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Nomes de propriedades/qualidades em farmacopeias portuguesas dos séculos XVIII e XIX

Ribeiro, Sílvia

Abstract

Neste trabalho analisam-se os nomes deadjetivais de propriedades/qualidades usados em três farmacopeias portuguesas dos séculos xviii e xix (Pharmacopea Lusitana, 1704; Pharmacopeia Geral para o reino, e dominios de Portugal, 1794 e Pharmacopêa Portugueza, 1876), conferindo-se especial atenção aos nomes de propriedades da matéria a que recorrem os autores. Estudam-se as bases e afixos mobilizados para a criação destes nomes, assim como os respetivos contextos de ocorrência. Verificou-se que os sufixos operantes na formação dos nomes em estudo são os mesmos nas três obras em análise, destacando-se o sufixo -idad(e), por ser o mais comum nas três obras e aquele cujas ocorrências mais aumentam entre 1704 e 1876.

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Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 86 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna Nomes de propriedades/qualidades em farmacopeias portuguesas dos séculos XVIII e XIX Sílvia Ribeiro * * Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda, Universidade de Aveiro | Centro de Línguas, Literaturas e Culturas da Universidade de Aveiro | celga-iltec, Portugal. Dirección para correspondencia: [email protected]. Resumo: Neste trabalho analisam-se os nomes deadjetivais de propriedades/qualidades usados em três farmacopeias portuguesas dos séculos xviii e xix (Pharmacopea Lusitana, 1704; Pharmacopeia Geral para o reino, e dominios de Portugal, 1794 e Pharmacopêa Portugueza, 1876), conferindo-se especial atenção aos nomes de propriedades da matéria a que recorrem os autores. Estudam-se as bases e afixos mobilizados para a criação destes nomes, assim como os respetivos contextos de ocorrência. Verificou-se que os sufixos operantes na formação dos nomes em estudo são os mesmos nas três obras em análise, destacando-se o sufixo -idad(e), por ser o mais comum nas três obras e aquele cujas ocorrências mais aumentam entre 1704 e 1876. Palavras-chave: farmácia, farmacopeias, léxico de especialidade, nomes de propriedade/qualidade, sufixação. Nouns for properties/qualities in 18th and 19th-century Portuguese pharmacopeias Abstract: This study analyses the deadjectival nouns for properties/qualities used in three 18th and 19th-century Portuguese pharmacopoeias (Pharmacopea Lusitana, 1704; Pharmacopeia Geral para o Reino, e Dominios de Portugal, 1794 and Pharmacopêa Portugueza, 1876), with a particular focus on nouns for pharmaceutical properties. It explores the roots and affixes applied to create these nouns, as well as the contexts in which they occur. This analysis found that the suffixes used to form the nouns under study are the same in all three works: the suffix -idad(e) was the most common and increased the most in usage from 1704 to 1876. Key words: pharmacy, pharmacopoeias, property/quality nouns, specialised lexicon, suffixation. Panace@ 2020; xxi (52): 86-97 Recibido: 15.ix.2020. Aceptado: 5.xi.2020. 1. Introdução Em Portugal, a publicação de textos farmacêuticos foi bastante abundante durante o século xviii, refletindo a efervescência científica e técnica que se começava a sentir de forma evidente por toda a Europa (Conceição et al., 2014). Motivados pela presença cada vez mais regular de drogas vindas de outras partes do mundo e divididos entre a tradicional farmácia galénica e o novo paradigma iatroquímico, diversos boticários portugueses foram responsáveis pela produção de várias farmacopeias e formulários, que «tinham por objectivo seleccionar, organizar, inventariar, colocar à disposição de médicos e boticários um conjunto de drogas, de operações farmacêuticas e de fórmulas relevantes e com eficácia» (Pita e Pereira, 2012: 229). O século xviii assistiu não apenas à modernização e diversificação dos paradigmas em que assentava a arte farmacêutica, mas também à substituição do Latim pelas línguas vernáculas como línguas de transmissão e produção da ciência. No contexto português, as farmacopeias produzidas neste período, que visavam compilar o conhecimento farmacêutico e servir de base a uma prática mais esclarecida desta arte, instituem-se, por isso, como uma fonte duplamente relevante para o conhecimento do léxico farmacêutico: por um lado, correspondem aos primeiros textos deste âmbito redigidos em língua portuguesa; por outro lado, refletem a incorporação progressiva de vocábulos associados aos novos paradigmas de base química que, progressivamente, consolidaram a sua importância no domínio da Farmácia europeia e portuguesa. Neste contexto, o presente estudo, assente na análise de três farmacopeias portuguesas dos séculos xviii e xix, visa identificar e caracterizar os nomes de propriedades/qualidades nelas usados, conferindo maior atenção aos nomes de propriedades da matéria. Tomam-se como base a Pharmacopea Lusitana, publicada em 1704, a Pharmacopeia Geral para o Reino, e Domínios de Portugal, publicada em 1794, e a Pharmacopêa Portugueza, de 1876, abarcando, assim, praticamente dois séculos. Ainda que se assumam como textos prescritivos, as farmacopeias têm também um carácter marcadamente descritivo, razão pela qual se afigura relevante estudar os nomes de propriedade/ qualidade usados nestes textos em épocas com características sociais e científicas diferentes. Uma vez identificados os nomes de propriedade/qualidade deadjetivais usados, e considerando a sua estrutura morfologicamente complexa (Correia, 2004; Moita, Janssenn e Correia, 2010; Rio-Torto e Rodrigues, 2016; Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 87 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna Jaque Hildago e Martin Garcia, 2019), estudam-se não apenas as bases e afixos mobilizados para a sua criação, mas também os respetivos contextos de ocorrência, procurando-se perceber a respetiva trajetória ao longo do período em análise (de início do século xviii até final do século xix). Assim, começaremos por traçar, de forma sumária, a evolução da Farmácia em Portugal, nos séculos xviii e xix, conferindo particular importância à caracterização e contextualização das farmacopeias então publicadas. Posteriormente, faz-se uma breve reflexão em torno da formação de nomes de propriedade/qualidade deadjetivais, seguindo-se para a análise dos dados recolhidos no corpus selecionado. 2. Farmácia e farmacopeias em Portugal nos séculos xviii e xix: breve caracterização Até inícios do século xviii, os textos farmacêuticos que circulavam em Portugal eram escritos/traduzidos em Latim — nomeadamente, mas não só, os textos de autores de referência, como Hipócrates, Galeno ou Avicena—, ou em línguas estrangeiras. A primeira farmacopeia escrita em língua portuguesa —a Pharmacopea Lusitana— surgiu em 1704, em Coimbra, pela mão do cónego D. Caetano de Santo António, assumindo- -se como uma «obra que abriu uma nova página na história da Farmácia portuguesa, e, num sentido mais amplo, na própria história da medicina portuguesa» (Pita, 1999: 50). Redigido por um religioso, este texto espelha a importância que a Farmácia conventual teve no país, sobretudo nos séculos xvii e xviii (Pita e Pereira, 2012). Baseando-se em autores consagrados, especialmente em Mesué, e com pendor marcadamente galenista, esta obra é dividida em 12 grandes partes, apelidadas de «Tratados» pelo autor, nas quais não se encontra referência a medicação química moderna. Na sequência da publicação, nos primeiros anos do século xviii, desta primeira farmacopeia redigida em língua portuguesa, foram várias as farmacopeias, de caráter não oficial, publicadas no país. Se a Farmácia galénica continuava a ser respeitada e usada por muitos, transparecendo, por isso, nos textos vindos à luz por esta altura, a reflexão e a prática farmacêuticas de setecentos foram gradualmente incorporando os «elementos necessários à identificação, produção e administração terapêutica dos remédios de origem química» (Filho, 2016: 49). No segundo quartel do século xviii, o país foi profundamente marcado pelas reformas pombalinas, cujo impacto se refletiu também, de forma direta e evidente, nas áreas da Medicina e da Farmácia. Não será de estranhar, considerando este cenário nacional reformista e a tendência internacional então observada para a oficialização das farmacopeias, que a primeira farmacopeia oficial portuguesa tenha surgido precisamente no final deste século, em 1794, pela mão de Francisco Tavares, Professor da Faculdade de Medicina da Faculdade de Coimbra, médico e físico-mor. A Pharmacopeia Geral para o Reino, e Domínios de Portugal, com dois tomos, respondia a dois objetivos principais: «por um lado, conferir a formação farmacêutica conveniente; por outro lado, a responsabilidade de orientar no exercício da prática profissional todo o boticário que preparasse os medicamentos devidos» (Conceição et al., 2014: 47-48), refletindo a «tomada de consciência de que o Estado tem um papel tutelar na problemática dos medicamentos e das prescrições médicas» (Pita e Pereira, 2011: 209). A Pharmacopeia Geral, na qual Francisco Tavares sublinha que não há diferença entre Farmácia galénica e Farmácia química, está organizada em dois volumes. Nestes, o autor, para além de caracterizar a actividade farmacêutica e de elencar os pesos e medidas usados em Farmácia, caracteriza as preparações farmacêuticas em uso na época, descreve os medicamentos compostos e as matérias-primas necessárias para a sua produção e lista as fórmulas reconhecidas como tendo eficácia terapêutica. Apesar de rapidamente se tornar desatualizada, a Pharmacopeia Geral esteve em vigor durante 40 anos. A segunda farmacopeia portuguesa oficial, o Codigo Pharmaceutico Lusitano, foi publicada em 1835 e vigorou até 1876, data de publicação da Pharmacopêa Portugueza, a primeira a ser publicada por uma Comissão especificamente constituída para o efeito, que incluía médicos e farmacêuticos. Esta farmacopeia esteve em vigor durante 60 anos, abarcando, portanto, ainda as primeiras décadas do século xx. Tratava-se, no dizer dos próprios autores, de uma farmacopeia «predestinada para servir ao mesmo tempo de texto ao ensino oficial e de codigo á pratica nas extensas e variadas regiões que constituem o continente e possessões portuguezas» (Pharmacopêa Portugueza: x). Nesta obra, e refletindo os avanços das ciências das décadas anteriores, os autores procuraram conciliar e relacionar as «denominações vulgares» e as «nomenclaturas verdadeiramente scientificas» (Pharmacopêa Portugueza: xxi). As três farmacopeias selecionadas como base deste estudo permitem conhecer o pensamento e, sobretudo, o léxico da Farmácia portuguesa dos séculos xviii e xix, domínio em que, como noutros, se terá assistido, fruto da efervescência científica própria destes tempos, à ampliação e renovação do léxico, de modo a acompanhar o desenvolvimento das linguagens de especialidade (Silvestre, 2006). 3. Nomes de propriedade/qualidade deadjetivais nas farmacopeias portuguesas dos séculos xviii e xix 3.1. Nomes de qualidade/propriedade: alguns traços São assumidos como nomes de propriedade/qualidade palavras complexas como beleza, cortesia, espessura, assertividade, sendo a sua função, como a própria designação deixa entender, a de fornecer nomes para fazer referência às qualidades expressas pelos adjetivos de base (Rainer, 2004). Os nomes de propriedade/qualidade são nomes sincategoremáticos, ou seja, trata-se de nomes referencialmente dependentes (Correia, 2004), que não se encontram ancorados nem na dimensão de espaço nem na dimensão de tempo (Correia, 2004; Jaque Hidalgo e Martin Garcia, 2019). Como afirmam Jaque Hidalgo e Martin Garcia (2019: 434-435), «las cualidades corresponden a objetos semánticos que carecen de estructura temporal y que pueden graduarse». Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 88 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna Os nomes de propriedade/qualidade, também conhecidos por “nomina qualitatis” ou “nomina essendi”, correspondem maioritariamente, em língua portuguesa, a nomes deadjetivais, «parafraseáveis por “o facto de ser A”, “a qualidade ou estado de A”, […] portadores de um amplo conjunto de sufixos» (Rio- -Torto e Anastácio, 2004: 192). Para a construção destes nomes morfologicamente complexos concorrem, segundo Rio-Torto e Rodrigues (2016), vários sufixos, nomeadamente -eir(a), -ez(a), -i(a), -ic(e), -idad(e), -idão, -ism(o) e -ur(a), ainda hoje disponíveis para formação de novos nomes de qualidade, e sufixos como -ão, at(o), -íci(a), -íci(e), -nci(a), -or, um(e) e -itud(e), presentes em palavras eruditas que, tendo origem grecolatina, terão sido incorporadas na língua portuguesa. Há também um grupo, mais restrito, de nomes de propriedade/qualidade deverbais, como aqueles construídos com o sufixo -nci(a) (ex.: tolerância). Os nomes de propriedades/qualidades caracterizam-se por incluírem uma leitura predicativa do adjetivo de que provêm, correspondente a um uso desse adjetivo combinado com o verbo ser (Pena, 2004). Exemplificando, a nominalização «acidez do produto» será equivalente a «o produto é ácido». Habitualmente, estes nomes são usados para denominar propriedades permanentes. Porém, e como são muito comuns os adjetivos que, de acordo com o contexto de uso, podem expressar modos de ser (qualidades permanentes) ou modos de estar (qualidades transitórias), um mesmo nome deadjetival poderá, consoante o uso, ser lido como um nome de propriedade/qualidade ou um nome de estado (Jaque Hidalgo e Martin Garcia, 2019). Os nomes de propriedade/qualidade são construídos exclusivamente com base em adjetivos qualificativos. Os adjetivos relacionais, «que no denotan cualidades o propiedades, sino que marcan una relación entre el significado del sustantivo al que se ajuntan y el significado de su sustantivo base» (Pena, 2004: 9), não estão disponíveis para a formação de nomes de propriedade/qualidade. Com frequência, o estudo dos nomes de propriedade/qualidade assenta na análise da produtividade e distribuição dos sufixos neles operantes, relacionando a presença dos operadores sufixais com as características morfológicas e semânticas das bases a que se acoplam (Correia, 2004; Pena, 2004; Rio-Torto e Rodrigues, 2016). Nas secções seguintes procuraremos, precisamente, traçar um quadro geral dos nomes de propriedade/ qualidade usados nos textos em estudo, explicando, primeiramente, os procedimentos subjacentes à análise em si. 3.2. Nomes de propriedade/qualidade no corpus em estudo Para a realização deste estudo, apesar da proliferação de farmacopeias publicadas em Portugal a partir de inícios do século xviii, selecionaram-se três textos em particular: ۀ Pharmacopea Lusitana, da autoria de D. Caetano de Santo António, publicada em Coimbra, em 1704; ۀ Pharmacopeia Geral para o reino, e dominios de Portugal (2 volumes), cuja autoria é atribuída a Francisco Tavares, publicada em Lisboa, Regia Officina Typografica, em 1794; ۀ Pharmacopêa Portugueza, publicada em Lisboa, Imprensa Nacional, em 1876, da autoria de uma comissão nomeada para a sua elaboração. Nestes três textos, incluímos a primeira farmacopeia escrita em língua portuguesa, ainda marcadamente de influência galénica e muito próxima da Farmácia conventual, uma vez que foi escrita por um cónego (Pharmacopea Lusitana, 1704); integramos a primeira farmacopeia oficial portuguesa, já da responsabilidade de um médico e com influência da Química (Pharmacopeia Geral para o Reino, e Domínios de Portugal, 1794), e a primeira farmacopeia redigida por uma comissão (Pharmacopêa Portugueza, 1876), que reunia autores de renome nos campos da Farmácia e da Medicina e que, redigida quase 200 anos após a primeira, incorporará reflexos lexicais do avanço do pensamento científico e técnico da época. Acreditamos, por isso, que estas três obras permitem conhecer o pensamento —e sobretudo o léxico usado para o veicular— associado à Farmácia portuguesa dos séculos xviii e xix. Uma vez identificadas as obras a analisar, foram definidos dois critérios de seleção dos dados: por um lado, critérios de natureza formal (nomes formados a partir de bases adjetivais e com presença de um grupo de sufixos específico) e critérios semânticos (a possibilidade de os produtos em causa serem parafraseados por «propriedade/qualidade de ser Y», sendo Y o adjetivo de base). Concretamente, foram recolhidos nomes deadjetivais de propriedade/qualidade. Considerando o trabalho de Rio-Torto e Rodrigues (2016), assim como o de Correia (2004), selecionaram-se como base de estudo os sufixos -eir(a), -ez(a), -i(a), -ic(e), -idão, -idad(e), -ism(o), -ur(a). Assim, identificaram-se todos os nomes deadjetivais de propriedade/qualidade em que ocorrem estes sufixos, registando-se, para cada um deles, os vários contextos de ocorrência. Constatou-se a não utilização, em nenhuma das três obras sob escopo, de ocorrências dos sufixos -ic(e) e -eir(a). Também não se registaram exemplos de nomes de qualidade em -ism(o). Parece-nos que esta ausência de resultados se deverá a duas razões diferentes. Por um lado, os sufixos -ic(e) e -eir(a) estão frequentemente associados a conotações pejorativas (Rio-Torto e Rodrigues, 2016), muitas vezes revelando um caráter popular/ castiço (Correia, 2004), razão pela qual dificilmente teriam aplicação em textos de cariz mais técnico-científico como os que se analisam. Por outro lado, o sufixo -ism(o), associado, por vários autores (Barbosa, 2014), ao enriquecimento vocabular decorrente da consolidação da ciência e da técnica, nos séculos xviii e xix, parece não ter ainda reflexo no léxico usado na área da Farmácia até finais do século xix. Com efeito, e segundo referem Gianastacio (2009) e Barbosa (2013), o sufixo -ism(o) torna-se mais comum na Língua Portuguesa em finais do século xix e inícios do século xx. Para os restantes sufixos em estudo, encontraram-se os registos indicados na tabela 1, na qual as farmacopeias são identificadas pela sua data de publicação. Analisam-se, de seguida, os resultados para cada um dos sufixos estudados. Para tal, apresentam-se, primeiramente, os dados relativos aos sufixos autóctones: -ur(a), -ez(a), -idão. Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 89 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna Depois, fornecem-se as informações referentes aos sufixos internacionais: -i(a) e -idad(e). Embora tenham ambos origem em sufixos greco-latinos, os sufixos autóctones e os sufixos internacionais distinguem-se pelo facto de estes últimos terem cognatos em várias línguas românicas e em inglês, revelando comportamentos semelhantes em todas as línguas. Os sufixos autóctones, pelo contrário, podendo ocorrer em várias línguas românicas, até com comportamentos diversos entre si, não surgem em inglês (Correia, 2015). O sufixo -ur(a) é identificado, em vários trabalhos aplicados ao estudo do Português (p. ex., Correia, 2004; Rio-Torto e Rodrigues, 2016), como um sufixo autóctone. Refere Margarita Correia que «o sufixo -ura seleciona […] por bases adjectivos de estrutura simples ou resultantes de formas de particípio passado irregular que exprimem, fundamentalmente, qualidades físicas» (2004: 328). Listam-se, na tabela 2, alguns nomes de propriedade/qualidade com este sufixo registados nos três textos em análise. Este sufixo ocorre associado a adjetivos morfologicamente simples (alto, branco, doce, espesso, grosso, largo, quente, seco), que denotam maioritariamente propriedades físicas, especificamente propriedades organoléticas (características dos materiais que podem ser percebidas pelos órgãos sensoriais, como cor, sabor, odor, etc). Ocorre também um exemplo —formosura— de um nome de propriedade/qualidade formado a partir de bases adjetivais complexas. Coincidentemente, neste caso, a propriedade em causa é de cariz menos concreto do que as designadas com nomes cujas bases são morfologicamente simples. Estes nomes de propriedade ocorrem maioritariamente para caracterizar os ingredientes usados («Dis que a Almecega melhor, & mais copioza nasce na Índia na Ilha chamada Chio prefere-se a que reluz a modo de lucerna clara, & semelhante à brancura da Cera Toscana» (pl: 69); «Dis que as Cubebas são melhores as corpulentas, cheas, pezadas, agras, porem menos que a Pimenta, e algum tanto amargas, e muito aromaticas, mas tem algúa doçura confervãose des annos» (pl: 72)), embora também se encontrem na caracterização dos instrumentos («[…] os instrumentos, e vasos de vidro preferem a todos os outros, pela sua limpeza, e formosura […]» (pg, tomo 1: 3)). Os derivados em -ur(a) mantém-se, sem grande alteração, nem em termos quantitativos nem em termos de áreas concetuais de aplicação, nos três textos em análise. O sufixo -ez(a), tal como -ur(a), tem ocorrências nos três textos em análise, registando-se uma presença mais regular nos dois tomos da Pharmacopeia Geral (1794). Listam-se alguns exemplos na tabela 3. Independentemente do texto em que ocorrem, as unidades com sufixo -ez(a) continuam a denotar maioritariamente propriedades organoléticas (aspereza, delgadeza, dureza, grandeza, molleza) e a associar-se a adjetivos simples (áspero, duro, grande, maduro, puro, redondo). Ocorrem, ainda assim, nomes (em menor quantidade) não imediatamente associáveis a propriedades aferíveis pelos cinco sentidos (pureza, incerteza, presteza) e, por isso, relacionáveis com propriedades não organoléticas. Paralelamente ao sufixo -ez(a), o sufixo -ez ocorre também Tabela 1. Número de nomes de propriedade/ qualidade construídos com os sufixos em análise, por obra estudada Sufixo Texto-Fonte/n.º de ocorrências recuperadas totais % 1704 1794 1876 -ur(a) 5 8 5 18 12,5 -ez(a) 10 13 7 30 20,8 -idão 3 5 2 10 6,9 -idad(e) 19 27 35 81 56,2 -i(a) 30253,4 total 144 100 % Tabela 2. Exemplos de nomes de propriedade/ qualidade construídos com sufixo -ur(a) e presentes nas três farmacopeias em análise ocorrência Pharmacopea Lusitana (pl1) altura Diz que do Hyssopo ha duas especias hum ortense, o qual terá de altura pouco mais de meyo covado […] (p. 55) brancura […] tem tres propriedades boas, que são o ser branco de verdadeira brancura por fora [….] (p. 52). doçura […] & muito aromáticas, mas tem algúa doçura […] (p. 72) quentura […] se acazo o Diaquilão com a quentura do Ceroto se não derreter […] (p. 422) ocorrência Pharmacopeia Geral (pg) altura O talo he levantado, da altura de hum pé […] (tomo ii, p. 62) doçura […] o fator amargoso, com alguma doçura ao principio. (tomo ii, p. 40) espessura […] mas tambem á tenuidade, ou espessura maior do liquido […] (tomo i, p. 175) formosura […] os instrumentos, e vasos de vidro preferem a todos os outros, pela sua limpeza, e formosura […] (tomo i, p. 3) grossura […] as raizes seccas de grossura do dedo minimo […] (tomo ii, p. 40) largura […] lizas de ambos os lados, da largura de huma até duas pollegada […] (tomo ii, p. 70) seccura […] esta tambem pende muito da sua seccura, perfeição e pureza […] (p. 50) ocorrência Pharmacopea Portugueza (pp) espessura Casca da espessura de 3 millimetros, ou menos, enrolada sobre o eixo […] (p. 349). grossura Raiz —Radix Althaeae— comprida, de grossura variavel, casca rugosa e acinzentada (p. 43) largura Casca em pedaços achatados mui levemente incurvados, de comprimento variavel, largura de 2 a 10 centimetros […] (p. 349) seccura evapore á seccura em capsula de porcelana, redissolva em agua distillada fervente […] (p. 392) Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 90 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna nos nomes pequenhez, fluidez e rapidez, em contextos como os que abaixo se exemplificam. Em nenhum dos textos se verifica a coexistência destas formulações com as variantes (possíveis) com o sufixo -ez(a) (ex. pequeneza). (1) «também se ha de saber que a grandeza, ou pequenhez fazem diffuzão, & aggregação de virtude» (pl, p. 25) (2) «os que tem perdido a maior fluidez pela evaporação, e tem a consistencia de mel desfeito» (pg, tomo i, p. 45) (3) «a rapidez das metamorphoses experimentadas» (pp, p. 14) Os nomes de propriedade/qualidade construídos com o sufixo -ez(a) ocorrem sobretudo para designar propriedades das matérias-primas, especialmente as plantas, em uso («[…] a planta inteira […] deve sempre ser colhida no seu estado de perfeita madureza» (pl: 6)), propriedades dos preparados e dos medicamentos («[…] para que esteja sempre a massa na molleza, que se precisa» (pl: 183)) ou propriedades dos instrumentos usados («Dentro do liquido se introduz hum rodízio semelhante aos de bater chocolate, correspondente á grandeza do vaso» (pg, tomo i: 89)). Já relativamente ao sufixo -idão, Correia (2004: 323) afirma que «selecciona por bases adjectivos de estrutura simples ou derivados por meio de in- […], que denominam fundamentalmente propriedades físicas, apreensíveis através dos sentidos […]». Os nomes de propriedade/qualidade em que ocorre este sufixo são residuais no corpus em análise, tendo-se identificado um total de 5 nomes diferentes. Estes repartem-se pela Pharmacopea Lusitana (3), pela Pharmacopeia Geral (2) e pela Pharmacopea Portugueza (1, repetido). Todos os exemplos recolhidos são construídos com base em adjetivos morfologicamente simples (exacto, frouxo, podre, prompto, vermelho). Salienta-se, neste conjunto de cinco nomes de propriedade/qualidade, a existência de dois nomes que estão associados a propriedades não físicas (promptidão e exactidão), Tabela 3. Exemplos de nomes de propriedade/ qualidade construídos com sufixo -ez(a) e presentes nas três farmacopeias em análise ocorrência Pharmacopea Lusitana (pl) agudeza […] os medicamentos, que se cozem, reprimem sua agudeza, tomando a virtude, & bondade das couzas em que se cozem […] (p. 28) aspereza Dis que o Pepino amargo, ou vulgarmente chamado de S. Gregorio he fruto assim como o do pepino pequeno, & tem muita aspereza, & amarga verdadeiramente […] (p. 57) dureza Dis que a pedra Armena, que tiver a cor verde, & terrea escura, & com huas manchas verdes, & negras distinctas, que não tem a dureza da pedra, antes se fas em pò com facilidade […] (p. 61) redondeza […] quer dizer, que se chamão Pirolas pela redondeza que tem […] (p. 230) ocorrência Pharmacopeia Geral (pg) incerteza Porém para evitar toda a equivocaçao, e incerteza na ordem, em que os ingredientes se devem succeder huns a outros […] (tomo I, p. 207) limpeza Por tanto os instrumentos, e vasos de vidro preferem a todos os outros, pela sua limpeza, e formosura […] (tomo I, p. 3). madureza Tornando ás plantas, he certo que cada huma dellas, e cada huma de suas partes tem sua madureza […] (tomo I, p. 15) molleza […] piza-se de novo, para que a massa adquira a devida molleza […] (tomo I, p. 183) pureza […] ou outras partes da planta encerrão maior quantidade de óleo essencial, e em maior pureza. (tomo I, p. 108) ocorrência Pharmacopea Portugueza (pp) clareza Cumpria, pois, determinar com a maxima clareza e exactidão os componentes de cada formula […] (p. xxxvi). grandeza Da fórma e grandeza da pimenta ou um pouco maiores […] (p. 85) pureza Ha, pois, indicação da especie, descripção do corpo e observações concernentes á sua pureza e inalterabilidade. (p. xxxiv) Tabela 4. Exemplos de nomes de propriedade/ qualidade construídos com sufixo -idão e presentes nas três farmacopeias em análise ocorrência Pharmacopea Lusitana (pl) froxidão Dis que o insipido, ou sem sabor, lubrica, & fas ventozidades, mata, opilla, aperta, obra tarde, & com froxidáo […] (p. 16) podridão Quer dizer que o medicamento amargo defecca, dà sede, abre a boca das veas, prezerva da podridão, tem faculdade de atrahir […] (p. 15) vermilhidão […] se he demaziadamenre quente fas inflamaçao, atracção demaziada, & consumpção de humidade & vermilhidão […] (p. 11) ocorrência Pharmacopeia Geral (pg) exactidão A descripção porém dos Generos, e das Especies, que são de uso Medicinal pelas suas notas caracteristicas, asim d’huns, como dos outros medicamentos simples vegetaes, se achará com toda a exactidão nos Elementos de Botanica […] (tomo ii, s/p) promptidão Porém a difficuldade, e incerteza desta operaçao, e a facilidade, e promptidao, com que ella huma vez feita muda de virtudes […] (tomo I, p. 147) ocorrência Pharmacopea Portugueza (pp) exactidão Cumpria, pois, determinar com a maxima clareza e exactidão os componentes de cada formula (xxxvi) Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 91 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna não sendo de estranhar, por isso, que ocorram não para fazer referência a características das matérias-primas/preparados, mas de procedimentos inerentes à prática farmacêutica. Considerando a não existência de nomes de propriedade/ qualidade em -ism(o), os únicos sufixos internacionais com ocorrência nos textos sob escopo são -i(a) e -idad(e). De acordo com diferentes trabalhos (Pezatti, 1990; Correia, 2004), é possível rastrear, em Português, um sufixo -i(a), átono, de origem latina, e o sufixo -i(a), tónico, de origem grega. Este segundo sufixo terá substituído o primeiro (que deixou de ser produtivo), sendo especialmente operante na criação de empréstimos ou neologismos pertencentes à linguagem científica. No presente trabalho, a análise incide, precisamente, sobre os nomes construídos com o sufixo -i(a) tónico. De acordo com Rio-Torto e Rodrigues (2016), este sufixo seleciona bases nominais ou bases adjetivais, sendo que, quando se acopla a estas últimas, opera sobretudo com bases complexas, sejam elas sufixadas ou compostas. Os nomes sufixados em -i(a) são bastante raros nas farmacopeias em estudo, sendo de destacar a sua ausência do texto de 1794. Os escassos exemplos recolhidos surgem nos contextos abaixo indicados (tabela 5). Salienta-se o facto de os nomes registados na Pharmacopêa Portugueza serem ambos compostos morfológicos de cariz erudito, não designando efetivamente propriedades/qualidades, mas sim nomes de áreas de estudo (estudo dos fármacos pharmacon e das quantidades poson). Já o nome alegria é usado na denominação de um preparado, por referência aos efeitos que o mesmo provoca. Os nomes de propriedade/qualidade construídos com o sufixo -idad(e) destacam-se dos restantes pela elevada quantidade de exemplos usados nos três textos em análise. Vejam-se algumas dessas ocorrências, nos respetivos contextos, na tabela 6. No conjunto dos nomes de propriedade/qualidade sufixados em -idad(e) com ocorrência na Pharmacopea Lusitana são mais comuns aqueles que têm como bases adjetivos morfologicamente simples (denso, húmido, raro, sujo). No conjunto (menos numeroso) das bases adjetivais morfologicamente complexas destacam-se as terminadas pelo sufixo -os(o) (gomozo, melozo, untuoso, viscoso). Já nos dados recolhidos na Pharmacopêa Portugueza ganham relevo, para além das bases adjetivais simples (caduco, intenso, novo), as bases adjetivais derivadas Tabela 5. Exemplos de nomes de propriedade/ qualidade construídos com sufixo -i(a) e presentes nas farmacopeias em análise ocorrência Pharmacopea Lusitana (pl) alegria Chamase a este composto electuario de alegria, porque a cauza ao que o toma […] (p. 218) ocorrência Pharmacopêa Portugueza (pp) pharmacologia […] convicções scientificas que tendam a cercear a ampla liberdade do medico dentro dos extensissimos limites da pharmacologia. (p. xliv) posologia […] discrepantes opiniões dos livros mais auctorisados em referencia á posologia […] (p. xliv) Tabela 6. Exemplos de nomes de propriedade/ qualidade construídos com sufixo -idad(e) e presentes nas três farmacopeias em análise ocorrência Pharmacopea Lusitana (pl) densidade Dis que os medicamentos que se julgão pella raridade, & densidade de substancia […] (p. 11) humidade […] as cascas exteriores lançãose fora, por serem seccas, & mas, & as de dentro, porque tem demaziada humidade […] (p. 85) gomozidade […] que sejáo pezados, & densos, & que tenhão muita carne, em a qual se ache húa gomozidade […] (p. 43) raridade Dis que os medicamentos que se julgão pella raridade, & densidade de substancia […] (p.11) sujidade […] verdadeiramente pella mayor parte costuma succeder isto nos medicamentos por razão da limpeza, ou sujidade que tem […] (p. 11) ocorrência Pharmacopeia Geral (pg) gravidade […] para separar liquidos de diversa gravidade especifica huns dos outros […] (tomo i, p. 93) fragilidade […] aquellas substancias, que se não calcinao perfeitamente, mas que se querem reduzidas á maior fragilidade […] (tomo i, p. 141) tenacidade Nelle deve entretanto haver uniforme mistura de ingredientes, e molleza untosa sem aspereza, e sem tenacidade. (tomo i, p. 188) tenuidade […] se ha de attender ao volume, e natureza das substancias seccas, e reduzidas a pó, mas tambem á tenuidade, ou espessura maior do liquido, em que se hão de misturar […] (tomo i, p. 175) volatilidade […] as condições fisicas do medicamento, que se infunde em quanto á sua volatilidade, espessura, facilidade, ou dificuldade de largar na infusão a sua virtude. (tomo i, p. 64) ocorrência Pharmacopêa Portugueza (pp) alterabilidade […] os productos cujas exequibilidade, alterabilidade e especial pureza exijam que o proprio pharmaceutico os prepare […] (xvi) exequibilidade […] os productos cujas exequibilidade, alterabilidade e especial pureza exijam que o proprio pharmaceutico os prepare […] (xvi) instabilidade […] o Acido cyanhydrico normal, cuja importancia e instabilidade requerem cautelosa preparação e desvelada conservação […] (xvi) solubilidade […] aspecto, fórma ou systema crystallino, côr, cheiro, sabor, densidade, solubilidade nos principaes vehiculos […] (xxv) variabilidade […] a variabilidade na quantidade e qualidade dos componentes de cada preparado […] (xxiv) Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 92 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna terminadas em -vel 2 (alterável, estável, exequível, fusível, inalterável, instável, solúvel, variável). A maior ocorrência dos nomes deadjetivais com bases em -vel (sufixo com origem latina (-bil(is)), mas presente desde estádios iniciais da língua portuguesa) poderá relacionar-se com a forte tendência para a relatinização e internacionalização do léxico próprio de domínios especializados que se registou nos séculos xvi a xix (Pereira, Silvestre e Villalva, 2013). Neste conjunto de adjetivos em -vel na origem dos nomes de propriedade/qualidade recuperados nas farmacopeias de 1794 e de Tabela 7. Exemplos de nomes de propriedade/qualidade formados com base em diferentes tipos, semanticamente motivados, de adjetivos Tipos de adjetivos Exemplo Nome de propriedade/ qualidade Exemplo de contexto de uso dimensão espacial alto altura Dis que o Eupatoario he erva de altura de covado […] (pl: 53) delgado delgadeza […] para estes são necessarios pós reduzidos á maior tenuidade, e delgadeza possível (pg, tomo 1: 186) grande grandeza As hervas devem ser colhidas no tempo do Estio, quando as suas folhas tem chegado á sua justa grandeza (pg, tomo i: 18) grosso grossura […] he preciso primeiro dispollas, e preparallas para se seccarem, segundo a sua grossura, ou tenuidade (pg, tomo i: 17) largo largura […] de largura da palma da mão pouco mais, ou menos (pg, tomo 2: 94) pequeno pequenez […] & também se ha de saber que a grandeza, ou pequenhez fazem diffuzão, & aggregação de virtude […] (pl: 25) densidade denso densidade Dis que os medicamentos que se julgão pella raridade, & densidade de substancia […] (pl: 11) espesso espessura […] rejeitando-se a que for impura, de côr parda, e da espessura de cêra […] (pg, tomo2: 54) tenaz tenacidade Massa de consistencia e tenacidade variaveis […] (pp: 64) ténue tenuidade […] e preparallas para se seccarem, segundo a sua grossura, ou tenuidade […] (pg, tomo i: 17) textura/ consistência áspero aspereza Nelle deve entretanto haver uniforme mistura de ingredientes, e molleza untosa sem aspereza, e sem tenacidade […] (pg, tomo i: 198) duro dureza […] quando as substancias sublimadas tem huma notavel consistencía, densidade, e mesmo dureza […] (pg, tomo i: 137). gomoso gomozidade […] que tenhão muita carne, em a qual se ache húa gomozidade […] (pl: 43) lúbrico lubricidade Dis que da medicina húmida procedem, humidade, lubricidade, lenição, & conglutinaçào […] (pl: 12) meloso mellosidade […] depois de cozidas as espremem, & esta mellozidade poem em fogo brando athe ter consistencia de mel […] (pl: 91) mole molleza […] piza-se de novo, para que a massa adquira a devida molleza […] (pg, tomo i: 183) untuoso untuosidade Dis que a untuosidade he lubricativa, lambeficativa, relaxadora […] (pl: 16) idade caduco caducidade As pharmacopêas deixam medir na precoce caducidade que as espera, a rapidez das metamorphoses experimentadas […] (pp: x) maduro madureza Tornando ás plantas, he certo que cada huma dellas, e cada huma de suas partes tem sua madureza […] (pg, tomo i: 15) novo novidade […] apparecem tambem nomes que nem primam pela novidade ou beleza […] (pp: xxii) perpétuo perpetuidade […] o empenho de marcar com o sêlo da perpetuidade o projecto de pharmacopêa […] (1876: x) sabor doce doçura […] algum tanto amargas & muito aromaticas, mas tem algúa doçura […] (pl: 72) luminosidade/ visibilidade claro clareza Cumpria, pois, determinar com a maxima clareza e exactidão […] (pp: xxxvi) Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 93 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna 1876 encontram-se alguns que refletem já o progressivo avanço da terminologia farmacêutica, como, entre outros, solúvel, fusível, estável ou alterável. Globalmente, nos quase 200 anos que separam a publicação da Pharmacopea Lusitana da Pharmacopêa Portugueza parece assistir-se, de acordo com os dados recolhidos, a uma ampliação do número de nomes de propriedade/qualidade construídos com o sufixo -idad(e) e usados no discurso próprio da Farmácia. Em termos globais, verifica-se, uma propensão para o uso de adjetivos morfologicamente simples como base dos nomes de propriedade/qualidade usados nas farmacopeias em análise. Estes adjetivos são, semanticamente, classificáveis como «adjetivos qualificativos de propriedades de natureza material» (Veloso e Raposo, 2013: 1374), tal como se constata pela análise da tabela 7. Maioritariamente, estes adjetivos denotam propriedades/qualidades aferíveis pelos sentidos e, portanto, poderão incluir-se no amplo conjunto de adjetivos utilizáveis para se mencionarem as chamadas propriedades organoléticas dos materiais. Nesta tabela figuram também alguns adjetivos que, embora morfologicamente complexos (derivados em -os(o)), dão conta deste tipo de propriedades. Para além de nomes de propriedades/qualidades formados com base nestes subgrupos de adjetivos «qualificativos de propriedades de natureza material», encontram-se também no corpus constituído vários nomes, como os que abaixo se identificam, construídos a partir de adjetivos integráveis no conjunto dos que designam «interações físico-químicas e bioquímicas» (Veloso e Raposo, 2013:1375). (4) «[…] que nem todos os pós embebem a mesma porção de humidade […]» (pg, tomo i: 178) (5) «Se no Electuario entrão polpas, estas se espessaráõ, fazendo-se-lhes evaporar a humidade superflua […]» (pg, tomo i: 173) (6) «[…] he necessario que adquirão primeiramente hum gráo de seccura, que as faça capazes de se reduzir a pó» (pg, tomo i: 25) Neste conjunto de nomes que denotam «interações físico- -químicas e bioquímicas», destacam-se, pelo seu elevado número no corpus em análise, os nomes de propriedade construídos com base em adjetivos sufixados em -vel, como no exemplo (7). (7) «Nessa resenha avultam as propriedades physicas e organolepticas, — aspecto, fórma ou systema crystallino, côr, cheiro, sabor, densidade, solubilidade nos principaes vehiculos, fusibilidade, ponto de fervura, volatilidade, etc.» (pp: xxxv) Sublinha-se ainda que em alguns casos os nomes de propriedades/qualidades formados com base nos adjetivos de «propriedades de natureza material» podem não designar propriedades físicas, como acontece com o nome clareza, usado não com o sentido de “luminosidade”, mas de “simplicidade”. Na realidade, embora os nomes de propriedades/qualidades físicas sejam claramente dominantes, são rastreáveis alguns exemplos de nomes de leitura não material, como nos exemplos abaixo: (8) «[…] a difficuldade e incerteza desta operaçao […]» (pg, tomo i: 147) (9) «[…] a facilidade, e promptidao, com que ella huma vez feita muda de virtude […]» (pg, tomo i: 147) (10) «Cumpria, pois, determinar com a maxima clareza e exactidão os componentes de cada formula […]» (pp: xxxvi) Globalmente, os nomes de propriedade/qualidade usados nas três farmacopeias em análise ocorrem para dar conta das características dos medicamentos e das respetivas matérias-primas, assim como dos instrumentos necessários à sua preparação, como se exemplifica na tabela 8. Ao consultar-se o Dicionário da Língua Portugueza, de António Morais e Silva, publicado em 1813 (Silva, 1813), constata-se que diversos nomes de propriedade recolhidos para este estudo estão dicionarizados. Porém, e como se verifica pela análise dos dados da tabela 9, estas entradas do Dicionário dizem respeito a unidades lexicais de uso na língua geral. Quando integradas nas farmacopeias analisadas, e apesar de o grau de especialização do seu uso ser variável, constata-se que ocorrem numa aceção mais específica do que aquela que é fixada no Dicionário. Estamos, pois, perante uma situação de terminologização, na medida em que se assiste à «transposição de uma unidade lexical da língua geral para uma linguagem de especialidade» (Barbosa, 2007: 435). Salienta-se, ainda, que são diversas as entradas deste Dicionário em que se indica claramente que se trata de nomes de propriedades/qualidades, como nos exemplos seguintes: «DUREZA, s. f. Qualidade do corpo opposta a molleza, a resistencia que suas partes oppõem á separação, ou a serem amolgadas» (Silva, 1813, tomo 1: 644). «MOLLÈZA, s. f. A qualidade, que consiste em ser molle» (Silva, 1813, tomo 2: 312). «VISCOSIDÁDE, s. f. A qualidade de ser viscoso» (Silva, 1813, tomo 2: 858). É também de referir que muitos dos nomes sufixados em -idad(e) recolhidos nestas três farmacopeias ainda não estão dicionarizados. Assim acontece com alterabilidade, inocuidade, fusibilidade, lubricidade, melosidade, raridade, solubilidade, entre outros. No caso de fusibilidade, ainda que o nome não se encontre dicionarizado, já ocorre o adjetivo fusível («Que perde a coherencia solida, e se derrete» (Silva, 1813, tomo 2: 71)). Curiosamente, regista-se já uma entrada (volatilidade), na qual é claramente indicada a relação com o domínio da Química. «Volatilidade: s.f.: a qualidade de ser volátil, e não fixo. Chym: a volatilidade deste sal, do espírito […]» (Silva, 1813, tomo 2: 863). Em algumas circunstâncias, percebe-se a coexistência, neste período, de nomes que, partilhando a mesma base, são construídos com sufixos diferentes, tendo tratamentos diversos tanto no corpus em análise quanto no Dicionário de Morais e Silva. Panace@ | vol. XXI, n.º 52. Segundo semestre, 2020 94 <http://tremedica.org/panacea.html> Tribuna Tal sucede, por exemplo, nos pares clareza e claridade (ambos os elementos estão registados neste Dicionário, mas só clareza integra o corpus em estudo) e em raridade e rareza (só raridade ocorre no corpus, apesar de, no Dicionário, encontrarmos apenas registo de rareza). Em termos de percurso diacrónico, verifica-se que o texto de 1794 é aquele em que se regista maior diversidade de nomes de propriedade/qualidade, com um total de 55 nomes diferentes (cf. gráfico 1). A esta constatação não será alheio o facto de esta farmacopeia estar organizada em dois tomos, tendo por isso, uma extensão textual superior às das duas outras em análise. Nos três textos em estudo, os nomes em -idad(e) são os mais frequentes. Sublinha-se, ainda, que o único sufixo para o qual é possível rastrear uma clara tendência ascendente, em termos de diversidade de nomes registados, é precisamente o sufixo -idad(e): 19 nomes diferentes em 1704, 27 em 1794 e 35 em 1876. Na realidade, este sufixo, selecionando da estrutura semântica das bases os traços de significado associados às características objetivas dos respetivos referentes, intervém na construção de nomes de qualidade que ocorrem preferencialmente em registos de especialidade (Correia, 2004), o que poderá assumir-se como uma razão para a sua presença progressivamente mais evidente nas várias farmacopeias. A análise transversal dos três textos que estiveram na base deste estudo permite verificar que estamos perante farmacopeias nas quais os nomes de propriedade/qualidade denominam, quase exclusivamente, propriedades sensorialmente percetíveis (ex.: brancura, altura, limpeza, redondeza, grandeza, aspereza, sujidade, viscosidade) e enquadráveis no conjunto das propriedades físicas da matéria (fusibilidade, solubilidade, Tabela 8. Entidades a que se referem as propriedades codificadas pelos nomes de propriedade/qualidade em estudo Entidades a que se referem as propriedades designadas pelos nomes Contextos de ocorrência matérias-primas/componentes dos preparados […] são necessários pós reduzidos á maior tenuidade, e delgadeza possível (pg, tomo i: 186) Cubebas: Da fórma e grandeza da pimenta ou um pouco maiores (pp: 142) […] deve sempre ser colhida no seu estado de perfeita madureza (pg, tomo i: 16) Nos artigos de substâncias inorgânicas […] ha, pois, indicação da especie, descripção do corpo e observações concernentes á sua pureza e inalterabilidade (pp: xxxiv) […] mas tambem á tenuidade, ou espessura maior do liquido, em que se hão de misturar […] (pg, tomo i: 175) […] he o que tem tres propriedades boas, que são o ser branco de verdadeira brancura por fora […] (pl: 52) […] que sejáo pezados, & densos, & que tenhão muita carne, em a qual se ache húa gomozidade, & que sejáo grossos […] (pl: 43) […] de todas estas castas de Ruibarbo he melhor o que tem a cor de fora negra declinãte à vermelha, & que he pezado por cauza de sua raridade […] (pl: 44) instrumentos Dentro do liquido se introduz hum rodízio semelhante aos de bater chocolate, correspondente á grandeza do vaso […] (pg, tomo i: 89) Garrafas de differentes grandezas, e qualidades. (pg, tomo i: 5) […] ou em banho de Maria por alambique de vidro de altura proporcionada á volatilidade de semelhantes substancias […] (pg, tomo i: 127) Limas de diversa grossura […] (pg, tomo i: 5) preparados/medicamentos […] para que se forme a Velinha, ou Bugia de diverso tamanho, e grossura, mas em toda a extensao bem liza (pg, tomo i: 211) Aquelles [electuarios] porém, que somente tem adquirido pelo tempo hum, maior gráo de seccura, se podem reduzir, á devida consistencia […] pg, tomo 1: 177). Não havendo hum determinado gráo de consistencia, além do que he já dito entre a consistencia de xarope, e a de electuario, bem se vê, que a espessura maior se emenda com a addição de alguma agua […] (pg, tomo i: 159) As Pilulas formadas com ella em poucos dias adquirem huma dureza de pedra. (pg, tomo i: 181) Quando se mandão fazer as Pílulas de grandeza ordinaria […] (pg, tomo i: 184) Nelle deve entretanto haver uniforme mistura de ingredientes, e molleza untosa sem aspereza, e sem tenacidade. A esta forma de medicamento se dá o nome de Unguento. (pg, tomo i: 198) […] para que esteja sempre a massa na molleza, que se precisa, para ellas se formarem. (pg, tomo i: 183) […] pois que as Pilulas formadas com ella em poucos dias adquirem huma dureza de pedra (pg, tomo i: 181). […] o Acido cyanhydrico normal, cuja importancia e instabilidade requerem cautelosa preparação e desvelada conservação […] (pp: xvi) Massa de consistencia e tenacidade variaveis, de côr amarellada ou escuro-avermelhada […] (pp: 64) E porque muito importante é a absoluta uniformidade das preparações […] (pp: xxxvii)