À memória do Prof. Custódio Rodrigues
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61 VOLUME V Nº6 NOVEMBRO/DEZEMBRO 2003 rectilíneo. Mas também lhe conheci um outro lado. Aquele de onde emanava um profundo discurso feito de queixas, de tristezas, de sentimento desgarrado que se realiza na infelicidade. A sua tristeza era como um lago que o rodeava por todos os lados e que, em muitos momentos, não era possível transpor. Custódio Rodrigues viveu infeliz, mas a sua infelicidade resultava do facto de não ter uma alma capaz de ser convertida numa norma. E por isso era um homem só. Ele veio, com as aulas, com os seus escritos, com as suas conversas, ocupar a memória de muitos de nós e até abrir as trevas de alguns espíritos demasiado confiantes nas suas luzes. É certo que, para além da esmagadora impressão que nos deixam as suas páginas, ressaltará algum sabor reducionista das suas posições. Mas o que há de mais empolgante na sua obra é o rigor, a exigência, que resultam de uma espécie de encantamento para os seus leitores. E no fim, só nos resta dizer como Virgílio Ferreira: “não pensem que a sabedoria é feita do que se acumulou. Porque ela é feita apenas do que resta depois do que se deitou fora”. Há pessoas com as quais partilhamos a vocação: essa é a maior aliança que há, a mãe dos sentimentos eternos. E o que são sentimentos eternos? São, como diz Agustina, “os que nunca sofrem transformação, que se bastam a si mesmos como uma lealdade simples”. Custódio Rodrigues deixou-nos, mas não se despediu, pois é inesquecível. Porto, 13 de Novembro de 2003 Morreu o Prof. Custódio Rodrigues! Subitamente, sem anúncio. A morte aparece sempre sem anúncio, mesmo quando anunciada está. Lembro-me dele na primeira vez que o vi. No velho Hospital Conde de Ferreira. A sua estatura, mais baixa que alta, o seu bigode, o seu sorriso aberto (este homem tinha sempre um sorriso, mesmo quando envolvido na sombra da tristeza que o acompanhava), os seus cumprimentos carregados de erres e sempre, sempre, com alguns livros e papéis na mão. Mais tarde reencontramo-nos na velha Faculdade de Psicologia do Porto e não mais deixamos de partilhar uma profunda amizade. Daquelas que nos ensina o significado da palavra lealdade. Não consigo encontrar melhor maneira de o retratar senão através de uma história que ele muitas vezes me contava, uma história sobre as águias fabulosas que construíam o ninho com pedras. Levadas para muito longe abandonavam esse costume, ao fim de muito tempo, e transformavam-se noutra espécie de águias. Mas, um dia, águias ainda por nascer eram desembarcadas num lugar distante da sua origem, um lugar onde não havia pedras; e, elas, uma vez nascidas, continuaram a procurar as pedras para fazer o ninho, mesmo quando pedras não haviam. O Prof. Custódio era assim. Parecia muitas vezes uma pequena ave que fracamente se adaptava e que trazia nas asas o tenro vestígio do ovo donde nascera, a velha Faculdade de Medicina onde fumara o primeiro cigarro, o Hospital Conde de Ferreira e o ICBAS que bem o albergou. Parecia uma pequena ave e era uma águia. Digo-o com convicção. Lembram-se com certeza dele: que mais pequena ave representava, senão a de um homem tímido e vulgar? Mas a honestidade era o seu tesouro, pois dela fazia as torres mestras do seu actuar. E a grandeza do mundo não o tolhia, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente e a de um carácter À memória do Prof. Custódio Rodrigues In memoriam of Prof. Custódio Rodrigues J. Marques-Teixeira