scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Literatura brasileira atual e desafios do contemporâneo

Villarino Pardo, María del Carmen

Abstract

Pascale Casanova, ao analisar a questão do «tempo» em relação às nações e suas produções culturais (também a literatura), afirmava que: «Il faut être ancien pour être puissant puisque le capital culturel national est constitué principalement de temps accumulé, transformé en ressources» (Casanova 2011: 15). Deixa claro que essa ancienneté é uma noção relativa e que os diferentes espaços nacionais — rivais num cenário mais amplo a nível mundial — não são iguais1 e propõe uma perspetiva dualista, indicando mesmo que não pretende criar uma visão rígida (Casanova 2011: 23), que contempla a distinção entre «literaturas menores» e «literaturas maiores». As primeiras — como já tinha comentado em A República mundial das letras — têm, em sua opinião, um vínculo muito forte com aquilo que diz respeito, entre outras, à definição do «nacional» e à própria história dessa nação (Casanova 2011: 22); e nas segundas, as mais antigas — incluída a Francesa —, essa relação ter-se-ia diluí-do, apresentando sistemas literários mais autônomos quanto a essas relações. Sendo a tradição francesa,2 em sua opinião, um claro exemplo de um sistema literário «ancien», a produção literária e cultural do Brasil estaria situada no outro polo, de «espaces littéraires les plus récemment apparus et peu dotés» (Casanova 2008: 128). Trata-se de uma perspetiva, em minha opinião, excessivamente simplificadora e reducionista.

Full text

[email protected] | ORCID 0000-0002-1355-3574, Scopus 55842905600 Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) Literatura brasileira atual e desafios do contemporâneo M. CarMen Villarino Pardo Grupo Galabra, Universidade de Santiago de Compostela Pascale Casanova, ao analisar a questão do «tempo» em relação às nações e suas produções culturais (também a literatura), afirmava que: «Il faut être ancien pour être puissant puisque le capital culturel national est constitué principalement de temps accumulé, transformé en ressources» (Casanova 2011: 15). Deixa claro que essa ancienneté é uma noção relativa e que os diferentes espaços nacionais — rivais num cenário mais amplo a nível mundial — não são iguais1 e propõe uma perspetiva dualista, indicando mesmo que não pretende criar uma visão rígida (Casanova 2011: 23), que contempla a distinção entre «literaturas menores» e «literaturas maiores». As primeiras — como já tinha comentado em A República mundial das letras — têm, em sua opinião, um vínculo muito forte com aquilo que diz respeito, entre outras, à definição do «nacional» e à própria história dessa nação (Casanova 2011: 22); e nas segundas, as mais antigas — incluída a Francesa —, essa relação ter-se-ia diluído, apresentando sistemas literários mais autônomos quanto a essas relações. Sendo a tradição francesa,2 em sua opinião, um claro exemplo de um sistema literário «ancien», a produção literária e cultural do Brasil estaria situada no outro polo, de «espaces littéraires les plus récemment apparus et peu dotés» (Casanova 2008: 128). Trata-se de uma perspetiva, em minha opinião, excessivamente simplificadora e reducionista. 1 Afirma também que: «Chaque espace national (par conséquent, dans la sphère littéraire, chaque écrivain qui en porte la marque) est fortement défini par la place qu’il occupe dans la structure mondiale dans laquelle il est affronté à toute la structure du pouvoir telle qu’elle s’offre au moment de l’observation» (Casanova 2011: 21). 2 Casanova assinala Paris como centro de legitimação e de aquisição de capital literário, em rivalidade com Londres (Casanova 2008: 47); a que se somou, mais tarde, Nova Iorque (Sapiro 2009: 277). 10 M. Carmen Villarino Pardo Abriu, 6 (2017): 9-14 ISSN: 2014-8526, e-ISSN: 2014-8534 Mais recentemente, e numa altura em que o Brasil ocupava a nona posição do mercado editorial a nível mundial (Carrenho 2012), a socióloga francesa Gisèle Sapiro indicava que o Brasil é um país da América do Sul «classé “émergent” et occupant une position relativement dominée mais en ascension sur le marché mondial de la traduction comme dans d’autres domaines» (Sapiro 2012: 19). Em suas análises sobre fluxos do mercado mundial do livro e da tradução, Sapiro observa que uns e outros se regem, fundamentalmente, por três tipos de desafios: econômicos, políticos e culturais; e destaca (Sapiro 2009: 282) que, no campo da tradução a nível transnacional, esses movimentos não podem ser simplificados nem reduzidos a um imperialismo econômico nem se derivam, automaticamente, do tamanho de um mercado editorial ou de uma língua. Assim, se a perda de liderança ou prestígio de um país (e de sua língua) no âmbito internacional tem consequências a nível cultural e no campo da tradução — como sucedeu com a cultura francesa, no Brasil e não só (Dantas e Perrusi 2012: 125) —, também pode acontecer, no sentido contrário, que o interesse crescente de um país no cenário internacional (por exemplo, o despertado pela consideração do agrupamento dos BRICS, incluindo o Brasil) provoque interesse por outros aspetos de sua cultura (Villarino Pardo 2016: 90-91). Este tipo de assuntos estão cada vez mais presentes nos debates e análises atuais sobre a literatura brasileira contemporânea; entendida, fundamentalmente, como a produzida a partir de 2000. De fato, no século xxi, verifica-se no campo literário brasileiro uma maior produção editorial, a tendência para a profissionalização do ofício de escritor e um mercado editorial forte que atraiu os investimentos de importantes grupos internacionais e que, recentemente, se tornou também exportador de direitos autorais (Pansa 2014: 6-7). Como anotavam Dalcastagnè/Villarino Pardo (2016) na apresentação do VI Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: o Local, o Nacional, o Internacional: A literatura brasileira se defronta, no momento, com uma série de exigências. De um lado, estão as novas vozes sociais — vindas de mulheres, negros, trabalhadores, moradores da periferia — que pressionam por um espaço onde possam, enfim, expressar o mundo, se legitimar e ser ouvidas. De outro, há um impulso à internacionalização, com investimentos públicos em feiras, viagens de escritores ao exterior e traduções. O trânsito entre os dois polos é intenso e, às vezes, acidentado; afinal, está em jogo, também, uma imagem de Brasil que se pretende sustentar 11 Literatura brasileira atual e desafios do contemporâneo Abriu, 6 (2017): 9-14 ISSN: 2014-8526, e-ISSN: 2014-8534 ou questionar. Daí a necessidade de se refletir sobre a produção literária atual a partir de diferentes ângulos, acompanhando a perspectiva de diferentes agentes do campo literário e observando os deslocamentos entre centro(s) e periferia(s). Foi desse encontro3 e dos debates acontecidos nele, a partir dos desafios colocados, que surgiu o generoso convite para organizar este monográfico da revista Abriu, a partir do qual se pretende mostrar algumas das dinâmicas e linhas-de-força que vive, na atualidade, o campo literário brasileiro. Assim, o volume abre-se com o trabalho de Jefferson Agostini Mello que aborda — fundamentalmente a partir das propostas de Pierre Bourdieu — algumas das mudanças que experimentaram os campos literário e da crítica no Brasil atual. Mello reflete sobre os modos em que os/as produtores/as literários/as se relacionam com o espaço social e como conseguem capital escolar e cultural (aproximando-se, através de sua formação universitária, do próprio campo da crítica) e aponta as restrições dos discursos da crítica literária (nomedamente, a universitária). As análises centram-se, entre outros, nos casos de Bernardo Carvalho e Paulo Lins. Nathalie Heinich declarava em Être écrivain (2000) que não faria uma análise psicológica do escritor no trabalho (por que escrevem, como escrevem), pois ia centrar-se, sobretudo, em conhecer em que condições um indivíduo pode dizer «sou escritor» e na identificação do que entende por tal e de como é compreendido pelo outro. Para isso, descreveu o espaço das posições dos/as escritores/as e do que há de comum na diversidade de casos que encaixam nessa categoria de «escritor/a». Em boa medida, parte de suas análises se refletem em alguns dos artigos incluídos neste monográfico, em que se tratam diferentes modos de entender e exercer o ofício e a(s) prática(s) de ser (e ser considerado) escritor/a. Nos textos de Luciene Azevedo e Ângela Dias encontramos um interesse direto por conhecer diferentes tomadas de posição de autores brasileiros contemporâneos. Azevedo centra-se nas estratégias de Marcelo Mirisola para a 3 O Colóquio foi organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (Gelbc), da Universidade de Brasília, em parceria com o Grupo Galabra, da Universidade de Santiago de Compostela, em Santiago de Compostela (25-27/1/2016), sob a coordenação de Regina Dalcastagnè (UnB-Gelbc) e M. Carmen Villarino Pardo (USC- -Galabra-Gelbc). 12 M. Carmen Villarino Pardo Abriu, 6 (2017): 9-14 ISSN: 2014-8526, e-ISSN: 2014-8534 construção da própria assinatura e singularidade autoral — de uma «marca de autoria» —, num texto que se encaixa num projeto mais amplo da estudiosa, visando analisar os processos de profissionalização do autor brasileiro, na atualidade, através dos modos que adotam na construção de suas trajetórias no campo literário. Por sua parte, Dias analisa alguns modos de uma dicção minimalista nas obras de Marcelino Freire e André Sant’Anna — dois autores que entram no campo literário brasileiro na década de 1990. Observa como ambos praticam — nomeadamente em seus contos — um «encolhimento da subjetividade autoral, em favor da encenação de um teatro de vozes da alteridade» (Dias: 54), na linha da tendência que surgiu em meados do século xx nas artes visuais nos EUA e que teve exemplos prévios no Brasil. Como resultado de várias pesquisas (individuais ou grupais) sobre o campo literário brasileiro nas últimas décadas, a estudiosa Regina Dalcastagnè (2008: 8) afirma que «no Brasil, hoje, os autores são, em sua quase totalidade, homens, brancos e de classe média. Eles reclamam das dificuldades enfrentadas para publicar, ser lidos e, obviamente, sobreviver de seu trabalho». E acrescenta ainda que «reconhecer essas dificuldades do campo literário não pode equivaler a entendê-las como as únicas existentes, nem como as mais sérias» (Dalcastagnè 2008: 8). De fato, é fora desse(s) espaço(s) que se situam os artigos de Oliveira/Pellizzaro e Tennina, que tratam diretamente do trabalho literário e cultural que vem sendo feito nas periferias das grandes cidades brasileiras — nomeadamente em São Paulo — e analisam o fenômeno dos saraus e de produtores que, em boa medida, representam «novas vozes, vozes “não autorizadas”» (Dalcastagnè 2012: 7). Oliveira e Pellizzaro estudam as implicações políticas que se derivam destas práticas literárias e culturais no Sarau da Cooperifa e no Sarau Suburbano — ambos na capital paulista —, convertidas numa ferramenta (tal e como entende Even-Zohar 1999) para agentes, consumidores e as próprias comunidades em que se desenvolvem. O capital simbólico associado a cada um dos lugares em que acontecem esses saraus — em suas práticas habituais, em bares e bairros — é necessário analisá-lo, na atualidade, tendo também em conta outros elementos que, como observa Lucía Tennina, superam «lo territorial como elemento determinante, alcanzando una dimensión virtual, por un lado, y, por otro, una dimensión transnacional» (Tennina: 85) que contribuem para matizar o significado da noção de «periferia», conforme ela explica. O interesse suscitado pela participação do Brasil como convidado de honra em diferentes feiras/salões internacionais do livro (Bogotá, Frankfurt, Bolo- 13 Literatura brasileira atual e desafios do contemporâneo Abriu, 6 (2017): 9-14 ISSN: 2014-8526, e-ISSN: 2014-8534 nha ou Paris) tem contribuído para uma maior projeção internacional da literatura brasileira, reforçada pelo impulso de programas de apoio à tradução de textos literários no exterior e à difusão de autores/as fora do país. Segundo pesquisas de Heilbron e Sapiro (2008: 29) em relação aos fluxos do mercado mundial das traduções, aproximadamente a metade dos livros traduzidos tem como língua de partida o inglês, que ocupa a posição mais central do sistema; de fato, caraterizam-no de «hiper-central» (Heilbron e Sapiro 2008: 29) ao mesmo tempo que afirmam a relação inversa entre posição dominada e exportação literária: «Alors que les pays dominants “exportent” largement leus produits culturels et traduisent peu dans leurs langue, les pays dominés “exportent” peu et “importent” beaucoup de livres étrangers, par la traduction notamment» (Heilbron e Sapiro 2008: 30). Precisamente, o trabalho de Claire Williams centra-se nas dinâmicas relativas à tradução de obras brasileiras para o inglês. A autora debruça-se sobre a produção brasileira no Reino Unido no recente período dos megaeventos esportivos, a partir dos anúncios de celebração do Mundial FIFA de futebol no Brasil, em 2014, e das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Partindo da hipótese de que estas circunstâncias representam uma oportunidade para mostrar uma imagem mais ampla e complexa do Brasil, analisa diferentes antologias de contos — como monográficos de revistas ou como livros — com autores/ as brasileiros/as publicados/as em inglês, entre 2011 e 2016: Granta (números 9 e 121), Wasafiri (n. 82) e, publicadas on-line, Litro (n. 114 e 129) ou Words Without Borders: BRAZIL; Other Carnivals e The Book of Rio. Em boa medida, os assuntos que abordam os trabalhos deste monográfico respondem aos principais desafios que, em 2010, identificava Regina Zilberman para o sistema literário brasileiro no século xxi: «a difícil profissionalização», «a circulação entre escolas, feiras de livros e festas literárias», «o fortalecimento do mercado», «inovação e renovação literárias» e «à la recherche do mercado internacional» (Zilberman 2010: 183-200). Referências bibliográficas Carrenho, Carlo (2012). «Brasil fica em 9º lugar em ranking global de mercados editoriais». Publishnews, 8 dezembro [em linha] [15 fevereiro 2017]. <https://publishnews.wordpress.com/2012/10/08/brasilnonolugar/>. Casanova, Pascale (2008). La république mondiale des lettres. Paris: Éditions du Seuil. 14 M. Carmen Villarino Pardo Abriu, 6 (2017): 9-14 ISSN: 2014-8526, e-ISSN: 2014-8534 Casanova, Pascale (2011). «La guerre de l’ancienneté ou il n’y a pas d’identité nationale». Pascale Casanova (ed.). Des Littératures combatives. L’international des nationalismes littéraires. Paris: Raisons d’Agir, 9-31. Dalcastagnè, Regina (2008) (org.). Ver e imaginar o outro: alteridade, desigualdade, violência na literatura brasileira contemporânea. São Paulo: Editora Horizonte, 7-10. Dalcastagnè, Regina (2012). Literatura brasileira contemporânea: um território contestado.Vinhedo: Horizonte; Rio de Janeiro: UERJ. Dalcastagnè, Regina; Villarino pardo, M. Carmen (2016). VI Colóquio Internacional sobre Literatura Brasileira Contemporânea: o Local, o Nacional, o Internacional ( 25 - 27 / 1 - 2016 ). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela [em linha] [25 fevereiro 2017]. <http://plataforma9.com/congresso/vi-coloquiointernacional-sobre-literatura-brasileira-contemporanea/>. Dantas, Marta Pragana; Perrusi, Artur (2012). «Le reclassement d’une tradition: la traduction du français dans le marché éditorial brésilien». Gisèle Sapiro (dir.). Traduire la littérature et les sciences humaines. Conditions et obstacles. Paris: Ministère de la Culture et de la Communication, 163-197. Even-Zohar, Itamar (1999). «La literatura como bienes y como herramientas». Darío Villanueva [et al] (coord.). Sin Fronteras: Ensayos de Literatura Comparada en Homenaje a Claudio Guillén. Madrid: Editorial Castalia, 27-36 [em linha] [25 fevereiro 2017] <http://www.tau.ac.il/~itamarez/works/papers/trabajos/EZ-Literatura- -bienes-herramientas.pdf>. Heilbron, Johan; Sapiro, Gisèle (2008). «La traduction comme vecteur des échanges culturels internationaux». Gisèle Sapiro (dir.). Translatio: Le marché de la traduction en France à l’heure de la mondialisation. Paris : CNRS, 25-44. Heinich, Nathalie (2000). Être écrivain: création et identité. Paris: La Découverte. Pansa, Karine (2014). «As vozes dos brasileiros ganharam o mundo». Câmara Brasileira do Livro. Relatório Anual 2013 . São Paulo: Câmara Brasileira do Livro, 6-7 [em linha] [25 fevereiro 2017] <http://cbl.org.br/site/wp-content/uploads/2016/07/ Relatorio-de-Gestao-CBL-2013.pdf>. Sapiro, Gisèle (2009). «Mondialisation et diversité culturelle: les enjeux de la circulation transnationale des libres». Gisèle Sapiro (dir). Les contradictions de la globalisation editoriale. Paris: Nouveau Monde Éditions, 275-302. Villarino Pardo, M. Carmen (2016). «Estrategias y procesos de internacionalización. Vender(se) y mostrar(se) en ferias internacionales del libro». Iolanda Galanes Santos [et al.] (ed.). La traducción literaria: nuevas investigaciones. Granada: Comares, 73-92. Zilberman, Regina (2010). «Desafios da literatura brasileira na primeira década do séc. xxi». Nonada. Letras em Revista, 15, 183-200.