Refracções
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Refrações Fernando José Pereira (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto) PEREIRA, Fernando José – Refrações. Revista Comunicação e Linguagens. Lisboa. ISSN 0870-7081. Nº 31, 2003. p. 198 O aparecimento da imagem como materialização, a priori, mental, corporiza uma dualidade conceptual importante para a produção: por um lado, significa uma espécie de final -- interregno – na pesquisa constante da realidade que se manifesta na seleção; pelo outro, possibilita o início de um processo de interrogação que, por ser faseado, se estende, também, num espaço temporal alargado. Se a primeira componente da dualidade se revela determinante para que todo o processo possa evoluir – é a partir da formação da imagem no cérebro que ela se torna passível de formulação materializada -, na segunda fase, o trabalho de escalpelização de todas as questões a que tem de responder permanece como um dos elementos-chave de todo o processo, agora tornado projectual, em termos metodológicos. A recolha sucessiva de imagens da realidade é uma fonte inesgotável. O processo criativo afasta-se, assim, da sua componente produtiva no sentido romântico da criação, para se induzir de um caráter seletivo – fragmentário, de necessário pendor experimental - , que lhe permitirá a sobrevivência em situação adversa. O processo mental de «atenção» à realidade revela prospectivamente as suas potencialidades de seletor ao determinar, por processos que escapam à razão, a viabilidade eletiva de uma perante as outras. Aquela que, agora, irá ser sujeita aos testes que ditarão a sua transformação tangível, ou não. Numa época em que, como refere Fredric Jameson, toda a experiência, desde o ato de comprar até ao lazer, é profundamente estetizante, uma esfera própria da estética torna-se obsoleta por absoluta fusão imersiva no todo social. A consciencialização política da imagem aparece como fundamental no desenrolar do questionamento a que esta se encontra sujeita; daí que exista uma necessidade acrescida de relacioná-la criticamente com todas as possibilidades em aberto. Surge, então, o processo de interrogação que se alarga às várias componentes constitutivas da imagem e que se constitui como uma forma de autocontrolo que culminará num ponto em que várias respostas dadas pela imagem – normalmente já a alguma distância da ideia original – se apresentam como satisfatórias à sua independência objectual.