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Didática interdisciplinar e mapeamento da poesia medieval em Santiago de Compostela

Morán Cabanas, Maria Isabel

Abstract

Analisamos aqui os passos da elaboração de um roteiro da poesia galego-portuguesa, ligado diretamente a pesquisas de caráter histórico-cultural que vimos desenvolvendo há já alguns anos e que visam principalmente pôr de manifesto as relações entre o trovadorismo e a cidade de Santiago de Compostela como centro religioso, político e cultural de extraordinária relevância ao longo dos séculos XII, XIII e XIV. Passaremos aqui em revista as experiências da sua utilização como ferramenta e estratégia didática sob uma perspectiva interdisciplinar aplicável em diferentes níveis de ensino e, em geral, em práticas culturais (ou turístico-culturais) associadas a uma valorização efectiva do patrimônio imaterial e material. O nosso projeto, que partiu da consideração de três elementos essenciais (textos, imagens e sons) e da inserção rigorosa dos mesmos no seu âmbito de produção, culminou no lançamento de um novo recurso digital e interativo: o website roteiroliricamedieval.gal.

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Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4183 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 Didática interdisciplinar e mapeamento da poesia medieval em Santiago de Compostela Interdisciplinar didactics and medieval poetry mapping in Santiago de Compostela DOI:10.34117/bjdv7n1-282 Recebimento dos originais: 12/12/2020 Aceitação para publicação: 12/01/2021 Maria Isabel Morán Cabanas Doutora em Filologia Galega pela Universidade de Santiago de Compostela Professora Titular de Literatura Portuguesa Instituição: Universidade de Santiago de Compostela Endereço: Faculdade de Filologia-Campus Norte, s/n. 15705 Santiago de Compostela. E-mail: [email protected] RESUMO Analisamos aqui os passos da elaboração de um roteiro da poesia galego-portuguesa, ligado diretamente a pesquisas de caráter histórico-cultural que vimos desenvolvendo há já alguns anos e que visam principalmente pôr de manifesto as relações entre o trovadorismo e a cidade de Santiago de Compostela como centro religioso, político e cultural de extraordinária relevância ao longo dos séculos XII, XIII e XIV. Passaremos aqui em revista as experiências da sua utilização como ferramenta e estratégia didática sob uma perspectiva interdisciplinar aplicável em diferentes níveis de ensino e, em geral, em práticas culturais (ou turístico-culturais) associadas a uma valorização efectiva do patrimônio imaterial e material. O nosso projeto, que partiu da consideração de três elementos essenciais (textos, imagens e sons) e da inserção rigorosa dos mesmos no seu âmbito de produção, culminou no lançamento de um novo recurso digital e interativo: o website roteiroliricamedieval.gal. Palavras-chave: Interdisciplinariedade, Estratégia didática, Mapeamento, Poesia galegoportuguesa, Roteiro, Santiago de Compostela. ABSTRACT Our aim is to analyze the steps in our development of a Galician-Portuguese lyric itinerary, directly linked to a historical and cultural research we have been conducting for a few years, which has as its main focus the relationships between troubadour poetry and Santiago de Compostela as a religious, political, and cultural center of extraordinary importance in the twelfth, thirteenth, and fourteenth centuries. We examine here the experiences we carried out, using it as a tool and a learning strategy within an interdisciplinary perspective applicable to different levels of education, as well as in cultural (or touristic and cultural) practices, associated to an effective valorization of our material and immaterial heritage. Our project, that started out considering three essential elements (texts, images and sound), and their rigorous insertion in their production context, culminated with the recent launching of a new digital and interactive resource: the website roteiroliricamedieval.gal Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4184 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 Keywords: Interdisciplinary, Learning strategy, Mapping, Galician-Portuguese poetry, Itinerary, Santiago de Compostela. O projeto de um roteiro da lírica trovadoresca na capital da Galiza e em lugares geograficamente limítrofes, que surgiu como o resultado natural de um amplo conjunto de pesquisas de caráter histórico-cultural, concretizou-se numa série de empreendimentos de tipo didático e/ou turístico que uma equipa de investigadores ligados ao grupo GRAALL (Grupo de Análise de Aspetos Linguísticos e Literários na Lusofonia, GI-1453) das universidades de Santiago de Compostela e de Campinas vem desenvolvendo desde 2011 até à atualidade. Na verdade, é de admirar que até então ninguém, levado pelas referências dos versos das cantigas de diversos géneros que para ali remetem, tenha decidido pôr ao dispor do estudioso ou do visitante em geral um percurso de tais características, explorando assim as possibilidades de um visão multidisciplinar que permita unir o rico património literário correspondente aos séculos XII, XII e XIV a outras também memoráveis tradições de natureza religiosa, artística e musical 1 . Com efeito, no mencionado período foi determinante o papel da cidade em questão não só como pólo de atração para as correntes intelectuais e artísticas prevalecentes na Europa daquela altura, mas também como foco irradiador dessas mesmas tendências ou doutras que ali teriam a sua origem. Assim, uma boa parte dos trovadores cuja produção se encontra compilada nos Cancioneiros está, de maneira mais ou menos direta, com ela relacionada. E é precisamente essa vinculação que aparece posta em destaque nas obras O amor que eu levei de Santiago. Roteiro da lírica medieval galego-portuguesa (2012) 2 e O caminho poético de Santiago. Lírica galego-portuguesa 1 Aliás, as pesquisas que estão sendo desenvolvidas atualmente por essa equipe investigadora no âmbito do projeto Voces, espacios y representaciones femeninas en la lírica gallego-portuguesa (PID2019- 108910GB-C22), dirigido por Esther Corral Díaz e financiado pelo Ministerio de Ciencia e Innovación, virão a enriquecer os dados aí fornecidos quanto à presença e ao papel da mulher na lírica medieval em geral e, concretamente, no nosso corpus - entre outro objetivos figura, de facto, a elaboração de uma cartografia em que se ponham de manifesto as marcas da sua estratificação sociocultural e identidade religiosa. 2 Cabe assinalar que esse título foi inspirado precisamente pelo refrão de uma cantiga que se recolhe e estuda no interior do volume, cujos versos dizem: “o amor que eu levei de Santiago a Lugo / esse me aduss´e esse me adugo”. Trata-se de um texto dialogado da autoria de Fernão Esquio, trovador da linhagem dos Esquios, da pequena nobreza galega, ativo provavelmente nos finais de Duzentos ou inícios de Trezentos, em que a dama pergunta ao amigo por que se demorara tanto em Lugo, levantando assim a suspeita de que se teria apaixonado por outra mulher naquela cidade. No entanto, ele responde com uma reafirmação dos seus sentimentos, que se mantêm inalterados: com eles partiu e com eles volta, sempre o acompanharam e sempre o acompanham. Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4185 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 (2015), publicadas por Yara Frateschi Viera, Maria Isabel Morán Cabanas e José António Souto Cabo na Galiza e no Brasil, respectivamente. No estudo introdutório de ambos os volumes lembra-se a importância dos círculos do poder social e eclesiástico para a formação e consolidação do fenômeno trovadoresco, sublinhando-se que, embora dos autores mais antigos não nos chegasse, por fatalidades da transmissão manuscrita, a sua produção literária, torna-se inegável o seu papel de introdutores e promotores da nova poesia em língua vernácula que já se tinha consolidado na Provença e no Norte de França, e dali se difundira pelos restantes centros europeus - é o caso de Jon Vlaz, Dom Juião, Pedro Rodrigues da Palmeira, Dom Rodrigo Diaz dos Cameros, Airas Oares ou Pedro Pais Bazaco. Unidos entre si por laços familiares ou por nexos sociais, mostram-se caracterizados como um grupo fortemente coeso e inclusive detentor de uma presença marcante na comunidade religiosa do arcebispado. Aliás, os Cancioneiros recolhem um notável número de composições doutros trovadores pertencentes também a linhagens nobres com propriedades fora das terras de Santiago de Compostela e possuidoras de casas na urbe ou nos seus arredores, as quais serviriam, dada a relevância sociopolítica e cultural da cidade, como centro aglutinador para as suas respetivas cortes. Cabe mencionar, por exemplo, Osório Eanes, Airas Fernandes Carpancho, Fernão Pais de Tamalhancos ou Afonso Eanes do Cotom. Na verdade, na segunda metade do século XII, momento em que nasce a lrica medieval em galego-portuguesa, no existia no reino galaico-leonês outro centro urbano que fosse capaz de concorrer com o enorme prestígio de Santiago, cuja supremacia se ligava diretamente a uma hábil utilização dos recursos materiais e culturais derivados do auge da peregrinação. Lembre-se que o protagonismo nesse sentido remonta, em ltima instncia,  deciso dos bispos da diocese, com sede em ria Flvia (Padrom / Padrn, Galiza), de trasladar a sua residncia para Compostela, antes do ano 847. Ao bispo Teodomiro, cujo tmulo se conserva no subsolo da catedral, devemos, de facto, a inventio (ou “achado”, c. 825) da tumba do apstolo, ao identificar como tal um mausolu de poca romana. O apoio histrico para a descoberta em questão encontrava-se numa vasta tradio que situava a predicao de Santiago em terras da Hispnia e permitia tambm a suposio de que seu corpo tivesse sido sepultado no extremo ocidental da Europa. Aliás, o “achado”, inserido num contexto de afirmao e consolidação poltica do reino asturogalaico, liga-se  formao de uma igreja autnoma, desvinculada de Toledo, naquela altura em territrio muulmano. Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4186 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 E, ainda, numa fase mais avançada, quando já o modelo transpirenaico já tinha fixado as suas raízes e se tinham feito visíveis os traços que viriam definir a lírica galegoportuguesa, organizaram-se certas compilações de cantigas, depois inseridas nos Cancioneiros gerais, cuja autoria se deve a clérigos ou jograis galegos: O movimento poético em que se integravam manteve, com efeito, uma ligação constante com a cidade, o que se explica facilmente quando levamos em conta que Santiago, enquanto centro urbano mais importante do reino galego, constituiu um palco privilegiado para as primeiras experiências do trovadorismo. A vinculação de Compostela a essa corrente literária evidenciase também pela possibilidade de associar tal prática poética a algumas camadas socioculturais específicas da urbe, como se demonstra pela existência, no interior dos Cancioneiros, de um “cancioneirinho de clrigos” compostelanos (VIEIRA, MORÁN CABANAS e SOUTO CABO, 2015: 14). Dos oito trovadores incluídos nesse denominado “cancioneirinho dos clrigos”, quatro têm algum tipo relação com Santiago de Compostela: Airas Nunes, Sancho Sanches, Pai de Cana e Rui Fernandes de Santiago. E, por outro lado, do chamado “cancioneiro dos jograis galegos”, que teria sido organizado nos finais do século XIII ou nos inícios do seguinte e recolhe poemas distribuídos por géneros (cantigas de amor, cantigas de amigo e cantigas de escárnio e maldizer), cinco apresentam alguma vinculação com a cidade, como se pode comprovar no corpo dos dois volumes acima mencionados: Bernal de Bonaval, Pero Garcia de Ambroa, Pedro Amigo de Sevilha, Pero Meogo, Abril Peres e Juião Bolseiro. Com efeito, no interior de ambos os livros estão representados tanto os autores que fazem menção explícita a elementos ou locais que nos remetem para a área geográfica de Santiago de Compostela no corpo das suas cantigas, quanto os que se ligam a esse entorno pelo registro dos seus nomes na documentação histórica (testamentos, escrituras de compra e venda de propriedades etc.). Os textos escolhidos e editados 3 aparecem ali acompanhados de uma ficha com informação biobibliográfica sobre o trovador ou jogral que os compôs, uma paráfrase e uma breve nota explicativa/interpretativa. Quanto ao volume publicado na Galiza, acrescentaram-se fotografias que nos deslocam visualmente para os diversos locais citados de Santiago de Compostela e os seus arredores – evidentemente no seu estado atual, com as divergências derivadas das transformações sofridas pela urbe e a periferia 3 Quanto aos critérios seguidos, tiveram-se naturalmente em conta os testemunhos dos manuscritos e as edições críticas existentes de cada autor. No que diz respeito à grafia, adotaram-se as normas fixadas para a poesia trovadoresca galego-portuguesa tal como são recolhidas por Manuel Ferreiro, Carlos Paulo Martínez Pereiro e Laura Tato Fontaíña (2007). Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4187 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 através da passagem do tempo. Porém, procuramos focar sempre o pormenor que nos remete para a Idade Média, assim como ambientar o mundo trovadoresco em todas as suas dimensões e, portanto, sob um olhar multidisciplinar. Na capa d´O Amor que levei de Santiago destaca-se, por exemplo, o papel fundamental da música através das imagens dos instrumentistas do Palácio de Gelmires, faustosa obra arquitetônica iniciada no século XII por ordem do arcebispo Diogo Gelmires e em cujo interior sobressai a ornamentação do Salão Sinodal ou Salão de Festas com cenas de um banquete medieval amenizado por músicos. Figura 1. Mênsula com músicos (Palácio de Gelmires, Santiago de Compostela) No tocante a tal aspecto, recolhe-se também no interior do livro galego a imagem do bíblico David, o rei-músico, tocando uma fídula 4 ou viola de arco oval e com as pernas cruzadas, que está representada na escultura situada atualmente no contraforte esquerdo 4 Com este termo designa-se um instrumento de corda friccionada com arco que atingiu notável popularidade durante toda a Idade Média. Aparece sobretudo em representações iconográficas da Europa dos séculos XII e XIII, começando a partir de então o seu declive, embora se continue a observar o seu uso e a sua presença na arte praticamente até Quinhentos. Sobre performance musical e instrumentao vejase, principalmente, a obra Cantus Coronatus. 7 Cantigas d'El-Rei Dom Dinis (FERREIRA, 2005) e, ainda, para observar uma alusão ao rei David como intérpete que sabem extrair das cordas os sentimentos que se elevam ao Senhor, consulte-se o estudo sobre a “construo do jogral devoto” (ROCHA, 2019: 73), Como exemplo de referência explícita à importância do som, isto é, da música (melodia e acompanhamento), nas composições que integram o nosso corpus trovadoresco, cabe lembrar o que nos diz a donzela de uma cantiga de amigo de Juião Bolseiro com a intenção de elogiar as habilidades literárias e musicais do seu namorado: “fez uas lirias no son / que me sacan o coraon”. Ela qualifica-o como um excelente trovador, pois soube muito bem louvar a sua amada e fazer uns floreados que lhe chegaram a arrebatar o coração. Quanto ao termo lirias foi já interpretado, embora de forma hipotética, como derivado do grego lira, designando uma “espcie de instrumento de corda friccionada e equivalendo, assim, a arpejos, golpes de arco, ou, numa execução vocal, a trinados. No contexto da cantiga, pode entender-se como uma articulação ornamental da melodia, que procuramos representar pelo termo floreados” (VIEIRA, MORÁN CABANAS E SOUTO CABO, 2013: 90-91). Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4188 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 da fachada de Pratarias da Catedral, mas procedente da primitiva fachada do Paraíso - hoje conhecida como Acibecharia –, localizada na parte septentrional e pela qual entravam os peregrinos do Caminho Francês no célebre santuário. Junto com um plano quinhentista e uma gravura da cidade amuralhada do século XVII, em que se observa a Porta Faxeira, por onde entravam os romeiros que percorreram o Caminho Português, para além do peixe e das mercadorias dalguns portos da costa atlântica galega, reproduz-se uma vintena de obras arquitetônicas e paisagens naturais. Figura 2. Entrada na cidade amuralhada de Santiago de Compostela por Porta Faxeira (gravura do século XVII) No que diz respeito à edição brasileira, vinda a lume sob o título O caminho poético de Santiago, os desenhos da capa são da autoria de Rui Vitorino dos Santos, investigador e professor da Faculdade de Belas Artes do Porto, com ampla trajetória na ilustração de livros e animação. Todos eles remetem especialmente para o espetáculo jogralesco numa ampla dimensão: musical, gestual e corporal (contorcionismo, equilibrismo, malabarismo etc.), pondo de manifesto o riso carnavalesco – na acepção bakhtiniana do termo (BAKHTIN: 1987) - que se associa à figuração de elementos grotescos da cultura medieval e se projeta nos versos das cantigas de escárnio e maldizer. Aliás, a editora Cosac Naify procurou uma inspiração nos livros medievais, o que fica bem evidenciado na atenção prestada a aspectos como capitulares, distribuição do texto em colunas e bordas. Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4189 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 Figura 3. Capa d´O caminho poético de Santiago. Lírica galego-portuguesa (ilustração de Rui Vitorino dos Santos). Compilam-se aqui novos autores e textos que não fizeram parte d´O amor que levei de Santiago, alguns dos quais surgiram mesmo como resultado de pesquisas e observações mais recentes, pelo que a informação que os acompanha é maior, assim como se põe ao dispor do leitor um maior apoio documental e bibliográfico. Por outro lado, entre as páginas do volume, inserem-se algumas imagens da tradição manuscrita e um mapa que pretende remeter para os pontos do intramuros e extramuros compostelano mais relevantes da lírica galego-portuguesa, realizado por pessoal docente e investigador da universidade galega de Vigo. Por outro lado, a partir de ambas as publicações e em datas prévias ao lançamento do website, foi levado a cabo um amplo leque de atividades de perfil essencialmente didático. Cabe lembrar, por exemplo, que no ano de 2014, durante o ciclo de Poesia na Música organizado pelo Conservátorio Profissional de Música de Santiago de Compostela para comemorar os 100 anos da aparição do Pergaminho Vindel, realizaramse vrias “conferncias-concerto” em interao com docentes e alunos da mencionada instituição, que forneceram explicações sobre certos nomes e formas de antigos instrumentos. E cabe mencionar também a presença desse patrimônio trovadoresco, a partir do nosso roteiro, no fórum EM.COM.TRADIÇÕES / I Encontro do Cancioneiro Tradicional Galaico-Português, que fez parte dos eventos projetados pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira aquando da sua escolha como Capital da Cultura do Eixo Atlântico (2018) e do qual participaram associações, grupos, professores, investigadores e luthiers. Para Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4190 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 além de diversas tertúlias temáticas e workshops, duas exposições fizeram ainda parte da programação de tal evento sob os títulos de “Instrumentos musicais: a arte e os seus construtores” e “Livro galaico-portugus”: enquanto a primeira pde visitar-se no secular edifício do Museu Convento dos Lóios, a segunda esteve localizada na Biblioteca Municipal da mencionada cidade portuguesa. Porém, entre as atividades, sobressai principalmente a coordenação / execução de roteiros da lírica galego-portuguesa in situ, quer dizer, na capital da Galiza e área geográfica mais imediata. Foi em 2012 que teve lugar o primeiro, integrando-se numa campanha de promoção do património que naquela altura empreendeu o Concello de Santiago de Compostela sob o lema “Cultura Viva: Fai ta Compostela” e dirigindo-se a grupos e indivíduos interessados em terem uma experiência formativa através dos espaços culturais e naturais do município (VIEIRA, MORÁN CABANAS e ROCHA: 175-195). Seguiram-lhe bastantes outros, como os organizados em 2013 pela tradicional Agrupación Cultural O Galo, fundada há quase 60 anos com vista a promover o conhecimento da história, das suas vicissitudes e dos seus protagonistas. Num deles inseriu-se, de facto, um concerto interpretado pelo Grupo 1500 de Música Antiga e até uma degustação do vinho do Ribeiro nas proximidades do Arco de Mazarelos, única porta que se conserva da muralha medieval e via de entrada do “precioso licor de Baco”, segundo se relata no Códice Calixtino (Liber Sancti Jacobi, V, IX). Quanto aos roteiros presenciais que tiveram lugar em âmbitos e níveis específicos do ensino, uma menção particular merece a experiência ou posta em prática na matéria Mitos e figuras do imaginário medieval, incluída no mestrado em Estudos Medievais: Imagens, Textos e Contextos da Universidade de Santiago de Compostela, em que as visitas guiadas focaram sobretudo a figura e produção literária de Bernal de Bonaval e os espaços da igreja e do convento de São Domingos de Bonaval 5 . Precisamente foi esse um 5 Bernal ou Bernardo de Bonaval, cuja atividade poético-musical se terá iniciado na primeira metade do século XIII e aparece ligada explicitamente ao extramuros de Santiago de Compostela (ao lugar de Bonaval, nas imediações da chamada Porta do Caminho), foi a figura que abordámos na comunicação “Amor e extramuros de Compostela na lírica galego-portuguesa: uma proposta de visita didatica e multidisciplinar”, incluída no seio da 13th International Conference “Fallen Walls, Rising Barriers…”, organizado por COMPARES- Iberian and Slavonic Cultures in Contact and Comparison nas universidades de Lisboa (3-4 de maio de 2019) e Évora (4 de maio de 2019). Quanto à mencionada porta, lembre-se que constitui uma das sete principais entradas à cidade, pois por ali chegavam os peregrinos procedentes da França e de Castela – para além de ser o acesso de reis e príncipes e nela ter lugar parte do cerimonial de toma de possessão de cada novo arcebispo. Na verdade, pouco se sabe acerca da construção original da muralha, levantada nos meados do século XI por ordem do bispo Crescónio. Remetemos, para quem quiser percorrêlas virtualmente para o projeto Muralha Digital. Uma janela à nossa história, criado por uma rede de cidades amuralhadas online de Galiza e Norte de Portugal, que tem disponível um geoportal web e uma aplicação para telemóvel no enderezo http://www.muralladigital.eu (consulta 14.01.2019) Brazilian Journal of Development ISSN: 2525-8761 4191 Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.1, p. 4183-4195 jan. 2021 local do roteiro a que se prestou também uma particular atenção no programa do encontro Os primórdios da nossa língua escrita: textos e contextos, integrado no projeto de criação do documentário Pacto de Irmãos, realizado pela AGAL (Associaçom Galega da Língua), com a intenção de mostrar, sob uma perspetiva transversal, as estruturas e circunstâncias históricas das manifestações escritas no quadro da Idade Media - nesse sentido, inclui, por exemplo, materiais didáticos orientados para professores e alunos das etapas pré-universitária e universitária 6 . Outros roteiros físicos foram levados a cabo em liceus compostelanos, tal como o Instituto de Educación Secundaria Xelmírez I, em níveis em que a lírica medieval faz parte da programação curricular. E cabe referir, ainda, a experiência de adaptação desse caminho poético medieval para um público mais jovem, o correspondente ao último ano de ensino primária, que, sob o ttulo “Roteiro pela Compostela mis trovadoresca”, coordenou o Centro de Educación Infantil e Primaria López Ferreiro, situado também na capital galega. Aliás, ao longo de todo este tempo, fomos convocados pelo CAFI (Centro Autonómico de Formación e Innovación da Xunta de Galicia), tanto para a apresentação teórica do roteiro como nova estratégia didática aos docentes de centros educativos na EGAP (Escola Galega de Administración Pública), quanto para a sua execução em ruas e locais próximos de Santiago de Compostela. Por último, aproveitando os recursos que nos fornece a tecnologia da informação e partindo do material já compilado e disponível, uma vintena de obras arquitetônicas e paisagens naturais acabaram de ganhar protagonismo e movimento no website de um roteiro virtual. Lançado no mês de abril de 2019 sob o patrocínio e apoio institucional do Concello de Santiago de Compostela (www.roteiroliricavirtual.gal), tal projeto foi também apresentado perante diversos públicos da lusofonia fora da Galiza, nomeadamente em Portugal e no Brasil, pouco tempo depois. A proposta da sua elaboração e execução é fruto de um trabalho conjunto, em que participou, para além de uma equipe científica formada pelos autores já mencionados das universidades de 6 Pacto de irmãos  “o nome do documento mais antigo em galego-português, datado entre 1173 e 1175, legado de uma época em que estava a se conformar no território norte-ocidental da pennsula ibrica uma lngua romance derivada do latim que evoluiu ao longo dos sculos” (https://pactodeirmaos.gal, consulta 13.09.2019). Conforme explica a equipa do projeto em questão na sua website, com ele pretende-se convidar a uma reflexão a propósito da língua, do seu nascimento e do seu status com respeito à língua de origem, assim como acerca da maneira em que vai modelando uma sociedade e experimentando um processo de extensão e variação até aos tempos atuais.