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RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE... 833 R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE COSTEIRA DO ESTADO DE SÃO PAULO(1) Maurício Rizzato Coelho(2), Vanda Moreira Martins(3), Pablo Vidal-Torrado(4), Célia Regina de Gouveia Souza(5) Xosé Luis Otero Perez(6) & Felipe Macías Vázquez(6) RESUMO Atributos morfológicos de 28 pedons, descritos e amostrados em cronossequências, e datações absolutas por luminescência (TL e LOE) e 14C foram utilizados para elucidar os principais fatores envolvidos na formação e evolução dos Espodossolos nos depósitos marinhos quaternários da planície costeira do Estado de São Paulo. Os solos estudados localizam-se nos municípios de Bertioga (Baixada Santista), Cananeia e Ilha Comprida (Litoral Sul). Essa abordagem, pouco comum nos estudos dos ambientes de planície costeira brasileiros, possibilitou as seguintes interpretações: (a) o relevo, a dinâmica hídrica e o tempo (incluindo as variações do nível relativo do mar) são os principais condicionantes da diferenciação espacial dos Espodossolos nos terraços marinhos; (b) os Espodossolos mais antigos e bem drenados, devido às condições de relevo e rebaixamento do nível do lençol freático, apresentam grande variabilidade e diversidade de seus horizontes e atributos morfológicos, diferindo daqueles mal drenados (antigos ou jovens), em que os horizontes são mais homogêneos; (c) os Espodossolos mais antigos, quando bem drenados, mostram-se em avançado estádio de degradação, enquanto os mal drenados encontram-se bem preservados, indicando que a sua gênese e permanência na paisagem estão ligadas ao relevo, que, por sua vez, controla a dinâmica hídrica; (d) os Espodossolos mais evoluídos e antigos, dotados de horizontes cimentados (orstein), podem ser considerados indicadores pedolitoestratigráficos dos depósitos marinhos pleistocênicos da Formação Cananeia; e (e) a gênese do horizonte orstein se deu em condições topográficas e hidrológicas pretéritas diferentes das atuais, indicando se tratar de solos poligenéticos ou paleossolos. Termos de indexação: datações por luminescência e 14C, Espodossolos, podzolização, depósitos marinhos quaternários. (1) Parte das Teses de Doutorado dos dois primeiros autores apresentadas à Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” - ESALQ/USP. Realizadas com auxílio da CAPES e FAPESP. Recebido para publicação em março de 2009 e aprovado em março de 2010. (2) Pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Solos, Embrapa Solos. Rua Jardim Botânico, 1024, CEP 22460-000, Jardim Botânico, Rio de Janeiro (RJ). E-mail: [email protected] (3) Professora do Curso de Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE-MCR. Rua Pernambuco, 1777, CEP 85960-000, Marechal Cândido Rondon (PR). E-mail: [email protected] (4) Professor do Departamento de Ciência do Solo, ESALQ/USP. Caixa Postal 09, CEP 13418-900, Piracicaba (SP). Bolsista do CNPq. E-mail: [email protected] (5) Pesquisadora do Instituto Geológico-SMA/SP; [email protected] (6) Professores do Departamento de Edafología y química agrícola de la Universidad de Santiago de Compostela. Campus Universitario Sur. Faculdad de Bioloxía. Espanha. E-mails: [email protected]; [email protected] SEÇÃO V - GÊNESE, MORFOLOGIA E CLASSIFICAÇÃO DO SOLO
834 Maurício Rizzato Coelho et al. R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 SUMMARY: RELATIONSHIP BETWEEN SOIL, LANDSCAPE AND GEOLOGICAL SUBSTRATE OF THE SANDY COASTAL PLAIN OF SÃO PAULO STATE This paper presents the results of morphological properties and absolute dating by luminescence and 14C of 28 pedons from Quaternary marine deposits located in three counties along the coast in São Paulo State, Brazil: Bertioga, Cananéia, and Ilha Comprida. The objective was to provide evidence to elucidate the main processes of the genesis of Spodosols. This approach, which is unusual in research concerned with Brazilian Quaternary coastal plains, resulted in the following interpretations: (a) relief, hydrologic conditions and time were the main soil formation factors responsible for the spatial differentiation of the Spodosols in marine terraces; (b) The horizon morphologic features of the most aged and well-drained Spodosols are highly variable and diverse. On the other hand, poorly drained Spodosols (old or young) are more homogeneous; (c) the oldest Spodosols, when well-drained, are in an advanced degradation stage while the poorly drained are well-preserved. This suggests that the genesis and permanence of the Spodosols on the landscape depend on the relief features controlling the hydrologic dynamics; (d) the most aged and developed Spodosols with orstein horizons can be considered lithostratigraphic indicators of marine deposits of the Pleistocene age in the Cananéia Formation; (e) the orstein horizon genesis took place under ancient topographic and hydrologic conditions that differ from the current. This indicates that such Spodosols are polygenetic or paleosols. Index terms: dating by luminescence and 14C; Spodosols; podzolization; quaternary marine deposits. INTRODUÇÃO As planícies costeiras paulistas apresentam grande diversidade de ambientes sedimentares quaternários, cujas unidades geológico-geomorfológicas quaternárias foram estudadas por poucos autores (Barcelos et al., 1976; Suguio & Tessler, 1992; Souza et al., 2008; Martins, 2009). Entre as unidades quaternárias mapeadas por esses autores, três são de especial interesse para o presente estudo: (a) cordões litorâneos arenosos holocênicos, (b) terraços marinhos holocênicos e (c) terraços marinhos pleistocênicos. Nesses ambientes arenosos, genérica e inapropriadamente denominados de “restinga” (Souza et al., 2008), predominam os Espodossolos e os Neossolos Quartzarênicos (Oliveira et al., 1992; Rossi & Queiroz Neto, 2001). O termo “restinga” apresenta várias definições, entre elas a geológica-geomorfológica, a botânica e a ecológica. No sentido geológico-geomorfológico, referese a barras ou barreiras arenosas, especialmente quando fecham lagunas costeiras (Suguio & Tessler, 1984; Suguio, 1992). As comunidades vegetais associadas às praias, dunas, cordões arenosos, depressões entrecordões, margens de lagoas, de ambientes paludosos e brejosos e até manguezais também são descritas como vegetação de restinga (Lacerda et al., 1982). A fim de evitar a utilização inadequada do termo “restinga”, Souza (2006) propôs a denominação dessas diferentes fitofisionomias de vegetação de planície costeira e baixa encosta. Suguio & Martin (1976, 1978a,b) ressaltaram que as oscilações do nível relativo do mar (NRM) durante o Quaternário desempenharam importante papel na evolução das planícies costeiras em todo o mundo. Na planície costeira paulista, dois eventos transgressivoregressivos foram registrados: o de Cananeia e o de Santos. O primeiro, de idade pleistocênica, teve seu pico máximo de oscilação positiva há 120.000 anos A.P. (antes do presente); o segundo, de idade holocênica, teria atingido seu pico máximo há 5.100 anos A.P. Os depósitos pleistocênicos associados ao evento transgressivo-regressivo Cananeia são denominados Formação Cananeia, enquanto os holocênicos, associados ao evento transgressivo-regressivo Santos, são designados de Formação Ilha Comprida (Suguio & Martin, 1976, 1978a, 1994). Ao relacionar os componentes da paisagem nas bacias dos rios Itaguaré e Guaratuba em Bertioga-SP, Rossi & Queiroz Neto (2001) e Souza et al. (2009) encontraram estreita relação entre o substrato geológico, os solos e a vegetação: os Espodossolos predominam nos terraços marinhos pleistocênicos sob Floresta Alta de Restinga. Relações semelhantes também ocorrem no litoral norte de São Paulo (Souza & Luna, 2008). Neste trabalho são apresentadas as principais relações solo-relevo-substrato geológico encontradas em depósitos marinhos arenosos quaternários de três municípios costeiros paulistas: Bertioga, Cananeia e Ilha Comprida. Estudos dessa natureza contribuem tanto para o entendimento dos frágeis ecossistemas de “restinga”, constantemente submetidos à
RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE... 835 R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 degradação ambiental, como para trabalhos futuros de caracterização das planícies costeiras. MATERIAL E MÉTODOS Área de estudo Pedons foram descritos e amostrados em três municípios do litoral do Estado de São Paulo: Bertioga, Cananeia (Ilha de Cananeia) e Ilha Comprida (Figura 1). O clima do litoral paulista é do tipo Af, com precipitação média anual de 1.800 a 2.000 mm e médias de temperaturas mínimas de 19 ºC e de temperaturas máximas de 27 oC (Köppen & Geiger, 1928). A geologia dos locais estudados é composta por depósitos arenosos pleistocênicos e holocênicos de origem marinha (Petri & Fúlfaro, 1970; Suguio & Martin, 1978a,b). Sobre eles desenvolvem-se principalmente florestas altas e baixas de restinga (Souza et al., 2009) associadas a Espodossolos e Neossolos Quartzarênicos (Oliveira et al., 1992; Rossi & Queiroz Neto, 2001). Com cerca de 240 km2, a planície costeira de Bertioga, localizada ao norte da Baixada Santista (Figura 1), apresenta quatro gerações de depósitos marinhos: duas de idade pleistocênica (terraços marinhos correlatos à Formação Cananeia e provavelmente à Formação Morro do Icapara) e duas holocênicas (terraços marinhos e cordões litorâneos correlatos à Formação Ilha Comprida) (Souza et al., 2009). A Ilha Comprida, localizada no litoral sul do Estado de São Paulo, possui 63 km de comprimento por até 5 km de largura. É constituída por sedimentos arenosos quaternários, predominantemente holocênicos, exceto para poucos remanescentes de terraços marinhos pleistocênicos e um morrote constituído de rochas alcalinas (Morrete), ambos localizados no extremo sul da Ilha. Dunas frontais holocênicas de até 10 m de altitude estão presentes sobre os cordões e os terraços arenosos (Suguio et al., 1999). Martin & Suguio (1978) a interpretaram como uma ilha-barreira relacionada às mudanças do NRM no Quaternário, cujo prolongamento para o norte teria se iniciado entre 6.000 e 7.000 anos A.P., com a transgressão marinha. A Ilha de Cananeia é composta, predominantemente, por sedimentos arenosos marinhos pleistocênicos (Suguio et al., 1999). Sua origem estaria relacionada ao período ocorrido entre 80 e 130.000 anos A.P. (Watanabe et al., 1997). Trabalhos de campo As prospecções foram realizadas por meio de sondagens com trado manual, observações de afloramentos e abertura de minitrincheiras para selecionar os locais de amostragem. Estes consistiram de 28 pedons representativos das unidades geológicogeomorfológicas alvos, sendo 24 de Espodossolos e quatro de Neossolos Quartzarênicos. Em Bertioga, 13 pedons foram descritos e coletados em cronossequência (P1 a P13); em Ilha Comprida, 10 pedons (P17 a P26); e na Ilha de Cananeia, cinco pedons (P27 a P31). Os solos foram descritos e amostrados conforme Santos et al. (2005) e classificados de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação dos SolosSiBCS (Embrapa, 2006). A descrição completa, a classificação e os dados analíticos dos pedons estão apresentados em Coelho (2008) e Martins (2009). Figura 1. Localização dos municípios de Bertioga, Cananeia e Ilha Comprida no litoral do Estado de São Paulo-SP.
836 Maurício Rizzato Coelho et al. R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 Datações As datações por Termoluminescência (TL) e Luminescência Opticamente Estimulada (LOE) foram realizadas no Laboratório de Vidros e Datação (LVD) da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (FATECSP), utilizando-se o protocolo de análise MAR (multiple aliquot regenerative-dose), segundo Murray & Wintle (2000) e Wintle & Huntley (1980). Os procedimentos e a forma de coleta e acondicionamento das amostras foram realizados conforme Sallun et al. (2007). Fragmentos de restos vegetais (tronco) soterrados a 1,2 m de profundidade (P7), bem como a fração TFSA (terra fina seca ao ar) de três horizontes orstein de diferentes pedons (P3, P10 e P30), foram utilizados para datação ao 14C. As amostras foram datadas no Laboratório de 14C do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP), em Piracicaba (SP), o qual utiliza os métodos de síntese de benzeno e espectrometria de cintilação líquida para determinar a atividade do 14C (Pessenda & Camargo, 1991). RESULTADOS E DISCUSSÃO A sequência de solos do município de Bertioga, representada pelos pedons P1 a P13 (Figura 2), é a mais extensa (aproximadamente 2,8 km). Seu material de origem, areias marinhas quartzosas, é de idade pleistocênica (P1 a P6) a holocênica (P13), correlato às Formações Cananeia e Ilha Comprida, respectivamente. Nessa sequência, algumas inconsistências cronológicas foram observadas entre as idades obtidas e aquelas utilizadas para definir os eventos transgressivo-regressivos do litoral paulista por Suguio & Martin (1978a). Por outro lado, as idades geológicas (TL e LOE) da sequência da Ilha de Cananeia (Figura 3) aproximam-se daquelas sugeridas por Suguio & Petri (1973), Suguio & Martin (1978a,b) e Watanabe et al. (1997). Na sequência de Ilha Comprida (Figura 4), uma estreita faixa de sedimentos de idade pleistocênica (P17) antecede cronologicamente os sedimentos holocênicos da Formação Ilha Comprida no sentido Mar de Cananeia-Oceano Atlântico, corroborando os estudos de Martin & Suguio (1978) e Suguio et al. (1999). Apesar dos problemas e considerações sobre a avaliação da idade 14C em Espodossolos, documentados por Matthews (1980) e Schwartz (1988), algumas de suas interpretações parecem relevantes, além de contribuírem para os estudos estratigráficos, evolutivos e paleoclimáticos da planície costeira paulista. Figura 2. Cronossequência de Bertioga. As cotas altimétricas aproximadas estão apresentadas acima da indicação dos pedons.
RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE... 837 R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 Figura 3. Cronossequência da Ilha de Cananeia. As cotas altimétricas aproximadas estão apresentadas nas extremidades da sequência. Figura 4. Cronossequência da Ilha Comprida.
838 Maurício Rizzato Coelho et al. R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 Considerando as idades 14C obtidas para os horizontes orstein e a premissa de que o tempo de residência médio (TRM) da matéria orgânica corresponde, aproximadamente, à metade do intervalo desde que sua acumulação se iniciou (De Coninck, 1980; Schwartz, 1988), pode-se inferir que as acumulações desse material nos horizontes B espódicos (orstein) iniciaram-se há cerca de 18.500, 9.600 e 4.260 anos A.P., respectivamente para os pedons P30, P03 e P10 (Quadro 1). Assim, as idades 14C e o TRM da matéria orgânica dos horizontes orstein (Bhm) dos pedons P30, P03 e P10 evidenciam numa primeira análise que: o pedon mais velho é o de Cananeia, o qual coincide com o depósito mais antigo (Quadro 2); e as idades 14C dos pedons de Bertioga (P13 e P10) variam em conformidade com aquelas obtidas dos sedimentos por TL e LOE (Quadro 2), ou seja, os depósitos mais antigos apresentaram idades 14C mais elevadas. Quadro 1. Idade 14C da matéria orgânica dos horizontes cimentados (orstein) e de um tronco de árvore (horizonte Cg) nos pedons selecionados (1) A.P.: antes do presente. (1) Dado numérico não disponível. Quadro 2. Dados de Termoluminescência (TL) e de Luminescência Opticamente Estimulada (LOE) de 13 amostras dos pedons estudados em Bertioga, Ilha Comprida e Ilha de Cananeia-SP
RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE... 839 R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 Essas idades coincidem com os registros de variações do NRM na costa paulista: no Pleistoceno Superior, durante o último máximo glacial, ocorrido há aproximadamente 17.000–18.000 anos A.P., o NRM encontrava-se em profundidades próximas às atuais isóbatas de -110 m a -130 m (Suguio & Martin, 1976, 1978a). Provavelmente, os Espodossolos de Cananeia tiveram seu início de formação e máximo desenvolvimento nos primórdios do estádio interglacial subsequente, período mais úmido do que o glacial que o antecedeu (Shell-Ybert et al., 2003), quando o NRM rapidamente se elevou. Condições favoráveis à podzolização teriam dado origem a esses solos: clima úmido e expansão de espécies vegetais arbóreas que produzem a serapilheira ácida; elevação do nível do lençol freático e diminuição da atividade biológica no solo; e material arenoso de origem marinha, pobre em bases, o qual exerce papel fundamental na gênese dos Espodossolos na planície costeira (van Breemen & Buurman, 2002; Sauer et al., 2007). O fato de a idade estimada para o TRM da matéria orgânica (18.500 anos A.P.) do horizonte orstein, na Ilha de Cananeia (P30), coincidir com o período de transição climática no final do Pleistoceno (17.000– 18.000 anos A.P.) indica que os Espodossolos podem não ser atuais e teriam sua máxima expressão pedogenética associada à transição do Pleistoceno Superior para o Holoceno Inferior. O início do período de formação dos Espodossolos da cronossequência de Bertioga também é condizente com os eventos transgressivo-regressivos marinhos do Quaternário no Estado de São Paulo. Suguio & Martin (1978b) mapearam os depósitos onde se localiza o pedon P3 (Figura 2) como pleistocênicos e correlatos à Formação Cananeia. A suposta idade do início de formação do horizonte orstein (Bhm2) do pedon P3 (cota altimétrica de 10 m), de 9.600 anos A.P., corrobora as interpretações desses autores. Por outro lado, o TRM da matéria orgânica (4.260 anos A.P.) do pedon P10 (cota altimétrica de 5,3 m) e a idade 14C de fragmentos de madeira enterrados (3.700 ± 70 anos A.P.) encontrados no pedon P7 (cota altimétrica de 3,5 m) indicam que o início do processo de formação dos seus horizontes B espódicos estaria associado à fase regressiva do NRM, ocorrida desde 5.100 anos A.P. (Suguio & Martin, 1976, 1978a) ou 5.600 anos A.P. (Martin et al., 2003), quando o NRM se elevou 4 ± 0,5 m acima do atual, até o presente; portanto, mais jovens que a idade do TRM da matéria orgânica do pedon P3. As idades TL e LOE obtidas e aquelas utilizadas para reconstruir as antigas posições do NRM para o litoral paulista, no tempo e no espaço, indicam que a idade dos depósitos em que se localizam os pedons P1 (171.100 ± 30.000 anos A.P) e P6 (150.000 ± 13.500 anos A.P.) ultrapassa 120.000 anos A.P. (Quadro 2). Algumas interpretações podem ser auferidas a partir desses resultados: o setor em que se situa o pedon P6 representa um remanescente dos depósitos marinhos da Formação Cananeia, isolado na paisagem, e é contemporâneo ao setor do pedon P3 (Figura 2). Os sedimentos desses depósitos podem ter sido retrabalhados pelo vento em período pósdeposicional, conforme consideraram Suguio & Martin (1978b) e Martins (2009). Nesses setores, é provável que os horizontes orstein dos Espodossolos tenham contribuído para a resistência à erosão e permanência dos remanescentes pleistocênicos na paisagem atual; a discrepância entre as idades dos sedimentos de topo e de subsuperfície (Quadro 2) indica que eles podem ter sido depositados em diferentes períodos e, ou, retrabalhados pelo vento após deposição marinha. Também não podem ser descartadas as limitações da técnica e do protocolo de análise (MAR) utilizado nas datações de TL e LOE (Sallum et al., 2007); da mesma forma, as idades superiores a 120.000 anos A.P. dos depósitos (pedons P3 e P6) também podem estar relacionadas às limitações da técnica e ao protocolo de análise (MAR), bem como às condições de sedimentação, como argumentado por Nott et al. (1994) para Espodossolos em ambientes de dunas da costa australiana. Por algum motivo, a idade residual (TL e LOE) de parte dos sedimentos aqui considerados, com diferenças entre as idades avaliadas verticalmente num mesmo pedon, pode não ter sido completamente zerada. É possível que o rápido transporte e deposição dos grãos de quartzo, bem como as condições de luminosidade do ambiente, não tenham propiciado suficiente exposição à radiação solar ultravioleta (Wintle & Muray, 2006) para zerar as suas idades TL e LOE residuais. Esses sedimentos teriam sido depositados em diferentes períodos e, associados às condições diferenciadas de transporte (mar, vento), condicionaram valores muito heterogêneos de intensidade luminescente residual. Isso explicaria as diferentes idades, mais antigas que as esperadas, encontradas num mesmo perfil (P3 e P6) e entre os depósitos marinhos e aqueles retrabalhados pelo vento. Apesar das diferenças entre as idades TL e LOE (Quadro 2), verificou-se que há redução destas em direção aos horizontes superficiais dos pedons analisados, concorrendo para considerar os resultados satisfatórios, os quais, associados às idades 14C e aos aspectos pedológicos, possibilitaram as seguintes interpretações: na cronossequência de Bertioga, os Espodossolos de idades 14C holocênicas formaram-se nos sedimentos pleistocênicos da Formação Cananeia (P3 e P10); as variações de solo e de relevo entre o P11 e o P12, juntamente com a idade aproximada de 5.100 anos do depósito no pedon P11 (Quadro 2), de cota altimétrica de 3,3 m (Figura 2), sugerem que o máximo transgressivo do NRM holocênico (Transgressão Santos) deu-se nesse setor da sequência; a diferença entre as idades TL e LOE a 0,6 e 1,3 m de profundidade no material mineral do horizonte E do pedon P6 (Quadro 2) sugere a ocorrência de duas fases deposicionais nesse pacote sedimentar durante o Pleistoceno: uma muito antiga (marinha) e outra mais jovem no final dessa época, durante a qual houve
840 Maurício Rizzato Coelho et al. R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 remobilização ou retrabalhamento dos sedimentos superficiais (horizontes A + E), provavelmente por processos eólicos. O material mineral que forma os horizontes subsuperficiais B espódicos consolidados (orstein) seria preservado, conforme constatado por Nott et al. (1994) em Espodossolos da costa australiana. No Brasil, a presença de orstein foi empiricamente utilizada por alguns geólogos quaternaristas como indicativo de sedimentos pleistocênicos costeiros (Suguio & Martin, 1978b). A partir dos dados obtidos e das observações de campo, presume-se certa veracidade em tal assertiva. Embora os Espodossolos estejam presentes em depósitos marinhos tanto pleistocênicos quanto holocênicos, o horizonte orstein ocorre apenas nos pleistocênicos. Na sequência de Ilha Comprida, o horizonte orstein não foi observado nos depósitos holocênicos, enquanto na sequência de Cananeia, dominada por sedimentos pleistocênicos, quase todos os Espodossolos apresentaram horizonte orstein dentro de 2 m de profundidade, com exceção do pedon P28 (Quadro 3). Em Bertioga esse horizonte está presente apenas nos pedons mais antigos (P3, P4, P6, P9 e P10), formados nos depósitos da Formação Cananeia, mas ausente no pedon P11 desenvolvido sobre os depósitos holocênicos. Também está ausente nos pedons P7 (3.700 ± 70 anos A.P.) e P8 formados por sedimentos pleistocênicos remobilizados e depositados sobre ambientes fluviais holocênicos. Da mesma forma, em Caraguatatuba (litoral norte de São Paulo), Souza (1992) encontrou o horizonte orstein somente nos terraços marinhos pleistocênicos, embora os Espodossolos também estejam presentes nos cordões litorâneos holocênicos mais antigos. Essas informações, associadas às observações do relevo local, sugerem que os horizontes orstein podem ser utilizados como indicadores pedoestratigráficos dos depósitos marinhos das planícies costeiras, desde que associados a outros indicadores geológicos e geomorfológicos locais e regionais. Nas planícies costeiras paulistas, as condições climáticas, progressivamente mais úmidas desde o final do Pleistoceno (Shell-Ybert et al., 2003), associadas à instalação da vegetação de floresta, às variações do NRM e ao material de origem, contribuíram para a formação dos antigos Espodossolos com horizontes orstein. É provável que a origem e a preservação do orstein decorram da atuação e maior estabilidade do lençol freático na posição em que se formaram. As idades obtidas por meio das datações ao 14C e do TRM da matéria orgânica presentes nesses horizontes (Quadro 1), discutidas anteriormente, levam a supor que a maioria dos Espodossolos desenvolvidos sobre os terraços marinhos pleistocênicos das sequências estudadas em Bertioga e Ilha de Cananeia são paleossolos ou, ao menos, poligenéticos, sobretudo quando dotados de horizontes orstein. Na sequência de solos estudada em Ilha Comprida, os Espodossolos mais jovens formaram-se nos depósitos sedimentares da formação de mesmo nome, bem drenados e caracterizados pelo alinhamento de cordões arenosos reafeiçoados. Por isso, esses Espodossolos são pouco desenvolvidos e, atualmente, encontram-se em diferentes estádios de formação. Solos: classes, distribuição na paisagem e morfologia Na sequência de Bertioga (sentido mar-serra), na transição do setor de pós-praia para os cordões litorâneos, ocorrem os Neossolos Quartzarênicos (P13). A ausência de características hidromórficas até cerca de 1,0 m de profundidade decorre de o lençol freático estar abaixo de 1,5 m na maior parte do ano. Nesse segmento não há evidência de podzolização e sim de mobilização de Fe, o qual imprime a coloração amarela aos horizontes nos primeiros 0,7 m de profundidade. À medida que se distancia da praia, a hidromorfia aumenta, juntamente com o aparecimento de mosqueados avermelhados e concentração de Fe, típicos de feições redoximórficas que caracterizam o pedon P12, representado por um Neossolo Quartzarênico Hidromórfico típico (Figura 2). A transição dos Neossolos Quartzarênicos hidromórficos (P12) para os Espodossolos se dá por uma suave ruptura de declive, sucedida por uma área deprimida (Figura 2), mal drenada, onde ocorrem Organossolos. A partir daí ocorre o Espodossolo Humilúvico hidromórfico espessarênico (P11), destituído de horizonte orstein, mas bem desenvolvido e com horizontes A + E de espessura superior a 1,0 m (Quadro 3). O segmento plano, que se inicia no setor do pedon P11, prolonga-se no sentido mar-serra. A partir da cota de 4,5 m é dominado por Espodossolos Humilúvicos hidromórficos com horizontes orstein (Bhm), que ocorrem entre 0,4 e 1,4 m, sob horizontes E com diferentes espessuras, as quais diminuem do pedon P10 para o P9. Os pedons P8 e P7, representados por Espodossolos hidromórficos com exíguo horizonte E e destituídos de horizonte orstein, localizam-se em uma área deprimida e muito mal drenada que antecede o remanescente de terraço marinho pleistocênico onde está situado o pedon P6 (Figura 2). Os limites entre os horizontes dos pedons P8 e P7 são os mais difusos, e os horizontes B espódicos, os menos desenvolvidos entre os Espodossolos dessa cronossequência. Uma peculiaridade desses Espodossolos é a presença de horizontes Cg (hidromórficos), sendo que no pedon P8 é de textura média e se inicia a 1,3 m de profundidade. Nesse horizonte, os abundantes fragmentos fósseis de troncos de árvores de idade holocênica (3.700 ± 70; Quadro 1), associados à cota altimétrica (3,5 m) e à presença de argila e de restos vegetais, evidenciam que os Espodossolos (P7 e P8) se formaram a partir dos sedimentos marinhos pleistocênicos remobilizados e depositados sobre um ambiente fluvial.
RELAÇÃO SOLO-RELEVO-SUBSTRATO GEOLÓGICO NAS RESTINGAS DA PLANÍCIE... 841 R. Bras. Ci. Solo, 34:833-846, 2010 Quadro 3. Dados morfológicos selecionados e classificação dos principais pedons estudados em Bertioga, Ilha Comprida e Ilha de Cananeia-SP Continua...