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Diegese da durée bergsoniana na filosofia da natureza de R. Assunto

Pereira, Lavínia Leal

Abstract

O artigo procura esclarecer mutuamente a filosofia da natureza de Rosario Assunto, em particular a partir da sua obra magna – Il paesaggio e l’estetica –, e a natureza da durée bergsoniana – a partir das obras Essai sur les donnés immédiats de la consciente e Matière et Mémoire. Mostra-se o carácter fundamental de um pensamento da temporalidade para a constituição de uma renovada filosofia da natureza. Os critérios estabelecidos pela durée bergsoniana permitem a Assunto a elaboração dos dois conceitos-chave – temporalidade e temporaneidade – amplamente operativos para a compreensão da experiência estética da paisagem enquanto imagem espacial de uma temporalidade infinita ou meta-espacialidade, distinguindo-a da experiência temporânea da megapolis. Finalmente, pretende-se mostrar o carácter fundador da temporalidade da natureza relativamente ao tempo da cidade histórica, que a grande metrópole contemporânea tende a ocultar.

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DIEGESE DA DURÉE BERGSONIANA NA FILOSOFIA DA NATUREZA DE R. ASSUNTO Lavínia Pereira (Doutoranda em Filosofia, FLUL) “Que raízes se prendem, que ramos crescem Neste entulho pedregoso? Filho do homem, Não consegues dizer nem adivinhar, pois conheces apenas Um montão de imagens quebradas, onde bate o sol, E a árvore morta não dá qualquer abrigo, nem o grilo alívio, Nem a pedra seca qualquer ruído de água. Apenas Há sombra debaixo desta rocha vermelha.” T. S. Eliot, A Terra Devastada 1. A agonia da natureza e o “tempo esquecido”: odisseia contemporânea numa terra devastada É na obra fundamental de Rosario Assunto – Il paesaggio e l’estetica – que encontramos uma reflexão que recoloca a natureza no centro de uma reflexão estética, onde contemplação é simultaneamente prazer estético e fruição de si, formas privilegiadas duma experiência integral, aberta por um sentimento vital. Como ponto de partida para esta reflexão fundamentalmente estética, com implicações valiosas para uma filosofia da natureza, descobrimos nessa obra maior de Assunto uma meditação inaugural acerca da questão da temporalidade. Respirando uma atmosfera claramente bergsoniana, esta preocupação de Assunto será, como nos propomos aqui mostrar, de importância chave para a constituição de uma filosofia da natureza inteiramente renovada. É no contexto de uma ontologia e teleologia da paisagem e do jardim, inauguradas por Assunto, que procuramos compreender de que forPhilosophica, 32, Lisboa, 2008, pp. 53-67 54 Lavínia Pereira ma a reflexão em torno da temporalidade contribui para uma renovada filosofia da natureza; por meio da consideração da paisagem, e da sua especificidade enquanto meta-espacialidade, imagem extensiva e simultânea de uma temporalidade infinita. Assumindo que esta especificidade introduz um critério inovador de observação dos modos de constituição da imagem própria de cada espaço determinado, preciosa nomeadamente para a consideração do carácter particular dos espaços urbano e industrial, na relação que em si mesmos estabelecem com uma temporalidade infinita. O diagnóstico da cidade industrial – a megapolis – enquanto espaço de manipulação, produção e consumo, no interior de uma lógica de aniquilamento, somente se torna possível tendo por base a especificidade da sua relação com a temporalidade. É isso mesmo que confirmamos quando Assunto, na sua obra Il paesaggio e l’estetica, num capítulo intitulado “Il tempo smemorato”1, pretende pensar a experiência do mundo contemporâneo, como experiência dominada pela organização estrutural e sociológica da megapolis, expoente máximo do triunfo tecnológico e mecânico, organizado em função da produção e do uso das matérias primas como objectos de um processo de contínua transformação. Na filosofia bergsoniana Assunto encontra as distinções capazes de elucidar o fenómeno do espaço sem memória no qual a urbe contemporânea constitui. Entre o espaço (geométrico) e o tempo interior (durée), isto é, entre quantidade manipulável e qualidade heterogénea, surgem os termos propriamente assuntianos para a valorização da paisagem, e do jardim, como categorias estéticas capazes de sintetizar e superar os equívocos dualistas que geralmente ocupam o espaço de discussão em torno da concepção de natureza e paisagem, dentro e fora do espaço filosófico, a saber, as noções de objectivo e subjectivo; ética e estética; sensibilidade e razão. As distinções bergsonianas permitem a Assunto a formulação de um critério de compreensão da meta-espacialidade (como imagem finita de uma temporalidade infinita) renovadora da paisagem, por contraposição com o espaço de manipulação e serialização da indústria, onde a densidade temporal se desvanece dando lugar à efemeridade de um “mesmo” presente, que se repete imperturbável. O “tempo esquecido”, tempo urbano não histórico mas industrial, é um tempo rectilíneo e sucessivo onde nada se conserva e tudo se dissipa na forma do uso; eis o domínio da homogeneidade perfeita, onde o ritmo sucessivo da produção substitui a duração própria do aparecer da singularidade – somente permitida pela ocorrência de um tempo qualitativo propriamente dito. 1 R. Assunto, «Il tempo smemorato», in Il paesaggio e l’estetica (1973), Palermo, Edizioni Novecento, 2005, pp. 76-78. Diegese da durée bergsoniana na filosofia da natureza de R. Assunto 55 Não ousando colocar o pensamento de Assunto na dependência das categorias bergsonianas, poderíamos no entanto dizer que a sua reflexão é, por sua vez, retroactivamente esclarecedora da intuição chave do pensamento da durée, na medida em que enfatiza as consequências metafísicas e existenciais do abandono definitivo de uma relação essencial com a dimensão temporal, específica da natureza e da vida, nos seus ritmos próprios. O abandono da especificidade e complexidade dessa relação implica – como Bergson compreendera – a falência de uma ideia de natureza com valor criativo e inclusivo, onde a própria duração humana, histórica e individual, está enraizada. “Senza la natura moriremo!” – é a advertência de Assunto diante do esgotamento técnico e civilizacional, pessoalmente presenciado2. O desígnio da investigação de Bergson em torno do tempo, que tem início no Ensaio sobre os dados imediatos da consciência e se prolonga na Evolução Criadora, através da questão vital, surge aqui de forma clarividente. A analítica da durée não tratava de uma oposição simples entre a interioridade qualitativa da consciência e a exterioridade quantitativa do espaço: na verdade, a distinção operada entre espaço e tempo traduzia um movimento bastante mais vasto e filosoficamente significativo. A distinção entre o modelo da espacialidade geométrica e o modelo da temporalidade como fenómeno absoluto, permite questionar os moldes de um “pensamento operatório” como “pensamento de sobrevoo, pensamento do objecto em geral” e assim fazer o diagnóstico dos moldes de compreensão da natureza, de acordo com um esquematismo operatório da razão, que faz daquela um suporte “naturalista” para uma manipulação técnico- -industrial3 apurada. Os limites do modelo mecanicista, perfeitamente compreendidos pelo filósofo francês, revelam a inevitabilidade do caminho para uma “terra devastada”4, de onde os valores da vida e da natureza como renovação estão definitivamente ausentes, caminho que traduz a vivência contemporânea de um mundo fragmentado, expondo a experiência humana actual ao esvaziamento e à deterioração. 2 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica (1994), Palermo, Edizioni Novecento, 2005, p. 175. 3 Cf.: “O pensamento “operatório” torna-se uma espécie de artificialismo absoluto, como vemos na ideologia cibernética, onde as criações humanas derivam de um processo natural de informação, mas ele próprio concebido a partir do modelo das máquinas humanas […] o homem torna-se verdadeiramente o manipulandum que julga ser”, in M. Merleau-Ponty, L’œil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, pp. 11-12. 4 T.S. Eliot, The Wasteland (1922). A Terra Devastada, trad. portuguesa G. Cunha, Lisboa, Relógio d’Água Editores, 1999. 56 Lavínia Pereira 2. Do “tempo esquecido” ao “tempo reencontrado”: a temporaneidade exclusiva da megapolis e a natureza como experiência de renovação À semelhança do que acontecia com Bergson, por meio de uma crítica ao cientismo e mecanicismo dominantes, quer no domínio científico quer em ambiente filosófico, a experiência do mundo contemporâneo vem a constituir no interior do pensamento de Assunto um diagnóstico pessimista, fundamentalmente elaborado a partir da experiência da especificidade do universo técnico-industrial no modo da sua relação com a temporalidade. A analítica do tempo levada a cabo por Bergson, que tomamos como referência para a esta reflexão, deixava bem claras as consequências do convencionalismo científico ao nível da compreensão filosófica da concepção de tempo, mostrando a forma como a filosofia evitava a vertigem do tempo e do movimento absolutos da dinâmica vital, em termos gerais, e dos dados imediatos da consciência, em particular. O esquecimento ou a ocultação da dimensão efectiva, e simultaneamente virtual, da temporalidade absoluta, pareciam integrar o próprio modus operandis científico, por meio da ascensão ímpar de uma razão do cálculo – uma razão mecânica – com consequências filosóficas e existenciais profundas, que passavam nomeadamente pela consideração de um universo estritamente quantificável e definitivamente previsível. Precisamente do mesmo modo que em Bergson, a advertência para uma perda irrecuperável, observável já na experiência humana contemporânea de uma deriva – onde arbitrariedade não é sinónimo de novidade – funda-se também ela numa analítica do tempo, desta feita, partindo de uma avaliação da relação dos modos de vida contemporâneos com a própria temporalidade. A experiência inteiramente assumida de um esgotamento das formas na pós-modernidade revela um fundo quer de esquecimento, quer de ocultação da temporalidade fundadora. O que reconhecemos de forma inédita em Assunto é a sua capacidade de compreender que essa ocultação de uma relação essencial com o tempo, cujas consequências observamos na vida contemporânea, tem origem precisamente no facto da ausência da natureza do domínio da nossa quotidianidade. A razão de uma decadência acelerada, que convive simultaneamente com um progresso inaudito, reside na impossibilidade de encontro com o espaço que se revela imagem original de um processo de renovação e imprevisibilidade, próprios de uma temporalidade infinita. O desenho da quotidianidade contemporânea faz-se antes por referência a um tempo sem memória nem espera – il tempo smemorato – regulando-se essencialmente pelo ritmo do trabalho de produção e do consumo, afastando o homem de uma relação essencial com a temporalidade infinita. Diegese da durée bergsoniana na filosofia da natureza de R. Assunto 57 Perante a deterioração das formas naturais e a sua ausência definitiva da megapolis, em virtude do crescimento acelerado e da predominância das zonas industriais “extra-urbanas”, que invadem as áreas circundantes da cidade propriamente dita, altera-se definitivamente a compreensão histórica da urbe por referência à coexistência espacial e imagética dos tempos históricos sucessivos. A cidade pós-histórica ou industrial é então a imagem que configura e enquadra a experiência humana contemporânea da finitude. “Finitude, o espaço da Megapolis, que é negação do infinito, resoluta e peremptoriamente, pelo qual a cidade pós-histórica, isto é, a cidade tecnológica e industrial, se contrapõe à paisagem, que é excluída e à qual vira as costas, colocando entre o seu limite extremo e toda a possibilidade de paisagem, o território extra-urbano; o qual, a respeito da paisagem é algo mais que negação, é contradição absoluta”5. A megapolis é precisamente esse espaço homogéneo de ocultação, sem retorno e sem referência, é deriva indefinida e finitude elevada, porquanto dissimula a temporalidade fundadora, na medida em que todos os seus tempos são escandidos pelo ritmo serial e homogéneo da produção e da tecnologia. A temporaneidade absoluta da megapolis é esse mesmo envelhecimento sem memória, futuro sem novidade, sem qualquer vestígio da “imortalidade da natureza”. Espaço sem referência nem enraizamento, que da terra faz tábua rasa, é pura e simplesmente urbano, não reenvia a nenhum domínio outro, constitui-se pois como espaço de mesmidade e permanência, sem recolhimento nem descanso. A megapolis constituiria a imagem típica de um tempo contemporâneo perpassado pelo murmúrio ininterrupto de um tempo neutro, um il y a, a experiência de um lugar onde a existência é apenas impessoal e irrevogável, sem descanso nem alteridade6. Uma experiência fragmentária, enredada em si, sem indício de apelo nem exterioridade, como as palavras de T.S. Eliot, reproduzidas em epígrafe, tão bem indiciavam. Somente a abertura e exterioridade da paisagem, no seu perfil estético, permitem compreender a contradição e exclusão do ritmo urbano relativamente à temporalidade infinita, enquanto ritmo da integração e do retorno, do mesmo e da novidade não contraditórios, sempre revelados no aparecer da eterna primavera. 5 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica, p. 90. 6 Fazemos aqui uma referência a E. Levinas, a partir da sua obra Le temps et l’autre (1948), Paris, PUF, 2004. Pela força da categoria filosófica de “il y a”, mas também pela concepção de alteridade que convoca no âmbito da sua ética que nos parece pertinente no contexto desta nossa reflexão, pela urgência em compreender a paisagem como espaço de alteridade e heteronomia. 58 Lavínia Pereira 3. A descoberta de uma temporalidade fundadora: da “atitude estética” como experiência de renovação A uma razão ecológica ou biológica – espécie de antídoto da ciência e da tecnologia para nos salvar do seu próprio veneno – Assunto contrapõe uma razão estética que exporá, no seu poder criativo, a dimensão da temporalidade duplamente integradora do homem e da natureza, e isto porque, “ao contrário do conceito físico, objectivo e genérico, a paisagem é integrada no âmbito dos fenómenos perceptivos [...]. [Pela contemplação estética] o elemento referencial ao observador resguarda a especificidade da natureza-paisagem distinguindo-a das noções científicas”7. Ressalvar a especificidade da natureza-paisagem, isto é, a sua alteridade, por meio de uma integridade estética, enquanto lugar de contemplação e de vida – no qual o homem está integrado – abre uma distância filosoficamente significativa relativamente àquele procedimento da pensée opératoire, para a qual o lugar natural é idêntico a um objecto x, absorvido no enunciado geral, da geofísica, da geografia, ou do urbanismo paisagístico. O modus operandis desse pensamento operatório retira à natureza o seu ser espelho da temporalidade qualitativa, enquanto virtualidade, processo onde novidade e criação traduzem a dimensão efectiva da “variável” tempo. Absorvida no ritmo da manipulação e do consumo, que caracterizam o tempo da indústria e da megapolis, o desaparecimento da paisagem, como configuração da natureza integral, e como referência última do próprio espaço urbano, anteriormente representado na meta-espacialidade da cidade histórica8, leva consigo a experiência do tempo como heterogeneidade qualitativa, sinónimo de vida e renovação. Transformada em “meio” ou “território” a paisagem passa, pelo contrário, a integrar uma lógica de domínio9, perdendo definitivamente o seu 7 A. Serrão, «Filosofia e Paisagem. Aproximações a uma Categoria Estética», Philosophica, 23 (2004), p. 93. 8 Cf. “A história que nasce da natureza e a ela regressa; a cidade que nasce na paisagem e se reconverte em paisagem: naquela paisagem que a gera e a acolhe; que é anterior e posterior à cidade, como a natureza é anterior e posterior à história: mortalidade da cidade e da história, imortalidade da natureza. […] A qual inclui em si a imagem espacial (uma espacialidade que é meta-espacialidade) da temporalidade da história: aquela temporalidade histórica na qual […] a inerência recíproca do presente, do passado e do futuro não conhece repetição e retorno, mas somente novidade e memória.”, in R. Assunto, Il paesaggio et l’estetica, pp. 104-105. 9 Cf.: “Territórios a que se chamava “províncias” [...] também eles delimitados arbitrariamente sobre a base dos princípios racionalistas do século das Luzes que, de um ponto de vista filosófico, privilegiavam o “espaço” em relação ao “tempo”, a “geografia” em relação à “história” e renegavam a memória.”, in R. Assunto, «Pay- Diegese da durée bergsoniana na filosofia da natureza de R. Assunto 59 carácter essencial. Eis os moldes no interior dos quais ocorria a passagem a uma temporaneidade urbana irrevogável, feita imagem no espaço da megapolis, como lugar de ocultação da relação essencial à temporalidade infinita: “O tempo rectilíneo, o tempo sem memória e sem espera, é o tempo da tecnologia e da sua filha a indústria. É a sucessão que nada conserva, mas tudo destrói, ao contrário da durée bergsoniana. Sucessão pura, não só sem retorno, mas também sem recordação; sucessão na qual nada se repete nada se renova. [...] Onde o futuro é programado [...] é resultado de um cálculo. Futuro sem espera: porque a sua novidade será uma falsa novidade, a novidade perfeitamente prevista, em relação à qual nada é temido, mas também nada é esperado”10. Realizada por Bergson, na sua obra de 1889, e aqui referida por Assunto, a analítica da duração psicológica, por contraposição com a convenção da espacialidade geométrica, dizia essa mesma absorção dos movimentos e dos tempos reais na igualdade quantitativa de um tempo espacial, cuja homogeneidade absorvia necessariamente a singularidade do acontecimento. A analítica do espaço, categoria social e científica, permitia-nos compreender o modo como a singularidade qualitativa de um acontecimento era quantitativamente integrada numa medida comum, por referência a um suporte homogéneo imaginário – o espaço geométrico. Esta distinção não se fundava todavia numa oposição simples entre interior e exterior mas, pelo contrário, revelava dois modos da relação entre cada um desses domínios e a temporalidade absoluta e integradora da durée; mais tarde traduzida e ampliada através da ideia de um élan vital. Descobrindo que o espaço geometricamente concebido e justaposto à experiência real do espaço, pela convenção científica e social, é um artificialismo do qual foi abolida toda a possibilidade de experiência qualitativa. Bergson mostra-nos no seu Ensaio sobre os dados imediatos da consciência11 que o problema da convenção, fundada sobre o molde das medidas comuns não é a falsidade, mas antes o facto de absorver num sistema homogéneo toda e qualquer experiência, introduzindo as singularidades e os acontecimentos únicos no domínio quantitativo do pensamento operatório. Anulando a possibilidade de uma compreensão da singularidade anula-se simultaneamente a possibilidade de consideração da alteridade, sage, lieu et territoire» (1981), Le retour au jardin. Essais pour une philosophie de la nature, 1976-1987, textes réunies et traduits de l’italien par H. Brunon, Paris, Les Éditions de l’Imprimeur, 2003, pp. 43-44. 10 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica (1994), Palermo, Edizionni Novecento, 2005, p. 76. 11 H. Bergson, Essai sur les données immédiates de la conscience (1889), Œuvres, Paris, PUF, 1959. 60 Lavínia Pereira pela referência a uma medida comum, introduzida pela ciência ou pela convenção social, segundo os mesmo critérios de uma razão intelectualista: a verdadeira diferença é anulada e o outro vem a ser dissolvido no domínio do mesmo. De acordo com o mesmo tipo de procedimento, a constituição da paisagem ou da natureza em objecto de estudo para a ciência, seja ela a biologia, a geofísica ou o urbanismo, anula a alteridade que a constitui, agrupando-a num ou noutro conjunto de objectos gerais, porquanto sem referência a uma realidade heterogénea a singularidade da paisagem natural é automaticamente apagada. A reflexão de Assunto mostra-nos precisamente que a experiência estética é, por excelência, aquela que nos permite apreender a especificidade natural da paisagem, pela sua dimensão reveladora da temporalidade infinita. É isso mesmo que a constitui como experiência de renovação, porquanto permite e revela uma relação essencial com a heterogeneidade própria de uma temporalidade criativa. Não podemos portanto concordar com a análise de M. Lima, segundo a qual Assunto “leva ao extremo a dicotomia entre paisagem e espaço urbano, assumindo que, onde um começa o outro acaba”12. Acreditamos não se tratar de uma dicotomia simples entre dois espaços de tipos diferentes, mas da relação que com eles estabelecemos, do modo como ocultam ou revelam a relação essencial entre os acontecimentos e a heterogeneidade que os constitui, enquanto fenómenos finitos de uma temporalidade infinita. Espaços temporâneos que revelam ou ocultam a dimensão fundadora de uma temporalidade infinita e que, desta forma, se constituem ou não lugares de meta-espacialidade. Quando, neste contexto, referimos a especificidade da temporalidade natural, cuja imagem se constitui na meta-espacialidade da paisagem, não podemos contrapor-lhe simplesmente a categoria do espaço urbano, como imagem de uma temporaneidade finita, que se reflecte no ser histórico da cidade. A temporalidade infinita não se refere a um tempo equiparável a outros tempos, mas antes à dimensão fundadora do tempo natural. Assim, quando pensamos na paisagem, como imagem espacial da temporalidade natural, não é no tempo das paisagens que pensamos, mas na temporalidade natural (reveladora da temporalidade infinita) como fundadora das temporalidades, como contendo em si a possibilidade de se revelar diferentemente nos modos da temporaneidade finita, numa imagem espacial. É isto mesmo que fica claro na secção intitulada “Il tempo della storia e il tempo della natura”13, na qual R. Assunto mostra que a imagem 12 M. Lima, «Estéticas da paisagem e arquitectura paisagista», Philosophica, 29 (2007), p. 95. 13 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica (1994), Palermo, Edizioni Novecento, 2005, p. 94-113. Diegese da durée bergsoniana na filosofia da natureza de R. Assunto 61 da vila histórica – o tempo de que a cidade é imagem espacial – não se opõe à paisagem natural na temporalidade que lhe é própria, mas antes aponta para ela, não existe sem ela: “A temporalidade da natureza mostra-se na temporaneidade: não como contradição, mas como justificação da temporaneidade, do próprio passar do tempo, enquanto um movimento que regressa a si mesmo: na verdade, segundo a definição platónica, uma imagem móvel da eternidade. E esse seu configurar-se imagem móvel da eternidade coloca o tempo da natureza nos antípodas daquele tempo rectilíneo da técnica (e consequentemente da indústria)”14. Não se trata portanto de uma contradição ou de uma dicotomia simples, mas de uma diferença de natureza – no sentido bergsoniano do termo – entre o tempo natural e o tempo da técnica não encontramos uma diferença de grau mas uma diferença qualitativa, a mesma diferença que encontramos entre o aberto e o fechado, isto é, entre a imprevisibilidade criativa e a repetição regulada das formas15. Torna-se portanto impossível compreender a especificidade fundadora da temporalidade infinita em Assunto sem nos reportarmos ao conteúdo significante da durée bergsoniana, não estritamente psicológica, mas sobretudo na sua relação com a ideia de vida. Aquele finitizar-se no espaço, o devir temporâneo da pura temporalidade torna-se inteiramente necessário. Somente na consideração da pura temporalidade podemos encontrar o fundamento ontológico da experiência da espacialidade finita16, e dessa forma compreendê-la como lugar de renovação enquanto imagem de uma temporalidade inclusiva. As palavras de Assunto ilustram-no de forma clarividente: “Devemos tomar consciência que este finitizar-se no espaço, e devir temporâneo, é necessário à temporalidade pura, não menos do que a nós nos é necessário pensar a temporalidade na sua pureza para justificar a temporalidade finita que nós próprios somos [...] tomando consciência do valor de cada presença enquanto manifesta temporaneamente a temporalidade absoluta”17. É no espaço da paisagem que encontramos o testemunho desse processo: um constituir-se do espaço como representação extensiva e simultânea do tempo18. O espaço da paisagem é a abertura pela qual passa o fio da temporalidade infinita, unidade heterogénea de passado, presente e futuro. 14 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica, p. 106, (sublinhado nosso). 15 Cf. H. Bergson, Les deux sources de la morale et de la religion (1932), Œuvres, Paris, PUF, 1959. 16 Obviamente já não estamos a falar da espacialidade geometricamente determinada, mas da vivência real de uma espacialidade inteira. 17 R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica (1994), Palermo, Editionne Novecento, 2005, p. 108. 18 Cf. R. Assunto, Il paesaggio e l’estetica, p. 71.