scieee Open visual document viewer

«O que então conscienciosamente escrevi»: Camilo Castelo Branco sobre a crítica de Poesia

Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro

Abstract

Written and published by Camilo Castelo Branco from 1849 through 1865, the texts included in Esboços de Apreciações Literárias (1865) reflect the author’s evolution of thought and theoretical reflection on the phenomenon that is literature. In spite of an abundant presence of poetical guidelines, it appears to be clear that the theoretic model which encompasses both critical and terminologically Camilo’s criticism is based on doctrines inherited from Classical Antiquity. It is through this connection — mainly to Aristotle — that in this paper I intend to describe and analyse the meta-poetical texts of Esboços de Apreciações Literárias.

Full text

P o ided o non-comme cial esea ch and educa ion use. No o ep oduc ion, dis ibu ion o comme cial use. Axioma – Publicações da Faculdade de Filoso ia Re is a Po uguesa de Humanidades, 22, 1-2 (2018), 123-138 «O que en ão conscienciosamen e esc e i»: Camilo Cas elo B anco sob e a c í ica de poesia RICARDO NOBRE Cen o de Es udos Clássicos da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa nob e@le as.ulisboa.p Abs ac W i en and published by Camilo Cas elo B anco om 1849 h ough 1865, he ex s included in Esboços de Ap eciações Li e á ias (1865) e lec he au ho ’s e olu ion o hough and heo e ical e lec ion on he phenomenon ha is li e a u e. In spi e o an abundan p esence o poe ical guidelines, i appea s o be clea ha he heo e ic model which encompasses bo h c i ical and e minologically Camilo’s c i icism is based on doc ines inhe i ed om Classical An iqui y. I is h ough his connec ion — mainly o A is o le — ha in his pape I in end o desc ibe and analyse he me a-poe ical ex s o Esboços de Ap eciações Li e á ias. Keywo ds: Camilo Cas elo B anco, Esboços de Ap eciações Li e á ias, poe ics, A is o le A lei u a az pa e da his ó ia dos ex os (Inga den, 1979: 273; Jauss, 2015; Todo o , 1980), cujo es udo comple o não pode desa ende a ecepção das ob as no momen o da sua p imei a publicidade. Des a ecepção incoa i a azem pa e, além de pequenos anúncios e pan le os, p e ácios, pos ácios1 e ex os de ap e- ciação c í ica imp essos em jo nais e e is as que, pelo im da censu a, pela lei da libe dade de imp ensa2 (Tenga inha, 1992: 253) e pela e olução dos p ocessos mecânicos de ep odução de ex o e imagens (Tenga inha, 1989: 131, 133-134) * Es udo elabo ado no âmbi o da Bolsa de Pós-Dou o amen o com a e e ência SFRH/BPD/115195/2016, inanciada pela Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia. 1 F equen emen e em o ma de ca a, quando en e c í ico e c i icado há elações de amizade, ou simulando uma con e sa en e au o e lei o . 2 Celeb ada po Almeida Ga e (1853: 177-179, c . 279) em poema in eg ado em Lí ica de João Mínimo. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. Re is a Po uguesa de Humanidades 124 se mul iplica am, com maio ou meno longe idade, i agem ou in luência, ao longo do século xix (Coelho 1997a; Coelho, 1997b; Rod igues, 1998). Além de ans o mações ecnológicas e polí icas, em especial na sequência da es abili- dade e p og essos da Regene ação, a ac i idade de edi o es anceses e a acção de ipog a ias e imp esso es po ugueses po enciam a ci culação de pe iódicos e de li os. Os au o es deixam-se in luencia pelos no os meios de publicação, «pola izando endências, o ien ando e ala gando o público ledo » (Coelho, 1997b: 930), ou seja, a écnica p odu i a em implicações es é icas, em pa icula no que espei a a na a i as cu as3. Em ace da p oli e ação de amanha o e a, comp eende-se o c escimen o da c í ica, isando a hie a quização e a a ibuição de alo às ob as saídas dos p elos. No en an o, e algo pa adoxalmen e, o Roman ismo po uguês não p oduziu, com pon uais excepções, um pensamen o es é ico que acompanhasse no as o mas exp essi as e discu si as (Coelho, 1969: 12), dado que os ex os de di ul- gação e as polémicas oi ocen is as (de onde a amen e es á ausen e a necessidade de a i mação de no as ge ações em espei o às an e io es) não a ingem, na maio pa e das ezes, a o ça e o empenho de um abalho eó ico de âmbi o c í ico4. Como no caso de olhe ins omanescos e de poesias, mui os des es ex os c í icos não passa am da e são de ensaio «expe imen al» das páginas de jo nais e e is as. Toda ia, alguns conhece am a publicação em olume e são hoje consi- de ados abalhos undamen ais da c í ica po uguesa, que pela o mulação de p oblemas, que pelo pionei ismo das suas e lexões. No século xix, os c í icos conside ados mais ino ado es o am An ónio Ped o Lopes de Mendonça (1855; c . Ribei o, 1980) e And ade Fe ei a (Fe az, 1997); me ecem, oda ia, e e- ência Ga e e He culano, po se em os p imei os eó icos do Roman ismo em Po ugal, bem como Rebelo da Sil a, Manuel Pinhei o Chagas e E nes o Bies e , ligados à Re is a Con empo ânea de Po ugal-B asil, na qual Salgado Júnio 3 Júlio Césa Machado (1863: 14) ap esen a á uma colecção de con os, «esc i os apidamen e, com apidez ão se lidos; a apo é o seu í ulo, a sua oma ia é o cami- nho-de- e o! / Pa e o comboio. De es ação a es ação, ica á lido um con o. Boa iagem, lei o !». 4 É quase necessá io espe a a é à undação do Cu so Supe io de Le as, em 1858 (as aulas começa am em 1861), pa a assis i a um e dadei o lo escimen o da c í ica li e á ia em Po ugal, p o agonizada pelos seus p o esso es ( i ula es ou em subs i uição) ou candida os à cadei a de Li e a u as Mode nas; e i o-me a nomes como os de Mendes Leal, Rebelo da Sil a, Pinhei o Chagas e Teó ilo B aga; Luciano Co dei o oi um candida o não admi ido. As Memó ias da Li e a u a Con empo ânea, de Lopes de Mendonça (1855), são an e io es à nomeação (em 1860) do seu au o pa a docen e daquela ins i uição, mas o p o esso não ocupa ia a cadei a po mo i o de doença incapaci an e. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. «O que en ão conscienciosamen e esc e i»: Camilo Cas elo B anco sob e a c í ica de poesia 125 (1997: 233) ê um momen o-cha e do ensaísmo li e á io do Roman ismo po u- guês. Da Re is a Con empo ânea pa icipa á, como iccionis a e c í ico li e á io, Camilo Cas elo B anco5. Coincidindo com colabo ação na imp ensa po uense, Camilo Cas elo B anco es eia-se como c í ico quase ao mesmo empo que az o i ocínio como iccionis a, pelo ano de 18486 (quando publica o sucesso Ma ia! Não me Ma es que Sou Tua Mãe! e os ex os sob e O Cép ico, de D. João de Aze edo; Os Pundono es Desag a ados ha iam saído em 1845). Tinha in e e ês anos e, a ac edi a nas deduções de Aquilino Ribei o (1974 I: 168-166; 1974 II: 37-38), uma o mação escola de icien e; apesa do es udo de P ado Coelho (2001: 107-138), não é o almen e cla o como e á Camilo a ingido amanha solidez de conheci- men os sem men o nem uma equência egula de es udos. Uma hipó ese ele- an e é e passado mui as ho as em biblio ecas, donde, como ele p óp io diz de Inácio Piza o, lhe e ia indo o gos o pelos al a ábios (Cas elo B anco, 1969: 301). O ac o é que, em 1865, da a dos úl imos ex os c í icos que ie am a o ma o co po dos Esboços de Ap eciações Li e á ias7, Camilo não é menos que um e udi o, além de d ama u go, poe a e sob e udo iccionis a — 1865 é, ainda, o ano em que A Queda dum Anjo é dado à es ampa. Ainda assim, desde o seu empo que nos ex os camilianos de na u eza me a- li e á ia se apon am imp ecisões e incoe ências (Cab al, 2003: 273). As mesmas ca ac e ís icas e idenciam-se em ou os esc i os, nos quais é p eciso econhece cons an es incong uências e con adições — que eu p opo ia le como uma au o- -i onia cons an e que ilude, mui o conscien emen e, o lei o (P ado Coelho, 2001: 23, ala de um «baile de másca as» pa a de ini a mis u a da ealidade biog á- ica com a icção) —, não se podendo, oda ia, nega que o esc i o enha e e- lado um pleno domínio (implíci o e explíci o) dos códigos li e á ios dos géne os 5 Do conjun o de na a i as b e es esul a ão os olumes Doze Casamen os Felizes (publicados a pa i do núme o inaugu al, em 1859) e Cenas Inocen es da Comédia Humana (a pa i de 1860). Como c í ico, colabo a a pa i do n.º 3 de 1862. As ob as de Camilo (incluindo Amo de Pe dição) são quase odas ap eciadas na «C ónica Li e á ia», ub ica da esponsabilidade de E nes o Bies e . 6 Alexand e Cab al (2003: 272) da a de Lisboa (n’A Semana) e de 1850 a es eia como c í ico, mas a c í ica a O Cép ico, de D. João de Aze edo (1848?), oi publicada en e 2 de No emb o e 29 de Dezemb o de 1849 (n’O Nacional) e encon a-se da ada de 1848. 7 A ob a é uma ecolha selec i a. Nos Dispe sos encon am-se ou os ensaios c í icos publicados pelo au o na imp ensa a é 1865. Depois des a da a, além de es udos e udi os como o de Camões, ealçam-se os ex os c í icos do Cancionei o Aleg e (1879) ou aqueles publicados em Se ões de S. Miguel de Ceide (1885-1886). P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. Re is a Po uguesa de Humanidades 126 que cul i ou. Camilo Cas elo B anco pa icipa, po an o, do núme o de au o es que, além de c í icos, são au ên icos esc i o es (como He culano, Cas ilho, Lopes de Mendonça e Pinhei o Chagas), o que az deles menos dogmá icos e in ansi- gen es (mas não igo osos) do que os aus e os dou inado es e pedagogos, como Cândido Lusi ano, Ped o José Fonseca, F ancisco F ei e de Ca alho, en e ou os. Pa ilhando uma es é ica li e á ia baseada essencialmen e na pu eza da linguagem (Venâncio, 1998: 140), Camilo, como ou os omân icos, não e ia in e- esse em segui nenhum p og ama dou iná io8. Não obs an e, o es udo das ideias li e á ias de Camilo9 não pode se ei o sem e em conside ação di e en es ipos de ex os sob e os quais o esc i o ajuíza. Com e ei o, na ap eciação de na a i as de icção, Jacin o do P ado Coelho (1969: 20-23) no a disposições me adiscu si as dis in as das que Camilo usa pa a a poesia lí ica, ea o e poesia sa í ica; Ca los Reis (1994) iden i ica que ambém no omance há di e enças en e o omance ancês e ce a p odução iccional po uguesa. Além disso, em momen os me ana a i os, p e ende-se uma «espécie de pedagogia do gos o e de dou inação do lei o », is o que a «Li e a u a [é en endida] como ins umen o de e inamen o cul u al, com indis- a çá el p opensão ideológico-mo al» (Reis, 1994: 109). Ou a a ian e a e em a enção conside a a ampli ude c onológica dos ex os que compõem os Esboços de Ap eciações Li e á ias, pois es es o am esc i os em ci cuns âncias e com p opósi os di e enciados. Finalmen e, salien e-se, com excepção da Ma quesa de Alo na, já alecida, a simpa ia ge al que Camilo sen e pelos au o es ecenseados, seus con empo âneos e conhecidos, si uação que ajuda a jus i ica a ole ância a espei o de e os mais g a es10. Assim, as c í icas com con o nos mais se e os 8 Como Ga e — em sucessi os p e ácios, desde 1825, com Camões, a é 1843, com o Romancei o, passando pela Lí ica de João Mínimo, cujo p e ácio az a da a de 1828 —, Camilo ambém p oclama, logo em Aná ema, independência de escolas e alheamen o em elação ao Roman ismo: «exis e uma escola omân ica, democ á ica, social e egene ado a. Não em academias, nem pa agem de e minan e. É imensa, eléc ica e omnipo en e. Lá é que se ap ende a ag ada às u bas, delas se inspi a es a mocidade co oada e co ajosa, é dela, inalmen e, que su gem os apodos e aias li e á ias pa a os que sac i icam ao passado o cabedal de in eligência nega i a pa a es a sociedade aspi ado a. / O esc i o des as cousas ainda não ab iu ma ícula, nem pede que o insc e am» (Cas elo B anco, 2003: 73-74). 9 C . Moisés (2000: 214-220), além de Coelho (1969). 10 Os au o es ecenseados são D. João de Aze edo, José Ba bosa e Sil a, F ancisco Mo ais Sa men o, Ramos Coelho, Joaquim Pin o Ribei o Júnio (dois ex os), Coelho Lousada e Soa es de Passos, Faus ino Xa ie de No ais, Ma quesa de Alo na, Júlio Césa Machado (dois ex os), E nes o Bies e , Manuel Roussado, Bulhão Pa o, José Gomes P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. «O que en ão conscienciosamen e esc e i»: Camilo Cas elo B anco sob e a c í ica de poesia 127 se iam ei as a Teó ilo B aga11, embo a ainda es ejamos longe do om que alcan- ça ia em Vaidades I i adas e I i an es, publicadas em 1866 (Venâncio, 1998: 205). Reco de-se, inalmen e, que a exposição dos concei os eó icos nos ex os c í icos de Camilo é o emen e condicionada pelo en endimen o que o au o em da p óp ia c í ica. O ape o do ambien e cul u al po uguês e o aco eco- nhecimen o (incluindo inancei o) que al abalho implica o nam-na «quase imp a icá el», mo i ando a pouca quan idade de ensaios li e á ios na década de 60 do século xix (Cas elo B anco, 1969: 26). Em simul âneo, aplicada à poesia, a c í ica conduz a maus esul ados, pois se es a ac i idade pa icipa da azão, a poesia pe ence à emoção, sen imen o ín imo que se opõe ao mundo in elec ual das ideias12. Não po acaso, Camilo Cas elo B anco (1969: 74) chega a nega ao poe a a azão e o juízo, deixando cla o que «Poe a que aciocina é um cáus ico da paciência humana». Assim, o abalho que desen ol e no âmbi o eó ico é « ei o com lisu a […], ao co e da pena, sem aidades de c í ica, simples esboço em que me dou mais con a a mim que aos ou os das minhas imp essões» (Cas elo B anco, 1969: 128). Também po isso, chamado a ap esen a o li o de poesias de Faus ino Xa ie de No ais, Camilo Cas elo B anco (1969: 148) decla a que «c í ica» e «juízo» são «os dois a ibu os mais sublimes do en endimen o humano». Pela na u eza do objec o e pela me odologia que al a e a exige, o esc i o a as a-se des a o mulação analí ica e eó ica que es u u a a e lexão li e á ia, condenando «cozinhei os de empadões li e á ios» e de inindo como desnecessá io «a mazena uma enciclopédia pa a ajuiza duns e sos» (Cas elo B anco, 1969: 149). Po ou o lado, a c í ica con empo ânea, desc i a como uma Mon ei o, Rebelo da Sil a, Teó ilo B aga, Câma a Sin al e Inácio Piza o de Mo ais Sa men o. 11 José Gomes Mon ei o, a quem Camilo chama a « esou ei o de pa anhas», « a o de biblio eca» e «esc i o que não pode se compa ado aos menos de medíoc es» (Au o a do Lima, de 28 de Ou ub o de 1856, e Mundo Elegan e, de 28 de Maio de 1859; exp essões ci adas apud Júlio Dias da Cos a em Dispe sos de Camilo, p. 67) ecebe maio simpa ia no ex o que ecolhe nos Esboços (c . Cos a, 1924: 68, onde se az uma sín ese de ap eciações de Camilo sob e Gomes Mon ei o; . Cab al, 2003: 272-273, sob e a e olução da c í ica a es e esc i o ). 12 A p opósi o do li o de poesias de Ma ins Sa men o, a i ma: «É g ossei a audácia a alia um poe a quando os ele ala de si, semp e de si, e não os dá ma gem a discu i -lhe a ideia no ibunal da azão, que é coisa que poe as nunca i e am, ou, se i essem, não se iam poe as à eição do molde em que hoje se undem» (Cas elo B anco, 1969: 74). P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. Re is a Po uguesa de Humanidades 128 le e apa ência de Ho ácio, eduz-se a um conjun o de « i ialidades», «luga es-co- muns», « agos epa os», «censu as sem dou ina» e «dou inas sem aplicação»13. Com es as pala as, Camilo ep o a a al a de disc ição do c í ico e conside a que demasiada e udição a p opósi o de poesia a ocul a, sob e udo quando deixa de se concen a no objec o de análise14. A al e na i a se ia eco e a múl iplas ci ações de e sos, sem nega ao lei o um componen e ins in i o na ap eciação da poesia: «é necessá io ci a , ci a mui o, ou es ingi o juízo a poucas le as, dizendo: é boa poesia. […] O me ecimen o do li o […] há-de o lei o lá p ocu a - -lho com o seu bom ins in o»15. A ap esen ação de uma ob a ao público em a se aço ca ac e ís ico des a posição dou iná ia sob e a c í ica, que des e modo se exime de aze um es udo ap ecia i o. Já nas páginas da Re is a Con empo ânea de Po ugal e B asil, Camilo apenas se comp ome e com E nes o Bies e a aze c í ica in o mal, «como se o que ai esc i o, osse alado em luen e p á ica, numa banca de ca é, ou debaixo de uma á o e ipada e en ezadinha do Passeio»16. Essa in o malidade é um p ocesso comunica i o e icaz de da a conhece ex os ecém-publicados, con ibuindo pa a o seu sucesso edi o ial. 13 Cas elo B anco (1969: 150). Relacionado com es a ac i idade es á o epa o que o au o az sob e o já en ão alado elogio mú uo da c í ica: «Há mui os anos que eu ouço ala na associação de esc i o es, denominada elogio mú uo. Cons a a […] que […] alguns esc i o es se ha iam acama adado, e es a uído que uns aos ou os se elogia iam de modo que, o a do seu cí culo, nenhum alen o pudesse inga » (Cas elo B anco, 1969: 195); «Quem são, pois, os esc i o es a guidos de se es a em em pe ene admi ação uns dos ou os? […] Os Cas ilho, Mendes Leal, He culano, Rebelo da Sil a, e ou os, que, em á ias p o íncias das le as, p o essam es eme e b ilhan e indi idualidade? Quem e ia o descoco de moles a -se dos elogios mú uos des es nomes, se eles se elogiassem? As queixas bem aduzidas, que e iam dize : “Repa em que es ou aqui eu! Façam a o de dize ao mundo que eu cheguei aqui on em […]”» (Cas elo B anco, 1969: 198). 14 Leiam-se sob e udo es es dois passos: «Tal c í ico anuncia- os um li o, p opõe-se julgá-lo, põe em cena quan os esc e e am em línguas mo as e i as, incomoda odos os au o es, menos o au o do li o que que julga . […] Como se o seu im osse esc e e c í ica pa a ab i a boca admi ada da c í ica» (Cas elo B anco, 1969: 123); «Os apa a osos ade eces com que a análise se nos impõe é aidade do c í ico» (Cas elo B anco, 1969: 123). 15 Cas elo B anco (1969: 123); po ou as pala as, de ende a: «Temos de ansc e e ou os mui os [ e sos], quando nos al a em na palhe a as in as com que o pincel mais ades ado consegue apenas com mui os aços esboça escassa cópia de belezas ei as pa a se e em, e se admi a em lá, na ela p imi i a» (Cas elo B anco, 1969: 90). 16 Cas elo B anco (1969: 171). Na mesma ocasião, censu a «A gen e c i iquei a […] que dispensa le um li o, logo que e e a elicidade de lhe e o nome na id aça do li ei o» (Cas elo B anco, 1969: 172). P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. «O que en ão conscienciosamen e esc e i»: Camilo Cas elo B anco sob e a c í ica de poesia 129 Apesa da abundância das o ien ações eó icas, há duas cons an es nessa ac i idade c í ica: uma é a « al a de isenção» e a «pa cialidade dos juízos» de que ala Alexand e Cab al (2003: 272); a ou a é o ac o de o modelo eó ico que enquad a concep ual e e minologicamen e a c í ica camiliana se basea em dou inas he dadas da An iguidade Clássica, sem que isso seja necessa iamen e mani es ado. E essa subo dinação se á cons an emen e iel, pe mi indo-lhe, em simul âneo, acolhe elemen os ino ado es (a i ude alo a i a que ambém se mani es a na amige ada no ma i idade clássica), embo a cau elosamen e. É es a ligação com a An iguidade que p ocu a ei, nos ex os me apoé icos dos Esboços de Ap eciações Li e á ias, desc e e ago a, sob e udo a pa i de A is ó eles17, acei ando po ém uma p olongada mediação (Pe ei a, 1995). A pa i des es pon os p é ios, insc e e -se-á a dou inação me ali e á ia camiliana menos na c í ica do que na di ulgação, mas não se lhes nega á compo- nen es da c í ica clássica a ás mencionada. Sem impo eg as e sem p esc e e dogmas baseados em ex os an igos18, Camilo Cas elo B anco assume uma 17 Os esc i o es clássicos que êm a se mes es da poé ica, com cabedal didác ico, são A is ó eles e Ho ácio, cujo conhecimen o não p ecisa se adqui ido na lei u a dos ex os o iginais: a li e a u a po uguesa de quinhen os e se ecen os é ica de exemplos de ob as que di ulgam aquelas ideias, expandindo-as com apoio da c í ica es angei a, que mui as ezes as comen a (como Boileau, que Camilo ci a), a ibuindo-lhes signi i- cados, alo es e a é o ça legal que lhes são es anhos na o igem. Ainda assim, o es udo da mediação ( aduções disponí eis ou a ados de sis ema ização eó ica) não pode á se ei o nes a ocasião. No en an o, nada suge e que Camilo conhecesse a ob a de A is ó eles, excep o po li e a u a secundá ia. Mui as e e ências di ec as ao sábio são e dadei os luga es-comuns na ecusa das eg as apa en es. Lemb em-se algumas decla ações ecolhidas nos Dispe sos: «A alma do homem en as ia-se dep essa com o manja das indiges as esmas de iloso ia de A is ó eles» (Cas elo B anco, 1924: 345); «Não comp o- me ais, po a o , esses modes os li e a os a quem não sob a empo pa a lecciona poe as. Deixai med a uns no esquecimen o, ou os na delicadeza, e ou os na boa- é de mui os, que como eu não sabem medi e sos pela clepsid a de A is ó eles» (Cas elo B anco, 1924: 263); «A is ó eles, ci ado po mui os que não o le am como eu» (Cas elo B anco, 1926: 101). Vale a pena eco da , ainda, que, sob e o d ama Poesia ou Dinhei o (que igu a ia na 1.ª ed. das Cenas Con empo âneas, mas não na 2.ª), Camilo (como Ga e ize a numa no a a Lí ica de João Mínimo, condenando Camões e Dona B anca) sen encia: «É absu do, po que não espei a A is ó eles, nem os g andes mes es, e az eme na sepul- u a a ossada do g ande Racine, quando, sem espei o à unidade da acção, en eme e se e meses do p imei o ao segundo ac o! Pouca e gonha!» (Cas elo B anco, 1925: 401-402). 18 Conco dando com es e p incípio, o esc i o não az apelos à au o idade, embo a mencione A is ó eles, Ho ácio (que ci a), Longino e c í icos anceses (em pa icula Boileau, ambém ci ado). P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. Re is a Po uguesa de Humanidades 130 a i ude equilib ada e de bom senso. Os concei os são de inidos de modo cons- cien e e su icien emen e abs ac o pa a se ap oxima em da ambiguidade. Além do mais, de ini poe a (e poesia) é da a de inição do «inde iní el» (Cas elo B anco, 1969: 89-90), e medi o «me ecimen o da poesia» (Cas elo B anco, 1969: 96) é a alia nela « ês p eciosas qualidades: p imo de linguagem, conhecimen o do co ação, e ele ada iloso ia, […] ão ele ada que a pe sonalidade do au o desa- pa eça nela, e ique a humanidade» (Cas elo B anco, 1969: 97). Des e modo, al como a Poé ica de A is ó eles, Camilo a ibui à poesia as qualidades de se ilo- só ica (po que ela a «o que pode ia acon ece ») e de exp essa o uni e sal, ao con á io da his ó ia (1451b), com a di e ença de que o omancis a en ende que, pela linguagem, o poe a pode aze a ansposição en e ambos, ans o mando um caso pessoal numa exp essão empá ica a odos os lei o es, ques ão que eme e pa a a unção e u ilidade da poesia, cen al na eo ia camiliana. Ao longo dos Esboços de Ap eciações Li e á ias, o alo ex alinguís ico da poesia ap esen a-se sob ês di e en es pe spec i as, oscilando en e ex emos opos os. Se num ex o de 1860, logo a segui a anuncia que «Ama a a e pela a e é u opia», Camilo (Cas elo B anco, 1969: 136-137) não econhece qualque u ilidade ao poe a, qua o anos an es, de ende a que a unção da poesia é «da con o o à mágoa alheia» (Cas elo B anco, 1969: 110), suges ão que se elaciona com o concei o a is o élico de ca a se, que, na agédia, se alcança «po meio da compaixão e do e o » (1449b). Excedendo os objec i os delec a e, mo e e e doce e ho acianos (A e Poé ica, . 333-334), Camilo Cas elo B anco comple a, em 1863, uma en a i a de a ibui alo à li e a u a quando, a p opósi o das Lág imas e Tesou os, de Rebelo da Sil a, decla a: «pa a aqueles [lei o es] que não cho a em […] es am ainda os esou os de linguagem, de al os pensamen os e de p o unda mo alização» (Cas elo B anco, 1969: 244). Po conseguin e, a mo alização ecoloca o a gumen o do lado do lei o e da ecepção da ob a, alo izando-a no plano da é ica um dos p incipais aços da poé ica do classicismo19, ao mesmo empo que e oma duas p op iedades há pouco ixadas pa a a poesia: uma es é ica (linguagem) e ou a ilosó ica (pensa- men os). E é iloso icamen e que p omo e a de as ação dos poemas de Teó ilo B aga, jun amen e com uma lis a ap eciá el de imp ecisões his ó icas em que se su p eende um c í ico e udi o mui o bem in o mado. Pa a e i a e os como es es, o poe a em de e consciência de que a composição li e á ia nasce da conjugação do sabe com o alen o pessoal, que é po ele di igido. Camilo admi e 19 T a a-se de um dos p incipais aços da poé ica se ecen is a (Sil a, 2000: 527-529), a que Camilo e ou os omân icos o am sensí eis. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. «O que en ão conscienciosamen e esc e i»: Camilo Cas elo B anco sob e a c í ica de poesia 137 Rod igues, E nes o (1998). Mágico Folhe im: Li e a u a e Jo nalismo em Po ugal. Lisboa: Edi o ial No ícias. Salgado Júnio , An ónio (1997). «C í ica. Em Po ugal». Dicioná io de Li e a u a, di . Jacin o do P ado Coelho. Vol. 1, 4.ª ed., Po o: Figuei inhas, pp. 232-234. Sena, Jo ge de (1992). «Classicismo». Amo e Ou os Ve be es. Lisboa: Edições 70, pp. 154-179. Sil a, Ví o Manuel de Aguia e (2000). Teo ia da Li e a u a. 8.ª ed., Coimb a: Almedina. Tenga inha, José (1989). His ó ia da Imp ensa Pe iódica Po uguesa. 2.ª ed., Lisboa: Caminho. ——— (1992). «Imp ensa». Dicioná io de His ó ia de Po ugal, di . Joel Se ão. Vol. III, Po o: Figuei inhas, pp. 246-273. Todo o , Tz e an (1980). «La lec u e comme cons uc ion poé ique». Poé ique de la p ose (choix) sui i de Nou elles eche ches su le éci . Pa is: Seuil, pp. 175-188. Venâncio, Fe nando (1998). Es ilo e P econcei o: a Língua Li e á ia em Po ugal no Tempo de Cas ilho. Lisboa: Cosmos. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed. P o ided o Pe sonal License use. No o ep oduc ion, dis ibu ion, o comme cial use. © 2018 Ale heia - Associação Cien í ica e Cul u al. All Righ s Rese ed.