“PITORESCO E ROMANTICO”:
PREMISSAS PARA A CONSERVAÇÃO DO SÍTIO
DA ARRÁBIDA, SEGUNDO O DOUTOR ANTÓNIO
NUNES DE CARVALHO, RESPONSÁVEL DO DEPÓSITO
DAS LIVRARIAS DOS EXTINTOS CONVENTOS
“PICTURESQUE AND ROMANTIC”:
PREMISSES FOR CONSERVATION OF THE PLACE
OF ARRÁBIDA, ACCORDING TO DOCTOR ANTÓNIO
NUNES DE CARVALHO, IN CHARGE OF THE DEPOSIT
OF LIBRARIES OF EXTINCT CONVENTS
Ru e Massano Rod igues
Dou o anda / ARTIS – Ins i u o de His ó ia da A e da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa
[email p o ec ed]
RESUMO
O Dou o An ónio Nunes de Ca alho, homem dedicado à memó ia, desempenhou um papel impo an e na
alo ização do pa imónio nacional. Libe al, académico, an igo exilado polí ico, ocupou o ca go de enca egado
do Depósi o das Li a ias dos Ex in os Con en os, al u a em que de endeu a conse ação da A ábida, sí io com
his ó ia e ca a e ís icas únicas. P opomo-nos e ela mais sob e uma pe sonalidade com impo an es con ac os
e uma ação in e en i a na sociedade da época, azendo pa e das co en es libe al e omân ica que con ibuí am
pa a a implemen ação de polí icas pa imoniais na p imei a me ade do século XIX.
PALAVRAS-CHAVE
Nunes de Ca alho | Roman ismo | Pi o esco | Pa imónio | A ábida
ABSTRACT
Doc o An ónio Nunes de Ca alho, man dedica ed o he memo y, played an impo an ole in he enhancemen
o na ional he i age. Libe al, academic, o me poli ical exile, he se ed in cha ge o Deposi o Lib a ies
o Ex inc Con en s, when he de ended he conse a ion o A ábida, place wi h his o y and unique ea u es.
We p opose o e eal mo e abou a pe sonali y wi h impo an con ac s and an in e en i e ac ion in he socie y
o ha ime, as pa o he libe al and oman ic cu en s ha con ibu ed o he implemen a ion o he i age policies
du ing he i s hal o he 19 h cen u y.
KEYWORDS
Nunes de Ca alho | Roman icism | Pic u esque | He i age | A ábida
ART IS ON
224 n.º 1 2015
A qua a década do século XIX em Po ugal ca ac e-
izou-se po p o undas mudanças polí icas, sociais
e cul u ais. A implemen ação do libe alismo ouxe
consigo, a a és de D. Ped o IV, de D. Ma ia II e
de um conjun o de pe sonalidades, an igos exilados
polí icos, ideias que inham como obje i o “ci iliza ”
o país, equipa ando-o a ou as nações eu opeias.
A ex inção das O dens Religiosas, em 1834, coloca ia
nas mãos do Es ado pa imónio mó el e imó el, meios
que pode iam con ibui signi ica i amen e pa a essa
conc e ização; pa a além da ins ução e alo ização
do indi íduo, da sua u ilização com ins pedagógicos
e cul u ais, inham um alo ma e ial, mui as ezes
es a égico-polí ico e inancei o, jus i icando a sua
conse ação.
O Roman ismo desen ol e -se-ia enquan o conse-
quência na u al das p o undas mudanças polí icas
e sociais que as sociedades eu opeias en en a am.
Com a sua base em F ança, Alemanha e Ingla e a,
as ideias chega iam a Po ugal a a és de exilados
e iajan es, igu as cha e no p ocesso de di usão
e omada de consciência dos alo es nacionais.
Enquan o elhos símbolos do pode e am ejei ados,
con en os e am ence ados, pa imónio descu ado ou
mesmo des uído, su gia um sen imen o de p o eção e
nacionalismo omân ico, em que os monumen os e am
is os como documen os his ó icos que impo a a
p ese a . Desen ol ia-se a noção de pa imónio
nacional e com ela a ideia da impo ância da sua
conse ação.
Tal como Alexand e He culano ou Almeida Ga e ,
ambém o Dou o An ónio Nunes de Ca alho (Viseu,
1786 – Coimb a, 1867) – enca egado do Depósi o
das Li a ias dos Ex in os Con en os1 (DLEC), inha sido
um exilado. [ ig.01]
No exílio, en e 1828 e 1833, desen ol e con ac os
na mais al a es e a libe al po uguesa e p i a com
pe sonalidades como o biblio ecá io, conse ado ,
p o esso , a queólogo e egip ólogo Champollion-Figeac
(1778-1867)2, i mão de Jean-F ançois Champollion.
Em inais de 1831, ou inícios de 1832, e a escolhido
pa a a nob e a e a de p o esso de Li e a u a
Po uguesa da u u a Rainha D. Ma ia II, em Pa is
(Ba a a, 2003: 33). No es angei o, es e an igo len e
da Uni e sidade de Coimb a ence a a aquela que
José Ma ia de Ab eu (1818-1871) desc e e á como
“uma no a e a de as as e p o undas lucub ações
scien i icas, de no os e a iados es udos, em que
ãobem sabia ap o ei a as longas ho as de du o
exilio, e mi iga as saudades da pa ia, p ocu ando,
en ão mesmo que ão ad e sa se lhe mos a a,
se il-a e hon al-a com os seus esc ip os, e e udi as
publicações.” (Gaze a, 1867:1).
Nunes de Ca alho, e ela ia ao longo da sua ida,
um in e esse pela memó ia, al ez omen ado pelo
con ac o p óximo com D. F . Manuel do Cenáculo
Vilas Boas (1724-1814) que o chama, em 1806, pa a
lecciona Humanidades em É o a 3 (Gaze a, 1867:1).
Com es e in elec ual “comple ou a sua educação
li e a ia, e adqui iu aquelle ex emado amo pelas
le as e pelos seus cul o es, que oi a paixão dominan e
de oda a sua ida.” (Gaze a, 1867:1); Cenáculo e a
NUNES DE CARVALHO E O PATRIMÓNIO
1. Es u u a mon ada no ex in o con en o de São F ancisco da Cidade, com o obje i o de p ocede à ecolha e ges ão das “Li a ias, Ca o ios,
Pin u as, e mais p eciosidades li e a ias e scien i icas” dos con en os sup imidos. Po a ia/ci cula de 24 de ma ço de 1835. Biblio eca
Nacional de Po ugal, Rese ados, A qui o His ó ico, BN/AC/INC/DLEC/01/Cx-01-01
2. A qui o Nacional da To e do Tombo (A.N.T.T.), Condes de Linha es, Mç.109 doc.7, Mç. 41 doc. 11.
3. O pe cu so de Nunes de Ca alho inha-se iniciado no Colégio O a o iano de S. Filipe de Né i, onde e elou g ande b ilhan ismo, sendo
con idado em 1804, pa a p o esso subs i u o da cadei a de La im (Gaze a, 1867:1). Depois de É o a, Coimb a oi o des ino seguin e.
Em 1809 e a p o esso de Lógica no Real Colégio das A es. Já o mado em Cânones e Leis, em 1822 omou o g au de dou o em
Ju isp udência, ano em que passa a p o esso e e i o da Uni e sidade. A adesão à Causa Libe al le ou a que em 1823 osse incluído
na lis a de len es cono ados com o libe alismo e a que, em 1828, abandonasse aquela cidade de ido a azões polí icas, elacionadas
com a i ó ia do absolu ismo miguelis a. O clima polí ico e as pe seguições dos miguelis as le a am-no a exila -se p imei o na Galiza,
e depois, em Ingla e a e em F ança. (Ba a a, 2003: 33).
ARTES DECORATIVAS DECORATIVE ARTS 225
n.º 1 2015
4. Segundo B igola, Cenáculo cul i a a dois pólos da cu iosidade an iquá ia e a queológica: o pólo clássico e o pólo nacional.
Es e úl imo “ adica a numa adição his o iog á ica (…) que busca a a memó ia an iga do “Reyno de Po ugal” documen ada nos
es ígios epig á icos, a qui ec ónicos, escul ó icos, medalhís icos e numismá icos dos po os “an epassados” e dos empos medie o
e enascen is a.” (B igola, 2003: 423-424).
ambém um colecionado , in e essado na cons ução
de uma memó ia nacional4, ca a e ís ica que o
di eciona, p ecocemen e, no caminho do oman ismo.
A con i ência do u u o enca egado do DLEC, com
es a eminen e igu a e com ou as com quem con i eu
du an e o exílio, ê-lo-á ap oximado dos e o es cha e
do libe alismo e do oman ismo, com consequências
na cons ução da sua sensibilidade cul u al.
Num empo conside ado como o despe a do oman-
ismo po uguês, em que Camões e a a p incipal
e e ência, inspi ando uma ge ação que po azões
polí icas es a a exilada (Soa es, 2005), Nunes de
Ca alho deb uçou-se sob e ou a igu a exempla e
mo i ado a do p og esso nacional: D. João de Cas o.
Examinando a biblio eca do Museu B i ânico e as
p incipais biblio ecas e a qui os de Pa is, publicou em
1833, com a con ibuição pecuniá ia de ou os ilus es
po ugueses, en e os quais a Ma quesa de Palmela,
os Ma queses de Nisa e o Ma quês do La adio, o
impo an e manusc i o de D. João de Cas o Ro ei o em
TEMPO DE “HERÓIS”
Fig 01. O Dou o An onio Nunes de Ca alho da Cidade
de Vizeu, s.d.; au o desconhecido; li og a ia, p&b;
15x14,7 cm; co a: E.1659 P.; © BNP
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226 n.º 1 2015
que se con em a iagem que ize am os po uguezes
no anno de 1541, pa indo da nob e cidade de Goa
a e Suez… (Cas o e Ca alho, 1833), cujo o iginal
encon ou no e e ido Museu. “Ti ado a luz pela
p imei a ez do manusc i o o iginal e ac escen ado
com o I ine a ium Ma is Rub i, e o e a o do au ho ,
e c. e c.”, es a edição, con ém ainda um p e ácio e
“Memo ias e Lou o es de D. Joam de Cas o, e de
seus esc i os” – onde não al am os comen á ios
ecidos po James Mu phy – e le ia uma missão
pa ió ica. Um dos obje i os se ia “accende no
pei o da mocidade Po ugueza o dezejo de imi a
as i udes des e g ande Homem; bem ce os de que
os nob es ei os dos Va ões Illus es são os incen i os
mais o es pa a animos gene osos, que amão a
hon a e a glo ia” (Cas o e Ca alho, 1833: XIII)5.
Con ibuía assim, pa a ajuda a cul i a a memó ia
daquele g ande he ói c is ão que Felix Lichnowsky
em 1842, e ela que pe manecia i a e a eigada
en e os po ugueses, designando-o como “um dos
pon os luminosos da his ó ia lusi ana” (Lichnowsky,
2005: 173).
A ideia de glo i ica a memó ia dos an epassados
ilus es, á ias ezes p esen e no discu so de Nunes
de Ca alho, ca a aos libe ais omân icos ambém
enquan o es ímulo pa a o p og esso u u o, i ia a
es a , nos anos p óximos, na o dem do dia.
Em se emb o de 1835, já enca egado do DLEC,
Ca alho ealizou uma iagem à P o íncia do Alem-
-Tejo com o in ui o de isi a alguns an igos espaços,
in en a ia , a a da expedição de algumas li a ias
e ecolhe in o mações.
Es a iagem ia Azei ão, A ábida, Se úbal, Alcáce
do Sal, com des ino a É o a, o igina ia pelo menos
duas ca as di igidas ao Minis o e Sec e á io de
Es ado dos Negócios do Reino, Rod igo da Fonseca
Magalhães. A p imei a dessas missi as, da ada de
27 de se emb o, e ela indícios das no as polí icas
libe ais e men alidade omân ica que ganha am en ão
maio isibilidade no einado de D. Ma ia II, a a és
de nomes como He culano – exp essas no conjun o de
a igos em de esa dos monumen os, que i ia a publica
em 1838-39 no Pano ama – ou Ga e .
A p opósi o da A ábida, Nunes de Ca alho ecia a
seguin e conside ação:
“O si io da Se a da A abida he pi o esco e oman ico,
al ez unico pela sua si uação sob e o ma , e mui
p op io pa a a ahi equen es izi as de nacionaes
e es angei os cu iosos des e gene o de bellezas, o
que não póde deixa de se mui u il aos po os ci cum
ezinhos, e ao paiz em ge al. Alem disso o amoso
San ua io que alli exis e, he ido em g ande ene ação
en e os habi an es das duas p o incias ezinhas, e
despe a a memo ia de mui os Va ões assignalados,
que naquelle e mo passá ão a ul ima es ação da ida.
Pelo que me pa eceo que se ia não só u il, mas poli ico
conse alo no es ado em que ac ualmen e se acha.”6
Nunes de Ca alho, com um o e sen ido es a égico,
aliando a u ilidade à polí ica, aludia à A ábida
(sí io ão ap eciado pelos iajan es quan o Sin a –
ao qual mui as ezes é compa ado – Ba alha, ou
Alcobaça) e ao e dadei o complexo anciscano
Con en o de Nossa Senho a da A ábida, com uma
o igem associada à lenda de Hildeb and e ligado
aos Duques de A ei o desde o séc. XVI – locais
de o e componen e his ó ica, eme endo pa a a
memó ia nacional, onde passa am nomes ilus es
como S. Ped o de Alcân a a, F ei Agos inho da
C uz, D. Ál a o – Duque de A ei o, en e ou os.
Aquele conjun o paisagís ico e pa imonial – seme-
lhan e a Sin a e ao Con en o dos Capuchos,
undado po D. Ál a o de Cas o, ilho de D. João
A ARRÁBIDA
5. Nunes de Ca alho e ia ainda a in enção de publica as es an es ob as do e cei o Go e nado e qua o ice- ei da Índia (Cas o
e Ca alho, 1833: IX). Algumas ca as e ão sido publicadas no Ins i u o de Coimb a. (Gaze a, 1867:1-2).
6. Quan o à A ábida e e ia ainda que “ endo examinado, e ei o in en a ia udo o que alli ha ia pe encen e á minha Commissão,
limi ei-me po ago a a manda conduzi ao Deposi o os poucos li os que alli ha ia de mais alo e a idade, deixando odo o es o bem
acau ellado pa a ou a occasião.” 27 de se emb o de 1835, A.N.T.T., Minis é io do Reino, Mç.2038.
ARTES DECORATIVAS DECORATIVE ARTS 227
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Fig 02. A abida (álbum Scene y o Po ugal & Spain), 1839; Geo ge Vi ian (1798-1873), Louis Haghe (1806-1885) li .; li og a ia agua elada;
c.55,8x38,5 cm; co a: E.A. 117 A.; h p://pu l.p /23874/3/#/24 © BNP
de Cas o – eunia p emissas necessá ias pa a se
conse ado: impo an e es emunho do passado, local
de g ande ene ação, es a am-lhe ligadas igu as
ilus es e exempla es e e a amplamen e isi ado po
nacionais e es angei os, a aídos pelo “pi o esco e
oman ico”, e mos que Nunes de Ca alho u ilizou
p ecocemen e; apenas em 1831, anos an es do e mo
“ omân ico” apa ece e e enciado, e a ap esen ada
a pala a “Pi o èsco” de inida como “adj. mod. usual.
Que pin a, e desc e e as coisas ao i o, ielmen e:
“pala as −, es ilo − “ anslação de Pin o , Pin u a. (do
I aliano Pi o e, Pi o esco.)” (Sil a e Velho, 1831: 474).
Ao in és do que sucede ia com ou os espaços,
Ca alho pugna a pela sua conse ação, e elando
não só sen ido de opo unidade, pe cu so de uma
e dadei a isão “ u ís ica”, com as an agens que
daí ad i iam, mas ambém as bases do oman ismo
que iam su gindo implíci as nas polí icas libe ais.
Já em inais do século XVIII, se encon a am es emu-
nhos de es angei os que a a és de ap eciações
omân icas, ilus a am as no as pe spe i as dos locais
que isi a am, con ibuindo pa a a sua e elação
e alo ização.
A admi ação po aquele sí io inha já le ado o poe a
omân ico inglês Robe Sou hey (1774-1843) a
esc e e o poema Musings a e isi ing he Con en
o A abida, que iajan es pos e io es passa am a
ci a e a que Ca l Is ael Rude s (1761-1837) aludi á
em 1799, assegu ando que a inspi ação do poe a
não ul apassa a a ealidade, “e que as belezas
do seu poema, em desenhos e co es, e am i ados
«d’ap és na u e».”; quando es e sueco isi a o local,
cujo “pano ama ao mesmo empo g andioso e
encan ado ”, com a “cadeia de mon anhas com a sua
deliciosa e du a, as suas omân icas ondulações, os
seus belos edi ícios e a pe spec i a das seis capelas
equidis an es umas das ou as, a desce numa linha
sua e a é à p aia; o incomensu á el semicí culo
o mado pelo Oceano A lân ico, com os na ios mais
ou menos dis an es”, deixam-no num “es ado de
assomb o e encan o sublime” (Rude s, 2002: 66).
[ ig.02]
Também Ma ianne Baillie (c.1795-1830), em 1823,
enal ecia a “ omân ica as idão do pano ama” que
i aliza a com Sin a “ an o em beleza como em
majes ade”. A A ábida cons i uía “uma das coisas mais
peculia es e mais belas de Po ugal”, o seu con en o
ART IS ON
228 n.º 1 2015
“um dos edi ícios mais pi o escos que a imaginação
pode concebe ” (Baillie, 2002: 258).
Os bosques, a g u a, a o ma como o con en o se
in eg a a na paisagem, a comunhão com a na u eza,
c ia am, al como em Sin a, um clima cenog á ico em
que os edi ícios con as a am com a paisagem na u al,
eunindo em si, pa a além da p óp ia implan ação,
a o es como a pá ina e o mas an ás icas, ca a e ís icas
de um no o alo pi o esco (Choay, 2006: 116).
Em 1830 Alexand e He culano esc e e ia o p o undo
poema omân ico A A abida,7 – paisagem in ini a em que
se de ém sob e a libe dade, a pá ia, Deus e a na u eza –
dedica-o ao amigo Rod igo da Fonseca Magalhães, o
mesmo des ina á io da missi a que a amos.
7. Publicado em 1838, em A Ha pa do C en e: en a i as poé icas.
8. Pos e io men e, com is a à e icien e ges ão e e en ual conse ação e u ilização do ele ado núme o de edi ícios públicos, Mouzinho
de Albuque que, enquan o Inspe o -ge al In e ino das Ob as Públicas, p opo ia um sis ema de classi icação dos edi ícios. A.N.T.T.
In endência das Ob as Públicas, Li o 370.
9. Den o do mesmo espí i o omân ico de p ese a a iden idade nacional, Ga e i ia a publica o Romancei o. Pa a a sua elabo ação
oi auxiliado po amigos na colecionação dos con os popula es; en e eles con a a-se Nunes de Ca alho (B aga, 1904: xxxii).
10. Dec e os de 26 de se emb o e 21 de no emb o; po a ia de 3 de ou ub o de 1836 (Collecção, 1837: 16, 26-27, 87-88).
Meses an es de Nunes de Ca alho p o e i a sua
opinião ace ca da A ábida, inham já sido omadas
algumas das medidas de sal agua da do pa imónio,
nomeadamen e, os c i é ios de enda dos bens
nacionais, es abelecidos pela Ca a de Lei de 15 de
ab il de 1835, a a és dos quais se exce ua a de se em
alienados “As ob as e Edi icios de no á el an iguidade
que me eçam se conse ados como p imo es da a e,
ou como Monumen os his ó icos de g andes ei os, ou
de Epocas Nacionaes” (Soa es, 2014:10).
Em inícios de 1836, e no mesmo âmbi o, o Minis o e
Sec e á io de Es ado dos Negócios do Reino Luís da
Sil a Mouzinho de Albuque que, po po a ia/ci cula
de 19 de e e ei o (Soa es, 2014:10-11), con ida ia
a Academia Real das Ciências de Lisboa pa a e e ua
uma pionei a a e a de in en a iação, de inspi ação
ancesa. P e endia-se o ma uma elação de odos os
edi ícios das ex in as O dens Religiosas inco po ados
nos bens da Nação “no á eis pela epocha da sua
undação, ac os his o icos com quem em ín ima
elação, monumen os úneb es, ou elíquias de
homens celeb es que ence am, ou inalmen e pela sua
a chi ec u a, e po qualque des es mo i os se o nam
dignos de se conse ados, e en e idos po con a do
Go e no, como monumen os publicos”. O obje i o
e a “sob e es a a empo na enda, alienação, ou
deso ganisação des es objec os de in e esse Nacional”8
(apud Al es, 2007: 251). Cons a a a-se a necessidade
de conhece , conse a e man e pa imónio impo an e,
osse pelo alo a ís ico, pela an iguidade ou alo
nacional.
A po a ia de 8 de Ab il de 1836, pa a a conse ação
das en ão “quasi esquecidas” uínas de Sag es,
es ígio de um passado glo ioso em que se es abelecia
ligação ao “Magnanino In an e D. Hen ique” e aos
“in épidos na egan es Po uguezes” (Collecção, 1836:
67), demons a o “espí i o da época”, numa necessá ia
busca de eencon a e e ências.
O desejo de e oca o passado e os he óis se ia ma e-
ializado pelos se emb is as nesse ano, no dec e o de
c iação do Pan eão Nacional de 26 de se emb o, indo
a se nomeada uma comissão com o p opósi o de
p opo as p o idências necessá ias à sua execução,
elabo a um p oje o de egulamen o, e indica um
edi ício nacional pa a esse im. Dela azia pa e o
p óp io Nunes de Ca alho, com Almeida Ga e 9,
F ancisco Sil a Cu ense, José da Cos a Sequei a e José
Lopes da Câma a Sin al.10
Em 1840 i ia a se c iada a Sociedade Conse ado a
dos Monumen os Nacionais, no mesmo ano em que
Mouzinho de Albuque que inicia a a in e enção no
Mos ei o da Ba alha, monumen o que ence a a um o e
simbolismo, deco en e da sua associação a ele an es
ac os his ó icos e igu as nacionais (Ne o, 1997).
PRESERVAR A MEMÓRIA
ARTES DECORATIVAS DECORATIVE ARTS 229
n.º 1 2015
O con en o da A ábida ica ia sob p o ecção do
Duque de Palmela, D. Ped o de Sousa Hols ein (Tu im,
1781 – Lisboa, 1850). Com uma educação omân ica,
com o mação a ís ica desen ol ida em I ália, de e e
á ias ezes a pas a dos Negócios Es angei os, oi
embaixado , con i eu com nomes como Madame de
S äel, aspe os que molda am es e diploma a, cul u al
e a is icamen e, e o e ão consciencializado da beleza
e impo ância de p ese a um local como a A ábida.
Num quad o polí ico a ibulado, e elou-se um
mecenas pa a as a es, pa a os a is as e impo an e
colecionado (Se ão, 2001: 80-86).
Em 1842, Felix Lichnowsky, salien a a a sua “p o ici-
ência em di e en es amos, se mui o e udi o e
mui o e sado no conhecimen o das belas-a es”,
es o çando-se em “ esis i à comple a decadência dos
mui o admi á eis es os que ica am a Po ugal da
sua g andeza passada”, algo ma e ializado nas suas
“edi icações e es au ações no con en o da A ábida”.
(Lichnowsky, 2005:85) Segundo es e p íncipe, Palmela
inha enca egue um eligioso secula “de igia pelo
edi ício” e, “g aças ao seu des elo”, lou a elmen e
inham sido ei as “ epa ações mui ap op iadas em
odas as pa es que ameaça am uína.” (Lichnowsky,
2005: 160). Mas a au a omân ica pe manecia.
Re e e Lichnowsky que aquele con en o não con inha
en ão obje o algum de a e. No en an o, segundo ele,
“a sua poesia exis e na sua his ó ia, no sí io em que
es á e na o andade de um emplo abandonado.”
(Lichnowsky, 2005: 160).
In e essado em p ese a aquele espaço, al ez ambém
in luenciado pelo con ex o polí ico e cul u al e pela
in e enção de Albuque que na Ba alha, o Duque e á
ali en ado man e unidade e equilíb io, não desca ac e-
izando o edi icado e sua en ol en e, a i ude que se á
elogiada.
Manusc i os pos e io es, oi ocen is as, que na am
a his ó ia do con en o, aludindo a uma comp a
do con en o e de uma g ande pa e da se a,
ainda pelo 1.º Duque11, enal ecem o ac o de es e
não e ido “a desg aça de o na mais u il es e
monumen o his o ico po meio de ans o mações
à mode na” nem pe mi ido que “po incu ia iesse
a desmo ona -se”; lou a a-se assim es es “illus es
idalgos [que] esme ando se na conse ação desses
monumen os, que assim eem escapado ao anda-
lismo do cama ello, que po ahi an o em dis uido”,
salien ando que a eles se de ia pode en ão ainda
“ isi a -se com ce o p aze , e in e esse a pi o esca
se a da A abida, ica de adições eligiosas, e não
menos de eco dações hon osas pa a o nosso país.”12
D. Ped o de Sousa Hols ein e Nunes de Ca alho
de e ão e con ac ado di e sas ezes, nomeadamen e,
em Lond es (onde o p imei o ainda e a embaixado
e o úl imo ju a idelidade à Rainha) e em Pa is, pela
mesma al u a em que a en ão ma quesa, e a uma das
pa ocinado as da edição do Ro ei o.
Te á sido, na capi al b i ânica, com o i mão de An ónio
Nunes de Ca alho, José, que Hols ein mais p i ou.
Es e, quase desconhecido – que de e á e eg essado
a Po ugal em inais de 1827 (desencon ando-se
do i mão), ocupado o luga de O icial da Sec e a ia
de Es ado dos Negócios Es angei os (Palmela e
Vasconcellos, 1854:336) e o nado apoian e miguelis a
(Sil a, 1885:150) – e a adido na legação po uguesa13,
ali se indo du an e mais de dez anos, p eenchendo
nos úl imos qua o a al a do Sec e á io. A con iança e
es ima do en ão ma quês que o designa na “hon osa
missão” de “po ado segu o” das ca as do In an e
D. Miguel à mãe, i mã e ia, é no ó ia, pedindo pa a
es e “beneme i o emp egado” a Cândido José Xa ie
p o ecção e econhecimen o, des acando o seu “nunca
D. PEDRO DE SOUSA HOLSTEIN
E O CONVENTO DA ARRÁBIDA
11. Luz So iano em Re elações da minha ida e memo ias de alguns ac os…, de 1860, e e e a comp a do con en o po D. Ped o de
Sousa Hols ein. In elizmen e, a nossa in es igação não pe mi iu apu a mais de alhes ace ca des e assun o. 1863 cos uma se o ano
apon ado como aquele em que a Casa Palmela adqui iu o imó el.
12. Con en o de Nossa Senho a da A ábida. A qui o Dis i al de Se úbal, A qui o Pessoal de Almeida Ca alho 1840/1897. Disponí el
em h p://digi a q.ads b.dga q.go .p / iewe ?id=1333532 e h p://digi a q.ads b.dga q.go .p / iewe ?id=1333529 (2015.04.07)
13. Te á sido José Libe a o F ei e de Ca alho (1772-1855) a ecomendá-lo ao Duque de Palmela “pa a o emp ega na sua Sec e a ia”.
Segundo es e in elec ual, José Nunes de Ca alho e a “do ado de mui a habilidade”, com “um alen o mui pa icula pa a a pin u a de
e a os”, indo “a mo e ainda mui o moço, o icial d’uma Sec e a ia” (Ca alho, 1855:166-167)
ART IS ON
230 n.º 1 2015
desmen ido zelo a bem do Real Se iço” e a “pu eza da
sua condu a” (Palmela e Vasconcellos, 1854:336-337).
À semelhança do i mão, com quem di ide amizades,
como o Ma quês do Funchal, es o ça-se po p ese a a
memó ia nacional, en ol endo-se di e amen e na edição/
eimp essão em Lond es de ob as li e á ias que chega a
en ia aos amigos a a és de Hols ein.14 Desconhece-se
que ipo de elação man inham os dois i mãos.
Apesa de não pode mos dize que An ónio Nunes
de Ca alho in luenciou o Duque de Palmela em
elação à A ábida, é ce o que as a i udes de ambos
se insc e em, sublimina men e, numa no a a i ude
omân ica e nacionalis a de de esa do pa imónio.
11. Luz So iano em Re elações da minha ida e memo ias de alguns ac os…, de 1860, e e e a comp a do con en o po D. Ped o de
Sousa Hols ein. In elizmen e, a nossa in es igação não pe mi iu apu a mais de alhes ace ca des e assun o. 1863 cos uma se o ano
apon ado como aquele em que a Casa Palmela adqui iu o imó el.
12. Con en o de Nossa Senho a da A ábida. A qui o Dis i al de Se úbal, A qui o Pessoal de Almeida Ca alho 1840/1897. Disponí el
em h p://digi a q.ads b.dga q.go .p / iewe ?id=1333532 e h p://digi a q.ads b.dga q.go .p / iewe ?id=1333529 (2015.04.07)
13. Te á sido José Libe a o F ei e de Ca alho (1772-1855) a ecomendá-lo ao Duque de Palmela “pa a o emp ega na sua Sec e a ia”.
Segundo es e in elec ual, José Nunes de Ca alho e a “do ado de mui a habilidade”, com “um alen o mui pa icula pa a a pin u a de
e a os”, indo “a mo e ainda mui o moço, o icial d’uma Sec e a ia” (Ca alho, 1855:166-167).
14. A.N.T.T., Condes de Linha es, Mç. 77, doc.33. Ca a de José Nunes de Ca alho di igida ao Conde de Linha es, 31 de Maio de 1820.
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