Construir modernidade no século XXI: Aceleração — Intervalo — Interpretação
Abstract
Finding contemporary society to be dominated by accelerating processes which reveal other forms of invisible violence, one is led to show the necessity of creating or recreating moments of interval. The interval instigates contemplation, and with it the questioning of the imperative character of productivity as the absolutisation of acceleration and comprehensive positivity, thus paving the way to interpretation and to the exercise of critical review in order to produce creative movement, of non-reactive action, resulting in the Modernity of today.
Full text
Construir modernidade no século XXI: Aceleração— Intervalo— Interpretação Isabel Pires de Lima Universidade do Porto Le contemporain est l’inactuel. Roland Barthes Tenho às vezes saudades do futuro. Teixeira de Pascoaes Opoema éantes de tudo um inutensílio. Manoel de Barros As três epígrafes com que abro aminha intervenção remetem para os campos semânticos do tempo eda utilidade que se me afigura necessário visitar para tentar refletir, respondendo de algum modo aos desafios que otema deste volume suscita, sobre que caminhos desbravar epercorrer para construirmos modernidade, sem que me arrisque aapor-lhe um qualquer artigo definido. Modernidade: uma idade nova que transporte futuro, que nos faça ter saudades do futuro enos arranque àera utilitarista que nos esmaga num eterno presente. Desculpem-me ofacto de começar por referir uma nota pessoal que me parece exemplar da complexa experiência da aceleração que omundo contemporâneo nos impõe, noção apartir da qual pretendo avançar na minha reflexão. Após um percurso de quase trinta anos de vida académica, vi-me, após breve experiência parlamentar, num lugar de política executiva de primeira linha na área da Cultura. Dos vários abalos que tal experiência me causou, eforam muitos, um dos que mais me vem àlembrança éoda constatação de que não me deixavam pensar. Aquilo que me pediam era que decidisse com celeridade esem grande tempo para indagações emuito menos autorreflexões, para além das que previamente fora fazendo quanto aum programa para acultura em Portugal àépoca. Lembro-me de então ter pensado: atéhoje fui treinada epaga para pensar, conceber, atéantecipar edecidir, mas de certa forma eu controlava otempo; hoje pedem-me que decida com acerto contra otempo. Foi talvez esta avivência mais violenta que amuito enriquecedora experiência da passagem pela política executiva me trouxe. OPEN ACCESS
14 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Todos sofremos no nosso quotidiano social, profissional, familiar ou íntimo essa aceleração. Mais ou menos conscientemente, por certo de modo mais consciente àmedida que aidade vai avançando, vamos percecionando tal aceleração como responsável por muitos dos descasos das nossas vidas. Pessoalmente cada vez mais asinto como uma das mais subtis, generalizadas eendógenas forma de violência aque somos sujeitos hoje. No seu longo ensaio, de 2008, sobre aviolência, Slavoj Žižek abre olivro contando uma história cujo carácter paradoxal também se pode referir, na sua opinião, àviolência. Há uma velha história— conta ele— acerca de um trabalhador suspeito de roubar no trabalho: todas as tardes, quando sai da fábrica, os vigilantes inspecionam cuidadosamente ocarro de mão que ele empurra, mas nunca encontram seja oque for. Atéque um dia se descobre atrama: oque otrabalhador rouba são carros de mão!1 Serve isto para Žižek dizer que entre as diversas formas de violência que identifica amais objetiva de todas éafinal invisível porque nela se sustenta anormalidade. Aproprio-me da história edo raciocínio dedutivo de Žižek para dizer que aaceleração se tornou tão intrínseca às nossas vidas, esteio da normalidade do nosso quotidiano, que já ganhou aperigosa eparadoxal invisibilidade das coisas naturais, rotineiras, normais. Impôs-se aníveis tão sub-reptícios que induz comportamentos que nos impedem de nos oferecermos momentos de suspensão ou de os vivermos na constante culpa de não estarmos consentâneos com oritmo do mundo. Vejamos: Não estou calmamente alienada diante da “nothing box” televisiva, num processo que poderia ter obenefício de criar vazio; não, saltito, fragmentando aprópria realidade virtual ecedendo àaceleração nos 500 canais ao meu dispor. Dito de outro modo, alieno aliberdade cedendo aum ritual compulsivo de liberdade condicionada perante aacelerada possibilidade de captar oque se passa ao mesmo tempo em500canais. Desde aAntiguidade que pensadores, filósofos eartistas reclamam olugar privilegiado da contemplação. Acontemplação fertilizaria aação, éclaro, eseria oúnico lugar apartir do qual seria possível sentir aessência do mundo. Esse lugar da contemplação cedo foi reclamado também como olugar da criação, olugar da semente, da inovação, olugar do amadurecimento do pensamento. Um lugar que implica desaceleração, subversão do tempo culturalmente determinado eentrega aos ritmos da natureza. Acho que édesse lugar que está afalar Rilke quando escreve: Ser artista quer dizer: não calcular enão contar; amadurecer como aárvore que não pressiona asua seiva ese mantém confiante nas tempestades da Primavera, sem medo de que oVerão venha em seguida. Ele chega sempre. Mas só chega para os pacientes, para os que ali estão, como se aeternidade estivesse perante eles, tão despreocupadamente tranquila evasta2. 1 Žižek 2009, p.9. 2 Rilke 2002, p.82. OPEN ACCESS
ISAbEL PIRES DE LIMA 15 Hoje esse “ali” aque Rilke alude écada vez mais improvável, difícil de alcançar, atépara aqueles que habitam círculos onde supostamente acontemplação seria obrigatória, condição sine qua non para asua atividade criativa como por exemplo auniversidade, entendida ainda como lugar de produção de saber ede pensamento crítico enão como escola profissional que quase exclusivamente— eisso éque égrave— responde asolicitações de mercado ede clientes. Por oposição ao paradigma de Foucault da sociedade pós-iluminista do “dever”, uma sociedade disciplinar, formada por quartéis, manicómios, prisões, fábricas, enquanto sociedade proibicionista onde domina anegatividade, o“não-poder”, ofilósofo de origem sul-coreana, Byung-Chul Han, acentua adimensão produtiva da sociedade contemporânea, onde domina apositividade eoverbo “poder”. Yes, we can éosímbolo de uma sociedade para aqual os limites deixaram de existir epor isso também os gurus eos livros de autoajuda propalam oincitamento: “Tu podes”. Todavia, como nota aquele filósofo, asociedade da produção eda positividade, asociedade do “poder” não anula asociedade do “dever” eosujeito contemporâneo da modernidade tardia passa sem consciência social do “dever” para o“poder” esem compreender que asociedade do “poder” não anula o“dever”, pelo contrário, dá-lhe continuidade em novos moldes. Oimperativo de produzir, de conseguir, de terminar ecomeçar imediatamente um novo processo de produção, conduz aum empolamento da responsabilidade eda iniciativa individuais fazendo do homem contemporâneo um ser hiperativo ehiperneurótico que facilmente cai na depressão quando conclui que não écapaz de “poder”. Daí aconstatação ironicamente contraditória, tão comumente formulada pelos seres cansados que anossa sociedade produz, de que “nada épossível” numa sociedade cuja máxima éade que “nada éimpossível”. Eassim aaceleração própria da sociedade da positividade, para continuar ausar aexpressão de Byung-Chul Han, conduz aformas de ação que geram, de fim acabo, passividade ou, se se preferir, formas passivas de ação, dado que não faculta qualquer atividade efetivamente livre. Cito: Osujeito produtivo entrega-se àliberdade coerciva ou àlivre coação em prol da maximização da produtividade. Oexcesso de trabalho ede produção conduz, aum nível mais elevado, àautoexploração. Esta émais eficaz que aexploração por terceiros, uma vez que vem associada aum sentimento de liberdade. Oser explorado ésimultaneamente oque explora— agente evítima já não se distinguem entre si. Esta autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercivas que lhe são intrínsecas, se converte em violência. As doenças psíquicas da sociedade da produção nada mais são do que manifestações patológicas desta liberdade paradoxal3. Daí que, acrescento, nos sintamos seres controlados, medrosos, apáticos ou agressivos, numa sociedade onde aaceitação formal dos princípios da liberdade individual edo direito àdiferença nunca foi tão grande. 3 Han 2014, p.23. OPEN ACCESS
16 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Volto ao conceito de violência eda sua invisibilidade, agora porém articulado com ocarácter imperativo da produtividade enquanto absolutização daquela aceleração eda positividade exaustiva acima referida. Aliás, esta última tem uma forte quota-parte de responsabilidade na incapacidade que temos, na sociedade atual, de lidar com qualquer outro tempo que não seja opresente. Quando Daniel Innerarity, opopular pensador espanhol, alerta para aglobalização como um regime espácio-temporal que substitui estruturas fixas por fluxos em contínuo movimento eatemporalidade pela simultaneidade de um presente hegemónica, os tais 500 canais em simultâneo, pretende apontar para aimpossibilidade com que nos confrontamos de pensar ofuturo, esmagados que estamos pela estagnação num presente vazio de história. Somos invadidos por uma “retórica da inovação” mas que não passa, nas suas palavras, de “trivialização do futuro quando não se insere num contexto social de sentido”4, como éocaso nas nossas sociedades (as sociedades da lógica do posdescritas por Baudrillard) nas quais aaceleração vai paradoxalmente apar de uma estagnação da história. Já na viragem do século XIX para oXX, perante aexperiência do tédio edo pessimismo em boa medida gerada pela desconfiança no paradigma científico-positivista que estivera na origem da aceleração industrial eda sociedade da mecanização, onosso Teixeira de Pascoaes dizia no verso lembrado em epígrafe: “Tenho às vezes saudades do futuro”. Ele reivindicava algo próximo do que hoje reclamamos contra aviolência do presente omnipotente evazio edo contemporâneo entendido em termos de pura adesão. Mas enquanto Teixeira de Pascoaes concebia ofuturo como espaço de projeto ou de sonho — ele preferiria certamente esta última palavra— enquanto para ele ofuturo era uma categoria reflexiva aberta àindeterminação, ao possível portanto, para nós, ofuturo apresenta-se-nos como espaço pré-estabelecido, previsível, determinado, sub-repticiamente fechado, em suma. Em nome de sustentabilidades várias, determinadas por cálculos colados ao presente eaum universo neoliberal no qual toda ainteração se deve sujeitar ao modelo de compra evenda— justificativas de sustentabilidade que quase nunca sustentam mudanças profundas— acaba-se por violentar aquela capacidade de sonhar, de futurar com liberdade, caindo-se, afinal, numa obsessão omitida de planificação do futuro aparentemente apresentado como reino da consecução da liberdade de iniciativa eda vontade individuais mas que aponta para um futuro desde já cheio de entulho. As sociedades contemporâneas edo capitalismo global, que estamos aexperimentar pela primeira vez na história, olham ofuturo como coisa transparente, não admitindo asua opacidade e, sob acapa da máxima liberdade individual edos chavões do empreendedorismo, da competitividade, da produtividade, da qualidade, da eficiência eda criatividade quando ao serviço de tudo isto, coartam afinal ovalor da liberdade, liberdade de recusar, pensar, sonhar, em suma, resistir. Os jovens de hoje, no reino da positividade em que lhes coube viver, aquem dizem “tu podes”, não podem nem imaginar quanto mais exercer asalutar ejuvenil utopia de grafitar nas paredes da cidade “Queremos oimpossível!”, como aconteceu em Maio de 68. Ora se os robots ainda não nos substituíram por inteiro éexatamente porque não conseguem lidar com oimprevisível, não conhecem ahesitação, não resistem, não sa4 Innerarity 2009, p.12. OPEN ACCESS
ISAbEL PIRES DE LIMA 17 bem tirar partido do que se apresenta como inútil, capacidades humanas que importa reclamar contra as violências invisíveis do presente edo futuro. Há meses lia uma entrevista aum jornal português dada pelo conhecido economista checo Tomáš Sedláček na qual recomendava ao capitalismo mais abertura ao imprevisível, no sentido de construirmos para amaioria, não vidas úteis mas belas. Dizia ele: “se tudo acontecer da maneira que esperamos, acontecerá da maneira que esperamos. Nunca podemos antecipar as mudanças importantes, apenas escrever oprólogo das tendências”. Era isto que as sibilas sabiam dizer para aviso dos homens; ora os antecipadores de futuro que nos regem, chamem-se economistas, criadores de valores eseus agentes, comentadores efazedores de opinião ou pobres diabos de políticos transformados em títeres de todos eles, pretendem convencer-nos que vão sibilinamente além do prólogo. Lembrei em epígrafe aafirmação de Roland Barthes para quem ocontemporâneo éoinatual. Oque Barthes está afinal aacentuar nesta asserção éapossibilidade humana de estabelecer uma relação singular com opresente, aderindo aele mas, ao mesmo tempo, criando distâncias que permitam odesfasamento em relação aele. Nesta aceção, aderir ao presente eresistir-lhe éser contemporâneo. Não será então premente este exercício da contemporaneidade como resistência? Antes de mais nada resistência àaceleração, ao movimento, àquela hiperatividade quase robotizada que não nos deixa exercer ohumano esuperior poder de dizer não. Yes, we can, podemos; podemos parar, interromper omovimento, aaceleração, resistir àpositividade exponencial, fugir ao puro reagir para que nos empurra asociedade da produção; podemos criar intervalo. Lembram-se de quando assistíamos aum filme ou aqualquer outro espetáculo ehavia pelo menos um intervalo? Esse intervalo, que hoje, quando existe, não nos deixa livres de um bombardeamento publicitário, servia para respirar, recentrarmo-nos, criar espaço crítico, servia para nos preparar para acontemplação. Em 2009, apoeta Ana Luísa Amaral deu aum livro seu otítulo, Se fosse um intervalo?, significativa metáfora do intervalo como lugar da suspensão propiciador da contemplação, que acriação earecriação do mundo reclamam. Para apoeta éesse olugar que permite “Que se comece ahistória em nova voz de gente”5, oqual faculta aabertura para uma outra escala de tempo, onde, diz oseu verso de um livro mais recente: “os tempos coabitam / Eomesmo corredor dá-lhes espaço / elume”6. No ensaio acima referido, Žižek termina propondo oexercício de resistência de dar um passo atrás, de exercitar aabstenção. Aliás, opensador chama àcolação oromance de Saramago, Ensaio sobre alucidez, que conta ahistória do pânico que se instala numa sociedade identificada como democrática perante aabstenção coletiva dos votantes, elê oromance como metáfora de uma forma extremada de violência em resposta àviolência invisível de que falávamos. Conclui ele: “Por vezes, não fazer nada éacoisa mais violenta que temos afazer”7. Contra esta espécie de solução apocalíptica sugerida por Žižek, prefiro, contra aabstenção, bater-me pela retoma de espaços de contemplação, pela reivindicação de lugares de intervalo, espaços usualmente tidos como inúteis eque afinal talvez 5 Amaral 2010, p.608. 6 Amaral 2014, p.15. 7 Žižek 2009, p.188. OPEN ACCESS
18 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA estejam arevelar-se intensamente úteis na sociedade cansada, deprimida eesvaziada em que nos movemos. Refiro-me àquele velho campo, tão velho como aprópria cultura, da escrita de histórias eda sua interpretação, da ficção, quer ela se chame poesia ou narrativa nas suas múltiplas formas de concretização eda prática hermenêutica, aque filósofos ecientistas se entregaram desde amais alta Antiguidade. Aquela prática que fez um George Orwell escrever, em 1949, uma distopia tão anunciadora do nosso tempo àqual chamou 1984. Há algum tempo atrás ouvia num canal brasileiro uma entrevista dada pelo neurocientista português António Damásio, aquem perguntavam com quem tinha nascido aneurociência. Com Aristóteles, respondeu, isto é, com afilosofia, aatenção ao pensamento eàlinguagem, areflexão sobre apoética, amais antiga arte humana de contar histórias. De resto Damásio defende que contar histórias foi asolução encontrada pela mente consciente para tornar compreensível etransmissível aregulação da vida dos indivíduos pertencentes aum grupo. “Aarte— diz ele no seu livro Eocérebro criou ohomem— pode ter começado como um expediente homeostático para oartista eos que desfrutassem da sua arte, etambém como um meio de comunicação”8, designadamente como meio privilegiado de comunicar emoções efactos tidos por importantes para avida individual ecoletiva, envolvendo prazer quer na representação, quer no reconhecimento. Epor essa via aarte de contar (eaarte em geral) vai adquirindo também uma vertente antecipatória identificada desde logo por Aristóteles na Poética quando atribui àpoesia (que aqui vale por literatura eafinal por qualquer tipo de criação) aarte de significar opossível, isto é, de dizer não oque foi mas oque poderia ter sido. Jonah Lehrer, um jovem neurocientista estadunidense, falou de forma muito comunicativa do modo como aarte antecipa inclusivamente aciência num livro encantatório intitulado, Proust era um neurocientista, no qual mostra como, através de caminhos peculiares, grandes artistas incluindo os da palavra, mas também da dança, da música, da culinária exprimiram nas suas criações oque nenhuma experiência fora capaz de ver antes. Isto é, aimaginação, incluindo aliterária, afigura-selhe determinante para oavanço do conhecimento científico, porque diz ele “somos feitos de arte ede ciência”9. Ora não será essa arazão, interroga-se Lídia Jorge, não sem alguma ironia, pela qual, “toda apessoa culta procura epígrafes colhidas no saber inexato dos poetas para encimar os tratados do conhecimento exato”10. De tudo isto decorre aimprescindibilidade da arte eda sua interpretação na interação social ena identificação ética dos valores mesmo que possa ser percecionada ou percecionar-se asi própria como odomínio do inútil. “Nasci para administrar oà-tôa, / oem vão, / oinútil”11, reconhece ogrande poeta brasileiro Manoel de Barros, num livro com omaravilhoso título de Livro sobre nada. Mas o“inutensílio”12 que diz ser opoema mostra-se, quero insistir nisso, da maior utilidade na educação ena formação incluindo universitária, porque induz treino interpretativo, competências 8 Damásio 2011, p.359. 9 Lehrer 2007, p.14. 10 Jorge 2013, p.10. 11 Barros 1988b), p.51. 12 Barros: 1988a), p.25. OPEN ACCESS
ISAbEL PIRES DE LIMA 19 de identificação ética, espírito crítico em suma. Etambém porque abre aquele corredor de lume aque se referia Ana Luísa Amaral. Omesmo António Damásio não se tem poupado aalertar para anecessidade de atentarmos no ensino das artes edas ciências humanas, se queremos criar mais emelhor cidadania. Aarte, onde obviamente se inclui aliteratura, convoca formas de inteligência emocional para arelevância eofomento da qual aneurociência tem vindo achamar cada vez mais aatenção. Se queremos formar sujeitos harmoniosos ebons cidadãos, importa encontrar equilíbrios entre oincentivo ao desenvolvimento da inteligência cognitiva, que oensino tradicional acolhe ao valorizar oconhecimento técnico-científico, eoincentivo àinteligência emocional, que as ciências humanas eas artes, entre as quais aliteratura, fomentam. De algum tempo aesta parte debate-se ou lamenta-se entre os professores de todos os setores aquilo aque já se chama aparadoxo do “deep learning”, isto é, acontradição que revela que crescimento no conhecimento nem sempre corresponde aaumento da capacidade de compreensão esaber. Os nossos alunos mostram ter dificuldades em integrar um novo conhecimento no mundo previamente conhecido, ou seja, mostram dificuldades em articular novo evelho conhecimento no sentido de esboçar novos caminhos. Eu diria têm défice de intervalos, de espaços reflexivos, défice de contemplação ede interpretação. Oque de melhor poderemos oferecer-lhes— aeles eatodos nós afinal— do que histórias, histórias que aliteratura eaarte nos facultam enas quais as Humanidades ou as Ciências Humanas são especialistas? Aquilo que gostaria de designar por regresso das Humanidades, regresso ainda tímido mas inevitável, eainda mais inevitável na Europa que sair da crise, anão ser que opte por ser uma Europa de modelo asiático, como diz Žižek com ironia, decorre do facto das humanidades atentarem nas questões dos valores que tanto mobilizam edividem os cidadãos eterem um enorme potencial para enriquecerem eatédisciplinarem esse debate. Não éàtoa que ainterpretação eopensamento crítico, designadamente ocriticismo filosófico eliterário têm evidenciado um retorno ético— eesta étambém agrande oportunidade para as Humanidades no mundo que ainda está mergulhado na hipervalorização do que édito exato, mas que não encontra instrumentos exatos para sair da crise. Em França, Tzvetan Todorov ou Antoine Compagnon, por exemplo, ao insistirem no regresso ético da literatura, reposicionam-na como “um saber insubstituível, circunstanciado enão resumível, acerca da natureza humana, um saber das singularidades”13 eno mundo anglo-saxónico, Peter Levine, repensando as Humanidades, nota como aquilo que designa por “ethical turn” na literatura epor “turn to narrative in ethics” convergem. Eacrescenta: These trends are desirable because valid moral reasoning depends upon the telling and interpretation of stories. In turn, stories are necessary because ethical reasoning is largely particularistic, not categorical. It is about particular people in particular situations, not about abstract concepts14. 13 Compagnon 2010, p.44. 14 Levine 2012, p.130. OPEN ACCESS
20 SVĚT LITERATURY / O MUNDO DA LITERATURA Enão se confunda oretorno ético da literatura com qualquer velha ideia de literatura de tese. Aliteratura não formula teses, quando muito incita oleitor aativa elivremente formulá-las, abandonando ideias feitas. Essa arazão pela qual Silvina Rodrigues Lopes defende que aintrodução do ensino da literatura em cursos técnicos (apar com oensino relativo aoutras formas de arte), contribui para odesenvolvimento do conhecimento posto que, afirma aautora, “este assenta na condição paradoxal de preparar asua própria negação, anegação de ideias feitas, qualquer que seja oseu estatuto”15. Omundo carece de interpretação ede transformação, mas ao contrário do que pretendia Marx, aetapa da interpretação nunca termina, eem boa verdade anecessidade da sua transformação também não. Terminada aera das grandes narrativas utópicas, importa apenas ir definindo, numa prática de constante navegação àvista, as rotas que em cada momento eem cada situação mais convêm às mulheres eaos homens comuns. Euma tal definição será feita, éminha convicção, no já aludido lugar do intervalo, apartir da aguda atenção ao mundo, da sua contemplação, edo ativo exercício de interpretação, um lugar do intervalo que reclama novas formas de movimento. Provocatoriamente, Paul Lafargue, genro de Marx, reclamava odireito àpreguiça, muito provavelmente uma outra forma de já nessa altura designar ointervalo. Aquelas rotas tanto podem ser ditadas pelo local, como pelo global, pela rua que urge asfaltar, como pelo serviço nacional de saúde que importa fomentar ou pela defesa da floresta amazónica, garante de um ambiente de qualidade no futuro. Contemplar, contemplar, contemplar, interpretar, interpretar, interpretar, treinar, treinar, treinar oespírito crítico etalvez consigamos produzir movimento criativo, ação não reativa etalvez possamos ir transformando omundo, fazer modernidade. Estou em crer que construir modernidade passa hoje, afinal como sempre aconteceu, por aqueles caminhos. E, para terminar, não resisto acitar um clássico, omeu clássico moderno de estimação. N’Os Maias, Eça de Queirós dá-nos aver uma cena em que Carlos eEga procuram entusiasmar oavô Afonso com os planos de trabalho que teriam em mãos. Entre eles conta-se apublicação de uma revista, que pretendem que venha achamar-se Revista de Portugal, destinada aanimar amodorra da vida intelectual lisboeta, uma revista de resistência, que venha afazer civilização, como eles diziam. Ega tenta animar ovelho Afonso acolaborar com sua longa experiência elargo saber, escrevendo algum artigo. Afonso, espécie de metáfora da pátria no romance, furta-se e justifica-se: Oque ele teria adizer ao seu país, reduzia-se pobremente atrês conselhos em três frases— aos políticos: “menos liberalismo emais carácter”; aos homens de letras: “menos eloquência emais ideia”; aos cidadãos em geral: “menos progresso emais moral“16. 15 Lopes 2003, p.132. 16 Queirós s. d., p.566. OPEN ACCESS
ISAbEL PIRES DE LIMA 21 Adaptando, eu diria: aos políticos, menos palavreado liberal emais treino do espírito crítico; aos homens de letras, menos conversa estereotipada emais interpretação; aos cidadãos em geral, menos obsessão utilitarista econsumista de progresso emais contemplação, mais intervalo crítico. Em síntese, mais pensamento para construirmos modernidade no século XXI. BIBLIOGRAFIA Agamben, Giorgio. Nudités. Paris: Ed. Payot &Rivages, 2012. Amaral, Ana Luísa. Escuro. Lisboa: Assírio &Alvim, 2014. Amaral, Ana Luísa. Inversos. Poesia 1990–2010. Lisboa: Dom Quixote, 2010. Barros, Manoel de. Arranjos para assobio. Rio de Janeiro— São Paulo, Editora Record, 1998 a) (2ª ed.). Barros, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro— São Paulo: Editora Record, 1998 b) (7ª ed.). Compagnon, Antoine. Para que serve aliteratura? Porto: Deriva Editores, 2010. Damásio, António R. Eocérebro criou ohomem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Han, Byung-Chul. Asociedade do cansaço. Lisboa: Relógio dʼÁgua, 2014. Innerarity, Daniel. Ofuturo eos seus inimigos. Alfragide: Teorema, 2009. Jorge, Lídia. Os mitos que nos visitam. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2013. Lehrer, Jonah. Proust era um neurocientista. Alfragide: Lua de Papel, 2007. Levine, Peter. “An Ethical Turn for the Humanities”. In Soeiro, Ricardo Gil eTavares, Sofia (eds.). Rethinking the Humanities— Paths and Challenges. Cambridge Scholars Publishing, 2012. Lopes, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003. Perloff, Marjorie. “Crisis in the Humanities”. In Soeiro, Ricardo Gil eTavares, Sofia (eds). Rethinking the Humanities— Paths and Challenges. Cambridge Scholars Publishing, 2012. Queirós, Eça de: Os Maias. Lisboa: Livros do Brasil, s. d. Rilke, Rainer Maria: Cartas aum jovem poeta. Porto: Asa Edições, 2002. Sedláček, Tomáš. “Não estamos aqui para viver vidas úteis, mas vidas belas”. Público, 26. 4. 2015. [online].<http://www.publico. pt/culturaipsilon/noticia/nao-estamosaqui-para-viver-vidas-uteis-mas-vidasbelas-1693240> Todorov, Tzvetan. La littérature en péril. Paris: Flammarion, 2007. Žižek, Slavoj. Violência— Seis Notas àMargem. Lisboa: Relógio d’Água, 2009. CONSTRUCTING MODERNITY IN THE TWENTY-FIRST CENTURY: ACCELERATION— TIME OUT— INTERPRETATION Finding contemporary society to be dominated by accelerating processes which reveal other forms of invisible violence, one is led to show the necessity of creating or recreating moments of interval. The interval instigates contemplation, and with it the questioning of the imperative character of productivity as the absolutisation of acceleration and comprehensive positivity, thus paving the way to interpretation and to the exercise of critical review in order to produce creative movement, of non-reactive action, resulting in the Modernity of today. OPEN ACCESS