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Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas

Reis, Pedro,Baptista, Mónica,Tinoca, Luís,Linhares, Elisabete

Abstract

Esta pesquisa quantitativa avalia o impacto das exposições desenvolvidas pelos alunos de ciências no âmbito do projeto IRRESISTIBLE – sobre as dimensões de Investigação e Inovação Responsáveis de controvérsias sociocientíficas – nas percepções dos alunos sobre as suas competências científicas e as aulas de ciências. Um questionário com pré e pós-teste foi desenvolvido, validado e aplicado a alunos de 10 países. A análise estatística indica que os alunos melhoraram as percepções sobre: 1) as suas competências de desenvolvimento de exposições como forma de conscientizar sobre temas relacionados à ciência, tecnologia e sociedade; 2) a relevância social das aulas de ciências. Como conclusão, discutem-se as potencialidades educativas desta estratégia educativa no ensino da Química.

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Pedro Reis Instituto de Educação da Universidade de Lisboa [email protected]isboa.pt Mónica Baptista Instituto de Educação da Universidade de Lisboa [email protected] Luís Tinoca Instituto de Educação da Universidade de Lisboa [email protected]lisboa.pt Elisabete Linhares Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (UIDEF) [email protected] Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional POTENCIALIDADES EDUCATIVAS DO DESENVOLVIMENTO PELOS ALUNOS DE EXPOSIÇÕES INTERATIVAS SOBRE CONTROVÉRSIAS SOCIOCIENTÍFICAS RESUMO Esta pesquisa quantitativa avalia o impacto das exposições desenvolvidas pelos alunos de ciências no âmbito do projeto IRRESISTIBLE – sobre as dimensões de Investigação e Inovação Responsáveis de controvérsias sociocientficas – nas percepções dos alunos sobre as suas competências científicas e as aulas de ciências. Um questionário com pré e ps-teste foi desenvolvido, validado e aplicado a alunos de 10 países. A análise estatística indica que os alunos melhoraram as percepções sobre: 1) as suas competências de desenvolvimento de exposições como forma de conscientizar sobre temas relacionados  ciência, tecnologia e sociedade; 2) a relevância social das aulas de ciências. Como conclusão, discutem-se as potencialidades educativas desta estratégia educativa no ensino da Química. Palavras-chave: Controvérsias sociocientíficas. Exposições interativas. Percepções dos alunos. Ativismo. Investigação e inovação responsáveis. EDUCATIONAL POTENTIALITIES OF STUDENTSCURATED INTERACTIVE EXHIBITIONS ABOUT SOCIOCIENTIFIC ISSUES ABSTRACT This quantitative research evaluates the impact of the exhibitions developed by science students under the scope of IRRESISTIBLE project – about the Responsible Research and Innovation dimensions of socioscientific issues – on the students' perceptions about their scientific competences and science classes. A preand post-test questionnaire was developed, validated and applied to students from 10 countries. Statistical analysis indicates that students improved perceptions about: 1) their skills in developing exhibitions as a way of raising awareness about topics related to science, technology and society; 2) the social relevance of science classes. As a conclusion, the educational potential of this educational strategy in the teaching of Chemistry is discussed. Keywords: Socioscientific issues. Interactive exhibitions. Students’ perceptions. Activism. Responsible research and innovation. Submetido em: 11/10/2021 Aceito em: 11/10/2021 Publicado em: 30/11/2021 https://doi.org/10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 Vol. 13 | Número Especial 2 | 2021 Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 2 1 INTRODUÇÃO A humanidade enfrenta muitos problemas graves como as alterações climáticas, a poluição causada pelos resíduos plásticos, a acidificação dos oceanos e a segurança alimentar, todos os quais podem ser tratados com processos de fabrico responsáveis (RATINEN et al., 2018). É desejável que estes e outros temas de investigação de ponta controversos – controvérsias sociocientíficas – sejam discutidos nas aulas de química pelos professores. Contudo, introduzir estas controvérsias sociocientíficas na sala de aula obriga a uma dinâmica bem diferente de uma aula de química expositiva, implicando que o professor mude a sua própria forma de ensinar e quebre a rotina dos seus alunos (LOUGHRAN et al., 2006; REIS, 2021). Assim, apesar dos benefícios da discussão destas questões, é importante compreender como os alunos lidam com esta forma de entender o processo de ensino-aprendizagem que obriga a quebrar com práticas rotineiras, com imagens do que é ser aluno e até com formas mais tradicionais de aprender (e.g., aprender conceitos de química reproduzindo-os). Uma das formas de trabalhar estes temas com os alunos é a partir da realização de exposições interativas dos seus trabalhos, envolvendo-os em ações coletivas (LINHARES; REIS, 2017, 2019, 2020; REIS, 2014, 2020). A finalidade deste artigo é, pois, avaliar o impacto de exposições realizadas por alunos no quadro de um projeto europeu – IRRESISTIBLE – sobre as dimensões de Investigação e Inovação Responsáveis de temas de investigação de ponta (controvérsias sociocientíficas) – nas suas perceções relativamente às suas competências e às aulas de ciências. Os resultados mostram que os alunos pertencentes a diferentes países melhoraram as percepções sobre: 1) as suas competências de desenvolvimento de exposições como forma de conscientizar sobre temas relacionados com a ciência, tecnologia e sociedade; 2) a relevância social das aulas de ciências. Desta forma, a prática das exposições revelou ter potencialidades educativas para o ensino de controvérsias sociocientíficas que envolvem a química. 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA O Projeto IRRESISTIBLE (FP7-SCIENCE-IN-SOCIETY-2013-1, Atividade 5.2.2; Bolsa n. 612367; mais pormenores em http://www.irresistible-project.eu/index.php/en/) teve como objetivo envolver professores, alunos e o público no processo de Investigação e Inovação Responsáveis (IIR), promovendo tanto a construção de conhecimentos sobre temas de investigação de ponta (e controversos) como a discussão acerca dos critérios que Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 3 estes processos de investigação e inovação devem respeitar para serem considerados responsáveis (APOTHEKER et al., 2017). Cada um dos doze parceiros (de dez países diferentes) desenvolveu uma Comunidade de Aprendizagem – incluindo professores de ciências, formadores de professores, cientistas de áreas científicas selecionadas e especialistas de centros e museus de ciências – com o objetivo de apoiar alunos e professores através de uma estratégia de Educação Científica Baseada em Investigação (do inglês Inquiry-Based Science Education - IBSE) centrada em controvérsias sociocientíficas de vanguarda. Estas estratégias IBSE – organizadas em conformidade com o modelo de ensino 5E (BYBEE, 2002): Engage (Envolver), Explore (Explorar), Explain (Explicar), Elaborate (Elaborar) e Evaluate (Avaliar) – permitiram aos alunos identificar as dimensões controversas de cada tópico de investigação, sensibilizar para a IIR e obter os conhecimentos necessários para o desenvolvimento de uma exposição científica interativa sobre esse tópico (um E extra – Exchange (Intercâmbio) – acrescentado pelo projeto IRRESISTIBLE ao modelo 5E) (BLONDER et al., 2017). A reflexão sobre as dimensões de IIR de cada tópico de investigação de ponta foi orientada pelos aspetos definidos por Hilary Sutcliffe no seu relatório sobre Investigação e Inovação Responsáveis (SUTCLIFFE, 2011): a) Envolvimento – participação conjunta de investigadores, indústria e sociedade civil no processo de investigação e inovação; b) Igualdade de género – envolvimento igual de homens e mulheres; c) Educação científica – educação criativa para promover as necessidades futuras da sociedade; d) Ética – a necessidade de respeitar os direitos fundamentais e os mais elevados padrões éticos; e) Acesso aberto – assegurar o acesso livre aos resultados da investigação financiada com fundos públicos; f) Governação – a responsabilidade dos decisores políticos de desenvolverem modelos harmoniosos para a IIR. Vários destes aspetos representam uma forte contribuição não só para a IIR mas também para um futuro melhor e mais sustentável para todos, permitindo abordar alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (RIECKMANN, 2017; NAÇÕES UNIDAS, 2015): Objetivo 4 – Educação de qualidade como requisito para equipar os cidadãos com os instrumentos necessários para desenvolver e discutir soluções inovadoras para os maiores problemas do mundo; Objetivo 5 – Igualdade de género como um direito humano fundamental assegurando a participação das mulheres e moças em todos os níveis da sociedade; Objetivo 9 – Tecnologia e inovação, orientadas pela responsabilidade, são a base do desenvolvimento; Objetivo 13 – Ação climática requer Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 4 investigação e inovação responsáveis orientadas para as energias renováveis e para uma economia com baixo teor de carbono. De acordo com o Plano de Ação Ciência e Sociedade (COMISSÃO EUROPEIA, 2002), a participação conjunta e inclusiva de todos os atores sociais é uma condição fundamental para assegurar a compatibilidade entre os processos e produtos da investigação e inovação e, os valores, necessidades e expectativas da sociedade europeia. Devido ao financiamento público de muitos programas de investigação, assume-se que os governos e outras entidades têm a responsabilidade moral de permitir (e promover) o envolvimento dos seus cidadãos nos processos de tomada de decisões sobre o significado e o objetivo da investigação e da inovação. As exposições desenvolvidas pelos alunos foram realizadas em diferentes contextos – escolas, universidades, centros de ciência, museus e locais públicos – e foram assumidas como uma estratégia de ativismo. Através destas exposições, os alunos informaram e alertaram a comunidade sobre as controvérsias sociocientíficas que investigaram, e desencadearam a discussão sobre as condições necessárias para assegurar práticas responsáveis de investigação e inovação nessas áreas. As exposições realizaram-se como ações coletivas de resolução democrática de problemas, capacitando os alunos como críticos e produtores de conhecimento, em vez de os colocar no simples papel de consumidores de conhecimento (LINHARES; REIS, 2017; REIS, 2014, 2020; REIS; MARQUES, 2016; MARQUES; REIS, 2017). As controvérsias sociocientíficas podem ser definidas como “ciência quente”, centrada na simetria entre vários interesses e perspetivas relacionados com questões controversas (DELICADO, 2009; KELLY, 2010; MEYER, 2010). As exposições sobre controvérsias sociocientíficas constituem uma consequência da mudança do significado da alfabetização científica de (1) compreensão dos produtos e processos da ciência para (2) uma compreensão das complexas interações entre ciência, tecnologia e sociedade que permite a análise crítica dos cidadãos e o seu envolvimento em controvérsias sociocientíficas e processos de tomada de decisão (HENRIKSEN; FROYLAND, 2000; HODSON, 1998; KOSTER, 2010; RENNIE; STOCKLMAYER, 2003; ROBERTS, 2007). Estas exposições representam um desafio para os envolvidos no seu desenvolvimento (CAMERON, 2012). A sua ênfase na compreensão de questões complexas e em competências de tomada de decisão requer exposições que questionem os impactos sociais, económicos, políticos e éticos das propostas científicas e tecnológicas na vida quotidiana dos visitantes e que apresentem as opiniões dos diferentes atores sociais sobre as mesmas (RODARI; MERZAGORA, 2007). Os visitantes são convidados a participar Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 5 ativamente no desenvolvimento das suas próprias perspetivas críticas e desafiados a participar em ações coletivas (BANDELLI; KONIJN, 2015; CAMERON, 2012; CHRISTENSEN et al., 2016; MEYER, 2010; PEDRETTI, 2002, 2004). Este tipo de exposição não fornece respostas corretas; suscita questões, discussão aprofundada e pensamento crítico (CHRISTENSEN et al., 2016; MEYER, 2010; PEDRETTI, 2004; QUISTGAARD; KAHR-HOJLAND, 2010). Representa um contexto e um pretexto para discussão entre os autores, os visitantes e outros intervenientes sociais, transformando-os a todos em aprendizes (BRAUND; REISS, 2004). Pedir aos alunos para realizarem uma exposição sobre uma controvérsia sociocientífica pode ser particularmente útil para: a) aprender sobre os conteúdos, os processos e a natureza da ciência e tecnologia (HAMMERICH, 2000; KOLSTØ, 2001); b) destacar uma ciência limite, controversa, preliminar, incerta e em debate (LEVINSON, 2006); c) desenvolver as competências dos alunos em matéria de investigação, questionamento, discussão, colaboração, autonomia, criatividade, comunicação, gestão de projetos e produção de objetos multimedia (KAMPSCHULTE; PARCHMANN, 2015; SLEEPER; STERLING, 2004); d) promover o desenvolvimento cognitivo, social, político, moral e ético dos alunos (KOLSTØ, 2001; MILLAR, 1997; SADLER, 2004); e) criar uma oportunidade para os alunos participarem em (e instigarem) ação comunitária sobre controvérsias sociocientíficas (LINHARES; REIS, 2017) – uma dimensão importante da alfabetização científica (HODSON, 1998; ROTH, 2003); f) passar de uma avaliação centrada em produtos para uma avaliação centrada nos processos (BLONDER, 2018; LINHARES; REIS, 2017). Durante os últimos vinte anos, são vários os estudos que se têm centrado em como desenvolver exposições baseadas em controvérsias sociocientíficas, sugerindo algumas orientações ou princípios de desenho, tais como estimular a curiosidade, apresentar uma narrativa interessante, desafiar os visitantes e estimular a sua participação (COOKS, 1998; KELLY, 2010; PEDRETTI, 2002, 2004; SKYDSGAARD et al., 2016). No âmbito do projeto IRRESISTIBLE, e tendo em mente a novidade do desenvolvimento de exposições para a maioria dos parceiros, foi criado um guia através de uma abordagem de investigação baseada em desenho. Esta metodologia foi utilizada com o objetivo de desenvolver uma ferramenta que pudesse ajudar a melhorar as práticas educativas, através de análise iterativa, conceção, desenvolvimento e implementação, baseada na colaboração entre investigadores e profissionais – os membros do projeto – em cenários do mundo real (WANG; HANNAFIN, 2005). Ao longo deste processo, uma sequência de várias iterações – análise de literatura; testagem e avaliação dos diferentes cenários interativos, propostos Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 6 no protótipo do guia, durante um workshop com formadores de professores, professores de ciências e peritos de museus de ciências dos diferentes países envolvidos no projeto; teste e avaliação do protótipo do guia por todos os parceiros IRRESISTIBLE – permitiu a evolução do protótipo até à versão final do guia. Cada iteração permitiu recolher feedback e sugestões de melhoramento. A versão final – disponibilizada em vários formatos: pdf, revista eletrónica e e-book – foi organizada em torno das secções seguintes: 1) Potencial de exposições sobre Investigação e Inovação Responsáveis; 2) Diferentes fases no desenvolvimento de uma exposição; 3) Características de uma exposição interativa e de um objeto interativo; 4) Possíveis cenários de interatividade para exposições; 5) Orientações gerais para todos os cenários; 6) Avaliação do impacto de exposições IRRESISTIBLE em professores, alunos e visitantes. O conceito de interatividade utilizado neste projeto não requer, necessariamente, a presença de tecnologia, mas, em vez disso, requer necessariamente a interação entre os visitantes dentro da exposição e entre estes e os objetos que estão a ser expostos (HEATH et al., 2005; TSITOURA, 2010; WAGENSBERG, 2001). Esta interação não requer qualquer movimento físico – a interação entre o visitante e o objeto existe mesmo que o visitante esteja apenas a pensar e a refletir sobre o estímulo do objeto (BILDA; EDMONDS, 2008; HINDMARSH et al., 2005). 3 METODOLOGIA Esta investigação quantitativa teve como objetivo avaliar o impacto do desenvolvimento das exposições IRRESISTIBLE – sobre as dimensões de IIR de temas de investigação de ponta (controvérsias sociocientíficas) – nas perceções dos alunos relativamente às suas competências e às aulas de ciências. Um questionário on-line foi desenvolvido, validado e aplicado aos alunos participantes no projeto antes e após a realização da exposição. O questionário foi respondido por um total de 3368 alunos no pré-teste (aplicado antes do desenvolvimento das exposições pelos alunos) e 2433 no pós-teste (aplicado após todo o processo de desenvolvimento das exposições pelos alunos) (ver Tabela 1), de um total de 7340 alunos envolvidos no IRRESISTIBLE. Turquia, Polónia e Grécia foram os países mais representados, mas Itália e Portugal também tiveram mais de 500 inquiridos cada um. Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 7 Tabela 1: Número de questionários respondidos em cada país participante. País Pré-teste Pós-teste Total por país Finlândia 277 90 367 Alemanha 226 206 432 Grécia 617 483 1100 Israel 153 59 212 Itália 513 185 698 Holanda 36 85 121 Polónia 607 501 1108 Portugal 269 276 545 Roménia 47 43 90 Turquia 623 505 1128 Total 3368 2433 5801 Fonte: Tabela elaborada pelos autores do artigo. Os participantes distribuíram-se por todos os grupos etários, como é ilustrado pela Tabela 2, tendo a maioria 15 ou 16 anos. Tabela 2: Distribuição dos participantes por país/grupo etário. País Idade 89 10 11 12 13 14 15 16 17 18+ Finlândia 0 0 20 121 173 34 0 0 0 2 4 Alemanha 0 0 0 0 0 15 67 57 110 106 75 Grécia 0 0 1 256 176 76 95 203 156 100 8 Israel 0 0 0 0 0 10 2 30 118 31 0 Itália 0 0 0 0 0 0 19 211 120 137 196 Holanda 0 0 0 0 0 0 23 47 14 26 5 Polónia 0 0 0 0 7 88 199 183 230 234 100 Portugal 41 7 30 14 3 104 83 142 93 12 1 Roménia 0 0 0 0 0 0 0 3 39 16 28 Turquia 0 0 8 116 310 217 132 150 124 64 7 Total 41 7 59 507 669 544 620 1026 1007 728 424 Fonte: Tabela elaborada pelos autores do artigo. O questionário on-line (pré e pós-teste) incluía 16 itens, a serem avaliados pelos alunos através de uma escala de cinco pontos de tipo Likert (variando entre concordar totalmente e discordar totalmente): 1. Sou capaz de planear e construir uma exposição científica sobre um tema científico atual e relevante. 2. Planear e construir uma exposição científica motiva-me. 3. O desenvolvimento de uma exposição científica sobre um determinado assunto permite-me aprender mais sobre esse assunto. 4. A construção de exposições científicas melhora as relações entre os alunos. 5. A construção de exposições científicas melhora a relação entre os alunos e o professor. Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 8 6. As TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) são grandes ferramentas para apoiar o desenvolvimento das exposições científicas. 7. Sou capaz de criar exposições de ciência como forma de sensibilizar a comunidade para as controvérsias científicas atuais e relevantes. 8. Através do desenvolvimento de exposições científicas posso influenciar as decisões e comportamentos de outros cidadãos relacionados com questões sociais sobre ciência, tecnologia e ambiente. 9. Nas minhas aulas de ciências discuto sobre problemas atuais e como eles afetam a minha vida. 10. Nas minhas aulas de ciências, desenvolvo competências que me permitem ter um papel mais ativo na sociedade. 11. Nas minhas aulas de ciências, sou encorajado a fazer perguntas. 12. Nas minhas aulas de ciências, realizo projetos que considero importantes e socialmente relevantes. 13. Nas minhas aulas de ciências aprendo a agir de uma forma socialmente responsável. 14. Nas minhas aulas de ciências, aprendo a respeitar as opiniões dos meus colegas. 15. Nas minhas aulas de ciências aprendo sobre formas de influenciar as decisões de outras pessoas sobre questões sociais relacionadas com ciência, tecnologia e sociedade. 16. Nas minhas aulas de ciências sou responsável por iniciativas que me permitem influenciar as decisões de outras pessoas sobre questões sociais relacionadas com ciência, tecnologia e sociedade. O questionário foi organizado em duas secções, cada uma delas com oito perguntas: a primeira secção sobre as exposições desenvolvidas pelos alunos (itens 1 a 8); a segunda secção sobre as aulas de ciências dos alunos (itens 9 a 16). A fim de validar as secções desenvolvidas, foi calculado o índice alfa de Cronbach para ambas. Os valores atingidos para o Alpha de Cronbach nas secções foram respetivamente .853 e .876, indicando que a consistência interna de ambos os tópicos era elevada (Alpha de Cronbach maior que .8), ilustrando a fiabilidade dos tópicos propostos. A progressão global da amostra foi calculada – teste ANOVA – a fim de detetar diferenças estatisticamente significativas entre as perceções dos alunos antes e depois da participação no projeto. Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 9 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 As exposições interativas realizadas pelos alunos No espaço de três anos do projeto IRRESISTIBLE foram desenvolvidas 218 exposições pelos parceiros, centradas em diferentes tópicos de investigação de ponta (e controversos): a) nanotecnologia (N=131); b) poluição plástica nos oceanos (N=32); c) hidratos de carbono no leite materno (N=21); d) alterações climáticas (N=13); e) oceanografia (N=7); f) ciência polar (N=7); g) geoengenharia climática (N=6); h) extensão da plataforma continental portuguesa (N=1). Estas exposições tiveram lugar, principalmente em escolas e centros de ciência: a) escola (N=139); b) centro/museu de ciência (N=70); c) universidade (N=3); d) outros (N=5). Um total de 7340 alunos estiveram envolvidos no desenvolvimento das exposições. Relativamente ao tipo de exposição, e tendo também em conta os cenários de interatividade apresentados no Guião para o Desenvolvimento de Exposições IRRESISTIBLE que foi utilizado por todos os parceiros, foi produzida uma grande variedade de artefactos. Algumas exposições foram mais homogéneas relativamente ao tipo de artefactos; outras mais ecléticas. A Tabela 3 apresenta o tipo de artefactos produzidos nas 218 exposições desenvolvidas. Tabela 3: Ocorrências de tipos de artefactos no âmbito das 218 exposições. Tipo de artefacto Número de exposições com este tipo de artefacto % De exposições com este tipo de artefacto Jogo Físico (por exemplo, jogo de tabuleiro com cartas e dados, mesa de futebol) 66 38 Digital (e.g., questionários on-line) 14 8 Poster Físico 67 39 Físico, mas 3D (cubos, objetos...) 37 22 Digital 13 8 Apresentações multimédia (por exemplo, vídeos, áudio) 37 22 Exposição na Internet /página Web/Blogue 10 6 Cartoons (digitais ou impressos) 6 3 Modelos 32 19 Experiências/demonstrações/simulações 32 19 Aplicação digital 3 2 Jornal 1 1 Livro 6 3 Play 1 1 Holograma 1 1 Protótipo 1 1 Estante IKEA (sistema EXPOneer) 31 18 Fonte: Tabela elaborada pelos autores do artigo. Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 16 IRRESISTIBLE confirmaram que a interatividade não requer, necessariamente, a presença de tecnologia. Vários artefactos, como cartazes físicos, jogos de mesa e modelos, foram bastante eficazes na promoção da interação entre os visitantes da exposição e entre estes e os objetos expostos – aspetos fundamentais de uma exposição interativa segundo Heath, vom Lehn e Osborne (2005), Tsitoura (2010) e Wagensberg (2001). De acordo com os alunos envolvidos no IRRESISTIBLE, a sua participação no desenvolvimento de uma exposição sobre uma controvérsia sociocientífica foi particularmente útil para reforçar: a) o seu conhecimento sobre essas questões e como elas afetam as suas vidas; b) as suas relações com outros alunos e com os professores; e c) as suas perceções sobre a relevância social das aulas de ciências, permitindo a discussão de questões importantes atuais. O desenvolvimento de exposições foi assumido pelos alunos como uma estratégia de ativismo, permitindo-lhes ter um papel mais ativo e responsável na sociedade, influenciando as decisões e comportamentos de outros cidadãos sobre controvérsias relacionadas com a ciência, a tecnologia e o ambiente, que são relevantes para a sociedade. Os resultados obtidos, apoiam o poder das exposições desenvolvidas pelos alunos sobre temas de investigação de ponta (e controversos) como contexto para o empoderamento dos alunos como decisores e ativistas relativamente ao processo de Investigação e Inovação Responsáveis. Através destas exposições, os alunos sentiram-se mais competentes em (1) informar outros cidadãos sobre a controvérsia sociocientífica que investigaram, (2) envolvê-los na discussão sobre as condições necessárias para assegurar práticas responsáveis de investigação e inovação nessas áreas, e mesmo (3) desafiá-los a participar em ações coletivas destinadas a promover essas práticas responsáveis. Desta forma, as exposições IRRESISTIBLE, desenvolvidas pelos alunos, constituíram uma oportunidade para os alunos participarem em (e instigarem) a ação comunitária sobre controvérsias sociocientíficas – uma característica importante das exposições sobre controvérsias (BANDELLI; KONIJN, 2015; CAMERON, 2012; CHRISTENSEN et al., 2016; MEYER, 2010; PEDRETTI, 2002, 2004) e uma dimensão importante da alfabetização científica (ALSOP; BENCZE, 2014; HODSON, 1998; REIS, 2014, 2020; ROTH, 2003). Estes resultados evidenciam que o desenvolvimento das exposições desempenha um papel importante em tornar a aprendizagem da química mais relevante aos olhos dos alunos. Estas experiências educativas permitem um ensino de química mais contextualizado, baseado em controvérsias sociocientíficas que aproximam os alunos dos problemas reais da sociedade, permitindo-lhes compreender a importância de mobilizar conhecimento científico para os resolver, e dotando-os de várias competências essenciais Potencialidades educativas do desenvolvimento pelos alunos de exposições interativas sobre controvérsias sociocientíficas Pedro Reis | Mónica Baptista | Luís Tinoca | Elisabete Linhares Debates em Educação | Maceió | Vol. 13 | No Especial 2 | Ano 2021 | DOI: 10.28998/2175-6600.2021v13nEsp2p1-21 17 para a ação fundamentada em ciência. De facto, os alunos aprendem química com uma finalidade prática e aprendem a encarar o conhecimento científico como algo que deve ser discutido e que é suscetível de servir diferentes interesses. É esta compreensão da ciência que alguns autores referem ser essencial para o cidadão fazer intervenções fundamentadas na sociedade (COLUCCI-GRAY; CAMINO, 2011). As exposições de educação estudantil desenvolvidas no âmbito do projeto IRRESISTIBLE representam uma abordagem educacional adequada à promoção do desenvolvimento sustentável, permitindo aos alunos compreender (e lidar com) as complexidades e incertezas das controvérsias sociocientíficas (MULÀ et al., 2017; TILBURY; WORTMAN, 2004). Contribuem também para a reflexão dos alunos sobre as suas responsabilidades pessoais relativamente a uma investigação e inovação responsáveis, tornando-os capazes de assegurarem um desenvolvimento sustentável e um futuro igualmente sustentável. O projeto IRRESISTIBLE foi financiado pela União Europeia como projeto FP-7 número 612367; mais detalhes em http://www.irresistible-project.eu/index.php/en/ REFERÊNCIAS ALSOP, S.; BENCZE, L. (Eds.) Activism in science and technology education. 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