Saramago como um pretexto...
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Artigo notícias do Dia-a-dia com novo endereço www.apagina.pt/ Dia-a-Dia Edição Impressa Último jornal Nº 184 Dezembro 2008 Nº 184 em Formato PDF PEDIDOS de assinatura do jornal ( Portugal e estran g eiro ) Arquivo ARQUIVO de j ornais anteriores TEXTOS arquivados por autores HOJE: 6.508 textos on-line Pesquisar o arquivo Ou Frase nmlkjinmlkj Pesquisar Dos LEITORES Para submeter artigos, ler regras aqui: PROPOSTAS de publicação INQUÉRITOS em votação A Página da Educação Arquivo - Arti g o Saramago como um pretexto... O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Quem o afirmou foi José Saramago perante a Real Academia Sueca e nós soubemo-lo no mesmo dia, e pelo mesmo jornal em cuja primeira página se denunciava que "perto de um sexto da população mundial chega ao final do século sem ser capaz de ler um livro ou escrever o nome. Nos países em vias de desenvolvimento, 130 milhões de crianças não têm acesso à educação básica. Outras tantas desistem antes de saber ler e contar. Para as educar a todas, o mundo deveria g astar, por ano, sete mil milhões de dólares s uplementares - menos do que os Estados Unidos g astam em produtos cosméticos ou a Europa em g elados. Se uma voz insuspeita, como a de Saramago, nos diz que a sabedoria não nos é garantida pelo facto de sabermos ler e escrever, então porque é que o título do "Público", um "Quase mil milhões de analfabetos funcionais" impresso a vermelho, nos deixou tão incomodados ? Como é possível reconhecermos a injustiça, a opressão e a indignidade através dos números que o "Público" divulga e, simultaneamente, aceitarmos que um iletrado, Jerónimo de seu nome, aquele que ao pressentir que a morte o vinha buscar se foi despedir das árvores do seu quintal, abraçando-as e chorando, possa ter sido um mestre da vida de alguém que muito justamente recebeu um Nobel da literatura ? Se não soubéssemos ler quem nos diria que "o aprendiz pensou: "Estamos cegos" e se sentou "a escrever o "Ensaio sobre a Cegueira" para recordar a quem o viesse a ler que usamos p erversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira plural tomou o lu g ar das verdades plurais, Autor do Artigo Ariana Cosme Fac. de Psicologia e Ciências da Educação, Univ. de Porto tr[email protected]t Rui Trindade Faculde de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto tr[email protected] Inf. sobre o artigo Jornal "a Página" Nº 76 Ano 8 | Janeiro 1999 Pag. 20 Imprimir este artigo Versão para impressão Abre uma nova janela com este artigo numa versão mais amiga da impressora. LIVRARIA PUBLICIDADE EXTERNA Page 1 of 3 22-01-2009http://www.apa g ina.pt/arquivo/Arti g o.asp?ID=588
INQUÉRITOS em arquivo CONTACTOS e cartas à redacção que o homem deixou de respeita r -se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu s emelhante" ? Seria necessário aprendermos o ofício de leitores p ara tomarmos consciência da nossa cegueira? Até que ponto esta cegueira se deve, também, ao modo como esse mesmo ofício nos tem vindo a ser ensinado? O drama daqueles que não aprenderam, não aprendem, a ler e a escrever só o é, no momento em que o seu iletrismo os impede de assumir uma p resença curiosa e activa face ao mundo e àqueles que os rodeiam, uma presença interpeladora e não resignada. O que é que isto tem a ver com a aprendizagem da leitura? Como é que isto se aprende através da leitura? É possível aprendê-lo através da leitura? É necessário aprendê-lo através da aprendizagem da leitura? Afinal, para que é que serve aprender a ler e a escrever? Quantos de nós o fazem com fluência e são incapazes de compreender que "Além da conversa das mulheres são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe f azem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu". Será que todos aqueles que leram, ou que estariam capacitados para ler, estas palavras, retiradas do "Memorial do Convento", as compreenderiam melhor que a avó Josefa Caixinha, também ela analfabeta, pobre e já viúva, mas ainda capaz de olhar o céu estrelado e dizer, provavelmente baixinho: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta p ena de morrer " . Frase que um dia o seu neto José evocará, perante uma assembleia de homens e mulheres cultos na gélida Estocolmo, como um p retexto para acrescentar que "Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de p esado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a g raça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à p orta de uma casa como não creio que tenha havid o alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seu s p róprios filhos " . Afinal, para que é que serve aprender a ler e a escrever ? www.TesteDaMorte.com Anúncios Google Page 2 of 3 22-01-2009http://www.apa g ina.pt/arquivo/Arti g o.asp?ID=588
Blimunda não necessitava de o fazer, já que os seus olhos conseguiam ver aquilo que se encontra para além do olhar. Para Ricardo, o poeta, para quem um "sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo", de que lhe serviu ter um dia aprendido a lidar habilmente com as palavras? Talvez tenha sido Raimundo o personagem que mais beneficiou com tal aprendizagem, não só p orque comia por conta das palavras mal ortografadas, como, sobretudo, por ter compreendido "que todas as coisas têm um lado visível e o seu lado invisível e que não saberemos nada delas enquanto não lhes tivermos dado a volta completa". Através das palavras, com as palavras e tendo a noção exacta do "que seria de nós se o deleatur que tudo apaga não existisse". Ariana Cosme Instituro Irene Lisboa/Porto Rui Trindade Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação/Universidade do Porto Page 3 of 3 22-01-2009http://www.apa g ina.pt/arquivo/Arti g o.asp?ID=588