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A dama de amarelo no Cancioneiro Geral

Morán Cabanas, Maria Isabel

Abstract

Estudo do simbolismo da cor amarela na literatura portuguesa de finais do século XV e inícios do seguinte, tendo em conta as alusões que a ele se fazem por autores de presumível ascendência hebraica, os contextos erótico-profanos em que aparecem e certas manifestações nas artes plásticas.

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A dama de amarelo no Cancioneiro Geral: a propósito de uns versos de Bernardim Ribeiro No seio do Cancioneiro Geral organizada por Garcia de Resende e vindo a lume em Lisboa no ano de 1516, regista-se uma dúzia de poemas atribuídos a um Bernardim Ribeiro, autor que parece legítimo identificar com o que introduziu a écloga passional na literatura portuguesa e escreveria, algumas décadas mais tarde, a enigmática novela Menina e Moça. Os textos que dele se recolhem na mencionada coletânea integram-se no esquema conceitual da cortesia amorosa, desenvolvendo lugares-comuns na tradição lírica a partir de um apego quase narcísico à dor exprimido em delicadas análises e jogos de subtileza à volta da esperança perdida, o cuidado, a mudança e, sobretudo, o desassossego. A inquietação apodera-se com tanta força do espírito que conduz o sujeito poético à alienação e converte-o num inimigo de si próprio através da trágica cisão entre Eu e Mim. Aliás, o tom sério das auto-análises psicológicas torna-se mesmo solene quando Bernardim Ribeiro recorre a expressões do âmbito religioso e/ou litúrgico numa espécie de simbiose sacro-profana. Assim, recorre à estrutura discursiva do Memento, palavra latina (port. “lembra-te”) que designa a oração pregada pelos vivos e defuntos durante a Missa, como meio de imploração da misericórdia da dama, e explora o duplo sentido de Quaresma como antropónimo feminino e termo relativo ao período de reflexão e preparação à Páscoa para manifestar a sua paixão. E, entre esses textos nutridos de melancolia e pessimismo, sobressai também o dedicado a uma dama vestida de amarelo, cor em que o sujeito poético vê projetado o seu próprio pesar e cuja tradição simbólica é preciso ter em conta para uma cabal interpretação dos versos: Tequi me pud´enganar, mas agora que podeis trazêla cor do pesar pera mim soo a trazeis. Qu´a dor do desesperar é tanto mal de sofrer, que nam é pera passar quanto mais pera trazer. Mas isto vai daquel´arte, quando s´antre montes brada: o tom é em ũa parte, em outro é a pancada. Assi foi qu´a minha dor mostrou em vós o sinal, porqu´ao menos na cor vos lembrasseis do meu mal. Na verdade, tal tonalidade cromática aparece amiúde na arte e na literatura medievais como transmissora de condições adversas, pois o dourado acabou por arrebatar-lhe qualquer valor de positividade com base no outro como material referencial que brilha e ilumina. Ao lado de tristeza provocada pelo desamor e um longo leque de infortúnios que, inevitavelmente, produzem doença na alma e no corpo, passou ainda a converter-se em símbolo de heresia, mentira, hipocrisia ou traição. Utilizou-se como sinal discriminatório de seres marginados, repudiados ou considerados indignos, destacando-se a sua presença na iconografia relativa a cenas tão emblemáticas como a traição de Judas ou a personificação da Sinagoga, em que o traje amarelo sobressai junto às:Tábuas da Lei, o rolo da Torá, o cutelo ritual da circuncisão ou o carneiro dos sacrifícios. Tenha-se em conta que foi já no IV Concílio de Latrão, reunido em 1215 em Roma por iniciativa do Papa Inocêncio III, quando se determinou que os judeus levassem um distintivo amarelo, embora tal medida vexatória tenha sido objeto de discussão ao longo de toda a Idade Média e tenha passado em Portugal por diversas fases de relaxamento e direitos de isenção. É claro que, dadas as conotações simbólicas que lhe foram associados, o seu uso foi pouco frequente na indumentaria das damas, tal como comprova, por exemplo, na documentação sobre a técnica da tinturaria da época do Cancioneiro Geral. Considerando as alusões à “outridade” ou ao desdobramento da personalidade que se observa na poesia de Bernardim Ribeiro, a ambiguidade e a migração de certa terminologia da esfera do religioso à do profano e a presumível condição de converso do autor, cabe suspeitar que a cor em questão remete para a sua origem hebraica e verdadeira devoção. Tal interpretação vem situar-se, com efeito, na linha das leituras da novela Menina e Moça como alegoria das perseguições dos judeus que têm sido realizadas pelos estudiosos e das hipóteses vertidas sobre a sua biografia. Atinge especial importância, nesse sentido, o facto de tal obra ter sido impressa, pela primeira vez, nas oficinas de Abraão Usque, na cidade italiana de Ferrara, um dos destinos prioritários dos filhos de Israel quando estes foram expulsos de Portugal pelo decreto de 1496. Precisamente o volume em que se integra contém como adenda, entre outros textos poéticos, o dedicado à senhora trajada amarelo e, junto com ele, apenas se imprimiu ali em português o da Consolação das Tribulações de Israel, de Samuel Usque, porventura irmão do editor. A sinagoga, de Konrad Witz (1435), no Museu de Arte de Basileia (Suíça). Disponível em: https://www.epdlp.com/cuadro.php?id=7118 Para Saber Mais: CANCIONEIRO Geral de Garcia de Resende. Fixação do texto e estudo por A. F. Dias. Maia: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, v. IV, nº 804. MORAN CABANAS, Maria Isabel. “Liturgia e cor amarela no Cancioneiro Geral: ainda para una interpretaçao em chave criptojudaica de Bernardim Ribeiro?”, Cultura Neolatina, anno 79, fasc. 3-4 (2019), p. 379-407. VAN DAMME, A. de Sas. “El amarillo en la Baja Edad Media: color de traidores, herejes y repudiados”, Estudios Medievales Hispânicos, 2 (2013), p. 241-276. Maria Isabel Morán Cabanas Sobre a autora; https://orcid.org/0000-0002-8343-7325