Os Arquivos do Centro Cultural Português (1969-1993): uma "Colectânea Erudita" ao serviço da História
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Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João (orgs.)
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA Lisboa Centro de História da Universidade de Lisboa Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta 2017 Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João (orgs.) NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Título | Title Historiografia e Res Publica Nos dois últimos séculos Direcção da Colecção | Series Editors Sérgio Campos Matos & Covadonga Valdaliso Organização | Organisation Sérgio Campos Matos & Maria Isabel João Editor | Editor Sérgio Campos Matos Assistentes de Edição | Editorial Assistants Gonçalo Matos Ramos, Ricardo de Brito Comissão Editorial | Editorial Board Luís Filipe Barreto, Valdei Araújo Capa | Frontcover Detalhe da representação da Divina Comédia de Dante Alighieri. Almada Negreiros, 1961. Pórtico da entrada da Faculdade de Letras. Arte parietal, gravuras incisas coloridas sobre parede revestida a cantaria de calcário, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fotografia de Armando Norte. Frontispício | Frontispiece Detalhe de Cabeça Mecânica (O Espírito da Nossa Era). Raoul Hausmann, c. 1920. Montagem. Paris, Musée National d’Art Moderne, Centre Pompidou. Contra-capa | Backcover Musa (Clio?) lendo um uolumen. Pintor de Klügmann, c. 435-425 BCE (Beócia?). Lekythos, cerâmica ática de figuras vermelhas, Museu do Louvre, CA 220. Historiografia – História Contemporânea – Memória | 930(469) MAT,S Editora | Publisher Centro de História da Universidade de Lisboa & Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta | 2017 Concepção Gráfica | Graphic Design Bruno Fernandes Impressão Gráfica | Printing Shop Sersilito-Empresa Gráfica Lda. ISBN 978-989-8068-22-4 Tiragem 300 exemplares P.V.P. 15.00€ Centro de História da Universidade de Lisboa | Centre for History of the University of Lisbon Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa | School of Arts and Humanities of the University of Lisbon Cidade Universitária - Alameda da Universidade,1600-214 LISBOA / PORTUGAL Tel.: (+351) 21 792 00 00 (Extension: 11610) | Fax: (+351) 21 796 00 63 URL: http://www.centrodehistoria-flul.com This work is funded by national funds through FCT – Foundation for Science and Technology, under project UID/HIS/04311/2013 and project PEST-OE/SADG/UI0289/2014. This work is licensed under the Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License. To view a copy of this license, visit http://creativecommons.org/ licenses/by-nc/4.0/ or send a letter to Creative Commons, PO Box 1866, Mountain View, CA 94042, USA. Copyright for authors and editors remain as reserved according to the aforementioned license and complying with the FCT directive “Política sobre Acesso Aberto a Publicações Cientificas resultantes de Projectos de I&D Financiados pela FCT (05/05/2014)”.
ÍNDICE SOBRE A ESCRITA DA HISTÓRIA NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS Sérgio Campos Matos e Maria Isabel João I – HISTÓRIA, TEMPO, CIDADANIA O HISTORIADOR NA CIDADE: HISTÓRIA E POLÍTICA Fernando Catroga HISTOIRE GLOBALE, HISTOIRE NATIONALE? COMMENT RÉCONCILIER RECHERCHE ET PÉDAGOGIE Christophe Charle AS FORMAS DO PRESENTE. ENSAIO SOBRE O TEMPO E A ESCRITA DA HISTÓRIA Temístocles Cezar CONTINUIDADES E RUPTURAS HISTORIOGRÁFICAS: O CASO PORTUGUÊS NUM CONTEXTO PENINSULAR (C.1834 - C.1940) Sérgio Campos Matos II – DIRECÇÕES DE ESTUDO MODERNIZAÇÃO E BLOQUEIOS: PROBLEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO NA MEMÓRIA HISTÓRICA José Luís Cardoso A HISTÓRIA SOCIAL EM PORTUGAL (1779-1974) ESBOÇO DE UM ITINERÁRIO DE PESQUISA Nuno Gonçalo Monteiro ESPIRITUALIDADE E RELIGIÕES: UNIVERSOS DE MOTIVAÇÃO E DE CRENÇA António Matos Ferreira 11 25 27 89 115 131 161 163 183 203
AS MIGRAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA (1779-1974) Jorge Fernandes Alves O IMPÉRIO E AS SUAS METAMORFOSES NA HISTORIOGRAFIA Diogo Ramada Curto A HISTORIOGRAFIA NO ÂMBITO DOS ESTUDOS REGIONAIS Maria Isabel João III – PERIODISMO E HISTÓRIA HISTÓRIA, OPINIÃO PÚBLICA E PERIODISMO José Augusto dos Santos Alves DIVULGAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO AS PUBLICAÇÕES COLECTIVAS DA ACL SOB O LIBERALISMO (1820-1851) Daniel Estudante Protásio O CONTRIBUTO D’O PANORAMA NA DIVULGAÇÃO HISTÓRICA EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX (1837-68) Ricardo de Brito DIFERENTES CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA NA VÉRTICE DURANTE O ESTADO NOVO (1942-1974) José de Sousa OS ARQUIVOS DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (1969-1993): UMA “COLECTÂNEA ERUDITA” AO SERVIÇO DA HISTÓRIA Andreia da Silva Almeida A HISTÓRIA DE PORTUGAL NA SEARA NOVA: A BUSCA NO TEMPO PASSADO PARA A CONSTRUÇÃO DE UM PRETENDIDO FUTURO Joaquim Romero Magalhães 217 241 253 283 285 309 337 355 375 403
379 lisbon historical studies | historiographica comemorativo dos vinte e cinco anos do Centro Cultural Português. A publicação seria composta por trinta e dois volumes, divididos em seis séries. A primeira série compreendia os volumes I a V (1969-1972), a segunda série compreendia os volumes VII a XI (1973-1977), a terceira série abrangia os volumes XIII a XVII (1978-1982), a quarta série abarcava os volumes XIX a XXIII (1983-1987), a sexta série continha os volumes XXV a XXIX (19881991), a sétima série compreendia os volumes XXXI e XXXII (1992-1993). Não se observaria uma quinta série, passando-se imediatamente da quarta série para a sexta série. Na verdade, o conjunto dos volumes segue uma sequência de numeração ininterrupta, correspondendo as séries a etapas da publicação norteadas pelo perfil dos directores. Quanto à tiragem, sabe-se apenas que durante a primeira série, terá sido de oitocentos a oitocentos e cinquenta exemplares. A publicação iniciar-se-ia com uma média de seiscentas a oitocentas páginas, aumentando nos anos seguintes a sua envergadura atingindo, em 1982, mais de mil páginas. Inicialmente, os Arquivos eram constituídos por três partes distintas, que constituíam a sua organização-chave. Um primeiro segmento reunia os artigos de fundo dos colaboradores, da autoria de mestres universitários e tomava o nome de “Parte Doutrinal”. Uma segunda parte, de carácter informativo e divulgador, tomava o título de “Vária”, reunindo notas e documentos de comprovado interesse histórico. Por último, observava-se uma parte bibliográfica dedicada a recensões críticas de obras publicadas em Portugal e no estrangeiro com interesse para a história da cultura portuguesa. Outra importante secção, que se manteve inalterada ao longo dos anos, constituía a parte final de cada volume e era intitulada “Actividades do Centro Cultural Português”. Esta secção reunia o resumo das actividades do Centro em cada ano, ao nível de concertos, exposições, conferências, publicações e até o movimento da biblioteca. Ao longo dos vários números, a revista apresentaria ilustrações, muitas vezes coloridas, e fotografias. Contudo, com o decorrer dos anos notou-se uma perda de preponderância da imagem no grafismo deste periódico. Em 1973, sob a direcção de José Pina Martins, duas secções alteravam a sua titulatura, mantendo, contudo, o conteúdo. Assim, a “Parte Doutrinal” passaria a designar-se “Estudos Doutrinais”, enquanto a “Vária” ganharia a designação de
380 historiografia e res publica “Notas e Documentos”. No delinear do volume correspondente ao ano de 1973 apareceria uma nova secção, intitulada “A Cultura Portuguesa no Mundo”, que reunia dois artigos de homenagem aos professores I. S. Révah e Edward Glaser, dois dos maiores estudiosos da cultura portuguesa no século XX. No ano seguinte, em 1974, desaparecia esta secção, para surgir uma outra, intitulada “A Cultura Portuguesa em França”, onde se arquivava uma resenha sobre a produção dos meios universitários franceses em prol da língua e literaturas portuguesas. Contudo, no ano seguinte, esta última desapareceria e surgiria novamente a secção “A Cultura Portuguesa no Mundo”, embora com novo conteúdo. Desta feita, reunia dois trabalhos de Adrien Roig e Paul Teyssier, sobre a provável autoria da tragédia “A Castro”, atribuída a António Ferreira. No ano seguinte, esta secção manteve-se, reunindo artigos de outros autores sobre a mesma temática, nomeadamente Roger Bismut e Aníbal Pinto de Castro. No volume XII, datado de 1978, observamos pela última vez o aparecimento desta secção, reunindo três artigos, dois da autoria do director da publicação e outro de Alfredo Margarido, um sobre o tema do humanismo português debatido num colóquio na Universidade de Tours e duas resenhas em memória de Vitorino Nemésio e de Jorge de Sena, falecidos naquele ano. A partir de 1983, sob a direcção de José Augusto França, a secção intitulada “Estudos Doutrinais” passaria a designar-se “Estudos e Ensaios” mantendo, contudo, o mesmo conteúdo. Após um estudo intensivo das duas secções mais significativas desta publicação, “Parte Doutrinal/Estudos Doutrinais/Estudos e Ensaios” e “Vária/Notas e Documentos”, concluímos que o peso de ambas foi variável ao longo do tempo. Até 1971, a “Parte Doutrinal” teve um peso mais significativo, perdendo posteriormente a preponderância até 1984. Durante esse período, que concerne à direcção de José de Pina Martins, as “Notas e Documentos” obtiveram uma maior relevância no que era relativo ao número de artigos publicados. No ano de 1983, a partir do qual se daria uma viragem, esta secção reunia o dobro do número de artigos patentes nos “Estudos Doutrinais”. Contudo, a partir de 1984, os “Estudos Doutrinais” ganhariam novo fôlego, ultrapassando a secção informativa, regressando ao formato original de 1969, que se manteria até 1993. Em 1985, no volume XXI, seria inaugurada uma nova secção, “Homenagens e Comemorações”, que passaria a constituir a primeira parte da publicação, reunindo
381 lisbon historical studies | historiographica textos laudatórios a personagens, factos e efemérides da cultura portuguesa. Os principais homenageados seriam Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Victor Hugo, Cesário Verde, António Pedro, Jorge de Sena, Candido Portinari, Baltasar Lopes…. Esta secção não foi constante em todos os números que se seguiriam, registando-se pontualmente, quando a ocasião o permitia. No que era relativo à secção das recensões críticas observámos uma evolução irregular. Nos dois primeiros anos da publicação registou-se um elevado número de recensões (dezoito), que não mais voltaria a ser atingido. A partir do III volume, notamos um declínio desta secção, chegando pontualmente a desaparecer em anos como 1975, 1980, 1981, extinta na totalidade a partir de 1990, sob a direcção de Maria de Lourdes Belchior. Considerada pelos vários directores como a secção mais pobre, as razões para este desaparecimento após uma sublinhada decadência, parecem centrar-se numa colaboração limitada por parte dos autores, avessos à crítica dos seus pares, evitando atrasos de publicação, bem como numa falta de espaço em mercê da elevada extensão das restantes rubricas. Contudo, o interesse cultural desta secção seria exaustivamente sublinhado, pelo seu ponto de vista crítico e pela importância dos seus aspectos temáticos. Gráfico 1: Evolução do total de recensões críticas (1969-1993).
382 historiografia e res publica Numa análise mais aprofundada, observamos que, sob a direcção de Joaquim Veríssimo Serrão, as recensões foram mais frequentes e, na sua maioria reportavam-se a obras de autores portugueses dissecadas por uma maioria de críticos lusos, embora existissem, em número residual, analistas franceses e de outras nacionalidades. Entre 1973 e 1983, sob a direcção de José de Pina Martins, esta secção perderia preponderância e ganharia lacunas. As obras analisadas continuavam, na generalidade, a ser obras de autores portugueses, ganhando, contudo, terreno as obras de autores franceses e de outras nacionalidades. Os críticos estrangeiros passavam a ser a maioria, observando-se um alargamento e uma internacionalização de autores e censores. Sob a direcção de José Augusto França, apenas num único número se observou esta secção, relativo ao ano de 1984, programado pelo anterior director. Em 1990, sob a direcção de Maria de Lourdes Belchior, os Arquivos voltariam a conhecer, pela última vez esta secção, partindo para uma análise partilhada de obras de autores franceses e portugueses, efectuada por críticos de várias nacionalidades. Gráfico 2: Total de obras submetidas a recensão por autores portugueses, franceses ou de outras nacionalidades (1969-1993).
383 lisbon historical studies | historiographica Gráfico 3: Nacionalidade dos críticos responsáveis pelas recensões (1969-1993). Durante o seu período de publicação, os Arquivos conheceram vários números especiais, com uma organização por vezes díspar da atrás descrita. Há que mencionar, em primeiro lugar, os vários volumes que constituíram índices de artigos dos números precedentes. O volume VI, datado de 1973, foi o primeiro destes números, cuja necessidade se impunha pela sua utilidade, tratando-se de um instrumento de pesquisa e de consulta. Mais volumes desta natureza observaram-se nos anos de 1978, 1984, 1988 e 1992, repletos de um conjunto de índices plasmados nos existentes na Bibliothèque d’Humanisme et Renaissance de Genebra. Foi durante a direcção de José de Pina Martins que se iniciou a publicação de números de homenagem a diversas personalidades da vida cultural luso-francesa. O primeiro desses números foi o volume IX, correspondente ao ano de 1975, dedicado a Marcel Bataillon, por altura do seu octogésimo aniversário. Em 1981, observámos a publicação de um número monográfico dedicado a Camões, no rescaldo do centenário Camoniano e do Colóquio Internacional “Camões e a Civilização do Renascimento”, organizado pelo Centro Cultural Português em Outubro de 1980. O volume XVII, datado de 1982, marcaria uma homenagem a Léon Bourdon, celebrando os seus oitenta e dois anos e o cinquentenário da
384 historiografia e res publica publicação de um dos seus primeiros estudos sobre a cultura portuguesa, “Notes sur les sources portugaises de Montaigne (Osório e Castanheda)”. Em 1983, já sob a direcção de José Augusto França, mas recolhendo textos escolhidos pelo antigo director, registou-se um número de homenagem a Raymond Cantel, na comemoração da sua jubilação. O volume XXIII, datado de 1984, trata-se de uma homenagem a Paul Teyssier, organizado por José da Silva Terra, retomando uma tradição que permitiu elogiar outros lusitanistas que se haviam jubilado. Em 1990, já sob a direcção de Maria de Lourdes Belchior, seria publicado um número comemorativo dos vinte e cinco anos do Centro Cultural Português, reunindo resenhas biográficas sobre Calouste Gulbenkian e José de Azeredo Perdigão e um conjunto de testemunhos e artigos de personalidades ilustres da cultura luso-francesa. O último volume laudatório é o volume XXXI, uma homenagem ao Professor Adrien Roig, da Universidade de Montpellier, coordenado por Claude Maffre. Temáticas Abordadas Lembre-se que, como objectivo inicial desta revista, constava a publicação de estudos de história, de literatura e de arte, “na sua feição autónoma e comparada”, tendo como exclusivo domínio as ciências humanas. Nesse sentido, após a análise atenta desta colectânea, observamos que, relativamente a esta tríade de principais temas-problemas objectivados, a arte foi aquele que ficou mais aquém. Em termos de periodização, podemos salientar que o período histórico com maior representatividade seria a época moderna, em mercê dos variados estudos concernentes à cultura, à história e à literatura renascentista portuguesa. Contudo, para além destes, identificam-se, nesta obra, artigos de história medieval e contemporânea. No início da sua direcção, José de Pina Martins confessa algumas reticências relativamente aos temas contemporâneos. No seu entender, os Arquivos, como revista científica, deveria ter “muita cautela” no tratamento desses temas “porque faltando-nos uma suficiente distância ou perspectiva, não possuímos o
385 lisbon historical studies | historiographica bastante recuo para uma visão exacta, tanto quanto possível objectiva, da matéria”10. Na sua opinião, a revista não deveria tratar simples contributos jornalísticos, impedindo que se tornasse “um repositório de ensaísmo superficial”. Podemos observar, no que é relativo à parte doutrinal desta colectânea, que até 1977 se observou uma grande diversificação dos temas abordados. Apesar de a literatura ter sido sempre um tema fulcral desta revista, durante este período registou-se a publicação de artigos na área da história do livro, da história ultramarina, da história religiosa, da história das ideias, da história da música, da história da arte. Do ponto de vista cronológico, observou-se um maior pendor para estudos de história moderna, embora se reconheçam apontamentos de história contemporânea. Contudo, a partir de 1978 até praticamente ao último número, salvo raras excepções, o tema literário lideraria, ocupando, em certos volumes, um peso muito superior a 50% da obra, o que suscitaria, consequentemente, uma menor diversidade ao nível dos temas históricos abordados. Lembre-se que um dos objectivos propostos por esta obra foi uma aproximação histórica de temas luso-franceses. No que seria respeitante à parte doutrinal desta obra, observamos que os temas abordados, na sua grande maioria, referiam-se unicamente à história de Portugal. Contudo, uma pequena percentagem dos artigos abordaria uma dinâmica luso-francesa, muitas vezes comparativista. Essa dinâmica foi facilmente observável entre 1969 e 1976, sendo quase esquecida entre 1977 e 1983, reaparecendo, a partir dessa data, de uma forma pontual. 10 MARTINS, José de Pina – “Introdução”, Arquivos do Centro Cultural Português. Lisboa/Paris, vol. VII (1973), p. 9.
386 historiografia e res publica Gráfico 4: Distribuição temática dos artigos da secção doutrinal (1969-1993). Gráfico 5: Distribuição do total de artigos concernentes à história comparada entre Portugal e França e à História de Portugal (1969-1993).
387 lisbon historical studies | historiographica No que é respeitante à secção informativa desta obra, de estudos e documentos, observamos que, nos números iniciais, registou-se um cuidado em dosear com semelhante peso a publicação de notas e fontes relacionadas com a história comparada entre Portugal e França e com a história portuguesa. Anotese que no primeiro número, datado de 1969, a grande maioria das análises de fontes publicadas seriam relacionadas com esta dinâmica comparativa, como seria o caso, a título de exemplo, do artigo de Joaquim Veríssimo Serrão intitulado Alguns documentos de Bordéus referentes a Portugal. Contudo, esta situação não mais se observaria, passando esta secção a ser essencialmente preenchida pela publicação de notas e fontes portuguesas, reaparecendo esporadicamente alusões a notas e fontes luso-francesas, perdendo-se assim, uma certa feição comparante. Tal pendor parece apenas ressurgir na década de 1990, sob a direcção de Maria de Lourdes Belchior. Os Colaboradores Em termos globais, durante o período em estudo, cerca de 44% do total de colaboradores desta revista seriam portugueses, seguidos pelos franceses, na ordem dos 35%. Esta diversificação foi tornada clara desde 1979, quando o então director da publicação, José de Pina Martins, explicava esta escolha, de um maior número de colaboradores portugueses, seguido por um número bastante considerável de investigadores franceses, pelo facto de esta ser uma revista portuguesa e ter a sua sede em França. Se a grande maioria dos colaboradores desta revista possuíam nacionalidade portuguesa e francesa, observaram-se, contudo, colaborações de autores de várias nacionalidades, estudiosos da cultura portuguesa no mundo. Registou-se significativamente a colaboração de autores de nacionalidade brasileira, espanhola, inglesa, americana e italiana. Inscreveram-se, da mesma forma, colaborações pontuais de autores argelinos, arménios, turcos, polacos, belgas, chineses, israelitas, ingleses, holandeses, romenos e alemães. Relativamente aos colaboradores portugueses, na sua grande maioria eram autores radicados em Portugal. Contudo, cerca de 25% destes laboravam no estrangeiro. Sendo uma revista aberta a contribuições de académicos e a outros
388 historiografia e res publica investigadores não filiados em universidades, os colaboradores portugueses eram, na sua maioria (64%), académicos. Como José Pina Martins afirmou, “a qualificação universitária dos colaboradores tem interesse, mas não é indispensável”11. Nesse sentido, as instituições mais representadas eram a Universidade de Lisboa, através da sua Faculdade de Letras (com 30% das ocorrências), a Universidade do Porto (14%) e a Universidade Nova de Lisboa (12%). Gráfico 6: Distribuição percentual dos colaboradores por nacionalidades (1966-1993). 11 MARTINS, José de Pina, op. cit, p. 10.
395 lisbon historical studies | historiographica Gráfico 11: Evolução comparada do total de artigos em língua francesa e em língua portuguesa (1969-1993). Estilos e Influências Historiográficas Como já verificámos, uma considerável parte dos colaboradores desta publicação eram lusitanistas, na sua maioria franceses, espalhados um pouco por todo o mundo. Não será, pois, de estranhar que a generalidade dos temas abordados por esta publicação se resuma à história da literatura e à literatura, uma zona privilegiada destes estudiosos da cultura portuguesa, resultando em muito dos diversos leitorados espalhados por universidades estrangeiras, direccionados para uma visão predominantemente literária da história. Podemos considerar que a principal linha de investigação dos autores de nacionalidade francesa foi, como não poderia deixar de ser, a história da literatura, demonstrando especial interesse pela época renascentista, sobretudo pela obra de Camões. Contudo, outros temas foram objecto de investigação por parte destes, muitas vezes centrados na época contemporânea e na história da arte. Como já destacámos, existiu também uma forte colaboração, nesta publicação, de autores brasileiros e espanhóis. De facto, não era novo o forte
396 historiografia e res publica contributo de investigadores brasileiros, observando-se um intercâmbio cultural nomeadamente ao nível da história literária e da história ultramarina desde o século XIX. No que diz respeito a esta publicação, os autores brasileiros nela incluídos interessaram-se sobretudo por história da literatura, mas também demonstraram interesse por temas de história contemporânea e história da língua portuguesa. Se uma forte colaboração brasileira, nesta publicação, não foi surpreendente, o mesmo não se poderá considerar da colaboração espanhola. De facto, no país vizinho, os lusófilos e lusitanistas nunca foram de grande relevo e os existentes sempre se posicionaram no âmbito da língua e da literatura. Nesta obra, contudo, a sua presença é deveras assinalável, observando-se uma clara propensão destes para temas da história da língua, história literária e, no seio desta, a época renascentista e os trabalhos de Camões, mas também um interesse diversificado sobre temas de história contemporânea, da União Ibérica e da Inquisição. Pode ser esta, possivelmente, mais uma prova de uma nova dimensão do lusitanismo em Espanha a partir, sobretudo, da década de 1980. Não podemos deixar ainda de assinalar a colaboração de autores anglosaxónicos e italianos. Se os contributos italianos se debruçaram sobre temas literários, a colaboração anglo-saxónica demonstrou um grande dinamismo. Existe a ideia de que os historiadores ingleses e americanos possuem uma grande propensão para o estudo da época dos Descobrimentos e da Expansão. Contudo, no seio desta obra, embora a maioria destes autores se interessassem por história da literatura, observou-se uma diversidade de temas abordados, como o interesse pela história da arte, pela historiografia portuguesa ou pela presença dos portugueses no Oriente. Numa primeira análise, observamos, no seio desta publicação, uma clara aproximação entre história e literatura, que se torna mais consistente a partir de meados da década de 1970. Esta aproximação é observável a vários níveis, num interesse pela biografia dos grandes cronistas, pela história do teatro, pela história da literatura luso-francesa, pela divulgação de edições desconhecidas de textos literários, pelas análises bibliográficas de autores e algumas descobertas neste campo. Muitas vezes, as obras literárias são percepcionadas, nesta publicação, enquanto fontes históricas. A literatura transparece como expressão de uma cultura nacional. A literatura mergulha na história à sombra das comemorações do passado.
397 lisbon historical studies | historiographica Presente nesta publicação, nota-se uma clara expressão ritualista de evocar o passado, principalmente através do recurso a tributos e homenagens a grandes escritores desaparecidos, desenvolvida numa secção própria, observável a partir de 1985. Contudo, assinala-se também uma homenagem aos organismos vivos, quer se tratem de pessoas ou instituições, como comprovam os diversos números especiais de homenagem a lusitanistas por ocasião da sua jubilação, ou o número comemorativo dos vinte e cinco anos do Centro Cultural Português. Poderemos, da mesma forma, questionar a importância que as recensões críticas assumem no seio desta publicação. Considerada pelos vários directores como o segmento mais pobre, acabaria por desaparecer após uma sublinhada perda de preponderância no seio da obra. A razão dessa ausência parecia centrar-se numa colaboração limitada por parte dos autores, avessos à redacção deste tipo de artigos, e numa falta de espaço em mercê da elevada extensão das restantes rubricas, o que revelaria uma clara opção pela sua exclusão. Esta análise, contudo, não conclui por uma ausência de debate crítico no seio deste periódico. Pelo contrário, ele verifica-se na grande maioria dos artigos publicados, observando-se, por vezes, uma crítica impregnada de certezas, como a patente em Roger Bismut ou Aníbal Pinto de Castro, no debate historiográfico sobre a autenticidade da tragédia A Castro, da autoria de António Ferreira. É interessante observar uma diferenciação de estilos no seio desta publicação. Na sua fase inicial, sob direcção de Joaquim Veríssimo Serrão, ainda durante o Estado Novo, observamos uma linha focada numa história crítica, produzida em grande parte por investigadores portugueses, em língua portuguesa, dedicada a uma diversidade de temas, em que a literatura está presente, mas de uma forma diluída em relação a outras temáticas. Nos primeiros volumes encontra-se uma variedade de temas históricos, observando-se uma preocupação no desenvolvimento de temáticas, fontes e notas luso-francesas, numa perspectiva comparativista. É ainda uma revista com pouca abertura internacional, mas cultiva uma historiografia problematizante e crítica, valorizando, não obstante, os temas lusos. Com o advento do período democrático, a partir de 1974, e a direcção de José de Pina Martins, observaram-se algumas alterações a este modelo. À medida que a revista se abria em termos de colaborações internacionais, a análise crítica e
398 historiografia e res publica aprofundada patente na parte doutrinal seria ultrapassada, em termos de número de artigos e de importância, pela superficialidade da secção divulgativa de notas e de fontes, numa maior importância dada à heurística do que à hermenêutica. Consolidando esta visão, observamos o progressivo decréscimo do número de recensões críticas, abertas a obras e a críticos estrangeiros, ao passo que se notava um ganho de envergadura da publicação. O número de colaboradores franceses igualava o número de colaboradores portugueses e a língua francesa ganhava peso, muitas vezes ultrapassando a língua portuguesa. A imbricação entre história e literatura tornava-se mais forte, diminuindo a diversidade de temas abordados. José de Pina Martins admitia um certo distanciamento da história contemporânea, em virtude de uma possível perda da qualidade do discurso historiográfico, diluído em superficialidade. Da mesma forma, paulatinamente, afasta-se do comparativismo luso-francês. Os Arquivos tornam-se numa revista de cariz internacional, aberta ao mundo. Inauguram-se os números de homenagem a lusitanistas e a grandes vultos das Letras portuguesas, como Camões, instalando-se as ritualizações do passado. Sob a direcção de José Augusto França, observamos uma intensa aproximação entre história e literatura e história e linguística. A literatura passa a ser o principal tema desta publicação, sendo pouca a abertura a outras temáticas. As recensões críticas desaparecem quase por completo. Contudo, a secção doutrinal fortalecese em relação à secção informativa, ganhando maior profundidade. Instalam-se as ritualizações memorialistas, nomeadamente a partir de 1985, quando se funda uma secção, primordial, intitulada “Homenagens e Comemorações”. A maioria dos colaboradores seriam de nacionalidade francesa e a revista passava a ser, na generalidade, constituída por artigos escritos na língua de Flaubert. Entre 1989 e 1993, com Maria de Lourdes Belchior na direcção do Centro e da revista poucas alterações a este panorama seriam observáveis. Nesta obra, a história parece resumir-se a uma disciplina literária, muitas vezes fundindo-se com ela. Observa-se uma transição entre uma história tradicional, de tendência erudita, onde o primado das fontes documentais tradicionais e literárias era uma realidade, e uma história que se renova, cultora de um forte sentido crítico. Contudo, no período estudado, é interessante verificar que, mesmo com a presença de um forte número de colaboradores estrangeiros, nomeadamente franceses, não
399 lisbon historical studies | historiographica se observaria a penetração das grandes correntes historiográficas em voga. Tal poderá explicar-se, possivelmente, por uma maior ligação dos colaboradores à literatura do que à história. A partir de 1994, os Arquivos do Centro Cultural Português alterariam a sua titulatura, passando a denominar-se Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em mercê da alteração da designação do respectivo centro de investigação. Contudo, apesar da mudança de denominação, nos anos posteriores, a publicação manteve as características abordadas. Maria de Lourdes Belchior continuou a dirigir a publicação até 1997, pouco antes do seu falecimento. Os números de homenagem mantiveram-se até 1998. Em 1995, a revista homenageou Fréderic Mauro, num número coordenado por Guy Martinière e, em 1998, foi a vez de homenagear a mulher que dirigiu o Centro de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian durante oito anos, Maria de Lourdes Belchior, no momento do seu afastamento. Em 1999, a direcção da revista passou para as mãos de Francisco Bethencourt. Na entrada do novo milénio, a publicação alterou por completo a sua organização, passando a compor-se por volumes temáticos, redigidos hegemonicamente na língua francesa. Os temas abordados extrapolariam, como sempre o fizeram, a temática histórica, valorizando o tema político, literário, sociológico, artístico, cultural, antropológico... Os colaboradores portugueses perderiam preponderância em benefício dos colaboradores franceses e de outras nacionalidades. Se os novos tempos de mudança do Portugal contemporâneo passaram incólumes nesta publicação, o virar do século, contudo, imprimiu um processo de consolidação e uma renovação que se impunha.
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401 lisbon historical studies | historiographica SERRÃO, Joaquim Veríssimo - “O Centro Cultural Português de Paris: O Meu Testemunho a Vinte e Quatro Anos de Distância”, Arquivos do Centro Cultural Português: 25 Anos do Centro Cultural Português. Lisboa/Paris: F.C.G., Vol. XVII, (1990), pp. 3-27; Cf. TAVANI, Giuseppe – Aurelio Roncàglia. Enciclopedia Italiana – V Appendice [Em linha] (1994). [Consult. 8 Janeiro 2016]. Disponível na Internet: <URL: http://www. treccani.it/enciclopedia/aurelio-roncaglia_(Enciclopedia-Italiana)/> TORGAL, Luís Reis et al. - História da História em Portugal: Séculos XIX-XX. [s.l.]: Temas e Debates, 1998. WILLIS, Clive – Professor Harold Livermore: Historian of Iberia who wrote the prizewining ‘A History of Portugal’. Independent. [Em Linha] (2010). [Consult. 8 Janeiro 2016]. Disponível na Internet: <URL: http://www.independent.co.uk/news/ obituaries/professor-harold-livermore-historian-of-iberia-who-wrote-the-prizewinning-a-history-of-portugal-1916406.html>