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A medicina em história: do feiticeiro à ortopedia primitiva

João Marques Teixeira

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50 VOLUME III, Nº2. MARÇO/ABRIL 2001 A Medicina em História Do feiticeiro à ortopedia primitiva O homem primitivo apresentava defesas naturais contra as doenças que se podem considerar como autênticas medidas terapêuticas institivas, como é o caso da sucção e da lambida de ferimentos. Talvez, mesmo, a proximidade de uma fogueira e uns goles de água, em caso de febre. Quase todo o resto é imaginário, se não fantasioso. O feiticeiro muito provavelmente conjugava funções de sacerdote com as de médico, pois a natureza misteriosa das doenças fazia supor a existência de causas sobrenaturais. É bem possível que, nas suas primeiras tentativas, o feiticeiro desafiasse o demóno com gritos, gestos e máscaras, na tentativa de o vencer por intimidação, É, ainda, possível supor-se que a formidável algazarra exercesse também forte influência sobre o doente, a ponto de o conduzir a uma atitude psicologicamente favorável à cura, ainda que esta resultasse inteiramente dos recursos do organismo. Se falhassem os esforços “diplomáticos” do feiticeiro, provavelmente sobreviriam tratamentos mais energéticos. E dolorosos, porque a frustração do primeiro fracasso poderia perturbar um pouco o curandeiro, cioso do prestígio em jogo. A ideia era a de atormentar o demónio a ponto de ele abandonar o corpo do doente. Isso pressupunha, é claro, que o doente fosse capaz de maior resistência que o génio infernal alojado nele. E, infelizmente, muitas vezes não era o caso, como demonstra a profusão de crânios trepanados sem nenhum processo de cicatrização posterior. Isto é, pertencentes a pessoas que não sobreviveram à operação e que, assim, podem ser tidas como os primeiros mártires da longa história experimental da medicina. ORTOPEDIA PRIMITIVA Um tipo de tratamento médico decorrente do estudo de fôsseis de homens primitivos é o tratamento de menbros fracturados. Os ossos eram recolocados na posição original, imobilizados com talas e enfaixamentos semelhantes aos de hoje, durante o período requerido para a união por calcificação. Também as amputações eram comuns, talvez como providência radical contra envenenamento por mordedura de animais peçonhentos ou mesmo gangrena. Já os casos de amassamento do septo nasal, bem como as amputações de falanges, representam evidentes propósitos rituais ou punitivos. Mas os tratamentos contra ferimentos de flechas e lanças, bastante numerosos, voltam a atestar a habilidade do curandeiro. Se a flecha penetrasse em regiões muito delicadas, em que a remoção pudesse gerar consequências perigosas, o cirurgião limitava-se a retirar apenas a haste, sem tocar na ponta de pedra. Depois de algum tempo, a formação de um calo ósseo em torno da pedra neutralizava possíveis complicações. Intervenções como estas são as mais importantes e bem documentadas, graças a vestígios fósseis, entre as que eram praticadas pelos cirurgiões da pré-história, já no período Paleolítico (Idade da Pedra lascada), há mais de 10.000 anos AC. Isto não significa que outras doenças dessas épocas não sejam conhecidas pelos historiadores de hoje: há vestígios concludentes de que o homem da Idade da Pedra sofria de cárie dentária (embora a carência de informações tenha alimentado alguma negação desses factos). Existem ainda evidentes sinais de abscessos alveolares, com os seus inconfundíveis sinais de deformação do maxilar, de osteomielite gomosa, de raquitismo e de um tipo de deformação de alta incidência, conhecida como ‘gota das cavernas’ que atingia até mesmo alguns animais, como o urso. J.MT. Seguem-se: - Medicina egipcia; - Medicina babilónica; - Medicina cretense; - Medicina hipocrática; - Aesclepius; - Herófilo; - Medicina romana. Leituras