R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 47 A NOVA BIBLIOTECONOMIA NA CIDADE DE LISBOA: estudo de caso sobre a biblioteca pública Orlando Ribeiro THE NEW LIBRARIANSHIP IN THE CITY OF LISBON: a case study on the public library Orlando Ribeiro Maria Carmo Cerqueira*1 Carlos Guardado da Silva**2 Jorge Revez***3 RESUMO No séc. XXI as bibliotecas têm sido entendidas, em teoria, como espaços administrados por bibliotecários, de suporte à comunidade e onde se promove a facilitação e a criação de conhecimento. Contudo, é necessário entender se, na prática, se desenvolvem e aplicam as novas propostas teóricas na área da biblioteconomia. Neste sentido, este estudo pretende descobrir e evidenciar, no contexto das bibliotecas públicas portuguesas, essas novas formas de abordagem, de forma a avaliar o potencial das bibliotecas e dos bibliotecários e a sua capacidade para fazer o bem e melhorar a sociedade. O enquadramento teórico deste relatório de estágio centra-se nas propostas teóricas que deram origem ao conceito de “nova biblioteconomia”, criado por R. David Lankes. Na mesma linha de pensamento serão também tidos em conta outros autores estrangeiros e portugueses que têm abordado temáticas semelhantes. Com este estudo procura-se compreender a circulação de ideias, teorias e práticas na Ciência da Informação, mediante a observação do quotidiano da Biblioteca pública Orlando Ribeiro, localizada no bairro de Telheiras, em Lisboa, e elemento da rede das BLX. No fim, pretender-se-á descobrir se a “nova biblioteconomia” é ou poderá ser ajustada à Biblioteca pública Orlando Ribeiro e à realidade portuguesa. Palavras-chave: Ciência da Informação. Nova Biblioteconomia. Biblioteca Pública. Direitos Humanos. ABSTRACT In the XXI century, libraries have been understood, in theory, as librarian managed spaces, as community-based spaces and where facilitation and knowledge creation are promoted. However, it is necessary to understand whether, in practice, new theoretical proposals in the field of librarianship are developed and applied. In this sense, this work intends to discover and study, in the context of portuguese public libraries, these new ways of approach, to evaluate the potential of libraries and librarians and their capacity to do good and improve society. The theoretical framework of this internship report focuses on the theoretical proposals that gave rise to the concept of «new librarianship», created by R. David Lankes. In the same line of thought, other foreign and portuguese authors who have addressed similar themes 1* Mestre em Ciências da Documentação e Informação, Universidade de Lisboa Faculdade de Letras. 2** Professor Doutor Guardado da Silva. E-mail:
[email protected] 3*** Doutor Jorge Revez . Universidade de Lisboa, Falculdade de Letras, Centro de Estudos Clássicos. E-mail: jorgevere[email protected]
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 48 will also be considered. This study seeks to understand the circulation of ideas, theories and practices in Information Science through the observation of the daily life of the public library Orlando Ribeiro, located in the neighborhood of Telheiras, in Lisbon, and element of the BLX network. In the end, it will be tried to find out if the «new librarianship» is or can be adjusted to the public library Orlando Ribeiro and to the portuguese reality. Key word: Information Science. New Librarianship. Public Library. Human Rights. Submissão: 7 jun. 2019. Aprovado em: 22 jun. 2019. 1 INTRODUÇÃO No séc. XXI, as bibliotecas têm sido entendidas, em teoria, como espaços administrados por bibliotecários, de suporte à comunidade e onde se promove a facilitação e a criação de conhecimento. Contudo, é necessário entender se, na prática, se desenvolvem e aplicam as novas propostas teóricas na área da biblioteconomia. Neste sentido, o estudo a partir do qual este artigo foi feito pretende descobrir e evidenciar, no contexto das bibliotecas públicas portuguesas, essas novas formas de abordagem, de forma a avaliar o potencial das bibliotecas e dos bibliotecários e a sua capacidade para fazer o bem e melhorar a sociedade. Tal como Alberto Manguel salienta em A Biblioteca à Noite, as bibliotecas podem ter vários significados, podendo ser vistas como “mito”, “acaso”, “ilha”, “identidade”, “lar”, “imaginação” e “esquecimento”; podem ter várias formas, sendo observadas a partir do “espaço”, da “ordem”, da “forma” e da “sombra”; podem, ainda, representar um terceiro elemento, sendo vistas como “poder”, “mente”, “oficina” e “sobrevivência”. É possível concluir que cada um destes termos pode ser uma visão do mundo e uma potência em suspenso. A comunidade é responsável por cada atribuição semiótica e os bibliotecários pelo modo de fazer a biblioteconomia, pela estrutura e organização da biblioteca e, fundamentalmente, pela ação, a qual diferencia a biblioteca de uma livraria. É a ação que constrói a missão social, é a ação que desenvolve atividades, é a ação que enceta a participação da comunidade, é a ação que trata e expõe a informação, é a ação que facilita a criação de conhecimento. Sendo essa ação, por sua vez, gestos postos em prática pelos profissionais de biblioteconomia. David Lankes, ao desenvolver os seus estudos em torno da “nova biblioteconomia”, pretende repensar as bibliotecas e a biblioteconomia, esforçandose por repelir o preconceito que apresenta as bibliotecas como palácios-finais de livros e revelando, a partir de outra perspetiva, que as bibliotecas são, ou poderão ser, centros de conhecimento da comunidade. Alberto Manguel também afirma que “o poder dos leitores não reside na sua capacidade de reunir informação, na sua aptidão para ordenar e catalogar, mas no dom de interpretar, associar e transformar o que lêem” (2016, p. 89). E esta é precisamente uma das ideias principais da teoria defendida por Lankes, ou seja, o conhecimento é criado através de relações intelectuais e conversas. A ideia de melhorar a sociedade através da facilitação da criação de conhecimento e a ideia da biblioteconomia participativa compõem, assim, grosso modo, o objetivo da “nova biblioteconomia”. E, na verdade, o “empoderamento” da comunidade pode ser fortalecido através da participação tanto
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 49 dos bibliotecários na vida da comunidade como da comunidade na vida da biblioteca e dos bibliotecários e, ainda, entre os membros da comunidade. As bibliotecas podem lutar pelos direitos humanos e por um mundo mais justo, igualitário, equilibrado e democrático, incentivando a aprendizagem e a partilha de recursos e de conversas, alertando para situações e acontecimentos que precisam da atenção dos cidadãos-leitores, e encontrando a melhor maneira de satisfazer as necessidades de informação da comunidade que servem. Porém as bibliotecas são também espaços que oferecem atividades que promovem a leitura, que incidem sob a literacia e suportam a comunidade através da facilitação do espaço e de conversas. Com efeito, o estudo referido tem como objetivo geral procurar e explorar novas ideias e hipóteses, pondo a descoberto novos caminhos, e aferindo, mediante a observação do quotidiano da Biblioteca Orlando Ribeiro (BOR), a circulação de ideias, teorias e práticas na Ciência da Informação. Não se pretende testar ou confirmar determinadas hipóteses, mas proporcionar-se, antes, uma visão geral das problemáticas tratadas, tal como da “nova biblioteconomia”. Como objetivo específico, intenta-se dar a conhecer a realidade de uma das bibliotecas públicas da rede de Bibliotecas de Lisboa (BLX) a partir da perspectiva teórica abordada e baseada na experiência vivida durante o contato direto com a biblioteca observada. E saber, por último, se a «nova biblioteconomia» é ou poderá ser ajustada à realidade portuguesa. O trabalho de investigação subjacente a este artigo versa um quadro teórico cuja temática não foi anteriormente estudada, sendo, portanto, um estudo exploratório que usa o estudo de caso como método de abordagem de investigação. Sublinha-se a importância dos dois meses de estágio para a observação encetada e para a recolha dos dados, tanto na forma de notas de campo como na de uma grelha de observação/análise, esta construída previamente. Pelo mesmo motivo sublinha-se o tempo limitado do estágio, o qual poderá ter sido insuficiente para a compreensão total dos vários fenómenos experienciados e anotados. 2 REVISÃO DE LITERATURA Em 2004, Inês Brasão, Nuno Domingos e Tiago Santos discutiram a biblioteca do futuro. Os bibliotecários entrevistados no estudo realizado por esses autores falavam na necessidade da biblioteca do futuro “vir a tornar-se um centro de acesso ao conhecimento e à informação...e um centro de trocas, quer de conhecimentos, quer de experiências” (BRASÃO et al., 2004, p. 140). David Lankes, em 2011, através da sua extensa obra The atlas of new librarianship e, depois, em 2015, através de uma versão simplificada da mesma obra – The new librarianship: field guide –, mas, desta vez, sob a forma de um manual prático para bibliotecários, desenvolveu uma nova análise sobre as práticas biblioteconómicas do séc. XXI e aprofundou-as no sentido das necessidades da sociedade. E, para isso, criou o conceito de “nova biblioteconomia” e teorizou-o. Ora, este conceito, sobre o qual Lankes se debruçou, nada mais é do que alguns bibliotecários mais inspirados já começavam a exteriorizar. Isto é, o papel do bibliotecário, e, por sua vez, da biblioteca, na contemporaneidade. De uma forma breve pode dizer-se que o papel do bibliotecário na contemporaneidade passa pelo envolvimento com a sua comunidade, explorando as
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 50 suas necessidades, alinhando a organização da biblioteca com os seus objetivos, criando e abrindo possibilidades de aprendizagem e comunicação entre a comunidade e agindo em conformidade com o tempo e as necessidades reais das pessoas. Alertando para problemáticas emergentes que precisam da reflexão dos cidadãos, ou, pondo apenas em destaque problemáticas sobre as quais vale a pena se debruçarem, uma vez que são do interesse de todos aqueles que querem um futuro. Cruzando informação, criando e facilitando pontes entre o conhecimento e ajudando as pessoas rumo às suas necessidades de informação, mas não só. Agindo, também, ativamente pelos direitos humanos, ajudando as minorias a expressarem-se, os sem-abrigo e os desempregados, p. ex. Ora, no último capítulo do livro de Brasão, Domingos e Santos é referida “a biblioteca do futuro”. Esta conceção, materializada em vários serviços de apoio, como, p. ex., cursos de autoaprendizagem, ensino à distância, elaboração de catálogos de sites, etc., era imaginada como “ponto de referência da comunidade local enquanto espaço de liberdade e sociabilidade [...]” (BRASÃO et al., 2004, p. 140). Com efeito, o conceito de biblioteca digital foi também sublinhado, como necessidade emergente, a fim de cobrir as necessidades de informação do “público não-presencial”, sendo preciso, para isso, manter-se “um aturado trabalho de mediação e selecção de informação útil” (BRASÃO et al., 2004, p. 140-144). Segundo os autores e os bibliotecários em questão, um dos grandes desafios é o problema do acesso. É essencial a sua disponibilização; é essencial “descodificar os sistemas de organização dos sistemas de pesquisa, sistemas esses construídos com regras apuradas ao longo de séculos, ferramentas que orientam e recuperam a informação de forma pertinente quando precisamos dela” (BRASÃO et al., 2004, p. 141). Para além, claro, da urgência da flexibilização dos horários de acesso à biblioteca, da diversificação da oferta e da aquisição de novidades. Umas das tendências de mudança identificadas pelos bibliotecários é “a de este espaço se ir transformando progressivamente em centro de recursos informativos, sem discriminação do «recurso» ou da «informação» prestada. Não será pelo fato de a informação ter migrado de um suporte para o outro que o utente deixará de lhe aceder” (BRASÃO et al., 2004, p. 141). Com efeito, a biblioteca deve, cada vez mais, ser uma parte integrante da comunidade em que está inserida, respondendo às suas necessidades através do desenvolvimento, p. ex., de projetos locais. E é, pois, a partir da necessidade de informação e da sua satisfação que o conceito de “cidadania” está contemplado no conceito de “biblioteca pública” (BRASÃO et al., 2004, p. 141). Tal como os autores afirmam, o novo perfil de relação entre o Estado e os cidadãos encontra-se fundado no princípio filosófico de “democratização de acesso” a um bem público. O conhecimento é, assim, transversal à sociedade. E é, no fundo, a prestação de um serviço público oferecido pela biblioteca, a qual é o símbolo da igualdade de acesso (BRASÃO, et al., 2004, p. 144-145). Na verdade, “o conceito de biblioteca pública tende a identificar-se progressivamente com o de „centro cultural‟, já não centrado no livro, mas no leitor, utilizador ou utente” (BRASÃO, et al., 2004, p. 144-145), ou, “membro”, segundo Lankes, (2011, p. 6), ou, ainda, “cliente”. Se se fala de bibliotecas públicas é preciso conhecer o público que as frequenta. Por isso é pertinente dizer: «As bibliotecas públicas municipais não têm “público”, mas “públicos”. Ser público não significa, como até há pouco tempo, estar
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 51 aberto ao público, mas estar preparado para responder a necessidades e interesses extremamente diversificados» (BRASÃO, et al., 2004, p. 136). Em 2004, os autores diziam que a biblioteca pública portuguesa se encontrava numa fase de captação de leitores; em 2016, numa entrevista aos órgãos de comunicação social, Maria José Moura afirma que o público português ainda não foi conquistado (AGÊNCIA LUSA, 2016). Em 2004, “o problema da reconfiguração dos espaços e distribuição por zonas é, deste modo, uma questão nova. A dificuldade em encontrar um modelo de referência reflete, sobretudo, uma alteração do conceito de uso [...]” (BRASÃO et al., 2004, p. 136-137). Com efeito, a questão espacial é um problema atual que está, de igual forma, a ser discutido, contrapondo o novo modelo funcional de lazer e aprendizagem ao modelo de conservação da memória. Em suma, esses são alguns dos pontos que compõem a ideia da “biblioteca do futuro”. As obras, já apontadas, escritas por David Lankes (2011, p. 1, tradução do autor) procuram “mostrar o caminho a seguir aos bibliotecários em tempos de grandes desafios, mudanças e oportunidades. É também a afirmação de que não está sozinho, não é louco, está certo: é sobre aprendizagem, conhecimento e ação social” Lankes (2011, p. 14, tradução do autor), ao longo do seu estudo, sublinha o fato de ser dos bibliotecários a seguinte missão e não, pelo contrário, das bibliotecas: “A missão dos bibliotecários é melhorar a sociedade através da facilitação da criação de conhecimento nas suas comunidades”. Ora, essa missão está assente em seis pilares principais, a saber: 1. “A importância da visão do mundo”, 2. “O conhecimento é criado através de conversas”, 3. “Meios de facilitação”, 4. “Pressão para a participação”, 5. “A importância da ação e do ativismo», 6. “Competências essenciais”. Para melhor compreender o conceito de “nova biblioteconomia”, ao longo do estudo que deu origem a este artigo, foi fundamental explorar alguns dos termos usados por Lankes (2015). Da mesma forma, outros autores relevantes para este estudo foram, por sua vez, relacionados com a teorização encetada. 3 A Biblioteca Orlando Ribeiro Telheiras é um bairro urbano da freguesia do Lumiar, em Lisboa, que, no ano de 2003, testemunhou a abertura da BOR. A construção senhorial agrícola, antigo Solar da Nora, a fim de receber a Biblioteca, foi em parte remodelada, em parte reconstruída, e em parte preservada na forma da maquinaria da antiga nora e poço. Esta Biblioteca estabeleceu-se sob uma ideia que visava suportar aos leitores permanentes “Viagens pela informação e pelo conhecimento” (DAVEAU, 2008, p. 10). Com efeito, nos vários espaços físicos da Biblioteca, construíram-se circuitos do saber, delimitados por salas e, uma vez aí dentro, por áreas disciplinares. Esta ideia nasceu do conceito de viagem. Ora, é possível que a organização espacial e física da coleção, que visava promover o encontro com a informação, tornando o leitor num viajante, não revele ser a mais adequada para esta Biblioteca. Essa ideia, devido aos espaços pré-definidos e delimitados por circuitos, não permite o crescimento e a movimentação da coleção. A biblioteca pública serve as necessidades da comunidade e, com efeito, se esta naturalmente se transforma, seja por causa do passar do tempo seja por causa
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 52 do nascimento de novas gerações, deve importar à primeira o acompanhamento da última. A BOR integra a rede das bibliotecas públicas/municipais de Lisboa, partilhando o catálogo online e vários serviços, como, p. ex., o empréstimo interbibliotecas. O bom funcionamento em rede […] constitui um dos princípios centrais em que assenta o Programa Estratégico Biblioteca XXI”, sendo que “a articulação e cooperação entre todas as bibliotecas integrantes da Rede, a complementaridade e diferenciação entre as bibliotecas, a partilha de recursos e de serviços, e a gestão coordenada e centralizada corporizam o funcionamento em rede […]” (PEBXXI, 2012, p. 2). 3.1 Contexto estratégico Em 2012, foi elaborado o Programa Estratégico Biblioteca XXI, proposta de requalificação da rede de bibliotecas municipais de Lisboa, que tem como propósito estruturar a rede de bibliotecas municipais no quadro da estratégia de desenvolvimento e planeamento da cidade. De acordo com o texto do programa estratégico, as últimas décadas trouxeram importantes alterações na missão das bibliotecas públicas e têm vindo a apresentar, como necessidade, um papel mais ativo, da parte que concerne às bibliotecas, junto das comunidades que servem. Na verdade, a teoria em que está assente a visão da rede das BLX e da coordenação e direção subjacente não está distante da visão da “nova biblioteconomia”. Salienta-se o conceito de “biblioteca 3.ª geração”, ou Third Generation Public Libraries – Visionary Thinking and Service Development in Public Libraries, de Newman, de 2008. No fundo, os conceitos de “bibliotecas 3.ª geração”, “bibliotecas do séc. XXI”, “bibliotecas 2.0” ou “bibliotecas do futuro” estão todos incorporados uns nos outros, e incluem, de uma maneira ou de outra, o conceito de “nova biblioteconomia”, o qual, por sua vez, parece incluir todos. Se se observar bem, todos esses conceitos têm um desejo-objetivo em comum, ou seja, pretendem olhar para as bibliotecas e (re)pensá-las à luz da época contemporânea a partir daquilo que elas sempre foram – um ventre. Portanto, não interessa tanto o conceito que se usa como o que se faz a partir dele. Nesta medida, talvez não seja de todo descabido dizer-se que a teoria subjacente à “nova biblioteconomia” pode ser a mais completa, organizada e estruturada até à presente data, dado que houve alguém consciente que olhou para as bibliotecas e desenvolveu um estudo complexo que, para além de conter e explicar as bases teóricas subjacentes aos conceitos, consegue guiá-las ao longo da contemporaneidade, dando-lhes algo que pode ser aplicado na prática. O programa estratégico consultou o estudo de Newman, de 2008, mas também outros, a saber: 21st Century Libraries – Changing Forms, Changing Futures, de 2003, feito em conjunto pela Commission for Architecture, the Built Environment, Museums, Libraries e Archives Council da Grã-Bretanha. Library Development Program 2006-2010, feito por Kirsti Kekki para o Ministry of Education and Culture, Department for Cultural, Sport and Youth Policy Culture and Media Division da Finlândia. Da mesma forma, as linhas orientadoras da UNESCO, de 2009, e o documento orientador da IFLA, de 2009, 10 ways to make a public libray work: update your libraries.
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 53 Descreveu, também, brevemente, as conclusões do relatório sobre a rede BLX, realizado em 2010, pelo Grupo de Trabalho para a Rede de Bibliotecas Municipais de Lisboa, chamando a atenção para várias situações. Não se pode esquecer o QRE – competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida –, cujas linhas orientadoras a rede BLX tenta seguir. Estas linhas vêm sob a forma de “competências essenciais”. 3.2 Análise e discussão dos dados Se a pertinência das dicotomias, apontadas por LEAL (2015, p. 4), assenta na necessidade de uma nova estratégia e na convicção de que as bibliotecas públicas têm dentro um enorme potencial e que “podem vir a desempenhar uma missão institucional importante no desenvolvimento das comunidades em que se inserem”, é premente entender o modo como, na prática, as bibliotecas poderão agir. Na verdade, Leal sugere a implementação de um novo modelo de organização. Esta sugestão pode ser encontrada também em outros autores: muito desenvolvida em David Lankes, sublinhada por Maria José Moura, discutida por Fernanda Ribeiro, Paulo Leitão, José António Calixto, Inês Brasão, Nuno Domingos e Tiago Santos, entre outros autores. Tal como Leitão sublinha a necessidade da “biblioteca 2.0”, Leal afirma que o elemento “espaço” deve ser híbrido, incluindo tanto a dimensão física como a virtual na disponibilização de coleções, serviços e atividades. Infelizmente, a BOR ainda se encontra afastada da ideia da “biblioteca 2.0” e da dimensão virtual da disponibilização de coleções, serviços e atividades. A rede BLX tem um catálogo e um site com informações sobre os vários serviços e atividades, porém, estes elementos não poderão ser considerados como “biblioteca 2.0”. Uma vez que não são partilhados de fato com a comunidade, ou seja, esta não pode colaborar ativamente, tal como Leitão e Lankes apontam; não contêm um potencial transformador, sendo a visão, portanto, tanto do site como do catálogo, ainda estável e previsível, servindo, apenas, como intermediário entre a informação e a biblioteca; os bibliotecários não interagem ativamente na produção de conteúdos e serviços com os seus utilizadores através desses elementos virtuais. Não se explorando recursos associados à Web 2.0, nem podendo, por isso, integrá-los harmoniosamente com os conteúdos tradicionais, bem como com os espaços físicos, a fim de criar um ambiente de participação e aprendizagem (LEITÃO, 2013, p. 106-107). A BOR acolhe vários públicos, respeita a sua diversidade e rejeita a ideia do “leitor culto”, estando de portas abertas para todos. Contém, relativamente ao espaço, uma área para as crianças e outra para os adultos. A área das crianças é menor que a dos adultos, abrigando crianças até aos 13 anos de idade. Esta área encontra-se dividida, por sua vez, em termos de coleção e mobiliário, entre os 0 e os 6 anos e os 7 e os 13 anos. No que toca às crianças, o espaço disponível pode revelar algumas dificuldades em lidar com necessidades diferentes, pois, para além de estar em contato direto com a sala interna dos profissionais, a coleção ocupa muito espaço. O espaço dos 0 aos 6 pode ser interpretado como um espaço multiusos, uma vez que alberga jogos, brinquedos e livros, e, de quando em vez, atividades. O espaço dos 7
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 54 aos 13, tendo em conta que não é grande, está muito cheio de livros, albergando, ainda, computadores, mobiliário e algumas atividades. Nesta medida, como não há um depósito efetivo para a coleção infantil, torna-se difícil libertar espaço. Sendo esta área usada por crianças a ler ou a descobrir, grupos de alunos e explicações escolares, outras necessidades, como p. ex. área para ensaios de teatro, experiências ou atividades criativas, tornam-se difíceis de satisfazer. De igual forma, a área dos adultos aponta o mesmo problema. De fato, se não é possível alterar estruturalmente os edifícios, dever-se-á reorganizar a Biblioteca de um modo funcional. A BOR, através da arrumação e da exposição dos materiais nas estantes, podia facilitar mais a escolha do leitor. É possível que a arrumação seja muito densa devido à falta de espaço e da quantidade, neste caso, de livros nas estantes. Há alguns livros e revistas em exposição, mas são poucos. É difícil percecionar a sinalética, sobretudo a removível e de plástico, colocada nas prateleiras, porque é muito pequena. Não há nenhuma informação, diferente da sinalização, ao longo das salas, sobre o conteúdo dos livros. É claro que não se pode representar, por. exemplo, artisticamente, o conteúdo de todos os livros. Nem é isso que se pretende. Porém, talvez se pudesse elaborar algum tipo de apresentação ou representação do conteúdo de livros selecionados através, p. ex., de arte visual, e de informação útil, a fim de “torná-lo mais vívido”. É importante que a sinalização, a arrumação e a exposição dos livros diga alguma coisa a quem procura ou observa. Posto isto, é possível que a BOR ainda não reflita totalmente a frase “as pessoas fazem a biblioteca”, pois está muito focada nos livros, quase dependente dos empréstimos, porém não se pode deixar de sublinhar que as atividades estão a alterar esse hábito. Com efeito, parte da movimentação que acontece dentro da Biblioteca é estimulada pelas várias atividades. Leal enuncia que o elemento “cultura” deve ser um motivo para induzir comportamentos, sugerir alternativas e seduzir vontades, através de uma postura menos reativa e mais proativa. Discussão sobre este assunto pode ser encontrada também em Lankes: neste ponto, torna-se de extrema importância o contato e os gestos dos bibliotecários. A BOR é uma instituição para onde o público vai, fundamentalmente, estudar. Com efeito, tendo em conta o que Lankes diz sobre as bibliotecas, pode sublinhar-se que a BOR não devia ser apenas um local de estudo, mas também um local de debate aberto e aceso, um local de culturas, inovação, empreendedorismo e criatividade. Não se pretende com isto dizer que a BOR não tem estes elementos, mas, que estes podem não ter, talvez, uma expressão poderosa e transformadora. O elemento “conhecimento”, segundo Leal (2005), está relacionado com as literacias, “em especial relevo a literacia da informação, encarada aqui como o conjunto das competências necessárias o manuseamento problematizante da informação de modo a produzir novo conhecimento”, a promoção da leitura, “enquanto principal estratégia de formação de públicos e de intervenção sociocultural”, e a aprendizagem ao longo da vida. Esta ideia pode ser encontrada em vários autores ao longo da revisão de literatura. Relembrando Mangas, que alerta para a função da promoção da leitura: “a leitura deve ser uma atividade emancipadora, um instrumento essencial para que os indivíduos se possam reconhecer como cidadãos, isto é, como detentores de direitos e deveres”. Estando, neste sentido, a literacia a par da promoção da leitura.
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 55 Relativamente à promoção da leitura, das literacias e da aprendizagem ao longo da vida, a BOR, tal como a restante rede BLX, e, da mesma forma, os parceiros estratégicos, ou outros, desenvolve recorrentemente atividades cujos objetivos encontram-se previstos pelo QRE. Dentro do “Programa da Promoção da Leitura e das Literacias” há, ainda, o programa “Ler em todo o lado”, o qual, por sua vez, promove a leitura e fomenta o conhecimento das várias literacias, estimulando o pensamento crítico e a criatividade. Tendo em conta a lista de eventos, do que aconteceu entre os meses de fevereiro e março de 2017 apenas na BOR, conclui-se que as atividades são ricas e diversificadas e respeitam as “competências essenciais” previstas no QRE, embora não abordem todas. Todavia, porque a observação esteve limitada ao período entre fevereiro e março de 2017, é possível que essas competências em falta viessem a ser abordadas nos meses seguintes, ou já tivessem sido nos meses anteriores. O púbico sénior e, especialmente, o público adolescente não encontram expressão ou estão pouco representados na BOR. Vale a pena salientar que a atividade do “Troca letras” é uma ótima ideia para envolver a comunidade, no entanto tem pouca visibilidade e as pessoas nem sempre estão seguras sobre o funcionamento da mesma. Leal aponta a “Cidadania” como outro elemento estratégico. Este tema pode ser encontrado, principalmente, em Lankes e em Samek. Neste contexto, a BOR possui uma sala de reuniões para grupos, porém a marcação prévia exigida para a ocupar limita a sua utilização por grupos aleatórios ou não recorrentes. De fato, há associações que usam essa sala com constância, ou, então, pode ser usada para lançamentos e apresentações de livros. Muito provavelmente, Leal fala sobre a necessidade de a biblioteca passar a ter um modelo participativo e proactivo – biblioteconomia participativa – sobre a qual Lankes teoriza, e um sistema aberto. O modelo de gestão deve focalizar-se nas pessoas, no público. Deste modo, segundo Leal e Lankes, as decisões devem envolver o público, abandonando a postura centrada no próprio sistema. Leal sugere que as bibliotecas recolham ideias dos orçamentos participativos (LEAL, 2015, p. 6). Neste sentido, deve dizer-se que a BOR é um sistema aberto, embora ainda não tenha adotado, na totalidade, uma postura proativa ou o modelo participativo. De fato, há o Programa de Avaliação de Desempenho (PAD), cuja cultura organizacional de avaliação é centrada nos leitores e contribui para a melhoria contínua da qualidade dos produtos e serviços disponibilizados. E este programa já é um grande passo para as bibliotecas, mas um pequeno passo para o público. Parte do que falta, na verdade, passa por aplicar na prática o que o público pede. E, com efeito, os pedidos não são descabidos, mas sim necessidades do século XXI. São gestos, em princípio simples, que facilitariam a vida das pessoas, como, p. ex., a Biblioteca abrir mais cedo do que as 10h e fechar mais tarde do que as 19h (das 8h-23h, p. ex.). Não esquecendo o transtorno causado pelos malabarismos horários, como a última quarta-feira de cada mês em que a BOR só abre às 14h, fechando na mesma às 19h, e todas as segundas-feiras em que abre às 13h, fechando às 19h. Assim, esta é uma limitação que dificulta a abertura e a flexibilidade do serviço para toda a comunidade. Se a biblioteca recebe muitos estudantes, como é o caso da BOR, então, é preciso conceber um espaço que tenha a capacidade de acolher o estudo. E isto significa disponibilizar ferramentas que permitam a criação de conteúdos como, p.
R. Bibliomar, São Luís, v. 18, n. 1, p. 47-62, jan./jun. 2019 62 PEREIRA, Ângela Salgueiro. Bibliotecas públicas, resiliência organizacional e evolução concetual. Actas congresso nacional de bibliotecários, arquivistas e documentalistas. n. 11, 2012. Disponível em: www: http://www.bad.pt/publicacoes/index.php/congressosbad/article/view/362. Acesso em: 05 maio 2017 SAMEK, Toni. Biblioteconomía y derechos humanos: Una guía para el siglo XXI. Gijón: Trea, 2008.