Impactos da Covid-19 no turismo em Portugal: uma avaliação rápida dos primeiros nove meses
Abstract
O ano de 2020 ficará na memória devido à Covid-19. Nenhuma epidemia antes na história da humanidade tinha sido tão rápida a atingir proporções globais como foi esta nova infeção causada pelo Sars-CoV-2. O caráter pandêmico da Covid-19 relaciona-se estreitamente com uma das características centrais da população mundial atual: a mobilidade. Na inexistência de soluções farmacêuticas eficazes para a nova doença, restringir a mobilidade e os contactos sociais foram as fórmulas encontradas para mitigar a epidemia. O turismo foi, por isso, uma das atividades mais afetadas. Neste ensaio, analisamos o que sucedeu em Portugal durante a primeira vaga da epidemia.
Full text
Rita de Cássia Ariza da Cruz Simone Affonso da Silva Sara Pugliesi Larrabure Carolina Todesco Hugo Rogério Hage Serra José Júlio Júnior Guambe (Orgs.) TURISMO EM TEMPOS DE COVID-19 Ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal Grupo de Pesquisa Turismo em tempos de pandemia: uma análise geográfica multi e trans-escalar. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Departamento de Geografia Universidade de São Paulo – USP 2021 DOI: 10.11606/9786587621456
Comissão Científica Admilson Alcantara da Silva – Universidade do Estado do Pará Carolina Todesco – Universidade Federal do Rio Grande do Norte Hugo Rogério Hage Serra – Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará José Júlio Júnior Guambe – Universidade Pedagógica de Maputo Karoline Batista Gonçalves – Universidade Federal da Grande Dourados Maria Angélica Maciel Costa – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Milene de Cássia Santos de Castro – Universidade Federal do Pará Sandra Dalila Corbari – Universidade de São Paulo Sara Pugliesi Larrabure – Universidade de Lisboa Simone Affonso da Silva – Universidade Federal de Alagoas Comissão editorial Sonia Maria Vanzella Castelar – Universidade de São Paulo Reinaldo Pau Perez Machado – Universidade de São Paulo Rita de Cássia Ariza da Cruz – Universidade de São Paulo Wanderley Messias da Costa – Universidade de São Paulo Ângelo Serpa – Universidade Federal da Bahia Iná Elias de Castro – Universidade Federal do Rio de Janeiro Saint-Clair Cordeiro da Trindade Junior – Universidade Federal do Pará Esta obra é de acesso aberto. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e autoria e respeitando a Licença Creative Commons indicada. REITOR DIRETOR Vahan Agopyan Paulo Martins VICE-REITOR VICE-DIRETORA Antonio Carlos Ana Paula Torres Hernandes Megiani Diagramação e Capa Jakson Albuquerque de Oliveira Imagem da capa https://images2.alphacoders.com/247/thumbbig-247890.jpg 26/02/2021 Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Biblioteca e Documentação Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Maria Imaculada da Conceição – CRB-8/6409 T938 Turismo em tempos de Covid-19 [recurso eletrônico] : ensaios sobre casos na Argentina, Brasil, Moçambique e Portugal / Organização: Rita de Cássia Ariza da Cruz... [et al.]. -- São Paulo : FFLCH/USP, 2021. 6.420 Kb ; PDF. ISBN 978-65-87621-45-6 DOI 10.11606/9786587621456 1. Turismo. 2. Geografia da saúde. 3. COVID-19. I. Cruz. Rita de Cássia Ariza da. II. Grupo de Pesquisa Turismo em tempos de pandemia. CDD 338.4791
108 Impactos da Covid-19 no turismo em Portugal: uma avaliação rápida dos primeiros nove meses Eduardo Brito-Henriques – CEG, IGOT, Universidade de Lisboa Sara Larrabure – CEG, IGOT, Universidade de Lisboa O ano de 2020 ficará na memória devido à Covid-19. Nenhuma epidemia antes na história da humanidade tinha sido tão rápida a atingir proporções globais como foi esta nova infeção causada pelo Sars-CoV-2. O caráter pandêmico da Covid-19 relaciona-se estreitamente com uma das características centrais da população mundial atual: a mobilidade. Na inexistência de soluções farmacêuticas eficazes para a nova doença, restringir a mobilidade e os contactos sociais foram as fórmulas encontradas para mitigar a epidemia. O turismo foi, por isso, uma das atividades mais afetadas. Neste ensaio, analisamos o que sucedeu em Portugal durante a primeira vaga da epidemia. Breve relance sobre o turismo em Portugal antes da pandemia Portugal, com as duas regiões autónomas insulares incluídas (Madeira e Açores), recobre uma área de cerca de 92 mil km2, e tinha em 2019 uma população estimada de 10,3 milhões de habitantes. Nesse ano, Portugal dispunha de 6.833 alojamentos turísticos, a que correspondia uma capacidade de 443.157 camas e onde se realizaram 70,1 milhões de dormidas (INE, 2020a) i . Significa que num território que compara em dimensão com o Estado de Santa Catarina e que em população não chega ao Rio Grande do Sul, havia quase o dobro da capacidade de alojamento em meios de hospedagem de toda a macrorregião Sul do Brasil e praticamente o mesmo que na macrorregião Sudeste. De resto, frente aos 6,6 milhões de turistas estrangeiros que o Brasil recebeu em 2018, Portugal recebeu 22,8 milhões (UNWTO, 2019). Esta desproporção, que se tem de sublinhar, pois estamos a falar de um território que é quase um décimo do Brasil, é sugestiva da importância que o turismo tem em Portugal, com consequências numa forte interferência das mobilidades turísticas na vida dos lugares, assim como numa elevada dependência da economia de visitação. cc
109 Comparativamente a destinos vizinhos da Europa do Sul, Portugal teve um desenvolvimento turístico mais tardio. Isso granjeou-lhe a reputação de um destino menos massificado e, de certa forma, até mais diferenciado. Porém, na última década, especialmente desde 2012, o turismo disparou. Entre 2012 e 2019 o movimento anual de passageiros nos aeroportos de Portugal quase duplicou (+91%), chegando a 29.966.753 passageiros desembarcados naquele último ano; as dormidas nos alojamentos turísticos aumentaram 76,8%; e ampliou-se o volume de negócios em 91,5% nas atividades de alojamento, restauração e espetáculos artísticos, desportivos e recreativos, atingindo 19 mil milhões € (INE, 2020b). Em consequência desta evolução, Portugal chegou a 2019 com uma das economias mais dependentes do turismo de toda a União Europeia (UE) – apenas atrás de Croácia e Grécia –, com um peso de 16,5% no PIB, 18,6% no emprego e 23,5% no total das exportações do país (WTTC, 2020). Duas regiões destacam-se em particular nesta matéria: o Algarve e a área metropolitana de Lisboa. O Algarve é a região balnear portuguesa por excelência e também um importante destino internacional de turismo de golfe e de turismo residencial, procurado por aposentados da Europa do Norte. A área metropolitana de Lisboa possui uma oferta turística desdobrada entre vários produtos (sol e mar, golfe, desportos náuticos, natureza, enoturismo, etc.), mas é essencialmente um destino de city break e de turismo cultural e de eventos. Nestas duas regiões, que totalizam menos de 9% da superfície de Portugal, concentrava-se, em 2019, 51% da capacidade de alojamento turístico do país e nelas foram realizadas 56,4% do total das dormidas. A região da Madeira, repetidamente eleita desde 2015 como melhor destino insular do mundo pelos World Travel Awards (considerados os “Óscares” do turismo), é outro território muito visitado e onde as atividades características do turismo têm forte implantação e peso na economia. A primeira vaga da pandemia e o “Grande Confinamento” O primeiro caso de Covid-19 na Europa foi anunciado em 24 de janeiro de 2020, em França. Em Portugal, só em 2 de março seria confirmado o primeiro caso de infeção. Nos dois primeiros meses do ano, apesar das notícias alarmantes que vinham da China, do começo do bloqueio ao tráfego aéreo em
110 destinos da Ásia-Pacífico e, por fim, perante o avanço da pandemia na Europa, o movimento nos hotéis portugueses não só não diminuiu como, inclusive, cresceu face ao período homólogo do ano anterior (Tabela 1). Portugueses de classe média-alta, com hábito de fazerem férias de neve, mantiveram os seus planos e viajaram para os Pirineus e Alpes, ainda no começo de março. A reviravolta ocorreu na segunda semana daquele mês. Diante da escalada do número de infetados na Europa, e para evitar o colapso dos serviços de saúde, já iminente nalgumas regiões como o norte de Itália, vários estados-membros da UE começaram a impor restrições à mobilidade, a encerrar fronteiras, a banir eventos e a encerrar comércio e serviços (HIRSCH, 2020). A 16 de março, a presidente da Comissão Europeia anunciava que a UE iria fechar as suas fronteiras externas. Tabela 1 – Procura nos estabelecimentos de alojamento turístico 2020. Mês Hóspedes Dormidas Total Residentes Não residentes 2020 Variação homóloga 2020 Variação homóloga Variação homóloga Variação homóloga JAN 1.418.459 11,4% 3.253.096 7,2% 11,4% 5,3% FEV 1.594.530 14,4% 3.838.559 14,1% 26% 8,7% MAR 692.691 –62,8% 1.900.128 –58,8% –58,2% –59% ABR 53.326 –97,7% 155.012 –97,4% –93,6% –98,9% MAI 136.493 –94,8% 276.508 –95,8% –86,6% –98,8% JUN 482.523 –82,4% 1.041.233 –85,5% –59,4% –96,7% JUL 1.032.523 –63,8% 2.648.164 –67,8% –29,4% –84,7% AGO 1.880.926 –43,6% 5.092.842 –47,1% –1,5% –72,4% SET 1.370.919 –52,7% 3.551.658 –53,4% –8,5% –71,9% Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Portugal), Inquérito à permanência de hóspedes na hotelaria e outros alojamentos. Organizado pelos autores (2020). Em Portugal, o Estado de Alerta foi decretado a 13 de março, com um primeiro conjunto de medidas extraordinárias para a contenção do novo coronavírus que envolveu a suspensão das atividades letivas presenciais, encerramento de estabelecimentos de bebidas com espaços de dança (discotecas) e diminuição da lotação em restaurantes para um terço. O nível de restrições seria agravado escassos dias depois com a declaração do Estado de Emergência a 18 de março, e efeitos a partir de 20. Todo o comércio não essencial foi encerrado, o teletrabalho foi imposto nos setores que eram com ele compatíveis (essencialmente, serviços), restaurantes e similares ficaram
111 restringidos a take away, museus, monumentos, ginásios, recintos desportivos, cinemas e salas de espetáculo foram encerrados, assim como suspensos todos os eventos, incluindo os religiosos. Com as pessoas confinadas em casa, as cidades pareciam estar despovoadas e praticamente deixou de haver movimento nas estradas. Este período de restrições mais severas à mobilidade e à liberdade económica durou em Portugal até 4 de maio, data em que o país entrou em Estado de Calamidade e se iniciou um processo gradual de “desconfinamento”. Essa reabertura da economia começou pelo pequeno comércio local (até 200 m2) e serviços pessoais. A 18 de maio, restaurantes, cafés e pastelarias puderam voltar a servir clientes (com metade da lotação e horários reduzidos) e houve reabertura de museus, monumentos e galerias de arte. Finalmente, cinemas, teatros e salas de espetáculo puderam retomar a atividade a 1 de junho, embora com lotação reduzida e distanciamento físico. O facto das portas reabrirem não significou, todavia, que a atividade turística tivesse regressado: nos museus, no primeiro mês após a reabertura, as entradas foram 10% das registadas no período homólogo do ano anterior (MARTINS, 2020). Note-se que, durante o Estado de Emergência em Portugal, nunca os estabelecimentos de alojamento turístico foram obrigados a suspender a atividade, apenas a fronteira terrestre com Espanha foi encerrada (não os aeroportos). Porém, nesses meses de abril e maio, toda a atividade turística praticamente cessou. Face a 2019, as dormidas nos estabelecimentos de alojamento turístico tiveram uma variação de –97,4% em abril, e –95,8% em maio (Tabela 1). A pouca atividade registada terá estado ligada a viagens inadiáveis ou por motivos imperiosos, e alguns poucos turistas retidos que ficaram impedidos de regressar aos seus países. É, portanto, do lado da procura que se encontram as causas desta quebra: foram as restrições à mobilidade nas regiões emissoras e não as dificuldades colocadas no destino à entrada de visitantes que, de facto, fizeram baixar a atividade para níveis quase nulos. No segundo trimestre de 2020, o número de passageiros desembarcados nos aeroportos nacionais foi de 230 mil, representando um decréscimo de 97,5% face ao período homólogo, conforme Gráfico 1.
112 Gráfico 1 – N.º de passageiros desembarcados nos aeroportos de Portugal, 2019 e 2020. Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Portugal), Inquérito aos Aeroportos e Aeródromos. Organizado pelos autores (2020). Para responder a este “choque de procura”, 80% dos estabelecimentos de alojamento turístico em todo o país acabariam por decidir, por moto próprio, fechar portas no “Grande Confinamento”, e assim evitarem custos de operação (INE, 2020c). No que tange aos proventos oriundos dos estabelecimentos de alojamento turístico, o acumulado até setembro de 2020 foi de 1,2 milhão de euros contra 3,5 milhões no mesmo período de 2019, representando uma redução de 64,5% (INE, 2020a). A tímida retoma de verão A circulação entre estados-membros da UE começou a restabelecer-se lentamente em junho. Para viajantes provenientes de países externos à UE, em julho. Contudo, a reabertura das fronteiras foi lenta e atribulada. Vários estados-membros continuaram a impor quarentenas e/ou obrigar à realização de testes. Os estados seguiram critérios diferentes na definição de quais eram os países seguros para viajar. Portugal ficou fora dessa lista em alguns dos seus mais importantes mercados, como o britânico. Por isso, a retoma do turismo recetor em Portugal foi muito ténue no verão europeu. Em contrapartida, a procura interna acabou por responder positivamente, acabando por se registar no mês de agosto uma redução de apenas 1,55% das dormidas dos residentes face ao mesmo mês de 2019, também porque muitas viagens internacionais terão sido substituídas por turismo doméstico. -100% -80% -60% -40% -20% 0% 20% 0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Variação homóloga Milhares Passageiros Passageiros desembarcados (N.º) nos aeroportos de Portugal Passageiros 2019 Passageiros 2020 Variação
113 Nota-se que no conjunto dos primeiros nove meses do ano, as regiões que apresentaram menores diminuições do número de dormidas nos estabelecimentos turísticos (Gráfico 2) foram o Alentejo (–36,1%), o Centro (– 50,6%) e o Norte (–56,5%), contra recuperações muito menores nas principais regiões turísticas – a área metropolitana de Lisboa (–69,1%) e o Algarve (– 60,8%). Isto explica-se, primeiro, porque Lisboa e o Algarve têm maior dependência de turistas provenientes do estrangeiro (77,5% das dormidas em 2019 foram feitas por não residentes), mas também porque os turistas terão preferido viajar para áreas rurais e territórios de baixa densidade, onde percebiam que podia haver maior segurança sanitária e distanciamento físico, como, aliás, estudos já tinham sugerido que iria suceder (BRITO-HENRIQUES; BOAVIDA-PORTUGAL; ARROBAS, 2020). Gráfico 2 – Dormidas nos estabelecimentos turístico por região – variação homóloga 2019 e 2020. Fonte: Instituto Nacional de Estatística (Portugal), Estatísticas do Turismo, 2020a. Organizado pelos autores (2020). Questões em aberto Apesar da tímida recuperação verificada nos meses de julho e de agosto, em setembro registou-se nova inversão da tendência, com variações homólogas negativas das dormidas nos estabelecimentos de alojamento turístico, conforme pode ser visualizado no Gráfico 2, o que demonstra que a pandemia continua a afetar a mobilidade. Ainda que seja difícil qualificar neste momento os impactos a prazo da pandemia da Covid-19, com base nas -100% -80% -60% -40% -20% 0% 20% 40% Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Dormidas nos estabelecimentos turístico por região – Variação homóloga 2019 e 2020 Norte Centro AM Lisboa Alentejo Algarve Açores Madeira