Ex mensa exitium: morte e ignomínia nos alimentos ou na privação deles
Abstract
Este artigo debruça-se sobre a presença, e a função dessa presença, da alusão a alimentos ou ao momento em que se consumiam, na obra de Tácito, em especial os Annales. Observam-se circunstâncias como: consequências da abundância ou escassez de alimentos, em contexto urbano e militar; os alimentos usados para propaganda e manipulação política; os sacra mensae e o sacrilégio ou indignidade de determinados factos ocorridos em conuiuia ou simples refeições; o veneno (efectivo ou suposto) ministrado com a comida ou a bebida; o conuiuium enquanto ambiente propício a delatores e lugar de perdição para os incautos; a refeição como último acto de celebração da vida; a morte, voluntária ou forçada, por inanição.
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Patrimónios Alimentares de Aquém e Além-Mar Coimbra Joaquim Pinheiro Carmen Soares (Coords.) Joaquim Pinheiro Carmen Soares (coords.) Patrimónios Alimentares de Aquém e Além-Mar IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS ANNABLUME OBRA PUBLICADA COM A COORDENAÇÃO CIENTÍFICA • Série Diaita Scripta & Realia ISSN: 2183-6523 Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros do projeto transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia , por seu lado, cobre publicações elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a história e as culturas da alimentação no espaço lusófono. Joaquim Pinheiro é professor auxiliar da Universidade da Madeira (Faculdade de Artes e Humanidades) e investigador integrado do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (Universidade de Coimbra). Tem desenvolvido investigação sobre a obra de Plutarco, a mitologia greco-latina, a retórica clássica e o pensamento político na Antiguidade Clássica. É membro do Projeto DIAITA - Património Alimentar da Lusofonia (apoiado pela FCT, Capes e Fundação Calouste Gulbenkian). Desde 2013, é coordenador do Centro de Desenvolvimento Académico da Universidade da Madeira. Carmen Soares é Professora Associada com agregação da Universidade de Coimbra (Faculdade de Letras). Tem desenvolvido a sua investigação, ensino e publicações nas áreas das Culturas, Literaturas e Línguas Clássicas, da História da Grécia Antiga e da História da Alimentação. Na qualidade de tradutora do grego antigo para português é coautora da tradução dos livros V e VIII de Heródoto e autora da tradução do Ciclope de Eurípides, do Político de Platão e de Sobre o afecto aos filhos de Plutarco . Tem ainda publicado fragmentos vários de textos gregos antigos de temática gastronómica (em particular Arquéstrato). É coordenadora executiva do curso de mestrado em “Alimentação – Fontes, Cultura e Sociedade” e diretora do doutoramento em Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades. Investigadora corresponsável do projeto DIAITA-Património Alimentar da Lusofonia (apoiado pela FCT, Capes e Fundação Calouste Gulbenkian). Os estudos reunidos neste volume refletem, de uma forma geral, sobre a alimentação enquanto elemento de extraordinário valor cultural e identitário. Com abordagens diversas ao património alimentar, seja numa perspetiva linguística, seja numa análise mais literária ou cultural, com o devido enquadramento histórico, social e espacial, o conjunto dos trabalhos realça a importância desta temática, desde a Antiguidade Clássica até aos nossos dias. Na verdade, a alimentação e tudo o que com ela se relaciona conduzem-nos por uma viagem reveladora da forma de vida do homem e do seu relacionamento com a natureza e com outros seres vivos. Os trinta e quatro contributos da obra estão reunidos nos seguintes capítulos: 1. Alimentação: património imaterial; 2. Alimentação e património literário; 3. Alimentação e património linguístico; 4. Alimentação: saúde e bem-estar; 5. Alimentação: sociedade e cultura; 6. Alimentação e diálogo intercultural. Com este volume pretende-se também abrir perspetivas sobre novos domínios de pesquisa do património alimentar como fonte de saber essencial para a atualidade. 9789892 611907
Ex mensa exitium1: mOrte e iGNOmíNiA NOs AlimeNtOs Ou NA privAçãO deles Ex mensa exitium: death and ignominy in food or in its privation Maria Cristina de Sousa Pimentel Universidade de Lisboa Faculdade de Letras Centro de Estudos Clássicos [email protected] Resumo: Este artigo debruça-se sobre a presença, e a função dessa presença, da alusão a alimentos ou ao momento em que se consumiam, na obra de Tácito, em especial os Annales. Observam-se circunstâncias como: consequências da abundância ou escassez de alimentos, em contexto urbano e militar; os alimentos usados para propaganda e manipulação política; os sacra mensae e o sacrilégio ou indignidade de determinados factos ocorridos em conuiuia ou simples refeições; o veneno (efectivo ou suposto) ministrado com a comida ou a bebida; o conuiuium enquanto ambiente propício a delatores e lugar de perdição para os incautos; a refeição como último acto de celebração da vida; a morte, voluntária ou forçada, por inanição. Palavras-chave: Tácito; Annales; Historiae; sacra mensae; alimentação; manipulação política; repressão; delação; morte por inanição Abstract: This article focuses on the presence, and the function of this presence, of the reference to food or of the moment when food was consumed, in the work of Tacitus, especially the Annales. We observe circumstances such as: consequences of abundance or scarcity of food in urban and military contexts; food used for political propaganda and manipulation; the sacra mensae and the sacrilege or indignity of certain facts that occurred in conuiuia or simple meals; the poison (actual or alleged) administered with food or drink; the conuiuium as a favourable opportunity to delators and a place of perdition for the unwary; the meal as a last act of celebration of life; death, voluntary or forced, by starvation. Keywords: Tacitus; Annales; Historiae; sacra mensae; food; political manipulation; repression; delation; death by starvation Como qualquer leitor atento de Tácito conclui, não é prática comum do historiógrafo deter-se em pormenores concretos que desenhem ou enri1 A expressão consta em Tac. Ann. 15. 69. DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-1191-4_26
544 Maria Cristina de Sousa Pimentel queçam a descrição de um lugar2, a definição de um tempo3, ou a nitidez de um traço fisionómico4. Em geral, Tácito narra os eventos ancorando-os num enquadramento que omite ou dispensa elementos ou pormenores materiais, a não ser quando tal menção serve especificamente os seus objectivos literários ou ideológicos5. No caso das referências a alimentos e ao momento em que são (ou não) consumidos, é possível perguntar: que valor acrescido trazem à narração essas indicações explícitas? Que intencionalidade nelas descortinamos, já que nada, em Tácito, é anódino ou desprovido de alcance?6 Como é sabido, uma das preocupações maiores em Roma era o abastecimento frumentário7.Tácito dá-nos conta desse constante cuidado, sublinhando as consequências que a escassez de alimentos podia causar em termos de instabilidade e descontentamento propícios a distúrbios ou insurreição8. Critica a má orientação governativa que levara a abandonar o cultivo de cereais na Italia, outrora deles tão fértil, para passar a depender das remessas do Egipto e do norte de África (Ann. 12. 43), sempre tão ameaçadas por naufrágios e catástrofes naturais. Não deixa, ainda, de avaliar em que medida o controlo do abastecimento alimentar à capital se podia transformar num instrumento de sedição, como quando regista as razões pelas quais Augusto determinara que senadores e equites de censo senatorial não pudessem entrar no Egipto sem sua autorização9. Em outros passos, Tácito aponta acertadas decisões dos principes conducentes à manutenção da paz social, ameaçada pela escassez ou carestia dos alimentos, como as que tomou Tibério, no ano 19, fixando o preço dos cereais para evitar a especulação (Ann. 2. 87), ou as medidas excepcionais 2 Sobre o significado simbólico e o uso, enquanto instrumento do patético, da referência explícita aos espaços em que se consuma a tragédia dos caídos em desgraça, v. Malissard 1991 e Pimentel 2009. 3 Sobre a especificação temporal de que um acontecimento tem lugar durante a noite, e o significado dessa referência, v. Pimentel 2006. 4 Sobre o aspecto secundário da descrição da aparência física das personagens em Tácito, v. Aubrion 1985: 439-440. 5 Galtier 2011: 117-118: «La référence à un élément concret ne contribue pas seulement à donner plus de vigueur ou d’expressivité à l’événement évoqué. Elle est presque toujours dotée d’une signification (...) L’ élément concret peut ainsi apparaître, non plus comme un détail adjuvant, mais comme une pièce maîtresse de l’action en cours, au cœur de la dramatisation du récit». 6 A nossa análise incidirá sobre a obra maior de Tácito, os Annales, para tentar chegar a conclusões nesta linha de análise, ainda que recorra, pontualmente, às Historiae. 7 Tome-se como exemplo a generalização de Hist. 4. 38: uolgus ... cui una ex re publica annonae cura. Sobre o efeito produzido pelo facto de ser essa a informação com que “Tacitus begins his account of the consular year 70”, v. Pomeroy 2012: 147. 8 Cf. Ann. 6. 13, sobre a instabilidade social motivada pela carestia da annona que põe Roma iuxta seditionem, à beira de uma insurreição. 9 Ann. 2. 59. Veja-se o que Vespasiano, chegado a Alexandria, trama como forma de pressionar os vitelianos: vergá-los pela fome, interrompendo o abastecimento de cereais à capital (Hist. 3. 48).
545 Ex mensa exitium: morte e ignomínia nos alimentos ou na privação deles para minorar os efeitos de uma calamidade, como fez Nero ao baixar o preço do trigo após o incêndio que devastou Roma no ano 6410. Outras vezes, Tácito desvenda sem rodeios o que quase sempre se escondia por trás da distribuição de alimentos, a saber, uma intenção de propaganda ou manipulação da opinião popular com favores e liberalidades. Assim revela ter acontecido aquando do congiarium distribuído em nome de Nero, no ano 51, em que uma já muito poderosa Agripina congemina e executa as manobras destinadas a promover o seu filho em detrimento de Britânico, filho biológico de Cláudio, e assim lhe abrir o caminho à sucessão imperial (Ann. 12. 41). Anos mais tarde, já imperador, é Nero quem, em espectacular gesto de propaganda política, manda deitar ao Tibre o trigo já adulterado pelo tempo que se distribuía à plebe a baixo preço (Ann. 15. 18), para manter a confiança num reabastecimento iminente, ao mesmo tempo que decide não aumentar o preço do trigo, exactamente após se terem perdido trezentos navios que o transportavam. Nero sabia que tinha de manter o povo iludido com uma aparência de segurança, ocultando assim os graves reveses de uma instabilidade externa crescente e ameaçadora. Com essas e outras benesses ia garantindo que a plebe romana não se revoltasse: a fome, é sabido, nunca é boa conselheira. Deixemos agora a cidade e observemos as circunstâncias e a intencionalidade da menção dos alimentos em contexto militar. São vários os passos em que se sublinha a importância do abastecimento do exército11 e se alude às medidas tomadas para que as tropas tenham o necessário para comer. O exército leva, à sua frente, pabulantes (Ann. 12. 38), pilha o que pode às populações e nos campos por onde vai passando (Hist. 1. 66), transporta consigo alimentos e animais (Ann. 13. 55), como fazem as legiões do general Corbulão que, em campanha contra a Arménia, se deslocam com camelos carregados de cereais (Ann. 15. 12). A importância dos alimentos vê-se, também, pelo facto de uma cidade sitiada só superar o cerco se estiver bem abastecida (Ann. 11. 8; 15. 4; 16): se, ao invés, nada tiver armazenado, transforma-se em presa fácil e logo capitula. O mesmo é válido para os sitiantes, constrangidos a desistir do assédio se alguma circunstância adversa os priva de alimentos, como aconteceu aos Partos, quando cercavam Tigranocertos ocupada pelos Romanos e uma praga de gafanhotos devastou os campos em redor (Ann. 15. 5). A escassez de mantimentos é, sem dúvida, uma das principais razões de 10 Ann. 15. 39. Tácito, porém, não deixa de incluir a medida entre as que qualifica como popularia, e dá conta de que ela não surtiu o desejado efeito de apoio a Nero, pois entretanto se espalhou o rumor de que o princeps assistira, impávido, tocando e cantando, ao incêndio que alastrava e ia destruindo a Vrbs. 11 Hist. 4. 35 resume, de forma lapidar, a importância do abastecimento regular para o exército: Nihil aeque exercitus nostros quam egestas copiarum fatigabat.
546 Maria Cristina de Sousa Pimentel fazer recuar uma campanha militar (Ann. 12. 50) ou de a pôr em risco. No entanto, a situação contrária, a abundância de víveres e a possibilidade de os consumir sem freio, assume-se como circunstância geradora de indisciplina12. Um exército que come e bebe em demasia é fácil de se derrotar13. Tal como a paz social, em Roma, se garantia com a satisfação das necessidades básicas de alimentação, e os congiaria eram arma na mão dos principes para conquistar a aura popularis, assim também os donativos ao exército se destinavam em geral a mantê-lo leal e apoiante de quem detinha o poder. Tome-se como exemplo o que Nero fez depois de debelar a conjura de Pisão, quando concedeu, além do donativo pecuniário, o fornecimento gratuito do frumentum que até aí era descontado no salário dos soldados (Ann. 15. 71). A referência aos alimentos em contexto militar serve ainda a Tácito para adensar o patético da situação em que se encontraram os soldados romanos na sequência de um grave revés sofrido na luta contra os Germanos liderados por Armínio. O historiógrafo foca o profundo abatimento das legiões após uma batalha adversa que só o fim do dia suspendeu. No local onde finalmente conseguem estacionar para passar a noite, pouco ou nada lhes resta para levantar o acampamento: nem utensílios, nem tendas, nem ligaduras para tratar os feridos. A esta enumeração crescente, que marca o completo desprovimento de recursos, opõe Tácito, em clímax patético14, a imagem dos soldados que, mergulhados nas trevas funestas da noite, partilham a comida: mas os alimentos estão ensopados de lama e sangue (Ann. 1. 65: infectos caeno aut cruore cibos diuidentes) e esse pormenor realça a mácula da derrota, o ínfimo degrau da dignidade que estão à beira de pisar. Em perspicaz contraste de verosimilhança psicológica, Tácito retoma o motivo da refeição partilhada entre os soldados, no dia seguinte: uma vez que a roda da fortuna começou a girar em benefício dos Romanos, e o combate travado nesse dia lhes foi muito mais favorável, já as feridas, ainda que mais numerosas, e a escassez de alimentos, que era a mesma (Ann. 1. 68. 5: plus uulnerum, eadem ciborum egestas), não os impedem de sentir forças renovadas e esperança na vitória. 12 Ou de tomar atitudes que o põem em grave risco (Hist. 2. 21). Cf. Hist. 2. 76, sobre o efeito nefasto de popinae e comissationes sobre o ardor e a ferocia dos soldados. 13 Ann. 4. 48. O excesso de comida e de bebida, os constantes festins, começados muito antes de o dia tombar, e o usual estado de embriaguez de Vitélio fazem parte da caracterização muito negativa que Tácito lhe atribui de modo recorrente, desde as primeiras menções das Historiae (1. 62; 2. 31; 62; 68; 71; 87; 95), como que antecipando, pelo opróbrio em que a personagem mergulha, o seu fim inevitável e indigno. 14 Sobre o capítulo 65, diz Miller 2007: 188: “This whole chapter is written in a very fine style, with elaborate pictorial effects obtained by deliberately unco-ordinated structure, and with strong poetic colouring (...). Tacitus is deliberately heightening the emotional effect of the passage (...) and he gives us a fine piece of dramatic and descriptive writing, not merely a summary of facts”.
547 Ex mensa exitium: morte e ignomínia nos alimentos ou na privação deles A intolerável indignidade a que, em situações bélicas adversas, os soldados podem ficar reduzidos traduz-se em outros passos pela referência aos alimentos que se viram na necessidade de comer, para sobreviverem. Foi o caso das legiões de Germânico, após um naufrágio em que quase todos pereceram: apenas se salvaram aqueles que se alimentaram da carne dos cavalos que com eles deram à costa (Ann. 2. 24: corpora equorum). A descrição desse tipo de situações limite, em que os soldados eram obrigados a partilhar uma comida que inevitavelmente lhes causava repugnância, mas lhes garantia a sobrevivência, volta a encontrar-se, nos Annales, quando Tácito regista que o exército de Corbulão, na campanha para a conquista da Arménia, teve de matar a fome carne pecudum (Ann. 14. 24), com a carne do gado que iam encontrando, por absoluta inópia de cereais, base de sustento a que estavam habituados e que reputavam como a mais saudável. A partilha da comida, de dia, e das tendas, de noite, entre os soldados, é considerada como que um laço que os une, numa natural sacralidade que torna mais cruel e aberrante qualquer conflito que estale entre eles, que os divida e os ponha uns contra os outros (Ann. 1. 49). Essa sacralidade, que marcava a refeição tomada em conjunto, ou, de um modo mais amplo, o momento em que se consumiam alimentos, transparece de circunstâncias várias em que Tácito regista, a nosso ver com transparente intenção, que determinado acontecimento teve lugar num banquete, num festim, numa simples refeição. Observemos alguns passos mais significativos. Acentua-se a indignidade de certos actos quando eles ocorrem durante convívios e banquetes, pois infringem-se aqueles que são os sacra mensae. A expressão surge duas vezes nos Annales. Na primeira (Ann. 13. 17), representa-se o envenenamento de Britânico, à frente de todos, num banquete presidido por Nero. Como é sabido, depois de uma tentativa de assassínio frustrada, também por veneno vertido em bebida que Britânico não assimilou (Ann. 13. 15), Nero exige um veneno mais forte e eficaz, que foi ministrado ao irmão adoptivo misturado na água fria que se juntou a uma bebida escaldante. O segundo passo, em que expressamente se alude aos sacra mensae e aos deuses que tornam inviolável o hóspede, respeita à conjura de Pisão. Alarmados com a possibilidade de traição por parte de uma liberta que fora presa e estava ao corrente do que se tramava - a corajosa Epícaris que, afinal, se revelou sublime exemplum de constância e lealdade e a nenhuma tortura cedeu - os conspiradores resolvem apressar o assassínio de Nero. Planeiam matá-lo em Baias, na uilla do próprio Pisão, onde o princeps ia muitas vezes, atraído pelos prazeres a que aí se podia entregar, entre eles os banhos e os banquetes (Ann. 15. 52. 1: balneasque et epulas), e onde se sentia tão à-vontade que dispensava os guardas da sua segurança pessoal. Pisão, todavia, recusou o plano, por não querer macular, com derramamento de sangue, a sacralidade da mesa e os deuses da hospitalidade, os Lares e os Penates (Ann. 15. 52; sacra mensae
548 Maria Cristina de Sousa Pimentel diique hospitales). Esses eram valores que nem a necessidade de eliminar o mais cruel tirano justificava infringir. Estes dois passos abrem-nos espaço para lermos muitos outros em que Tácito plasma a ignomínia acrescida das traições ou assassínios cometidos durante um banquete ou refeição. Comecemos pela morte por envenenamento ministrado com a comida ou a bebida. Podemos resumir essa circunstância na expressão que chamámos ao título desta comunicação: ex mensa exitium, ou, ainda em palavras de Tácito, uenenum inter epulas (Ann. 13. 1). É de todos sabido que, em Roma, entre os membros da família imperial e os que gravitavam na esfera do poder, era prática comum o envenenamento como forma de afastar alguém do caminho ou, também, de ajustar contas ou dar satisfação a ódios acumulados. Estas circunstâncias incluem a acusação de envenenadoras que amiúde recaía sobre as mulheres15, quantas vezes escondendo ou desvirtuando os verdadeiros motivos da acusação. Para perder uma mulher, nada tão eficaz como as duas acusações que melhor pareciam, na opinião comum, adequar-se-lhe: envenenadora e adúltera. O veneno era, quase sempre, ministrado com a comida ou a bebida, facto que é de tal modo evidente que, por vezes, Tácito nem o explicita, limitando-se a falar de envenenamento a propósito de casos em que outras fontes desenvolvem a afirmação referindo o meio através do qual se instilou o veneno. Assim acontece no tocante a dois libertos de Cláudio, os em tempos poderososíssimos Doríforo e Palas, sobre os quais Tácito apenas regista: libertorum potissimos ueneno interfecisse (Ann. 14. 65), lendo-se todavia em Suetónio como foi ministrado o veneno, repartido entre a comida e a bebida16. Nos Annales, é possível fazer uma lista, significativa pelo relevo dos nomes, dos que encontraram a morte por essa via: Germânico, sobrinho e filho adoptivo de Tibério, que Tácito sugere, primeiro com reserva imposta pelo rigor histórico, depois como certeza irrefragável, ter sido envenenado por Calpúrnio Pisão e sua mulher Plancina, senão a mando, pelo menos por sugestão inequívoca do imperador e decerto de sua mãe, Lívia (Ann. 2. 69: 3. 14); Druso, filho de Tibério, envenenado por um eunuco que o servia e em quem depositava plena confiança, a mando de Sejano e com a cumplicidade de Lívia, mulher de Druso e amante de Sejano (Ann. 4. 8); Cláudio, o imperador assassinado pela mulher, Agripina, que lhe propiciou, por intermédio do eunuco Haloto, servidor e provador da comida do princeps, um suculento boletus (Ann. 12. 66), o cogumelo em que se instilara o veneno; Júnio Silano, procônsul da Asia, durante um festim, às escâncaras, por acção directa do 15 V. e.g. Ann. 3. 23, o caso de Lépida. Sobre o estereótipo da mulher adúltera e, em particular, a ‘retórica do veneno’ nos Annales, v. Santoro L’Hoir (2006) 158-195. 16 Suet. Nero 35: ueneno partim cibis partim potionibus indito.
549 Ex mensa exitium: morte e ignomínia nos alimentos ou na privação deles cavaleiro P. Célere e do liberto Hélio, mas a mando de Agripina, que o temia por razões pessoais e políticas (Ann. 13. 1), e para cujo assassínio, segundo Díon (61. 6. 4), ela expediu parte do veneno que lhe sobrara do cogumelo fatal preparado para a gula de Cláudio; os já referidos libertos de Cláudio, Doríforo e Palas (Ann. 14. 65); talvez até os netos e indigitados herdeiros de Augusto, Gaio e Lúcio César, por maquinações de Lívia (Ann. 1. 3; 3. 19)... A prática do envenenamento durante uma refeição não se restringia, porém, aos grandes de Roma. Disso é exemplo o modo como, na corte parta, as intrigas e a luta pelo poder levam à morte do influente eunuco Abdo, atraído traiçoeiramente a um banquete, a pretexto de uma suposta reconciliação amistosa (Ann. 4. 32: specie amicitiae), para aí ser envenenado. Tal comportamento, lembre-se o paralelo, não anda longe do modo como Nero atraiu a mãe à armadilha que lhe preparara: para a trazer ao encontro que lhe foi fatal, Nero simulou a reconciliação com Agripina, convidando-a ad epulas (Ann. 14. 4), em Baias. A referência a essa circunstância intensifica, sem dúvida, o carácter nefando do crime que Nero perpetrou. O envenenamento pela comida era de tal modo comum que Tácito nos sugere o medo e a desconfiança que muitas personagens sentiam e os levavam a tomar as precauções possíveis. Agripina tomava há muito antídotos contra eventuais venenos que lhe ministrassem (Ann. 14. 3): essa foi uma das razões que levou Nero a pôr de parte um primeiro plano para assassinar a mãe, juntamente com a certeza de que o crime se tornaria evidente aos olhos de todos se ele repetisse, à sua própria mesa, o que fizera com Britânico. Séneca, dando seguimento à parcimónia alimentar com que pautara toda a sua vida, toma especial cautela após o afastamento da corte, em 62, contra um possível envenenamento, que receava (Ann. 15. 45): vivia na maior frugalidade (persimplici uictu), comia frutos selvagens (agrestibus pomis) e, para matar a sede, nada mais bebia que água da nascente (profluente aqua)17. Essa desconfiança constante, de tudo e de todos, em particular quando é o ódio ou a luta pelo poder que estão em campo, pode ser aproveitada para lançar a dúvida sobre a lealdade de alguém, com o consequente proveito para quem espalha ou incute essa suspeita. Para ferir de desconfiança a relação entre Tibério e o filho, Druso, que Sejano queria afastar do seu caminho, o prefeito do pretório teria maquinado, entre outras indignidades, espalhar o boato de que Druso queria envenenar o imperador, e intrigou para que este 17 De facto, segundo Tácito, um dos libertos de Séneca, Cleonico, a mando de Nero, preparou veneno para ministrar ao filósofo. Se ele não morreu, tal deveu-se à revelação do próprio liberto, ou ao regime alimentar de grande sobriedade que adoptara. O próprio Séneca refere a frugalidade em que vivia, após ter-se retirado da vida pública, quando fala a Lucílio do panis ... siccus et sine mensa prandium (Ep. 83. 6), o pão seco comido em pé, ou lhe fala da moderação alimentar que procura manter (Ep. 108. 16).