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Pierre Gourou (1900-1999)

Medeiros, Carlos Alberto

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Na Primavera de 1999 faleceu em Bruxelas, onde residia, Pierre Gourou. A notícia foi conhecida com algum atraso pela comunidade geográfica. E, no entanto, ela havia sofrido uma perda irreparável. Pierre Gourou, cuja vida acompanhou, quase integralmente, o decurso do século XX (nascera em Agosto de 1900), foi um geógrafo notável, uma daquelas personalidades excepcionais que só muito raramente despontam e se afirmam no mundo da ciência. Deixa- -nos uma obra vasta e riquíssima, que por muito tempo ainda continuará a ser procurada e utilizada. Para mim, o nome de Pierre Gourou começou por ficar associado a dois trabalhos excelentes, que li e estudei nos primeiros anos da Universidade: um deles, Les pays tropicaux, cuja 1.ª edição data de 1947, era apresentado como exemplificação na disciplina de Geografia Humana (que comecei a frequentar em 1961) e retomado depois na de Geografia das Regiões Tropicais, então desdobrada por dois anos; o outro, La terre et l’homme en Extrême-Orient, que aparecera em 1940 na colecção Armand Colin, com obras de pequeno formato, era indicado pelo nosso Mestre, Orlando Ribeiro, íntimo amigo do autor, para ficarmos com uma ideia mais concreta do conteúdo e dos métodos da Geografia humana. Nas suas aulas, o Professor Orlando evocava ainda a oposição entre Ásia fulva e Ásia verde, admiravelmente exposta por Gourou em L’Asie (1.ª edição, 1953). Coube-me mais tarde, nos primeiros tempos de assistente, ensinar Geografia das Regiões Tropicais nas Universidades de Lisboa e de Luanda. Mais uma vez, reli e estudei Les pays tropicaux, agora através de uma edição «inteiramente refundida», que aparecera em 1966. Pouco depois, veio-me parar às mãos L’Afrique (1.ª edição, 1970), que em pouco tempo li com entusiasmo, e me foi particularmente útil enquanto ensinei e investiguei naquele continente. Publiquei nesta revista uma recensão do livro 2. Decorridas algumas semanas tive a grata surpresa de receber uma carta de Gourou, em que me agradecia o cuidado com que lera a obra e dela dera notícia, lembrando ainda os longos anos de viagens, leituras e reflexões, durante os quais a preparara. ———————————————— 1Professor Catedático da Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa. Investigador do Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa. E-mail:[email protected] 2«Uma nova geografia de África», Finisterra, VII-13, Lisboa 1972, p.119-126. Finisterra, XXXVI, 71, 2001, pp. 45-48 PIERRE GOUROU (1900-1999) CARLOS ALBERTO MEDEIROS 1 Nessa altura, embora raras vezes tivesse contactado com ele, já o conhecia pessoalmente. Aconteceu no colóquio «La Régionalisation de l’Espace au Brésil», organizado em Novembro de 1968, pelo Centre d’Études de Géographie Tropicale, em Bordéus, onde me encontrava a fazer um estágio, três anos após me ter licenciado. Gourou apresentou uma comunicação e participou activamente nos trabalhos da reunião. Numa pausa da excursão que desta fazia parte, encontrei-o a conversar com Orlando Ribeiro, também integrado no colóquio. O Professor Orlando chamou-me e apresentou-nos. Conversei brevemente com Gourou e fiquei sobretudo a ouvir a troca de impressões entre os dois mestres. Nessa altura, ainda se discutia, um tanto acaloradamente, o conceito de região, o de regionalização e a perspectiva geográfica com que deveriam ser encarados. Em relação com isto, o colóquio teve sessões muito animadas. Gourou fez uma ou duas intervenções sobre o tema e lembro-me bem da serenidade com que se exprimiu, da tolerância em relação a opiniões alheias, que respeitava e cujo interesse não negava (mesmo não as partilhando), o que não o impedia de dizer com firmeza, e de forma muito clara, as suas ideias. Recordo também que falou então, talvez pela primeira vez em público, do projecto, ainda muito embrionário, relativo à elaboração de um novo livro de conjunto sobre as regiões tropicais, para o qual tinha encontrado um título estimulante e que exprimia bem a sua perspectiva: Terres de bonne espérance. O livro que então germinava no seu espírito acabou por ser publicado em 1982, ou seja, 14 anos depois, o que mostra bem o longo período de maturação que antecedia o aparecimento dos seus trabalhos. Um profundo sentido de coerência metodológica perpassa pela sua ampla obra 3. Gourou sempre recusou a tentação fácil de se guiar pela última moda, pela mais recente das inovações. Utilizava, evidentemente, aquilo que de novo aparecia, mas só depois de prudente e demorada reflexão crítica, e na medida em que lhe parecia pertinente, e com interesse para as suas investigações: nunca pelo simples gosto da originalidade, quantas vezes precipitada, ou da novidade atraente, mas com fundamentos não comprovados. A postura serena, avessa a polémicas, que não impedia, uma vez ou outra, algum piscar de olhos irónico, a sobriedade depurada do seu estilo, refinada com o decorrer dos anos, são outros traços da sua produção científica. Seguindo Paul Pélissier, na notícia necrológica que publicou nos Annales de Géographie (n.º 612, Paris 2000, p. 212-217), é-nos possível descortinar naquela obra três grandes fases: até à segunda guerra mundial, o período da Indochina e, mais em geral, do Extremo Oriente, onde viveu vários anos e elaborou a sua tese de doutoramento (Les paysans du delta tonkinois, 1936), depois o de grandes viagens e das sínteses consagradas às áreas tropicais (Les pays tropi46 ———————————————— 3Veja-se a cuidadosa recolha bibliográfica organizada por Henri Nicolaï e publicada na Revue Belge de Géographie, 1998, fasc.2. Aqui se poderão encontrar as referências completas das obras mencionadas na presente nota. caux, L’Asie, L’Afrique, já citadas, L’Amérique tropicale et australe, 1976), finalmente o da reflexão geral sobre a própria natureza da geografia, conjugada com novas análises em que se retomam os temas tropicais. Incluem-se nesta terceira fase trabalhos como Pour une géographie humaine (1973), Terres de bonne espérance (1982), Riz et civilisation (1984), L’Afrique tropicale, nain ou géant agricole? (1991). Destes livros, o de índole mais geral é o primeiro, uma rasgada reflexão de conjunto sobre a geografia humana, em que se toma como base a paisagem 4. Num esboço inicial e muito breve, as ideias do autor encontram-se expostas, com o mesmo título, no primeiro artigo desta revista, que ele assim afortunadamente apadrinhou (Finisterra, I-1, Lisboa 1966, p. 10-32). As três fases que se indicaram, como sublinha Paul Pélissier, nem se devem entender rigidamente, nem recobrem toda a rica diversidade dos temas tratados por Pierre Gourou. Mas dão conta, com boa aproximação, do seu percurso científico, sobre o qual ele próprio poucos testemunhos nos deixou. Surpreende-se, a este respeito, a habitual reserva, quase uma sorte de pudor, que apenas se rompe numa altura já adiantada da existência, em Terres de bonne espérance (première partie, «l’itinéraire d’un géographe», p. 9-43; algumas curtas alusões encontram-se em trabalhos anteriores, por exemplo, «La géographie et notre temps» (1963), Recueil d’articles, Bruxelas 1970, p. 20-26). Uma questão insistentemente colocada por Gourou, e que se encontra bem ilustrada no artigo que o liga de forma indissociável a esta revista, é a das relações, do diálogo entre os grupos humanos e a natureza. Por diversas vezes, com os mais variados exemplos, Pierre Gourou tratou este problema, mostrando que não há uma influência inultrapassável da segunda, e encarando portanto com abertura e o optimismo razoável as possibilidades de actuação das várias sociedades, no sentido de superarem erros e desajustamentos de diversa ordem. «La grande variété des situations humaines possibles dans le même cadre physique exclut toute possibilité d’explication par une simple relation de cause à effet, par un déterminisme physique. Pour aboutir à des résultats valables et utiles, la géographie humaine doit faire intervenir les civilisations et la durée de leur action. La civilisation: l’ensemble des techniques par lesquelles sont réglés les rapports des hommes avec le milieu et les rapports des hommes entre eux» (Finisterra, I-1, p. 17-18). É quase com malícia que, nalguns casos, Gourou analisa detidamente a paisagem, passa em revista as hipóteses de interpretação, arreda aquelas que se ligam à influência determinante da natureza, e que às vezes se afiguram aliciantes, para finalmente identificar os elementos da civilização realmente decisivos. É ele próprio que confessa: «La géographie n’a cessé de me divertir: n’est-il pas divertissant de mettre en procès ce qui se voit, de ruiner l’apparente évidence? Juge du monde, la géographie se doit de ne pas croire aux «situations acquises». Et cela donne la mesure de sa grande utilité» (Terres de bonne espérance, p. 403). 47 ———————————————— 4Veja-se a recensão que lhe dedicou Suzanne Daveau em Finisterra, IX-18, Lisboa 1974, pp. 323-325. A relevância deste tema do diálogo entre o homem e a natureza terá relegado para posição secundária, na obra de Gourou, problemas como o do estudo das cidades, afinal de grande significado em geografia humana. É também ele que escreve: «les villes sont des faits de paysage qui, sans discussion, et sans réserve, sont dus à des facteurs techniques (…). Dans ces conditions, une étude plus prolongée des villes n’apporterait pas une force démonstrative supplémentaire à notre thème essentiel» (rapport entre milieu et civilisation) (Pour une géographie humaine, p. 332). Mas a verdade é que Gourou concedeu de facto às cidades a importância que lhes é devida – embora, evidentemente, no quadro das suas preocupações metodológicas; relembre-se o estudo que consagrou a Bruxelas (Recueil d’articles, p. 371-450), sublinhe-se o modo como, numa das suas últimas obras, L’Afrique tropicale, nain ou géant agricole?, se refere ao papel das cidades da África como motores do desenvolvimento rural. Gourou procurou sempre manter actualizados os seus conhecimentos. Isto explica o cuidado com que reformulou alguns dos seus trabalhos (Les pays tropicaux, La terre et l’homme en Extrême-Orient), e o aditamento de outros, que de certo modo os complementavam, como foi o caso das últimas sínteses dedicadas ao mundo tropical, parcelarmente ou no seu conjunto. No seu modo de trabalhar, nunca o atraíram, como ponto de partida, abstracções ou modelos teóricos. «L’explication des faits géographiques ne gagne rien à la tyranie des modèles théoriques. Les secrets intimes des «individus» géographiques ne se dévoileront pas à travers les grilles d’un modèle; pour être efficaces, ces grilles devraient contenir les secrets qu’il s’agit de dévoiler. Fuyons aussi les idéologies linéaires qui croient avoir réponse à tout» (Terres de bonne espérance, p. 406). O autor preferia assentar as suas análises em factos concretos; são modelares os estudos que consagrou ao Ruanda e ao Burundi, e mais tarde a Madagascar, tomando como base os mapas das densidades populacionais e a tentativa da sua interpretação. Nesta altura em que, de forma insensível ou deliberada, somos levados a reler as peças essenciais da sua obra, quase a estabelecer um balanço, teremos de reconhecer que Pierre Gourou foi um dos grandes geógrafos do século XX, um dos grandes geógrafos de todos os tempos. Alguns dos que com ele trabalharam, e se reconhecem como seus discípulos, acabam de organizar um excelente livro onde se reúnem testemunhos diversos sobre o conteúdo, os métodos e o significado de parcelas várias dessa obra 5. As páginas que este grande Mestre nos deixou conservam todo o seu enorme interesse: amarelecidas pelo tempo algumas, mas sempre ricas de ensinamentos, recentes muitas outras, e igualmente valiosas, pois quem as escreveu teve o privilégio de se manter lúcido e activo até ao fim. 48 ———————————————— 5Un géographe dans son siècle. Actualité de Pierre Gourou, sous la direction de Henri Nicolaï, Paul Pélissier et Jean-Pierre Raison, Éditions Karthala, Paris 2000.