Resenha: Silliman, Stephen W. (Ed.). Enganing Archaeology: 25 Case Studies in Research Practice. Newark: John Wiley & Sons, 2018. 323p
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ISSN 2316 8412 Volume XVIII, Número 35, Janeiro-Junho/2021 RESENHA RESENHA: SILLIMAN, STEPHEN W. (ED.). ENGAGING ARCHAEOLOGY: 25 CASE STUDIES IN RESEARCH PRACTICE. NEWARK: JOHN WILEY & SONS, 2018. 323P. Recebido em: 05/03/2021 Aprovado em: 18/03/2021 Publicado em: 25/06/2021 Como citar este artigo: SALLUM, Marianne; NOELLI, Francisco Silva. RESENHA: SILLIMAN, Stephen W. (ed.). Engaging Archaeology: 25 Case Studies in Research Practice. Newark: John Wiley & Sons, 2018. 323p. Cadernos do Lepaarq, v. XVIII, n.35, p. 302-306, Jan-Jun. 2021. REVIEW Marianne Sallum Francisco Silva Noelli
Marianne Salluma Francisco Silva Noellib a Pós-doutoranda, bolsista FAPESP (processos nº 2019/17868-0 e 2019/18664-9), no Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente (Levoc), Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), Brasil. Pesquisadora no Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (Uniarq), Portugal. [email protected] - http://orcid.org/0000-0001-9210-2044 b Doutorando em Arqueologia (bolsista FCT), pesquisador no Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (Uniarq), Portugal. francisconoelli@ edu.ulisboa.pt - http://orcid.org/0000-0003-0267-583X Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio RESENHA: SILLIMAN, Stephen W. (ed.). Engaging Archaeology: 25 Case Studies in Research Practice. Newark: John Wiley & Sons, 2018. 323p. O livro aborda os bastidores da arqueologia profissional, com relatos reveladores sobre problemas e soluções vivenciados na prática arqueológica. São 25 capítulos com narrativas fora do padrão das publicações acadêmicas, geralmente centradas apenas no seus acertos e sucessos. É claro que enfatiza sucessos e acertos, porém aponta um largo espectro de soluções para resolver a diferença entre o que foi idealizado no projeto e a realidade da prática cotidiana. Não é um livro de receitas prontas, apresentando algumas respostas para imprevistos e novidades surgidas no desenvolvimento da pesquisa, menos na teoria e método, mais sobre relações sociais e os limites da logística, incluindo inesperados azares climáticos, mecânicos, pessoais, escassez de recursos materiais, humanos e financeiros que pressionam o cronograma e a capacidade de trabalho de pessoas e equipes. Vemos diversas experiências com dicas e insights importantes para quem planeja engajarse na arqueologia. É especialmente dedicado aos pós-graduandos, graduandas e profissionais em início de carreira, começando a assumir seus projetos pessoais em campo e laboratório. Mas também é útil aos estudantes que desejam viver da arqueologia e buscam referências para começar. Como escreveu Steve Silliman na introdução, os caminhos reais para se tornar arqueóloga(o) geralmente não são revelados nas publicações. De um lado, a divulgação científica pouco explora os problemas reais da formação e da prática em todos os seus aspectos. De outro, os estereótipos sobre a prática da arqueologia divulgados na mídia criam ilusões muitas vezes apartadas da realidade, sem revelar o que significa ser profissional no campo do patrimônio cultural em diferentes contextos sociais e políticos. Para contrapor as narrativas idealizadas da profissão, o livro apresenta variadas motivações que levam/levaram a(o)s arqueóloga(o)s às experiências nas “regiões que ela(e)s amam, os materiais que gostam, as perguntas que inspiram e as políticas que lhes dizem respeito ou que eles tentam evitar”. Os diferentes capítulos apontam como uma miríade de profissionais em estágios médios e avançados da carreira se engajaram de maneiras envolventes com seus “projetos arqueológicos reais”, seguindo, muitas vezes, “rotas sinuosas, falsos começos, viagens acidentadas, negação de financiamento” e “coisas que eles gostariam de ter sabido” antes de começar suas jornadas.
304 Nesse sentido, várias perguntas são respondidas, desde a razão para escolher os sítios e lugares de investigação, passando pela formação das equipes de trabalho, das perspectivas teóricas, técnicas e o envolvimento com as comunidades, entre outros exemplos. Algumas pessoas foram para regiões com paisagens inspiradoras, outras buscaram certos tipos de evidências, enquanto outras mergulharam em quaisquer materiais, necessários para responder ou resolver problemas específicos, ou porque o acaso colocou aleatoriamente uma pesquisa específica no seu caminho. Certos temas necessitam projetos sucessivos por anos, às vezes décadas, alguns são concluídos mais rapidamente e outros dependem de trabalho nos laboratórios ou coleções de museus. Os capítulos abordaram 7 aspectos propostos pelo editor: 1) biografia; 2) fonte do projeto; 3) enquadramento teórico; 4) métodos; 5) natureza dos dados; 6) reflexões; 7) lições aprendidas. A coletânea privilegiou a história pessoal humana em diversos períodos e temas: 1) do Pleistoceno ao Holoceno, incluindo os tempos medievais e o “mundo moderno” na Europa; 2) alguns autores optaram por chamar de pré-história e história de diversas regiões, incluindo Austrália, Pacífico, Nordeste Asiático, Ásia do Sul, Oriente Médio, África Oriental, costa da África Ocidental, Europa, Islândia, América do Sul tropical e montanhosa, Mesoamérica e várias regiões da América do Norte. A introdução apresenta ao leitor e a leitora uma tabela detalhada sobre os temas que encontrará, permitindo acesso imediato ao que mais lhe interessa, sem precisar percorrer todo o livro para encontrar itens específicos. A tabela apresenta divisões amplas: 1) períodos; 2) temas; 3) métodos; 4) conjunto de dados; 5) desenhos de pesquisa. Os capítulos foram divididos em três sessões pela escala dos projetos: 1) paisagens, assentamentos e regiões; 2) sítios, residências e comunidades; 3) materiais, coleções e análises. Os capítulos têm conclusões com indicações de leituras complementares sobre os resultados publicados em pelos autores em outros livros e artigos. Alguns pensamentos-chave permeiam o livro. Um deles é a compreensão da imprevisibilidade na pesquisa, incluindo estar atento para abrir mão ou modificar objetivos planejados no projeto. Assim, destaca-se que obstáculos ou mesmo a impossibilidade de seguir adiante pode vir a ser uma oportunidade para gerar benefícios de maneiras inesperadas. A renúncia ao controle rígido do que foi idealizado no projeto pode levar a investigação para novos rumos, como sugeriu Matthew Liebmann “se eu tivesse entrado na reunião com a comunidade Jemez com uma agenda pré-concebida sobre qual seria o meu próximo projeto de pesquisa, perderia múltiplas oportunidades: de servir àqueles que me ajudaram em minhas pesquisas anteriores; de aprender sobre áreas inteiras de investigação e técnicas arqueológicas das quais eu nada sabia; de tornar meus interesses arqueológicos relevantes fora da academia.” E Silliman descreveu como seu projeto foi redirecionado para um caminho imprevisto: o envolvimento dedicado da comunidade direcionou o projeto para outra linha de investigação, pois a política para produzir conhecimento no presente influenciou novas perspectivas sobre o passado, superando as propostas convencionais da arqueologia. Essa nova perspectiva teve “efeitos reais sobre os descendentes do passado arqueológico que me atraíram para o projeto”. O livro é recheado de relatos sobre diferentes trajetórias pessoais, divididos em 3 sessões. Contudo, por conta da limitação de espaço escolhemos 3 exemplos. Na sessão 1, um caso brasileiro narrado por Eduardo Góes Neves sobre os avanços que ele produziu com colegas e aluna(o)s para SALLUM, Marianne; NOELLI, Francisco Silva. RESENHA: SILLIMAN, Stephen W. (ed.). Engaging Archaeology: 25 Case Studies in Research Practice. Newark: John Wiley & Sons, 2018. 323p. Cadernos do Lepaarq, v. XVIII, n.35, p. 302-306, Jan-Jun. 2021.
305 Cadernos do LEPAARQ, v. XVIII, n. 35, Janeiro-Junho, 2021 evidenciar um quadro distinto das tradições canônicas estabelecidas desde o século XIX, destacando as “dores e prazeres” de pesquisar na vastidão da Amazônia, onde “populações indígenas ameaçadas por grandes projetos de desenvolvimento e limitações logísticas fazem parte da história”. Ele reflete sobre pesquisas em áreas com acesso difícil e infraestrutura precária, descrevendo como trabalhar em tais circunstâncias leva a ser metodologicamente criativo e flexível: a logística nem sempre é fácil, afetando o trabalho de campo, buscando a interdisciplinaridade e a relação criativa com as populações locais. Na sessão 2, Diane Lyons descreve como contextos de pesquisa podem mudar rapidamente durante um projeto. Inicialmente, ela se preocupava com as mudanças na prática cerâmica e o ingresso de produtos industrializados, tentando perceber como isso impactaria negativamente as comunidades onde “fazer cerâmica era uma estratégia de mulheres muito pobres, então o que elas fariam agora?” No entanto, seu estudo acompanhou a engenhosidade dessas mulheres e seu progresso de mudança nos mercados. Enquanto os mercados de vasilhas artesanais diminuíram, algumas ceramistas se envolveram ativamente em novos mercados onde a mudança continua a se desenrolar. Na sessão 3, Diana DiPaolo Loren mostrou seu interesse na experiência cotidiana dos contextos coloniais da Nova Inglaterra. Através dos vestuários e adornos, ela procurou compreender “como os indivíduos cobriam seu corpo, mas também a maneira como eles viveram dentro e reagiam às estruturas coloniais”. Nas coleções de museus deparou-se com a tarefa de interpretar as coleções com poucas informações contextuais sobre os objetos e suas proveniências. Ela explica como superou um sistema classificatório rígido que, apesar da sua importância na manutenção dos acervos, não reconhece “objetos e histórias que não estão presentes, e as formas pelas quais os remanescentes dessas práticas diárias são representados ou não em registros arqueológicos, textuais e visuais”. Apesar dos desafios, ela mostra como as coleções do museu fornecem insights únicos sobre os artefatos e suas trajetórias históricas. O guia é exitoso em apontar alternativas aos percalços que a realidade pode impor a um projeto. Com clareza, mostra que: 1) não existe uma regra ou fórmula para fazer arqueologia; 2) há inúmeras possibilidade de engajamento na pesquisa, todas igualmente válidas; 3) os imprevistos e mudanças de planos podem gerar inovações; 4) é desejável a relação com as comunidades onde os projetos são realizados. Dessa forma o livro desconstrói estereótipos e destaca como motivações pessoais, políticas e afetivas são tão importantes para se envolver na pesquisa quanto às teorias e métodos. Como relatou Uzma Rizvi sobre a importância da convivência e das relações com as pessoas dos lugares onde se pesquisa, “beber chá é ao mesmo tempo uma metáfora e uma ação. Trata-se de respeitar primeiro quem está sentada à sua frente como pessoa... criar reciprocidade, redes sociais” e, “em alguns casos, redes acadêmicas e de pesquisa” que melhoram a prática da arqueologia, envolvem a comunidade na produção do conhecimento e desenvolvem ações que beneficiem as múltiplas políticas relativas ao patrimônio cultural. Por fim, como mostra Silliman na introdução, não se deve esquecer as razões que levou cada um a escolher a arqueologia como profissão, seja paixão pessoal, compromisso político ou uma SALLUM, Marianne; NOELLI, Francisco Silva. RESENHA: SILLIMAN, Stephen W. (ed.). Engaging Archaeology: 25 Case Studies in Research Practice. Newark: John Wiley & Sons, 2018. 323p. Cadernos do Lepaarq, v. XVIII, n.35, p. 302-306, Jan-Jun. 2021.
306 obsessão material. Elas devem nos manter em meio aos aborrecimentos, insegurança financeira, orientador(a)es ou chefes complicados, e quando as perspectivas de trabalho se tornam sombrias. Enfim, um livro inédito, realista e encorajador na arqueologia com versões possíveis para inspirar resultados finais desejados.