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Crónica escolar de uma desistência anunciada

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Crónica escolar de uma desistência anunciada

Author: Ariana Cosme,Rui Trindade
Year: 2001
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/21359/2/85621.pdf
a Página da
Educação
www.apagina.p
C ónica escola de uma desis ência anunciada
Rica do não e a uma p esença habi ual jun o do bando de apazolas que ao im da a de se pos a am pe o do
po ão da escola.
-En ão miúda, já não cump imen as os amigos ?
Nem olhou.
- Ana, ó Ana...
In e pelada pelo nome, en ou pe cebe disc e amen e quem a chama a.
- Olá, Rica do.
Tinham sido colegas de u ma a é meados do 10º ano, al u a em que abandonou a escola com a p omessa de
nunca mais ol a a a u a p o esso es e con e sas da e a.
Rica do e a o ípico pu o de ua, eguila e de espos a p on a. A sua ida escola pode ia se compa ada à de um
equilib is a em di iculdade, com excepção do Inglês e da Ma emá ica, disciplinas das quais desis i a bas an e mais
cedo. Es uda a o mínimo, copia a o máximo e usa a odas as es a égias possí eis e imaginá ias pa a sob e i e .
No 10º ano acabou o bambú io. Escolhe a o Ag upamen o 1, a gumen ando que que ia se p o esso de Educação
Física. As no as do 1º pe íodo ie am demons a o e o da opção que ize a. Daí a é à desis ência oi um passo. O
i mão mais elho a anjou-lhe um emp ego nas ob as e ele nem pensou duas ezes. Iniciou uma no a ida, longe
da escola que semp e acha a mais ou menos inú il pa a quem, como ele, p ecisa a de ganha a ida.
Vi ia com a mãe, a a ó pa e na e o i mão. O pai abandona a-os e pa ece não e deixado mui as saudades. A mãe
e a uma mulhe doen e. Fazia limpezas, mas a sua saúde p ecá ia não lhe pe mi ia e um emp ego ixo e um
salá io assegu ado em cada im do mês. O i mão e a olha, mas inha pouco juízo. Vi ia da bisca ada e anda a
com quem não de ia. A a ó ecebia uma e o ma mise á el. Todo o dinhei o que ele pudesse aze se ia semp e
bem indo.
Em casa ninguém se impo ou com o ac o de e abandonado a escola. Tinha ei o o 9º ano e isso chega a-lhe,
ou iu a mãe explica à Miquinhas, a izinha da po a ao lado. O i mão aplaudiu a decisão e a a ó que nunca inha
pe cebido mui o bem o que o ne o, com aquele co panzil de homem ei o, anda a a aze de li os debaixo do
b aço. A ganha ícios é o que é, dizia-lhe semp e que podia. Apesa de se sen i ali iado, não deixou de
expe imen a , lá no undo, alguma us ação, a enuada, oda ia, pelo ac o de cons a a que a maio pa e dos seus
amigos de in ância ou es a am na me da ou pa a lá caminha am. O Chico que abalha a com o pai e o Zé Tó que
e a mecânico e am os únicos que pa eciam e -se sa ado da d oga. A Mila e a Vanessa, que con inua am a es uda ,
ambém. De es o anda a udo me ido no pó, a consumi , a a ica ou a aze ambas as coisas. E no meio dis o
udo ainda ha ia a Sónia que, aos dezasseis anos, se encon a a g á ida e o Albe o, já en e ado num cemi é io
po causa da po a de uma hepa i e.
Rica do, de ac o, nunca e e uma elação mui o p odu i a com a escola. Só na "P imá ia" é que as coisas o am
di e en es. Ap ende a a le sem sole a , a esc e e sem g andes asgos e a sabe a a i mé ica necessá ia pa a se
sa a nas p o as de a aliação de cada imes e. Como ele dizia, a ina a com a p o esso a que o le ou do 1º ao 4º
ano, o que no seu caso, eio a p o a -se, e a meio caminho andado pa a que as coisas uncionassem bem. No
"Ciclo" começou udo a co e pio . Luc ou pouco, que em e mos pessoais que em e mos de ap endizagem, com
a sua pe manência na escola, mas aguen ou-se, g aças à bene olência dos p o esso es mais do que às qualidades
do seu desempenho escola . Rep o ou po al as logo no 7º ano, mas como não conseguia a anja emp ego aos
13 anos de idade, lá se oi man endo na escola. Con inuou a bene icia de uma a aliação indolen e, da sua
capacidade de desen ascanço e do a de miúdo desp o egido que u iliza a pa a se insinua como melho lhe
con inha. Chegou assim ao 9º ano, le ado um pouco como um madei o que dá à p aia, depois de oga à sol a
pelo ma . Ainda sem que e i abalha , sem sabe como encon a ou as al e na i as, en egue a si p óp io e
julgando que se ia possí el con inua a aze na escola o que a é aí o deixa am aze , Rica do ma iculou-se no
Ensino Secundá io e logo no Ag upamen o 1. Não lhe esis iu mais do que umas duas míse as semanas no 2º
pe íodo, após e conseguido um dez a Po uguês e a Técnicas Labo a o iais de Biologia e Química. O quinze a
Educação Física des oa a numa pau a compos a po alguns oi os e já mui os se es.
Soube desde mui o cedo que não ia aguen a aquele 10º ano. Mas o que é que podia aze ? Ainda po cima sabia
que se deixasse a escola se i ia a as a da namo ada, po isso o melho , nessa al u a, e a deixa as coisas ola ,
pa a logo se e o que acon ecia. Não inha nada a pe de , embo a, de ac o, ambém não i esse nada a ganha .
Mesmo o emba aço que sen ia quando ecebia as no as dos es es acaba a, no undo, po con a mui o pouco.
Ve gonha, e gonha a sé io, só sen ia quando pe dia os duelos num qualque meio campo de um ec ângulo onde
jogasse u ebol. Aos 17 anos passa a a aze pa e da equipa sénio do clube da zona que mili a a na 1ª Di isão
Regional da Associação de Fu ebol do Po o. E embo a ainda não osse i ula , empenha a-se a undo na sua ida
de u ebolis a. Não al a a a um eino, cump ia à isca as ins uções do einado , acei a a semp e com boa ca a o
que lhe manda am aze .
No u ebol sen ia-se gen e. No u ebol pe cebia o que anda a ali a aze , mesmo que nem semp e o izesse bem.
Sabia o que e a ganha , empa a ou pe de um jogo e na escola não. Se azia um passe longo bem ei o ou uma
in a exac a ba iam-lhe palmas mesmo que isso não desse em golo. No Secundá io, os dez que conseguiu nos dois
es es de Po uguês, apesa de se em no as posi i as, nunca lhe de am di ei o a uma palmada nas cos as ou a um
so iso de ap o ação. E a como se não exis isse, ao con á io do que acon ecia com o ês a Ma emá ica que o
o nou al o da a enção de oda a u ma, po o ça do discu so ocis a do p o esso . No u ebol quando e a
desa mado e a ou a equipa inicia a de imedia o um con a-a aque, sabia que inha e ado, sabia que i ia ou i das
boas do einado ou de um colega mais elho, mas sabia ambém que logo se ia incen i ado na jogada seguin e,
quando um ad e sá io lhe su gisse pela en e. Num campo de u ebol inha a ce eza que ac edi a am nele, apesa
de es a mui o longe de se um jogado expe ien e e pe ei o. Na escola, e sob e udo naquele p imei o pe íodo em
que equen a a o Ensino Secundá io, não. É ce o que es uda a mui o pouco, é ce o que e a um aluno desa en o,
é ce o que inha ei o uma escolha e ada, mas mesmo assim...
- Ou i dize que qualque dia eben as a escala. Como é que consegues es uda an o?
- Que emédio... E u, Rica do ?
- Lá me ou sa ando como posso.
Men ia-lhe. Só o u ebol é que ia alendo a pena naquele dia a dia a ca ega massa, ijolos e sacos de cimen o.
Não se sen ia a ependido po e la gado a escola, sob e udo depois de e comp eendido que não ia lá ap ende
nada, mas inha saudades da sua ida de es udan e.
- A ida es á pa a i, miúda.
- Pois es á...aguen a odos os dias aulas que são uma pas ilha. Passa a ida a co e en e as explicações de
Ma emá ica e Física. Rela ó ios es ou a a deles. Le o Ga e , po alma de quem ? Es uda a é a e a . E ainda po
cima e de a u a os pais, e mais alguns p o esso es, a dize que a gen e não az nada. Saco um dezasseis a
Ma emá ica e a é pa ece que ep o ei. Bom, Rica do... enho que i .
Recebeu um beijo e iu-a pa i . Se uma pessoa como a Ana se queixa da escola...
A iana Cosme e Rui T indade
Uni e sidade do Po o