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Os Estudos Literários no séc. XXI : o passado próximo, a crise e o próximo futuro

Abstract

Tomando como ponto de partida as obras How to Read a Poem (2006) de Terry Eagleton, e La littérature en péril (2007) de Tzvetan Todorov, pretende-se discorrer, neste capítulo, sobre o ensino da literatura, em especial no ensino superior.

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Os Estudos Literários no séc. XXI : o passado próximo, a crise e o próximo futuro

Author: Fernandes, Isabel
Publisher: Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Anglísticos
Year: 2013
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/29311/1/IFernandes_Estudos-Liter%c3%a1rios-s%c3%a9c-XXI.pdf
Os Es udos Li e á ios no séc. XXI: o passado p óximo, a c ise
e o p óximo u u o**
1
Isabel Fe nandes*
* CEAUL / Faculdade de Le as, Uni e sidade de Lisboa
** Sem a con iança, o incen i o e o ines imá el apoio (cien í ico e humano) que semp e ecebi
do P o esso João Flo , es e ex o (e mui o mais que es á pa a lá dele) não e ia sido possí el.
Aqui ica o meu ag adecimen o since o, em o ma de ensaio.
1
Es e ex o co esponde à e são mais longa de uma comunicação ap esen ada na Fundação
Calous e Gulbenkian, no âmbi o da Wo kshop P óximo Fu u o, nos dias 12 e 13 de No emb o
de 2009.
Mo e so han any o he subjec , li e a u e lends i sel
o powe ul eaching.
Geo ey Gal Ha pham,
“Poli ics, P o essionalism, and he Pleasu e o Reading” (2005)
Em anos ecen es, dois eminen es eó icos da li e a u a, embo a de di e en e o ien a -
ção, publica am opúsculos e elado es de alguma p eocupação quan o aos umos
ac uais do ensino da li e a u a, que a ní el uni e si á io que liceal. Re i o-me a Te y
Eagle on, com How o Read a Poem (2006) e a Tz e an Todo o , com La li é a u e
en pé il (2007).
Te y Eagle on, conhecido pelas suas posições ma xis as e pela sua comba i i -
dade não a o p o oca ó ia, em ad oga , algo su p een den emen e, as i udes do
close eading (ou lei u a ce ada) e da e ó ica — um close eading poli icamen e
in o mado, já se ê, e uma e ó ica ein es ida da sua dimensão pública e polí ica e
não apenas empalidecida enquan o manual de es ilo ao se iço da poé ica (Eagle on
2006: 11). Ainda assim, Eagle on não em dú idas em apon a o dedo a um ensino
supe io que, a seu e , di o ciou a c í ica li e á ia da sua unção de omada de
consciência dos ci cuns ancialismos his ó icos p esidindo que à p odução que à
ecepção li e á ias, e que c iou, além disso, uma díade algo a i icial. Esc e e ele:
We ace, hen, an ala ming si ua ion. Li e a y c i icism is a isk o eneging
on bo h o i s adi ional unc ions. I mos o i s p ac i ione s ha e become
less sensi i e o li e a y o m, some o hem also look wi h scep icism on he
c i ic’s social and poli ical esponsibili ies. In ou own ime, much o his
poli ical inqui y has been o loaded on o cul u al s udies; bu cul u al s udies,
“A SCHOLAR FOR ALL SEASONS”
con e sely, has oo o en di ched he adi ional p ojec o close o mal
analysis. Each b anch o s udy has lea ned oo li le om he o he (Eagle on
2006: 16).
Como esul ado, emos alunos incapazes de p a ica c í ica li e á ia e concilia ,
na p á ica da abo dagem ex ual, compe ência analí ica e consciência c í ica (c .
Eagle on 2006: 1).
Tz e an Todo o , amoso en e nós, sob e udo pela di ulgação da ob a dos
Fo malis as Russos e pela de esa do Es u u alismo ancês, econhece, numa
a gumen ação cu iosamen e simé ica da de Eagle on, que o objec i o que no eou
a sua acção e dos seus aliados nos al o es dos anos 60 (homens como um Gé a d
Gene e ou um Se ge Dub o ski) ou seja, es abelece o equilíb io en e as abo da -
gens escola es dominan es à época (essencialmen e biog a is as e his o icis as, e,
po an o, mo endo-se na pe i e ia do ex o) e uma a enção aos mecanismos in e nos
do ex o, acabou po e um e ei o pe e so:
Mon in en ion (e celle des pe sonnes qui m’en ou aien à l’époque) é ai
d’é abli un meilleu équilib e en e l’in e ne e l’ex e ne, comme en e héo ie
e p a ique. Mais ce n’es pas ainsi que les choses ce son passées. L’esp i de
Mai 68, qui n’a ai en lui-même ien à oi a ec les o ien a ions des é udes
li é ai es, a boule e sé les s uc u es uni e si ai es e modi ié p o ondémen
les hié a chies exis an es. Le mou emen du balancie ne s’es pas a ê é à un
poin d’équilib e, il es allé ès loin dans la di ec ion opposée: seules comp en
aujou d’hui les app oches in e nes e les ca égo ies de la héo ie li é ai e
(Todo o 2007: 29).
Todo o epo a-se à si uação no ensino liceal ancês que, no en an o, como
ele p óp io econhece, não pode deixa de e lec i o modo como se ensina li e a u a
no ensino supe io . O objec i o ede inido do papel da li e a u a e do seu es udo,
encon a-o na o mulação do ilóso o Richa d Ro y que conside a que ela emedeia
menos a nossa igno ância do que nos cu a da ilusão da nossa au o-su iciência, dando-
nos opo unidade de conhece ou os, di e en es de nós e, desse modo, p opiciando
uma comp eensão mais ala gada do mundo e da expe iência humana (c . Todo o
2007: 76-77).
As duas posições pa ecem mo imen a -se em sen idos opos os: e alo ização da
a enção aos enómenos in e nos do ex o, como o ma de eequilib a o apagamen o
dos mesmos po pa e dos cul u al s udies (no caso de Eagle on), ou (em Todo o )
uma ên ase na dimensão ex e na do li e á io, designadamen e na sua ligação com a
expe iência de ida do lei o e o seu con ex o, em cla a supe ação do solipsismo das
abo dagens de cunho o malis a. Con udo, sendo ambas de e minadas, em úl ima
análise, pela e olução sócio-his ó ica dos espec i os países, acabam po pô em
e idência o mesmo ipo de p eocupações (com a disciplina dos es udos li e á ios,
os seus usos e espec i as consequências) e p e endem e uma unção equilib ado a
de si uações enca adas como dis uncionais.
A e e ência a es as duas ob as e ao caso pa adigmá ico dos espec i os au o es
350 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS”
em a an agem de nos chama ambém a a enção pa a aquilo que, ao longo de odo
o séc. XX, ca ac e izou a cena uni e si á ia no que espei a ao es udo da li e a u a:
a sucessão de posições an agónicas, amiúde e ozmen e assumidas, com conse -
quências pa a o p óp io eo denamen o do ecido ins i ucional e eposicionamen o
do luga dos es udos li e á ios. A is o se em e e ido quem e lec e sob e a uni e -
sidade do pon o de is a da disciplina dos es udos li e á ios como a “c ise” da
li e a u a, si uação “c í ica” que, de ão dila ada no empo, se e ia o nado, no dize
dum es udioso, “um modo de ida”.
2
Po quê c ise?
3
Exac amen e po que às sucessi as o ien ações eó ico-c í icas a
que assis imos ao longo de odo o século passado co esponde am, em mui os casos,
con on ações que ma ca am a ida académica no âmbi o das Humanidades, nas
úl imas décadas e que não são alheias às omadas de posição e às no as con igu ações
disciplina es e cu icula es en e an o su gidas. En e ou as consequências, es es
con li os conduzi am o es udo da li e a u a a uma si uação de c ise,
4
ao mesmo
empo que dispe sa am os seus p a ican es, iliando-os em posições eó ico-
ideológicas e/ou em ende eços ins i ucionais di e si icados.
5
As “ba alhas” em o no do cânone
6
e as “gue as da cul u a”,
7
como ica am
conhecidas, são designações que deno am bem a é que pon o o espaço académico
se o nou a ena de agónicos comba es, a ados mui as ezes em nome duma causa
polí ica. Po penosos e desgas an es que possam e sido pa a os en ol idos, os
esul a dos, em mui os casos, pa ecem-me posi i os: a e isão do cânone (no sen ido
de inclui au o es igno ados ou ma ginalizados po ques ões de géne o, sexualidade
ou aça, de legi ima o mas li e á ias pouco alo izadas como a au obiog a ia
(DeKo en 2002: 109) e de econside a a chamada “cul u a popula ” [“popula
351
ISABEL FERNANDES
2
A exp essão é de G. G. Ha pham, em “Benea h and Beyond he C isis in he Human ies”
(2005a: n.p.), onde, gene alizando a si uação c í ica à á ea das Humanidades, a i ma: “Once
conside ed an a lic ion, c isis [in he Humani ies] has become a way o li e.”
3
Sob e a ideia da c ise nos es udos li e á ios, ejam-se, po exemplo: Robe Scholes (1998),
Hillis Mille (2001), e o já ci ado Ha pham (2005a), en e ou os.
4
G ande pa e da a gumen ação que se segue oi po mim desen ol ida e in eg ou pa cialmen e
o ela ó io ap esen ado no âmbi o das p o as pa a acesso ao í ulo de ag egado em Dezemb o
de 2006.
5
Mui os dos p a ican es dos es udos li e á ios p o agoniza am, nas úl imas décadas, mo i men -
os mig a ó ios pa a p og amas no âmbi o da Teo ia da Li e a u a, dos Es udos Compa ados,
dos Es udos A ís icos, dos Es udos de T adução e a é da Comunicação.
6
The G ea Canon Con o e sy: The Ba le o he Books in Highe Educa ion de William Casemen
(1996) é o signi ica i o í ulo duma das ob as que se deb uça sob e a polémica e a con es ação
às o mações canónicas adicionais.
7
Assim ica am conhecidas ce as posições con adi ó ias na academia, na sequência da
publicação da ob a de Ge ald G a , Beyond he Cul u e Wa s: HowTeaching he Con lic s Can
Re i alize Ame ican Educa ion (1992).
cul u e”]) e o ímpe o his o icizan e
8
o na am-se, em ce a medida, salu a es pa a
co igi endências p edominan emen e “ o malis as”
9
na abo dagem das ob as
li e á ias e ein oduzi uma dimensão é ico-polí ica que em a sua pe inência,
desde que de idamen e equacionada.
Na p á ica, po ém, o que se e i icou, como an as ezes acon ece em mo i -
men os de na u eza eac i a, e que Te y Eagle on, no seu li o, diagnos ica, oi
uma endência de sinal con á io: uma edução dos ex os ao con ex o e o esque -
cimen o ou a obli e ação da sua dimensão “ o mal”. A p e alência duma o ien ação
his o icis a pa en e em abo dagens como o “new his o icism”, os “es udos cul u ais”
(cul u al s udies), os es udos pós-coloniais, os es udos eminis as e de géne o, po
exemplo, e e como esul ado um en oque em lei u as con eúdis as, enden es a le
o ex o li e á io à luz dos emas nele a ados, da ep esen ação de g upos iden i á -
ios (e/ou mino i á ios, como os po os colonizados, as mulhe es e os homossexuais)
e da elação desses assun os com enómenos his ó icos con ex uais, obscu ecendo-
-se po comple o, ou quase po comple o, a dimensão linguís ico- o mal — lia-se /
lê-se a mensagem, descu ando-se a sua es u u a e ex u a enquan o linguagem,
esquecendo que ais ac o es a moldam e eiculam, de e minando a epe cussão
sob e o ecep o .
10
As lei u as pu amen e in e nas e a-his ó icas, ca ac e ís icas da p imei a me ade
do séc. XX, ais como p a icadas, po exemplo, pelo New C i icism, que echa am
o ex o em si mesmo absolu izando-o, o am, nes e con ex o, na u almen e, olhadas
com suspeição, ejei adas e denunciadas como uga ou escamo eamen o das de e -
minações de índole polí ica e/ou ideológica. Os es udos li e á ios, al como essa
c í ica os en ende a, iam-se de ini i amen e e o mulados po es es no os en oques
que ende am a alo iza as ealidades ep esen adas nas ob as e suscep í eis de
se em equacionadas como causas ex a-li e á ias, de índole ideológico-polí ica.
O p oblema com alguma pa e des as p á icas p ende-se com o modo um pouco
ingénuo, ou ap essado, de se p ojec a em nos ex os li e á ios de e minados
p essupos os e ambém o modo segundo o qual se alo iza o ac o de ep esen ação
li e á ia, mui as ezes enca ado qual p ocesso de ansposição di ec a e anspa en e,
como se a ep esen ação li e á ia pudesse se eduzida à dimensão de ep odução
mecânica, esquecendo, mui as ezes, a ac u a ou e acção en e objec o eal e
objec o ep esen ado.
11
Es e apagamen o dos p ocessos de codi icação ine en es à
352 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS”
8
Consubs anciado na amosa injunção de F ede ic Jameson: “Always his o icise!” (Jameson 1981)
9
Designo assim as abo dagens do ex o li e á io que nele p i ilegia am as ca ac e ís icas
linguís ico-es ilís icas, descu ando as conside ações de na u eza con ex ual, como acon eceu
p edominan emen e na p imei a me ade do século XX.
10
É a esse ipo de a i ude que o ex o de Eagle on p ocu a esponde , em ges o alegadamen e
eequilib ado .
11
A p opósi o da complexidade do concei o de ep esen ação, eja-se W. J. T. Mi chell (1990,
em especial p. 21). Veja-se ainda Jean Bessiè e (1995). Mais ecen emen e, consul e-se o 6º
ep esen ação o igina p á icas discu si as que endem a igno a o ex o na sua
ma e ialidade signi ican e, p omo em um en endimen o de e minis a do mesmo
(o ex o é is o enquan o unção di ec a de ce as coo denadas espácio- empo ais)
e a am-no como qualque ou o ipo de discu so. Igno am, além disso, como um
Pie e Bou dieu (1997: 42, po exemplo) ez ques ão de salien a , a ealidade do
espaço au ónomo de p odução dos bens simbólicos que são as ob as li e á ias, espaço
elacional em que cada agen e e cada ins i uição êm de se enca ados nas suas
elações objec i as com odos os ou os.
Mani es ações de insa is ação ace ao que icou conhecido como “cul u al u n”
êm indo a aze -se ou i e êm coincidido empo almen e, ao menos, com a
necessidade de epensa a p óp ia uni e sidade.
12
Julgo que nos encon amos num
momen o decisi o de ques ionação ins i ucional e epis emológica e que es amos
ainda a empo de epensa as disciplinas e a sua o ganização ins i ucional. Repensa
a li e a u a e o seu ensino, no ac ual con ex o, pode ajuda -nos a epensa a p óp ia
uni e sidade. É o que p ocu a ei aze .
Nes e início de séc. XXI, os es udos li e á ios, como á ea de sabe , ap esen am-
se como um campo de in e secção disciplina que con inua ma cado po abo dagens
e in e esses he e ogéneos e po ezes con li uais que ão desde os já e e idos
“es udos cul u ais” à descons ução, do eminismo e es udos de géne o aos es udos
pós-coloniais, da c í ica ecológica (ecoc i icism) à c í ica é ica (e hical c i icism), pa a
ci a apenas alguns. Cada uma des as p á icas c í icas, po sua ez, es á longe de se
ap esen a como um espaço homogéneo, an es e idenciando o ien ações á ias que
lhe con e em um ce o hib idismo (c . Zia ek e Deane 2000: 1).
13
Tal p oli e ação
e plu alismo êm sido enca ados po mui os, como já e e i, como con igu ado es
duma si uação de “c ise”, ainda que a dilucidação do que se en ende po c ise nem
semp e seja coinciden e e mui as ezes apon e pa a di e en es in e p e ações e
diagnós icos di e sos do que a inal es á em causa. Uns aludem à c ise dos es udos
li e á ios enquan o campo disciplina ;
14
ou os, ex a asando os mu os da academia,
an ecipam o im da li e a u a al como a en endemos desde meados do século XVIII
353
ISABEL FERNANDES
núme o de Symbolism: An In e na ional Annual o C i ical Aes he ics (2006) especialmen e
dedicado a “Rep esen a ion”.
12
Vejam-se as omadas de posição de Geo ey Gal Ha pham (2005b e 2005c). Podem ainda
consul a -se: o núme o especial do pe iódico Poe ics Today (2003), in i ulado “Be ween Tex
and Theo y; o he Re lec i e Tu n”, em especial o a igo in odu ó io de James A. Knapp
and Je ey Pence (2003a) e o ex o de K zysz o Zia ek e Seamus Deane (2000), en e ou os.
13
Consul e-se ambém, pa a uma isão mais pessimis a sob e o assun o, Louis Menand (2001)
sob e o que designa de “pos disciplina i y”. A peça de Louis Menand é comen ada po
Ha pham (2005a).
14
Veja-se, po exemplo, Timo hy Cla k (2002) e ainda os dois a igos de Ha pham já menciona -
dos: “Benea h and Beyond he ‘C isis’ in he Human ies” (2005a) e “Poli ics, P o essionalism,
and he Pleasu es o Reading”(2005b).

(c . Hillis Mille 2001); ou os ainda es ingem o p oblema ao âmbi o da de inição
do cânone, is o é, p oblema izam e ques ionam a cons i uição do conjun o de ob as
subsumí eis sob o quali ica i o de li e á ias.
15
Em qualque dos casos e ainda que as ques ões implicadas pelos di e sos en en -
di men os da c ise sejam complexas po na u eza, odos apon am no sen ido de
suge i a p eca iedade, a ince eza e o es a u o p oblemá ico da disciplina no seio
da uni e sidade. Con o me econheceu Peggy Kamu (2002: 156):
In he las decade o so (…) i appea s ha he discipline o li e a y s udies has
begun o nego ia e a ansi ion o a displacemen in o he almos unlimi ed
domain o cul u al s udies, media s udies, communica ions, and so o h. This
de elopmen may well indica e ha a g owing numbe o p ac i ione s in his
domain has enounced he p ojec o aking li e a u e se iously, a leas unde
ha name. In any case, i signals some displacemen he e ha a ec s li e a u e
as he name o some hing o be aken se iously, in a disciplined manne .
Ainda segundo Kamu , es a si uação se ia o esul ado duma con adição ou
equí oco de há mui o exis en e en e a uni e sidade com um p ojec o isando o
conhecimen o, e a li e a u a, ace ca da qual nenhum conhecimen o essencial é
possí el. A inclusão da disciplina nas di isões do conhecimen o oi semp e ambígua
e p ecá ia (c . Kamu 2002:157).
Po um lado, a acomodação ins i ucional exigia que se pe ilasse como qualque
ou o campo do sabe e que assumisse como objec i o a supe ação da cul u a li e á -
ia amado a, no sen ido do conhecimen o objec i o, me odologicamen e in o mado.
Po ou o, a necessidade de dema cação da disciplina ace às ou as á eas cu icula es
ob iga a à de inição e delimi ação do concei o de li e a u a e de alo li e á io, de
o ma a e i a que, à meno p essão, es alasse pa a á eas ansdisci plina es (Kamu
1997: 95-96).
É po es e mo i o que odos os deba es que êm animado e, em pa e, minado
o espaço académico sob e o cânone, a na u eza da in e p e ação, a impo ância da
adição, e c. são insolú eis se nos es ingi mos ao âmbi o da p óp ia á ea disci -
plina , di e en emen e do que acon ece quando se discu e, po exemplo, a na u eza
dum elemen o químico especí ico, no seio da química. E is o oco e po que, como
econheceu ecen emen e Timo hy Cla k (2002: 91), mui as das p incipais ques ões
que se colocam nos es udos li e á ios implicam ou os campos disciplina es, como
a his ó ia, a iloso ia ou a sociologia, passam pelo en endimen o da unção das
humanidades e en oncam na p óp ia ideia da uni e sidade.
16
Vale á, po isso, a pena eco e , em e mos aqui e ago a necessa iamen e mui o
sumá ios, ao que en endemos e em sido as á ias ideias subjacen es à ins i ucio -
354 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS”
15
Vejam-se: An hony Eas hope (1991), J. Guillo y (1993), Pe e Widdowson (1999) e Ha old
Bloom (1994).
16
Adop a ei, na exposição que abaixo desen ol o, um ipo de a gumen ação que segue de pe o
a de Cla k (2002).
nalização académica dos es udos li e á ios a ní el uni e si á io, soco endo-nos pa a
an o do enquad amen o acul ado po Bill Readings, na sua ob a de 1996, The
Uni e si y in Ruins. Segundo Readings, dois pode osos pila es que du an e ce ca de
dois séculos sus en a am a ideia de uni e sidade o am a “uni e sidade da azão”,
segundo o modelo kan iano p opos o em O con li o das aculdades (1798), e a “uni e -
sidade da cul u a”, eme gen e do p ojec o undado da Uni e sidade de Be lim po
Wilhelm on Humbold . No p imei o caso, Kan p opõe (po azões his ó icas
especí icas que não cabe aqui explici a ) um modelo de uni e sidade assen e na
au onomia da azão: a a a-se de do a a uni e sidade de condições de indepen -
dên cia que a ans o massem num espaço em que a azão di asse as suas p óp ias
leis. Ainda que a uni e sidade osse sobe ana, ela subo dina a-se ao pode do es ado,
mas es e, po sua ez, inha po ob igação p o egê-la de qualque in e e ência no
seu p ojec o acional, assegu ando assim que a azão p e alece ia na es e a pública
(c . Readings 1999: 58). Es a ên ase no conhecimen o acional de e minou, po seu
u no, a necessidade de compa imen ação dos sabe es ou á eas do conhecimen o,
cada um dos quais com objec os e me odologias p óp ios. Es e ges o de dema cação
disciplina a o eceu um ce o ensimesmamen o de cada á ea e excluiu conside a -
ções au o- e lexi as. A se iedade do abalho académico p essupõe o cen amen o
em ques ões que eme gem den o da á ea de especialidade e não con empla as
in e e ências ou con aminações que podem oco e com as á eas con inan es. A
libe dade econhecida aos académicos no exe cício disciplinado da azão é a que
lhes é ou o gada pelo seu g au de especialização na á ea de es udo espec i a, o qual,
po seu lado, só os espec i os pa es es ão à al u a de econhece e a i ica .
Es e con inamen o disciplina não é despiciendo se pensa mos como ele en a
em con li o com a p óp ia na u eza po osa dos es udos li e á ios, po excelência
desa iado a das on ei as en e sabe es. Se acei a mos que a li e a u a, enquan o
a e da linguagem, consis e na ep esen ação e bal da acção e do pensamen o
humanos de aco do com ce os p incípios de codi icação, alguns deles ine en es à
sua ma é ia-p ima, a ob a li e á ia pode á consis en emen e se abo dada a pa i
do pon o de is a de qualque uma das disciplinas humanís icas — his ó ia, iloso ia,
psicologia, linguís ica, sociologia, es é ica, e c. Pode ia a é a gumen a -se que a
di iculdade es a ia na en a i a de a es uda “em si mesma”
17
e que os es udos
li e á ios se iam semp e pa asi á ios de ou os sabe es, eque endo o con ibu o
me odológico de ou as disciplinas pa a uma de inição de en oque, delimi ação de
objec i os e selecção de c i é ios e exemplos (c . Ha pham 2005b).
18
355
ISABEL FERNANDES
17
Lemb emo-nos da ad e ência de Jo ge de Sena, em Dialéc icas da Li e a u a: “não há, na a e
como na ida, em sis, a não se como «hipó eses de abalho»”. E ac escen a: “e é es e o e o
p incipal de mui a c í ica que se imagina «on ológica» ou « enomenológica»” (Sena 1973:
113).
18
Resumindo o passado e e e indo-se ao p esen e, Ha pham a i ma: “O e he yea s, philosophy,
linguis ics, psychoanalysis, and his o y ha e been ema kably e ec i e in p o iding such
Mas é in e essan e no a que, mesmo quando, como ao longo do séc. XX, os
es udos li e á ios se soco e am da linguís ica, esse ges o se de eu mais à necessidade
sen ida de dema cação e i o ial e de inição dum objec o p óp io, bem como de
u ilização de e minologia adequada, do que ao econhecimen o da na u eza compó -
si a e complexa do li e á io. E is o explica-se, pelo menos em pa e, po um ou o
enómeno deco en e da ideia da “uni e sidade da azão”. Re i o-me à p o issio -
nalização da ida académica p essupos a pelo acan onamen o dos sabe es e pela
a egimen ação de especialis as que e e epe cussões p o undas no en endimen o
e abo dagem do li e á io. Desde logo de e minou a necessidade de especi icação
dum objec o au ónomo capaz de unda um espaço disciplina au o-con ido. E a
impe ioso de ini a especi icidade do objec o, do ando-o de ca ac e ís icas p óp ias
suscep í eis de se em analisadas e desc i as.
É assim que podem se enca ados os di e en es emp eendimen os que, na
p imei a me ade do séc. XX, se dedica am à ins i ucionalização dos es udos li e á ios
na academia — a chamada “Age o C i icism”, segundo M. H. Ab ams (1989).
19
Subjacen e a odos eles es á um p ojec o que pode se me onimicamen e indiciado
pelo ges o inaugu al dos Fo malis as Russos na sua en a i a de isola em a li e a ie -
dade — essa ca ac e ís ica alegadamen e dis in i a da linguagem li e á ia que assim
se cons i uía em objec o p i ilegiado de es udo e a enção sis emá icos. Es e ipo de
a i udes que, no caso dos Fo malis as Russos e, pos e io men e, dos es u u alis as,
isa a unda uma Ciência Li e á ia, es a a apos ado em encon a no ex o li e á io
ma é ia de dis inção e a base quase exclusi a da in e p e ação.
20
P omo iam assim
uma lei u a in e na que oi, pos e io men e, acusada de “ o malismo” ou “pu ismo”
e que, pelo imanen ismo subjacen e, me eceu ampla con es ação na segunda me ade
do séc. XX — a chamada “Age o Reading”, ainda segundo Ab ams, que i ia a
deslo ca o in e esse pa a o eixo da ecepção. A p eocupação que in o ma es as
o ien ações di as “ o malis as” — isola a li e a u a de ac o es ex ínsecos e abo dá-
356 “A SCHOLAR FOR ALL SEASONS”
suppo , bu he dominan discipline in o ming li e a y s udy oday is he weak o m o
an h opology known as cul u al s udies, which is, by compa ison wi h hese o he s,
heo e ically and me hodologically unde ined” (Ha pham 2005b: 7 on-line).
19
Na sua ob a, Doing Things wi h Tex s: Essays in C i icism and C i ical Theo y (1989), nos ensaios
in i ulados “How o do hings wi h ex s” (1989: 269-96) e “Cons uing and Decons uc ing”
(1989: 297-332), Ab ams es abelece uma di e ença en e o que designa de “Age o C i icism”
e o que apelida de “Age o Reading”. A p imei a é balizada c onologicamen e pelos anos 60
do séc. XX e põe a ên ase na ob a li e á ia em si mesma (cen ando-se em “ he wo k-as-such”),
enquan o a segunda sucede c onologicamen e àquela e alo iza o papel da ecepção no
p ocesso de comunicação li e á ia ( ocalizando-se em “ he eade -as-such”).
20
Pode ia ac escen a ao exemplo dos Fo malis as Russos o da Es ilís ica, com a sua ên ase na
noção da linguagem li e á ia como des io a uma no ma, e o dos New C i ics que c ia am a
noção de “ícone e bal” ( e bal icon, p opos o po W. K. Wimsa ). Em odos es es casos o
que se e idencia é o p opósi o de encon a ó mulas de dis inção da linguagem li e á ia.
-la em si mesma e po si mesma, es á, en ão, in imamen e ligada à necessidade de
pe se gui acionalmen e o conhecimen o e alcança a desejada objec i idade cien í -
ica, con o mando-se, assim, ao ideal de au onomia ine en e ao modelo kan iano de
uni e sidade que a deco en e p o issionalização ap o undou.
O segundo modelo de uni e sidade explo ado po Readings, a “uni e sidade
de cul u a” é ideologicamen e dis in o do p imei o modelo ainda que, na p á ica,
ambos coexis am. Na sua génese es i e am pensado es alemães como Schille ,
Schleie mache , Fich e, Schelling e, na u almen e, on Humbold . Em aços
necessa iamen e mui o ge ais, pode dize -se que o p ojec o que, em 1810, undou
a Uni e sidade de Be lim se baseou na indissociabilidade do ensino e da in es igação
e, em e mos mais ilosó icos, na ideia de que o conhecimen o não é um conjun o
es á ico de in o mação, mas um p ocesso o gânico cumula i o. Es a na u eza o gâ -
nica do conhecimen o jus i ica, po sua ez, um ensino comp ome ido com a in es i -
gação e uma ap endizagem g adual e p og essi amen e mais iden i icada com as
exigências disciplina es. En a iza-se ago a um ideal de cul u a — Bildung, como
p opósi o de inido da unção da uni e sidade. À inqui ição acional associa-se o
in e esse pelas adições e modos de ida de uma nação, numa sín ese em que se
conjugam azão e his ó ia. A ins i uição uni e si á ia é, simul aneamen e, enca ada
como a qui o ou eposi ó io e como agen e p omo o do desen ol imen o, an o
no plano indi idual como no plano comuni á io. (É nes e con ex o que, no caso das
li e a u as nacionais, se p omo e a ilologia).
Jus amen e em e mos semelhan es, no espaço angló ono, o Ca deal Newman
de ende o p ojec o de uni e sidade que concebe como espaço p i ilegiado pa a le a
a cabo uma educação libe al, espaço de o mação ala gada isando “a pessoa como
um odo” (Newman 1962).
21
No seio des a concepção, e no caso mui o pa icula
das uni e sidades inglesas e no e-ame icanas, i ão a des aca -se cen almen e as
li e a u as que se eclamam como luga p i ilegiado de conc e ização do p ojec o
humanis a libe al.
22
Es e no el p o agonismo da li e a u a co esponde à peculia
e são inglesa do concei o alemão de Bildung. Pe cebida mais como o ma de conhe -
cimen o singula do que como objec o de conhecimen o, a li e a u a con igu a a-
-se, apesa disso (ou po isso mesmo) como a disciplina po excelência, sob o impulso
dum homem como F. R. Lea is. Enca ada como p á ica de esc i a imagina i a,
mobilizado a de alo es humanos capazes de se opo em ao u ili a ismo ben ami a
e aos impe a i os da economia polí ica, a(s) Li e a u a(s) nacional(ais) (nes e caso
conc e o, a inglesa) é (são) ago a ecen ada(s) e en endida(s) não an o como um
357
ISABEL FERNANDES
21
T adução minha da exp essão “ he whole pe son”.
22
Sob e o ela i o des a o de que gozou a ilologia nas uni e sidades angló onas, po con as e
com o modelo p e alecen e no con inen e eu opeu, eja-se Fa ia (2004: 10-11). Ag adeço à
au o a que gen ilmen e me acul ou o uso do ex o dac ilog a ado da sua lição de que aqui
i o pa ido.
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