scieee Science in your language
[po] (orig)

"Pretos velhos através do Atlântico: religiões afro-brasileiras em Portugal"

Read accessible full text

"Pretos velhos através do Atlântico: religiões afro-brasileiras em Portugal"

Author: Saraiva, Clara
Publisher: Editora Ideias & Letras
Year: 2016
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/34681/1/clara%20saraiva.pdf
Capí ulo 7
P e os elhos a a és do A lân ico:
eligiões a o-b asilei as em Po ugal
Cla a sa aiVa
In odução
E
m no emb o de 2005, en ei num ônibus na cidade de São Paulo. Ao
paga a iagem ao condu o , ui iden i icada como a “po uguesinha”.
Sen ei-me na p imei a ila e iniciou-se uma con e sa en e o homem
sen ado ao meu lado, um mula o de se en a anos, duas mulhe es b ancas
de ce ca de sessen a anos sen adas na ila de ás e o p óp io condu o .
Começa am po comen a o quan o p eza am Po ugal e os po ugueses,
passando depois pa a uma discussão sob e a amabilidade dos po ugueses e de
como conseguem es abelece uma ó ima elação com odos. A con e sa con i-
nuou com comen á ios sob e a ausência de acismo en e os po ugueses,
sob e como eles consegui am es abelece elações amigá eis em Á ica e
no B asil, e como a elação en e Po ugal e B asil semp e oi excepcional
e excelen e.
Quando saí do ônibus iquei pensando sob e os comen á ios desses
passagei os que inham espon aneamen e iniciado uma con e sa comigo
e como, apesa de nenhum deles e lido Gilbe o F ey e, eles pa eciam
pa ilha dos ideais ey ianos. Essa expe iência não e a no a pa a mim
(nem pa a os cien is as sociais que es udam o B asil), já que mui as ezes
ou i b asilei os ala em sob e esse assun o e elogia a ó ima elação en e
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
218|
as duas nações i mãs. Uma sé ie de ex os que discu em e c i icam a ideo-
logia ey iana do luso- opicalismo, as qualidades posi i as da colonização
po uguesa e a miscigenação eio-me à men e. Enquan o seguia meu ca-
minho pa a a en e is a com um pai de san o da Umbanda que inha mui as
elações com Po ugal, pensei no modo como os p óp ios po ugueses, em
Po ugal, concei ualizam essa elação com o B asil à luz da sua ecen e
con e são às eligiões a o-b asilei as.
Começa emos es e capí ulo com um b e e ela o de como as eligiões
a o-b asilei as êm se expandido em Po ugal nos úl imos in e anos.
Passa emos, em seguida, à ca ac e ização desse cená io eligioso a pa i de
dois pon os de is a. P imei o, in e p e a emos o modo como os líde es eli-
giosos a o-b asilei os (pais e mães de san o) concei ualizam o seu abalho
eligioso e como pe cebem a o ganização e unção das eligiões a o-b asi-
lei as em Po ugal, sob e udo no que diz espei o à cu a e ao melho amen o
do bem-es a das pessoas. Em segundo luga , analisa emos a pe spec i a dos
seguido es e “consumido es” dessas eligiões, ocando o modo como uma
al e idade eligiosa exó ica é combinada com um epo ó io ideológico e
uma ool box em que a eligião su ge como uma solução pa a as si uações de
c ise e em que as noções de cu a, bem-es a e melho amen o pessoal êm
um papel c ucial. O ma e ial ap esen ado nes e capí ulo oi ecolhido ao
longo do abalho de campo conduzido em e ei os em Po ugal desde
2006. A pesquisa incluiu en e is as com líde es i uais e seguido es dessas
eligiões, assim como pesquisa na in e ne e no B asil (sob e udo São Paulo
e Fo aleza, em casas com o es ligações com Po ugal).
O B asil e as eligiões a o-b asilei as na elha me ópole
Po ugal em uma his ó ia de uma longa elação com o B asil, come-
çando com o seu papel de colonizado es, en e os séculos XVI e XVII,
quando Po ugal – e a sua capi al, Lisboa – e a a me ópole. O B asil semp e
a aiu os po ugueses, que emig a am pa a o No o Mundo à p ocu a de
melho es condições de ida, e o nou-se seu des ino a o i o du an e os
séculos XIX e XX. Na segunda me ade do século XX, após a e olução
de 1974 em Po ugal, mui os po ugueses simpa izan es do an igo egime
ugi am pa a o B asil, jun o a ou os e o nados das an igas colônias na
Á ica, pois á ias delas es a am passando po gue as ci is iolen as.
P e os elhos a a és do A lân ico
|219
Foi só com as mudanças sociais e econômicas pelas quais Po ugal
passou após os anos 1970, e especialmen e com a sua en ada na União
Eu opeia no inal da década de 1980, que coincidiu com um pe íodo de
ecessão econômica no B asil, que o mo imen o se in e eu e os b asi-
lei os começa am a emig a pa a Po ugal, com mui os ou os mig an es,
o iundos dos mais di e sos con inen es. Os b asilei os são p esen emen e
o maio g upo de imig an es em Po ugal, pe azendo ce ca de 24% da
população mig an e do país.
As complexas mudanças pelas quais o país passou nos anos 1970 e
1980 consubs ancializa am-se nas es e as polí icas, econômicas e sociais,
assim como na eligiosa. A libe dade eligiosa eio com os di ei os adqui idos
com a e olução do 25 de Ab il, e o país len amen e ab iu-se às no as eli-
giões (BASTOS, 2001; BASTOS e BASTOS, 2006) e a no as o mas de
lida com as si uações de c ise e de a lição, como eu e ou os já analisamos
(SARAIVA, 2010a; 2010b; 2010c; SARRÓ, 2009).
En e as no as eligiões, o Candomblé e a Umbanda êm-se expan-
dido apidamen e. Esse enômeno oi analisado po Ismael Po deus J .,
o p imei o an opólogo que abalhou esse ema. No inal dos anos 1990,
ele conduziu o es udo de um dos p imei os e ei os em Lisboa. Esse e -
ei o ha ia sido undado po uma mulhe po uguesa que se ha ia iniciado
no Rio de Janei o depois que emig ou ao B asil, e que, e o nando pa a
Po ugal em 1974, ab iu uma casa de Umbanda (PORDEUS JR., 2000;
2009). Os seus seguido es ( ilhos e ilhas de san o), mais a de, após as suas
p óp ias iniciações, unda am os seus e ei os, disseminando a p á ica da
Umbanda e do Candomblé em Po ugal (PORDEUS JR., 2009). Com a
passagem dos anos, as casas de Umbanda e Candomblé o na am-se conhe-
cidas e expandi am-se de o ma cada ez mais ápida: de qua en a casas em
2008 pa a cinquen a em 2010. A maio ia dos e ei os são de Umbanda ou
p a icam a iedades de Candomblé mais p óximas da Umbanda, al como
a Umbanda Omolocô, ou mesmo o que os p óp ios pais e mães de san o
denominam “Umbandoblé”, a ian es que mis u am, de o mas a iadas,
elemen os do Candomblé e da Umbanda. Essa si uação não é no a e acon-
ece ambém no B asil, onde, mesmo se o Candomblé Que o ( elacionado
com a egião da Bahia e a adição Nagô/Yo uba do Benim e Nigé ia)
é olhado como a “ a ian e mais pu a”, a a iedade de exp essões a o é
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
220|
imensa, e cada e ei o segue a o ma di ada pelo seu pai ou mãe de san o
(CAPONE, 2004).
A Umbanda, conhecida po se uma “ eligião e dadei amen e b asi-
lei a”, uma sín ese do imaginá io eligioso b asilei o, pa ece se a a iedade
que mais ag ada aos po ugueses, uncionando como uma “pon e cogni i a”
(FRIGERIO, 2004) en e o Ca olicismo adicional e a ian es mais a i-
canas, como o Candomblé, sob e udo po causa dos sac i ícios animais e
da manipulação de sangue, que são mais di icilmen e acei os (SARAIVA,
2013b). Se en a mos sis ema iza os ipos de i uais e as casas de cul o
em Po ugal, podemos dize que elas se o ganizam em ês ipologias di-
e en es, cen adas em mo imen os mig a ó ios e conexões en e Po ugal,
B asil e Á ica (PORDEUS JR., 2009; SARAIVA, 2010a; 2010b; 2010c;
GUILLOT, 2009).
No p imei o g ande g upo es ão os po ugueses que, nas suas mo i-
men ações pelo A lân ico, ouxe am as eligiões a o-b asilei as com eles.
Nesse g upo es ão os po ugueses que e am imig an es no B asil, o am
iniciados nas eligiões a o-b asilei as lá e ouxe am-nas de ol a pa a a
elha me ópole. A si uação simé ica é ilus ada pelos po ugueses que
ago a ão pa a o B asil pa a se em iniciados ou aí desen ol e em a sua
ca ei a eligiosa, já que eem o B asil como uma Meca eligiosa (CAPONE,
2004). O segundo g upo é compos o de b asilei os que ie am pa a Po ugal
pa a abalha nou as á eas, mas que, chegando a Po ugal, i am a opo -
unidade de desen ol e em o seu conhecimen o eligioso, e aqueles que
ie am com o obje i o especí ico de ab i em e ei os em Po ugal. Nesse
g upo es ão ambém b asilei os que ão só po algumas semanas, pa a da-
em consul as baseadas no jogo de búzios e que eg essam ao B asil sem
cons i uí em comunidades eligiosas. Um e cei o g upo é o mado po
po ugueses que não êm conexões com o B asil, mas sim com a Á ica.
Nascidos numa das an igas colônias e com ascenden es a icanos, in ocam
essas elações pa a legi ima em a sua au o idade eligiosa. Não obs an e,
os seus discu sos le am-nos de ol a à cons ução mí ica de uma conexão
a lân ica en e Po ugal, Á ica e B asil que in oquei no início do capí-
ulo, em que desc e i a cena no ônibus de São Paulo e a sua ligação com
os ideais ey ianos sob e o luso- opicalismo, assim como o concei o de
Gil oy sob e o A lân ico Neg o.
P e os elhos a a és do A lân ico
|221
É impo an e explici a que os seguido es das eligiões a o-b asilei as
são 99% po ugueses. Os b asilei os ocupam posições-cha e nos e ei os,
como pais ou mães de san o ou ogãs. En e ou as azões p opos as pa a o
sucesso da expo ação das eligiões a o-b asilei as pa a países adicional-
men e ca ólicos (ORO, 1985; FRIGERIO, 2004), há dois g upos de a gu-
men os que gos a ia de desen ol e . O p imei o e e e-se ao encan amen o
que essas “ eligiões emocionais” (ORO, 1985) exe cem sob e os po ugue-
ses. Vá ios au o es (ORO, 1985; PORDEUS JR., 2009; SARAIVA, 2010a;
2010b; 2010c) eem o anse e a possessão como uma con inuação de o mas
de comunica com o sob ena u al e o mas de mediunidade que exis iam na
clandes inidade du an e a di adu a salaza is a e que podem hoje em dia se
exp essas li emen e. Esses componen es das eligiões a o-b asilei as pa e-
cem es abelece um con ínuo com adições dos países do Sul do medi e â-
neo, em que a eligiosidade popula inco po a mani es ações de mediunidade
e comunicação en e o mundo dos i os e o mundo dos mo os po meio de
mediado es, como o caso da “b uxa” na F ança (FAVRET-SAADA, 1977), ou
o dos “espí i as” ou “co po abe o” em Po ugal e Espanha. Além disso, o e e-
cem no as o mas de exe ce as capacidades mediúnicas de cada um, inse idas
numa moldu a eligiosa que os indi íduos concei ualizam como o e ecendo
mais libe dade e empode amen o, pela possibilidade de comunica em di e-
amen e com o di ino:
É ma a ilhoso inco po a e e uma elação di e a com o sob ena u al. A Ig eja
Ca ólica nunca pe mi iu isso, e ínhamos semp e o pad e a dize que os espí-
i os e am coisas do diabo (L, mulhe , 35 anos de idade).
O segundo g upo de a o es elaciona-se com o a o de que as a-
dições de base a icana são “ eligiões de a lição” que a am de si uações
de li e-c isis (TURNER, 1967). A maio pa e das ezes a adesão a essas
eligiões começa com consul as des inadas a ence essas c ises elacio-
nadas com saúde, amo ou p oblemas inancei os. Aos poucos, as pes-
soas en ol em-se cada ez mais no g upo e e en ualmen e iniciam o seu
caminho pa a a iniciação. Nessa pe spec i a, endem a ein e p e a os
seus p oblemas po meio da isão da sua no a pe ença eligiosa. Nessa
no a pe spec i a, a cu a e a solução pa a as c ises de ida são a ibuídas
à con e são ao cul o dos o ixás (SARAIVA, 2010c). Um dos seguido es
con ou-me: “Doen e como eu es a a, depois de anda de médico pa a

Capí ulo 7Cla a Sa ai a
222|
médico, e ia mo ido se não i esse encon ado os meus o ixás e decidido
segui es e caminho” (M, 50 anos).
Aumen ando as elações luso-b asilei as:
a o ganização e unções nos e ei os po ugueses
Mui os especialis as de i uais que dão consul as de búzios publicam
anúncios nos jo nais e e is as po uguesas. A maio ia dos e ei os e líde es
i uais êm websi es ou alguma ou a o ma de publicidade na in e ne , que
se o nou em um meio pode oso de expansão e comunicação en e pais
e mães de san o e os seus seguido es. A complexidade e o de alhe do si e
dependem da o ganização do e ei o e do seu g au de ama. Alguns êm
ambas as e is as imp essas e online, que uncionam como uma o ma de
di ulgação e ap endizagem sob e a dou ina das eligiões a o-b asilei as
pa a o público em ge al.
A maio ia dos e ei os êm p e e ido o na -se associações sem ins
luc a i os, o que lhes con e e, de aco do com a lei po uguesa, alguns
di ei os cí icos. Alguns dos líde es dessas associações de am um passo
além e c ia am ede ações usando os modelos ede a i os da Umbanda b a-
silei a, mesmo se conside am seguido es mais p óximos do Candomblé. Das
ede ações exis en es em Po ugal, a Fenacab p e ende se uma ex ensão
po uguesa da sua congêne e b asilei a, baseada em Sal ado , Bahia, e de-
enso a do Candomblé Que o. O seu p esiden e é um pai de san o po u-
guês, in es ido no seu papel pelo esponsá el da Fenacab no B asil. Ou a
associação, CPCY (an es denominada Apcab), compe e com a p imei a
na de esa dos di ei os da eligião e cul u a a icana de aiz Yo ubá; e
uma e cei a, Feuca, es á sob a di eção de um pai de san o po uguês da
Umbanda, o qual p e ende c ia uma ede ação baseada na Eu opa pa a
os cul os a o-b asilei os.
Em 2010, a Fenacab e a CPCY e uma ou a associação (A upo) con-
segui am o es a u o de eligiões o iciais po uguesas pa a o Candomblé e
a Umbanda, ao lado de ou as eligiões, como o Judaísmo e o Islamismo.
A o ma como as associações e ede ações são c iadas es á di e amen e
elacionada com os laços que o sace do e (ou sace do isa) man ém com
o B asil e, po an o, as associações po uguesas p e endem se iliais po -
uguesas das o iginais b asilei as. A “pu eza” e o p es ígio de um e ei o
P e os elhos a a és do A lân ico
|223
dependem mui o do g au de elacionamen o e in imidade que o sace do e
ou sace do isa em com a sede ou ede ações a que pe encem no B asil.
No chamado mundo globalizado do século XXI, esses especialis as e-
ligiosos es ão cien es de como as suas capacidades podem se usadas pa a
cu a e melho a o bem-es a das pessoas, e isso se o na uma das p inci-
pais azões pa a o seu uncionamen o. Nos emplos de Umbanda, as gi as
oco em pelo menos uma ez po semana, e algumas das casas de cul o
êm sessões de cu a especí icas. Nos emplos de Candomblé, as es as co-
le i as, xi ê, acon ecem com menos equência, mas po meio de consul as
de adi inhação, o sace do e/sace do isa a ende às si uações de c ise de ida
dos clien es.
O p incípio da ca idade, um dos undamen os da Umbanda, é o g ande
guia pa a odo o abalho ealizado nas sessões de cu a umbandis as, mas
ambém é usado como uma base pa a o abalho dos sace do es do Can-
domblé. En e esses sace do es, alguns en am pe manece mais ligados
aos p incípios undamen ais da sua eligião e lu am pela “pu eza a icana”,
emo endo ou os p incípios eso é icos. No en an o, a g ande maio ia dos
i ualis as a o-b asilei os p a icam Umbanda ou alguma a ian e mis a de
Umbanda e Candomblé, como imos an e io men e.
A a ação que os po ugueses sen em po essas eligiões ambém es á
elacionada com uma maio abe u a a no as coisas em ge al (no as ideias,
no os i uais, no as p á icas de cu a) nos úl imos in e anos. Pa a a maio ia
dos po ugueses que p ocu am ajuda em suas si uações de c ise de ida,
a Umbanda e o Candomblé apa ecem como uma opção, en e ou as de
que ou i am ala ou expe imen a am. Mui as ezes, a expe iência com as
eligiões a o-b asilei as segue uma linha de expe iências sucessi as, como
p á icas No a E a (Reiki, lei u a de palmas das mãos), que são o e ecidas
pelos especialis as i uais e anunciadas em suas e is as e lojas eso é icas.
Po exemplo, “Po o de San o e Asé”, uma e is a publicada pela Anacab,
inha na capa de uma de suas edições um g ande anúncio sob e Feng Shui,
sob o í ulo “Os seg edos do co po e elado pelo Feng Shui”. Na mesma
linha, a A upo, ou a g ande associação de Umbanda com sede em B aga,
uma cidade no no e de Po ugal, em egula men e a igos sob e No a
E a e sob e o que eles chamam de “p á icas de cu a al e na i a”.
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
224|
Tomemos o caso de um pai de san o que en a iza a sua elação com
a Á ica. Seu pai nasceu em Goa (Índia) e sua mãe e a po uguesa, mas o
casal i ia em Angola com os seus ilhos. O Pai C. salien a o pode que
ele ecebeu da Á ica, e como, endo sido iniciado po ou o pai de san o
po uguês (que e a um ilho de san o de um dos p imei os líde es do sexo
eminino), ele nunca sen iu uma necessidade eal de i ao B asil, já que
“B asil, Po ugal e Á ica es ão ligados, é o mesmo luxo de ene gia”. Esse
sace do e ilus a o caso de um líde eligioso que usa odos os ipos de
écnicas e peças de eso e ia eligiosas pa a aze seu abalho. Ele me disse:
Quando eu e a c iança, es a a in e essado em odos os ipos de his ó ias
sob e mi ologias. Fui iniciado na Umbanda com a idade de 18 anos, mais
a de, no Candomblé, e, mais a de, ambém em cul os cel as, Ka decismo
e mesa b anca. Fiz cu sos de A oma e apia, C omo e apia, Gemo he apia,
Reiki, Feng Shui, Shenchin, Skem, co po-espelho, Ta ô, lo ais S . Ge main,
lo ais aus alianos, cu sos de eg essão, xamanismo, iagens as ais, As o-
logia, Qui omancia, Nume ologia [...] os úl imos [que iz] o am sob e a magia
do ogo e das ped as, e eu ou-me insc e e no p óximo sob e a magia das
olhas e dos anjos.
Es e não é um caso isolado. Mui os desses líde es i uais que não êm
e ei os, mas dão consul as, são donos de lojas eso é icas que endem li os
sob e p á icas da No a E a, com pa a e nália impo ada do B asil pa a se
usada em odos os ipos de i uais. Essa inco po ação de p incípios e écnicas
di e en es pa a cu a o co po ma e ial e espi i ual não ai con a o que é
conside ado equilib ado e saudá el den o das eligiões a o-b asilei as,
como e emos a segui . Essa é a azão p incipal pela qual eles se combinam
ão bem, an o na pe spec i a dos cu ado es i uais como na pe spec i a
dos usuá ios.
Cu a e au oape eiçoamen o com a ajuda dos o ixás
As pessoas p ocu am as consul as de especialis as i uais pa a esol e
si uações de c ise de ida. Além da doença p op iamen e di a, os p oble-
mas de pob eza, amo e abalho ge almen e se exp essam pelo co po.
Assim, a ace isí el de ais p oblemas consis e amiúde em p oblemas de
saúde. Essa é uma das p incipais azões que le a os po ugueses aos e ei os.
Ce amen e, si uações de c ise de ida semp e exis i am e o am a ados
pelos po ugueses como nou os luga es do mundo. O que eu que o aqui
P e os elhos a a és do A lân ico
|225
salien a é que o que as eligiões e e apias a o-b asilei as o e ecem hoje
em dia são al e na i as às p á icas mais an igas, como as que in eg am o
Ca olicismo adicional e a noção de “ eligiosidade popula ” que inco po-
am á ias o mas de lida com o sob ena u al e com si uações de c ise de
ida, como Jeanne Fa e -Saada (1977) discu iu em seu abalho sob e a
b uxa ia na F ança u al.
Há um lado mui o p á ico pa a a adesão a ais sis emas eligiosos que
se conec a di e amen e ao concei o do que é um indi íduo e o que signi ica
“es a bem”. A cu a é cen al an o na Umbanda como no Candomblé.
No malmen e, as pessoas explicam como encon a am as eligiões a o-
-b asilei as, dizendo “se não eio pelo amo , eio pela do ”. Em ge al, as
eligiões a o-b asilei as lidam com si uações de c ise de ida que êm de
se a adas e supe adas. Den o dessa lógica eligiosa in e na, mui o se e-
e e à saúde. As doenças e o mal, em ge al, são ca ego ias sociais explicadas
de aco do com a isão de mundo do Candomblé e Umbanda. Po an o,
an o a doença como o seu diagnós ico não podem se dissociados da sua
cosmologia e concei ualizações mágico- eligiosas, e le indo as elações
sociais e os p incípios básicos des e uni e so (BARROS & TEIXEIRA,
1989, p. 41; SILVA, 1995; BRUMANA e MARTINEZ, 1991, p. 73).
A maio ia dos i uais são es a égias pa a a es au ação do bem-es a
ísico, men al e social.
A concepção de bem-es a implica uma pe cepção holís ica da pessoa,
em que o co po e a men e es ão in e ligados; se saudá el signi ica es a equi-
lib ado e, sime icamen e, o equilíb io é iden i icado com a saúde (SILVA,
1995; PORDEUS JR., 2000). Se uma pessoa es á doen e, isso signi ica
que o seu equilíb io oi pe u bado. Isso pode e á ias causas que dizem
espei o di e amen e a alhas no cump imen o dos p óp ios de e es pa a
com os espí i os dos mo os, e só podem se cu adas se essas ob igações
o em cump idas, es abelecendo assim o equilíb io en e o indi íduo e
seu o ixá. A doença se o igina, assim, a pa i de um desequilíb io nas o -
ças que êm do sob ena u al e agem sob e o co po. No caso das eligiões
a o-b asilei as, a noção de axé é cen al pa a essa concepção. Axé pode
se de inido como uma o ça i al e ene gia in isí el e sag ada p esen e
em odas as di indades, se es na u ais e coisas. Essa ene gia p ecisa de ce os
i uais pa a se dinamizada. Nos i uais, é po meio do can o (pon os can ados),
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
232|
Quando eles descob i am o cânce , os médicos não que iam ope a , po que
o cânce e a mui o g ande, e eu i e que passa po quimio e apia, e em qua-
o meses o cânce passou de 10 pa a 5 cen íme os. Quando eu comecei a
quimio e apia ambém oi quando eu iz as p imei as ob igações ao meu o ixá.
Quando eu comecei as ce imônias de iniciação do cânce es a a 12 cen í-
me os; em poucos dias diminuiu 10 cen íme os, e a do e o sang amen o
cessa am. Após a ope ação, o médico me disse que eu nunca se ia capaz de
mo e meu b aço no amen e. Duas semanas depois eu ecebi Ogum (meu
o ixá de cabeça) e daquele dia em dian e eu e a capaz de mo e meu b aço
em odas as di eções, como se nada i esse acon ecido. Tenho ce eza de
que e ia mo ido se não osse pelos o ixás. (Lau a, 31 anos, desemp egada)
O diagnós ico pa a os p oblemas é mui as ezes elacionado com um
encos o (espí i o de um mo o que não a ingiu o seu luga no além), e a
pu i icação é o p imei o passo pa a a cu a. Mui as ezes, essas pessoas que
chegam aos e ei os pela doença acabam po descob i a sua mediunidade
e começam a pe co e o caminho da iniciação. Em qualque dos casos,
após o diagnós ico, ealizado pelo especialis a eligioso usando os mé o-
dos di ina ó ios an e io men e explanados, a cu a implica a es au ação da
unidade agmen ada pela pe da do axé. Apesa de as sequências i uais se em
di e en es de e ei o pa a e ei o, basicamen e comp eendem semp e um
pe íodo de p epa ação, em que a pessoa se desliga das suas a i idades mun-
danas, seguida dos p imei os i os de limpeza e pu i icação. Es es incluem
libações, banhos de e as, uso de e as pa a coloca po cima da pa e do
co po lesada, de umações, uso de pól o a e passes. Algumas en idades
especializadas na cu a, como é o caso dos p e os elhos, azem ambém
massagens ou cu a po meio do oque.
As plan as, e as e aízes usadas nas e apias odas êm um signi icado
especí ico e uma elação pa icula com os o ixás. Do mesmo modo que cada
o ixá eque o sac i ício de um de e minado animal e a o e enda de uma
comida especí ica, ambém cada um deles em uma elação especial com o
mundo ege al. Como al, as plan as são usadas não apenas nos i os eligiosos,
mas ambém nos i os e apêu icos. Um dos a o ismos eco en es nos
e ei os é kosi ewe, kosi o isha (sem olhas não há o ixás).
A g ande maio ia dos i os de pu i icação eque o uso de plan as, já
que as olhas são conside adas uma das on es p imo diais de axé. Os pais e
mães de san o mui as ezes a i mam que o uso da olha co e a pode ma a

P e os elhos a a és do A lân ico
|233
ou cu a um indi íduo: as olhas “quen es” (associadas com os o ixás do
ogo e da e a, como Ogum e Exu) agi am as a mos e as, as emoções e os
indi íduos e podem causa mal, enquan o que as olhas “ ias” ( elaciona-
das com os o ixás da água e do a , como Oxum e Oxalá) apaziguam e an-
quilizam. O conhecimen o p o undo da adequação das plan as e das olhas a
cada i ual ou e apia é, po an o, uma das mais impo an es quali icações de
qualque pai ou mãe de san o espei ado (SILVA, 1985, p. 209). Associadas
à p oclamação de pala as mágicas que po encializam a sua e icácia, lo es,
plan as, e as, aízes, semen es e cascas de á o e são usadas na p epa ação
de medicamen os, bebidas e libações p o ilá icas (CAMARGO, 1989). Na
diáspo a, a impo ação de e as e olhas en ol e ce as di iculdades, e mui os
pais de san o que iajam ao B asil e o nam com malas cheias de plan as.
Quando não é possí el ob e as plan as o iginais, es as são subs i uídas po
ou as, que se encon am em Po ugal, as mais pa ecidas possí el (em o ma,
a oma, ca ac e ís icas ou e ei os e apêu icos) com as o iginais.
A sequência inal é a o e a de ebós (o e endas aos o ixás), começando
ge almen e com uma o e a pa a Exu, já que ele é o o ixá concebido
como mensagei o e mediado en e os humanos e os deuses, pe soni-
icando assim a comunicação en e os dois mundos. Os ebós de saúde
são p epa ados com de e minados ing edien es e seguindo de e minadas
eg as i uais que espei am a elação di e a com o mal que se p e ende
cu a e, sob e udo, o o ixá di e amen e ligado a essa pessoa. Cada o ixá
em uma comida p óp ia, p epa ada a pa i de ing edien es especí icos.
Po exemplo, Exu p e e e um e alimen os ei os de eijão e azei e de
dendê (óleo de palma); Obaluaiê, sendo o o ixá esponsá el pela doença,
gos a de ecebe pipoca, as “ lo es de Obaluaiê”. Tal como acon ece com
os ou os o ixás, o ipo de alimen o a o e ece es á di e amen e ligado
aos mi os undado es e às his ó ias de ida de cada um deles. Assim, de
aco do com o mi o, Obaluaiê es a a doen e, com a íola, e oi cu ado
po Iemanjá (o ixá associado com a água salgada, o ma ), o nando-se o
símbolo pa a a ans o mação da doença em saúde; o aspec o da pipoca
se elaciona com as ma cas áspe as que a a íola deixa na pele. A apa ência
es é ica dos alimen os ambém é impo an e, uma ez que eles são con-
cebidos como o e endas pa a ag ada os deuses; po isso, so is icados
bolos de inhame em o ma de se pen e são dados a Oxuma ê (o ixá que
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
234|
simboliza eno ação e mo imen o e é pe soni icada como um a co-í is-
-cob a) e comidas de a o a ou a inha de milho e dendê pa a os Exus.
Cada e apia en ol e elemen os especí icos, que dependem das ca-
ac e ís icas dos pacien es e das suas ene gias, as especi icidades dos seus
o ixás, os aços da p óp ia doença. As p á icas e apêu icas en ol em não
apenas a cu a imedia a, o a amen o dos sin omas, mas ambém um ob-
je i o p o ilá ico, al como a p e enção do mau olhado, in eja ou ou os
p oblemas. Qualque e apia é supe isionada po um o ixá ou pela en i-
dade esponsá el, e são eles que indicam quais os mé odos cu a i os ap o-
p iados, os ing edien es a se em usados, e são eles p óp ios que, em úl ima
análise, p ocedem à cu a, inco po ados nos seus ca alos:
Toda a cu a que oco e aqui é supe isionada pelas en idades espi i uais que
di igem a casa. Foi o guia de casa (Guia), Mes e Pé de Ven o, que escolheu
os médiuns pa a abalha em no g upo de cu a e é ele que di ige e con oca
odas as ou as en idades que abalham com os médiuns nas sessões de
cu a. (Cl, pai de san o)
Além das gi as, sessões em que os p e os elhos e os caboclos dão
consul as e exe cem ca idade ajudando as pessoas, há sessões de cu a especí-
icas, que êm luga po meio de consul as em p i ado com os especialis as
i uais ou, em alguns e ei os, com a p esença de um g upo de médiuns
especializados na cu a. Tan o a ní el p i ado como cole i o, as sessões de
cu a jun am os p incípios da pu i icação e eene gização da Umbanda e
Candomblé, e um as o uni e so de e apias e p á icas, como desc e emos
an e io men e, bas an e ecen es pa a os po ugueses. O p imei o caso
pode se ilus ado pelo pai de san o a que nos e e imos (C) que de ende
que, quando as pessoas ão pa a a consul a (habi ualmen e o jogo de búzios),
ele deixa o seu ins in o sen i o que se á o melho a amen o pa a cada
caso. Desse modo, pode een ia os consulen es pa a uma consul a de ei-
indicação ou ecomenda um banho de e as pu i ican e:
Eu aço o jogo de búzios e ejo o que as queixas são; posso usa qualque
uma dessas e apias pa a cu a a pessoa, dependendo do caso e do que é
melho pa a ela. Embo a na Umbanda e Candomblé sejam as en idades
que cu am a pessoa, as di e en es es e as es ão odas ligadas; po exemplo,
quando es ou ealizando uma sessão de Reiki peço men almen e às o ças
espi i uais pa a en ia uma en idade (um guia) pa a di igi -me. O impo -
an e é aze com que as pessoas se sin am melho .
P e os elhos a a és do A lân ico
|235
A mesma lógica é seguida nos e ei os em que se op a po uma ap o-
ximação mais cole i a, como uma mãe de san o que di ige sessões de cu a
e em conjun o com os seus médiuns ela a:
O abalho no e ei o é complemen ado com as sessões de cu a. Na maio-
ia das ezes as pessoas êm com p oblemas amilia es ou p oblemas de
amo que são soma izados e c iam p oblemas de saúde. Es as si uações
são iden i icadas nas sessões semanais e edi ecionadas pa a as sessões
de cu a. (Mãe V)
Nou o e ei o, no qual eu enho pa icipado em á ias sessões de cu a,
es as usam écnicas de concen ação, plan as, c is ais, e apia das ped as,
numa sala com uma a mos e a ex emamen e calma. As sessões no mal-
men e iniciam-se com uma con e sa p é ia en e a che e do g upo de
cu a e o pacien e; essa con e sa en a iza a elação en e a biomedicina
e a cu a eligiosa, assim como o papel das ou as écnicas que ajudam a
melho a o bem-es a do indi íduo. Po exemplo, numa das sessões a que
assis i, a pacien e explicou que so ia de hepa i e c ônica e que os médicos
inham ecomendado que ela izesse uma biópsia, que ela não que ia aze .
A sessão de cu a oi di igida pa a a es au ação do equilíb io do co po, pa a
que ela não p ecisasse aze esse exame médico, como a médium explicou:
“Fazemos abalho complemen a com o dos médicos pa a ajuda as pessoas
a sen i em-se melho ” (C ., g upo de cu a). Na sala onde a sessão e e luga , a
esponsá el pelo g upo de cu a apelou à concen ação e chamou as en idades
que desce am pa a os ajuda . A sessão du ou ce ca de in e minu os, du an e
os quais a médium colocou as suas mãos sob e o ígado da pacien e.
Sal os pelo p e o elho
Se olha mos ago a pa a o modo como os seguido es e clien es dessas
eligiões eem o que acon ece com eles, podemos pensa as noções desen-
ol idas po Paula Mon e o (1985) sob e a doença como desequilíb io e
o modo como essas noções são inco po adas na Umbanda e no Candomblé.
Como Mon e o explici a, as on ei as en e o que é concebido como
“doença ísica” e “doença espi i ual” são ex emamen e pe meá eis. Os
clien es queixam-se que a medicina o icial não “consegue e a doença”,
po que ela é “de uma na u eza di e en e”, não passí el de se de ec ada
pelos ins umen os e écnicas de diagnós ico da medicina o icial; e, mesmo
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
236|
que a iden i ique, não a consegue cu a , já que a o igem do p oblema es á
nou o luga :
Eu es a a mui o doen e, mas os médicos não conseguiam en ende o que
es a a acon ecendo. Foi o p e o elho quem me disse que ha ia algo no meu
pei o, que p ecisa a se a ada. Foi ele o p imei o a comp eende o que es-
a a acon ecendo, mui o an es dos médicos me dize em que eu inha cânce .
(S., 29 anos, sec e á ia)
F equen emen e os indi íduos p ocu am ajuda nou as p á icas e a-
pêu icas e o encon o das eligiões a o-b asilei as é is o como o im de
um caminho que i e am de pe co e pa a e em melho as:
P imei o ui a um e apeu a b asilei o, que usou A oma e apia e C omo e apia;
daí ui pa a o e ei o, e descob i a o ça dos o ixás. Quando o meu cânce de
mama oi diagnos icado, iz cu a de magne ismo, mas eu ce amen e e ia mo ido
se não ossem meus o ixás. (L., sexo eminino, 31 anos, caixa do supe me cado)
Não obs an e, a maio ia das pessoas pa ilha a isão do pai C. e eem
as p á icas de No a E a que chega am a Po ugal com as eligiões a o-
-b asilei as como complemen a es. Sem g ande conhecimen o sob e odas
as di e en es p á icas, endem a classi icá-las de uma o ma que eúne con-
cei os de ene gia e bem-es a :
Os médicos disse am que não ha ia cu a e que eu de ia i ao b uxo [ ei icei o].
Poucas pessoas conhecem a Umbanda aqui. Eu ambém ui aconselhada a en-
a ou as e apias. Fui a um homem japonês que me disse que ele não podia aze
nada po mim, po que eu já es a a sendo a ada num emplo sag ado e es a a
sendo bem a ada, já que o emplo em uma boa luz e ene gia. É cla o que
ele es a a se e e indo ao emplo de Umbanda, mas eu lhe inha con ado nada
sob e isso [...]. Eu acho que nas ou as e apias sen em a ene gia da Umbanda,
há uma boa conexão espi i ual en e eles. (A., 49 anos de idade, dona de casa)
Fui ope ada de uma hé nia de disco duas ezes seguidas. O médico me disse
que eu nunca mais se ia capaz de me sen a po mais de in e minu os, e
eu semp e e ia de p a ica mui o exe cício, pa a desen ol e os músculos
en e os discos. Mas eu não enho empo pa a o exe cício. Ago a sou elações
públicas de uma emp esa e di ijo ce ca de 200 km po dia. Quando eu saio
da gi a de sábado me sin o bem, e isso pe mi e-me aguen a a semana de
abalho. Sem a ajuda das en idades de Umbanda, eu nunca pode ia lida
com isso, es a ia com mui a do . Com a quan idade de quilôme os que iajo
e o es esse, eu só sou capaz de le a udo com a sua ajuda. (T., sexo eminino,
39 anos, elações públicas)
P e os elhos a a és do A lân ico
|237
Em ge al, os indi íduos ela am que as eligiões a o-b asilei as e as
suas p á icas de cu a lhes ansmi em uma sensação de “g ande calma e
paz”. Isso pode ia pa ece con adi ó io com o empode amen o que sen em
po consegui em inco po a e ecebe en idades sob ena u ais e a necessi-
dade de isso “se abalhado”, como se e e iu um pai de san o:
Tudo isso eque mui o abalho, de modo que os médiuns em desen ol imen o
en endam que ninguém é mais impo an e do que ou a pessoa, e que es amos
aqui, usando odas as écnicas possí eis, pa a aze as pessoas se sen i em melho
[...] que é o nosso papel. Es ou aqui pa a ajuda o po uguês e eu não posso
ol a pa a o B asil, já que as pessoas p ecisam de mim aqui. (Pai Cl)
Isso az-nos de ol a à ques ão das conexões en e Po ugal e o B asil
e a necessidade de implemen a mais pesquisa sob e a cons ução simbólica
dessa elação e o modo como os indi íduos dela se ap op iam – no caso da
minha pesquisa, o modo como os po ugueses que equen am os emplos
a o-b asilei os os comp eendem, e ainda o modo como pais e mães de
san o b asilei os em Po ugal alam sob e esses aspec os. Po exemplo, uma
mãe de san o ela ou-me:
Os b asilei os ansmi em uma ene gia mui o boa, que dá boas ib ações.
Po que somos b asilei os emos uma isão di e en e dos po ugueses. O p ó-
p io país (B asil) em uma ene gia que ansmi e isso; é um país em i mo ace-
le ado, um país miscigenado, o acismo é comba ido [...] aqui, em Po ugal, as
pessoas es ão mui o acos umadas a ala sob e suas doenças, alam sob e isso
o empo odo: ocê conhece alguém, e ela começa a ala sob e suas doenças,
seus p oblemas. É mui o pesado; no B asil udo é mais le e. (Mãe V.)
Esse discu so elaciona-se com a o ma como os po ugueses pensam
o B asil no que diz espei o a eligiões a o-b asilei as. O B asil é lou a-
do como a “ e a-mãe” dessas eligiões. Como imos, mui os dos líde es
eligiosos são ealmen e o iundos do B asil, e ambém é pa a o B asil que
ai a maio ia dos po ugueses que que em se iniciados nessas eligiões.
De a o, o B asil su ge numa posição pi ô como a o igem dos cul os a o-
-b asilei os. De iéis ca ólicos egula es, os po ugueses o nam-se assíduos
equen ado es das lojas eso é icas, comp am li os sob e Umbanda e
Candomblé e sonham em i a um e ei o em Sal ado , Bahia. Te ido lá
é um mo i o de o gulho e aleg ia:

Capí ulo 7Cla a Sa ai a
238|
Eu ui lá no ano passado com o meu ilho! Eu sonha a em aze isso a pa i
do momen o em que comecei a equen a es e e ei o aqui em Po ugal,
há ês anos. Eu que ia i à on e, à o igem. Foi uma expe iência ma a ilhosa!
(S, 55 anos, esc i u á ia)
Num país com um ele ado núme o de imig an es b asilei os, a minha
p imei a suposição quando eu comecei a minha pesquisa oi que ais em-
plos es a iam cheios de b asilei os, em busca de p á icas na sua diáspo a
que eles conheciam de sua e a na al. Pelo con á io, nos e ei os ambos
os iniciados que inco po am os espí i os ( ilhos e ilhas de san o) e os
clien es são quase exclusi amen e po ugueses, e mui o poucos b asilei os
os equen am, p e e indo jun a -se às ig ejas neopen ecos ais. Isso es á
di e amen e elacionado com os es e eó ipos e a es igma ização que os
b asilei os sen em em Po ugal. Os b asilei os a i mam que os po ugueses
os ebaixa iam se eles equen assem as sessões de Umbanda ou Candomblé:
“Os po ugueses pensa iam que ôssemos aze ei iça ia, eles i iam ebai-
xa -nos ainda mais”.
Na e dade, os b asilei os imig an es em ge al são equen emen e al os de
acismo po pa e dos po ugueses. Os homens b asilei os es ão associados
à “homossexualidade” no imaginá io po uguês, e isso é usado pa a a i ma
que os homens b asilei os são mui o bons como ga çons de ba , e as mulhe-
es b asilei as são is as como po enciais p os i u as, ou pelo menos como
acilmen e abe as a elações sexuais com qualque um ( e MACHADO,
2002; PADILLA, 2003). Nesse sen ido, a eligião o e ece um modo eliz
de escapa a ais es e eó ipos e ans o ma a “homossexualidade” b asilei a
num obje i o nob e. Num con ex o de supos a “ a e nidade” e a inidades
en e as duas cul u as (FELDMAN-BIANCO, 2001), é imp essionan e
como um es e eó ipo espelha o ou o e in ei amen e in e e a si uação:
ambos são a aídos pelas eligiões a o-b asilei as, mas são os po ugueses
que sen em o apelo de Iemanjá e se o nam seus seguido es (SARAIVA,
2010a; 2010b; 2010c).
Conside ações inais: sime ias e oposições
O discu so elogiando as qualidades dos b asilei os nos le a a uma posi-
ção simé ica daquela com que comecei es e ex o, em que as qualidades dos
po ugueses o am elogiadas pelo mo o is a de ônibus. No p imei o caso, os
P e os elhos a a és do A lân ico
|239
po ugueses são elogiados po um sociólogo b asilei o que esc e e sob e as
qualidades excepcionais dos po ugueses na c iação da sociedade b asilei a,
na qual ele é seguido pelo homem comum. No segundo, emos um caso de
hib idização eligiosa dos po ugueses, que escolhem in e agi com as eligiões
indas do B asil, que eles lou am como pu a, o e e ú il pa a suas idas.
Em Po ugal, exis em e ei os pa a odas as classes sociais, em di e en es
egiões do país e em di e en es cidades, desde bai os de classe al a aos de
classe abalhado a, e assim não se pode a i ma que é es i amen e um enô-
meno de classes mais baixas. Cada e ei o é uma espécie de eino no qual os
líde es i uais di am suas p óp ias eg as. Como acon ece no B asil, há uma
g ande mobilidade dos seguido es, que podem se mo e de um e ei o pa a
ou o, se o escolhe em aze .
Vol ando às azões que enume ei como a o es que a aem os po ugueses
pa a as eligiões a o-b asilei as, pode-se obse a que odo o concei o de
eligiões “emocionais” se elaciona com a busca de solução pa a si uações
de c ise de ida, especialmen e onde a saúde es á em jogo. A o ma como
essas eligiões concei ualizam a doença ab e-se a uma no a o ma de sen i
o p óp io co po mais holís ica, au ên ica, mais em con a o com a na u eza
e com uma espi i ualidade que é sen ida como es ando em conexão di e a
com o mundo sob ena u al, em oposição à p esença hegemônica do pad e
ca ólico e da mo al ca ólica.
Tudo isso nos le a a conside ações sob e a econ igu ação do campo
eligioso po uguês, que já não pode se concebido como um campo hege-
monicamen e ca ólico na sua o alidade. Há um espaço no qual as eligiões
a o-b asilei as e mui as ou as i em lado a lado com as p á icas da No a
E a e lojas eso é icas. Essa abe u a dos po ugueses pa a no as pe spec i as
e p á icas, de a o um enômeno dos úl imos in e anos, es á-se expandindo
apidamen e e desen ol endo pa a no as o mas de pe cepção da ida e da
eligiosidade. A ápida expansão das eligiões a o-b asilei as em Po ugal é,
assim, undamen al pa a se analisa esse p ocesso, como pa e de um mosaico
maio cujos con o nos me ecem se al o de pesquisa mais ap o undada.
Re e ências
ALMEIDA, M. V. de. Um ma da co da e a. Raça, cul u a e polí ica de
iden idade. Oei as: Cel a, 2000.
Capí ulo 7Cla a Sa ai a
240|
AMARAL, R. Xi ê! O modo de c e e de i e no Candomblé. Rio de Janei o;
São Paulo: Pallas, 2005.
BARRETO, A. (Ed.). Globalização e mig ações. Lisboa: Imp ensa de Ciências
Sociais, 2005.
BARROS, J.; TEIXEIRA, M. L. O código do co po: insc ições e ma cas
dos o ixás. In: MARCONDES DE MOURA, M. (Ed.). Meu sinal es á no
eu co po: esc i os sob e a eligião dos o ixás. São Paulo: Edição/Edusp, 1989,
p. 36-62.
BASTIDE, R. As eligiões a icanas no B asil. São Paulo: Pionei a, 1989.
BASTOS, C. Omulu em Lisboa: e nog a ias pa a uma eo ia da globali-
zação. E nog á ica, . 2, p. 303-324, 2001.
BASTOS, C.; VALE DE ALMEIDA, M.; e FELDMAN-BIANCO,
B. T ânsi os coloniais. Lisboa: Imp ensa de Ciências Sociais, 2002.
BASTOS, J. G. P.; BASTOS, S. P. Po ugal mul icul u al: si uação e iden i-
icação das mino ias é nicas. Lisboa: Fim de Século, 1999.
______. Filhos di e en es de deuses di e en es. Lisboa: Acime, 2006.
BIRMAN, P. O que é Umbanda. São Paulo: B asiliense, 1985.
BLANES, R. Remembe ing and su e ing: memo y and shi ing allegiances
in he Angolan Tokois chu ch. Exchange, . 38, p 161-181, 2009.
BROWN, D. Powe , in en ion, and he poli ics o ace: Umbanda pas
and u u e. In: CROOK, L and JOHNSON, R. (Ed.). Black B azil: cul u e,
iden i y and social mobiliza ion. Los Angeles: UCLA La in Ame ican S udies
Cen e , 1999, p. 213-236.
BRUMANA, F. and MARTINEZ, E. Ma ginália sag ada. Campinas:
Unicamp, 1991.
BURDICK, J. Looking o God in B azil. The p og essi e Ca holic Chu ch
in u ban B azil´s eligious a ena. Be keley; Los Angeles: Uni e si y o
Cali o nia P ess, 1996.
CAMARGO, C. P. F. Ka decismo e Umbanda. São Paulo: Pionei a, 1961.
CAPONE, S. A busca de Á ica no Candomblé: adição e pode no B asil. Rio
de Janei o: Pallas, 2004a.
______. (Ed.). Religions ansna ionales. Ci ilisa ions: Re ue In e na io-
nale d’An h opologie e de Sciences Humaines, . 51, 2004b.
P e os elhos a a és do A lân ico
|241
CAPONE, S. and TEISENHOFFER, V. De eni medium à Pa is:
Ap en issage a adap a ion i uels dans l’mplan a ion d’un e ei o de
Candomblé en F ance. Psychopa hologie A icaine, . 31, n. 1, p. 127-156,
2001-2002.
CASTELO, C. “O Modo po uguês de es a no mundo”: O luso- opicalismo
e a ideologia colonial po uguesa (1933-1961). Lisboa: A on amen o, 1998.
DANTAS, B. G. Vo ó Nagô e Papai B anco: Usos e abusos da Á ica no B asil.
Rio de Janei o: G aal, 1988.
DEREN, M. Di ine Ho semen. The li ing gods o Hai i. No a Io que:
McPhe son & Company, 1979.
FAVRET-SAADA, J. Les mo s, la mo , les so s. Pa is: Gallima d, 1977.
FELDMAN-BIANCO, B. B azilians in Po ugal, Po uguese in B azil:
cons uc ion o sameness and di e ence. Iden i ies, . 8, n. 4, p. 607-650, 2001.
FRIGERIO, A. Re-a icaniza ion in seconda y eligious diaspo as: cons-
uc ing a wo ld eligion. Ci ilisa ions: Re ue In e na ionale d’An h opolo-
gie e de Sciences Humaines – Religions T ansna ionales, . 51, p. 39-60, 2004.
FRY, P. Pa a inglês e . São Paulo: B asiliense, 1982.
______. A pe sis ência da aça: es udos an opológicos sob e o B asil e a Á ica
Aus al. Rio de Janei o: Ci ilização B asilei a, 2005.
GOLDMAN, M. A cons ução i ual da pessoa: a possessão no Can-
domblé. In: MARCONDES, M. C. E. (O g.). Candomblé, des endando
iden idades. São Paulo: EMW, 1987, p. 87-119.
GUILLOT, M. Les cul es a o-b ésiliens: nou elles dynamiques eligieuses au
Po ugal, hesis P ojec . Pa is: X-Nan e e, 2007.
GUSMÃO, N. Os ilhos de Á ica em Po ugal: mul icul u alismo e educação.
Lisboa: Imp ensa de Ciências Sociais, 2004.
KOSER, K. New a ican diaspo as. Lond es: Rou ledge, 2003.
LAHON, D. O neg o no co ação do Impé io: uma memó ia a esga a , séculos
XV-XIX. Lisboa: ME/Casa do B asil, 1999.
LANDES, R. A cidade das mulhe es. Rio de Janei o: UFRJ, 2002.
MACHADO, F. Con as es e con inuidades: mig ação, e nicidade e in eg a-
ção dos guineenses em Po ugal. Oei as: Cel a, 2002.