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Cantinas coloniais e o vinho português na capital de Moçambique

Abstract

Este texto procura, de forma preliminar, pensar as ligações entre o comércio de vinho português em direção ao espaço colonial e a rede de relações que, no terreno, envolviam este tráfico. Neste contexto, o espaço das cantinas, lugares de venda do vinho, da colónia de Moçambique surgem como observatório privilegiado. Com base em bibliografia secundária, mas também a partir de trabalho de campo realizado em Maputo, este texto coloca um conjunto de questões de investi-gação direcionado ao período do chamado colonialismo tardio, quando as colónias portuguesas, nomeadamente Angola e Moçambique, se tornaram o principal destino externo do “vinho comum”.

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Cantinas coloniais e o vinho português na capital de Moçambique

Author: Domingos, Nuno
Publisher: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia
Year: 2018
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/35386/1/ICS_NDomingos_Cantinas.pdf
T abalhos de An opologia e E nologia, 2018, olume 58 | 531
Can inas coloniais e o inho po uguês na capi al de Moçambique
CANTINAS COLONIAIS E O VINHO
PORTUGUÊS NA CAPITAL DE MOÇAMBIQUE
po
Nuno Domingos1
Resumo: Es e ex o p ocu a, de o ma p elimina , pensa as ligações en e o comé cio de inho
po uguês em di eção ao espaço colonial e a ede de elações que, no e eno, en ol iam es e á-
ico. Nes e con ex o, o espaço das can inas, luga es de enda do inho, da colónia de Moçambique
su gem como obse a ó io p i ilegiado. Com base em bibliog a ia secundá ia, mas ambém a pa i
de abalho de campo ealizado em Mapu o, es e ex o coloca um conjun o de ques ões de in es i-
gação di ecionado ao pe íodo do chamado colonialismo a dio, quando as colónias po uguesas,
nomeadamen e Angola e Moçambique, se o na am o p incipal des ino ex e no do “ inho comum”.
Pala as-cha e: Vinho; colonialismo; Moçambique.
Abs ac : This a icle aims o in e p e he links be ween he Po uguese wine ade owa ds he colonial
e i o ies and he ne wo k o ela ions ha , in he e ain, in ol ed his a ic. In his con ex , he can eens,
places whe e de me opoli an wine was sold in he colony o Mozambique, a e p i ileged obse a o ies o
esea ch. Based on a seconda y bibliog aphy, bu also on he esul s om ieldwo k conduc ed in Mapu o,
his ex poses a se o esea ch ques ions di ec ed o he so-called la e colonial pe iod, when he Po uguese
colonies, namely Angola and Mozambique, became he main des ina ion o he me opoli an able wine.
Keywo ds: Wine; colonialism; Mozambique.
ANTROPOLOGIA DA ALIMENTAÇÃO E COLONIALISMO
As ciências sociais êm pesquisado a elação en e a alimen ação e a his ó ia
dos impé ios coloniais, exis indo hoje abalhos especi icamen e consag ados ao ema
(Die le 2007, Laudan 2013). A an opologia da alimen ação encon a igualmen e
no quad o his ó ico-geog á ico dos impé ios coloniais um e eno p i ilegiado pa a
as suas in es igações. Algumas das ob as que con igu am o cânone da an opologia
1 In es igado Auxilia do Ins i u o de Ciências Sociais, Uni e sidade de Lisboa.
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Nuno Domingos
êm o quad o colonial como e e ência de pesquisa e na alimen ação um elemen o
undamen al dos seus p og amas de in es igação. Encon am-se en e es es casos,
as ob as pionei as de Aud ey Richa ds publicadas nos anos 30 (Richa ds 1932,
1939) sob e os sis emas alimen a es a icanos, nomeadamen e no e i ó io que na
al u a co espondia à Rodésia do No e, hoje a Zâmbia; as análises de Jack Goody
(1982) e Ma y Douglas (1979, com B ian Ishe wood) sob e alimen ação e p ocessos
de es a i icação social; ou a monog a ia de Sidney Min z sob e a his ó ia global
do açúca (1985), na qual os sis emas de plan ação ca ibenhos su gem em elação
com os pad ões de consumo na Eu opa, nomeadamen e em Ingla e a.
Es as ob as ambicionam discu i dinâmicas es u u ais desde o de alhe e no-
g á ico e da a enção às ocas p opo cionadas pela elação en e p odução e con-
sumo. Os p odu os alimen a es o am componen es undamen ais no sis ema de
ocas impos o pelos egimes coloniais. Es a oca al e ou os sis emas alimen a es
nos e i ó ios colonizados, nas nações colonizado es, mas igualmen e em odos
os países que, mesmo não es ando en ol idos na oca come cial impe ial, de
alguma o ma ie am a pa icipa nos seus ci cui os (Bush, B yan e Wilk 2013).
Es e luxo come cial ans o mou a dinâmica dos pad ões de p odução e consumo
a ní el global, bem como o alo ma e ial e simbólico dos alimen os. In eg ados
em sis emas de alimen ação locais, egionais, nacionais, es es alimen os o am
ap op iados, manipulados, ans o mados. Moldados po es a he ança colonial,
alguns mo imen os mig a ó ios são hoje eixos dinâmicos de di e si icação alimen-
a , ob igando mesmo a uma a ualização da de inição de gas onomias nacionais
(Smi h 2012).
Se o mo imen o de oca colonial ajuda a in e p e a a e olução dos sis emas
alimen a es, a his ó ia e a an opologia dos alimen os pode, e oa i amen e, se o
pon o de pa ida pa a o es udo de g andes p ocessos his ó icos, desde a cons i uição
de economias e sis emas mundo, como às p óp ias lógicas de cons ução nacional
(Min z 1985). A análise des es p ocessos bene icia de in es igações ealizadas a
pa i do abalho de campo e nog á ico.
No caso po uguês, a elação en e alimen ação, an opologia e his ó ia em
indo a se in es igada, e elando como o campo alimen a nacional se cons i ui
ambém como o esul ado de dinâmicas de oca globais (Sob al 2014a, 2014b).
Nes e con ex o, a expansão ma í ima, na sua di e sidade de empos e espaços,
desempenhou um papel ele an e no i ine á io da globalização alimen a (Cu o
2002).
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Can inas coloniais e o inho po uguês na capi al de Moçambique
VINHO COLONIAL
O inho é um dos p odu os alimen a es que possibili a o es abelecimen o da
elação en e a his ó ia po uguesa e um conjun o de p ocessos endencialmen e
globais. Obje o p i ilegiado pa a es uda as es u u as da sociedade po uguesa,
pela sua eno me impo ância ag ícola e undiá ia, an o em á ea plan ada como em
mão-de-ob a u ilizada, e pelo luga ocupado nos consumos quo idianos ao longo
dos séculos, a his ó ia do inho demons a como a economia nacional se encon a a
ligada a me cados de consumo ex e nos (Bap is a 1993, Simões 2006, F ei e 2010).
Mais es udada, a his ó ia do inho do Po o é a ep esen ação mais ípica
des a in e ligação da economia e da sociedade po uguesas com escalas de p odu-
ção e consumo mais as as (Ma ins 1990). O peso do me cado inglês na eco-
nomia no inho do Po o, peça undamen al da es u u a expo ado a po uguesa
du an e á ios séculos, e a in luência des a oca no desen ol imen o da indús ia
nacional, concedeu à “ques ão do inho do Po o” um luga cen al na análise da
economia nacional. Mas o inho do Po o, jun amen e com ou os inhos di os
nob es, lico osos, o mais impo an e dos quais o Madei a, não esgo a a o luxo
de expo ação de inhos po ugueses. O chamado inho comum e a igualmen e
colocado em á ios des inos. Embo a his o icamen e o peso do inho comum
nos luc os da oca come cial inícola não osse compa á el ao do Po o, ele oi
ganhando dimensão, embo a com g andes lu uações (Ma ins 1990, 236). Se em
1875-1879 alia apenas 23,5%, no pe íodo en e 1900-1904 já alia 46%, pa a cai
pa a 15% en e 1930-1934. A pa i dessa da a a p opo ção dos luc os do inho
comum aumen ou, a é chega ao máximo de 59,4% en e 1960 e 1964. An iga,
a elação do álcool com o impé io c esceu mui o na ansição pa a o século XX
e du an e quase odo o século XX. Nes e pe íodo, o espaço impe ial po uguês
conquis ou uma a ia signi ica i a na expo ação do comé cio do inho comum
(Ma ins 1990, 253).
O me cado do inho Po o nunca passou pelo espaço colonial, onde na p i-
mei a pa e do século XX abso ia apenas 0.8% das expo ações das ca es de Gaia
(Ma ins 1990, 250-251). Já no que espei a a o inho comum, o me cado a icano
o nou-se in luen e desde o inal do século XIX. Se en e 1865 e 1899 ep esen a a
8% das expo ações (em compa ação com os 45% des inados ao B asil e os 39%
que iam pa a F ança) en e 1900 e 1949 já ep esen a a 27% (con a 28 pa a o
B asil e 21 pa a F ança), e en e 1950 e 1986 alcançou 51% das expo ações o ais
de inho comum po uguês (Ma ins 1990, 253).
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Tabela 1: Comé cio de inho pa a Á ica no o al de expo ações de inho (Ma ins 1990, 253).
O acesso p i ilegiado dos p odu o es de inho po ugueses aos me cados
coloniais e a um a o c ucial pa a o inc emen o des e á ico (Capela 1973). Es e
p i ilégio sob e di e sos ipos de conco ência, e ela a o pode des es a o es
económicos nos p ocessos de decisão de polí icos e legislado es. Assim, a abe u a
dos me cados coloniais aos inhos po ugueses, bene iciando de um conjun o de
an agens iscais, ealizou-se em condições excecionais, já que o Es ado egula-
men ou a p oibição do desen ol imen o de indús ias de p odução de álcool nas
colónias, de idas po colonos, que ope a a pela ans o mação da cana de açúca .
Os p o es os de p odu o es locais, apoiados po alguns go e nan es na me ópole,
não oi su icien e pa a a a es as medidas. Po úl imo, a conquis a do me cado
a icano pelo chamado inho colonial encon a a-se ainda acili ada pela pe se-
guição à p odução de bebidas adicionais po pa e das populações a icanas2
(Capela 1973, Ma ias 2006). Todas es as medidas c ia am condições ex ao diná ias
pa a os p odu o es de inho me opoli ano escoa em pa a os me cados coloniais
uma p odução c onicamen e excessi a.
No que espei a à en ão colónia de Moçambique, os núme os da es a ís ica
o icial comp o am como es e comé cio aumen ou no pós-gue a:
2 Sob e as bebidas adicionais em Moçambique e Medei os (1988).
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Can inas coloniais e o inho po uguês na capi al de Moçambique
Tabela 2: Comé cio de inho pa a Moçambique, em hec oli os (Anuá io Es a ís ico de Moçambique).
O PERCURSO DA MERCADORIA
T anspo ados po ba co em g andes pipas desde os a mazéns si uados na
zona o ien al de Lisboa a é ao po o da en ão Lou enço Ma ques, o inho colo-
nial, depois de iscalizado na on ei a, e a gua dado po a mazenis as locais, que
man inham elações com os p odu o es da me ópole. O aumen o do núme o de
a mazenis as a pa i da década de 50 na capi al de Moçambique é ou o indicado
do c escimen o des e comé cio no pe íodo em causa.
Tabela 3: A mazenis as de inho em Lou enço Ma ques.

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P o enien es da me ópole, os inhos e am dis ibuídos desde os a mazéns
pa a a ex ensa ede de luga es de enda onde se iam come cializados. En e os
espaços mais impo an es encon a am-se as chamadas can inas. A can ina e a um
local de comé cio a iado3. Se gene icamen e, nelas se endiam bens alimen a es
essenciais e ecidos, e am ambém esponsá eis pela disseminação de ou os bens
de consumo (Zampa oni 1998, 335). Algumas can inas desempenha am, po ém,
ou as unções: locais onde se podia pe noi a , colocadas ao longo dos i ine á ios
mig a ó ios, nomeadamen e em di eção às minas sul-a icanas, o e eciam ambém
se iços de p os i uição (Ha ies 1993, 99-103; Zampa oni 1998, 350).
As can inas localiza am-se em di e en es con ex os espaciais. Nas maio es
cidades, ocupa am as zonas onde i ia a população colona mais pob e, pe o das
zonas de ansição pa a as pe i e ias onde se encon a am as populações a icanas
mais u banizadas, a as adas do cen o da cidade. Encon a am-se igualmen e nos
p og essi amen e as os subú bios a icanos. Nas cidades mais pequenas e iam
um es a u o ele ado, sem conco ência dos espaços de consumo di igidos aos
colonos b ancos nas g andes cidades, nomeadamen e os ca és, ba es, bo equins e
es au an es. Mas os can inei os es a am p esen es no eno me espaço u al que
p eenchia a g ande maio ia do e i ó io de Moçambique. Nes es con ex os, a sua
unção come cial e a especialmen e impo an e: essencial pa a a disseminação de
de e minados p odu os e pad ões de consumo. Um dos e ei os mais e iden es des a
o e a nas can inas oi a al e ação dos hábi os de es i , sendo esponsá eis pela
gene alização das capulanas, hoje uma ma ca da moçambicaneidade (Zampa oni
1998, 146-147).
As can inas di igiam-se sob e udo à população a icana. A g ande maio ia
des a população e a designada po indígena, no quad o de um sis ema colonial que
sepa ou indígenas e ci ilizados, conside ando a possibilidade dos p imei os goza em
do es a u o e di ei os dos segundos, po meio de uma assimilação. Fo mulado na
eo ia e insc i o na legislação, es e sis ema concedeu o es a u o de assimilado a
um g upo mui o es i o de a icanos, sendo ex in o em 1961, já quando as mo i-
men ações nacionalis as assus a am o pode po uguês (Pen enne 1995).
Em Moçambique, desde o inal do século XIX, os indígenas e am os g andes
consumido es de inho colonial. Na colónia da Á ica o ien al po uguesa, es e
p odu o icou conhecido po “ inho pa a o p e o”, nome de uma pionei a ob a
sob e o ema da au o ia de José Capela (1973). A maio ia dos es udos sob e o
3 Nas es a ís icas coloniais não encon amos o e mo "can ina", p o a elmen e po que o e mo
eplica a exp essão inglesa (Van Onselen 1976) e ha ia ou as designações po uguesas que podiam
desc e e esse ipo de es abelecimen o: abe nas, bo equins, pousadas.
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Can inas coloniais e o inho po uguês na capi al de Moçambique
me cado de inhos po ugueses nas colónias oca-se nas p imei as décadas do sécu-
lo XX e, mui as ezes, no caso de Moçambique colonial. Uma das azões pa a
es e ac o, se ão ce amen e os a igos c í icos publicados em O A icano (1908)
e o seu sucesso , O B ado A icano (1918) sob e o papel des u i o do inho nas
idas das populações locais. Nes es jo nais, de idos po uma eli e a icana eunida
à ol a do G émio A icano de Lou enço Ma ques (1908), denuncia a-se como o
comé cio do inho colonial, à cus a da deg adação ísica e mo al da população
a icana, sus en a a uma pa cela da bu guesia me opoli ana. Es e modelo inga a
em de imen o do desen ol imen o de um sis ema económico di o mode no, mais
e oluído nos seus mé odos, que incluía uma explo ação mais acional do abalho
a icano, como p e endia uma bu guesia local em o mação, de que os memb os
des a eli e a icana a iam pa e. O echamen o do espaço público moçambicano
com o ad en o do Es ado No o e a imposição de o mas de con olo e censu a
mais e icazes, é c ucial pa a explica o quase desapa ecimen o da ques ão do inho,
poli icamen e p oblemá ica, das manche es dos jo nais.
Apesa de menos p esen e na imp ensa enquan o p oblema social e polí ico,
o inho não deixou de con inua a sai a i mo ele ado da doca do Poço do Bispo
em di eção às colónias. De aco do com os dados cole ados pela Conceição And ade
Ma ins (1990), ap esen ados a ás, a impo ância do me cado colonial dos inhos
de mesa po ugueses aumen ou signi ica i amen e a pa i da década de 1950.
CANTINAS E CANTINEIROS
No p ocesso de expo ação de inho pa a os me cados coloniais á ios agen es
assumi am um papel indispensá el. O es udo des es g upos p o issionais alimen a ia
di e sas in es igações. Na me ópole, des aca am-se, en e ou os, os p op ie á ios
ag ícolas, os p odu o es, os abe nei os e os abalhado es u ais, mas ambém
os polí icos que ep esen a am os in e esses do inho colonial. Nas colónias, os
a mazenis as, os dis ibuido es e os can inei os. En e os consumido es do inho
colonial, p edominando os a icanos, ha iam ambém colonos, nomeadamen e os
mais pob es. Com qualidades dis in as e p eços di e en es, o inho colonial não
e a uni o me. Mas mesmo que os colonos mais pob es bebessem o inho colonial
de pio qualidade, mui o alcoolizado pa a aguen a a iagem, o seu núme o e a
pequeno pa a escoa os exceden es da p odução nacional. Pelas can inas da colónia
de Moçambique, os indígenas, pe seguidos se ab icassem e consumissem as suas
bebidas adicionais, sus en a am es e comé cio anscon inen al.
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Espalhadas em ede pelo e i ó io, nas can inas passa a-se, consumia-se, e
sociabiliza a-se. De uma pe spe i a mais es u u al, as can inas c ia am eixos de
desen ol imen o de uma economia colonial, undamen ais pa a a ci culação de
me cado ias e de hábi os de consumo, de que o inho é um exemplo. A unção
económica pe mi ia, ambém, consolida a ixação de comunidades. À sua ol a
es abelece am-se elações di e sas, luga es de oca económica e social. Es a oca
e a es u u almen e desigual, dada a dependência do consumido a icano do can i-
nei o e a p o eção que o Es ado concedia, po p incípio, a es e úl imo. Mas os
can inei os, conhecidos po se em indi íduos pouco educados, udes, manhosos,
usu á ios, que engana am os clien es, especialmen e os a icanos, não ep esen-
a am um bom exemplo pa a a celeb ação nacionalis a. E, no en an o, ao lado dos
missioná ios e de meia-dúzia de uncioná ios públicos que lu a am po con ola
um e i ó io mui o as o, e am dos poucos que se encon a am no e eno, o a
das g andes cidades.
Em Moçambique, no comé cio das can inas, os po ugueses cons i uíam ape-
nas uma ação des a classe de come cian es. A pa ilha o o ício encon a am-se
indianos, sob e udo de o igem hindu e muçulmana, chineses e ambém, menos
signi ica i amen e, ha ia ambém come cian es libaneses e g egos (Zampa oni
2000). Es a o e a dispe sa, ca ac e iza a o pano ama das can inas em Lou enço
Ma ques nas p imei as décadas do século XX. Du an e o século XX, nomeadamen e
a segui à Segunda Gue a Mundial, os can inei os po ugueses conquis a am uma
quo a mais ex ensa nes e comé cio. E am eles que come cializa am o inho pelo
e i ó io moçambicano, com ligação aos g andes a mazenis as da cidade.
A p esença das can inas no espaço u bano da capi al de Moçambique colonial
suge e a colocação de um conjun o de p oblemas de in es igação. Num quad o
populacional mui o di e so, ma cado pela dis inção ma can e en e o cen o da
cidade, b anco, e as pe i e ias, a icanas, es e comé cio é um ins umen o ico pa a
a alia um conjun o de dinâmicas sociais e cul u ais (Zampa oni 1998 Domingos
2012), nomeadamen e no pe íodo do chamado colonialismo a dio. As ques ões
seguin es p ocu am explo a o es a u o des as can inas enquan o luga es de oca
económica e social e de con ac o.
Uma p imei a linha de pesquisa in e p e a os can inei os enquan o classe p o is-
sional. Mui as das ezes, o in e esse em concede p io idade de análise à o igem
nacional dos can inei os, essencial pa a pe cebe pe cu sos, genealogias come ciais,
especializações me can is, acaba po ma ginaliza as p op iedades pa ilhadas, que
explicam como, em de e minadas ci cuns âncias, chineses, po ugueses e indianos
de di e en es o igens, pa a não ala de ou as mino ias, exe ciam a pa um con-
jun o de unções come ciais. Apesa da di e sidade, a pa ilha de de e minadas
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Can inas coloniais e o inho po uguês na capi al de Moçambique
p op iedades sociais e compe ências, é undamen al pa a pe cebe como eles se
ajus a am a es a economia colonial. A elação des a classe com o Es ado colonial
coloca ques ões sob e as polí icas cen ais do go e no, nomeadamen e sob e a
u ilização des a ede como pa e de uma es a égia de ocupação e i o ial, an o
no aspe o da sobe ania como da economia.
Como complemen o do p imei o pon o, impo a pe cebe a di e sidade des e
me cado de o e a de bens e p odu os, pa a comp eende como as lógicas da espe-
cialização da o e a come cial se ajus a am à lógica da p ocu a, mas ambém a
ans o ma am. Nes e sen ido, a especialização das edes come ciais, mui as ezes
dependen es de laços alice çados pela o igem nacional dos come cian es, é unda-
men al pa a in e p e ação da o ganização do me cado das can inas. A exis ência
de p ocessos de es a i icação social subu banos ajus a a-se à hie a quização de
alguns des es espaços. Es as di isões sepa a am, di o de uma o ma simples, os
luga es mais mode nos, consumido es de p odu os mais di e si icados, a os e
ca os, daqueles cujos pad ões de consumo se con ina am aos p odu os de p imei a
necessidade, consumidos pelos mais pob es de en e os mais pob es. As possí eis
es a égias de ca elização da o e a nes as can inas, em p ejuízo dos consumi-
do es, me ecem a enção. Na capi al, onde a o e a e a di e sidade de p odu os
e am maio es, ha ia uma de e minada especialização.
A elação des es pon os de comé cio com o Es ado colonial ap esen a ou as
e en es. Du an e a in es igação ealizada nos subú bios de Mapu o, mui os habi-
an es locais e e i am que os can inei os p es a am egula men e in o mações à
polícia po uguesa e alguns deles, chegou a suge i -se, pode iam mesmo abalha
pa a a PIDE. Es as decla ações e e iam-se às décadas de 60 e 70, quando o início
das ações dos mo imen os independen is as desencadeou o aumen o das a i idades
de igilância nos subú bios de Lou enço Ma ques. Os can inei os não se podiam
ce amen e u a a p es a in o mações à polícia, mas não é cla o a é que pon o
es a ede se encon a a o ganizada. Na capi al de Moçambique, os inciden es que
em se emb o e ou ub o de 1974, já depois da mudança de egime em Po ugal,
coloca am em con on o, em esul ado das ações de milícias de ex ema di ei a que
ad oga am uma independência b anca, pa e da população a icana do subú bio
e pa e da população colona, o na am di ícil a ida dos can inei os po ugueses.
Mui os deles i am as suas can inas saqueadas e alguns pe de am mesmo a ida.
A acusação de colabo ação com a polícia colonial, no con ex o acialmen e mui o
enso des es meses, oi uma das azões adian ada pa a as pe seguições.
Po úl imo, as can inas são um labo a ó io de es udo sob e as elações
sociais em con ex o colonial. Espaços de con i ência, as can inas e am ins i uições
undamen ais no p ocesso de cons ução de uma condicionada au onomia subu -