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Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello

Pereira, Elsa

Abstract

Tomando como referência o modelo editorial que está a ser desenvolvido para a poesia de Pedro Homem de Mello (1904-1984), este trabalho procura refletir sobre o problema da atribuição crítica de autoridade, nos casos em que se documentam situações de revisão colaborativa e apropriação cultural. Em linha com as posições teóricas de James Thorpe (1972) e Siegfried Scheibe (1995), entre outros, defende-se que, do ponto de vista editorial, todos os testemunhos sancionados pelo autor estão em pé de igualdade, e por isso, em vez de fixar um texto, apresentando-o como a lição mais autêntica, a solução adotada passará por um tratamento não-hierarquizado de múltiplos estádios textuais. Este procedimento, designado de versioning ou multiple texts, beneficia especialmente das virtualidades do hipertexto eletrónico, para conciliar tipos variáveis de autoridade e percursos alternativos de leitura.

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ARTIGOS / ARTICLES 123 AUTORIA, REVISÃO COLABORATIVA E APROPRIAÇÃO CULTURAL: PARA UM MODELO DE EDIÇÃO DA POESIA DE PEDRO HOMEM DE MELLO AUTHORSHIP, COLLABORATIVE REVIEW, AND CULTURAL APPROPRIATION: A MODEL FOR EDITING BY POETRY BY PEDRO HOMEM DE MELLO Elsa Pereira* Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal Resumo: Tomando como referência o modelo editorial que está a ser desenvolvido para a poesia de Pedro Homem de Mello (19041984), este trabalho procura refletir sobre o problema da atribuição crítica de autoridade, nos casos em que se documentam situações de revisão colaborativa e apropriação cultural. Em linha com as posições teóricas de James Thorpe (1972) e Siegfried Scheibe (1995), entre outros, defende-se que, do ponto de vista editorial, todos os testemunhos sancionados pelo autor estão em pé de igualdade, e por isso, em vez de fixar um texto, apresentando-o como a lição mais autêntica, a solução adotada passará por um tratamento não-hierarquizado de múltiplos estágios textuais. Este procedimento, designado de versioning ou multiple texts, beneficia-se especialmente das virtualidades do hipertexto eletrônico, para conciliar tipos variáveis de autoridade e percursos alternativos de leitura. Palavras-chave: autoridade; revisão colaborativa; apropriação cultural; edição digital; versões. Abstract: Considering an editorial model for poetry by Pedro Homem de Mello (1904-1984), this paper focuses on the problem of the critical attribution of authority, whenever collaborative review and cultural appropriation occur. In line with the theoretical positions held by James Thorpe (1972) and Siegfried Scheibe (1995), among others, it argues that, from an editorial point of view, all versions sanctioned by the author are of equal importance. Therefore, instead of establishing a single-base text and presenting it as the most authentic reading, the ongoing project chooses a non-hierarchical treatment of various textual stages. This procedure, called versioning or multiple texts, will particularly benefit from the possibilities of the electronic hypertext, to combine different types of authority and present the user with alternative reading paths.. Keywords: Authority; Collaborative Revision; Cultural Appropriation; Digital Edition; Versioning. Para Ivo Castro** * Universidade de Lisboa – CLUL, Lisboa, Portugal; [email protected] ** O presente artigo desenvolve uma comunicação apresentada ao IV Congresso Internacional de Linguística Histórica (Lisboa, 17-21 de julho de 2017), em homenagem a Ivo Castro. Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 http://dx.doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i2p123-141 124 É frequente distinguirem-se duas grandes vertentes na disciplina de crítica textual, embora com designações diversas: uma dedicada à edição de textos antigos e outra que se ocupa de obras contemporâneas. Em 19991, Ivo Castro assinalava esta distinção operativa, referindo-se a uma “filologia do original presente”, por contraponto à “filologia do original ausente” (Castro, 1999, p. 165). Se esta tinha por missão reconstruir um arquétipo textual, baseando-se em cópias de transmissão corrompida, aquela, ao ocupar-se de autores mais recentes, dispunha já de um vasto acervo de documentos autógrafos, a par de uma não menos copiosa transmissão impressa. Caberia ao editor “identificar e fielmente publicar” a melhor lição autêntica e organizar, com as “variantes da reescrita do texto, um aparato genético que”, todavia, “ninguém lê” (CASTRO, 1999, p. 165). Na verdade, se excetuarmos a disposição sinóptica (nos casos em que existem apenas dois testemunhos de uma obra), a estrutura particular do códice obriga os editores a privilegiarem uma versão sobre todas as outras. Nos casos em que existem múltiplos testemunhos autorais e não-autorais, a escolha da lição que vai figurar no texto-base, para ser efetivamente lida, dependerá, essencialmente, da fonte de autoridade privilegiada no nosso critério editorial: textual scholars refer to the authority of [a] document as a means to decide which witness takes precedent over which. Authority, however, is a polysemic concept, and textual scholars apply it differently in different contexts. Debates about authority thus evolve around ways of assessing the superiority of one document over another in terms of a criterion other than authenticity (DIONÍSIO, 2014, p. 135-136). 1 Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto de Pós-doutoramento “Poesia de Pedro Homem de Mello: edição crítico-genética”, com o apoio de uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (SFRH/BPD/92155/2013), comparticipada pelo Fundo Social Europeu e por fundos do MCTES de Portugal. A autora agradece aos supervisores, João Dionísio e Francisco Topa, pela leitura crítica de versões prévias do texto. Um agradecimento especial é devido às netas do poeta, Mariana e Rita Homem de Mello, bem como às instituições que detêm os documentos do acervo melliano. PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 125 1 Autoridade causal: critérios autoral e social Segundo Van Hulle e Shillingsburg (2015) é possível distinguir seis grandes orientações formais por que se rege a atribuição crítica de autoridade2, sendo a orientação causal aquela que polariza maiores divergências, em torno de duas grandes fações. Para uns, o texto pertence exclusivamente ao autor (critério autoral), enquanto outros consideram que a autoridade aparece repartida pelos vários agentes envolvidos no processo de socialização de uma obra (critério social). Até à década de 80 do século XX, foi o critério autoral que prevaleceu nos estudos textuais3. O objetivo de uma edição crítica passava por fixar o texto que mais se aproximava da vontade (ou intenção) do autor, muito embora, ao longo dos anos, este critério tenha sido aplicado de modo diverso. A New Scholarship de Hershel Parker, por exemplo, privilegiava o manuscrito mais antigo, por entender que a intenção original que desencadeia um processo criativo acabava sendo muitas vezes corrompida, em campanhas de revisão tardias4. Pelo contrário, a corrente liderada por Walter Greg, Fredson Bowers e George Thomas Tanselle defendia o predomínio da última versão atestada pelo autor, atribuindo-lhe um valor 2 Naversãooriginaldaproposta,publicadaem1996,PeterShillingsburgidentificavacinco grandesorientações:documental,estética,autoral,sociológicaebibliográfica(SHILLIGSBURG, 2004,p.16).Estaclassificaçãoseria,contudo,reformuladaem2015,noâmbitodeumaparceriaestabelecidaentreaSTSeaESTS,pararefletirsobreastradiçõeseditoriaisamericana e europeia. A nova versão taxonômica passou então a incluir seis orientações formais: “The elemental materials, facts, and forces involved in the original production of literary works and then in their revision, reproduction, and dissemination are material, causal (agents), temporal, genetic (inventive), and performance. Another element now seldom encountered in scholarly textual editions is aesthetic / commercial […].Anorientationidentifiesaperspectivethatreveals the relative importance of these elements for a given purpose. None can be neglected but not all are of equal importance to each reader or editor; hence the varieties of approaches to scholarly textual tasks and disagreements about how to understand a work and how to edit it” (VAN HULLEeSHILLINGSBURG,2015,p.27-28). 3 Curiosamente, as tendências dominantes na crítica literária da altura orientavam-se em sentido contrário, com a falácia da intenção, rejeitada por Beardsley e Wimsatt em 1946, ou amortedoautor,decretadaporRolandBarthesem1968. 4 “When a writer takes up a completed work again, he may no longer be in fullest control of it, may no longer remember why he wrote each part as he did, and may no longer see the broad consequencesofanylocalrevisionshemaybeluredintomaking”(PARKER,1984,p.37). PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 126 testamentário que revogava as lições anteriores5. Esta foi, durante muito tempo, a posição teórica dominante na escola anglo-americana, que está por trás do selo de aprovação instituído, em 1967, pelo CEAA (Center for Editions of American Authors) da Modern Language Association. Independentemente de privilegiarem a primeira ou a última redação, estas abordagens tinham, ainda assim, um denominador comum; ambas encaravam a obra literária enquanto produto de um autor individual, e por isso a edição deveria manter-se fiel a esse trabalho solitário, expurgando-o de interferências externas. Tratava-se, portanto, de um conceito romântico de autoria, que Michel Foucault (2015, p. 33, 47-48) fez remontar a finais do séc. XVIII – quando se deu início à privatização da propriedade intelectual, centrada no indivíduo que escreve – mas que, na verdade, nunca correspondeu efetivamente à natureza polifônica do ato criativo e dos sistemas de publicação. A partir dos anos 80, no entanto, esta perspetiva monolítica do critério autoral começou a ser posta em causa pelas teorias sociais de edição, propostas sobretudo por McKenzie (1999), Jerome McGann (1983) e Jack Stillinger (1991), que vieram chamar a atenção para outros intervenientes no processo criativo, mostrando que o trabalho do autor sofre muitas vezes a interferência, direta ou indireta, de familiares, amigos, editores e mesmo leitores6. Longe de trabalharem isolados, redigindo as suas obras num ambiente impoluto, os autores beneficiam de colaborações diversas, ao longo do processo compositivo, e o próprio sistema editorial que está por trás da publicação de uma obra envolve, só por si, numerosos intervenientes, até chegar ao último elo da cadeia de receção. Por isso, diz-nos McGann, nem a autoridade de um texto pode residir exclusivamente na intenção do autor, nem devemos encarar uma versão – qualquer que ela seja – como sendo a mais correta ou a melhor manifestação da sua vontade: 5 Para um enquadramento desta questão vd. Tanselle, 1976. 6 “Author’s intentions enter into complicated relations with the productive activities of other persons,andthevariouslinesofagencyoftenbecomeobscured”(McGann,1991:97);“multiple authorship is a frequently occurring phenomenon, one of the routine ways of producing literatureallalong”(STILLINGER,1991,p.201). PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 127 scholars should not use author’s intentions as the ultimate and determining criterion for copy-text. Each case has to be judged on its own. Correlative with this position is the argument that no single editorial procedure – no single ‘text’ of a particular work – can be imagined or hypothesized as the ‘correct’ one (MCGANN, 1991, p. 62). Na verdade, a intenção de um escritor não é estática; evolui no tempo, passa por vários estágios redacionais e ajusta-se à opinião daqueles com quem o autor se relaciona. De uma maneira ou de outra, todos os espólios modernos documentam situações deste tipo: múltiplos testemunhos de um texto, que vai passando por diferentes configurações ao longo do tempo, graças a um persistente trabalho revisório, envolvendo também outras pessoas além do autor. O poeta português Pedro Homem de Mello (1904-1984) não foge à regra, e na sua obra documentamse algumas situações de revisão colaborativa e apropriação cultural, que devem ser consideradas com algum detalhe. Tomando como referência o modelo de edição desenvolvido para a poesia melliana, deter-nos-emos, por isso, em dois exemplos representativos deste tipo de ocorrências, para ensaiarmos depois uma proposta de tratamento adequada aos problemas aí colocados. 2 Revisão colaborativa Em The Work of Revision (2013), Hannah Sullivan reconheceu já a existência de uma acentuada faceta colaborativa nos processos de revisão editorial7, dando como exemplo a célebre reescrita que Ezra Pound empreendeu sobre o manuscrito eliotiano de The Waste Land. Embora a obra melliana não nos faça deparar com situações tão extremas, é possível reconhecer também nesta poesia alguns fenómenos revisivos, em que o trabalho do autor é assistido por agentes editoriais. É o caso, 7 Esta designação é empregada por John Bryant: “When writers break their isolation […] and submit their writing to third readers, they initiate a phase of collaboration that we may call editorial revision. In this process, an editor may be a friend or relative suggesting revision or a copy-editor requiring house styling or professional editors and publishers making changes either before, during, or after publication (BRYANT, 2005, p. 104). PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 128 por exemplo, do poema “Canção triste”, que Pedro Homem de Mello compôs para uma homenagem a António Nobre, organizada pela Câmara de Coimbra a 30 de outubro de 1939. Em termos esquemáticos, a história compositiva do poema pode resumir-se do seguinte modo: Figura 1: Inventário testemunhal do poema “Canção triste”. Depois de três publicações, concretizadas no espaço de um ano, com algumas variantes entre si (testemunhos A, B e C), este carme continuou a ser objeto de reescrita não só nos cadernos do autor (testemunhos D, J, K, L), mas também numa troca epistolar, pertencente ao espólio de Eugénio de Andrade (testemunhos E, F, G, H). A partir das cartas remetidas pelo nosso poeta, podemos inferir que Eugénio chegou a ponderar a inclusão do poema na antologia Memórias de Alegria (publicada na Editorial Inova em 1971), tendo para isso sugerido a Pedro Homem de Mello algumas alterações nos versos 8 e 9 de “Canção triste”. Em resposta ao pedido do amigo, o autor procedeu então a várias tentativas de reescrita, acomodando as sugestões numa série de missivas datadas entre 5 e 18 de junho de 1970. O poema assim revisto acabou por não ser incluído na antologia coordenada por Eugénio de Andrade, mas esse trabalho de revisão colaborativa ficou registado no epistolário, obrigando-nos a refletir sobre a autoridade daqueles testemunhos e o seu lugar numa edição crítica da poesia melliana. PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 129 De acordo com o critério autoral mais estrito, a validade dos documentos epistolares estaria talvez comprometida, uma vez que tais revisões surgem por iniciativa de outra pessoa, mas uma visão moderada pelo critério social reconhecerá que este tipo de interferências é inerente a todos os processos criativos – sobretudo quando sujeitos à cadeia de publicação – não podendo deixar de ser considerado por um editor crítico. Tanto mais que, nas ocorrências de revisão colaborativa, Pedro Homem de Mello mantém o poder decisório sobre as várias redações ensaiadas, valida ou trabalha sobre as sugestões que lhe vão apresentando e permanece, em última instância, como o principal detentor da responsabilidade ou função autoral. Recuperando a posição teórica defendida por James Thorpe (1972) e Siegfried Scheibe (1995), entre outros, diríamos assim que todas estas versões correspondem à vontade autorizada que vigorou num determinado momento, e por isso devem ser tratadas em pé de igualdade com os restantes testemunhos autorais: When […] several versions […] were written by the same author […] each is ‘authoritative.’ It is idle to […] ‘claim precedence’ (THORPE, 1972, p. 47); all of these textual versions are of equal standing […], each of them [i]s an authorized text […] over a certain period of time. The editor must reproduce and describe all of them and their individual levels in the edition (SCHEIBE, 1995, p. 175). 3 Apropriação cultural A poesia melliana depara-nos ainda com um segundo tipo de situações, envolvendo também a participação de agentes externos, mas em que o papel do autor é mais ambíguo e difícil de apurar. Entre as ocorrências que poderíamos incluir neste grupo contam-se sobretudo algumas adaptações musicais, empreendidas a partir dos poemas de Pedro Homem de Mello, enquadrando-se, portanto, na categoria de obras derivativas. Embora, segundo o critério tradicional de autoridade, estes testemunhos devam ser excluídos de uma edição crítica, por não ser claro até que ponto houve ou não envolvimento do autor no processo de remediação8, importa 8 “In fact, derivative works […] have a different ontological status because in derivative works it is possible to recognise other types of authorship with respect to the work from which they are PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 130 sublinhar o facto de algumas variantes introduzidas pelos compositores musicais terem sido depois incorporadas em autógrafos tardios ou nas últimas publicações revistas pelo poeta. A título ilustrativo, veja-se, por exemplo, o fado “Fria claridade”, que Amália Rodrigues gravou em 1951, a partir do poema “Naufrágio” (MELLO, 1940, p. 17-19)9: derived, being, therefore, much more independent compared to the versions. It would be scholarly unacceptable, for instance, to produce a critical edition of a work by combining readings of documentsandfilmicversionsofthesamework.Derivativeworks,then,arerelatedtotheworkfrom which they derive, but the level of dependency varies considerably” (PIERAZZO, 2015, p. 53). 9 Esta adaptação foi já tratada em Pereira, 2017. PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 131 Figura 2: Cotejo do poema “Naufrágio” com o fado “Fria claridade” e subsequentes versões autorais do poema (PEREIRA, 2017) PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 138 de entrada no poema e apresentar as várias rotas alternativas que a partir dela se desenham19. Talvez assim possamos orientar os utilizadores, ajudando-os a construir o seu próprio percurso de leitura, à medida que estabelecem relações entre variação e sentido. E isso – concluiríamos com Peter Robinson20 – equivale a torná-los melhores leitores ou, pelo menos, leitores mais comprometidos, como, em princípio, devem ser todos os utilizadores de edições críticas. Referências Bibliografia ativa Biblioteca Pública Municipal do Porto [BPMP], Espólio de Eugénio de Andrade, M-EAphm[101] [carta datada de 5-6-1970]. Biblioteca Pública Municipal do Porto [BPMP], Espólio de Eugénio de Andrade, M-EAphm[102] [carta datada de 10-6-1970]. Biblioteca Pública Municipal do Porto [BPMP], Espólio de Eugénio de Andrade, M-EAphm[103] [carta datada de 15-6-1970]. Biblioteca Pública Municipal do Porto [BPMP], Espólio de Eugénio de Andrade, M-EAphm[104] [carta datada de 18-6-1970]. Biblioteca Pública Municipal do Porto [BPMP], Espólio de Eugénio de Andrade, M-EAphm[10] [carta datada de 31-10-1970]. 19 No nosso arquivo, essa porta de entrada é dada pela versão que aparece por defeito na interfaceeaindapelasinopsedahistóriaredacional,disponibilizadanopainelbibliográfico de cada poema. Esta última opção procura ir ao encontro de Van Hulle e Shillingsburg (2015, p. 32), quando estes propõem que o editor ofereça aos utilizadores um conjunto de “narrative explanations for the effected change”. 20 Em artigo dedicado à dialética entre o texto único e o texto múltiplo, que caracteriza as edições eletrônicas, Peter Robinson defende a importância de apresentarmos “a route by which thereadermayfindhisorherownwayintothevariantsthemselves.Sucheditionsmaythenhelp their users to become better readers” (ROBINSON, 2000). PEREIRA, E. Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 31, n. 2, p. 123-141, maio-ago. 2018 139 Coleção Privada de Rita Homem de Mello [RHM], doc. 23, IMG 1963_1964, “Canção triste”. Coleção Privada de Rita Homem de Mello [RHM], doc. 25, IMG 2232_2233, “Canção triste”. Coleção Privada de Rita Homem de Mello [RHM], doc. 37 [ms. de Príncipe Perfeito, 1943], IMG 3007_3008, “Canção triste”. Coleção Privada de Rita Homem de Mello [RHM], doc. 32 [ms. datado de 1977], IMG 2627_2628, “Canção triste”. ANDRADE, E (Org.). Memórias de Alegria: Antologia de Verso e Prosa Sobre Coimbra no Centenário da Geração de 70. Porto: Editorial Inova, 1971. MELLO, P. H. Canção triste. Soberania do Povo. N. 5069, p. 4, 1939. MELLO, P. H. Canção triste. In: LOUREIRO, J. P. (Org.). Coimbra e António Nobre: Homenagem ao Poeta. Coimbra: Biblioteca Municipal, 1940, p. 25-26. MELLO, P. H. Estrêla Morta. Porto: s.n., 1940. MELLO, P. H. Poemas Escolhidos e o Livro Inédito Os Poetas Ignorados. Porto: Lello e Irmãos, 1957. MELLO, P. H. Pedro. Porto: s.n., 1975. MELLO, P. H. Eu, Poeta e Tu, Cidade. Famalicão: Quasi, 2007. RODRIGUES, A. Melodia. 78 rpm – Melodia, 1951. Áudio. Bibliografia passiva BOCHICCHIO, M. A crítica genética e a estética da produção: o modelo Tavani. 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