Resenha: Panich, Lee. 2020. Narratives of Persistence: Indigenous Negotiations of Colonialism in Alta and Baja California. Tucson: The University of Arizona Press. 227 p. ISBN-13: 978-0-8165-4077-8
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Recensões • Reviews 375 Panich, Lee. 2020. Narratives of Persistence: Indigenous Negotiations of Colonialism in Alta and Baja California. Tucson: The University of Arizona Press. 227 p. ISBN-13: 978-0-8165-4077-8 Resenhado por Marianne Sallum http://orcid.org/0000-0001-9210-2044 Francisco Silva Noelli http://orcid.org/0000-003-0267583X Na última década, a arqueologia da persistência vem sendo desenvolvida para compreender como grupos sociais indígenas fizeram escolhas “pragmáticas para resistir, acomodar ou evitar várias imposições coloniais” e outras situações interações sociais. A partir dessa perspectiva, Lee Panich oferece um exemplo brilhante do estado da arte da percepção das formas da persistência e como se pode ouvir memórias do passado que ecoam como firme referências para ações no presente. A arqueologia da persistência começou com estudos sobre colonialismo e comunidades indígenas nos Estados Unidos, principalmente com os trabalhos de Steve Silliman (2009) e do próprio Panich (2013). E oferece uma nova abordagem para contextos marcados por longas trajetórias históricas, a exemplo de coletivos indígenas, quilombolas e das chamadas “comunidades tradicionais” no Brasil. Além da persistência, também problematiza a construção de narrativas centradas em noções etnocêntricas da história e modelos de colapso demográfico e cultural, e como elas contribuíram para o apagamento dos coletivos indígenas. Esse é um tema destacado pelo autor, que exemplifica contramedidas metodológicas para levar o leitor a perceber a presença desses coletivos na longa duração, inclusive mostrando a luta contínua para seguir vivendo contra “estereótipos culturais arraigados e narrativas da extinção indígena”. O livro é dedicado ao caso de duas comunidades com trajetórias direferentes, os Paipai no estado mexicano da Baja Califórnia e os Ohlone, da área da baía de San Francisco, estado norte-americano da Califórnia. Os Paipai conseguiram atravessar relativamente isolados o período colonial, compartilhando tradições similares com seus vizinhos, mas falando dialetos
376 Revista Brasileira de Linguística Antropológica diferentes, onde “a diversidade linguística era provavelmente a norma”. Em algumas situações, temendo violências contra suas famílias, misturavam-se à população mexicana da região acionando a língua espanhola e jogando com as identidades conforme as conveniências do momento, reservando-se assumir quando convinha o etnônimo catarineño para lidar com pessoas de fora. No período colonial e no século XX, se assumiam Paipai em relação com seus conhecidos e, o isolamento, contribuiu na manutenção da língua. Os Ohlone tiveram uma trajetória com diversos revezes impostos pelo colonialismo, incluindo a desterritorialização. Como escreveu Panich, “por uma questão de clareza, reservo o termo Ohlone” para grupos cujos antepassados falavam as línguas “Costanoan” da área entre o sul da península de São Francisco até o vale de Santa Clara, e até a baía Leste. No período colonial, estas comunidades estiveram estreitamente associadas às Missões de São Francisco, Santa Clara e São José, de onde foram artificialmente agrupados pelos colonizadores espanhóis e, posteriormente, pel(a)os antropólog(a)os. Os Ohlone vivem nas cidades e, recentemente, vêm trabalhado ativamente para revitalizar sua língua e práticas tradicionais importantes, estando na vanguarda dos movimentos públicos para proteger os locais ancestrais do desenvolvimento, incluindo a sua participação na interpretação da história colonial da região. Panich ressalta a necessidade da percepção da individualidade em cada história local, evidenciando como eles persistiram enquanto grupos sociais, desde as primeiras interações nas missões religiosas, enfrentando ao longo do tempo várias formas de colonialismo e outras tentativas de dominação. Ao contrapor a história das duas comunidades, mostra as suas diferentes negociações e acomodações, como duas formas para permanecer Papai e Ohlone através de uma continuidade que “não requer o estático”. A abordagem comparativa dos dois casos atravessa todo o livro, sempre enfatizando a relação entre as histórias pessoais e comunitárias (microescala) e própria história indígena da Califórnia (macrohistória). De um lado, os Paipai se mantiveram isolados socialmente, persistindo com práticas que podem ser facilmente identificadas por quem é de fora. Em contraste, os Ohlone perderam as suas terras ancestrais e as suas conexões com as práticas do passado, difíceis de serem percebidas por um observador externo. Em vários momentos, Panich transcreve comentários de membros das comunidades que desestabilizam as construções das narrativas tradicionais sobre o seu fim: “Nós continuamos aqui” (Paipai) e “As missões não tiveram sucesso” (Salinan/ Rumsien Ohlone). E reforça os comentários com argumentos de pesquisadores indígenas, como Sonya Atalay: “a ligação entre o passado indígena e a presença dos nativos contemporâneos exige tanto o reconhecimento da persistência das comunidades indígenas e um honesto ajuste de contas com as realidades obscuras do colonialismo”; e não indígenas, como Juliana Barr: “O tempo não foi interrompido com a chegada dos europeus, nem parou (e depois recomeçou).
377 Volume 12, 2020 Ao contrário, os europeus chegaram e se envolveram na maré dos eventos e processos nativos, as correntes da história nativa”. Panich explica detalhadamente como a construção e reprodução do apagamento foi reproduzida ao longo do tempo: 1) ideia de extinção indígena na interpretação do material das missões espanholas na Califórnia, “relegando aos indígenas um passado romantizado”; 2) noção de extinção reforçada no currículo das escolas primárias, onde a fundação das missões marcava o fim das comunidades indígenas; 3) a ideia dos antigos antropólogos e do governo de que os indígenas da Califórnia encontravam-se de tal forma misturados e degradados, que seus descendentes não poderiam se reconhecer como “nativos americanos”; 4) as políticas de apagamento centradas nas narrativas terminais apoiadas pela lógica colonial, que requer a eliminação dos povos indígenas através da violência, remoção ou mitologia popular. O livro foi dividido em 6 capítulos construídos através da abordagem interdisciplinar, combinando arqueologia, estudos da cultura material, oralidade e o reexame das fontes documentais, estruturados em 5 diferentes temáticas: 1) organização política e social, 2) economia de subsistência, 3) tecnologia e cultura material, 4) vida cerimonial; 5) conflito. Outro ponto fundamental do livro é a proposta de analisar as práticas culturais e as evidências de “mudanças contínuas”, ao invés de considerar continuidade e mudança como fenômenos separados. Na introdução são apresentados os conceitos-chave que pautam debates centrais na construção de histórias de persistências. O objetivo é enfatizar a conexão do “período colonial com o passado pré-contato e também com o nosso mundo contemporâneo”, centrado nas críticas recentes e na proliferação de trabalhos que deixaram de advogar a separação entre “pré-história” e “história”. Os capítulos seguem a linha cronológica: 1) examina os ancestrais pré-coloniais dos Ohlone e Papai, considerando a arqueologia regional, as evidências etnográficas e etno-históricas, para mostrar que os europeus encontraram no século XVI um dinâmico contexto indígena; 2) aborda o período inicial das interações entre indígenas e as pessoas que vieram de fora, principalmente os missionários franciscanos e soldados espanhóis no estabelecimento da presença colonial; 3) as escolhas no período inicial das missões e a manutenção de praticas indígenas; 4) a persistência nativa e colapso das missões; 5) considera as décadas após o fim das missões, as violências e perda de terras sofridas pelos Ohlone, enfatizando as maneiras que os mesmos conseguiram mantendo suas comunidades; 6) examina a diferenciação das estratégias Papai e Ohlone no início do século XX, frente a padrões sociais e econômicos próximos da forma atual que se delinearam na Califórnia e na Baja Califórnia. A conclusão advoga a revisão das narrativas terminais que perpetuaram o apagamento da história indígena, lembrando como em várias partes do
378 Revista Brasileira de Linguística Antropológica mundo eles têm questionado a visão colonialsta e atuado para manter as suas comunidades. Como os Papai e Ohlone mostraram a Panich, a mudança e a persistência estão no mesmo processo, não havendo dois grupos que tenham seguido os mesmos caminhos até o presente. O livro é exitoso ao explicitar e demonstrar temas complexos com uma verve didática e acessível a todos os leitores. Ao focar na persistência e na importância das memórias Papai e Ohlone contemporâneas, Panich mostra como o apagamento é uma conversa da violência epistêmica dos colonizadores e da academia, e como não é tema para essas comunidades que seguem vivas os cursos de suas histórias. Referências Atalay, S.. 2006. Indigenous Archaeology as Decolonizing Practice. The American Indian Quarterly, v. 30, n. 3, p. 280–310. Barr, J. Peace Came in the Form of a Woman: Indians and Spaniards in the Texas Borderlands. 2007. Chapel Hill: University of North Carolina Press. Panich, L. M. 2013. Archaeologies of Persistence: Reconsidering the Legacies of Colonialism in Native North America. American Antiquity, v. 78, n. 1, p. 105–122. Silliman, S. 2009. Change and continuity, practice and memory: Native American persistence in colonial New England. American Antiquity, v. 74, n. 2, p. 211–230.