen e, u o da sua
in e acção com a p incipal igu a desse meio que é ipicamen e a mãe. Pa a
Bowlby, a unção da inculação é aumen a as possibilidades de p o ecção da
c iança.
A elação de inculação começa ce ca do Io ano de ida, o que coincide
com o desen ol imen o da locomoção na c iança, pe mi indo-lhe busca e
man e a p oximidade, em ez de con ia apenas nos sinais ex e io es pa a
cap a a a enção do p es ado de cuidados. Assim, os compo amen os de
inculação começam a ocaliza -se à ol a de uma igu a ou de á ias igu as
pa icula es, no malmen e o p imei o p es ado de cuidados.
B e he on (1985), suge e que o sis ema de inculação unciona como
um sis ema de manu enção de segu ança. O compo amen o de inculação se á
ac i ado mais in ensamen e em siuações nas quais a c iança expe imen a
ansiedade ou pânico.
Bowlby (1969) p opôs que a qualidade da inculação depende da
apidez e p on idão das espos as dos adul os aos sinais da c iança. Assim
sendo, as c ianças endem a o na -se inculadas de o ma segu a, aos
50
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
indi íduos que de o ma consis en e e ap op iada espondem aos seus
compo amen os de inculação. Ainswo h e os seus discípulos (Ainswo h,
Bleha , Wa e s, & Wall, 1978) p opuse am que uma inculação segu a da
c iança à mãe, eme ge de uma mãe que é sensí el às necessidades e sinais da
c iança. Con udo, compo amen os insensí eis da mãe pa a com a c iança não
conduzem necessa iamen e ao não es abelecimen o de nenhuma elação de
inculação (Ainswo h, 1980). A c iança, o na-se assim inculada de o ma
insegu a ao p es ado de cuidados.
Ainswo h e ai. (1978), u ilizando um esquema complexo de
obse ação labo a o ial (si uação es anha) iden i ica am ês pad ões ge ais
median e os quais se o ganizam os compo amen os de inculação:
• Pad ão A- pad ão de inculação ansiosa é i an e. Os bébés são
classi icados como "ansiosamen e apegados à mãe e esqui os." Segundo
Ainswo h e ai (1978), e i am a mãe nos con ac os, sob e udo apóscu os
episódios de sepa ação. Mui os deles a am um es anho de melho o ma
do que o azem com a p óp ia mãe.
• Pad ão B- pad ão de inculação segu a. Os bébés classi icados nes e
pad ão ca ac e izam-se po se em ac i os du an e as b incadei as, po
p ocu a em con ac o quando expe ienciam cu os episódios de sepa ação,
sendo en ão acilmen e con o ados e ol ando apidamen e a in e essa em-
se pela explo ação.
51
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
• Pad ão C- pad ão de inculação ansiosa esis en e. Os bébés
classi icados nes e g upo oscilam en e a p ocu a da p oximidade e do
con ac o com a mãe e a esis ência ao con ac o e à in e acção com ela.
Es es pad ões de inculação ecebem in luências de di e sos ac o es e
esul am da e olução da in e acção mãe-bébé. Pa a Bowlby (1969), al como as
ca ac e ís icas iniciais de um bébé podem in luencia o modo como a mãe
cuida dele, ambém as da mãe podem in luencia o modo como o bébé lhe
esponde. Po seu lado o papel da mãe na si uação é complexo. "De i a não só
da sua do ação ina a mas ambém de uma longa his ó ia de elações
in e pessoais em sua amília de o igem, (...) assim como da longa abso ção dos
alo es e p á icas da sua p óp ia cul u a" (Bowlby, 1969).
C i enden (1985) p opõe o pad ão de inculação A-C pa a as c ianças
abusadas e negligenciadas, que inicialmen e o am classi icadas como segu as.
Es as não ap esen a am os adicionais ní eis baixos de esis ência e
e i amen o em simul âneo com ní eis mode ados e ele ados de p oximidade,
p ocu a e manu enção do con ac o, ípicos das c ianças segu amen e inculadas
(Ca lson e ai, 1989). Es as c ianças ap esen am uma combinação o a do
comum de al os ní eis que de e i amen o, que de esis ência na busca da
p oximidade e da manu enção do con ac o.
Main e Solomon (1986, 1990), desen ol e am as ca ac e ís icas de um
pad ão deso ganizado /deso ien ado ou g upo D. Es es au o es encon a am em
conjun o, os compo amen os desc i os na ca ego ia A-C, mui o embo a o que
52
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
se o nou mais e iden e osse a pe da comple a de es a égias necessá ias pa a
lida em com o s ess. Es as c ianças ambém demons am ou os
compo amen os: mo imen os incomple os, não di igidos e con ínuos; al a de
ac i idade, mo imen os len os, assimé icos e inopo unos (Main & Solomon,
1990).
Ainswo h e os seus discípulos, e i ica am que as mães das c ianças
segu as e am p es ado as de cuidados mais sensí eis e esponsi as e que as
necessidades das c ianças e am sa is ei as p on amen e e ap op iadamen e.
Quando as c ianças es a am s essadas, apidamen e p ocu a am a igu a de
inculação. As c ianças endiam a se acilmen e acalmadas e con o adas pela
igu a de inculação e apidamen e se mos a am p on as pa a explo a uma
ez mais o ambien e.
As mães das c ianças insegu amen e inculadas endem a se
insensí eis, não disponí eis, não esponsi as e espondem de o ma
inap op iada aos ilhos. As mães das c ianças ansiosas/e i an es endem a se
mais ejei an es, mal humo adas, en ol idas excessi amen e e de o ma
abusi a. As suas c ianças desen ol em es a égias compo amen ais p óp ias
pa a lida com elas. Na sepa ação, as c ianças mos am mui o pouco s ess ou
p eocupação e nos episódios de eunião endem a e i a a mãe, em ez de
busca em p oximidade. As mães das c ianças ansiosas ambi alen es
ca ac e izam-se po e ela em a as amen o, não en ol imen o e inconsis ência
(Ca lson, e ai., 1989). Segundo Mo on e ai (1998) "... adi ional a achmen
53
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
heo y iews ma e nal sensi i i y and esponsi eness as he key de e minan o
he a achmen ela ionship".
Ou os in es igado es apon am pa a o papel da c iança na o mação da
inculação. Mais especi icamen e, que o empe amen o da c iança pode
in luencia a qualidade da inculação. Ce os es udos o am capazes de
p ognos ica a qualidade da inculação a a és de a iá eis empe amen ais
(Ba es, e ai., 1985; Miyake, e ai., 1985). Con udo ou os es udos alha am em
descob i uma co elação en e as co ações ma e nais do empe amen o da
c iança e inculação segu a (Belsky e ai., 1984).
Egeland & Fa be (1984) e i ica am que a qualidade da elação de
inculação e a esponsá el pela mudança dos compo amen os em ambos os
memb os da díade. Se o compo amen o osse po si só o maio de e minan e
da inculação en ão exis i ia a mesma qualidade de inculação com odas as
igu as de inculação, enquan o que a p á ica nos mos a que uma c iança pode
se inculada insegu amen e à sua mãe e mesmo assim es abelece uma
inculação segu a com o seu pai (Main & Wes on, 1981). Pa a além disso, elas
êm a capacidade pa a colabo a , quando um segundo adul o sensí el é
in oduzido, suge indo que o compo amen o da c iança é uma espos a à
in e acção, em ez de se de ido ao empe amen o des a. C i enden (1985)
a gumen a que os seus esul ados con i mam a noção de que uma elação de
inculação é um p ocesso bidi eccional, com a mãe a exe ce a maio
54
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
compa a i amen e às c ianças de al o isco que inham sido classi icados no
pad ão de inculação insegu a.
4.2.
Ca ac e ís icas Pa en ais
Es e domínio em sido objec o de es udo po pa e de di e sos au o es.
Al emei , O'Conno , She od Vi ze (1985), dizem-nos que o ac o de a mãe e
sido mal a ada enquan o c iança pode á cons i ui um o e con ibu o pa a o
desencadea da si uação de mau a o. A ansmissão do mau a o de ge ação
em ge ação em sido, desde há mui o, conside ada quase como uma e idência e
é supo ada po nume osos es udos (Dubowi z e al.,1987; Egan e ai., 1990;
Whipple & Webs e - S a on, 1991), mas es a elação ambém em sido
ques ionada (Haske e ai., 1994).
A in es igação que es uda as deso dens pa en ais psiquiá icas e o abuso
de subs âncias implica a dep essão e as á ias o mas de abuso de subs âncias
como ac o es de isco pa a o abuso ísico e pa a a negligência (Cha in e ai.,
1996;
Dinwiddie & Bucholz, 1993; Kina d, 1996, Whipple & Webs e -
S a on, 1991).
61
Maus a os às c ianças: Abusos e negligencia
Exis e uma associação cla a en e abuso ísico à c iança e algumas
doenças psiquiá icas que a ec am os pais ais como a esquizo enia e ou as
deso dens bipola es (Cha in e ai., 1996; Dinwiddie & Bucholz, 1993). Es as
deso dens causam maio p edisposição pa a a negligência do que pa a o abuso.
O ac o de se e sido mal a ado enquan o c iança p o oca uma
ausência de compe ências necessá ias a lida com as condu as das c ianças e
le a à u ilização do cas igo ísico como a única es a égia ap endida. Wol e
(1985).
Num es udo, McC one, e ai., (1994), concluí am que as mães que
inham sido í imas de abusos em c iança, mas que não abusa am dos seus
p óp ios ilhos, inham ido na sua in ância o supo e de uma pessoa adul a ou
inham sido sujei as a psico e apia in ensa (Egeland e
ai,
1988).
Ainda num abalho ealizado po Es o e ai. (1994) 52% das mães
com p oblemas de mau a o ísico pon ua am acima do pe cen il 95, numa
p o a que a alia a a p esença de sin oma ologia ge al de ipo psicopa ológico.
Nou os es udos assinala-se uma p esença cla a de sin oma ologia dep essi a,
de ansiedade e equen es queixas de mal es a ísico e psíquico, que es ão
elacionadas de o ma signi ica i a com as in e acções nega i as en e mães e
ilhos.
(Lashey e ai., 1984).
A a és de es udos e ec uados, A uaba ena e Paul, (1994), pa ecem
pode con i ma a hipó ese de que os pais das c ianças com ní eis mais al os de
mal-es a emocional e ísico podem e meno ole ância às condu as a e si as
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
das c ianças e, po an o, podem eagi mais acilmen e com condu as ag essi as
e incon oladas.
Pa a Milne (1990), pa ece se e dade que as mães mal a an es
ap esen am um au o-concei o in e io ao das mães não mal a an es.
Como conclusão, podemos e e i que os di e en es abalhos de
in es igação ace ca da si uação psicológica das pessoas que mal a am, ealçam
que elas ap esen am uma maio p edisposição pa a padece em de mal es a
psicológico (dep essão, ansiedade, hos ilidade, baixo au o-concei o).
4.3.
Con ex o Familia
Há já á ios anos que começa am a su gi abalhos sob e os ac o es
amilia es que con ibuem pa a o isco de maus a os (Adjuko ic, 1993;
Belsky, 1984; Mash, 1991; She od e ai, 1985;). As p imei as hipó eses
coloca am-se na supos a p esença de ans o nos psiquiá icos nos pais, que
explica iam o bloqueio, a dis o ção ou a não aquisição dos ecu sos necessá ios
pa a desempenha con enien emen e o papel de pai ou mãe. A exis ência de
inúme os casos de mau a o in an il, nos quais não se e i ica a nenhuma
al e ação psicopa ológica eio a pô em ques ão ais hipó eses.
63
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Con udo, exis e pouca con icção na demons ação de uma associação
cla a en e abuso ísico à c iança e ou as doenças psiquiá icas que a ec am os
pais ais como a esquizo enia e deso dens bipola es (Cadzow e ai.,
1999;Cha in e ai., 1996; Dinwiddie & Bucholz, 1993) Es as deso dens
pa ecem p edispo mais os indi íduos pa a a negligência do que pa a o abuso
ísico (Oa es, 1996). Cadzow e ai., (1999), nos seus es udos não encon a am
qualque ligação en e abuso à c iança e doença psiquiá ica dos pais de
qualque ipo, mas o s ess ele ado na al u a do nascimen o da c iança e elou
se um ac o com mui o peso no p ognós ico de mau- a o. Também não se
e i icou qualque associação signi ica i a en e as mães com menos de 20
anos e mau a o à c iança aos se e meses de idade. Os au o es a ás ci ados,
dizem-nos que qualque elação en e pa en alidade jo em e abuso ísico à
c iança pode es a dependen e de ou os ac o es, incluindo o isolamen o social
e o s ess p o ocado po p oblemas inancei os.
Iniciou-se en ão, uma omada de consciência, no sen ido de a e igua
quais se iam os ac o es suscep í eis de a ec a o uncionamen o no mal da
amília e que podem da luga a pe u bações num dos memb os.
Alguns abalhos como o de Ga ba ino e Kos elny (1992), põem em
e idência a associação en e s ess socio-económico e mau a o. Os ac o es
sócio-económicos são conside ados ac o es ge ado es de s ess da amília,
embo a sejam ac o es ex e io es ao sis ema amilia .
64
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Segundo D o a e Ecke le (1989), as amílias das c ianças í imas de
maus a os ca ac e izam-se po e em equen es con li os in a amilia es, po
di iculdades de comunicação, pela ausência ísica ou psicológica do pai, po
pa cos ecu sos económicos e po edes de sociabilidade mui o pob es, não só
em elação à comunidade como ambém pe an e a p óp ia amília ala gada. São
ag egados amilia es ca ac e izados sob e udo pelo isolamen o, p e endendo
encon a den o de si p óp ios a espos a às suas di iculdades, mas icando
p og essi amen e mais en ol idos em con li os.
Ba h e Haapala (1993), es udando compa a i amen e amílias que
mal a a am os ilhos de o ma negligen e e ou as amílias, concluí am que as
p imei as ap esen am um leque maio de di iculdades, com endimen os mais
baixos, maio dependência de supo e público, maio incidência de um só pai,
mais p oblemas men ais e de dependências de d oga.
C i enden (1988), a a és de um es udo ealizado, pôde e i ica
ambém, que as amílias que mal a a am os ilhos com compo amen os
negligen es es a am ambém isoladas socialmen e da comunidade onde
es a am inse idas.
Exis em ambém abalhos, que assinalam que uma pa e impo an e dos
casos de maus a os ísicos oco em em amílias monopa en ais, na g ande
maio ia, em amílias nas quais a mãe se encon a sozinha (Sack e ai, 1985).
Também Klosinski (1993) nos ala do mau a o psicológico que oco e
nas c ianças aquando do di ó cio ou sepa ação dos seus pais. Segundo es e
65
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
mesmo au o , podem se iden i icadas como mau a o psicológico, no con ex o
da sepa ação ou di ó cio as seguin es si uações: quando uma c iança é e ida
ilegalmen e po um dos pais e quando os pais êm con li os iolen os na
p esença dela.
Mu phy e ai. (1991), dizem-nos que de 300 amílias mal a an es, que
ize am pa e do seu es udo, 186 (62%) dos pais e am alcoólicos se e os e
c ónicos, sendo a bebida o p oblema p io i á io a esol e .
4.3.1.
"S ess" da Família
Tem sido encon ada uma elação en e s ess e abuso à c iança (Belsky,
1980;
Gaines, Sandg und, G een, & Powe , 1978; Gelles, 1973; S a , 1979).
Exis em po ém uma sé ie de es udos onde não oi encon ada es a elação
(Salzinge , Sami , K iege , kaplan, & Kaplan, 1986).
Tem sido suge ido que é a o ma como se lida com as si uações de
s ess que condiciona a elação en e s ess e abuso à c iança (Baue &
Twen yman, 1985; Belsky, 1980; Conge e ai., 1979; Gaines e ai. 1978).
A in es igação apon a pa a o coping mais pob e dos pais abusi os e
ambém pa a a maio di iculdade que mani es am em en en a os p oblemas da
ida (Egeland, 1979; Jus ice & Duncan, 1976;Le ou neau, 1981).
66
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Apesa das epe idas e e ências aos dé ices de "coping" dos pais
abusi os, não se pode gene aliza , uma ez que es es dados o am ob idos com
populações de al o isco (Casano a, Domanic, Mccanne, & Milne , 1992).
Os pais abusi os, ambém espondem a mudanças nos acon ecimen os
da ida de o ma mais hos il e ag essi a (Baue & Twen yman, 1985, Egeland,
1979).
Exis e igualmen e alguma e idência de maio impulsi idade nas mães
abusi as, compa a i amen e às mães de g upos con olo (Roh beck &
Twen yman, 1986). Os es udos de Wol e & Manion, (1984), apon am pa a a
o ma como os pais abusi os lidam com os s esso s diá ios, que se ca ac e iza
po e i amen o e igno ância na o ma de lida com os p oblemas quando eles
apa ecem, em conjun o com uma endência pa a eagi em aos p oblemas sem
se en ol e em em ac i idades des inadas à sua esolução. Exis e e idência
cla a de que as mães abusi as exibem espos as emocionais mais in ensas pelo
menos nas si uações em que os seus ilhos es ão en ol idos (F odi & Lamb,
1980).
Segundo Can os e ai (1997) a melho o ma de ajuda es as mães se ia
ensina -lhes mé odos mais e icazes pa a lida em com as suas in ensas espos as
emocionais e ajudá-las a ap ende a i e com ní eis ele ados de s ess.
Ao a alia o s ess das amílias mal a an es, Ga ba ino e Kos elny
(1992) pude am e i ica a que elas es a am mais sujei as a ac o es de s ess
do que as amílias do g upo con olo. Assim, o desemp ego, a in e acção
con li uosa en e os pais p ecá ia si uação económica e social, o alcoolismo dos
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
pais,
bem como o uso de d ogas e o núme o de ilhos, ge almen e de qua o a
seis,
es ão associados ao mau a o (Wol ne e Gelles, 1993).
Segundo es es úl imos au o es e baseados num es udo ei o nos es ados
unidos da Amé ica "Ou da a a e consis en wi h a s uc u al social s ess
model o amily, iolence, whe e social and economic s esso s a e posi i ely
co ela ed wi h abusi e iolence. The younges , poo es mos socially isola ed
and economically us a ed ca e ake s a e he mos likely o ac iolen ly
owa d hei child en."
She od e al (1985) jus i icam os ac os de maus a os a a és de um
modelo que conside a de e minados ac o es que ge am mau a o, en e eles o
limia de ole ância ao s ess, de al o ma que, quando o limia de ole ância ao
s ess é ul apassado, oco e o mau a o.
4.3.2.
Es u u a Familia
Minuchin, ci ado po Sampaio (1991) de ine es u u a amilia como
sendo um conjun o in isí el de necessidades uncionais que o ganiza o modo
como os elemen os da amília in e agem. É a a és dos con ac os p oduzidos ao
longo do empo que se es abelecem os pad ões de in e acção que uncionam
como eg as de condu a pa a os elemen os que azem pa e da amília.
68
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Baseados em mais de um milha de amílias ame icanas, os es udos de
Olson (1983), ca ac e izam a es u u a amilia a pa i de ês dimensões
undamen ais: "a coesão, a adap abilidade/ egulamen ação e a comunicação".
A coesão diz espei o ao modo como se o ganiza a amília. As amílias
de al a coesão (aglu inadas) ca ac e izam-se pela di iculdade que ap esen am
de adap ação à mudança. As amílias de coesão baixa (desag egadas),
ca ac e izam-se pela di iculdade que ap esen am em se de ende em de udo o
que enha do ex e io .
Em elação à adap abilidade/ egulamen ação, al como acon ece
quan o à coesão ambém exis em dois ex emos: as amílias ígidas que
possuem uma adap abilidade mínima, pequena capacidade de ans o mação;
as amílias caó icas nas quais não exis em eg as de inidas e possuem es u u a
deso ganizada.
A comunicação amilia , é segundo Sampaio (1991), uma dimensão
acili an e, is o é, ajuda o mo imen o no sen ido da coesão e adap abilidade. As
amílias dis uncionais ca ac e izam-se po um desequilíb io da coesão e
adap abilidade e a comunicação ende a se nega i a. A amília, ainda segundo
Sampaio (1991) de e á se su icien emen e coesa pa a que os seus memb os se
sin am ligados, mas de o ma que essa união não impeça a indi idualidade. A
amília de e á e um equilíb io en e homeos asia e mudança .
Concluímos, salien ando ambém a impo ância da es u u a amilia
nes a p oblemá ica.
69
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
5. Consequências dos Maus T a os
Nos úl imos anos, em-se eco ido aos p incípios da Psicopa ologia do
Desen ol imen o, pa icula men e pa a o es udo das sequelas do mau a o na
in ância (Cicche i & To h, 1995).
Segundo B assa d e ai (1987), os ac os ge ais de mau a o ( ísicos,
injú ias, ejeição psicológica) podem se expe ienciados po c ianças de odas
as idades. Con udo os e ei os que p oduzem a iam em unção do
desen ol imen o (Cicche i & Rizley, 1981; Ga ba ino, Gu man & Seeley,
1986).
O cas igo ísico e os seus e ei os nas c ianças, êm sido, segundo
Ca lson (1991), la gamen e es udados pelos sociólogos. Con udo, es es es udos
pouco êm pe mi ido conclui quan o às elações exis en es en e o uso do
cas igo ísico po pa e dos pais e os esul ados que daí ad êm.
A li e a u a especializada, ace ca das consequências dos maus a os,a
cu o e a longo p azo, em pos o em e idência a p esença de dis ú bios em
á ias unções, e em á ias es e as da ida da c iança como, po exemplo na
ap endizagem, na mani es ação da ag essi idade, na capacidade de socialização
e de es u u ação de ínculos in e pessoais, no desen ol imen o da in eligência
e das compe ências linguís icas.
70
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
cons a ado que ap esen a am uma g ande endência pa a a dep essão, baixa
au o-es ima, mas não exibiam compa a i amen e ao g upo con olo (adul os
que não inham sido í imas de abusos na in ância) mais dé ices a ní el do
compo amen o adap a i o. Segundo os au o es a dep essão e a baixa au o-
es ima são consequências a longo p azodas expe iências de abuso in an il.
Segundo Beeghly e Cicche i (1994), as c ianças de 2 anos de idade,
í imas de maus a os demons am possui a asos signi ica i os na linguagem
e em "skills" de comunicação, ela i amen e aos g upos con olo. Mais a de
es as mesmas c ianças, mos a am a asos, pa icula men e em "skills"
p agmá icos que se des inam a inicia e a man e a con e sação.
Os dé ices de linguagem ap esen ados pelas c ianças mal a adas, bem
como os a asos na comunicação, encon ados em es udos ei os po P izzan &
We he by (1990) podem se de idos, segundo Beeghly e Cicche i (1994) ao
ambien e linguís ico e a ec i o ex emamen e deso ganizado que i em no seio
das amílias mal a an es e ambém ao ac o des as amílias dispende em menos
empo em con e sações e diálogos, compa a i amen e às amílias não
mal a an es. Silbe (1990), diz-nos que du an e uma a e a de esolução de um
con li o, as amílias que mal a am e am menos p opensas a en e eda po
a e as cen adas na in e acção e bal e inham ilhos que e am menos
p opensos a inicia diálogos, compa a i amen e às amílias não mal a an es.
Qasem e ai, (1998) e e em ambém, que o abuso ísico em c ianças,
em impac os a longo p azo na saúde e no seu modo de uncionamen o. Mullen,
77
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Ma in, Ande son, Romans e He bison (1996), apon a am nos seus es udos,
pa a que oda e qualque o ma de abuso ( ísico, sexual, ou emocional) es a a
associado com ní eis ele ados de psicopa ologia, di iculdades sexuais, baixa
au o-es ima, e p oblemas de elacionamen o in e pessoal.
Ou as in es igações êm igualmen e pe mi ido conclui , que as c ianças
í imas de maus a os, exibem compo amen os mal adap a i os ou
socialmen e indesejá eis na in e acção com os seus pa es, no g upo (Muelle &
Sil e man, 1989).
Geo ge e al., (1979), nas suas in es igações e i ica am que as c ianças
que inham so ido abusos e am mais ag essi as que as ou as. Du an e
obse ações ei as num ja dim de in ância, as c ianças mal a adas exibiam
mais ag essão e menos compo amen os p ó-sociais que o g upo de con olo
(Haske & Kis ne ,
1991;
He enkohl & He enkohl, 1981; Howes & Eld idge,
1985;
Howes & Espinosa, 1985; Klimes-Dougan & Kis ne , 1990; Main &
Geo ge, 1985). Também num es udo e ec uado em c ianças com idades
comp eendidas en e os 6 e os 8 anos, as c ianças mal a adas o am
classi icadas pelos seus p o esso es como mais ag essi as em elação aos seus
pa es (Reidy, Ande egg, T acy, & Co le , 1980).
Em sessões e ec uadas num labo a ó io, Jacobson e S ake (1982),
obse a am igualmen e que, c ianças mal a adas com idades comp eendidas
en e os cinco e os dez anos in e agiam em meno quan idade e dispendiam
menos a ec o posi i o compa a i amen e aos seus pa es, embo a não i essem
78
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
mani es ado mais compo amen os hos is. Kau man e Cicche i (1989),
pude am ambém e i ica que, c ianças mal a adas com idades
comp eendidas en e os 5 e os 11 anos, ap esen a am sco es mais baixos nos
a ios de compo amen o p ó-sociais e au o-es ima mais baixa,
compa a i amen e aos seus pa es.
O es udo de Manion e ai., (1998), demons ou que as c ianças í imas
de abuso sexual in lingido po um não amilia , e ela am p oblemas de
ajus amen o nos domínios emocional e compo amen al.
O uncionamen o no domínio social não se mos ou a ec ado nas
c ianças í imas de E S A (Ex a Familial Sexual Abuse), ao con á io de
ou os es udos (Bu gess, Ha man, & McCo mack, 1987; kelley, 1989). Os pais
das c ianças í imas de E S A, con a iamen e a es udos an e io es (kelley,
1990) ambém não se mos a am ão a ec ados quan o as mães.
Segundo Manion e ai., (1998), os esul ados do seu es udo suge em que
as c ianças que o am abusadas po alguém o a da amília mais p óxima,
ap esen am p oblemas no uncionamen o emocional e compo amen al.
Embo a sejam no adas melho ias no modo de uncionamen o, um ano depois
da oco ência do abuso sexual, as c ianças con inuam a mos a do pon o de
is a clínico di iculdades de ajus amen o. O auma expe ienciado po es as
c ianças é pa ilhado pelos seus pais, com as mães a e ela em maio endência
pa a e ei os secundá ios.
79
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
6. Es a égias de p e enção e de in e enção
Exis em indicado es bas an e con incen es de que p og amas de
p e enção pa a amílias de al o isco podem eduzi o abuso ísico e a
negligência (Olds e ai., 1997; Olds, Hende son, Chambe lin & Ta elbaum,
1986;
Olds, Hende son, Ki zman, & Cole, 1995) e p oduzi ou os esul ados
nas c ianças, mães e amílias (A ms ong, F ase , Dadds, & Mo is, 1999;
Johnson, Howell, & Molloy, 1993; Olds, Hende son, & Ki zman, 1994).
Conside a-se que exis e um g ande leque de a iá eis
sociodemog á icas que cons i uem um isco pa a o abuso ísico. A li e a u a
diz-nos que nenhum ac o de isco po si só é de e minan e. Exis em sim uma
sé ie de indicado es bem de inidos. Os mais ci ados equen emen e são a idade
ma e nal mui o jo em, a pob eza, a monopa en alidade, o isolamen o social o
abuso pa en al de subs âncias, as doenças psiquiá icas, e a his ó ia de abuso na
in ância (Bu ell, e ai., 1994; Cadzow, 1999).
Os p og amas de p e enção p imá ia, desen ol idos jun o dos g upos de
al o isco, baseados em isi as domiciliá ias, no sen ido de p omo e as
compe ências e aumen a o ecu so de apoios sociais disponí eis no meio,
desde que acompanhem de idamen e as mães du an e a g a idez e o pós-pa o
êm ido algum sucesso (Cadzow, op. ci .).
80
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
O pe íodo an e io ao pa o é a o á el à iden i icação de amílias em
isco,
pois ele pe mi e que se iniciem a empadamen e a adopção de medidas
p e en i as e o es abelecimen o de uma e dadei a elação com a amília.
Uma á ea onde a eo ia da inculação pode e in luência é na á ea da
in e enção. Se a elação p es ado de cuidados-c iança é is a como uma
elação que a enua os e ei os dos agen es s essan es, en ão de em se
desen ol idos p og amas pa a en a o alece es a elação. Alguns es udos
êm p ocu ado in luencia o desen ol imen o da inculação, is o é, mudando
uma elação insegu a pa a uma elação de inculação segu a (Mo on e ai.,
1998).
Ou os es udos êm en ado inc emen a a sensibilidade pa en al a a és
da educação pa en al, modelagem e supo e, ou endem a ocaliza -se em
modelos in e nos de ep esen ação da inculação e na o ma como eles podem
in luencia as elações.
Qualque p og ama desen ol ido pa a aze um p ognós ico e p e eni
o mau a o à c iança, necessi a de econhece que es ão en ol idos múl iplos
ac o es. Também pelo ac o de o sucesso da in e enção se limi ado depois de
o abuso e oco ido, es e p og ama necessi a de se capaz de p e e quais as
amílias que es ão em isco, com p oblemas na unção pa en al an es de oco e
o mau- a o p op iamen e di o (Wol e, 1984).
Igualmen e, segundo Bonne (1993) é necessá io que a p e enção aos
maus a os, se inicie po ezes, ainda du an e a g a idez. Só des a o ma, é que
81
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
mui as c ianças podem se p o egidas de possí eis iscos de iolência ou
negligência aquando do nascimen o. A au o a diz-nos ainda que a adopção no
ac o do nascimen o da c iança, pode á cons i ui uma medida p e en i a e
indispensá el em ce os casos, quando as mães ap esen am p oblemas
psicológicos mui o g a es e enunciam de o ma delibe ada à sua
esponsabilidade pa en al. O p oblema dos abusos à c iança pode se
melho ado de o ma signi ica i a, se e lec i mos sob e as pala as de B iggs
(1991),
quando a i ma que a cha e pa a a p e enção de e se a capacidade pa a
iden i ica c ianças ulne á eis e pais em amílias de al o isco e em si uações
sociais que p edispõem pa a compo amen os iolen os con a a c iança.
Os p og amas de p e enção secundá ia desen ol idos jun o de amílias
que i ima am pelo menos um dos ilhos, ap esen am um g au de sucesso
mode ado, pois após a in e enção, pelo menos num em cada ês casos
con inuam a e i ica -se maus- a os (Eme y, 1989).
O es udo de Alba acin e ai., (1997) apon a pa a a exis ência de uma
in luência di ec a do supo e social no abuso e na negligência. Exis em o es
bene ícios no " o alece posi i o" e nas elações de supo e com a amília
nuclea e com a ala gada pa a a p e enção do abuso e da negligência à c iança.
As es a égias de p e enção de e iam inclui a educação dos pais no
que conce ne aos cuidados a p es a aos ilhos ecém-nascidos e du an e a
p imei a in ância, isi as de apoio ao domicílio que isassem o ensino de
compo amen os e a i udes ap op iados, supo e indispensá el pa a supe a as
82
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
g a es ca ências económicas des as amílias de isco e a c iação de legislação
e icaz pa a as si uações de mau a o à c iança.
Segundo Elme (1966); Gil (1970); Kempe, Sil e man, S eele,
D oegemuelle & Sil e (1962), a medicina, a sociologia, a psicologia, os
écnicos de se iço social e ou os êm con ibuído pa a a de inição do
p oblema dos maus a os e pa a o desen ol imen o dos mé odos de
in e enção, no en an o, e apesa do con ibu o das á ias ciências e dos á ios
écnicos, econhece-se hoje que o p oblema dos maus a os se de e a múl iplas
causas. Os abalhos de Blumbe g (1977); B an & Tisza (1977), Cohn (1979);
Galleno & Oppenheim (1982);G azio (1981); G een (1975); G een (1976),
apon am pa a a necessidade de equipas compos as po pessoas com o mação
em á ias á eas, pa a a in es igação sob e a c iança mal a ada e pa a a
ealização de planos e icazes de p e enção e a amen o.
A maio pa e dos p og amas pos os em p á ica, nas si uações de mau
a o são p og amas de p e enção secundá ia (pa a eduzi os casos exis en es)
e de p e enção e ciá ia (pa a eduzi em sequelas/complicações) e êm-se
cen ado p incipalmen e nas c ianças í imas, que na g ande maio ia dos casos
são e i adas à amília a í ulo p o isó io e mui as ezes, de ini i o, apesa do
n°6 do a igo 36° da Cons i uição da República Po uguesa nos dize que " os
ilhos não podem se sepa ados dos pais. Segundo De deyn, (1977) "(...)
emo al o he child om he pa en -e en a dange ous, abusi e pa en -is i sel
auma ic o he child".
83
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Com a colocação da c iança numa ou a amília que não a sua, ou com a
colocação ins i ucional, a c iança ê "ampu adas" as suas elações com os pais
e i mãos. San os (1990) diz-nos que exis e uma iolência es u u al na si uação
de in e namen o ao desloca em-se as c ianças das pessoas, das e as, dos
objec os signi ica i os e pe dem a sua iden idade.
O ipo de ac uação cen ado essencialmen e na e i ada da c iança em
isco da sua amília dis uncional, ap esen a mui os e ei os nega i os na medida
em que ai e o ça os sen imen os de des alo ização e incompe ência dos pais,
os quais segundo Lopes dos San os (1994) são pessoas suscep í eis de se em
ajudadas. Es es na maio pa e dos casos não i e am expe iências in an is
es u u an es, an es pelo con á io poucos conhece am uma amília no mal
(He enkohl, e ai., 1983).
Um dos meios de p o ecção à c iança mal a ada de e se um p og ama
que apoie ambém a sua p óp ia amília. Alguns p og amas de p e enção
p imá ia do mau a o in an il, adop a am a es a égia da in e enção na
comunidade. Es es englobam o e apoio social às amílias de al o isco. O
p oblema dos maus a os segundo os écnicos do "P ojec o de Apoio à Família
e à C iança", c iado pela Resolução do Conselho de Minis os Po uguês 30/92
de 18 de Agos o de e se abo dado na globalidade, comp eendendo a si uação
da c iança mal a ada e do adul o mal a an e de o ma con ex ualizada do
pon o de is a amilia e social.
84
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
É aos écnicos psicossociais (pessoas com compe ências sócio-
psicológicas) que cabe a a e a de in e p e a as azões da iolência, de a alia a
si uação e de da indicações ú eis pa a a cons ução de p og amas que êm
como p incipal objec i o a u ela de meno es. Es es écnicos ambém de em
aze no a à amília a sua esponsabilidade ju ídica pa a com os ilhos (Ci illo
eBlasio, 1991).
O es udo de Manion e ai., (1998), sob e c ianças e pais í imas de
ESA, (Ex a Sexual Abuse) apon a que se á ú il e bené ico ge i a p oblemá ica
dos maus a os, segundo ês dimensões:
• In e acções clínicas com as amílias. Os clínicos necessi am ala ga o seu
a amen o, pa a além das c ianças í imas às amílias auma izadas. Na
ase inicial da descobe a do abuso sexual, a c iança es á mais ulne á el e
como al, de em se e i ados compo amen os que, di ec a ou
indi ec amen e con ibuam pa a aumen a o so imen o da c iança e
con ibuam pa a p oblemas de ajus amen o maio es.
• Linhas o ien ado as aos p o issionais. P og amas educacionais e ma e iais
p opo cionados ao público em ge al e aos pais em pa icula , de em se de
boa qualidade e e icazes. Es es p og amas de em ansmi i as no ícias
enco ajado as de que mui as c ianças que expe iencia am maus a os não
pa ecem ap esen a danos a ibuídos a esse ac o. São as pe cepções da
c iança ace ca do abuso que melho azem p e e o seu ajus amen o, em ez
dos aspec os objec i os do abuso.
85
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
• Planos de acção e planos adminis a i os. A in o mação ú il necessi a de se
p opo cionada apidamen e a pais ansiosos e com di iculdades, isando
eduzi o auma po encial a oda a amília.
Manion e al. (op. ci .) lemb a-nos que não de emos conside a que
odas as c ianças que expe iencia am abuso sexual, es ão auma izadas po
esse ac o. Em ez disso, de e se assumido que a expe iência ep esen a um
auma po encial o qual se á e o çado se exis i uma alha em econhece o
impac o da abuso sexual nos pais e p opo ciona -lhes supo e. Do pon o de
is a clínico é impo an e en a iza as capacidades amilia es quando se lida
com es e auma.
6.1.
Aspec os Básicos dos p og amas de T a amen o Familia
Os Es ados Unidos e o Canadá, êm implemen ado p og amas
ino ado es no campo da abo dagem sis émica que pa em do p essupos o,
segundo A uaba ena e Paul (1994) que "unicamen e si se consigue um ni el
de uncionamen o minimamen e adecuado en la amília en su conjun o y en los
di e en es subsis emas y miemb os indi iduals que la compõem, pod á
posibili a se la desapa ición de la conduc a mal a an e, la es abilidad dei
núcleo amilia y el adecuado desa ollo dei
nino.
"
86
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
• espos as às condu as in an is, al e na i as aos mé odos disciplina es- a
u ilização do e o ço posi i o como écnica pa a consegui que a c iança
enha a condu a desejá el;
• compe ências de comunicação e in e acção -são necessá ias po que
pe mi em aumen a a equência das in e acções pais- ilhos e aumen a as
condu as posi i as e bais e ísicas dos pais pa a com os ilhos.
• Cuidados ísicos in an is- di igidos essencialmen e às amílias
negligen es e que con emplam noções básicas de alimen ação, higiene, oupa
e calçado, cuidados médicos e iden i icação de doenças, e ou os cuidados
pa a com as c ianças.
• Desen ol imen o e olu i o in an il- o conhecimen o des e ema é
impo an e pa a que os pais possam sabe o que a c iança necessi a pa a e
um desen ol imen o e um c escimen o ísico, cogni i o, social e a ec i o
no mal.
93
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
II PARTE
Es udo de algumas a iá eis associadas às concepções de
maus a os de pedia as, psicólogos, p o esso es, educado es
de in ância e écnicos de Se iço social
94
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
In odução
A pe cen agem de c ianças mal a adas é ac ualmen e signi ica i a e o
mau a o é um enómeno socialmen e p eocupan e.
Há ce ca de ês décadas, que os p o issionais de saúde men al e ísica
êm colabo ado no diagnós ico e a amen o das c ianças mal a adas (Sho ,
1998).
Nes e âmbi o, o diagnós ico médico ei o po pedia as em um
impo an e papel. To nou-se a cha e pa a a descobe a do abuso e da
negligência à c iança, bem como a manei a pa a a alia a se e idade do ac o
abusi o (Mu phy, 1995). É sob e udo na in ância, que os pedia as êm um
papel impo an e na sinalização das c ianças em al o isco de abuso ou
negligência. Eles são mui as ezes, os únicos p o issionais que êm con ac os
equen es com as amílias, o que lhes p opo ciona uma boa opo unidade pa a
a alia as es a égias de "coping" da amília, a na u eza das suas in e acções e
elações, e em que medida o bébé es á a se adequadamen e alimen ado e
p o egido (Dubowi z e ai. 1987).
Embo a os médicos, écnicos de Se iço social, psicólogos, p o esso es
e educado es ocupem uma posição a o á el pa a pode em de ec a sinais de
abuso e negligência, an es deles a ingi em es ados mais sé ios (Beeze , 1985,
Ba be & Bu ns, 1986); Ebe lein & Swindlehu s , 1987; Ab ahams e ai.,
95
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
1992),
os esul ados de di e sas in es igações, nomeadamen e as ealizadas po
Ti e (1993), apon am pa a a escassez de in o mação ela i amen e ao modo
como eles de inem a c iança í ima de maus a os.
Ao longo da nossa ca ei a docen e, i emos ocasião de nos depa a
com alguma equência com casos de abusos e negligências. Esse con ac o
mo i ou-nos pa a o es udo do ema e o nosso es udo explo a ó io que ai se
ap esen ado ao longo das páginas seguin es cons i ui o nosso es o ço pa a
conhece um pouco a posição de á ios g upos p o issionais, que à pa ida
ocupam posições impo an es pa a a p e enção e in e enção dos maus a os.
Es a in es igação em como objec i o p incipal a e igua como
di e sos g upos p o issionais (Psicólogos, Técnicos de Se iço Social,
Médicos-Pedia as, Educado es e P o esso es), concebem os maus a os à
c iança. Pa a além des e objec i o p incipal, isa ambém os seguin es:
• Ob e in o mação sob e o conhecimen o que os p o issionais êm de
si uações de maus a os a c ianças.
• A e igua em que medida as concepções dos pa icipan es pode ão es a
associadas à idade dos inqui idos, ao núme o de ilhos e à expe iência ida
com si uações de maus a os.
• Compa a as concepções de maus a os dos di e en es g upos p o issionais
en e si.
• Explo a quais os ac o es que são alo izados pelos pa icipan es, na
o mulação das suas concepções de maus a os.
96
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Mé odo
1.
Pa icipan es
A amos a e a cons i uída po 125 indi íduos ec u ados en e os
seguin es g upos p o issionais: Pedia as, P o esso es do l°ciclo, Educado es
de in ância, Técnicos de Se iço Social e Psicólogos. Ao escolhe mos
memb os com es es es a u os ocupacionais, pa imos do p incípio que no
exe cicício das suas unções ocupam uma posição p i ilegiada em e mos do
con ac o com c ianças e do pon o de is a do conhecimen o e ec i o de casos
en ol endo si uações de maus a os in an is.
A selecção dos pa icipan es e e po base o mé odo in encional de
amos agem (Almeida & F ei e, 1977), con emplando 4 c i é ios de inidos
p e iamen e:
• Os elemen os ec u ados de iam pe ence a um dos cinco g upos
p o issionais an e io men e de inidos (Psicólogos, Técnicos de Se iço
Social, Educado es, P o esso es do Io Ciclo e Médicos/Pedia as).
• Todos os pa icipan es de e iam e expe iência p o issional com
c ianças. Se es e c i é io es a a desde logo assegu adonos pedia as,
P o esso es do l°Ciclo e Educado es de In ância, no caso dos psicólogos e
97
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Assis en es sociais hou e necessidade de nos ce i ica mos median e
sondagem p é ia que a exigência e a cump ida.
• Acessibilidade. Os sujei os o am escolhidos isando a acilidade
p e is a dos con ac os a ealiza .
• Disponibilidade pa a pa icipa na in es igação. A pa icipação
dos sujei os no es udo oi olun á ia, endo sido con ac ados mui os ou os
que não esponde am ao inqué i o (hou e no o al 58 ecusas, pe azendo o
alo de 31.6% de odos os con ac ados.
98
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
1.1. Sexo
Como se pode obse a na Figu a 1, a a-se maio i a iamen e de um
g upo de sexo eminino (81.6%), ha endo apenas 18.4% de casos pe encen es
ao sexo masculino.
Figu a 1
A dis ibuição dos pa icipan es pelo sexo
Con o me o quad o 1 mos a, a p e alência maio de memb os do sexo
eminino encon a-se nos g upos dos educado es de in ância e dos Técnicos de
se iço Social. A meno su ge-nos jun o dos Pedia as.
Quad o l:Os g upos p o issionais que compõem a amos a segundo o sexo dos pa icipan es
G upos P o issionais
Sexo Pedia as P o esso es Educado es T. Se iço Social Psicólogos
masculino 8 5 2 2 6
eminino
(32.0%)
17
(20.0%)
20
(8.0%)
23
(8.0%)
23
(24.0%)
19
To al
(68.0%)
(100%)
25
(80.0%)
(100%)
25
(92.0%)
(100%)
25
(92.0%)
(100%)
25
(76.0%)
(100%)
25
99
Maus a os
às
c ianças: Abusos
e
negligência
1.2. Idade
Ce ca
de 2.4% dos
sujei os, si ua-se
na
aixa e á ia "Meno es
de 25
anos".
29.6%
na
aixa e á ia en e
os 25 e os 35
anos. 40% en e
os 36 e os 45
anos.
27.2% en e os 46
e os
55 anos
e
0.8%
na
aixa "Maio es
de 56
anos.
A idade média
dos
memb os
da
amos a
oi de 39.7
anos
e o
des io
pad ão
oi de 8.44.
Nenhum
dos
g upos p o issionais
se
di e enciou
dos
es an es em e mos da média das idades.
1.
3. Es ado ci il
A maio ia
dos
indi íduos
da
nossa amos a e am casados (82.4%).
Podemos e i ica lo a a és
do
quad o
2
que conside a os g upos p o issionais.
Quad o 2: A dis ibuição dos g upos p o issionais pelo es ado ci il
P o issão _____^__
Pedia as P o esso es Educado es T. S. Social Psicólogos
sol ei o
3 4 7 4 2
12.0%
16.0% 28.0% 16.0% 8.0%
casado
21- 20 18 21 23
84.0%
80.0% 72.0% 84.0% 92.0%
di o ciado
1 1
4.0%
4.0%
To al
25 25 25 25 25
1.
4. Es a u o pa en al
100
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Con o me a Figu a 2 ilus a, 22.4% dos sujei os não em ilhos. 17.6%
dos sujei os êm um ilho , 48.8% êm 2 ilhos e 11.2% dos sujei os êm 3
ilhos.
Figu a 2
Es a u o pa en al dos pa icipan es
Núme o de ilhos
101
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Figu a 3
O es a u o pa en al po p o issão
16
14
12
10
6.
4,
2
0
Núme o de ilhos
I °
I 2
"1 3
Pedia as Educado es Psicólogos
P o esso es T. Se iço Social
P o issão
Na igu a 3, é possí el obse a que, em odos os g upos p o issionais, a
maio ia dos indi íduos êm 2 ilhos: pedia as (60%); p o esso es (52%);
educado es (44%), écnicos de Se iço Social (40%); e psicólogos (48%).
1.5. As expe iências pessoais dos sujei os
A la ga maio ia de sujei os (94.4%) diz que nunca come eu ac os de
mau a o e 5.6% a i mou não e a ce eza de e come ido ais ac os.
92.8%
dos sujei os a i ma am nunca e em sido í imas de maus a os;
6.4% a i mou não e a ce eza de e sido í ima e 0.8% espondeu que já inha
sido í ima de maus a os.
102
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Expe iência com si uações de maus a os
Os pa icipan es do nosso es udo de e iam, ace à ap esen ação de onze
si uações indiciado as de possí eis maus a os (pa e II do ques ioná io),
assinala aquelas com as quais já se inham depa ado ao longo da sua ida.
Como o quad o 5 ilus a, pe o de 9% dos inqui idos e e i am que nunca
con ac a am com qualque uma das si uações. Em con apa ida, um núme o
mui o subs ancial (78.4% dos esponden es) indicou possui conhecimen o
di ec o de casos e e enciá eis a ês ou mais das ci cuns âncias desc i as.
Quad o 5. Quan idade de esponden es endo em con a o núme o de possí eis si uações de
maus
a os di ec amen e conhecidas
Núme o de si uações con ac adas Quan idade de casos Pe cen agem
Con ac o com nenhuma si uação
Con ac o com uma si uação
Con ac o com duas si uações
Con ac o com ês si uações
Con ac o com qua o si uações
Con ac o com cinco si uações
Con ac o com seis si uações
Con ac o com se e si uações
Con ac o com oi o si uações
Con ac o com no e si uações
Con ac o com dez si uações
Con ac o com onze si uações
As espos as es i e am elacionadas com o ní el e á io. De ac o, as
análises mos a am que a quan idade de si uações conhecidas aumen ou na
azão di ec a da idade dos indi íduos da amos a ( = .49; P< .000). No que oca
11 8.8
5 4.0
12 9.6
15 12.0
13 10.4
20 16.0
24 19.2
11 8.8
9 7.2
4 3.2
1 0.8
0 0.0
109
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
ao es a u o ocupacional dos pa icipan es (quad o 6), não se e i icou qualque
elação en e a p o issão exe cida e o núme o médio de espos as a i ma i as
(F=2.12;n.s.).
Quad o 6. Média de espos as a i ma i as em unção da ocupação p o issional dos
esponden es
P o issão Respos as a i ma i as D.P.
Pedia as 4.52 1.73
P o esso es 4.96 3.14
Educado es de in ância 3.80 2.72
Assis en es sociais 3.88 2.51
Psicólogos 5.44 1.56
Fac o es de e minan es na a aliação do ca ác e mal a an e dos ac os
E a solici ado aos inqui idos que e e issem a é que pon o o seu juízo
ela i o à na u eza mal a an e dos compo amen os e a a ec ado po á ios
ac o es ap esen ados na e cei a pa e do ques ioná io. Rela i amen e a cada
um deles, os sujei os es ima am a sua impo ância, eco endo a uma escala de
ipo Licke com a iação de 1 a 7 pon os. A pon uação de um inha, de aco do
com as indicações o necidas, o signi icado de não de odo impo an e e a de
se e um dos ac o es mais impo an es
{c .
Anexo 1).
O quad o 7 indica a média das espos as dadas po odos os
esponden es nos di e en es ac o es (os i ens encon am-se aí o denados, em
110
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
sen ido dec escen e, endo em con a os seus alo es médios). Con o me se pode
ap ecia , a na u eza sexual do ac o, a e ec i a cons a ação de danos ísicos ou
psicológicos e a in enção de aze mal à c iança co espondem aos qua o
aspec os mais alo izados. A e en ualidade de o compo amen o deixa
sequelas na c iança bem como a equência do ac o me ece am, igualmen e, da
pa e dos esponden es algum ealce. Da mesma manei a, os inqui idos
conside a am que a ci cuns ância do pe pe ado possui doença men al, se
alcoólico ou abusa de d oga e am dados suscep í eis de a ec a em a a aliação
do ca ác e mal a an e dos ac os.
Quad o 7. Médias das espos as em cada um dos ac o es
FACTORES Média D.P.
Se o ac o é de na u eza sexual 6.78 0.58
A exis ência de danos
ísicos
obse á eis na c iança 6/72 0.60
A exis ência de danos psicológicos/emocionais obse ados na c iança 6.64 0.63
Se
o
pe pe ado e e in enção conscien e de aze mal à c iança 6.54 0.65
E en ualidade de i a so e danos psicológicos/emocionais 5.97 0.81
E en ualidade de i a so e danos ísicos 5 93 Q.82
Doença men al do pe pe ado 574
Q
96
Abuso de d ogas ou álcool da pa e do pe pe ado 5.6O 0.97
F equência do ac o 5 5g T 2~
Se a c iança pensa que oi abusada ' 5 26 l 22
Se
o
pe pe ado oi abusado enquan o c iança
5
06 1.11
Se o pe pe ado c esceu em amília ou meio iolen o 4.92 l 31
Se o ac o se enquad a na de inição legal de abuso ou negligência 487 1.45
Se o ac o é cul u al ou socialmen e acei á el 4 37
1
27
Se a p óp ia c iança consen e
o
ac o 4 ]g 2.10
A idade do pe pe ado 3 90 60
A idade da c iança 3 gg j 5g
Se o pe pe ado p o em de uma amília di o ciada 2.87 1.45
O sexo do pe pe ado 2 18 146
O sexo da c iança 2.00
1
50
Com médias supe io es a qua o (pon uação equidis an e en e o
máximo e o mínimo) ainda su gem o econhecimen o do ca ác e abusi o ei o
111
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
pela p óp ia c iança, o ac o de o pe pe ado e sido abusado na in ância ou
c escido em meio iolen o, a alo ação social ou ju ídica dos ac os e o
consen imen o da í ima. Vá ios ac o es apa ecem pon uados com no a in e io
a qua o, sendo de p esumi que os esponden es lhes a ibuem pouco ele o.
Incluem-se nes e caso a idade, bem como o sexo da c iança ou do pe pe ado e
a ci cuns ância de o indi íduo mal a an e p o i de amília di o ciada.
A e iguámos a é que pon o as espos as es a am associadas à idade dos
inqui idos, ao núme o de ilhos e à expe iência ida com si uações de maus
a os.
Pa a o e ei o p ocedeu-se ao cálculo dos coe icien es de co elação en e
es as ês a iá eis e cada um dos in e ac o es. Uma ez que o nosso N (125)
é ele ado, não u ilizámos os ní eis de signi icância como c i é io de
econhecimen o da associação en e medidas. Seguindo os p ocedimen os
adop ados po alguns in es igado es (c . McWilliams, 1999)4 conside amos que
uma elação só me ece ealce quando a magni ude do o igual ou supe io a
±.30.
O a, sucede que em nenhuma das ci cuns âncias analisadas al se
e i icou. Po conseguin e, as es ima i as dos sujei os pa ecem e sido
gene icamen e independen es da sua idade, núme o de ilhos ou a
quan idade/di e sidade da expe iência com si uações de maus a os. A análise
dos esul ados em unção do es a u o ocupacional dos pa icipan es isou
esponde às seguin es ques ões:
4 Ideia de endida po es e au o nas aulas do Módulo de Me odologia da In es igação que
assegu ou
no
âmbi o do Mes ado em Psicologia, especialidade de In e enção P ecoce da
FPCEUP.
112
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
- Quais os ac o es que con ibuem mais decisi amen e pa a a
dis inção dos á ios g upos p o issionais?
- Como se de ine a especi icidade das espos as de cada g upo ace
aos es an es?
- A é que pon o os g upos p o issionais se disc iminam,
e ec i amen e, no modo como a aliam a impo ância dos
di e en es ac o es?
A im de escla ece mos es as ques ões examinámos os dados com base
na análise da unção disc iminan e di ec a (DISCRIM). Es e p ocedimen o
de e minou (quad o 8) qua o unções disc iminan es com um X2 combinado =
437.15;
P= .000. A segunda unção (X2= 250.97; P= .000), a e cei a (X2=
109.31;
P= .000) e a qua a (X2= 32.78; P>02) su gi am, igualmen e, com um
pode disc iminan e signi ica i o. Con o me se pode ap ecia no mesmo quad o,
as unções são esponsá eis, espec i amen e, po 52.6%, 31.2%, 12.0% e
4.2%
da a iabilidade en e os g upos.
Quad o 8. Funções Disc iminan es
Função Valo p óp io % a iância Tes e das unções Wilks X2 S-l.
1"
4.311 52.6
1"
a é à
4"
.020 437.151 80
2"
2.562 31.2
2a
a é 4a .105 250.965 57
3"
0.986 12.0
3"
a é
4"
.375 109.309 36
4"
0.342 4.2
4a
.745 32.781 17
113
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Con o me os alo es do quad o 9 mos am, a p imei a unção
disc iminan e maximiza a sepa ação en e os Assis en es Sociais e os g upos de
Educado es de In ância, Pedia as ou Psicólogos. A segunda di e encia os
Educado es de In ância e os P o esso es dos Pedia as e Psicólogos.
Quad o
9.
Cen óides
dos
g upos p o issionais
nas
qua o unções disc iminan es
p imei a unção segunda unção e cei a unção qua a unção
Pedia as .897 2.485 1.101 .069
P o esso es
-.339 -.591 -.481 1.085
Assis en es Sociais -2.513 2.127 .575 -.307
Educado es de In ância 3.627 -.666 .462 -.370
Psicólogos .555 .899 -".658 -.478
A e cei a sepa a mais signi ica i amen e Psicólogos e Pedia as, ao
passo que a qua a unção es abelece a maio disc iminação en e P o esso es e
Assis en es Sociais.
A análise das co elações en e os ac o es e as unções disc iminan es (quad o
10) indica que o consen imen o da c iança ela i amen e ao ac o é o i em mais
impo an e na dis inção en e os Assis en es Sociais, po um lado e os
Educado es de In ância, Pedia as e Psicólogos po ou o. De ac o, con o me
se pode ap ecia no quad o 11, os p o issionais do se iço social não a ibuem,
con a iamen e ao que sucede com os ou os ês g upos, qualque impo ância
a es e ac o no econhecimen o da na u eza mal a an e dos ac os.
114
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Quad o 10. Ma iz de co elação en e os ac o es e as unções disc iminan es.
FUNÇ o
1 2 3 4
Se a p óp ia c iança consen e o ac o .584 .071 -.013 .090
A idade do pe pe ado .328 .006 .297 -.148
Se o pe pe ado c esceu em amília ou meio iolen o .255 .061 .102 -.159
Se o pe pe ado oi abusado enquan o c iança .131 -.026 .034 -.046
Se o ac o se enquad a na de inição legal de abuso ou negligência .205 .466 -.104 .235
O sexo da c iança .139 .373 .047 -.023
O sexo do pe pe ado .105 .318 .051 -.009
Se o pe pe ado e e in enção conscien e de aze mal à c iança -.010 -.135 .442 .269
Se o ac o é de na u eza sexual -.064 -.029 .409 .104
F equência do ac o .095 -.065 .372 -.031
Doença men al do pe pe ado -.128 .104 .276 -.085
Se a c iança pensa que oi abusada .117 -.101 .231 .128
Abuso de d ogas ou álcool da pa e do pe pe ado .027 .064 .231 -.205
A exis ência de danos psicológicos/emocionais obse ados na c iança -.096 -.025 .184 .158
E en ualidade de a c iança i a so e danos psicológicos/emocionais .164 .174 -.118 .489
Se o pe pe ado p o em de uma amília di o ciada .175 .299 .246 .455
E en ualidade de a c iança i a so e danos ísicos .202 .009 -.174 .427
A idade da c iança .148 .277 .167 -.341
A exis ência de danos ísicos obse á eis na c iança -.046 -.220 .134 .250
Se o ac o é cul u al ou socialmen e acei á el -.006 -.074 -.197 .218
O papel da de inição legal de abuso ou negligência ma ca a g ande
cli agem en e Educado es de In ância, ou P o esso es, po um lado, e
Pedia as, Assis en es Sociais, ou Psicólogos, po ou o. Na e dade, os
memb os das duas p imei as p o issões a ibuem a es e ac o uma impo ância
mais ele ada do que a econhecida pelos es an es dois g upos (quad o 11). A
in enção de aze mal à c iança e a na u eza sexual do ac o (i ens melho
115
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
co elacionados com a e cei a unção), embo a mui o pon uados po odos, são
aspec os menos alo izados pela classe dos psicólogos do que po odos os
ou os g upos p o issionais. Finalmen e, a maio dis inção en e P o esso es e
Assis en es Sociais su ge na alo ização da e en ualidade de a c iança i a
so e danos psicológicos/emocionais, do ac o de o pe pe ado p o i de uma
amília di o ciada ( econhecido como pouco impo an e pelos Assis en es
Sociais, mas como signi ica i o pelos P o esso es -c . quad o 11) e da
e en ualidade de a c iança so e danos ísicos (en a izada de o ma mais cla a
pelos P o esso es).
116
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Quad o
11.
Médias ob idas pelos á ios g upos p o issionais nos i ens mais disc iminan es
Pedia as P o esso Assis en e Educado es Psicólogo
F
es
s
Sociais
s
Se
a
p óp ia c iança consen e
5.12 4.40 1.20 5.92 4.68
44.59*
o ac o
Se
o
ac o
se
enquad a
na 3.68 5.44 4.24 6.40 4.60
23.04*
de inição
de
abuso
ou
negligência
Se
o
pe pe ado e e
6.64 6.64 6.68 6.80 5.66 7.94*
in enção conscien e
de
aze
mal à c iança
Se
o
ac o mal a an e
é de 6.96 6.76 7.00 6.84 5.78
5.66*
na u eza sexual
E en ualidade
de a
c iança
6.32 6.28 5.28 5.84 6.42
8.07*
so e danos
psicológicos/emocionais
Se
o
pe pe ado p o em
de 4.32 4.04 1.80 2.64 2.56
14.74*
uma amília di o ciada
E en ualidade
de a
c iança
5.96 6.28 5.20 6.12 6.08
8.07*
i a so e danos ísicos
•
P< .000
A é que pon o as espos as de cada g upo p o issional pe mi em
di e encia globalmen e os seus memb os dos pe encen es aos es an es
g upos? A im de esponde mos à ques ão, imos se a classi icação dos sujei os,
ei a com base nos alo es disc iminan es, e a minimamen e coinciden e com as
ca ego ias de inidas a pa i dos es a u os ocupacionais e ec i os.
117
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
O a, os esul ados ap esen ados no quad o 12 indicam que,
globalmen e, 92.0% dos esponden es o am co ec amen e ag upados nos seus
g upos p o issionais. Ve i ica-
Quad o
12.
Classi icação
dos
esponden es
Classi icação a pa i dos alo es disc iminan es
Pedia as P o esso es Assis en es Educado es Psicólogos
Sociais
Es a u o ocupacional
e ec i o
Pedia as 23 0 0 0 2
P o esso es 0 23 1 0 1
Assis en es Sociais 0 0 25 0 0
Educado es 2 0 0 22 1
Psicólogos 1 2 0 0 22
se que há uma coincidência o al no caso dos Assis en es Sociais e um ní el
ele ado de aco do no ocan e aos ou os g upos p o issionais ( a iando en e
88%
e 92%).
A aliação do alo mal a an e dos ac os
A úl ima pa e do ques ioná io cons a a de 40 pequenas inhe as onde
se expunham di e en es si uações suscep í eis de se em conside adas como
exemplos de abuso ou negligência. Face a cada uma delas, os pa icipan es
de e iam indica -com base numa escala de um a se e pon os- a é que pon o
a alia am o caso desc i o como sendo uma ci cuns ância de mau a o.
118
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
es an es duas a iá eis não se e elou es a is icamen e signi ica i a., sendo,
apenas, esponsá eis po um o al que onda os dez po cen o da a iância
explicada. Assim, al como o diag ama da igu a 6 ilus a, as análises e ec uadas
escla ecem que o núme o de ilhos ou a a iedade das si uações de maus a os
con ac adas ao longo da ida p o issional só es i e am elacionadas com os
esul ados das sub-escalas de negligência e de abuso psicológico po que
man inham es ei a associação com a idade dos esponden es.
Va iedade de casos
con ac ados Núme o de ilhos
w Idade ^
w Idade ^
w
Es ima i as e e en es aos
ac os de
negligência M w
Es ima i as e e en es aos
ac os
de abuso
psicológico
Es ima i as e e en es aos
ac os de
negligência ^ w
Es ima i as e e en es aos
ac os
de abuso
psicológico
w
Figu a 6. Es u u a das elações segundo os esul ados da análise da eg essão
O es udo das espos as em unção dos g upos p o issionais e elou que
pedia as, p o esso es, educado es de in ância, psicólogos e assis en es sociais
125
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
econhece am, gene icamen e, o ca ác e mal a an e das si uações desc i as nas
inhe as. De ac o, odos os g upos ob i e am, nas á ias escalas, pon uações
médias supe io es a cinco ( igu a 7).
O es e de Sche e pa a compa ações múl iplas indicou que no caso das
inhe as e e en es ao abuso ísico não há di e enças signi ica i as en e os
di e sos ipos de p o issionais. Tal ci cuns ância já não pa ece e i ica -se nos
ou os casos.
Figu a
7.
Pon uações médias ela i as
às
inhe as das escalas
de
abuso
ísico,
sexual,
psicológico
e de
negligência
em
unção
dos
g upos p o issionais
„..,.!;,■
...
■■.,■..
.;.-...■ ■: ,
:■;..■■:■:.
.. .-. .
;:■,.
-.; ;.;
...:;■: .,■:..
.„■ . -.-.■
G--
□ pedia as
M p o esso es
□ educado es de in ância
□ assis en es sociais
□ psicólogos
abuso ísico abuso sexual abuso psicológico negligência
126
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Assim, na escala de abuso sexual (F=3.70; P=.007) os écnicos de
Se iço Social e as educado as ende am a es ima o ca ác e mal a an e das
si uações com pon uação mais baixa, di e indo signi ica i amen e dos
pedia as. No que espei a ao abuso psicológico (F= 6.43; P= .000), o con as e
signi ica i o es abelece-se en e p o esso es e educado es que alo iza am mais
es a dimensão. Cu iosamen e, na escala de negligência (F= 12.20; P= .000), a
média das es ima i as ei as pelos educado es oi ambém, a mais ele ada,
di e indo signi ica i amen e da obse ada nos g upos de pedia as e assis en es
sociais. O es e de Sche e mos ou igualmen e, que os esul ados nes e úl imo
g upo o am in e io es aos encon ados jun o dos p o esso es e psicólogos.
Em o dem a uma lei u a mais adequada dos esul ados, impo a
salien a que a idade média dos elemen os de cada g upo p o issional e a mui o
ap oximada. E ec i amen e, as análises ei as a a és do es e de Sche e não
pe mi i am di e encia nenhum dos g upos quan o ao ní el e á io.
127
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
Discussão
O p esen e es udo examinou alguns aspec os das concepções e e en es
aos maus a os in an is da pa e de á ios p o issionais que, no exe cício do seu
abalho habi ual, lidam com populações de c ianças. Con o me pudemos
ap ecia , a esmagado a maio ia dos inqui idos (ce ca de 91%) e e iu e , em
maio ou meno g au, con ac ado ao longo da ida com casos des e géne o.
Cu iosamen e, nenhum g upo p o issional se di e enciou no que espei a à
a iedade do ipo de si uações obse adas. Tais cons a ações pa ecem, desde
logo,
con i ma a suges ão de que p o esso es, écnicos do se iço social,
pedia as e psicólogos ocupam uma posição a o á el pa a sinaliza em, no
quo idiano, os enómenos de mau a o e po em em p á ica co esponden es
medidas p e en i as.
A ci cuns ância de um ão g ande núme o de p o issionais ela a o
conhecimen o de casos e ec i os ou suspei os de abuso e negligência en a iza a
necessidade de na sua o mação se dedicada a enção especial aos aspec os
elacionados com a p oblemá ica dos maus a os. Impo a, nesse sen ido,
p omo e compe ências que os habili em a melho iden i ica os sin omas
indiciado es de possí eis abusos ou negligência, a pesa a g a idade das
si uações, a a alia os ecu sos p esen es na amília ou na comunidade a im de
pode em desempenha um papel e icaz no planeamen o das es a égias de
128
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
in e enção mais adequadas a cada caso. In e essa, ambém, que o p ocesso de
o mação assegu e o desen ol imen o de capacidades pa a o abalho em
equipas ansdisciplina es de manei a a acili a a adopção de pe spec i as
in eg adas nos p ocessos de diagnos ica e da espos a às necessidades da
c iança í ima de abuso e negligência.
O nosso abalho p ocu ou explo a que ac o es e am alo izados pelos
sujei os da amos a na o mulação das suas concepções de maus a os. De uma
o ma gené ica, a na u eza sexual do ac o, a p esença de danos ísicos na
c iança, a e idência de sequelas psico-emocionais e a in enção dolosa po
pa e do pe pe ado e ela am se os ac o es mais de e minan es nessa
o mulação. Tal cons a ação é simila à e ec uada po á ios au o es que
conduzi am sondagens idên icas jun o de ou as populações (e.g. Po wood,
1998,
1999, 2000; Gio anni & Bece a, 1979; Finkelho & Red ield, 1984).
Tendo, igualmen e, em con a os dados da li e a u a (op. ci ), não oi
su p eenden e e i ica o signi icado diminu o econhecido a aspec os como o
sexo da c iança ou do pe pe ado .
Alguns ac o es de in e p e ação ambígua o am assinalados pelos
inqui idos como possuindo uma ce a impo ância. Con am-se, nomeadamen e,
en e eles a e en ualidade de doença men al do pe pe ado , o abuso de álcool
ou d ogas po pa e do mesmo, se
o
pe pe ado oi abusado enquan o c iança
ou c esceu em con ex os de iolência. A ambiguidade deco e, sob e udo, do
modo como no ques ioná io êm o mulados es es i ens. De ac o,
129
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
ela i amen e a cada um dos ac o es ap esen ados, os sujei os de iam, apenas,
indica com a ajuda de uma escala de ipo Licke se ais ci cuns âncias e am
suscep í eis de in luencia em a a aliação pessoal ace ca do ca ác e mal a an e
de ac os de abuso ou negligência. Nes as condições, não dispomos de qualque
c i é io que nos pe mi a ajuiza o e dadei o signi icado das pon uações
a ibuídas. Se á, po exemplo, que, na concepção do esponden e, o abuso de
álcool ou d ogas po pa e do pe pe ado con e e uma na u eza mais
mal a an e ao ac o, ou passa -se-á exac amen e o con á io? A ci cuns ância de
quem exe ce o compo amen o e sido abusado enquan o c iança que
impo ância e á na a aliação de um de e minado ac o? Emp es a-lhe uma ca ga
mais ou menos abusi a? Ques ões idên icas ganham oda a pe inência quando
conside amos ou os ac o es como, po hipó ese, a consciência que a c iança
em do abuso ou o consen imen o que lhe deu.
Vemo-nos segu amen e, aqui, pe an e uma limi ação do ins umen o que
pode ia se ul apassada com uma o mulação mais adequada dos i ens ou com
a adopção de um p ocedimen o que con emplasse a e en ualidade de, em
si uação de en e is a, se p ecisa com exac idão o pensamen o dos inqui idos.
Não obs an e, azendo um exe cício de indução in e en ial, pa ece-nos plausí el
conclui que nas ep esen ações dos inqui idos sob essaem dois eixos de
a aliação.
Há, assim, um egis o subs an i o que a ende à con igu ação objec i a
dos enómenos. De aco do com es e p incípio, é a na u eza do ac o em si e as
130
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
suas epe cussões que di am a alo ação dos compo amen os juízo de alo
ela i o ao seu ca ác e mal a an e (e.g. "se o ac o é de na u eza sexual"; "a
exis ência de danos ísicos obse á eis na c iança"; "a e en ualidade de i a
so e danos psicológicos/emocionais"; "a equência do ac o"...). Mas,
pa alelamen e, anspa ece ambém um c i é io de ela i ização con ex ual
deco en e da impo ância emp es ada às condições mais ou menos subjec i as.
Nes e âmbi o, as ci cuns âncias en ol endo os ac os, o es ado ou o pon o de
is a do pe pe ado e da í ima adqui em um ce o ele o (e.g. "se o
pe pe ado e e in enção conscien e de aze mal à c iança"; "se a c iança pensa
que oi abusada"; "se o pe pe ado c esceu em amília ou meio iolen o"; "se a
p óp ia c iança consen e o ac o"; "abuso de d ogas ou álcool da pa e do
pe pe ado "...).
Julgamos que qualque en a i a de es abelece uma de inição cla a de
mau a o à c iança e das suas componen es de e á, pois, en a em linha de
con a com a complexa a iculação dos dois eixos.
Quando, nes e aspec o, examinámos os esul ados em unção dos g upos
p o issionais, e i icámos que odos eles e am sensí eis às dimensões objec i as
e subjec i as. Não obs an e, os dados da análise da unção disc iminan e
e ela am algumas idiossinc asias associadas aos di e en es es a u os
ocupacionais. Lemb emos, a p opósi o, que a classi icação dos esponden es
ei a com base no es udo es a ís ico dos pad ões de espos a mos ou se , em
131
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
g ande pa e, coinciden e com o ag upamen o ealizá el a pa i dos seus
es a u os ocupacionais e ec i os.
Segundo o nosso pon o de is a, a a aliação das inhe as cons an es da
úl ima pa e do ques ioná io, indagando embo a a opinião ace ca do ca ác e
mal a an e das si uações nelas desc i as, o nece-nos, ambém, de modo
implíci o um juízo ace ca da g a idade desses ac os. Nes a o dem de ideias, os
esul ados mos am que os casos de abuso ísico e sexual me ece am da pa e
dos inqui idos um julgamen o mais se e o. Apa en emen e, os ac os de abuso
psicológico e de negligência o am is os com menos ca ga mal a an e.
Impo a, con udo, essal a que a o mulação das p óp ias inhe as
pode á e uncionado, aqui, como e en ual on e de con usão. E ec i amen e,
e e imos a ás que ha e ia dois g andes eixos na elabo ação das concepções de
maus a os. Vimos, nomeadamen e que um desses eixos implica ia a
ponde ação de condições subjec i as, englobando en e ou os ac o es, a
in enção e o consen imen o da í ima. O ou o, mais e e enciado aos aspec os
subs an i os do compo amen o não deixa ia de en ol e elemen os po enciais
de nuance como, po exemplo, a equência do ac o. Acon ece que, na
gene alidade, es as ace as não su gem de idamen e balanceadas no ex o das
inhe as, podendo condiciona de manei a di e sa as ponde ações e e en es às
ca ego ias da negligência e dos abusos ísico, sexual ou psicológico. O a, uma
inequí oca in e p e ação das di e enças obse adas exigi ia um ins umen o
mais igo oso onde con olos se e os minimizassem es es e ei os po enciais de
132
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
e o.
O ideal se ia, pois, que odos os ac o es suscep í eis de in luencia as
a aliações pudessem se incluídos e a iassem sis ema icamen e no conjun o das
inhe as. In e essa, con udo, econhece que isso p oduzi ia um ins umen o de
amanho desp opo cionado, al ez demasiado mo oso pa a se p eenchido.
Mas independen emen e de ais conside ações, é cu ioso e i ica que há
um pa alelo en e os pad ões de espos a no nosso es udo e a p óp ia e olução
his ó ica dos disposi i os no ma i o-legais que êm enquad ado ju idicamen e a
p oblemá ica dos maus- a os. De ac o, o despe a da consciência social pa a
as ques ões da p o ecção e de esa dos meno es oi p imei o acompanhada po
p odução legisla i a con emplando o come imen o de ac os de iolência sob e a
c iança. Só mais ecen emen e as si uações de negligência e de abuso
psicológico começa am a se al o de ímidas en a i as de egulação na o dem
ju ídica (Lopes dos San os, 1994). Se á, en ão, legí imo a en a a hipó ese de
que os alo es cul u ais que ma cam o es ádio p esen e da nossa ci ilização
le am a olha , compa a i amen e aos ou os dois ipos, os enómenos da
negligência ou do mau a o psicológico com dose maio de ole ância.
Ao longo das duas úl imas décadas, emos indo a assis i a uma
p eocupação c escen e pelas emá icas que se elacionam com o bem es a da
c iança. Es e mo imen o é supo ado po oda uma sé ie de disposi i os
simbólicos eiculados em mui os dos con eúdos da c iação a ís ica, da
p odução cien í ica ou da e lexão ilosó ica que encon am eco p i ilegiado nos
ó gãos de di usão mediá ica e nos sis emas de o denação ju ídica dos
133
Maus a os às c ianças: Abusos e negligência
compo amen os. Pa a Lopes dos San os (op. ci .) al enómeno insc e e-se no
con ex o de uma ecnos e a eme gen e, onde o in es imen o na educação e na
p omoção do desen ol imen o sócio-cogni i o dos indi íduos cons i uem
equisi os undamen ais de uma no a acionalidade económica. Nesse sen ido,
impo a á en ende a p oli e ação dos discu sos em o no do bem es a e dos
di ei os da c iança como ac o que se in eg a nas es a égias de socialização
polí ica exigidas pela lógica de uncionamen o das comunidades de hoje.
Segundo o au o , (...) "o concei o de socialização polí ica e e e-se ao
p ocesso pelo qual o indi íduo adqui e a i udes c enças ou alo es
ha monizados com os p essupos os do sis ema de que é memb o e
sinc onizados com os papeis que desempenha na comunidade" (Lopes dos
San os, op. ci ). Sendo ce o que o equilíb io de um co po social es á
di ec amen e elacionado com a capacidade de p omo e a socialização polí ica
dos seus elemen os, pe cebe-se que a di usão e (...) "in e io ização dos
discu sos, onde a sensibilidade ao bem es a da c iança é colocada na posição
de alo p oeminen e, unciona na p á ica como egulado de um sis ema de
ep esen ações e de condu as cuja e ec i idade pa ece se i al pa a a
sob e i ência das sociedades ecnológicas" (Lopes dos San os, op. ci ).
À luz des as ideias é plausí el pensa mos que o g au de i acionalidade
ine en e às p á icas de abuso psicológico e de negligência não se dis ingui á
mui o do que ca ac e iza os ac os de abuso ísico e sexual. Po conseguin e, os
enunciados que di ec a ou indi ec amen e apoiam os ac uais p ocessos de
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