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"Noticia Historica" ou histórias como "noticia" : apresentação da corografia de Alcanede e de Pernes por Simão Froes de Lemos

Noras, José Raimundo,Lemos, Simão Froes de

Abstract

Apresentação da corografia sobre o termo de Alcanede (concelhos de Alcanede e Pernes), concluída em 1726, por Simão Froes de Lemos (1675-1759). Após reflexão sobre o significado dos termos história e notícia à época e na atualidade, desenvolvemos uma síntese biobibliográfica do autor, explorando as suas ligações com o promotor da "A Gazeta de Lisboa", bem como a importância da genealogia na produção do manuscrito. Analisamos depois dos três manuscritos conhecidos (BPE, ANTT, BMS), tendo por base na transcriação o manuscrito de Évora concluiu-se que o de Lisboa será um duplo original e do Santarém uma cópia posterior. Apresentaram-se os critério de edição crítica para as notas e de transcrição paleográfica do documento.

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NOTICIA HISTORICA E TOPOGRAPHICA DA VILLA DE ALCANEDE Olhar ético e sentido da responsabilidade sobre a cultura SIMÃO FROES DE LEMOS NOTICIA HISTORICA E TOPOGRAPHICA DA VILLA DE ALCANEDE CENTRO DE INVESTIGAÇÃO PROFESSOR DOUTOR JOAQUIM VERÍSSIMO SERRÃO 2017 «que lemos quando lemos Simão Froes de Lemos? lemos o que lemos e aquilo que o Simão que era Froes e também Lemos como ficou dito deixou redigido em manuscrito (essa Notícia Histórica algum dia posta em livro) que só por que a lemos agora percebemos e é apenas por ela que o seu autor ´inda está vivo!» (Mário Rui Silvestre «Poemas do Centenário» 2014) Autor Simão Froes de Lemos Transcição, Apresentação e Notas José Raimundo Noras Edição Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão Arranjo Gráfico Vanda Marisa Marques Impressão e Acabamento Depósito Legal 430829/17 ISBN 978-989-98892-6-2 Agradecimentos Gostaria de expressar as primeiras palavras para a minha família, nomeadamente: Amélia Raimundo, José Miguel Noras, Francisco Noras, Marina Bragança, bem como para o meu jovem filho Bernardo Bragança Noras. Cada um, à sua maneira, me incentivou e me incentiva, quotidianamente, neste e noutros projetos de investigação histórica e literária. Com efeito, foi também através da sugestão de meu pai, Doutor José Miguel Noras, que tive o primeiro contacto com o manuscrito de Simão Froes de Lemos, no contexto das Comemorações dos 500 anos do Foral de Alcanede e Pernes. Aqui fica um singelo obrigado. Agradeço também, na pessoa da Vereadora da Cultura, Mestre Dra. Susana Pita Soares, a toda a equipa que apoiou e tornou possível esse projeto, com múltiplas realizações em Alcanede, em Pernes e em Santarém. Não poderia deixar de sublinhar o apoio inexcedível a esta publicação do Presidente da Câmara Municipal de Santarém, Dr. Ricardo Gonçalves, sem o qual nem a investigação, nem o livro seriam possíveis. Do mesmo modo, agradeço ao Professor Doutor Martinho Vicente Rodrigues, reputado Director do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão (CIJVS), em imperativo de louvor à cultura para de imediato, publicar este manuscrito, com a chancela do Centro de Investigação que coordena, mostrando douta confiança no trabalho desenvolvido e na minha modesta investigação. Não posso deixar de agradecer a todos os outros estudiosos que já tinham abordado esta temática e com os quais as trocas de impressões foram fundamentais a vários níveis. Deixo o meu obrigado a Mário Rui Silvestre, pioneiro na divulgação da figura e da obra de Simão Froes Lemos nas suas múltiplas investigações e valiosos escritos. Da mesma forma, agradeço ao Eng.º Luís Melo, descendente de Froes de Lemos, um dos autores da , com quem tive oportunidade de igualmente trocar impressões sobre este trabalho. A nível da pesquisa e da leitura paleográfica desenvolvida, agradeço as sugestões do Dr. Luís Mata, bem como a revisão extensa com que, gentil e graciosamente, me apoiou o Dr. Paulo Paixão. Apresento ainda o testemunho da minha gratidão ao Dr. Joaquim Martinho da Silva generosamente disponível para facultar documentos do seu acervo e informações preciosas da sua ampla sabedoria. Deixo palavras de especial apreço, à Presidente da Junta de Freguesia de Alcanede, Cristina Neves e ao Presidente da Junta de Freguesia de Pernes, Luís Emílio, que sempre incentivaram este projecto com uma incasável solidariedade. Fecho estes agradecimentos com o meu grato tributo às Juntas de Freguesias de Abrã, de Amiais de Baixo, do Arneiro das Milhariças de Malhou, Louriceira e Espinheiro, de Minde e de S. Sebastião de Rio Maior, cujos desígnios culturais também se quiseram associar à presente obra. Palavras finais para a pessoa que foi a razão de ser deste volume: Índice ......................................... 13 A QUEM LER ...................................................................................................................... 36 SITIO ONDE ESTÁ ALCANEDE ............................................................................................ 37 Nome de Alcanede ....................................................................................................... 37 Fundação de Alcanede ................................................................................................ 38 Termos com que parte o de Alcanede .................................................................... 39 Discrição do Castello ................................................................................................... 41 Armas da villa de Alcanede ....................................................................................... 46 Igreja Matriz de Alcanede .......................................................................................... 46 Comenda Igreja de Alcanede .................................................................................... 51 Igreja de Alcanede ....................................................................................................... 54 Sepulturas da Igreja de Alcanede ............................................................................ 56 Armas dos Souzas que estão na torre dos sinos da Igreja de Alcanede ................ 57 Catalogo dos Priores de Alcanede ........................................................................... 58 Sucesso notável da morte do Prior Frei Lopo Vaz Folgado .............................. 59 De Sebastião da Costa Carneiro ............................................................................... 61 De Paulo Carvalho ........................................................................................................ 61 Aldeas Parochianas da Igreja Matriz...................................................................... 63 FREGUESIA DAS ALCUBERTAS ........................................................................................... 67 Catálogo dos curas de Alcubertas ........................................................................... 68 Aldeas que pertencem a Freguesia das Alcubertas ............................................ 69 16 percurso do autor, bem como de uma abordagem heurística dos manuscritos existentes. Propomos ainda, possivelmente quebrando os silêncios mais do que deveríamos, a reflexão que nos serve de título ». Será esse o mote para reflexão crítica e literária sobre texto e a sua classificação como corografia. Simão Froes de Lemos (1675-1759) nasceu em Pernes a 31 de agosto de 1675, no contexto administrativo do que se pode designar 2. Filho de Gaspar Froes de Lemos e de Francisca Micaela da Fonseca, veio a herdar Quinta da Franca, tendo tido funções de relevo militar. Podemos afirmar com segurança, que estamos perante uma nobreza local, com raízes aristocratas na família Froes3, ligações à pequena e média propriedade fundiária e, em simultâneo, ao aparelho jurídico, , não é de estranhar a educação escolar de Simão Froes de Lemos, sendo que muitos dos seus familiares contemporâneos e ancestrais se poderiam enquadrar no que alguma ter cursado no colégio jesuíta da Quinta de São Silvestre de Pernes, tendo eventualmente rumado a Santarém, para conclusão da sua 2 Conforme é descrito na ica própria, incluía no século XVIII os concelhos de Alcanede e de Pernes, verificando-se uma subordinação do segundo ao primeiro. No entanto, seria quase total a autonomia política, jurisdicional, fiscal e administrativa. Devemos ter em atenção que, nas i , : teria, necessariamente, de ser regra para todos. 3 Veja-se João de Melo Atáide e Luís de Melo, , Alcanede, 2005, pp. 159 e ss. 17 instrução, mas não dispomos de fontes objetivas que o comprovem4. Na verdade, o próprio Froes de Lemos considera, conforme nos relata no manuscrito, ter sido salvo por um milagre de São Silvestre, orago, em capela própria, na ermida onde estava edificado o Colégio da Companhia de Jesus. No dia do Santo5, após queda num poço, Simão, menino de cinco anos, foi resgatado por João Francisco, vizinho em Pernes. Salvou-se de afogamento, tendo expelido bastante água. Indepentemente da dimensão milagrosa que lhe é atribuída, o relato é verosímil na descrição de como a criança foi salva. O acontecimento deve ter tido influência no forte posicionamento religioso de Froes de Lemos, na época onde já germinava as bases do que viriam a ser os iluminismos e, quando, também o clima pressecutório associado ao Tribunal do Santo Ofício se mantinha presente Apesar da sua relação próxima com a Companhia de Jesus e com outros meios congregacionais, não são conhecidas implicações ou posicionamentos políticos no contexto da época. Não conhecemos, com rigor, todo o percurso académico de Froes de Lemos, mas sabemos que foi próximo dos religiosos e eruditos António dos Reis (1690-1738) e Luís Cardoso (1694-1769), com os quais provalvelmente se cruzou na Quinta de São Silvestre em Pernes. Mais tarde, onde terá ob com Luis Montês Matoso (1701-1750)6. Todavia, Simão Froes de Lemos 4 Veja-se Mário Rui Silvestre, , vol. II. 5 O relato reporta-se a 31 de dezembro de 1680. 6 Veja-se Fátima Reis, , Lisboa: Edição Colibri, 2006, bem como Luis Montês Mattoso, , Biblioteca Pública de Évora, cod. CXII, 2-24, fl. 6 (ms.). 18 não seguiu uma vocação religiosa, nem veio, imediatamente, a ter uma carreira administrativia. Seu pai, Gonçalo Froes de Lemos (1639 -?) foi Almoxarife dos Direitos Reais em Pernes7. O tio Baltazar Froes de Lemos (?- c. 1683), após atestar a nobreza paterna e materna, conseguiu lugar de escrivão do Judicial de Alcanede em 1675. Por outro lado, também o avô Gaspar Froes de Lemos (?-?) tinha sido Capitão de Ordenanças e, mais tarde, Tabelião do Público e do Judicial da Comenda de Alcanede8. Gonçalo Froes de Lemos herdou a Quinta da Franca do irmão Baltazar e casou com Francisca Micaela da Fonseca (?-?), filha João Gonçalves da Fonseca (?-?), Capitão-mor de Alcanede. Para além de Simão, tiveram cinco filhos: Andreza da Costa Froes (1677-1708), que contraiu matrimónio com Pedro Zuzarte de Frias (?-?); Gaspar Froes de Lemos (?- ?), que sucedeu aos familiares no Almoxarifado; Inácio Froes de Lemos (?-?), que também veio a ser Almoxarife dos Direitos Reais depois do pai e do irmão; João Froes (?-?), falecido em criança; e António Froes de Lemos (?-?), que viria a morrer adulto e solteiro. Há ainda registo de um irmão ilegítimo destes: Jerónimo Froes de Lemos, o qual morreu sem descendência9. Simão Froes de Lemos ingressou na carreira militar, contexto no qual também se distinguiu. Serviu a coroa portuguesa nas armadas, tendo depois assumido as funções de Capitão de Infantaria do Sobre Montês Mattoso vejagues em Luis Montês Mattoso, , Santarém: Junta de Freguesia de Marvila, 2011. 7 Veja-se João de Melo Atáide e Luís de Melo, , pp. 163 e ss. 8 , p. 111. 9 João de Melo Atáide e Luis de Melo, , pp. 163 e ss. Sobre a genealogia dos Froes de Lemos veja-se também P.e Comarca de Santarém - Capitulo III , Tomo Terceiro, Lisboa, 1712, pp. 259 - 261. 19 Regimento da Comarca de Santarém. Com o envolvimento português na Guerra de Sucessão Espanhola10, participou nas campanhas do Alentejo entre 1706 e 1710. A paz de Utreque11 terminou o conflito europeu e também parece ter permitido ao nosso militar erudito a concentração necessária para a elaboração do presente manuscrito. Na verdade, sobretudo a fazer fé na advertência inicial, à data da redacção da , em 1726, vamos encontrar Froes de Lemos na residência familiar da Quinta da Franca, aparentemente livre de outras responsabilidades que não as do quotidiano da propriedade e já, provavelmente, sem efetivo comando militar. Enquanto autor desta crónica sobre Alcanede e Pernes, com de Lemos granjeou reputação sólida no seu tempo. Foi referido por Inácio da Piedade Vasconcelos (1676-1752)12; pelo já citado António Carvalho da Costa13, como também pelo genealogista Diogo Rangel de Macedo em 14. A entrada que lhe é dedicada na de 10 Conflito que opôs Reino Unido, Sacro Império, Países Baixos, Portugal, Sabóia e Dinamarca à Espanha, à França e à Baviera, contra a sucessão na coroa de Espanha de Filipe V (Filipe de Anjou) também herdeiro Bourbon da coroa francesa. 11 A Guerra de Sucessão Espanhola terminou com a vitória política do partido dos Bourbons, no entando com grandes cedências comercias e marítimas ao Reino Unido, consideradas por muitos autores, essenciais para futura hegemonia naval britânica. Celebrado na tela pelo pintor Paolo de Matteis (1662-1778) o tratado de paz de Utreque abriu caminho a um século XVIII de rivalidades comerciais sem grandes conflitos bélicos na Europa, que tinham caracterizado o século anterior, isto até à Revolução Francesa de 1789/1791. 12 João de Melo Atáide e Luis de Melo, , p. 112 e Inácio da Piedade Vasconcelos, em , Lisboa, 1740, pp. 333 e ss. 13 Ob. cit. 14 Citado por João de Melo Atáide e Luis de Melo, , p. 112 e Diogo Rangel de Macedo [e outros], , transcição de José Augusto do Amaral de Frazão de Vasconcelos, Biblioteca Nacional de Lisboa (Pombalina 322, e 358-407) e 2 na Biblioteca da Ajuda (49-XIII-41 e 49-XIII-42). 20 Diogo Barbosa Machado constitui importante relato biográfico coevo que transcrevemos: «SIMÃO FROES DE LEMOS. Nasceo no lugar de Pernes do Patriarcado de Lisboa a 31 de Julho de 1675. Forão seus pays Gonçalo Froes de Lemos Almoxarife dos Direitos Reaes do dito lugar, e Francisca Micaela da Fonseca. Instruido nas letras humanas servio á Coroa nas Armadas, sendo Capitão da Infantaria auxiliar no Regimento da Comarca de Santarem, com o qual passou ao Alentejo na guerra da Sucessão de Hespanha. Escreveu no anno de 1726. fol. M. S. O original conserva o eruditíssimo Jozé Freire, onde o vimos. . fol. M. S. Escrito no anno de 1735»15. Para além da per outra obra de Simão Froes de Lemos, o Froes de Lemos de António Carvalho da Costa16. A hipótese é colocada pelo irmãos de Melo na , desta forma far-se-ia recuar a redacção do dito para antes de 171217. Porém, o período 1701 e 1710 parece ter sido o mais activo da carreira militar de Froes de Lemos, envolvendo, inclusive, em 1706, 15 Em Diogo Barbosa Machado, , Lisboa: Ignacio Rodrigues, 1752, tomo III, p. 716. 16 António Carvalho da Costa, , Tomo Terceiro, Lisboa, 1712, pp. 259-261. 17 João de Melo Atáide e Luis de Melo, , pp. 113. 21 a participação em campanhas de guerra. Essas circunstâncias parecem díficeis de conciliar com a elaboração de um tratado genealógico, o qual, mesmo que pessoal e familiar, implicaria investigação rigorosa, aspecto sempre presente na forma de escrever de Froes de Lemos, com grande necessidade de se fundamentar. O , ou melhor uma versão preliminar deste, pode, por certo, ter sido fonte da de Carvalho da Costa. De qualquer modo, Barbosa de Machado poderá também ter tido apenas contacto com cópia posterior de trabalho mais antigo. Diogo Rangel de Macedo, ao escrever o seu Nobiliário18, entre 1713 e 1726, afirma ter uma cópia desse trabalho e ter tido contacto com outra na Academia Real de Ciências. Muito possivelmente, tal como se previa para a presente , essa obra genealógica de Froes de Lemos teria sido escrita e atualizada ao longo do tempo. De certo modo, a investigação genealógica constituiu , bem presente na vida e nos textos legados à posteridade por Simão Froes de Lemos. s de Melo19 existe ainda na Biblioteca Pública de Évora (BPE) uma miscelânea de textos designados por (como também noutras partes )20. Parece-nos útil citar a descrição dos autores da sobre estes textos: 18 Nobiliario e Genealogia de algumas famílias de Portugal, 1713-1726, Coleção Pombalina da BN Lisboa. 19 , p. 114 20 Biblioteca Pública de Évora, CIX/1-2 (Rivara, tomo II, 624). 22 Este manuscrito, datado de 1744, é composto por diversos textos de crítica histórica e poética, considerações acerca da nobreza da Casa de Bragança e da monarquia hispânica, à obra , de Luís Mendonça e D. Pedro Lencastre, ao poema «Tétis salva» de D. Francisco Manuel, comentário sobre o seu parente Luís Botelho Froes de Figueiredo (que dá título ao manuscrito), orações, pequenos histórias, adágios e aforismos, alguns deles em língua castelhana, para além de referências religiosas clássicas»21. Em traços gerais, com a objectividade que caracteriza o trabalho monográfico dos irmãos Melo, está descrito o conteúdo das dezenas . Construímos um inventário sumário e sistemático destes textos: [e outros], BPE, CIX/1-2, ms., fl. 1 a 20: ; [ fl. 8 a 20:] ; ; ; ; . 21 João de Melo Atáide e Luis de Melo, , pp. 114. 23 Os do texto como usual nestes casos) comprovam, de forma cabal, a descrição dos irmãos Melo. Naturalmente, cada um destes textos, havendo disponibilidade de meios e de vontades, justificaria uma transcrição e sua edição autónoma (ou coletiva no caso da crítica literária, por exemplo), fosse em ensaio crítico ou separata. Por outro lado, às opções assumidas na nossa investigação e na valorização do manuscrito da como obra de charneira do labor corográfico e quase jornalístico e de Simão Fores de Lemos, os textos neste trabalho para estudos sobre mentalidades, bem como para a própria [fl. 15]22, ao que tudo indica, realizada pelo próprio Simão Froes de Lemos, em Santarém e na Ribeira de Santarém. Contudo, parecerem-nos evidentes as ligações ¸ motivando a sua inclusão neste volume. Esse texto, com o epíteto de s notícias que prometi , resultou de epístola a José Freire de Monterroio de Mascarenhas, proprietário de um manuscrito da e colaborador das investigações de Froes de Lemos, tal como o próprio indica. A segue claramente o modelo das corografias dos séculos XVII e XVIII, aproximando-se por género e num momento que o próprio germinava no país e do qual Monterroio de Mascarenhas foi pioneiro. 22 Biblioteca Pública de Évora, CIX/1-2 (Rivara, tomo II, 624). 24 Simão Froes de Lemos morreu a 10 de fevereiro de 1759, na Quinta da Franca onde residia. De acordo com a disposição testamentária, está sepultado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação de Alcanede. Quebrando, uma vez mais, o recato do silêncio autoimposto, será curioso considerar que a sua morte coincidiu, no ano, com a bem conhecida expulsão da Companhia de especular sobre as posições políticas e religiosas de Froes de Lemos, nos grandes debates da sua época, com as tentações da contemporaneidade. A história não pode ser uma ciência moral, como alertava Torodov (ou até Bloch). Contudo, nesta coincidência, podemos alegoricamente ver , , material Não tenhamos ilusões: durante quase dois séculos, a Companhia de Jesus foi um dos obstáculos a um triunfo inexóravel da ignorância, mais crapoloso nas periferias católicas dos domínios portugueses. Se por um lado se opôs, ainda no século XVI, a experiências inovadoras prosélito e universalista, tão bem presonificado em António Vieira (1608-1697), entre outros. distinas e 23. O testamento legitima as suas duas filhas: Paula Froes de Lemos e Filipa Froes Lemos, insituíndo um morgado no qual descendentes ilegítimos também seriam herdeiros, aspecto de relevo para a história das mentalidades. O trabalho 23 lo Atáide e Luís de Melo, , pp. 187 a 191. 25 biográfico de maior significado acerca de Simão Froes de Lemos foi realizado por João de Melo Ataíde e Luís de Melo, complementado inclusivamente com a transcrição do referido testamento deste seu antepassado. Temos para nós, na esteira de Marc Bloch, que valioso trabalho dos irmãos Melo, não lhes retira quaisquer méritos, houvesse outro domínio da biblioteconomia e estaríamos perante obra pronta a , sintetizámos este relato biobibliográfico desse autor. Conhecemos três manuscritos da ecrita por Simão Froes de Lemos, que podemos mais facilmente identificar de acordo com o arquivo 24; 25 26. O manuscrito de Santarém foi adquirirdo em 2004 pela edilidade. Tivemos confirmação oral do advogado e bibliófilo Martinho da Silva, de que a mesma cópia, foi efetivamente adquirida em leilão, conforme ficha descritiva do documento em arquivo, pertencia à Biblioteca dos Marqueses de Praia e Monforte. O 24 [LEMOS, Simão Froes de] 1726, ms. da Biblioteca Pública de Évora., BPE CIII/2-6 (Rivara, tomo III, p.264). 25 [LEMOS, Simão Froes de] , 1726, ANTT, n.º 593, (PT/TT/MSLIV/0593). 26 [LEMOS, Simão Froes de] 1726, ms. do Arquivo Histórico Municipal de Santarém. 32 Froes de Lemos a Monterroio Mascarenhas; e por fim, no manuscrito de Lisboa surge a mais antiga descrição das grutas de Mira de Aire, documento que poderá merecer artigo de análise crítica, sob as múltiplas perspetivas científicas que o texto convoca. Relativamente aos critérios de transcrição e de fixação de texto, seguimos o manuscrito de Évora, cotejado com o de Lisboa e em caso de conflito damos informação sempre que relevante. Na lógica da transcrição interpretativa, procuramos um compromisso entre a grafia original do texto escrito, a sua inteligibilidade e as normas de transcrição internacionais31. Deste modo, adotámos os seguintes critérios: 1. Respeito da grafia do documento, mantida também nas seguintes situações: a. uso das maiúsculas e de minúsculas do manuscrito; b. uso do «ç» de acordo com o manuscrito; c. utilização de dupla consoante; d. pontuação do manuscrito. 31 Sobre normas de transcrição paleográfica, veja-se Padre Avelino de Jesus da Costa, , 3ª ed. muito melhorada, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Paleografia e Diplomática, 1993; bem como António Emiliano, , Lisboa: Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, 2002. [edição em linha: http://www.fcsh.unl.pt/philologia/Normas1.0.pdf]. 33 2. Introduziram-se as seguintes alterações: a. desdobramento de todas as abreviaturas; b. separação das palavras indevidamente unidas e reuniram-se os elementos dispersos da mesma palavra; c. substituição do «u» e do «i» e «y» com valor consonântico por «v» e «j» respetivamente; d. uniformização do uso das aspas nas citações de outros textos. 3. Colocação entre < > de todas as palavras que surjam entrelinhadas nos textos originais. 4. Colocação da palavra (sic) a seguir aos erros dos próprios originais. 5. Colocação entre [ ] de todas as palavras que tenham sido acrescentadas aos textos originais e que resultam de uma interpretação ou correção do transcritor. 6. documento, sobretudo por deterioração do suporte. Santarém, Novembro de 2016 José Raimundo Noras