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As cheias no sul de Portugal em diferentes tipos de bacias hidrográficas

Ramos, Catarina,Reis, Eusébio

Abstract

No século XX, as cheias foram o desastre natural mais mortífero em Portugal, seguidas pelos sismos: por cada morte devida aos sismos morreram sete pessoas devido às cheias. O tipo de cheias conhecidas como «cheias progressivas» afectam principalmente as grandes bacias hidrográficas, como a do rio Tejo, provocando a inundação de uma ampla área. Este tipo de cheias é causado por períodos de chuva abundante relacionada com a circulação zonal de oeste que se mantém durante semanas. O sistema de barragens da bacia reduz a frequência das cheias mas não consegue «domar» o rio, contribuindo mesmo, por vezes, para o aumento do pico de escoamento, tal como aconteceu em 1979. Apesar disso, estas cheias não constituem, geralmente, um perigo para a população. As cheias rápidas, pelo contrário, são perigosas e mortíferas, tais como as que ocorreram em 1967, 1983 e 1997. Afectam as pequenas bacias de drenagem e são causadas por chuvadas fortes e concentradas, devido a depressões convectivas (gotas frias extremamente activas ou depressões estacionárias causadas pela interacção entre as circulações polar e tropical), nomeadamente no Sul do País (região de Lisboa, Alentejo e Algarve). A desflorestação, a impermeabilização dos solos, a urbanização caótica, a construção em leitos de cheia, o entulhamento dos pequenos cursos de água, ou a sua canalização, a construção de muros e aterros transversais ao sentido de escoamento das linhas de água, que funcionam como diques, contribuem para a agravamento deste tipo de cheias. São aqui analisadas as cheias nos rios do Sul do País, desde as grandes bacias de drenagem (rio Tejo, 80 100 km2 ) até às mais pequenas (ribeira de Cobres, 700 km2 ; ribeira da Garganta, 1 km2 ).

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Resumo – No século XX, as cheias foram o desastre natural mais mortífero em Portugal, seguidas pelos sismos: por cada morte devida aos sismos morreram sete pessoas devido às cheias. O tipo de cheias conhecidas como «cheias progressivas» afectam principalmente as grandes bacias hidrográficas, como a do rio Tejo, provocando a inundação de uma ampla área. Este tipo de cheias é causado por períodos de chuva abundante relacionada com a circulação zonal de oeste que se mantém durante semanas. O sistema de barragens da bacia reduz a frequência das cheias mas não consegue «domar» o rio, contribuindo mesmo, por vezes, para o aumento do pico de escoamento, tal como aconteceu em 1979. Apesar disso, estas cheias não constituem, geralmente, um perigo para a população. As cheias rápidas, pelo contrário, são perigosas e mortíferas, tais como as que ocorreram em 1967, 1983 e 1997. Afectam as pequenas bacias de drenagem e são causadas por chuvadas fortes e concentradas, devido a depressões convectivas (gotas frias extremamente activas ou depressões estacionárias causadas pela interacção entre as circulações polar e tropical), nomeadamente no Sul do País (região de Lisboa, Alentejo e Algarve). A desflorestação, a impermeabilização dos solos, a urbanização caótica, a construção em leitos de cheia, o entulhamento dos pequenos cursos de água, ou a sua canalização, a construção de muros e aterros transversais ao sentido de escoamento das linhas de água, que funcionam como diques, contribuem para a agravamento deste tipo de cheias. São aqui analisadas as cheias nos rios do Sul do País, desde as grandes bacias de drenagem (rio Tejo, 80 100 km2) até às mais pequenas (ribeira de Cobres, 700 km2; ribeira da Garganta, 1 km2). Palavras-chave: regime fluvial, bacias de drenagem, tipos de cheias, barragens. Abstract –THE FLOODS IN THE SOUTH OF PORTUGAL IN DIFFERENT KINDS OF DRAINAGE BASINS – The regime of the Portuguese rivers depends on the space and time variation of rainfall. Portugal has clear regional contrasts in the geographical distribution of rainfall. The NW and the Central Mountain Range (Cordilheira Central) are the regions with more rainfall. The NE and the south are the driest regions. The rainfall regime is very irregular. The monthly rainfall regime is clearly Mediterranean with autumn-winter rains (November-March) and an extremely dry summer. ———————————————— 1Investigadora do Centro de Estudos Geográficos, Prof.ª Auxiliar da Universidade de Lisboa. Email: [email protected]. 2Investigador do Centro de Estudos Geográficos, Assistente da Universidade de Lisboa. Email: [email protected]. Finisterra, XXXVI, 71, 2001, pp. 61-82 AS CHEIAS NO SUL DE PORTUGAL EM DIFERENTES TIPOS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS CATARINA RAMOS 1 EUSÉBIO REIS 2 The river flows are also very irregular, with severe droughts and surprisingly high flood discharges. These characteristics tend to worsen from NW to SE. The southern rivers have specific discharges 6 to 7 times inferior to the ones of the NW, greater irregularity (the flow in years with more rainfall may surpass 100 to 240 times the flow in driest years), a more severe drought (6 months), almost all are temporary, and flood peaks (200-300 times the average flow) can reach extremely high values. In the twentieth century, floods were responsible for the highest rate of casualties in natural disasters in Portugal, followed by earthquakes: one death for every seven were due to floods. The type of floods known as «progressive floods» mainly affects the big hydrographic basins, such as the River Tagus basin, due to the large flooded area. This kind of flood is caused by heavy rainfall periods connected to the western zonal circulation, which usually lasts several weeks. The dams’ basin system reduces flood frequency, especially in autumn when reservoirs still manage to absorb the high flows after the summer dry period, but cannot «tame» the river. It has even contributed to an increase of the peak flow, as in the 1979 flood. Flashfloods are another kind of floods that occur in Portugal and, unlike the former, are dangerous and deadly, such as those in 1967, 1983 and 1997. They affect the small drainage basins and are caused by heavy and concentrated rainfalls, due to convective depressions (cold pools especially active or depressions caused by the interaction between polar and tropical circulations), namely in the south of the country (Lisbon region, Alentejo and Algarve). In the small drainage basins with a natural regime (uninfluenced by a dam), it is interesting to verify the existence of a trend in these extreme phenomena over the last decades. There has been a clear intensification of flood importance during autumn months, in contrast with an accentuated diminishing in winter and spring months. This trend concerns us mainly for two reasons. Firstly, the rainfall concentration in fewer months lessens its availability in the other months and requires a greater storage capacity. Secondly, this concentration means a bigger rainfall intensity in autumn, with the worsening of the number and intensity of floods and a greater soil loss. Deforestation, soil impermeability, chaotic urbanisation, building on floodplains, the blocking up of small creeks, or their canalisation, the building of walls and transverse embankments along the small creeks courses that work as dikes, contribute to the aggravation of this kind of floods. The floods in rivers of southern Portugal are here analysed, and range from the big drainage basins (River Tagus, 80 100km2), to the smaller ones (Cobres stream, 700 km2; Garganta stream, 1 km2). Also discussed are the human causes that have contributed to increasing the consequences of the floods in small catchments. Key words: fluvial regime, drainage basins, catchments, flood types, dams. I. INTRODUÇÃO O regime dos rios portugueses depende essencialmente da variação temporal da precipitação e acompanha de perto os contrastes regionais na distribuição geográfica das chuvas. O Noroeste e a Cordilheira Central, que divide o Norte do Sul do País, são as regiões com maiores valores de precipitação (1200 – 3000 mm/ano), pois, além de serem as mais montanhosas, são 62 frequentemente atravessadas por superfícies frontais ligadas a depressões subpolares. O Nordeste e o Sul são as regiões mais secas (400 – 900 mm/ano): o Nordeste, porque se encontra em situação de abrigo, rodeado por barreiras montanhosas; o Sul, porque é afectado, com maior frequência pelas altas pressões subtropicais (Anticiclone dos Açores). O regime da precipitação, tanto em termos interanuais como intermensais, é bastante irregular. O ritmo mensal da precipitação é claramente mediterrâneo com chuvas no Outono e Inverno (Novembro a Março) e com um Verão extremamente seco. O comportamento dos rios é também muito irregular, com uma estiagem prolongada e com caudais de cheia que atingem valores surpreendentes. Estas características tendem a acentuar-se de noroeste para sudeste (Quadro I). Os rios do Sul possuem escoamentos específicos anuais 6 a 7 vezes inferiores aos do Noroeste, uma maior irregularidade (o caudal nos anos mais chuvosos pode ultrapassar 100 a 240 vezes o dos anos mais secos), uma estiagem mais prolongada (6 meses), sendo quase todos temporários, e com pontas de cheia que atingem valores exorbitantes (200 a 300 vezes o caudal médio anual; RAMOS, 1994 e 1996a). Cerca de 80% do país possui um substrato geológico com permeabilidade reduzida (granitos, xistos e formações argilosas). Apenas os rios com nascentes alimentadas pelos calcários carsificados do Centro do País (Quadro I) apresentam uma evidente ponderação, que contribui para diminuir a irregularidade e os picos de cheia (RAMOS, 1993, 1994 e 1996b). QUADRO I – O regime dos rios portugueses TABLE I–Portuguese rivers regime 63 Rios Caudal específico Irregularidade Estiagem (meses Cheias (l/s/km2) (Qmax/Qmin) ≤ 25% de Q) (Qmi /Q) Noroeste e Cordilheira Central 20 – 35 6 – 9 3 50 – 60 Nordeste 6 –12 10 – 40 4 60 – 90 Sul 3 – 5 100 – 240 6 200 – 300 Áreas cársicas centrais 15 – 40 4 – 5 3 – 5 25 – 40 Q – caudal médio anual; Qmi – caudal máximo instantâneo; Qmax e Qmin – Caudais dos anos, respectivamente, com maior e com menor escoamento. (Séries temporais de 1960/61 a 1989/90 e áreas de drenagem >300 km2, excepto as séries das áreas cársicas – 1980/81 a 1989/90 e áreas de drenagem >100 km2) II. TIPOS DE CHEIAS E CAUSAS METEOROLÓGICAS As cheias progressivas são causadas por longos períodos chuvosos que podem durar semanas, relacionados com a permanência da circulação zonal de oeste. Neste tipo de circulação, a Península Ibérica é varrida por chuvas frontais, provocadas pela passagem sucessiva de depressões sub-polares e sistemas frontais a elas associados. Estas depressões, que circulam normalmente à latitude das Ilhas Britânicas, encontram-se, neste caso, a latitudes muito baixas (entre 40º e 45º N). As cheias rápidas devem-se a curtos períodos chuvosos, mas de grande intensidade, relacionados fundamentalmente com depressões convectivas (FERREIRA, 1985): gotas de ar frio particularmente activas ou depressões resultantes da interacção das circulações polar e tropical. As gotas de ar frio são muito frequentes em Portugal Continental. Estas depressões resultam de invasões de ar frio (polar ou árctico) em altitude, que se estendem até latitudes subtropicais (entre 40º e 30º N). Elas são mais frequentes na área compreendida entre o SW da Península Ibérica, a ilha da Madeira e o arquipélago dos Açores, afectando assim particularmente a região Sul do país. As chuvas de maior intensidade ocorrem quando existe um forte gradiente vertical da temperatura entre a advecção fria em altitude e o ar quente e húmido da baixa troposfera, que fornece o vapor de água necessário às condensações abundantes (VENTURA, 1987). A temperatura das águas oceânicas é assim importante. O Outono é a época do ano mais problemática não só porque o oceano tem uma maior quantidade de calor armazenada, mas também porque o enfraquecimento do anticiclone dos Açores e a intensificação da cir-culação meridiana favorece a individualização das gotas frias. As depressões convectivas que resultam da interacção da circulação polar e tropical têm um máximo de frequência de ocorrência em Novembro, embora com uma grande variabilidade interanual. «O seu aparecimento depende não somente da intensidade convectiva da C.I.T. (Convergência Intertropical), mas também da sua interligação com as invasões de ar frio suficientemente grandes para atingir as latitudes subtropicais» (FERREIRA, 1985, p.33). III. AS CHEIAS NUMA GRANDE BACIA HIDROGRÁFICA (RIO TEJO) 1. O comportamento hidrológico do rio Tejo O rio Tejo é o mais comprido da Península Ibérica, com cerca de 1.100 km. A sua bacia hidrográfica está entre as 20 maiores da Europa, com 80.100 km2, 2/3 das quais em Espanha e 1/3 em Portugal (Fig. 1a). O caudal médio anual estimado no estuário é 444 m3/s (DAVEAU, 1995), o que faz dele o segundo rio com maior caudal em Portugal. O Tejo é um rio relativamente irregular (cerca de duas vezes mais que o rio Douro, mas cerca de três vezes menos que o rio Guadiana): a relação entre os anos extremos foi 64 17 (650 m3/s e 37 m3/s, num período de 30 anos de medições em V. V. Rodão, Quadro II). Possui um regime pluvial em Portugal, do tipo subtropical, com 3 meses de escoamento elevado (Dezembro a Fevereiro) e um pico anual, em Fevereiro, o qual atinge 2,5 vezes o caudal médio anual. Quadro II – Comportamento hidrológico dos rios Douro, Tejo e Guadiana Table II – Hydrological behaviour of the Rivers Douro, Tagus and Guadiana Em Portugal, o vale do Tejo está dividido em dois sectores distintos. No sector montante, no Maciço Antigo, o rio escoa de ENE para WSW, até um pouco a jusante da estação hidrométrica de Almourol (Fig.1a). Neste troço, bastante encaixado, o vale estreita quando cruza as cristas quartzíticas ou granitos mais resistentes, e as cheias podem atingir alturas impressionantes: na maior cheia, desde que há registos, as águas subiram mais de 25 metros em Vila Velha de Rodão. A jusante de Almourol, o rio entra na extensa Bacia Sedimentar Cenozóica, e o vale alarga-se consideravelmente, sendo o sentido de escoamento de NE para SW até Lisboa. Esta secção corresponde ao baixo vale do rio Tejo e é aqui que ocorrem as cheias mais espectaculares do território português, devido à extensão da área inundada (mais de 800 km2, Fig.1a). A planície aluvial permanece completamente submersa durante as grandes cheias do Tejo: a partir de 7 metros de altura hidrométrica as águas espraiam-se, alagando-a, mas não ultrapassam os 9 metros, mesmo durante as maiores cheias. 65 Rios Área da Caudais estimados na foz Irregularidade Maior cheia conhecida Bacia (km2) (Qmax/Qmin) (Qp) Médio Específico (m3/s) (l/s/km2) 704 9Dezembro de 1739 Douro 98 400 (Porto) 7,1 (Régua) (avaliado em 19.000 m3/s no Porto; S. Daveau, 1995) Tejo 80 100 444 5,5 17 Fevereiro de 1979 (Lisboa) (V. V. Rodão) (14.500 m3/s em Santarém) Gua66 900 178 54 Março de 1947 diana (V. R. 2,7 (Pulo do Lobo)3(8.000 m3/s no Pulo do Lobo) Sto António) (Q – caudal médio anual; Qmax/Qmin – ano mais húmido/ano mais seco; Qp – caudal de ponta (Q – annual mean discharge; Qmax/Qmin – rainiest year/driest year; Qp – peak discharge) ———————————————— 3Nos últimos 20 anos, a construção de várias barragens em Espanha, para fornecimento de água a extensas áreas irrigadas, levou à diminuição do caudal do rio para menos de metade, agravando assim a sua estiagem e irregularidade (Qmáx./Qmín.>77). O alastramento das águas através desta vasta planície de inundação protege Lisboa das cheias do Tejo, visto que, junto a esta cidade, a subida do nível do rio não excede os 0,5 metros nas maiores cheias (DAVEAU, 1987). Quando atinge a altura hidrométrica de 6,4 m em Santarém, o rio Tejo inicia o transbordo. Tomando este valor como referência, no período entre 1945 e 1970, registaram-se 50 cheias no baixo vale do Tejo (ou seja, com uma frequência média de 2 vezes/ano). De Janeiro a Março ocorreram 70% das cheias (DGRAH, 1979 ). A maior cheia registada ocorreu em Fevereiro de 1979 (Quadro II), alcançando o caudal de ponta 14.500 m3/s em Santarém (8,89 m de altura), ou seja, 36 vezes o caudal médio do rio (405 m3/s em Santarém), 72 vezes o caudal mediano e 273 vezes o caudal característico de estiagem. O período de retorno foi avaliado em 220 anos através da distribuição de Pearson tipo III (SOBRINHO, 1980). 66 França Portugal L M Monchique BEJA Elvas Guadiana Cobres Lisboa Lisboa V.V.R. S bA V.V.R. A S 50 km 0 040 km Santarém Vila Velha de Ródão M - Madrid L - Lisboa a b A bA Almourol Espanha Tejo Barragem de Alcântara Planície aluvial do rio Tejo Limite da bacia hidrográfica do rioTejo Fronteira do país Rio Tejo Área actual fornecedora de sedimentos para a planície aluvial do rio Tejo C. Ramos e E. Reis – Figura 1 FIG. 1 – Localização das bacias hidrográficas estudadas: a) rio Tejo; b) ribeiras de Cobres e de Garganta FIG. 1 –Location of the studied drainage basins: a) River Tagus; b) Cobres stream and Garganta stream 2. O impacto das barragens A grande irregularidade do rio e as cheias frequentes levaram à intervenção humana na planície aluvial do rio Tejo, pelo menos desde há 8 séculos (ALEXANDRE e BORRALHO, 1982). No último século, o rio sofreu uma crescente intervenção humana que modificou o seu comportamento hidrológico através da construção de mais de 140 barragens (em Espanha e em Portugal). O surto da construção de barragens teve lugar nos anos 50 e 60 (Fig.2), em particular no lado espanhol da bacia. Enquanto antes de 1950 a capacidade de armazenamento das barragens espanholas era de 4% do escoamento médio anual, nos anos 80 era de 76%. Actualmente, a capacidade total de armazenamento das barragens espanholas e portuguesas constitui 95% do escoamento médio anual do rio (DAVEAU, 1995). Podem-se estabelecer três períodos no que diz respeito ao crescimento da capacidade das barragens e à artificialização resultante do regime do rio: o 1.º período, antes de 1950, que representa o regime natural; o 2.º período, entre 1950 e 1970, que representa uma clara artificialização durante o surto da construção de barragens; o 3.º período após 1970, quando o regime do Tejo português passou a depender principalmente da barragem espanhola de Alcântara, localizada perto da fronteira portuguesa (Fig.1), cujo reservatório possui uma capacidade de armazenamento de 1/4do total da água armazenada em todas as barragens da bacia (DAVEAU, 1995). O estudo efectuado por LOUREIRO e MACEDO (1986), acerca do impacto das barragens nos caudais do Tejo, usando o método da curva dos caudais médios diários classificados (Quadro III e Fig. 3), mostra claramente que existe uma 67 FIG. 2 – Capacidade de armazenamento das barragens na bacia hidrográfica do Tejo FIG. 2 – Dam storage capacity of the River Tagus drainage basin. (S. DAVEAU, 1987) tendência para a redução dos caudais mais elevados e da frequência das cheias. Compreensivelmente, este facto é mais notável durante as cheias de Outono do que durante as cheias de Inverno, visto que, após o período seco de Verão, as barragens possuem uma maior capacidade de encaixe do escoamento. 68 Dias / Q - 1 2 3 4 5 0 100 200 300 Antes de 1950 1950 a 1970 Depois de 1970 Q 0 C. Ramos e E. Reis – Figura 3 (Fonte/Source: Instituto da Água) FIG. 3 – O rio Tejo em Santarém: caudais médios diários classificados FIG. 3 – River Tagus at Santarém: classified daily average discharges. (LOUREIRO E MACEDO, 1986) FIG. 4 – Caudal máximo instantâneo em Vila Velha de Ródão (1901/02-1972/73) FIG. 4 – Instantaneous maximum discharge at Vila Velha de Ródão (1901/02-1972/73) Entre o 1.º e o 2.º período, a amplitude de flutuação dos caudais máximos instantâneos diminuiu cinco vezes (Fig.4) e os caudais máximos instantâneos mais elevados (> 6000 m3/s) desapareceram (Figs. 4 e 5). Por outro lado, o escoamento durante a estiagem sofre um aumento evidente quando comparado com o observado num regime natural. As estiagens tornam-se, assim, mais curtas e menos pronunciadas (3 meses, no 1.º período, e apenas 1 mês, no 3.º período; Quadro III e Fig. 3). QUADRO III – O impacto das barragens nos caudais do Tejo TABLE III – The impact of dams on the Tagus discharges O impacto das barragens é ainda visível nos caudais sólidos medidos no Baixo Tejo, devido não só à diminuição do número de cheias como também à diminuição da área da bacia que para eles contribui (Fig.1). De facto, o trans69 N.º de dias com um caudal Antes de 1950 1950 – 1970 Após 1970 > 3Q 45 27 15 < 1/5Q 95 45 25 Q – caudal médio anual (LOUREIRO e MACEDO, 1986) (Fonte/Source: Instituto da Água) 0 10 20 30 40 50 60 <1000 1000-3000 3000-6000 6000-9000 >9000 m 3 /s Frequência relativa 1901-1950 1950-1973 % FIG. 5 – Caudais máximos instantâneos classificados em Vila Velha de Ródão (1901/02-1972/73) FIG. 5 – Classified instantaneous maximum discharge at Vila Velha de Ródão (1901/02-1972/73) V. AS CHEIAS RÁPIDAS DE 1967, 1983 E 1997 As cheias rápidas são especialmente problemáticas em pequenas bacias- -vertente, com tempos de concentração reduzidos, e sujeitas a uma urbanização caótica. As cheias rápidas mais devastadoras ocorreram sempre em Novembro: em 1967, na região de Lisboa-Loures, em 1983, na região de Lisboa-Cascais e em 1997, no Alentejo e Algarve. 1. As cheias rápidas de 1967 e de 1983 na região de Lisboa A cheia rápida de 1967 ocorreu na madrugada de 26 de Novembro na região de Lisboa (área de Loures). Foi devida a precipitações provocadas por uma depressão convectiva, resultante da interacção das circulações polar e tropical. A depressão começou por se formar, na região da Madeira, devido a uma invasão de ar frio em altitude (gota de ar frio), mantendo-se estacionária desde o dia 17. Mas, para esta área depressionária convergiram, simultaneamente, uma frente fria muito activa vinda de NW desde a região dos Açores e uma advecção de ar quente, vinda de SW, dirigida pelo jet subtropical (FERREIRA, 1985). Esta convergência provocou o enorme desenvolvimento de cumulo- -nimbos e a deslocação da depressão de SW para NE, em direcção a Lisboa. A precipitação, muito elevada, caiu num curto intervalo de tempo. Na estação 76 (Fonte/Source: Instituto da Água) FIG. 11 – Frequência relativa mensal de cheias nos anos 60, 70 e 80 na ribeira de Cobre em Monte da Ponte FIG. 11 –Monthly relative frequency of floods in the 60´s, 70´s and 80´s of Cobres stream at Monte da Ponte Frequência relativa meteorológica de Monte Estoril (a oeste de Lisboa) das 10h do dia 25 às 10h do dia 26 foram registados 159 mm (cerca de 1/5 da precipitação média anual), dos quais 129 mm em apenas cinco horas (das 19h do dia 25 às 0h do dia 26) e 60 mm, entre as 21 e as 22h. O período de retorno foi calculado em 500 anos (COSTA, 1986). A cheia rápida provocada por esta chuvadas durou cerca de 12h (AMARAL, 1968), mas infelizmente, por falta de registos (inexistência de estações hidrométricas ou destruição destas pela cheia), não existem dados sobre os caudais atingidos. A cheia foi especialmente catastrófica, por ter ocorrido na periferia de Lisboa, numa área de grande densidade populacional. Morreram cerca de 700 pessoas, a maioria das quais vivia em habitações clandestinas implantadas nos leitos de cheia. No entanto, também caíram alguns prédios de apartamentos, por efeito do sapamento lateral das ribeiras, que tinham sido construídos, com licença de construção, na margem do leito menor das ribeiras! No fim da cheia a espessura da lama depositada chegou a encher os andares térreos de muitas casas e a cobrir automóveis (AMARAL, 1968). A cheia rápida de 1983 ocorreu a 18 de Novembro. Neste dia, uma depressão muito cavada (985 hPa), localizada a SW dos Açores (cuja instabilidade foi reforçada por uma invasão de ar frio em altitude no dia 17, levando-a a evoluir em gota fria), avançou em direcção à Península Ibérica. A partir das 20h do dia 18, registou-se um período de chuvas intensas, que se prolongaram até à tarde do dia 19. O período de retorno dessas precipitações foi estimado entre 100 e 200 anos (COSTA, 1986). A cheia abrangeu uma área menos extensa do que a de 1967, sendo o número de mortos muito menor (10). Particularmente atingida foi a baixa de Cascais, construída sobre o leito da ribeira das Vinhas, a qual se encontra aí canalizada subterraneamente. Esta ribeira tem uma bacia-vertente de cerca de 30 km2, a qual recebeu, em 12h, 140 mm. Estimou-se assim uma contribuição específica da bacia em cerca de 6 m3/s/km2, a que corresponde um caudal de ponta de 180 m3/s (QUINTELA e COUTINHO, 1983). A água subiu vários metros na baixa de Cascais, atingindo a cota máxima em apenas meia-hora (COUTINHO, 1984), rebentando com o paredão da praia da Ribeira, onde vai desaguar a ribeira das Vinhas. 2. As cheias rápidas de 1997 no Alentejo e Algarve Os meses de Outubro e Novembro de 1997 foram particularmente difíceis para Portugal, pois sucederam-se cheias rápidas e movimentos de terreno em várias regiões do sul do Continente e nas ilhas dos Açores e da Madeira. Ao todo morreram 40 pessoas, 29 das quais nos Açores, a 31 de Outubro, quando um deslizamento soterrou parte da povoação de Ribeira Quente, entre as 4h e as 5h da madrugada. Apenas 6 dias antes, em 26 de Outubro, um autêntico dilúvio abateu-se sobre a Serra de Monchique (Algarve), onde a grande inclinação dos cursos de água originou uma rápida propagação da onda de cheia. As enxurradas trans77 portaram várias toneladas de blocos de sienito das mais variadas dimensões, areia e lama, bem como troncos de árvores, destruindo pontes, estradas e galgando povoações. A ribeira da Garganta possui uma bacia-vertente diminuta (1,1 km2), mas tem uma inclinação média do canal de 18%, descendo 360 m em apenas 1965 m de comprimento (Fig. 12). A litologia da bacia é constituída por sienitos meteorizados e a ocupação do solo é dominada por matas de eucaliptos e Quercus. A precipitação registada em Monchique entre as 0 e as 6 horas da madrugada do dia 26 atingiu 274 mm (Fig. 13), o que constitui o dobro da precipitação média do mês (138 mm) e 1/5 da precipitação média anual, correspondendo a um período de retorno de 1000 anos (RODRIGUES, BRANDÃO, ÁLVARES, 1998)! A intensidade da precipitação atingiu 164 mm/h, entre as 3 e as 3.05 horas. A ribeira da Garganta, com um tempo de concentração de 35 minutos drenou durante cerca de 7 horas, 319 000 m3, com um caudal específico de 11 m3/s/km2. Mais uma vez, a acção humana contribuiu para o agravamento dos prejuízos causados pelas cheias. Parte da vila de Monchique assenta sobre a ribeira da Garganta (Fig.12), que foi coberta e canalizada. As casas foram implantadas transversalmente ao vale. Estas casas serviram de barreira ao livre escoamento das águas, da lama e dos blocos. Como consequência, a ribeira rebentou com parte do colector por onde corria, galgou as ruas levantando a 78 Monchique 825 806 548 450 500 550 600 650 700 750 800 600 Rede de drenagem Altitude (em metros) N Área urbana Garganta Limite da bacia-vertente Ribeirade 0 500 m FIG. 12 – A bacia-vertente da ribeira de Garganta a montante de Monchique FIG. 12 –The Garganta catchment upstream Monchique village calçada e entrou pelas casas submergindo os pisos térreos com blocos e lama. Mais a jusante, em Caldas de Monchique verificou-se situação idêntica: a ribeira foi coberta e canalizada, e as casas (entre elas o hotel das Caldas de Monchique e a empresa Águas de Monchique) foram construídas transversalmente ao vale. Quinze dias mais tarde, em 5 de Novembro, uma depressão vinda duma latitude tropical (menos de 30ºN), deslocou-se do Atlântico para o SW da Península Ibérica. Desde o dia 3 de Novembro que a depressão era continuamente alimentada por ar frio em altitude (gota fria). O gradiente térmico vertical que se estabeleceu no interior do vortex ciclónico acentuou a ascendência do ar húmido e quente da baixa troposfera. Durante as últimas horas de 5 de Novembro, o Alentejo foi varrido por uma tempestade caracterizada por períodos de chuva muito intensa, ventos fortes e trovoadas. Esta tempestade cruzou o sul do País (felizmente em áreas de baixa densidade populacional), arrasando uma faixa de SW para NE, desde Aljezur até Elvas e dirigiu-se para Espanha. Em Beja a precipitação alcançada em 24 horas foi 1/5 da precipitação média anual, ou seja, 104 mm. Destes, 80 mm ocorreram nas últimas 6 horas do dia 5 de Novembro. Entre as 20h50m e as 21h10m, ou seja, em apenas 20 minutos, caíram 29 mm. A cheia que se lhe seguiu destruiu pontes centenárias e fez 11 mortos em Portugal e 21 na área de Badajoz (Espanha). As ribeiras das pequenas bacias de drenagem, praticamente sem vegetação e com um substrato xistoso impermeável, responderam com enorme rapidez, ainda no final do dia 5, inundando 79 (Fonte/Source: Instituto Meteorológico) FIG. 13 – Precipitação horária em Monchique entre as 0 e as 7 horas de 26 de Outubro de 1997 FIG. 13 –Hourly rainfall in Monchique between 0 and 7 a.m. of 26th October 1997 Precipitação casas implantadas no leito de cheia das ribeiras. Os seus habitantes, mais habituados à escassez de água (devido às secas frequentes que afectam esta região do País) do que ao seu excesso, foram apanhados de surpresa, morrendo as vítimas afogadas dentro das suas próprias casas ou arrastadas pela corrente. O facto de o Oceano Atlântico estar mais quente do que o habitual nesta época do ano e de muitas das depressões que originaram estas chuvas intensas terem um trajecto oceânico entre 30 e 40ºN, sofrendo a interacção das circulações tropical e polar, pode ter contribuído para estas chuvas excepcionais. Contudo, as suas consequências foram ampliadas pela falta de ordenamento do território, pela não observância das regras mais elementares de planeamento hidráulico e pelo não cumprimento da lei, mesmo por parte das entidades oficiais. VI. CONCLUSÃO A grande irregularidade dos rios portugueses dificulta o planeamento e gestão dos recursos hídricos, nomeadamente no Sul do país, onde são frequentes as secas, por vezes interrompidas por cheias brutais. Nas grandes bacias hidrográficas, como a do rio Tejo, o sistema de barragens reduz a frequência das cheias, especialmente as de Outono, visto que, após o período seco de Verão, as barragens possuem uma maior capacidade de encaixe do escoamento. Conjuntamente com a redução da frequência de cheias verifica-se o decréscimo da deposição de sedimentos (siltes e argilas), que fertilizam a planície aluvial do rio Tejo, e também uma acentuada erosão das praias localizadas a sul do estuário do Tejo, que são alimentadas principalmente a partir das aluviões arenosas. Pelo contrário, nas pequenas bacias de drenagem com um regime natural (sem influência das barragens) existe uma clara intensificação da importância das cheias durante os meses de Outono, durante as últimas décadas, em contraste com uma acentuada diminuição nos meses de Inverno e Primavera. Estas modificações seguem de perto a variação de comportamento da distribuição temporal dos quantitativos de precipitação registados nas últimas décadas para a área mediterrânea. Esta tendência não deixa de ser preocupante: por um lado, a concentração de precipitação, num menor número de meses, diminui a disponibilidade de água nos restantes e exige uma maior necessidade de armazenamento; por outro lado, esta concentração traduz-se na maior intensidade da precipitação no período outonal, com o consequente agravamento do número e intensidade das cheias e aumento da perda de solo. Se é verdade que a intensidade e concentração das chuvas são a causa próxima das cheias rápidas, também é verdade que os prejuízos e vítimas mortais resultantes se devem a uma acção humana irresponsável. A urbanização descontrolada, a partir dos anos 60, da área envolvente da cidade de 80 Lisboa, devido à migração de milhares de pessoas do interior do país em direcção à capital, permaneceu, sem que se tivesse tirado qualquer ensinamento dos acontecimentos de Novembro de 1967. A destruição da vegetação nas áreas de maiores declives, com o consequente aumento da capacidade erosiva das águas de escorrência, a impermeabilização generalizada dos terrenos, a insuficiência ou inadequação dos colectores pluviais (a que se juntam, muitas vezes, as descargas dos esgotos), a criação de estrangulamentos artificiais que constituem obstáculos ao escoamento (canalização coberta de troços das ribeiras, muros e aterros transversais às linhas de água, construção nos leitos de cheia ou nas margens dos leitos menores, entulhamento dos leitos das ribeiras), foram as causas que contribuíram para o agravamento deste tipo de cheias. O carácter efémero dos pequenos cursos de água, que podem permanecer secos por vários anos, cria uma falta de percepção do risco de cheia pela população e, em muitos casos, pelas entidades oficiais. Mas também numa região pouco povoada, como é o Alentejo, a acção humana é um factor agravante das cheias. A construção nos leitos de cheia e implantação das casas transversalmente aos fundos de vale, servem de barreira ao livre escoamento das águas, contribuindo para agravar o efeito das cheias. O desordenamento do território constitui assim a principal causa das mortes causadas pelas cheias. A grande maioria das vítimas foram encurraladas nas suas próprias casas, construídas nos leitos de cheia, muitas vezes ilegalmente, e outras com a permissão das entidades municipais. BIBLIOGRAFIA ALEXANDRE, L. M.; BORRALHO, M. E. (1982) – Defesa contra as cheias na Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, Simpósio sobre a Bacia Hidrográfica Portuguesa do Tejo, vol. 1, A.P.R.H., Lisboa, 19 p. AMARAL, I. (1968) – As inundações de 25/26 de Novembro de 1967 na Região de Lisboa, Finisterra –Revista Portuguesa de Geografia, Lisboa, III(5), CEG: 79-84. COSTA, P. C. (1986) – As cheias rápidas de 1967 e 1983 na Região de Lisboa, in Estudos em homenagem a Mariano Feio, Lisboa: 601-616. COUTINHO, M. 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