scieee Science in your language
[pt] (orig)

‘A patriótica e verdadeiramente humanitária proteção aos índios’. Memória e retrospectiva sobre o Serviço de Proteção ao Índio por um velho indigenista

Abstract

Em 1967, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), instituição indigenista brasileira, estava vivendo seus últimos dias. Abalado por escândalos e investigações judiciais e políticas, os militares no poder aproveitaram a situação para extinguir o SPI e reformar o indigenismo de acordo com seus objetivos geopolíticos e estratégicos. Nesses últimos momentos, Alberto Pizarro Jacobina, um antigo indigenista, publicou cinco textos no jornal O Globo, entre 7 e 12 de outubro de 1967, em busca de defender a memória do SPI, bem como seu legado físico e simbólico. Usando esses textos como ponto de partida, o presente trabalho pretende analisar os problemas e os desafios históricos do SPI no contexto do Brasil do século XX, visto por meio do olhar de uma pessoa que dedicou sua vida ao romântico projeto indigenista “rondoniano”

Read accessible full text

‘A patriótica e verdadeiramente humanitária proteção aos índios’. Memória e retrospectiva sobre o Serviço de Proteção ao Índio por um velho indigenista

Author: Benítez Trinidad, Carlos
Publisher: Universidade de São Paulo
Year: 2021
Source: https://minerva.usc.es/bitstreams/44a22ab4-29d3-4f9c-840f-7df3a346d7bf/download
1
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
ARTIGO
ARTIGO - INTEGRA O BLOCO 4 ‘A PATRIÓTICA E
VERDADEIRAMENTE
HUMANITÁRIA PROTEÇÃO
AOS ÍNDIOS’1. MEMÓRIA
E RETROSPECTIVA SOBRE
O SERVIÇO DE PROTEÇÃO
AOS ÍNDIOS POR UM
VELHO INDIGENISTA
Ca los Bení ez T inidad2
Uni e sidad de San iago de Compos ela
Uni e sidade No a de Lisboa
Lisboa – Po ugal
Resumo
Em 1967, o Se iço de P o eção aos Índios (SPI), ins i uição indigenis a b asilei a,
es a a i endo seus úl imos dias. Abalado po escândalos e in es igações judi-
ciais e polí icas, os mili a es no pode ap o ei a am a si uação pa a ex ingui o
SPI e e o ma o indigenismo de aco do com seus obje i os geopolí icos e es a-
égicos. Nesses úl imos momen os, Albe o Piza o Jacobina, um an igo indige-
nis a, publicou cinco ex os no jo nal O Globo, en e 7 e 12 de ou ub o de 1967, em
busca de de ende a memó ia do SPI, bem como seu legado ísico e simbólico.
Usando esses ex os como pon o de pa ida, o p esen e abalho p e ende anali-
sa os p oblemas e os desa ios his ó icos do SPI no con ex o do B asil do século
XX, is o po meio do olha de uma pessoa que dedicou sua ida ao omân ico
p oje o indigenis a “ ondoniano”.
Pala as-cha e
Se iço de P o eção aos Índios – indigenismo – ques ão indígena – B asil – memó ia.
1 Albe o Piza o Jacobina, O Globo, 12 ou ub o 1967, p. 3. A igo não publicado em pla a-
o ma p ep in . Todas as on es e bibliog a ia u ilizadas são e e enciadas no a igo. Pes-
quisa desen ol ida sob inanciamen o do Depa amen o de Educación, Uni e sidad y
Fo mación P o esional da Xun a de Galicia, Espanha, com e e ência ED481B 2018/025.
2 Dou o em coo ien ação pela Uni e sidade Fede al da Bahia e a Uni e sidad Pablo de Ola ide,
a ualmen e pesquisado pos-dou o al pela Uni e sidad de San iago de Compos ela, Espanha e
in es igado in eg ado no CHAM-Uni e sidade No a de Lisboa, Po ugal.
Con a o
Colégio Almada Neg ei os (CAN)
Uni e sidade NOVA de Lisboa
Campus de Campolide
3.º piso – Sala 330
1099-085 – Lisboa – Po ugal
[email p o ec ed]
2
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
ARTICLE ‘THE PATRIOTIC AND
TRULY HUMANITARIAN
PROTECTION OF THE
INDIANS’. MEMORY AND
RETROSPECTIVE ABOUT
THE BRAZILIAN SERVIÇO
DE PROTEÇÃO AOS
ÍNDIOS BY AND OLD
INDIGENIST
Ca los Bení ez T inidad
Uni e sidad de San iago de Compos ela
Uni e sidade No a de Lisboa
Lisbon – Po ugal
Abs ac
In 1967, he Se ice o Indian P o ec ion (SPI in Po uguese), B azilian indigenis
ins i u ion, was li ing i s las days. To men ed by poli ical and c iminal in es i-
ga ions and scandals, he mili a y in powe seized he si ua ion o ex inguish he
SPI and e o m he indigenism unde hei geopoli ical and s a egical pu poses.
In hose las momen s, Albe o Piza o Jacobina, an old indigenis , published
i e ex s in he O Globo jou nal (be ween 7 h and 12 h o Oc obe 1967), aying o
de end and jus i y he memo y o he SPI, as well as i s ma e ial and symbolic
legacy. Using heses ex s as igge , his pape analyzes he SPI’s his o ical chal-
lenges and p oblems in he con empo a y B azilian con ex , seen h u he eyes
o a pe son who dedica ed his li e o he oman ic “ ondonian” indigenis p ojec .
Keywo ds
Se ice o Indian P o ec ion – indigenism – indigenous ques ion – B azil – memo y.
Con ac
Colégio Almada Neg ei os (CAN)
Uni e sidade NOVA de Lisboa
Campus de Campolide
3.º piso – Sala 330
1099-085 – Lisbon – Po ugal
[email p o ec ed]
3
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
In odução
En e 7 e 12 de ou ub o de 1967, as p imei as páginas do jo nal O Globo
ap esen a am uma sé ie de a igos de opinião esc i os po Albe o Piza o
Jacobina, um expe ien e indigenis a que dedicou boa pa e de sua ida p o-
issional a abalha di e a ou indi e amen e com o indigenismo posi i is a
no Se iço de P o eção aos Índios (SPI)3. Os ex os apa ece am em um con-
ex o des a o á el pa a a ins i uição, com sua memó ia sendo ilipendiada.
Nessa época, a di adu a ci il-mili a es abelecida em 1964 já p oje a a c ia
uma ins i uição adap ada aos seus in e esses geopolí icos e ideológicos. Des-
sa conjun u a nasceu a Fundação Nacional do Índio (Funai).4
Albe o Piza o Jacobina, nascido em 1900, e e sua ca ei a p o issional
ligada à adição indigenis a. Há e idências de seu abalho na Inspe o ia
Regional nº 45 de 1921 a 1932 jun o aos indígenas Fulni-ô. En e 1924 e 1928,
es e e enca egado do Pos o Indígena Gene al Dan as Ba e o (PIGDB), lo-
calizado no município pe nambucano de Águas Belas (PE). Nesse pe íodo,
ele desen ol eu uma sé ie de es a égias pa a a ins alação do Pos o, que o
le a am a en a em con li o com as eli es e as au o idades municipais e
es aduais. Essas p essões acaba am po p omo e sua saída do local. Após
um desen endimen o, ele chegou a ecebe ameaças de mo e (FREIRE, 2011).
Depois disso, ele a uou p incipalmen e como inspe o i ine an e e e o -
çou di e en es adminis ações, como a de Ma o G osso, em 1933, ou a do Rio
G ande do Sul, em 1938. Seu ápice como indigenis a p ecedeu sua desg aça.
En e 1943 e 1946, oi inspe o -che e da Inspe o ia Regional nº 1, esponsá el
3 Dada a imensidão do egis o bibliog á ico sob e o indigenismo e a his ó ia indígena na
li e a u a his ó ica e an opológica do con ex o b asilei o, op ou-se po inclui nes e a igo
aquelas ob as que se em pa a sua p óp ia na a i a, sem en a o nece uma lis a exaus i a
do ca álogo bibliog á ico. Mesmo assim, é necessá io ci a ob as como o clássico de GAGLIARDI
(1989) O Indígena e a República; assim e, apesa de já ci a á ios abalhos ao longo do ex o,
ecomendamos consul a a ob a de An onio Ca los de Souza Lima, an opólogo que em se
dedicado a pesquisa a u ela indígena; e complemen a com as ob as da ambém an opóloga
Alcida Ri a Ramos que az concei os capi ais pa a epensa o papel dos po os indígenas no
B asil con empo âneo e cujo pensamen o es á mui o p esen e na ob a da au o ia des e ex o.
Pa a os in e essados em ap o unda sob e os po os indígenas no B asil no século XX, ecomen-
damos o acesso à biblio eca Cu Nimuendajú da FUNAI que con ém uma boa quan idade de
ma e ial digi alizado: h p://biblio eca. unai.go .b /; e a iquíssima coleção bibliog á ica digi al
do Museu do Índio especializada no abalho do SPI: h p://www.doc i .com/doc eade .ne /
DocReade .aspx?bib=MI_Bibliog a ico&pag is=16324.
4 C iada com a lei nº 5.371, do 5 de dezemb o de 1967.
5 Responsá el pelo no des e b asilei o.
4
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
pelos es ados do Amazonas e do Ac e. Em azão de sua posição geog á ica
e de seu amanho, e a o pos o simbolicamen e mais pode oso do SPI, assim
como o mais desa iado . Seu abalho du an e esses anos oi alo izado an o
pelas au o idades polí icas como pelas indigenis as. Enquan o abalha a
pa a consolida a p esença ins i ucional do indigenismo, colabo ando em
á ios e en os com apoio das au o idades locais, ambém conseguiu solidi i-
ca a p esença do SPI en e os po os indígenas. Ele oi um dos que di igi am
a icônica emp ei ada de 28 de ou ub o de 1944 ao e i ó io Waimi i A oa i
pa a esga a os co pos dos memb os da expedição cien í ica es adunidense,
mo os semanas an es pelo po o indígena.6
Jacobina e a um g ande de enso da causa indígena. Rondoniano con-
ic o,7 ac edi a a es oicamen e no abalho público pa a alcança os obje-
i os posi i is as que inha assumido. Em con apa ida, ele ac edi a a que
a e iciência não pode ia se e a dada po bu oc a as e en idades admi-
nis a i as, is os como um obs áculo ao abalho indigenis a, já bas an e
p ecá io e mal pago. Isso não o impediu de abalha em con o midade com
as o malidades es abelecidas, embo a u ilizasse seu ca ác e du o, po e-
zes au o i á io, pa a alcança os obje i os, mesmo que isso signi icasse não
cump i es i amen e os p ocedimen os bu oc á icos pe inen es. Essa a i u-
de le ou-o a se mui o alo izado, mas ambém a ob e uma sé ie de inimi-
zades, sob e udo po pa e de subo dinados descon en es, que usa am essas
si uações pa a boico a seu abalho ou pa a denunciá-lo às au o idades.
Em 1946, na sequência de uma dessas queixas, oi demi ido do SPI e
pe manen emen e a as ado do se iço público po supos a ap op iação in-
de ida de undos. Tais alegações, po se em in undadas, acaba iam po le a
ao a qui amen o do p ocesso. Apesa disso, Jacobina não ecupe ou sua
posição, mas oi econ a ado, em 1955, como abalhado ex e no, quando
o p ocesso oi concluído com um aco do adminis a i o. Desde en ão, a uou
no SPI de o ma in e mi en e, combinando com ou as ocupações. Seu nome
6 In o mação sob e a ida e aje ó ia p o issional de Albe o Piza o Jacobina cole ada do ace o
digi al do Museu do Índio, especialmen e as pas as dedicadas a 1ª e a 4ª Inspe o ia, assim
como a pas a dedicada ao Rela ó io Figuei edo. Disponí el em: <h p://www.doc i .com/
doc eade .ne /DocReade .aspx?bib=MI_A qui is ico>. Acesso em:15 ou . 2018. Re e enciado
ambém ao inal do ex o.
7 Nes e ex o, se á usado o e mo “ ondoniano” pa a a ideologia e a p axe indigenis a nascida
do se anismo de Ma iano Cândido da Sil a Rondon, pe sonagem que se á abo dado de modo
mais de alhado ao longo do ex o.
5
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
oi ap esen ado como candida o à p esidência da SPI em 1963.8 Ele ambém
oi indiciado du an e as in es igações que esul a am no midiá ico Rela ó io
Figuei edo,9 em 1968. A acusação, pa a sua su p esa, oi po enda ilegal de
gado jun o com ou as au o idades do SPI no início dos anos 1960, quando
a ins i uição indigenis a es a a em uma si uação de caos gene alizado, em
meio a escândalos de co upção. Essa acusação ambém não p ospe ou, mas
seu nome semp e es e e ligado à lis a de acusados do mais amoso p ocesso
do indigenismo b asilei o do século XX.
As di iculdades in ínsecas ao abalho ei o po Jacobina pa eciam in-
ansponí eis, não só pela al a de ecu sos, mas ambém pelo desaco do exis-
en e en e os esul ados da p á ica indigenis a e seus obje i os idealizados.
A ida de Jacobina e a his ó ia do SPI passa am po al os e baixos in ima-
men e ligados: a idealização posi i is a, a acumulação de capi al simbólico, os
choques com a ealidade local e egional, a lógica in e na de pode da ins i ui-
ção e do hin e land b asilei o, as con adições, a al a de ecu sos e a co upção.
Embo a os ex os pa eçam se uma e ospec i a do SPI a pa i do pon-
o de is a pessoal do au o , são an es um discu so a iculado sob e o que oi
e o que de e ia se , segundo ele, a ação indigenis a. Os a igos p e ende am
se uma ca a ao co onel Heleno Augus o Dias Nunes, di e o in e ino do SPI
du an e aquele impasse, e ao minis o do In e io , A onso Augus o de Albu-
que que Lima,10 com a in enção de sal a o legado e a memó ia do SPI e a de
seu undado , o ma echal Rondon. Além disso, Jacobina busca a aconselha
sob e a ges ão do ó gão e, ambém, ale a sob e as di iculdades his ó icas
do indigenismo. Em cada ex o, ele insis ia que a ansição pa a uma no a
ins i uição indigenis a não de e ia se uma simples “ oca de nomes”, mas
uma e dadei a “mudança de men alidade” que con inuasse os passos de
Rondon e, po conseguin e, suas di e izes pa a uma melho in eg ação dos
po os indígenas na “comunhão nacional”.
8 P opos a ealizada pelo indigenis a Nelson Pe ez Teixei a ao p esiden e da comissão de in-
es igação Valé io Magalhães. A p opos a oi ag adecida, mas declinada, alegando Magalhães
que e a um ca go polí ico mais que écnico. Jacobina nunca oi di e o do SPI. Minis é io de
Ag icul u a. Tes emunho de Nelson Pe ez Teixei a, du an e a CPI de 1963. 11 de junho de 1963.
Rela ó io Figuei edo, Vol. 3. BR RJMI RELFIG-V3- 21a.
9 Publicado em junho de 1968, o Rela ó io Figuei edo é o esul ado das in es igações ealizadas pela
CPI c iada em 1967 e oi di igido po Jade de Figuei edo Co eia, que dá o nome ao documen o.
10 Du an e a di adu a, o indigenismo es e e sob a alçada do Minis é io do In e io .

6
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
P o eção aos Índios (I)11
Em 7 de ou ub o de 1967, o p imei o ex o de Albe o Piza o Jacobina
oi publicado em O Globo. No a igo, ele explica a as mo i ações que o le a-
am a esc e e aquelas e lexões. A esc i a apaixonada não é su p eenden e,
pois ele e a conhecido po suas exposições elogiosas,12 embo a, nesse caso,
al ez e idencie uma como en e en a i a inal de de ende a ins i uição e a
ob a à qual dedicou sua ida.
Inicialmen e, Jacobina coloca a o lei o a pa da p opos a dos a igos
que se iam publicados nos dias seguin es, is o é, a elabo ação de uma aná-
lise de alhada sob e a p á ica indigenis a. Nesse momen o, ele já es abelecia
a p emissa que acompanha ia oda a sé ie de publicações: uma espos a
u gen e ao g ande desc édi o que o SPI passou a e nos anos 1960, depois
das di e en es in es igações ealizadas, ais como as CPIs de 1963 e de 1967,
os g a es escândalos como o Massac e do Pa alelo 11, en e ou os. O au o
lidou com a necessidade impe a i a de se expo à imp ensa pa a de ende a
ins i uição, alegando p o ege a “g ande ob a ondoniana” con a os “es o -
ços nega i os dos que se comp azem na des uição”.
Pa a isso, Jacobina des aca a o “ace o [ma e ial] incalculá el” que os
“es o ços pa ió icos” do SPI acumula am ao longo da sua exis ência:
ob as ealizadas em silêncio, em pleno se ão, como sejam es adas, pon es, p édios,
es ações de ádio, pequenas indús ias, escolas indígenas, anspo es mo o izados,
e es es e lu iais, mas que ninguém ai e , e po isso, ninguém sen e, udo ei o
com pa císsimos ecu sos (...).
No en an o, ele ambém azia e e ência à iqueza mo al, in angí el,
enca nada na exis ência dos po os indígenas, econhecidos inalmen e po
uma sociedade necessi ada de edenção dian e da his ó ia e, sob e udo,
11 Tex o publicado em O Globo, 7 de ou ub o de 1967, página 3. As ci ações não e e enciadas nes e
a igo co espondem ao ex o analisado em cada seção e co e amen e e e enciado em seu í ulo.
12 Como demos am os ex ensos e bem esc i os in o mes que ealiza a, como aqueles des acados
po Pacheco de Oli ei a (2011) en e 1943 e 1945 quando e a inspec o che e da 1ª Inspe o-
ia Regional; ambém como au o de di e en es ob as como Dias Ca nei o (o Conse ado ): no 1º
cen ená io de seu nascimen o, 23 de no emb o de 1937 (1938); T aços biog á icos do Gene al Vicen e de Paulo
Teixei a da Fonseca Vasconcelos: Congo e ulgu an e capí ulo da his ó ia da comissão Rondon (1963); e com
Táci o L. Reis de F ei as, A Amazónia em oco (1968).
7
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
dian e do índio, sua al e idade mais ín ima.13 O SPI oi uma inicia i a ea-
lizada po um g upo de mili a es que, na i ada do século, inha um o e
ideal de p og esso, imbuído da lógica posi i is a, i ida quase como uma
expe iência eligiosa.14 Inspi ado po ce o laicismo eligioso, o discu so de
Jacobina pau a a-se nos pila es essenciais do indigenismo do SPI. Ele p o-
punha uma si uação apocalíp ica que só podia se con on ada com on a-
de e é ague ida; um líde ca ismá ico e mí ico, cujas pala as e aje ó ia
são inques ioná eis; inimigos incansá eis mo idos po maus sen imen os e
com obje i os mo almen e ques ioná eis; e, inalmen e, o e ecendo-se como
uma espos a de ini i a e inspi ada, ma cada po um o e co pus dogmá ico.
Esses componen es não es ão p esen es apenas no discu so de Jacobina,
mas aziam pa e do imaginá io comum do indigenismo dessa época, me e-
cendo, po an o, se em analisados.
P imei amen e, no pensamen o que moldou o indigenismo do B asil
epublicano, os po os indígenas i iam uma si uação his ó ica des a o á el
en e ao a anço da Mode nidade. Essa si uação es a a sac i icando esses
po os nos al a es do p og esso, pois eles ep esen a am um p imi i ismo
inocen e e bucólico, um B asil p imo dial; massac ado pelos elemen os mais
obscu os do p og esso: a ganância, o indi idualismo, o desen ol imen ismo
e a explo ação c uel dos pob es e inde esos.15
O indigenismo b asilei o con empo âneo ap esen a a-se a si mesmo
como a melho espos a ao pecado his ó ico da sociedade nacional em e-
lação aos po os indígenas. De emos e em men e que os indigenis as i-
nham como ideal sup emo ompe com aquela dico omia i econciliá el de
simboliza os indígenas como a ma iz da b asilidade e, ao mesmo empo,
se em um impedimen o indesejá el ao p og esso. Ao longo do século XIX,
a ep esen ação dos po os indígenas como um elemen o do passado, con-
denados his o icamen e ao apagamen o pela sua incapacidade de compe i
dian e da mode nidade, oi sendo desen ol ida. E os indigenis as do SPI se
13 B ilhan emen e de inido aqui po Alcida Ri a Ramos em Indigenism: e hnic poli ics in B azil (1998).
Ramos em dedicado g ande pa e de sua p odução a en ende o papel simbólico dos po os
indígenas na iden idade e no imaginá io b asilei o con empo âneo. Se ecomenda enca eci-
damen e sua lei u a pa a ap o unda nessa ma é ia.
14 Seu maio expoen e oi o Apos olado Leigo ou Ig eja Posi i is a do B asil, undada po Miguel
Lemos no Rio de Janei o em 1881 e que desen ol eu um cul o o ganizado e e e um emplo
no Rio de Janei o em 1927 (o emplo exis e a é hoje, no bai o da Gló ia). Ve COSTA (1953) e
LIMA (2010, p. 53-66).
15 Pa a conhece as o igens desse imaginá io se ecomenda a lei u a de El indio y el o o. Imagina ios,
ep esen aciones y usos discu si os en el indigenismo b asileño del siglo XX (TRINIDAD, 2019).
8
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
p opuse am a pô um im a essa dico omia, minimizando o máximo possí-
el o auma desse apagamen o.
A exposição do indigenismo como expiação da culpa é eco en e no
pensamen o ondoniano do início do século XX, e oma sua máxima ex-
p essão com o discu so16 de Alipio Bandei a17, ealizado du an e a inaugu-
ação da Inspe o ia nº 1 (BANDEIRA, 1912). Em seu discu so, Bandei a, um
ondoniano o odoxo como Jacobina, desenha um “bom sel agem” indígena,
ep esen an e de odo o bem que aquela e a o e ecia, sac i icado nos al-
a es do p og esso. Pa a o soldado, os na i os, “sób ios, con ian es, dóceis e
ingênuos e, como al, amigos da es a e da aleg ia”, inham sido ma i izados
em uma “ ompa apocalíp ica do sac i ício”. Po isso, os b asilei os ca ega-
am o pecado de imola “ba ba amen e aos di ames da nossa ganância, da
nossa e eza a é – o ça é dizê-lo – de nossa co a dia” aos po os indígenas.
Jacobina ep oduzia esse pensamen o em seu a igo no jo nal O Globo
ao menciona as “dí idas de hon a que o elemen o ociden alizado dos a uais
b asilei os ecebeu dos seus an epassados”. Em uma exposição ealizada em
Manaus (AM) no Dia do Índio, em 194418, ele ez alusão ao discu so de Alípio
Bandei a de 1910, ecupe ando p ecisamen e o echo sup aci ado. Jacobina
demons a a, po an o, que essa ca ac e ís ica azia pa e do imaginá io co-
mum dos p imei os indigenis as.
Nesse con ex o, os indigenis as do SPI e am is os como missioná ios
do lado bondoso da ci ilização, p on os pa a edimi os pecados da Mode -
nidade. Jacobina imagina a o B asil, como ez Alípio Bandei a, como uma
e a cheia de emoções e sonhos, abençoada pelo sac i ício indígena:
É nesse magni ico cená io, já ago a sag ado pelo sac i ício de an os milha es de í imas,
é aí que os libe ado es do século XX ão p ocu á-lo pa a a edenção, le ando na alma a
memó ia dolo osa do passado, e no pensamen o a g andeza, a hon a e a gló ia da Pá ia19.
16 Discu so ex ensamen e analisado po And ey Co dei o Fe ei a em Tu ela e Resis ência Indígena:
e nog a ia e his ó ia das elações de pode en e os Te ena e o Es ado b asilei o (2013).
17 Mili a , companhei o de Rondon, seguiu-o em sua a en u a indigenis a e deu oz li e á ia à
causa ondoniana com li os como A c uz indígena: publicação ei a em bene ício dos índios amazonenses
do Rio Jauape i (1926).
18 Conselho Nacional de P o eção aos Índios (1946a).
19 Conselho Nacional de P o eção aos Índios (1946b).
9
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
Essa ideia ap o undou a pe cepção de que os po os indígenas não
e am os p o agonis as de seu p óp io des ino20. Ao in és de se elaciona em
com a his ó ia seguindo suas p óp ias es a égias, esis ências e esignações,
ize am-no como sujei os passi os, idealizados e cênicos, cuja na u eza os
ez b ilha como símbolos omân icos a se em p ese ados a é seu ine i-
á el desapa ecimen o. Tal pensamen o não e a inédi o e, como acon eceu
com an os ou os aspec os do SPI, ele é in luenciado po uma adição bem
assen ada na in elec ualidade b asilei a do indianismo omân ico do século
XIX, assim como de an igos a ados de iloso ia que e oca am o Bon Sau a-
ge, a Idade de Ou o e o Pa aíso Te es e desde os p imei os momen os da
expansão eu opeia pela Amé ica (TRINIDAD, 2015). Essa abo dagem é o con-
inuum no qual i e a a gumen ação de Jacobina, bem como a da p imei a
ge ação de indigenis as do SPI.
Da mesma o ma, ha ia a in luência de Ma iano Cândido da Sil a Ron-
don21, mili a , indigenis a, undado e pai ideológico do SPI. Nele se inspi a a
e se undamen a a a me odologia de con a o, desen ol ida po Rondon du-
an e suas expedições eleg á icas pelo in e io do B asil no início do século
XX (DIACON, 2004). Foi com base em ideias posi i is as que se ep esen a a
o índio como se es humanos a asados que de e iam se ajudados, sob um
egime u ela , a p og edi pa a, assim, pode se in eg a e p oduzi eco-
nomicamen e den o da comunidade nacional. E a a e e ência sac a que
undamen a a o indigenismo.
A g ande somb a de Rondon impedia, na g ande maio ia dos casos,
ap o unda na essência da c í ica ao indigenismo, pois os p oblemas o am
causados pela degene ação da causa indigenis a. Mesmo es ando conscien e
das con adições in ansponí eis com as quais o SPI de Rondon nasceu.
As conquis as iniciais do “bom che e” Rondon o le a am a se uma e-
e ência mí ica, ao p omo e um p oje o como o SPI indo con a as missões
20 Uma ideia que, como an as ou as, sob e i eu no empo a é hoje e só ecen emen e começou
a se ques ionada.
21 Rondon é o he ói mí ico po excelência, c iando uma adição he oica de se anismo que se ia
seguida po ou as igu as, como os i mãos Villas-Bôas. A cons ução dessa mi ologia he oica
em mui o a e com a adição g eco-la ina. Pa a conhece mais, ecomenda-se le BAUZÁ
(1998). Em uma iagem semelhan e à do he ói clássico, o se anis a supe a uma sé ie de p o as
p a icamen e impossí eis, a a essando os limi es do Além, o se ão ou as e as sel agens,
con e endo-se em um in e mediá io en e ambos os mundos, en e mo ais e deuses, en e
po os ci ilizados e indígenas.
16
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
podia pe manece “ine e”, sem “ i a p o ei o”. Rondon de endeu que os
Pos os Indígenas de e iam busca sua emancipação com “se iços econômi-
cos”, emp egando os indígenas adul os capazes de abalha na p odução da
ma é ia-p ima mais con enien e; enume ando odo ipo de ma e ial, desde
ege ais e u as, a é mine ais. Essa ase, que sucede a “paci icação”, oi cha-
mada de a “ ase econômica do SPI”.
Aqui, Jacobina se posiciona como um ondoniano iel, de endendo que,
apesa de exis i uma co en e cada ez mais popula que a i ma a deixa
o pa imônio indígena “in ocado”, a explo ação econômica e a a única o ma
de “e i a a cobiça, o oubo e a in asão de e as inexplo adas”.
A Amazônia oi um bom exemplo quando, naquela época, já se p epa a a
a ocupação de ini i a do e i ó io pelas au o idades b asilei as, no ciclo que
mais a de ica ia conhecido como o Milag e B asilei o. Jacobina omou uma
posição cla a de que uma Amazônia inexplo ada e a uma Amazônia cobiçada.
En e an o, única o ma de comba e e icazmen e essa si uação e a
“pugna pelo seu desen ol imen o”, o desen ol imen o das p op iedades
indígenas. Po an o, não só de endia a indús ia ag opecuá ia, que é a explo-
ação econômica adicional p a icada pelo SPI, mas ai além disso, e como
Rondon disse a, ambém apela a pa a a explo ação ex a i is a que ge asse
a iqueza necessá ia pa a pode a ende co e amen e às necessidades dos
po os indígenas. É a a és da explo ação de seu iquíssimo subsolo que
os indígenas pode iam ob e uma enda que melho a ia signi ica i amen e
suas condições de ida e, jun amen e com a enda nacional, pode ia se i
de undo o çamen á io pa a as “ ibos” mais des a o ecidas.
O que se á de odo inde ensá el é a es agnação do Pa imônio Indígena
pela iné cia, e o c asso, que in ensi ica á cada ez mais a in asão das boas
e as, pois que os índios só se localizam em glebas é eis, que lhes p odi-
galizem a a p odução ag ícola.
O SPI p a ica a um sis ema de u ela baseado em uma elação de con-
ole e pode , no qual se cons i uí am como de enso es dos po os na i os,
u ilizando como meio pa a a ingi esses obje i os o uso da mão de ob a in-
dígena e dos ecu sos na u ais de suas e as (NÖTZOLD; BRINGMANN, 2013,
p. 148). E embo a osse uma inicia i a nascida do in e esse em p o ege os
po os indígenas, as au o idades que da am ida ao SPI es a am o emen e
ligadas aos in e esses nacionais, azão pela qual as es a égias de a ação e
ixação das populações indígenas es a am ge almen e em sin onia com uma
classe polí ica e econômica in e essada na expansão pelos “se ões”.
Com o obje i o de o na os índios cidadãos “melho es”, e endo algu-
mas de suas i udes o iginais (GARFIELD, 2011), oi enco ajada a c iação de

17
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
p oje os econômicos nos Pos os Indígenas. Não só pa a au ossus en o, mas
p incipalmen e pa a a come cialização da p odução. O mon an e ob ido a
pa i dos exceden es come cializados acaba ia sendo a “ enda indígena”,
cuja ges ão ocasiona a o es disco dâncias en e uncioná ios e indígenas.
Con li os ge ados pela pe da desses exceden es em labi in os bu oc á icos
ou pela co upção, o pouco bene ício que os po os indígenas ge almen e
ecebiam desses p oje os econômicos, sem esquece que a men alidade indí-
gena não se enquad a a na lógica da acumulação. Como salien am Nö zold
e B ingmann (2013, p. 151), a g ande maio ia desses p oje os oi ealizada sob
os pa âme os do SPI, sendo alheia aos in e esses dos po os indígenas.
No undo, o que mais inquie a a Jacobina e a a iné cia his ó ica do
B asil em elação ao p oblema da e a. Esse p oblema, uma bola de ne e de
p opo ções insus en á eis, e a a maio ameaça aos po os indígenas.
A ase econômica e a o único plano que o SPI podia o e e-
ce ao indígena pa a consolida sua in eg ação. Pa a de ende sua
posição, Jacobina apela a pa a um discu so p o e ido pelo gene al
Vicen e de Vasconcelos du an e a dema cação de e as indígenas
na Bahia, em 1926. Vasconcelos dizia que a dema cação oi um p i-
mei o e impo an íssimo passo pa a a posse da e a pelos po os
indígenas, mas isso em si mesmo se ia de pouca u ilidade se não
hou esse independência econômica en e aos “ci ilizados”.
É es e um elho ema e o mais g a e p oblema que cump e ao SPI esol e , decla ou
ce a ez, a O Globo, o gene al Vicen e Vasconcelos, pois em sido a causa undamen al
das lu as en e índios e ci ilizados. Essa impo an e ques ão de e as cons i ui a p in-
cipal missão do SPI e po ela em ele lu ando desde a sua undação.
Segundo Jacobina, o SPI e a uma en idade adian ada em seu empo,
pois de endia o slogan “ e a pa a aqueles que abalham e dela i em”, endo
o p óp io Vasconcelos ecebido ameaças de mo e (apa en emen e, um a o
comum en e mui os indigenis as). Pa a o indigenis a, e a a única o ma se-
gu a de ga an i a posse, e ele dá como exemplo o majo da Ae onáu ica Luis
Vinhas Ne es36, di e o do SPI de 1965 a 1966, que en ou de ende as e as
36 Cons ando na lis a de acusados di ulgado pelo CPI 1967, po 42 c imes. Minis é io do In e io .
1967. Lis a de acusados in es igação Comissão Inqué i o 1967. Ace o Museu do Índio, Rela ó io
Figuei edo, Volume 21, olha 55-58.
18
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
a a és de meios legais, con a ando ad ogados e p opondo ações judiciais
ca as, len as e pesadas, que nunca ob i e am esul ados. “Não nos iludamos,
só de ende emos a e a do índio, abalhando-a, o nando-a p odu i a”.
P o eção aos Índios (IV)37
No qua o ex o, Jacobina abo dou a ques ão mais espinhosa sob e o
SPI, discu indo a imagem nega i a que ha ia sido o mada pela opinião pú-
blica e en e os polí icos, que passa am a e a ins i uição indigenis a como
um luga onde a co upção e a enco ajada e que se ia como um esconde-
ijo pa a ma ginalizados e a en u ei os38.
Em um p imei o momen o e após deixa cla o que a ase econômica do
SPI e a a que seguia a da “paci icação”, Jacobina en a a explica a a e a i â-
nica do indigenismo e a o ma pela qual e a injus amen e pe cebida. Segun-
do o indigenis a, o equí oco comum de concebe o SPI como uma “sinecu a”
idealis a e simbólica se dis ancia a da ealidade da sua adminis ação, que
es a a mais p óxima da p e ei u a de uma g ande cidade ou do go e no de
um e i ó io ede al. Uma ez que compa ilha a odos os p oblemas que
a ligiam qualque go e no municipal, aliás ag a ados po sua dispe são po
odo o e i ó io nacional.
Vas a ede escola , se iço de assis ência médica, assis ência ju ídica, ob as de engenha ia
e medições de e as, se iços de anspo e e es e e na egação lu ial, es ações de
adio onia e eleg a ia, se iço de adminis ação ge al e o ien ação, se iço inancei o
e pa imonial, seção de es udos, museus, biblio ecas, cinema educa i o, publicação de
bole ins e o peso imp odu i o do Pa imônio Indígena, a da uma ilusó ia imp essão de
a u a, assobe bam a cabeça de um só homem e, a igo , o único esponsá el, o di e o .
O SPI inha uma es u u a semelhan e à de qualque agência nacional,
ou seja, uma sede p incipal onde es a am a di eção e as che ias adminis a-
i as e coo denado as, di ididas em Seção de Es udos, Seção de Adminis a-
ção e Seção de O ien ação e Assis ência; e uma sé ie de che ias egionais es-
palhadas po odo o e i ó io nacional. Chama am-se Inspe o ias Regionais
e e am nume adas de um a no e, ocupando odo o e i ó io e das quais de-
37 Tex o publicado em O Globo, 11 de ou ub o de 1967, página 5.
38 O p óp io se anis a F ancisco Mei eles, en ou no SPI pa a escapa da pe seguição a que oi
subme ido pelo seu a i ismo comunis a. Du an e os anos seguin es ele usou esse mecanismo
pa a ajuda ou os cama adas polí icos que ambém e am pe seguidos. (FREIRE 2005).
19
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
pendiam as unidades adminis a i as meno es, os Pos os Indígenas. Apesa
do in e esse do di e o do SPI em man e algum pode sob e as inspe o ias
egionais, a e dade é que as dis âncias con inen ais, o isolamen o e a al a
de ecu sos o na am esses o ganismos independen es e mui o au ossu i-
cien es. Às ezes, em inspe o ias mui o g andes, como a do Amazonas e Ac e,
e am os p óp ios Pos os Indígenas que goza am de ce a independência.
Essa a e a complexa, as a e e i o ialmen e dispe sa e a en en a-
da pelo SPI com um núme o insu icien e de uncioná ios, imobilizados po
g andes esponsabilidades que anscendiam a me a bu oc acia, adminis-
ando emp eendimen os econômicos, elações polí icas, educação, o gani-
zação e ensões in e é nicas.
Ademais, udo isso e a ei o com os salá ios mise á eis ecebidos de
o ma i egula . A documen ação egis a os uncioná ios a iscando suas
idas, longe de casa e incomunicá eis, enquan o suas amílias es a am con-
denadas à ome. Essa si uação oi no ada po F ancisco Mei eles quando
de endeu que o Es ado b asilei o p opunha o con a o de “pob e a pob e”
en e populações ma ginais (os abalhado es de campo do SPI e os po os
indígenas), ambos condenados a es a na pe i e ia do sis ema:
Uma das coisas que me cons angem, po exemplo, é le a an os p esen es pa a o
índio, machados, acas, oupas, enquan o os abalhado es es ão odos es a apados.
Em alguns luga es os índios es ão em si uação melho que as populações izinhas. (...)
Mui as ezes a camisa que damos ao índio, ele en ega a um abalhado , co igindo um
e o social nosso. Den o da conjun u a, a si uação do índio es á ligada à do homem
pob e. Que dize , den o de nossa má o ganização social, o índio é um dos compo-
nen es. (Veja, 23 de maio de 1973)
Segundo Jacobina, essa si uação ex ema, c onicamen e desp o ida de
ecu sos e com en a es legais, ob iga a o uncioná io do SPI a i e cons-
an emen e a o men ado po um dilema ing a o, escolhendo en e o “sen i-
men o de humanidade” ou o “espí i o da lei”. O p imei o e e ia-se a aze
unciona as Inspe o ias Regionais e os Pos os Indígenas, man endo uma e-
lação luida com as populações indígenas e a co e a dis ibuição de ecu -
sos e p oje os, mesmo que isso signi icasse e i a os p ocedimen os e p o o-
colos bu oc á icos di ados pela lei. Com o segundo, e e ia-se à aplicação do
“espí i o da lei” em odas as e apas da a i idade indígena, algo que le a a à
obs ução e ao bloqueio de odo o sis ema. Pa a Jacobina, o melho adminis-
ado a isca a sua epu ação pa a espei a o sen imen o de humanidade.
Esse p eâmbulo se iu pa a Jacobina p epa a o e eno de modo a jus-
i ica as p á icas de co upção e negligência no SPI. Pa a o indigenis a, ce -
20
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
amen e e a p eciso se du o com abusos e “deslizes”, mas ambém e a p e-
ciso se comp eensi o com as ci cuns âncias. Po que, apesa de se em mal
pagos e i e sob uma cons an e en ação, em ge al os uncioná ios e am de
uma esponsabilidade e uma hones idade exempla es. Pa a Jacobina, a p o a
mais e iden e do bom abalho dos uncioná ios e a a jus a depu ação das
esponsabilidades que o ó gão ha ia expe imen ado em um “passado ecen-
e”. Em sua pe spec i a, os pesquisado es não se sen iam em condições de
julga assim que começa am a comp eende as di iculdades do indigenismo.
E a co eção, pa a o u u o, dos desmandos que enha, po en u a, ha ido no SPI, só
se a á median e uma adical modi icação de uma in aes u u a que já não esis e
ao mais le e exame. Quan os uncioná ios exis em, clamando a é hoje po jus iça! E
quan os já mo e am, sem ê-la ecebido.
Pa a o an opólogo João Pacheco de Oli ei a, a pa i de seus es udos
do Al o Solimões en e 1920 e 1970 (OLIVEIRA, 2011), ao analisa o abalho
do SPI e do campo in e é nico, conclui que apesa da ama de que goza a,
nunca e e amplos pode es, ecu sos e capacidade de in luência. Pelo con-
á io, subme ido a uma al a c ônica de ecu sos ma e iais e humanos, o
SPI oi o çado a i e em uma mon anha- ussa de conjun u as oscilando
en e pulsações de esplendo e ímpe o e ou as de ca ência e abandono.
Essa si uação oi ag a ada pela con inuada p essão alienan e das polí icas e
economias locais.
Uma si uação que Jacobina conheceu em p imei a mão po ê-la i ido
á ias ezes. Pa a ilus a isso, podemos ci a a ca a que o indigenis a en-
iou ao capi ão Ju acy Magalhães, in e en o ede al no es ado da Bahia, em
2 de ou ub o de 193239. Nela, Jacobina condena a o “desapa ecimen o” i ido
pelo SPI da Bahia na época, lamen ando a pe da do pa imônio ge ado em
seu abalho com os indígenas dos ios Jequi inhonha, Cachoei a e Pa do,
de ido à al a de inanciamen o e on ade polí ica. Ao pon o de os se ido-
es passa em ome, os p o edo es deixa em de aze ecu sos básicos e os
po os indígenas deixa em o luga chamando os b ancos de “men i osos” 40.
39 Museu do Índio, e e ência: BRRJMI SPI-IR4-666-069-01- 2/ 3.
40 Como mos a um abaixo-assinado dos uncioná ios Cas o Rocha, Se e iano de Souza, Pe ei a
Lima (que inha ido alguns p oblemas com Jacobina, chegando a esc e e -lhe uma ca a em
22 de janei o de 1945 pe gun ando-lhe sob e sua insis ência em igno á-lo apesa de pedi
ajuda á ias ezes) e Miguel B iglio da 1ª Inspe o ia Regional di igindo-se ao minis o da
Ag icul u a. Eles oga am pa a que o abalho do SPI naquela pa e do país não osse pa ali-
sado, já que mui os de am sua ida e seu abalho pelo p oje o indigenis a. Pa ece que após
21
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
De aco do com Pacheco de Oli ei a (2011), essa si uação ge ou p in-
cipalmen e dois ipos dis in os de uncioná ios do SPI. Po um lado, ha ia
aqueles que agiam de aco do com a ideologia indigenis a, o emen e con-
ian es no discu so ondoniano e guiados po p ocedimen os egula es do
se iço público; e ou os com uma ideologia “pa e nalis a”, p o undamen e
ligados aos in e esses dos se ingalis as e come cian es locais, p edispos os a
usa em seus ca gos públicos como moeda de oca na ede clien elis a polí-
ica e econômica local.
Os uncioná ios indigenis as cos uma am es a sujei os a sé ias p es-
sões po pa e dos se o es in e essados na ques ão indígena de ido a ques-
ões polí icas ou econômicas, p incipalmen e ligadas a in e esses undiá ios
e, em meno escala, à explo ação de abalho indígena. Essa p essão podia
a ia desde o e ece e as do Pos o Indígena pa a explo ação alheia, “em-
p es a ” mão de ob a indígena a azendei os locais a é a p essão con ínua
sob e o p óp io di e o do SPI.
Noel Nu els, médico e indigenis a, di e o do SPI em 1964, alou ao Jo -
nal do B asil41 sob e seus 24 anos de indigenismo, explicando como i eu
p essões con ínuas de polí icos e g andes azendei os pa a oma medidas
que p ejudica iam os po os indígenas du an e seu b e e manda o.
O nosso indígena semp e oi conside ado um in aso – escla ece – E a cons an emen e
p ocu ado po pessoas pedindo que i asse os índios de uma de e minada á ea, pa a
que pudessem c ia gado, plan a milho ou ap o ei á-la pa a ou a a i idade qualque .
Essa si uação de con li o c ónico cos uma a le a os uncioná ios do
SPI a complicadas si uações de con on o. C uzando as ap eciações de Jaco-
bina com os es udos de Pacheco de Oli ei a, podemos cogi a que os un-
cioná ios que es a am de e minados a segui os códigos do indigenismo
a pa ida de Jacobina, a Inspe o ia do Amazonas e Ac e caiu em al es ado de abandono que
alguns indigenis as se sen i am ob igados a esc e e uma ca a ao minis o. Esse abandono
le ou à mendicidade de alguns se ido es, ao abandono de seus pos os indígenas, à en ada de
“es angei os” em e as indígenas e à al a de assis ência na i os. Escla ecendo que apesa de
es a conscien e da al a de ecu sos e dos baixos salá ios ine en es ao abalho indigenis a, a
si uação es a a indo longe demais. Fala am dos empos da che ia de Jacobina e do seu abalho
c iando in aes u u as, comunicações, paci icação, assis ência e boas elações com as eli es
polí icas e eclesiás icas da zona. Amado pelos se ido es e pelos po os indígenas, um exemplo
de humanismo indigenis a, sac i icado e in épido. 12 de agos o 1948, P o ocolo nº 3683-48
do Minis é io da Ag icul u a. Museu do Índio, e e ência: BRRJMISPI-IR1-999-394-18- 2.
41 19 de ma ço de 1968 em a igo in i ulado Inqué i o sob e o SPI pa a a espe a das comissões que con i-
nua ão as in es igações.

22
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
o am le ados a queb a as eg as pa a aze unciona a máquina adminis-
a i a. Con a iamen e, se espei assem as eg as, co iam o isco de blo-
quea os di e sos emp eendimen os. Ou os uncioná ios, ge almen e, mas
não necessa iamen e, em si uação de necessidade, endiam a se co ompe e
a busca o mas de luc o, c iando an eceden es que podiam le a à queb a
das elações com os po os indígenas, ao seu desapa ecimen o ou à c iação
de lógicas des u i as ou desiguais na elação en e os po oado es locais e
indígenas. Não e a su p eenden e que essa si uação le asse a con li os, boi-
co es e pa anoias en e os p óp ios agen es do SPI42.
O p óp io Jacobina so eu com essa si uação du an e os anos em que oi
inspe o che e da 1ª Inspe o ia Regional, quando um de seus uncioná ios,
com quem es a a em desaco do, bloqueou o co e onde a con abilidade e a
gua dada43. Tal ação le ou a uma in es igação do T ibunal de Con as, que
não ecebeu os documen os na da a solici ada, con a Jacobina, e isso acabou
a as ando-o do SPI como uncioná io público po i egula idades na comp a
e enda de gado44.
Essa lógica cíclica se ag a ou com o passa dos anos, o nando-se c ôni-
ca na década de 1960, a o ecida pela conjun u a his ó ica que o país i ia.
Isso não passou despe cebido e, em 1963, hou e uma in es igação es é il em
que quase nada eio a público e cujos esul ados o am pe didos em um
incêndio do Minis é io da Ag icul u a em 1967 (RESENDE, 2015, p. 496). Em
1965, oi c iado ou a CPI, p esidida po Jade Figuei edo, que, após exaus i-
o abalho de in es igação em empo eco de (DAVIS, 1977), ap esen ou o
amoso Rela ó io Figuei edo, con i mando a pe pe uação e a na u alização
de dinâmicas co up as en e os uncioná ios do SPI e de abusos con a os
po os indígenas. O ela ó io c iou um g ande al o oço midiá ico e, no inal
desse mesmo ano, desapa eceu dos a qui os. De ido a uma con usão de
da as, ac edi a a-se que o documen o o a pe dido no incêndio do ano an-
e io , só sendo ecupe ado, em 2013, pela Comissão Nacional da Ve dade no
a qui o do Museu do Índio (RESENDE, 2015).
As in es igações possibili a am que o pessoal do SPI en asse em uma
lógica de “cada um po si”, que culminou em uma oca de acusações en e
42 Fo am obse adas nas in es igações de 1963 e, especialmen e, nas de 1967 mui as acusações
e denúncias alsas.
43 Tes emunho de Nelson Pe ez Teixei a, Di e o do SPI em 1960, du an e a CPI de 1963. Vol. 3
Rela ó io Figuei edo, e e ência BR RJMI RELFIG-V3- 21a.
44 Depa amen o adminis a i o do Se iço Público, p ocesso nº 1.110-54. Ace o Museu do Índio.
23
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
elhos inimigos. O p óp io Jacobina oi a e ado po essa si uação. Em 2 de
julho de 1964, o che e da 5ª Inspe o ia, Jose Mongeno Filho, ap esen ou ao
di e o do SPI um documen o e e en e a uma denúncia dos “índios”, ep e-
sen ando o descon en amen o de “ odos os pa ícios Te enos”, Leopoldo Vi-
cen e e An ônio Lisboa, do Pos o Indígena Capi ão Vi o ino (MT), con a Luiz
Ma ins Cunha e Albe o Piza o Jacobina. A o igem da dispu a inha de
e em endido ou ocado os melho es animais do Pos o, deixando os índios
sem essa o ça de abalho. Segundo Mongeno Filho, o abuso de con iança
po pa e de Jacobina e a e iden e, le ando os índios à e ol a45.
Essa decla ação jun ou-se à de Boane ges Fagundes de Oli ei a46 em 21
de ou ub o de 1967 que, en e uma boa sé ie de acusações, nomeou Jacobina
como en ol ido, mais uma ez, em uma enda pouco anspa en e de gado
na azenda São Ma cos47 (RR), com a in enção de en iquece o majo Luis
Vinhas Ne es, demons ando que Jacobina ganhou uma boa comissão po
isso. Em seguida, uma sé ie de es emunhos con adi ó ios de di e en es acu-
sados, alguns apoiando a acusação, ou os de endendo-o, le ou a comissão
a acusa Jacobina po e sido econ a ado pelo SPI, apesa da sua expulsão,
e pela enda audulen a de gado em São Ma cos48.
Acusações que o am inalmen e a qui adas após a de esa de Jacobina,
icamen e ilus ado po es emunhos a o á eis ao indigenis a po di e en-
es pe sonalidades mili a es, polí icas e indigenis as, em 6 de maio de 1968,
na qual ele não só se de endeu das acusações daquela época, mas ambém
ap o ei ou a ocasião pa a ecupe a sua de esa das acusações que o le a am
a se a as ado do SPI em 194649.
Cu iosamen e, o a iso de acusação eio seis meses após as publicações
em O Globo que es amos analisando nes e a igo. E é nessa publicação que
ele concluiu que o SPI, como de enso dos indígenas, ha ia sido sis ema ica-
men e pe seguido, independen emen e das p ecauções omadas, po aqueles
que i iam da explo ação do abalho e do pa imônio indígena. Como e-
sul ado, a ins i uição indigenis a ha ia sido semp e acossada po “malé olas
45 Museu do Índio, e e ência: BRRJMI SPI-IR5-086-073-36- 1.
46 Também acusado pela CPI po seduzi indígenas, acusa alsamen e companhei os, se em-
b iaga em e a indígena e se luc a inde idamen e. BR RJMI RELFIG-V23- 93.
47 Foi nomeado adminis ado não só da azenda São Ma cos da 1ª Inspe o ia, ambém da a-
zenda “Kadiuéus” da 5ª Inspe o ia (AM) e da “Simões Lopes” da 6ª Inspe o ia (MT) em 22 de
ou ub o de 1964. BR RJMI RELFIG-V17- 25.
48 Museu do Índio, e e ência: BRRJMI RELFIG-V8- 99.
49 Museu do Índio, e e ência: BR RJMI RELFIG-V24- 148/156.
24
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
censu as”. Ele da a o exemplo de Rondon, que nem seque es a a a sal o de
al assédio desde que omou o caminho indigenis a. Re e indo-se ao apelo
de Rondon ao Cong esso Nacional em 1915 em que, elogiando o SPI, lamen-
a a que mui o mais pode ia e sido ei o se hou esse mais meios e menos
assédio da bu oc acia e da pe ídia dos inimigos in e essados na esc a idão
do “abo ígene b asilei o”.
O elho F ancisco Mei eles50 se e de exemplo, mui as ezes pe seguido pela
Con abilidade Pública po excede as despesas, apesa de ealiza g andes ações
como a paci icação dos Xa an es e não possui nem mesmo uma p op iedade.
Du an e as in es igações da CPI de 1967, Mei eles admi iu e sido o -
çado a usa undos “es anhos”, edi ecionando o inanciamen o pa a di e-
en es p oje os a im de conclui ações de eme gência na sel a. Pa a p o a
que não ha ia luc ado, ele e e que p o a que e a pob e51.
P o eção aos Índios (V)52
Jacobina ence ou sua sé ie de ex os de endendo o maio e mais alioso
legado que a aje ó ia do SPI deixou pa a a pos e idade: o amo aos po os
indígenas. Foi g aças ao abalho e à iloso ia da ins i uição indigenis a que
o índio possuía suas p óp ias legislações nas di e en es cons i uições e es-
a u os. Assim, en e ins uções e ecomendações, nas quais con inua a in-
sis indo na necessidade de in es i na explo ação econômica do pa imônio
indígena, que pe mi i ia aos po os indígenas adqui i “hábi os mode nos de
abalho e em ecnologias mais p odu i as” com a in enção de acele a sua
in eg ação na sociedade, Jacobina de endia que a en ão a ual c ise do SPI
se ia supe ada, como odas as ou as c ises do indigenismo o am supe adas.
E o am nessas linhas que Jacobina consolidou a p incipal ques ão no
momen o de en ende o que signi ica a o indigenismo do SPI e que ele i-
nha des endando ao longo de oda a sé ie de publicações. O SPI es a a p o-
undamen e ma cado po uma on ologia ca ac e izada po dois elemen os
cla amen e di e enciados e complemen a es que cons i uíam sua iden idade
como agen e do pode b asilei o sob e as e as indígenas. Po um lado, a
50 Jacobina elogiou F ancisco Mei elles no ela ó io anual do SPI de 1942 po e paci icado os
Pakãa No a, não eagindo iolen amen e aos a aques indígenas. (FREIRE, 2011.)
51 Tes emunho p es ado pe an e a comissão adminis a i a de inqué i o em 22 de ou ub o de
1967. Museu do Índio, e e ência: BRRJMI RELF IG-V8-F104.
52 Tex o publicado em O Globo, 12 de ou ub o de 1967, página 3.
25
Ca los Bení ez T inidad
‘A pa ió ica e e dadei amen e humani á ia p o eção aos índios’. Memó ia e
e ospec i a sob e o se iço de p o eção aos índios po um elho indigenis a
e . his . (São Paulo), n.180, a03020, 2021
h p://dx.doi.o g/10.11606/issn.2316-9141. h.2021.168216
elação impos a pelo SPI aos po os indígenas, o que João Pacheco de Oli-
ei a chamou de “o pa adoxo da u ela” (OLIVEIRA, 1988) ou a combinação
de dimensões mo almen e posi i as de p o eção e pedagogia com o mas
ep essi as e po encialmen e iolen as de dominação.
Po ou o lado, como de ende Lima (2015), o SPI oi uma es a égia, ge-
almen e bem-sucedida em e mos de ocupação de e i ó io, po um Es ado
em expansão que es a a de e minado a es abelece a i idades econômicas
em egiões ocupadas po po os indígenas. A p opos a omân ica de Ron-
don oi ap o ada e pos a em p á ica g aças à e icácia que o p óp io Rondon
demons ou em sua me odologia de colabo ação com os po os indígenas
pa a a ocupação daquelas e as ainda a se em desen ol idas. E po mais
que o SPI osse a p ojeção de um sonho indigenis a de u ela e “amo ”, não
podemos deixa de nos pe gun a se ele e ia sido ealizado sem a igu a de
Rondon e seu sucesso nas expedições eleg á icas. Nesse sen ido, podemos
nos e e i à e lexão que Souza Lima nos o e ece sob e o SPI:
Na con amão do discu so undado do SPI, busquei pensa as ações go e namen ais
sob e os indígenas não apenas como demons ação de bondade e gene osidade, o ma
abnegada de p o ege aquele que é omado como incapaz de pa icipa plenamen e
numa comunidade polí ica, como a o humani á io, mas ambém de inse i-las como
pa e dos p ocessos de o mação de Es ado, de ex ensão de sua malha adminis a i a
a a és da a iculação de âmbi os domés icos e públicos, de uso do abalho indígena
e, mais impo an e, de libe a e as aos in e esses econômicos de g upos p i ados
(LIMA, 2015, p. 402).
O SPI não escapa a dessa ealidade e e a emendamen e subsidiá io
dela, e desse pa adoxo não esol ido su ge a maio ia dos p oblemas en-
en ados pela ins i uição indigenis a, o çando-a a i e em uma oscilação
exis encial de c ise pe pé ua ma cada po uma o e en opia. Das me o-
dologias de con a o (com b indes e música) a é a ans e ência de conheci-
men os pa a o aldeamen o e o uso econômico da e a e dos ecu sos, sem
esquece a “ca equese” indígena leiga pa a o má-los como cidadãos, azem
do SPI he dei o, pe pe uado e ape eiçoado de um sis ema de con a o e in-
e ação baseado na iolência simbólica53 e na dominação a a és da sedução,
es a égias já usadas an es do nascimen o do B asil como um Es ado-nação.
53 Não podemos esquece que o indigenismo semp e en ou ensina ao indígena a o ma “co e a”
de i e em “comunhão” com a sociedade nacional.